2011 não é só coisas más. De uma criativa cumplicidade entre Bibi Pereira (lá do alto a olhar-nos com a obstinação de sempre), Nuno Moura, Pedro Serpa e Zé Luís Costa, surgiu a Mia Soave, editora com nome de baptismo pedido de empréstimo a Ângelo de Lima, o poeta de Rilhafoles. É a segunda aventura de Nuno Moura nos terrenos da edição. A primeira foi com a Mariposa Azual, entretanto renascida das cinzas por outras caras-metade. A Mia Soave inova e aposta com segurança na diferença. É isso que esperamos da poesia. Ao livro junta um “bónus editorial”, ou seja, um CD. Não se trata de audiolivro, trata-se de dois objectos distintos unidos pela aventura da palavra. O poeta escolhido para a estreia foi Alberto Pimenta, nome mais que sublinhado das letras portuguesas. Basta passar os olhos pela Obra Quase Completa (Fenda, Maio de 1990) ou pelo famigerado e sempre pertinente Discurso Sobre o Filho-da-Puta (idem, Abril de 1991) para lhe perceber a relevância − não só nos domínios da poesia dita experimental, como também, e sobretudo, no domínio da poesia-ponto-final. Degrau (Cuidado), isto é, Ana Deus, Alexandre Soares, Pedro Augusto e João Alves, reinventam poemas de outras instâncias, tais como Civilidade, a Canção de Camila ou Coca-Cola Song. Um dos melhores momentos de “spoken word” gravados em Portugal. Já o livro, parece recuperar e estender à exaustão um antigo e excelente poema de O Labirintodonte. Intitula-se teatro da guerra. Recordemo-lo: «no teatro / da guerra / cada dia / trabalha / nova companhia. / mas permanece / o encenador / e a peça / é sempre / do mesmo autor. / o actor / esse fenece / esse fenece / com a cena / com a cena / e desaparece. / é um teatro / realista / que a toda a hora / muda de artista. // mas de hora a hora deus melhora». Mudam-se os tempos, persistem as guerras. Reality Show ou a alegoria das cavernas (Fevereiro de 2011) tem implícito no título as premissas de um olhar sobre o mundo, onde estética e ética se conjugam para que no poema vários planos possam conviver em inegável coerência. Os círculos da capa, quer na sua forma de alvo, quer enquanto alusão aos círculos formados pela pedra que cai sobre as águas, são uma óptima ilustração da expansão da realidade levada a cabo no e pelo poema. O reality show, neste caso, é a própria vida exercida no teatro da guerra, palco onde a performance do indivíduo se confunde com as ignaras batalhas travadas por um exército de iludidos. Este reality show não nos dá a observar o comportamento das bestas em cativeiro, mas permite construir uma alegoria sobre os destinos da humanidade. Talvez seja esse o papel do poeta, como em tempos terá sido o de Pieter Bruegel, o velho, ao pintar uma elucidativa parábola dos cegos. Também o poema performativo de Alberto Pimenta, nas suas três partes (I – Prólogo no céu, II – Acto na terra, III – Epílogo numa região intermédia) interligadas, representa satiricamente uma humanidade em queda. Versos curtos e ausência de pontuação intensificam a imagem central de pessoas caindo para dentro de um poço. Em era cibernética, esse poço pode assumir diversas interpretações. Pode ser, por exemplo, o poço onde agora a leitura chega ao leitor e a realidade se transforma numa alegoria de si mesma. Daí que ao longo do texto de Pimenta nos apercebamos da presença de elementos facilmente identificáveis na história recente, misturados com «histórias paralelas e cruzadas / trabalhos vários de criação» (p. 51) que repercutem a lógica caótica do mundo. Tal como no poema acima transcrito, estamos num «teatro / realista / que a toda a hora / muda de artista. // mas de hora a hora deus melhora». Entretanto melhorou a rede de esgotos, «o esgoto / sem o qual / difícil dar saída à humanidade» (p. 56), e a escatologia do mundo actual, nas suas velhas e rotineiras retumbâncias, terá de ponderar a possibilidade de uma esperança em endereço virtual. Estarmos aqui, neste preciso momento, é a prova desse refúgio com consequências para já imprevisíveis. Vários mundos paralelos num só mundo coexistem, uns não negam os outros, apenas permitem a quem neles viva a possibilidade de um trânsito outrora inexistente. Isto tem as suas vantagens e as suas desvantagens. Ao fim e ao cabo, como conclui o poeta, «sabemos o que se pode fazer / para salvar a humanidade / importante é só / que cada um não finja que é / aquilo que parece».
sábado, 2 de julho de 2011
REALITY SHOW
2011 não é só coisas más. De uma criativa cumplicidade entre Bibi Pereira (lá do alto a olhar-nos com a obstinação de sempre), Nuno Moura, Pedro Serpa e Zé Luís Costa, surgiu a Mia Soave, editora com nome de baptismo pedido de empréstimo a Ângelo de Lima, o poeta de Rilhafoles. É a segunda aventura de Nuno Moura nos terrenos da edição. A primeira foi com a Mariposa Azual, entretanto renascida das cinzas por outras caras-metade. A Mia Soave inova e aposta com segurança na diferença. É isso que esperamos da poesia. Ao livro junta um “bónus editorial”, ou seja, um CD. Não se trata de audiolivro, trata-se de dois objectos distintos unidos pela aventura da palavra. O poeta escolhido para a estreia foi Alberto Pimenta, nome mais que sublinhado das letras portuguesas. Basta passar os olhos pela Obra Quase Completa (Fenda, Maio de 1990) ou pelo famigerado e sempre pertinente Discurso Sobre o Filho-da-Puta (idem, Abril de 1991) para lhe perceber a relevância − não só nos domínios da poesia dita experimental, como também, e sobretudo, no domínio da poesia-ponto-final. Degrau (Cuidado), isto é, Ana Deus, Alexandre Soares, Pedro Augusto e João Alves, reinventam poemas de outras instâncias, tais como Civilidade, a Canção de Camila ou Coca-Cola Song. Um dos melhores momentos de “spoken word” gravados em Portugal. Já o livro, parece recuperar e estender à exaustão um antigo e excelente poema de O Labirintodonte. Intitula-se teatro da guerra. Recordemo-lo: «no teatro / da guerra / cada dia / trabalha / nova companhia. / mas permanece / o encenador / e a peça / é sempre / do mesmo autor. / o actor / esse fenece / esse fenece / com a cena / com a cena / e desaparece. / é um teatro / realista / que a toda a hora / muda de artista. // mas de hora a hora deus melhora». Mudam-se os tempos, persistem as guerras. Reality Show ou a alegoria das cavernas (Fevereiro de 2011) tem implícito no título as premissas de um olhar sobre o mundo, onde estética e ética se conjugam para que no poema vários planos possam conviver em inegável coerência. Os círculos da capa, quer na sua forma de alvo, quer enquanto alusão aos círculos formados pela pedra que cai sobre as águas, são uma óptima ilustração da expansão da realidade levada a cabo no e pelo poema. O reality show, neste caso, é a própria vida exercida no teatro da guerra, palco onde a performance do indivíduo se confunde com as ignaras batalhas travadas por um exército de iludidos. Este reality show não nos dá a observar o comportamento das bestas em cativeiro, mas permite construir uma alegoria sobre os destinos da humanidade. Talvez seja esse o papel do poeta, como em tempos terá sido o de Pieter Bruegel, o velho, ao pintar uma elucidativa parábola dos cegos. Também o poema performativo de Alberto Pimenta, nas suas três partes (I – Prólogo no céu, II – Acto na terra, III – Epílogo numa região intermédia) interligadas, representa satiricamente uma humanidade em queda. Versos curtos e ausência de pontuação intensificam a imagem central de pessoas caindo para dentro de um poço. Em era cibernética, esse poço pode assumir diversas interpretações. Pode ser, por exemplo, o poço onde agora a leitura chega ao leitor e a realidade se transforma numa alegoria de si mesma. Daí que ao longo do texto de Pimenta nos apercebamos da presença de elementos facilmente identificáveis na história recente, misturados com «histórias paralelas e cruzadas / trabalhos vários de criação» (p. 51) que repercutem a lógica caótica do mundo. Tal como no poema acima transcrito, estamos num «teatro / realista / que a toda a hora / muda de artista. // mas de hora a hora deus melhora». Entretanto melhorou a rede de esgotos, «o esgoto / sem o qual / difícil dar saída à humanidade» (p. 56), e a escatologia do mundo actual, nas suas velhas e rotineiras retumbâncias, terá de ponderar a possibilidade de uma esperança em endereço virtual. Estarmos aqui, neste preciso momento, é a prova desse refúgio com consequências para já imprevisíveis. Vários mundos paralelos num só mundo coexistem, uns não negam os outros, apenas permitem a quem neles viva a possibilidade de um trânsito outrora inexistente. Isto tem as suas vantagens e as suas desvantagens. Ao fim e ao cabo, como conclui o poeta, «sabemos o que se pode fazer / para salvar a humanidade / importante é só / que cada um não finja que é / aquilo que parece».
SENTIDO DA SUA AUSÊNCIA
sexta-feira, 1 de julho de 2011
CLASSE MÉDIA
Camarada Van Zeller, apesar dos meus 485€ de base, estou numa de classe média à la Saraiva. Esta opção acarreta uma clara intenção filantrópica. Quero ajudar a pagar a factura da crise. A minha postura, neste momento, é a do guerreiro samurai contra ventos e tempestades. Sangue, suor e lágrimas, caro Van Zeller. É isso que sinto nos meus concidadãos, e é esse sentimento que pretendo trazer ao meu coração. Se for para pagar a factura da crise, até um patrão gordo e ignóbil eu aguento. Que remédio! Aceite-me ele a mim, explorado ou não. O que importa é ajudar o país, pois mais importante que a felicidade dos indivíduos é a alegria da nação. Não só deixarei de viajar em executiva como deixarei de viajar "tout court", que é uma forma de viajar muito mais económica e igualmente espiritual. Tal como o bom mestre Saraiva, também eu julgo que os patrões de hoje «são quase sempre pessoas que subiram a pulso, que trabalharam no duro, que tiveram a coragem de arriscar e investir, que criam emprego, que sofrem quando se aproxima o dia de pagar aos trabalhadores e aos fornecedores». Não sei se o Rui Pedro Soares, o Jorge Coelho, o Armando Vara, o Valentim Loureiro, a Fátima Felgueiras, o Dias Loureiro, o Ângelo Correia, o Santana, o Pereira Coelho, o próprio Saraiva, o Abel Pinheiro, o sucateiro, o Diogo Vaz Guedes, o Ferreira do Amaral, o Pina Moura, o Júdice das advocacias, o Teixeira Pinto, o Oliveira do BPN, enfim, todo esse rol de goodfellas, são patrões ou não, mas encaixam no perfil como o parafuso na porca. É tudo gente que cria riqueza, diria mesmo gente que gera a riqueza que serve para pagar aos inúteis energúmenos dos juízes, polícias e militares. De resto, estou convencido de que um governo só poderá ser levado a sério quando começar a pensar a sério na privatização da justiça. Entregue-se a justiça a quem gera riqueza, ilibem-se os bons criminosos, os bons vigaristas, os bons aldrabões em prol da saúde económica da nação. Por mim, estou preparado para aguentar todos os esforços. Se for preciso, torturem-me. O que eu quero, o que eu desejo, aquilo porque anseio é apenas uma só coisa: a estabilidade dos mercados, a pacificação da especulação financeira, a boa saúde da economia. Que se esfolem, torturem, matem, que se escravizem, que trabalhe até ao último pingo de suor essa canalha, esse gado a que alguns, por clara ingenuidade, insistem em classificar de povo. Essa gente mais não é do que o vírus da nação enquanto a frugalidade não os tornar na aspirina dos mercados. Já eu, no meu palanque de classe média, estou disposto a não desperdiçar nem mais uma espinha quando for comer a restaurantes, ainda que já muito raramente o faça. O bom Saraiva diz tudo quando revela a tragédia dos números: «numa empresa como o SOL, por cada empregado que leva para casa 1.390 euros, a empresa tem de desembolsar 2.300». A pergunta é simples: sendo assim, como sobrevive o Sol? Eis a resposta: tem ao volante um Saraiva que ao beber café não desperdiça o açúcar branco, o açúcar escuro, o adoçante e o pau de canela. Mistura tudo numa perfeita simbiose de cafeína, emborca a mistela e arrota para o ar a prosa da semana. Só gostávamos de saber onde vai o bom homem beber café? E não necessariamente para aí desperdiçarmos parte dos nossos 485€ de base, mas para sacar do lixo, mais que não fosse, o pauzito de canela. Mas eu vou mais longe, não me limito a substituir a água Vittel pela do Luso. Recorro directamente a boa água del Cano. Entre Heineken e Sagres, há sempre uma Cergal a sorrir para mim. Quanto a vinhos, o Chandon do Cartaxo é a mais justa das opções. Em nome da crise e das suas facturas. Tabaquinho, só de enrolar. Ou barba de milho. Fatos não visto, mas já substituí toda a indumentária. Limito-me à farda fornecida pelo bom patrão. Aos domingos, lá ponho uma camisita comprada nos ciganos e a boa ganga do mercado de Santana. Tenho um par de sapatos para o ano inteiro. Compro-os sempre no Inverno. Chegados ao verão, têm buracos. Mas não importa, faz de conta que é ar condicionado. Os pés respiram melhor. Há muito que optei por férias cá dentro. Tão dentro, tão dentro, tão dentro, que raramente saio de casa. Os aeroportos são, sem dúvida, um risco desnecessário e um incómodo evitável. Sobretudo para quem lhes pode sentir o cheiro. Nunca tive, nem sei o que é, um Mercedes E, um Mercedes C, Audi 6 ou um Audi 4, mas desde 1999 que tenho o mesmo e bom velho Ibiza. Não me incomodam os seus soluços nem a falta de ar condicionado. É para isso que servem os vidros e, em nome da crise, não há cá calores que justifiquem luxos. Aos hotéis, prefiro a tenda de campismo. Enfim, sigo, na linha do bom Saraiva, os meus próprios princípios de frugalidade. Diga-se também que só uma vez na vida comprei o Sol. Seria um desperdício inconcebível gastar dinheiro com as merdas que o Saraiva escreve.
terça-feira, 28 de junho de 2011
A ARTE DE CAMINHAR
ERVAS SOBRE A PLANÍCIE ANTIGA

Uma Canção de Despedida
Aqui e ali, surgem ervas na planície,
Em cada ano morrem e renascem.
Fogos selvagens queimam-nas, não as matam
Com o vento primaveril ei-las outra vez!
A fragrância longínqua perfuma a via antiga:
Um feixe de esmeraldas nas velhas ruínas.
É tempo outra vez de dizermos adeus
E do senhor que parte se despedem elas.
Bai Juyi (772-846), in Uma Antologia de Poesia Chinesa, por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 2.ª edição, Setembro de 2010, p. 219.
Bai Juyi wrote over 2,800 poems, which he had copied and distributed to ensure their survival. They are notable for their relative accessibility: it is said that he would rewrite any part of a poem if one of his servants was unable to understand it.
sábado, 25 de junho de 2011
AINDA TRUE GRIT

Os diálogos não são o elemento mais forte em True Grit. O filme agarra-se à determinação da jovem que pretende vingar a morte do pai. Por vezes, a personagem parece-nos inverosímil. É essa a intenção, levar-nos a acreditar no inacreditável. Uma jovem a pensar com a inteligência, perspicácia e determinação tão raras vezes reconhecível nas pessoas adultas. São características da natureza humana, independentes da idade. No fundo, a idade só lhes confere as barbas do tempo. Um instinto inabalável na negociação, uma assertividade imperturbável na acção. Tudo o que nos falta. O problema da justiça que a história complexifica, acompanhado de uma morte omnipresente, ganha nesta força de viver o elemento necessário para o equilíbrio de forças. Esta jovem rapariga a tentar sobreviver entre “cowboys” é, assim, uma personificação muito inteligente da fase embrionária da justiça no antigo Oeste, o que faz deste western uma metáfora excelente dos duros terrenos onde a lei emerge.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
CAROLINE DE GUNDERODE
A mão da namorada do vento
afaga a cara do ausente.
A alienada com sua «mala de pele de
..................pássaro»
foge de si mesma com uma navalha na memória.
A que foi devorada pelo espelho
entra num cofre de cinzas
e apazigua as bestas do esquecimento.
A Enrique Molina
Alejandra Pizarnik, in Otros Poemas (1959)
Versão de HMBF
quarta-feira, 22 de junho de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #21
A 2 de Março de 1900, nascia Kurt Weill em território germânico. As lições de piano começaram à entrada da adolescência, se bem que, naquele tempo, as idades mereciam medições menos rigorosas. O tamanho da adolescência era proporcional à maturidade retardada de inúmeras almas hoje vítimas de um infantilismo alongado à razão de baterias Duracell. Aos 13 anos, a primeira composição. Ao longo dos anos, por convicção ou necessidade, a música erudita foi dando lugar a sonoridades mais populares. O teatro berlinense era o palco ideal para algo que se vinha desenvolvendo nos últimos anos. Já na década de 1920, aproximações a grupos ligados a uma arte de pendor socialista levaram-no a travar conhecimento com a actriz e futura mulher Lotte Lenya. Música para teatro e canções foram o pão-nosso de cada dia no trabalho de Kurt Weill. O primeiro encontro com a obra de Bertolt Brecht deu-se em meados da década de 1920. Brecht estava então casado com a cantora de ópera Marianne Zoff, mas aproximava-se cada vez mais da actriz comunista Helen Weigel. O contacto entre Brecht e Weill nasceu, pois, num ambiente dramático que coincidiu com a ascensão do nazismo e a aproximação de ambos ao comunismo. A primeira colaboração foi Mahagonny, continuada na ópera Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny. Um ano antes, Bertolt Brecht tinha publicado o seu primeiro livro de poemas: Taschenpostille. O sucesso da colaboração levou-os a explorar o potencial das canções populares em operetas, emissões radiofónicas, peças de teatro. O título deste álbum explica o resto. Ute Lemper, actriz, cantora, bailarina, recrutada por Pina Bausch para Kurt Weill Revue, interpreta com excelência as composições do mestre. As gravações datam de 1988 e repercutem um ambiente que, apesar de algo datado na generalidade, não deixa de impressionar pela sugestão de ambientes tão irónicos e erosivos quão trágicos. Die Moritat Von Mackie Messer ou Alabama-Song são hoje património universal, graças ao génio de Weill, Brecht e das sucessivas reinterpretações que, como esta, souberam resgatar do entorpecimento a memória de um período inquietante na História da Humanidade.
A ESQUERDA PORTUGUESA
A esquerda portuguesa também tem os seus pategos. Mais que o bom senso, a saloiice nacional é de uma equidade ímpar. Enquanto puderam, esses pategos atiraram-se às canelas de Sócrates. Às vezes até pareciam matilha de cães de fila encomenda por Coelho & Companhia Lda. Agora que Sócrates foi à vida, precisavam de novo bode expiatório. Atiraram-se a Rui Tavares. Lembram-me os indigentes de Ladrões de Bicicletas, o filme de Vittorio De Sica. De tão pérfidos uns para os outros, lá iam vivendo miseravelmente sob a sobranceria dos seus negligenciados inimigos. A esquerda portuguesa é autofágica. Esperemos que não faleça de dispepsia.
ÁRBOL DE DIANA
TRUE GRIT (2010)

Apesar de praticamente toda a acção decorrer em território índio, o único indígena que se vê está prestes a ser enforcado. Quando se prepara para pronunciar as últimas palavras, enfiam-lhe o capuz na cabeça e calam-no para sempre. Há um outro, mas não conta, vê-se demasiado ao longe e limita-se a carregar um cadáver para fazer negócio. Na sequência desta cena, ainda pensei que o médico agasalhado com uma pele de urso, dando ares de curandeiro, fosse índio. Mas não. Surge no meio de um bosque, sob uma ligeira queda de neve, arrastando atrás de si o tal morto do qual aproveitou os dentes mas ainda pode comerciar em troco de uns cobres. É uma cena típica do humor negro que caracteriza a cinematografia dos irmãos Coen, tal como este pormenor de um território habitado por fantasmas cuja presença se afirma, sobretudo, pela sua ausência. Fantasmas são sugestões, sombras de almas desconfiadas, desapiedadas, em ruptura com o chão que o corpo que os carrega pisa. E estes corpos carregam alguns fantasmas. A vingança enquanto móbil para a acção é apenas um pretexto. Mais importante é o ménage à trois desenvolvido ao longo da narrativa. São três perspectivas diferentes da justiça, eventualmente conciliáveis, com um mesmo fim para diversos meios. Da ingenuidade e determinação da jovem que quer vingar o assassinato do pai à dureza e implacabilidade do marshall bêbado contratado para o efeito, passando pelo incipiente sentido de direito formal do ranger que os acompanha, há toda uma complexidade ética e moral que nos leva a pensar sobre os caminhos mais eficazes para a consecução da justiça. São tortuosos os caminhos que a ela levam, por vezes obrigam a amputações inesperadas e geram amiúde desencontros sem remédio.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
domingo, 19 de junho de 2011
ALEKSANDRA (2007)

Conheci mal os meus avós. O meu avô materno morreu com um cancro na cabeça ainda eu não era nascido, o paterno foi-se tinha eu meia dúzia de primaveras mal contadas. Lembro-me da mãe da minha mãe, que amuava facilmente, tinha mau feitio e durante muitos anos usou carrapito. A mãe do meu pai foi viver connosco após a morte do meu avô, intercalando estadias com uma tia minha com quem falo raríssimas vezes. Andou para cá e para lá até a arrumarem definitivamente num lar, já muito debilitada da vista, por culpa das cataratas, e pouco lúcida. Nunca mantive fortes laços afectivos com as avós. De resto, a distância que sempre se intrometeu entre mim e a família é algo que não consigo explicar, mas talvez se compreenda se tivermos em conta uma velha e frustrada necessidade de me libertar da protecção com que me capturaram. Sou o mais novo de três irmãos, o menino. Curiosamente, este proteccionismo familiar ganhou na minha consciência a forma de um campo de batalha. Ao contrário do que muitas vezes ouço por aí apregoado, julgo que o nosso primeiro inimigo é, precisamente, esse refúgio a que chamam família. Penso nisto enquanto revejo Aleksandra, um filme de Sokurov que podia intitular-se “Avó e Neto”. Aleksandra é a avó que se desloca ao acampamento militar onde o neto, um oficial do exército russo, está destacado com funções de combate no centro da Chechénia. O cenário militar, subitamente atravessado pela luminosidade de uma mulher idosa, para com quem todos os cuidados parecem poucos, permite vislumbrar resquícios de esperança num palco de ruínas e pó. Aleksandr Sokurov não resiste a passar pelo conflito, mostrando-nos a hostilidade dos jovens chechenos para com os militares russos, uma hostilidade ausente nas relações que a velha Aleksandra mantém com quem está à sua volta. “A primeira coisa que se deve pedir a Deus é inteligência”, diz ela a um jovem checheno. E é essa inteligência que o andar lento e cansado da velha Aleksandra arrasta pela neblina, embalada por uma brisa incapaz de disfarçar o ar sufocante da época. Este sufoco exterior tomou conta do neto sob uma forma mais íntima. E ainda que pareça desaparecer quando este abraça a avó ou lhe entrança o cabelo, a verdade é que está lá, habita nas profundezas de um ser perfilado para as formalidades militares mas mal resolvido para com a hierarquia familiar. No vocabulário de Aleksandra a palavra liberdade não tem o mesmo peso que a palavra inteligência, talvez porque a primeira não seja materialmente possível sem a prática da segunda. Uma prática eventualmente conquistada com a sabedoria da idade, mas longe de afastar a solidão ao mesmo tempo destruída e restaurada pela família.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
GOVERNO
Tenho muita coisa na ponta da língua, mas o cansaço, para já, trava-me a garganta. Estou de rastos. Aguento-me apenas para salvar a honra. A Lourdes confessou-me que andou para aí, mais propriamente numa mesa do Nicola, a manchar a minha reputação espalhando a calúnia de que eu tinha votado PS nas últimas eleições. Não é tão grave como julgarem-me do Benfica, mas fica perto. Quero repor a verdade quanto antes. Nos tempos que correm, assegurar a impecabilidade do nosso bom nome na praça pública é a única garantia de prestígio que nos resta. Eu não só não votei PS, como me sinto profundamente ofendido ao verificar a existência de almas neste mundo capazes de me reputar tão grave delito. Dito isto, ver a Cristas gerir o grosso da torneira de Bruxelas vai ser uma animação. Se o Telmo fez um excelente trabalho neste Portucale, esperem só para ver a Cristas. O Portas sabe-a toda, espertalhão. Quanto ao Crato, vai ser uma maravilha assistir até onde a teoria suporta a prática. Uma boa oportunidade para tirar a prova dos nove ao blá blá blá dos teóricos. O bigodes já disse que não vai dormir descansado. A ver vamos. E pronto, o resto é a tralha do costume.
terça-feira, 14 de junho de 2011
A NOITE
Pouco sei da noite
mas a noite parece saber de mim,
e para mais, conforta-me como se me desejasse,
cobre-me a consciência com as suas estrelas.
Talvez a noite seja a vida e o sol a morte.
Provavelmente a noite é nada
e nada as conjecturas sobre ela
e nada os seres que a vivem.
Talvez as palavras sejam tudo o que existe
no enorme vazio dos séculos
que nos arranham a alma com as suas recordações.
Mas a noite há-de conhecer a miséria
que bebe do nosso sangue e das nossas ideias.
Ela há-de atirar ódio às nossas observações
sabendo-as cheias de interesses, de desencontros.
Mas sucede que ouço a noite chorar nos meus ossos.
A sua lágrima imensa delira
e grita que algo partiu para sempre.
Um dia voltaremos a ser.
Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)
Versão de HMBF
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #20
Respigando o nome numa oração judaica, Richard Wolfson e Andy Saunders, a dupla por detrás dos Towering Inferno, conceberam Kaddish (1993) como uma peça em quatro actos. O tom espiritual do primeiro tema pode induzir em erro. Endre Szkárosi lê alguns salmos, a húngara Marta Sebestyén, provavelmente o nome mais familiar deste projecto, recita um poema e empresta a excelência da sua voz ao canto de alguns versos, sob os quais se ouve uma voz masculina afirmando pogrom e, por fim, cantando parte de uma oração funerária húngara. Ao segundo tema, a distorção das guitarras eléctricas desfazem a toada mística, ainda que lúgubre, do intróito. Afinal as orações são ecos de uma indústria de morte perpetuada no tempo, com índices elevados de estupefacção durante a Segunda Guerra Mundial. Mais que uma homenagem ao sofrimento e à resistência, ou uma reafirmação da memória contra o esquecimento, este disco é uma reverberação de fantasmas no corpo dos viventes. Os arranjos de cordas e as violentas composições para piano que vão introduzindo elementos próximos do rock industrial reproduzem um ambiente dramático sem paralelo, que eu conheça, na música dita popular. O ecletismo final é uma virtude inquestionável. Os momentos de acalmia, mais ou menos sinistros, que alternam com a pura alienação da generalidade das composições, conferem ao todo um dramatismo deveras revelador. Num só tema, a voz de Hitler pode aparecer “sampleada” ao lado da voz de um rabino. Estranha vizinhança para uma tão realista verdade.
domingo, 12 de junho de 2011
NOITE
Talvez esta noite não seja noite,
deve ser um sol horrendo, ou
o outro, ou qualquer coisa…
Que sei eu? Faltam palavras,
falta candura, falta poesia
quando o sangue chora e chora!
Podia ser tão feliz esta noite!
Se apenas me fosse possível tactear
as sombras, ouvir passos,
dizer «boas noites» a quem quer
que passeasse o seu cão,
olharia a lua, diria a sua
estranha lactescência, tropeçaria
nas pedras ao acaso, como se faz.
Mas há algo que rasga a pele,
uma fúria cega
que percorre as minhas veias.
Quero sair! Cérbero da alma:
Deixa, deixa-me atravessar o teu sorriso!
Podia ser tão feliz esta noite!
Porém ficam os sonhos adiados.
E tantos livros! E tantas luzes!
E meus poucos anos! Porque não?
A morte está longe. Não me vê.
Tanta vida Senhor!
Para quê tanta vida?
Alejandra Pizarnik, in La Ultima Inocência (1956)
Versão de HMBF
sábado, 11 de junho de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #19
Só de o pensar sinto um arrepio na espinha capaz de me provocar uma hérnia discal com graves consequências degenerativas. Por isso, evito pensá-lo. Mas a verdade é que passaram 15 anos sobre Dynamite, o mais assustador dos álbuns da sueca Kristina Marianne Nordenstam (aka Stina Nordenstam). Os jovens que tenham hoje a idade deste memorável conjunto de canções podem averiguar a excitação provocada pelo final do século XX. À época, já se falava de crise de valores, de choque civilizacional, de futuro pós-humano. As torres gémeas mantinham-se de pé, mas a ovelha Dolly acabara de nascer e os raelianos preparavam-se para lançar a empresa Clonaid. Em suma, o mesmo absurdo essencial, a mesma melancolia existencial, homens diferentes dentro das mesmíssimas estruturas de raciocínio. O caos, o colapso, o apocalipse é uma evidência prolongada no leito do tempo, a linguagem apenas se limita a introduzir novos termos numa mesma retórica. Dynamite reflectia/reflecte tudo isso, com a sua sonoridade sombria, amadurecida, sincrética. Dos primeiros álbuns, Stina manteve apenas a doçura da voz. Entregou-a, porém, a arranjos apoplécticos a milhas da ingenuidade e transparência dos álbuns Memories of a Color e And She Closed Her Eyes. Uma distorção abafada à altura dos tempos, assumindo para si os traumas do mundo e muito mais honesta na exposição das dores e dos tormentos pessoais. António Pires, no Blitz, entusiasmava-se e chamava-lhe «assustador e belo». «É um álbum que fica para o futuro». Aqui estamos nós, no futuro, a confirmá-lo.
CÉU
observando o céu
digo-me que é celeste desbotado (acalma
azul puro após um duche gelado)
as nuvens movem-se
penso no teu rosto e em ti e nas tuas mãos e
no ruído da tua pena e em ti
mas o teu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
esperava vê-lo colado a ela como um
pedaço de algodão enrolado dentro de fita adesiva
continuo a caminhar
um cocktail mental ladrilha a minha testa
não sei se pense em ti ou no céu
e se atirasse uma moeda ao ar? (cara tu coroa céu)
não! o teu ser não se arrisca e
eu desejo-te de-se-jo-te
céu pedaço de cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor
pensemos nos dois
os dois tu + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicolores bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe
sim amor estás longe como o mosquito
sim! esse que persegue uma mosquita junto
ao farol amarelosujo que vigia debaixo do
céu negrolimpo esta noite angustiante
..........................................cheia de dualismos
Alejandra Pizarnik, in Un Signo en tu Sombra
Versão de HMBF
sexta-feira, 10 de junho de 2011
FRUGALIDADE
Camarada Van Zeller, o grande homem falou. No dia da raça, o grande homem não se limitou a distribuir medalhas por pantufas estrábicas de português sofrível. Não, ele falou concentradíssimo:
Aqui, em Castelo Branco, poderemos buscar no exemplo dos portugueses do interior a inspiração de que precisamos para, uma vez mais, fazer das fraquezas forças e transformar as adversidades em oportunidades. A sua frugalidade e o seu espírito de sacrifício são modelos que devemos seguir num tempo em que a fibra e a determinação dos portugueses são postos à prova.
Por momentos, julguei-me a viver no Portugal só e orgulhoso do mestre. Não é caso para tanto, a frugalidade de espírito do grande homem, mais os 800€ por mês da sua senhora, independentemente da Quinta da Coelha e dos sócios, não podem demover-nos do verdadeiro sentido das palavras: sejam pobres, matem-se a trabalhar, curvem-se, que a gente vai ali pescar uns lagostins no prato e já volta. Ainda hei-de ouvi-los gabar a frugalidade dos chineses. Puta que os pariu mais a frugalidade. Pardon my French, camarada Van Zeller. Pardon my French.
Aqui, em Castelo Branco, poderemos buscar no exemplo dos portugueses do interior a inspiração de que precisamos para, uma vez mais, fazer das fraquezas forças e transformar as adversidades em oportunidades. A sua frugalidade e o seu espírito de sacrifício são modelos que devemos seguir num tempo em que a fibra e a determinação dos portugueses são postos à prova.
Por momentos, julguei-me a viver no Portugal só e orgulhoso do mestre. Não é caso para tanto, a frugalidade de espírito do grande homem, mais os 800€ por mês da sua senhora, independentemente da Quinta da Coelha e dos sócios, não podem demover-nos do verdadeiro sentido das palavras: sejam pobres, matem-se a trabalhar, curvem-se, que a gente vai ali pescar uns lagostins no prato e já volta. Ainda hei-de ouvi-los gabar a frugalidade dos chineses. Puta que os pariu mais a frugalidade. Pardon my French, camarada Van Zeller. Pardon my French.
EM PANTANILLO
1
Mil passos arrastam pacientemente as solas maduras em rochas diferentes.
Talvez uma gota gema desejando a antiga espessura em tardes mais livres que esta (gaguejante de impuro colorido, de sol inibido, de água acobreada, de cavalos com caldas etéreas, do pranto do cacto impotente…). A cascata reverdeja os pastos silenciosos que nutrem a negra penugem da terra vestida de brilho.
Sombras persistentes, imagens constantes que obrigam as retinas a carregá-las alegremente em frágeis blocos. Montanhas vibrantes de cercania solar, de chuva inaudita, de flores invisíveis possíveis de criar debaixo de tanto céu, tanto lume cromático, tanta conjectura de lugar.
2
Os meus dedos dactilografam do mesmo modo… (talvez contribuam com seus ruídos para aumentar os ruídos naturais de fundo).
As vozes elevam-se pretendendo matizar as aspirações de solidão a que os espaços obrigam. Cânticos pujantes de fragrância primaveril caem de surpresa no nevoeiro. Os lábios adensam as notas. Lábios fechados por rugas habilmente conseguidas. Lábios dobrados sobre dentes felizes. Lábios que riem debaixo da opressão tensa do manto ungido de vários tons (eu vermelho, tu azul, ele verde, ela cinzento…). Começa a lide cromática. Cada cor requer um espaço maior na tela. Claro que nenhuma quer sucumbir. Claro que nenhuma deseja dissolver-se anonimamente. E assim continua, assim caminha, assim se vê esfumar as folhitas a preto e branco deste calendário que transpira o suor de um calor intangível.
3
As montanhas permanecem impávidas. Dúvida tremenda: arranhar-se debaixo do manto carnal ou remover os caules difusos tentando encontrar o perfil da flor única à luz de um enlevo descolorido.
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
terça-feira, 7 de junho de 2011
HEREAFTER (2010)
O problema da imortalidade da alma não encerra o da possibilidade de existir uma qualquer forma de vida além da morte. O primeiro foi bem explanado por Platão no Fédon e decalcado pela socialite Lili Caneças no seu conhecido resumo da obra platónica: estar vivo é o contrário de estar morto. O segundo as pessoas tentam resolvê-lo recorrendo a bruxas, videntes, parapsicólogos, médiuns, programas da TVI. No fundo, ao pretenderem comunicar com os mortos as pessoas desejam saber-se imortais, ou seja, anseiam por uma qualquer prorrogação da existência sob formas improváveis. Quanto mais improvável melhor. Nestes assuntos, a lógica tem uma estrutura peculiar: até prova da improbabilidade, considere-se provável o improvável. Isto é: se não consegues provar a existência de vida além da morte, tens de provar que a vida além da morte não existe. O busílis da questão reside num erro de princípio. A haver vida além da morte, a morte não existe. Existe apenas vida. para os padrões ocidentais isto será sempre difícil de assumir, mais que não seja pela ilógica das premissas. Como pode a morte não existir para que exista apenas vida? Certo é que a todos cabe o inevitável kaput existencial. O corpinho deixa de se mexer, a carne apodrece, os ossos fazem-se pó, os rins, os pulmões, o coração recusam a próxima dança. As experiências de quase morte falam-nos de luz, de leveza, de uma certa forma de energia que, lá vem o Caneças da Academia, se liberta do corpo, essa terrível prisão, e vai desta para melhor. Atentem-se na expressão: desta para melhor. O além da morte é sempre melhor, o outro lado da vida é só leveza, paz, silêncio, calma. O inferno ou não existe ou ainda não foi sentido, experimentado, por ninguém em fase post mortem. Provavelmente as pessoas que tiveram essas experiências eram todas boazinhas, tinham-se em óptima conta, e por elas aguardava apenas a leveza do paraíso. Desde já confesso que o meu cepticismo não vai tão longe. A acreditar numa outra forma de vida que não esta, espero que seja pelo menos tão infernal. Os seres humanos merecem a guerra, seria indecoroso oferecer-lhes apenas a paz. Hereafter, de Clint Eastwood, aborda estas questões. Excelente título, dificilmente traduzível para a língua de Camões, mas com indícios de uma ambivalência nem sempre clara no cinema deste vidente. No filme, o dom de falar com os mortos transforma-se numa maldição. O médium no centro da acção, homem admirador de Charles Dickens, preferia não ter contactos com o after. A única coisa que ele deseja é um here normal, exequível, digamos assim, um here que lhe permitisse viver a vida por que está a passar mesmo sabendo que a outra há-de um dia chegar. A mensagem, a haver uma mensagem nestas coisas, será: para que queres saber se existe uma vida além desta? Não preferes saber o que é esta? A charlatanice ameaça o tema, mas não o consome, porque no centro da narrativa está o desejo de uma vida simples. Lembrei-me de The Elephant Man enquanto via Hereafter. Cada um dos protagonistas é uma aberração na demanda de um direito básico: uma vida normal. Repare-se como em Hereafter é esse o verdadeiro problema: um jovenzito perde o seu irmão gémeo enquanto ambos tentavam ajudar a mãe a libertar-se da toxicodependência, uma jornalista famosa vê o seu estatuto ameaçado na sequência de uma experiência traumática, o vidente deseja não ver. Todos eles querem uma vida simples. Todos eles tocados pela morte, buscam uma só coisa, a mais importante: uma vida simples. Esta, agora, aqui. A de depois logo se verá.
ANA GOMES
Ainda há pouco tudo se podia chamar a José Sócrates (nazi, Hitler, fascista, mentiroso, ladrão, etc., etc., etc….). Agora porque a Ana Gomes disse umas verdades, toda a gente se indigna. País de hipócritas. Merda para este país de hipócritas e falsos puritanos. Não há paciência.
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #18
O japonês Ryuichi Sakamoto é capaz do melhor e do pior. Em 1996 esteve no seu melhor. Para tal bastaram um piano, um violino e um violoncelista exímio: Jacques Morelenbaum. Basta ouvir o tema 1919 para o comprovar. Neste álbum, Sakamoto recupera algumas composições escritas para filmes como The Last Emperor ou Merry Christmas Mr. Lawrence. Os arranjos são simples, oferecem-nos uma música despojada de efeitos sonoros artificiais e concentrada na orgânica de três instrumentos base. Os elementos adicionados em dois ou três temas são excepções a confirmar a regra. Como é óbvio, em 15 temas o tom geral é algo volátil. Mas mesmo quando as composições ameaçam resvalar para pinturas trágicas ou épicas, mesmo quando percorrem dedáleos e sombrios recantos, provocando uma ansiedade tipicamente cinematográfica, a melancolia e a introspecção tomam conta dos ambientes. Alguns temas remetem para paisagens ruinosas, um só corpo caminhando para um insidioso porto de abrigo, uma jaula, uma condenação. A perspectiva não sublinha qualquer dimensão elegíaca no decorrer do percurso, limita-se a olhar desencantadamente sobre os silvados, as casas abandonadas, os insectos que se atravessam no caminho permitindo à vida marcar presença. E depois olha para trás buscando as pegadas que levaram o corpo ao ponto onde se encontra, para daí perceber a impossibilidade do regresso, a irreparabilidade dos sonhos perdidos, depostos, entregues à sua fatal condição onírica.
domingo, 5 de junho de 2011
APOCALYPSE NOW (1979)

Já nem precisamos de postular um génio maligno por detrás dos desígnios humanos, tão evidente se tornou, ao longo dos séculos, a ilógica que governa o mundo. Ali duas jovens adultas, podiam ser mães, agridem, esmurram, pontapeiam brutalmente uma outra jovem, mais nova, sem que ninguém a auxilie. Antes pelo contrário, outros jovens nas imediações do acontecimento limitaram-se a gravar a cena para depois a exibirem no pardieiro da comunicação. A justiça actuou e o bastonário dos advogados, indignado com uma suposta exemplaridade da justiça, falou de perseguição medieval. Como é óbvio, a jovem agredida não era filha do bastonário. Não muito distante de onde tudo isto se passou, uma casa foi selada porque lá dentro mais de uma dúzia de crianças ficavam ao cuidado de uma ama com métodos de aquietação orientais. Uma novidade neste tipo de técnicas, o uso das bofetadas, do medo, da coerção para manter calados meninos em idade de fazer muito barulho. Alguns pais confiavam na ama, a ponto de a julgarem uma espécie de avó ao cuidado de quem os petizes ficavam enquanto a vida obrigava a afazeres que, nas sociedades em que vivemos, se sobrepõem, em importância e urgência, à educação dos filhos. Na China um jovem vende um rim para poder comprar um iPod e um iPad. A mãe só deu pelo negócio ao ver a cicatriz no tronco do filho. Salvas as devidas proporções, o cenário é de guerra. Não é preciso surfar debaixo de bombardeamentos de napalm, nem trazer à selva as coelhinhas da Playboy. A nossa capacidade de ajuizar os dias está por horas, a nossa moral ficou enterrada num mar de sangue e de lama. Há muito fomos tomados pela insanidade, nada de novo para quem esteja minimamente atento. Bem vistas as coisas, o apocalipse é esta morte lenta e nós vamos rio acima ao encontro do tal génio maligno sem nos darmos conta da sua presença por todo o lado. O absurdo delimita o campo de acção onde tudo é hoje possível. Por mais cuidadosos que sejamos na colocação dos pés não nos livraremos de pisar, aqui e acolá, a mina da estupidez, fazendo coisas das quais só não nos arrependemos por orgulho, vergonha ou medo. A guerra leva isto ao limite, é claro. A guerra é uma situação limite, apaga, ou pelo menos obscurece, aquela linha indefinível, mas que todos intuem, entre o bem e o mal, a sanidade e a loucura. Loucos estamos todos, e não é de agora, por julgarmos viável a captura do génio maligno, como se essa missão pudesse resolver os nossos problemas. Os problemas começam em nós próprios, no desequilíbrio das emoções, na incompetência para gerir fobias, desejos, ambições, na rotina com que a vida nos armadilha a vontade, na fraqueza crítica e autocrítica do espírito. Por mais defeitos que tivesse, Sócrates, o original, estava cheio de razão quando apregoava o autoconhecimento. É tudo o que nos resta. Se não nos levar à sabedoria, leve-nos, pelo menos, a uma menor estupidez.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
VOTAR PSD

Bem sei que em Portugal a memória pouco importa. A generalidade das pessoas deixa-se levar pela onda, não chega sequer a ter esperança. A onda, neste momento, parece ser laranja. É semelhante à onda que, no passado, trouxe a terra os primeiros-ministros Cavaco, Durão e Santana. Cavaco, rei das auto-estradas, deixou um legado invejável: da destruição das pescas ao patrocínio de uma agricultura de tracção às quatro rodas foi um ver se te avias. Acabou tudo à pancada na ponte, polícias contra polícias no Terreiro do Paço, Paulo Portas sem mãos para as polémicas sucessivas trazidas à primeira página de O Independente. Fernando Nobre, que em Janeiro deste ano, repito, em Janeiro deste ano acusava Cavaco Silva de ter tido, enquanto primeiro-ministro, «um Ministério do Mar que destruiu grande parte da frota pesqueira portuguesa», é agora candidato pelo PSD a Presidente da Assembleia da República. Coisa nunca antes vista, isto não é apenas vergonhoso, isto é não ter vergonha na cara. Passos Coelho recupera tudo o que o cavaquismo teve de pior, nomeadamente a distribuição anunciada de tachos e... Eduardo Catroga, o ministro dos pentelhos. O PSD não é apenas o partido de uma mulher que adorava suspender a democracia por uns tempos para se ver livre de adversários políticos que ela não suporta, é o partido que durante muitos anos deu guarida a Isaltino Morais, é o partido que, em tempos, escolheu para secretário de Estado dos Assuntos Fiscais o maior ladrão português do séc. XX: José de Oliveira e Costa, o homem de todas as trafulhices no caso BPN. Teve bons colegas de trabalho: Dias Loureiro foi um deles. Este Dias Loureiro não é um homem qualquer, foi Ministro dos Assuntos Parlamentares e Ministro da Administração Interna, foi membro do Conselho de Estado. Está inocente até prova em contrário. Também inocente está o efémero Durão Barroso, ali fotografado ao lado de um criminoso que invadiu nações autónomas e independentes, coadjuvado pelos cúmplices europeus, na base de puras mentiras. As mentiras daqueles quatro homens mataram milhares de inocentes, provocando custos ao mundo que ainda estão por contabilizar. Mas isto são pormenores. Nada disto interessa a quem for votar nas próximas eleições. Santana Lopes é um caso paradigmático deste desinteresse, conseguiu vencer várias eleições não passando de um ardiloso incompetente. O resultado das suas contribuições para o bem nacional já várias vezes foi divulgado na imprensa nacional: aos 49 anos, uma pensão de 3178 euros como ex-presidente das câmaras da Figueira da Foz e de Lisboa. Mas Daniel Sanches, ex-ministro da Administração Interna de Santana Lopes, conseguiu melhor: reformou-se da Procuradoria-Geral da República com uma pensão mensal de 7316,45 euros. Num país miserável, a moral das elites banqueteia-se com discursos apelando à contenção e medidas de austeridade. Hipócritas. É isto o PSD. Passa pela cabeça de alguém que Passos Coelho tenha tomates para arrumar esta teia de interesses? Num partido ainda há não muito tempo multado pelo Tribunal Constitucional por financiamento ilícito?
segunda-feira, 30 de maio de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #17
Em 1995, um filme: Dead Man Walking, de Tim Robbins, com Susan Sarandon e Sean Penn. Revejo-o amiúde. A banda sonora juntava Nusrat Fateh Ali Khan, um dos consagrados da música de origem árabe, a Eddie Vedder, o carismático líder dos Pearl Jam, banda pedregosa com lugar de destaque nos anais do grunge, coisa que deve ter nascido para os lados de Seattle e tentava rejuvenescer a música de guitarras quando a pastilha vigorava. A voz de Nusrat Fateh Ali Khan, ali descoberta, deixou-me a modos que inebriado. Fui à procura e, mais tarde, descobri estes Rizwan-Muazzam Qawwali no catálogo impecável da Real World Records. Primeiro: Rizwan (Ali Khan) e Muazzam (Ali Khan) têm laços familiares a Nusrat Fateh, devidamente explicados em árvore cronológica reproduzida no libreto que acompanha o CD. Segundo: cantam Qawwali, um género de música sufi com raízes fortes em território paquistanês. É um género antigo, daqueles que se costuma dizer serem tradicionais, e foi amplamente difundido pelo tio Nusrat. As quatro interpretações de Sacrifice to Love, ao som de palmas, tablas e harmonium indiano, relevam o essencial desta forma de devoção: o canto, a voz, é o que mais nos aproxima do sagrado. O poeta Omar Khayyam, que aconselhava amor e ânforas de vinho, havia de apreciar esta embriaguez na garganta do destino. Se, por mais que o pretendam dissimular, tudo nos liga à cultura árabe, seja neste revelador êxtase vocal que definitivamente nos encontramos com o pó levantado pelo peso das pernas no decorrer da última caminhada. Um homem morto caminha, que o faça cantando como as miragens no deserto.
domingo, 29 de maio de 2011
BIUTIFUL
Toda a gente conhece o mistério das baleias mortas: dão à costa, em grande número, sem razão aparente. Há quem garanta tratar-se de uma inexplicável forma de suicídio colectivo. Talvez pretendam morrer em terra, fazer da terra o seu cemitério, como os elefantes regressados, no termo da vida, ao ponto onde todas as manadas se encontram. Da última vez que estive em Barcelona vi por lá alguns desses elefantes. Vendiam produtos contrafeitos em sacos-rede estrategicamente preparados para a fuga. Com os olhos agitados na paisagem ameaçadora, puxavam rapidamente os sacos às costas e desatavam a correr na direcção contrária à da polícia. Quando for para morrer, se houver tempo, regressarão ao cemitério onde nasceram. E o cemitério tanto pode ser o Senegal como a China, terreno fértil em mortos. Por vezes não há tempo para o regresso, arrasta-se o mistério da morte pela vida até que a hora chegue. Se fosses informado de que te restam dois a três meses, o que farias nesses dias de sobra? Provavelmente procurarias evitar os açaimes da existência, tratarias de arrumar a vida para que o corpo pudesse seguir em paz. Não há imagem mais cómica, dizia Lowry, do que a de alguém a fazer a barba a um morto. Não deve haver imagem mais trágica do que a de um morto a tentar arrumar a sua própria vida.
UM PREFÁCIO PARA ONTEM
Amadeu Baptista
Outros Domínios
(Clamor por Florbela Espanca)
Prémio Literário Florbela Espanca, 2007
2.ª edição
Temas Originais
2011
Prefácio: Um Prefácio Para Ontem
sexta-feira, 27 de maio de 2011
OBRA DE ARTE
O romance pode ser lido apenas como uma história que nos permite saltar páginas, se quisermos. Pode ser considerado uma espécie de sinfonia ou, sob outro ponto de vista, uma espécie de ópera − ou mesmo ópera de aventuras. É jazz, um poema, uma canção, uma tragédia, uma comédia, uma farsa, e por aí fora. É superficial, profundo, empolgante e chato à vontade de cada qual. É uma profecia, uma advertência política, um criptograma, um filme absurdo e uma frase escrita numa parede. Pode mesmo ser considerado uma espécie de máquina que também trabalha, acredite, como vim a verificar. No caso de achar que faço dele tudo menos um romance, melhor será dizer-lhe que não só pretende, ao fim e ao cabo, ser um romance, como um romance − seja embora eu próprio a dizê-lo − profundamente sério. Mas também exijo que seja obra de arte um tanto diferente daquela que o senhor suspeitaria que fosse, e também mais lograda, ainda que em função das suas próprias leis.
Quem é que ainda espera isto de um romance?
O SOM A CASA
quinta-feira, 26 de maio de 2011
LA COCA
quarta-feira, 25 de maio de 2011
NÃO POSSO
Bem vistas e ponderadas as coisas, eu próprio vivo acima das minhas possibilidades. Afinal, vivo em Portugal.
terça-feira, 24 de maio de 2011
E SE FOSSE ASSIM?
Assaltado por uma espécie de utopia surrealista, dei por mim a fazer contas imponderáveis. Li algures que, em 2010, a Sonae lucrou 192 milhões de euros. Não sei quanta gente emprega a Sonae, mas façamos as contas a 50000 indivíduos. Aqueles lucros divididos por 50000 perfazem a módica quantia de 3840€. Estes 3840€ davam jeitinho, não? Mas suponhamos que os podíamos distribuir pelos 12 meses anuais. Eram mais 320€ de salário por mês. Isto, para quem ganha o ordenado mínimo nacional, faz toda a diferença. 480 + 320 = 800. Nada mau. Mas a economia não é assim, o mundo não é assim e eu não sei fazer contas. Porque as empresas precisam de crescer, e para crescerem é preciso investir, e para investir é preciso lucro. Não se pode desperdiçar o lucro com quem trabalha. Isso é que era bom.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
ETC, ETC...
Há muitos portugueses que gostam de ouvir Paulo Portas criticar o Rendimento Social de Inserção. Babam-se de contentamento quando o intocável brada contra a injustiça que é uns terem que trabalhar para outros poderem viver em casa à custa do Estado. Para Paulo Portas, os desempregados são um cancro e os apoios sociais são o vício que provoca o cancro. Este discurso é muito apelativo, esta retórica rende, e não restam dúvidas de que o Dr. Portas é doutorado em capitalizar a demagogia. Aqueles que discordam do Dr. Portas deviam aplicar-se em explicar às pessoas, de um modo claro e evidente, a demagogia do Dr. Portas. Não o fazendo, permitem que essa mesma demagogia ganhe adeptos e alastre como uma praga inquisitória. Não sei se é verdade, se é mentira, mas notícias recentes referem que o RSI, com todos os seus vícios e eventuais virtudes, custou ao Estado 520 milhões de euros no ano passado. Ora, a mesmíssima alma que está tão preocupada e indignada com este valor não hesitou em pagar 832,9 milhões de euros (sem juros, porque com juros esse valor supera os mil milhões de euros) por dois submarinos comprados quando era Ministro da Defesa. Para o Dr. Portas os submarinos podem ser prioritários relativamente aos apoios às famílias carenciadas. Só isso explica o investimento final de 1,35 mil milhões de euros no Tridente e no Arpão. Mesmo tendo em conta os defeitos de um sistema permeável a falhas e à típica chico-espertice lusitana, que nunca será tão onerosa como a demagogia do Dr. Portas, prefiro o investimento no apoio às famílias carenciadas.
domingo, 22 de maio de 2011
UMA NOVA OPORTUNIDADE
Camarada Van Zeller, no próximo dia 5 irei votar. Isto não está para ficar em casa a fazer contas. Irei votar com o Rui Pedro Soares, o Soares Carneiro e o Armando Vara na memória. Levarei no bolso esquerdo o processo Face Oculta para não me esquecer de nada. Num outro bolso, conto levar o caso Freeport. E como me restam vários bolsos, levarei também as três centenas de despachos assinados numa madrugada pelo ex-ministro Telmo Correia, o Casino de Lisboa e os submarinos do doutor Protas. Nos meus bolsos, que são largos, cabem ainda Abel Pinheiro, o processo dos sobreiros, os 20 génios que ocupam 50 cargos na administração de 1000 empresas diferentes. Cabe o caso Portucale e a ex-ministra Celeste Cardona, cabem o caso Moderna e a super fotocopiadora do Paulo das feiras. Vou votar com o Duarte Lima, o Ferreira do Amaral, o Jorge Coelho, o Diogo Vaz Guedes, o Santana Lopes, o Dias Loureiro e o José de Oliveira e Costa na cabeça. Levo o BPN numa mão para não me esquecer de, com a outra, fazer o que me resta: botar a cruz em quem possa morder as canelas a estes ladrões de colarinho branco. É fácil: basta pensar nesta gente toda e no que têm andado a roubar passando incólumes, sobre tudo e sobre todos, como se nada tivessem feito, como se nada tivesse acontecido, como se nada fosse grave. Isto precisa de uma purga, rápida e geral. Camarada Van Zeller, dia 5 irei votar contra esta gentalha toda, formada, eventualmente, em universidades sérias, modernas e independentes que nada têm que ver com essa obra criminosa das Novas Oportunidades. Pum!
sábado, 21 de maio de 2011
PERFIL
Leio isto no Facebook: «Confirmasse o k sempre disse. Isto das novas oportunidades é uma palhaçada». No perfil, o visionário revela que estudou Engenharia Zootécnica na Universidade de Évora. Dêem-lhe uma nova oportunidade a língua portuguesa.
terça-feira, 17 de maio de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #16
Posso ser conservador e não ter cabeça para Nova Iorque, mas sei apreciar um bom vinho. O Conventual branco de 2010 cai perfeitamente com umas pernas de frango guisadas, acompanhadas de esparguete. Sobretudo se estiver bem fresco. Deixa-nos os dedos numa levitação que se torna difícil acertarmos na tecla certa enquanto escrevemos. No entanto, há sempre a possibilidade de voltarmos atrás, apagarmos, corrigirmos o erro, refazermos o texto. Uma possibilidade que a vida nem sempre permite. Escute-se com atenção None of the Above, o memorável registo de Peter Hammill, como prova da incompatibilidade que separa o homem das suas ambições. Hammill foi parte integrante dos históricos Van der Graaf Generator. Nasceu em Inglaterra no ano de 1948, cursou filosofia e artes, foi educado por jesuítas (ninguém pode gabar-se de um passado perfeito), cedo enveredou pela melhor das carreiras: a solo. O álbum de 2000 é memorável por várias razões. A primeira está directamente relacionada com as qualidades de um bom vinho, o apuro dos ingredientes, a casta onde amadureceram os componentes, a química dos elementos. 8 canções escritas nas estrias da tijoleira (não me perguntem, não sei o que pretendo afirmar com isto mas faz-me sentido). Somebody Bad Enough merecia um ensaio, é de audição obrigatória, pelo menos, 5 vezes ao dia durante 5 semanas seguidos. E estou a ser condescendente. Há nas composições deste disco um hálito que merece ser provado sem preconceitos nem qualquer tipo de predisposição. O segredo é deixarmo-nos embalar pela reverberação, pelos graves, pelos sopranos, pelos harmónicos. Cada tecla acompanha uma nota que as cordas vocais emitem já não apenas como uma pedra sobre o caminho, mas como o eco dessa pedra caindo no fundo de um abismo para onde foi atirada. O segredo, a existir, reside no reflexo, nos círculos formados na água após a queda do seixo. Há momentos que sugerem uma certa complexidade, uma estranheza. Como no tema In a Bottle, onde várias vozes se sobrepõem e desafiam a estrutura linear da maioria das canções: «Sangreal, the eau-d-vie». Essencialmente composto na base de sintetizadores, este disco é de um organicismo incomparável. Aquilo a que alguns chamam atmosfera fica reservado às palavras, aqui sintetizadas em dois versos: «life’s just got started when / you find you can’t begin again». E o resto é conversa para amantes de passerelle e novas tendências, em Nova Iorque, Paris ou no Burkina Faso.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
MAR INTERIOR
DESCRENÇA
Não creio em mim, não creio em ti,
Não creio no Bem, não creio no Mal,
Não creio na Vida, não creio na Morte,
Não creio em nada.
Encontro para tudo controvérsia.
Afundo-me na minha descrença.
E eu que nada invejo
Invejo os homens que sobem até Deus só pela Fé.
E desde o Sol ao próprio chão pregunto se tudo não é apenas ilusão.
E pregunto
..................Se não é ainda uma ilusão que em nada eu creia!
Mantive a grafia original. Lá fora troveja.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
UMA PROPOSTA MODESTA
segunda-feira, 9 de maio de 2011
O LEITOR
Ontem os olhos pararam n’O Leitor. O filme de Stephen Daldry, que também realizou As Horas e Billy Elliot, tem todos os ingredientes de um bom filme. De resto, nestes três filmes encontramos boas histórias, actores que garantem interpretações convincentes, argumentos cativantes, uma fotografia escrupulosa, ritmo adequado. No entanto, O Leitor sofre de uma inverosimilhança fatal. É tudo demasiado bonito para ser verdadeiro e é tudo demasiado verdadeiro para ser bonito. Nada de novo na história de um jovem que desperta para a vida através da relação com uma mulher mais velha. Que Hanna Schmitz lhe peça leituras em voz alta apenas confere uma dimensão poética ao encontro, mas o pormenor não pode deixar de ser interpretado como um subterfúgio narrativo algo inconsistente. É provável que Bernhard Schlink, professor de Filosofia do Direito e autor do livro que está na origem do filme, não tenha pretendido tanto sublinhar a relação entre Michael Berg e Hanna Schmitz como parece ter concentrado os seus esforços numa dimensão moral que acaba por escapar à película. O que temos ali, então, é um case study, um de milhares de exemplos possíveis sobre as fragilidades da Justiça. Mas quem um dia se recordar de O Leitor, não vai lembrar um estudante de Direito perseguido por conflitos morais ao descobrir que a sua primeira foda foi com uma ex-guarda do campo de concentração de Auschwitz que gostava que os meninos lhe lessem livros em voz alta. Vai lembrar um rapaz e uma mulher que se amaram para lá das contingências da vida, presentes um no outro por sinais de fumo e memórias privadas e inconfessáveis. O julgamento de Hanna Schmitz era escusado, fica a pesar sobre o amor como uma tragédia já vista. A sua condenação começa no seu analfabetismo. E a maior das penas é esse isolamento que a separa de Michael Berg, um jovem que pode pedalar sobre a palavra como o poeta montado na sua bicicleta.
A MINHOCA
Quem venera a minhoca lavradora
que fende os torrões debaixo das ervas
em sua ocupação de transformar a terra?
A terra de quem se cobre enquanto trabalha
muda e cega de tanta terra.
Lá bem no fundo, onde os campos se vestem
para a colheita, ela é a mais humilde
lavradora. Quem venera o seu lavrar
de campesina cinzenta e paciente
nas profundezas da terra?
Harry Martinson, in 21 Poetas Suecos, trad. Casimiro de Brito, Vega, s/d, p. 94.
Harry Martinson tem todo um currículo que merece ser do conhecimento público. Perdeu o pai aos seis anos de idade e a mãe logo a seguir. Após a morte do marido, a senhora entregou os filhos a uma instituição pública e partiu para a América. Harry cresceu a aprender os mandamentos da sobrevivência: fugas, trabalhos vários, biscates, vagabundagem. Aos 16 anos fez-se homem do mar, e pelos oceanos andou até 1927, ano em que a tuberculose obrigou a que encalhasse novamente na Suécia. Dois anos depois casou com uma escritora 14 anos mais velha, publicou o primeiro livro de poemas e deu início a uma carreira literária que culminaria com o Nobel da Literatura em 1974. Os últimos anos fizeram dele um saco de boxe da juventude impaciente, a qual lhe exigia um comprometimento político que não era, nem deixava de ser, a sua principal preocupação. A depressão levou-o novamente às salas dos hospitais. O Nobel não foi remédio, pois adensou as críticas e Martinson tentou suicidar-se com uma tesoura. Eis um cheirinho de vidas literárias que já não há. Agora é tudo escritório, academia, festival e cama lavada.
domingo, 8 de maio de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #15
Tenho duas colecções de jazz feitas do princípio ao fim. Foram as únicas colecções que alguma vez terminei. Julgo mesmo ter sido a única coisa na vida que fiz do princípio ao fim. Em nenhuma delas aparece Ornette Coleman, saxofonista de excepção e figura controversa num mundo onde anormal é ser-se politicamente correcto. Nascido a 19 de Março de 1930, em Fort Worth, começou a tocar sob a influência de Red Connor e do inevitável Charlie Parker. Tinha 14 anos. Mudou-se do Texas, onde nasceu, para Los Angeles no início dos anos 50. A mania de improvisar numa banda que ganhava a vida a tocar melodias convencionais levou-o ao despedimento e a tentar a sorte noutras paragens. Alternou vários empregos com o estudo da música, lendo livros sobre harmonia e cruzando-se com músicos que acabariam por ser fundamentais na sua própria afirmação musical. O mais importante de todos terá sido o baixista Don Payne. Foi em casa deste que Red Mitchell ouviu Ornette Coleman e o levou até Lester Koenig, o produtor da Contemporary que acabou por juntar o quinteto deste Something Else!!! (1958). O trompetista Don Cherry, Walter Norris (piano) e Billy Higgins (bateria) são o trio que falta. Este quinteto marca a estreia de Ornette Coleman nas gravações em nome próprio. Quem aprecie jazz facilmente encarará o som registado neste disco, mas à época esta música gerou furor e discussão. As portas para o free começam a ser abertas com solos a distanciarem-se das linhas melódicas de base e improvisações despreocupadas face à melodia. As linhas de entrosamento estão lá, embora agora o desafio seja a marcação do tom e uma espécie de deriva delineada pelas paredes do labirinto. As influências são perfeitamente perceptíveis, quer quando os riffs evocam blues, quer quando os compassos remetem para ritmos latinos, mas o mais impressionante ao longo dos nove temas é mesmo a afirmação de um compositor e da sua singularidade: «I believe music is really a free thing, and any way you can enjoy it, you should». Tudo dito.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
O DIREITO À PREGUIÇA
Por mais curta que seja, esta história carece de um certo enquadramento biográfico. Paul Lafargue (1842-1911) nasceu em Santiago de Cuba no seio de uma família onde se misturavam judeus com mulatos e índios com franceses republicanos. Inicialmente simpatizante de Proudhon, inclinou-se para as teorias marxistas. De resto, inclinou-se de tal modo que veio a casar com Laura Marx. Suicidaram-se ambos após uma vida de luta dedicada ao activismo político, deixando nas notas finais loas ao comunismo e votos de glória. O ímpeto panfletário de Lafargue ficou nobremente registado no best-seller intitulado O Direito à Preguiça. Esta edição da Teorema, com tradução de António José Massano, é a décima primeira (Março de 2011). À partida, este panfleto datado de 1880 pode passar por uma divagação utopista inspirada no hedonismo clássico. Mas à partida as coisas são sempre muito diferentes do que se constata serem à chegada. Escrito numa época em que os movimentos de protesto contra a exploração da classe operária ganhavam força e começavam a assumir formas de combate bastante violentas, este texto tem como principal alvo «a moral capitalista» entendida como «lastimável paródia da moral cristã». Portanto, trata-se de um panfleto com um propósito muito prático e actual: abrir a pestana dos assalariados, novo género de escravos alimentado pela sociedade capitalista e os seus dogmas do trabalho. O L’Égalité foi o primeiro albergue desta sátira escrita ao jeito de um manifesto e com uma lógica argumentativa imbatível. Primeiro desmascara-se o dogma desastroso da sociedade capitalista, estabelecendo uma cisão entre o culto do ócio na antiguidade e a degenerescência da “vida feliz”, como a entendiam Séneca ou Epicuro, incutida pelo cristianismo e pelo seu ódio à natureza selvagem. A censura dos prazeres, ditada pela religião da produtividade, devota do deus Progresso, transforma o homem num ser doente e desapaixonado. Lafargue cita como exemplo de um povo saudável os índios das tribos guerreiras do Brasil, que matam os doentes e os velhos por entenderem não valer a pena continuar vivo sem poder retirar prazer da vida. Esta dimensão hedonista, de matriz cínica, subentende uma dúvida fundamental: de que vale viver sem liberdade, escravo do trabalho, nem réstia de esperança numa vida feliz? Entenda-se que neste contexto a vida feliz não estabelece qualquer dicotomia entre os prazeres do corpo e os prazeres do espírito, patacoada introduzida pelo idealismo platónico e propagada pelo cristianismo. Estamos no domínio de um materialismo puro. Sem o corpo satisfeito, não há prazer do espírito que nos valha. E para estar satisfeito o corpo necessita de descanso, ócio, preguiça. As 12 horas de trabalho fabril a que estavam obrigados os operários de então impossibilitavam esse estado de graça, usurpando à vida o seu sentido e fazendo dos homens meras peças de uma mecânica aniquiladora. Como tal, Paul Lafargue defende que ninguém deveria trabalhar mais que três horas por dia. E desbrava o caminho: «Estas misérias individuais e sociais, por grandes e inumeráveis que sejam, por eternas que pareçam, desvanecer-se-ão como as hienas e os chacais à aproximação do leão, quando o proletariado disser: «Quero!» Mas para que tome consciência da sua força o proletariado tem de calcar aos pés os preconceitos da moral cristã, económica e livre-pensadora; tem de regressar aos seus instintos naturais, de proclamar os Direitos da Preguiça, mil e mil vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem, cozinhados pelos advogados metafísicos da revolução burguesa; que se constranja a trabalhar apenas três horas por dia, a nada fazer e a andar em patuscadas o resto do dia e da noite» (p. 29). Mentes reaccionárias insurgir-se-ão contra tão nobres intentos questionando a sua exequibilidade. Afinal, como garantir o serviço da patuscada? Como garantir a produção do vinho a quem deseja deleitar-se bebendo-o? O problema reside na superprodução, na ganância desmesurada daqueles que ganham com o hipnotismo laboral a troco de uma capacidade de consumo que nos permite adquirir praticamente tudo privando-nos do mais precioso dos bens: tempo para usufruir daquilo que venhamos a adquirir. Com preocupações humanistas evidentes, estes argumentos mantêm na actualidade a pertinência indiscutível de um diagnóstico justo sobre as injustiças do mundo laboral. À luz dos conceitos hoje em vigor, poderão apenas valer como fonte de inspiração para uma luta pelo mais básico de todos os direitos: a preguiça, terrível pecado contra o qual temos vindo a assistir a uma recorrente e exacerbada condenação da vida. A única que temos, até prova em contrário.quarta-feira, 4 de maio de 2011
PARADEIRO
Espanto-me com a proliferação de teorias sobre o que terá acontecido a Osama bin Laden, um indivíduo que não deixará saudades e a quem só desejo um milhão de virgens horrorosas a sugarem-no até à última pinga de ânimo. Já se sabe que nestas alturas todas as teorias, conspirativas ou politiqueiras, vêm à superfície, mas não pode deixar de causar espanto a quantidade de gente tão bem informada e sabichona que pulula neste país. Pelo que sabem ou julgam saber, pelas certezas disfarçadas de dúvidas que levantam ou insinuam, devem ser todos agentes secretos da CIA, ter ligações à Mossad ou ex-KGBs com o bichinho atrás da orelha. Desconfio inclusive que o meu amigo Chuinga também faça parte do regimento. Ainda hoje me garantiu que “O Ben Laden ‘tá vivo e mora em Trás-os-Montes". Atire a primeira pedra quem nunca tiver pecado.
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