Durante anos, foram-me falando de um tempo de gente sentenciada. A filho de pobre que pretendesse escapar à rudeza do campo, restava uma de duas soluções: ou ia para padre ou seguia a carreira militar. Como não sou filho de militares, muito menos de padres, aprendi a reconhecer o mérito do sofrimento imposto pelo trabalho das terras. Os meus pais cavaram, mas não se ficaram de enxada na mão. Como muitos, soaram as estopinhas por um negócio que lhes exigiu a vida inteira. Hoje o discurso é outro, as soluções padre ou sargento afunilaram no sentido de uma mesma constatação: jovem que tenha vontade de singrar, não terá hipótese alguma. É impossível, tendo o comércio sido asfixiado pelos galifões das grandes superfícies e pelos tiranos da fiscalidade. Um dia iremos acordar para o Inferno, e veremos como esses galifões andam a explorar não só quem empregam mas também quem os abastece. Dando cabo da economia com a mais estúpida da complacência generalizada. Mesmo assim, esperam os nossos políticos, completamente alheados da realidade sufocantemente burocrática por eles arquitectada, vivendo num mundo de gabinetes que é só deles e de mais ninguém, esperam esses promotores do optimismo aquilo a que chamam iniciativas e empreendedorismo, esperam mais produtividade, como se a produtividade se resolvesse com uns minutos de serviço grátis e menores remunerações mensais. Os trabalhadores permitem ser tratados de colaboradores e é no que dá. Por aqui, todos os dias me cruzo com vários jovens empreendedores. Ele é o arrumador de carros, de jornal enrolado na mão, apontando para os buracos que lhe garantirão, com boa vontade, uma moedita para a jola. Mais acima, junto ao cemitério, uma puta que mal se consegue distinguir de um cadáver ambulante. Ataca perto da mansão universal, porventura buscando nos mortos o conforto que não encontra nos vivos. E ainda há pouco, enquanto fumava o cigarrito da praxe, lá chegou outro jovem empreendedor aos cinzeiros do Centro Comercial. Vazou as beatas e escolheu, meticulosamente, com uma sabedoria economicista invejável, as que lhe poderão ser úteis em investimentos insondáveis. Três exemplos de jovens empreendedores, num só dia e numa pequena cidade, aos quais se chega facilmente: andando a pé pelas ruas, observando, abrindo os olhos. Tivessem ido para padres, ela para freira, e ainda chegariam a capitães. Ou mordomos, na pior das hipóteses.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #54
A primeira metade da década de 1990 presenteou-nos com dois universos, não necessariamente paralelos, no que à música popular diz respeito. De um lado, as guitarras eléctricas e o revivalismo punk dos Nirvana & Cª. Era preciso encontrar um nome para aquilo, chamou-se-lhe grunge. Do outro lado, as programações electrónicas, os samplers, as colagens, numa desconstrução inteligente do hip-hop. Chamou-se-lhe trip-hop, género que tanto podia agradar a urbano depressivos, nascidos e criados sob as nuvens cinzentas dos Joy Division, como aos mais conservadores adeptos das rimas. O trip-hop era ao mesmo tempo melancólico e revolucionário, inovava no uso das caixas de ritmos e na forma de construir canções a partir de colagens elípticas e estilhaçadas. Entre os nomes mais consistentes associáveis à seita, encontramos o de Tricky. Após breve colaboração com os Massive Attack, apareceu a solo, e com estrondo, no ano de 1995. Maxinquaye, o álbum de estreia, ficou para a história como um dos melhores momentos da música popular no final do séc. XX. No entanto, a prolixidade desta complicada alma criativa brindou-nos, logo de seguida, com um álbum-projecto-isolado intitulado Nearly God, em muitos aspectos superior a qualquer um dos registos em nome individual do artista. O álbum está recheado de colaborações sonantes, de Terry Hall a Björk, de Neneh Cherry a Alison Moyet. Álbum de demos, assim ficou conhecido, com uma porta aberta para um estranho, sedutor e ambíguo mundo. Uma teia de sons sobrepostos, ora cadenciados por um baixo dengoso, ora dirigidos por ritmos demorados. O primeiro tema é uma versão quase irreconhecível de Tattoo, dos Siouxsie & the Banshees. O último antecipa Yoga, de Björk. Entre o primeiro e o último, há vários momentos que permitem ligar as duas margens como se houvesse ali uma intenção deliberada de criar pontes e transpor barreiras. Em certo sentido, outra coisa não tem feito o génio criativo de Tricky.
MIGUEL REAL SOBRE MICRONARRATIVA
Nos últimos anos do século passado e nos primeiros do nosso século, enquanto a prática do conto prosseguia gerando novos autores de qualidade (Mário de Carvalho, Luísa Costa Gomes, António Vieira, Maria Antonieta Preto...), o microconto (uma, duas, três páginas) e o nanocanto (três, quatro, cinco linhas, um parágrafo) irrompem de um modo brutal em Portugal, numa verdadeira explosão de autores, sobretudo de jovens autores, geograficamente dispersos, não possuindo ideologia estética comum.
Este movimento literário espontâneo encontra uma âncora estética comum (com exceções, sobretudo Adília Lopes) na dramaticidade expressiva do texto breve, na desvelação do sentido absurdo do mundo narrado através de um pequeno exemplo, uma espécie de pungência por que o autor, comovido, evidencia a adversidade geral da existência. Henrique Manuel Bento Fialho (Estória Domésticas, 2006; Estranhas Criaturas, 2009) é, talvez, o autor mais exemplificativo do estado atual desta vertente da microficção portuguesa.
Miguel Real, in Jornal de Letras, 30 de Maio de 2012.
terça-feira, 29 de maio de 2012
THE TREE OF LIFE
Quando informam Pocahontas sobre a morte do Captain Smith, ela fica inconsolável e tem aquele gesto poderoso de se cobrir com cinzas. O mesmo fazem os amigos de Job ao saberem do seu desespero, atiram cinza por cima das cabeças. Este tomo do Antigo Testamento é a chave para a compreensão do filme The Tree of Life (2011). Ninguém compreenderá com substancialidade o quinto filme de Terrence Malick sem ter lido o livro de Job. De resto, não é por acaso que aparece em epígrafe. Uma família honesta na américa dos anos 50 vê-se atingida pela maior das desgraças, a perda de um filho. O infortúnio instala a dúvida, golpeia a fé, atira cinzas por cima da dor. Lembramo-nos de Santo Agostinho, da sua dor confessada perante a perda de um amigo. Mas é Job quem ecoa no coração das personagens, é a sua incompreensão do sofrimento e a sua vontade de questionar Deus sobre a justiça das suas opções.
Este é, também por isso, o mais ambicioso e porventura enigmático dos filmes de Malick. Nele voltamos a encontrar a cidade de Deus em oposição ao mundo natural, a graça e a natureza enquanto caminhos opostos que o cinema procurar conciliar. Nesse sentido, The Tree of Life é um filme de fé na linguagem cinematográfica enquanto veículo de aproximação ao divino. Os diálogos são mínimos, várias falas em off revelando pensamentos, confissões, dúvidas, inquietações, conjecturas acerca das direcções que apontam para Deus. Mas é este quem fala quando se recria a criação do Universo, a partir de pressupostos científicos que têm tanto de cosmológico como de teológico. Porque Deus mostra-se através da Natureza ou, como em Job, através das montanhas por si deslocadas, da terra estremecida, das constelações, do mar profundo, da abóbada celeste.
O que nos leva a Deus é, pois, a questão essencial do filme, explorada a partir de exemplos clássicos aqui possíveis de reconstruir com o recurso a uma montagem rigorosa e imagens de uma beleza inclassificável. Apercebemo-nos com facilidade, ao revermos os filmes de Terrence Malick, do percurso necessário para chegar a este ponto. Reparemos nos inúmeros planos filmados de baixo para cima, como que em busca de uma luz proveniente das moradas do divino. Os troncos das árvores, e a luz que rasga as copas lá no alto, as quedas de água, um ritmo que acompanha meditativamente a longitude dos tempos, atravessando épocas e penetrando o coração da vida. No fundo, o flashback neste filme não é um mero recurso narrativo como noutros filmes. Ele é a própria essência da história aqui contada, é pura ciência, como a árvore evocada por Job quando questiona a triste condição humana:
Uma árvore tem sempre esperança;
mesmo que a cortem, brota de novo
e não pára de produzir rebentos.
A família pode ser o microcosmo a partir do qual se representa o conflito eterno entre a graça de Mrs. O’Brien (Jessica Chastain) e a natureza de Mr. O’Brien (Brad Pitt). Deus e a Natureza estão em conflito no interior de um dos filhos, o jovem Steve (Tye Sheridan). Mas este conflito não é de resolução fácil, não tem nada de simplista, desloca-nos para as forças que sustêm o mundo, lhe dão fundamento e fazem de nós, homens, ínfimas partículas efémeras, aglomerados de células, no centro da vastidão universal. O que torna tudo mais aceitável, compreensível e até lógico é a percepção de que o sagrado se manifesta, precisamente, onde ao longo dos tempos nos ensinaram estar o Inferno: na Natureza. As cenas finais são redentoras, poéticas, supõem um encontro improvável entre mortos e vivos, novos e velhos, como que numa confluência de universos paralelos, num mesmo espaço apaziguador, numa praia atravessada pela brisa ligeira da única mentira que ainda vale a pena alimentar, a mentira do amor.
PLANET CIRCUS
Foram precisos setenta e uns trocos de anos para que os alemães conseguissem, finalmente, tomar a Rússia nas mãos. A proeza deve-se à Chanceler que, ainda há dias, andava por Mykonos a dançar kuduro em trajes menores. Agora, a todo poderosa patroa da Europa foi a uma aula de Geografia apontar Berlim no centro da Rússia. Quando lhe disseram que Berlim era mais abaixo, o espanto perante a proximidade das terras de Lev Nikolayevich Tolstoy, que infelizmente ficará de fora no próximo europeu, não disfarçou o evidente: a Rússia é dos alemães, tal como Portugal é dos angolanos. A muitos quilómetros de distância, o nosso Presidente não quis comentar as inconsistências noticiosas. Preferiu explicar aos australianos que para fazer um bom vinho é preciso um bom caralho. Prevê-se um incremento significativo na louçaria das Caldas. Para que o absurdo seja total, só falta saber se Relvas se demitirá antes de Fidel Castro bater a bota.
sábado, 26 de maio de 2012
ESTE É O BOM GOVERNO DE PORTUGAL!
Luís Pedro Russo da Mota Soares chegou ao Governo de Vespa e logo se mudou para um Audi de 86 mil euros. Nuno Paulo de Sousa Arrobas Crato tinha todas as soluções para a educação antes de chegar ao ministério. Ao chegar, a amnésia varreu-lhe as ideias. Pretende reduzir a carga horária em vários anos e aumentar o número de alunos por turma. Por este andar, acaba como Ministro da Economia. Paulo José Ribeiro Moita de Macedo traz na lapela o distintivo de exímio gestor. Para não desfazer o mito, sugere o encerramento de uma das poucas instituições que funcionam bem neste país: a Maternidade Alfredo da Costa. Maria da Assunção de Oliveira Cristas Machado da Graça, a super-ministra, não se poupa em medidas ambientalistas: exige que no seu ministério ninguém use gravata porque há estudos que mostram que prescindir da gravata permite descer em 2ºC a temperatura do ar condicionado. Infelizmente, não sabemos de nenhum estudo que prove ser a “esperança que chova em breve” uma medida adequada no combate à seca prolongada. Álvaro dos Santos Pereira, o ministro romancista, quer ser tratado por simplesmente Álvaro e trata o desemprego por coiso. Roubaram-lhe o QREN, mas não faz disso assunto. Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas é amigo de seu amigo, sobretudo se seu amigo for ex-espião. Porque não gosta de ser espiolhado, embora não recuse uma boa espiadela, põe-se a ameaçar jornalistas. Já está mais fora do que dentro. Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz não brinca com medidas do género Estímulo 2012. Contrariando a tendência para empregar licenciados com propostas de remuneração a rondar os 500€ mensais, nomeou, a 19 de Janeiro do corrente ano, o licenciado Ricardo José Galo Negrão dos Santos, para realizar estudos pelos quais auferirá uma remuneração mensal de 3892€, acrescida de subsídios de férias e de Natal de igual montante, subsídio de refeição, bem como despesas de representação fixadas para os adjuntos dos gabinetes dos membros do Governo. Fim de citação. Miguel Bento Martins da Costa de Macedo e Silvado, o esbugalhado, foi catado a receber um subsídio de alojamento por ter que se deslocar para Lisboa com morada em Lisboa. A vida está cara, mas o ministro renunciou ao subsídio para dar o exemplo. As suas polícias é que não ficaram satisfeitas com a renúncia e desataram à bastonada em cima de jornalistas no pleno exercício da sua profissão. José Pedro Correia de Aguiar Branco tem-se esforçado para manter as Forças Armadas sossegaditas. Tanto trabalho que nem damos por ele. Paulo de Sacadura Cabral Portas tinha urticária ao poder, jamais seguiria uma carreira política, acabou como Ministro do Mar a comprar submarinos aos alemães e é agora Ministro dos Negócios Estrangeiros. Mantém activas todas as fotocopiadoras do seu gabinete, não vá o mafarrico tecê-las… Vítor Louçã Rabaça Gaspar anuncia medida de austeridade sobre medida de austeridade como se estivesse a ler aos portugueses A Crise Explicada às Crianças. No topo do bolo, qual cereja, Pedro Manuel Mamede Passos Coelho is a Portuguese politician que pede aos portugueses que não sejam piegas e aconselha-os a emigrar, porque o desemprego é uma oportunidade para mudar de vida. Este é o bom Governo de Portugal!
AMÉLIA PINTO PAIS (1943-2012)

Soube há dias, através do weblog picosderoseirabrava, que a nossa amiga Amélia Pais foi encontrada inanimada em casa, tendo dado entrada no hospital de Leiria. Comunica-me agora a Soledade, por e-mail, de mais uma perda irreparável. Conheci a professora Amélia pessoalmente, trocámos vários e-mails, era de uma simpatia e generosidade extremas. Pedia-me várias vezes para divulgar textos meus no seu weblog, o ao longe os barcos de flores. Dizia-se semeadora de versos. Assim era. Poderão ler neste post uma entrevista à autora e ficar a saber um pouco mais sobre quem estava por detrás da sementeira. Muitas das suas adaptações dos clássicos estão disponíveis nas livrarias, tornaram-se elas próprias clássicos da iniciação ao que de melhor tem a literatura portuguesa. Saudades. »»
sexta-feira, 25 de maio de 2012
quinta-feira, 24 de maio de 2012
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #53
Falemos de génio, a mais rara encarnação humana. Miles Davis deu-lhe rosto ao nascer no dia 26 de Maio de 1926. O jazz moderno confunde-se com o seu percurso. O be-bop dos anos 40, o cool jazz da Tuba Banda na passagem para os 50, o hard-bop dos 60 e Bitches Brew. Bitches Brew (1970) é todo um tratado sobre a arte de improvisar com um instrumento nas mãos, economizando evidências e destaques em prol de uma linguagem onde o múltiplo se torna Uno. Pura alquimia. Depois disto falou-se de free jazz (conceito que Miles Davis repugnava), de jazz de fusão, de cedências ao rock e à pop, falou-se de tudo. Os críticos falaram assim: «Miles tinha-se rodeado de um insólito formigueiro de sons, cruzamento entre o jazz, rhythm and blues e rock psicadélico, obtendo resultados de uma tensão altíssima que, após a surpresa inicial, convenceu os exigentes aficionados do jazz». Preferimos falar de uma dança aparentemente desorganizada, de movimentos caóticos, com os instrumentos a dispararem em todas as direcções. O tom inicial é algo enigmático, mas logo explode com uma energia onde não há lugar para perplexidades. Os solos emergem sob rumos diversos, conjugando-se sem predomínios numa atmosfera que nos transporta, na escuridão de uns olhos fechados, para remotas paisagens tribais. Talvez enraíze o exorcismo certo culto do voodoo, o mesmo que deu cor à anarquia psicadélica de Hendrix. A capa não engana. E o tema do título é um excelente exemplo dessa misteriosa evocação dos espíritos, com a trompete de Miles chamando a si a pronúncia dos salmos. Frases curtas, mas soantes, como quem por negras magias expurga a alma de demónios malignos. Tal como nesse portentoso Miles Runs the Voodoo Down. Além de Miles, tocam Wayne Shorter, Bennie Maupin, Joe Zawinul, Chick Corea, John McLaughlin, Dave Holland, Harvey Brooks, Lenny White, Jack DeJohnette, Jumma Santos. Já tive a felicidade de ouvir alguns deles ao vivo. Posso não vir a morrer feliz, mas infeliz também não hei-de morrer.
NÃO É VIOLÊNCIA, É EDUCAÇÃO
Camarada Van Zeller, de vez em quando dou comigo a pensar que talvez fosse melhor emigrar para o Médio Oriente. Não é lá que olho por olho, dente por dente? Um palestiniano atira umas pedras, o judeu responde com mísseis, o árabe arremessa cocktails, o israelita replica com obuses… Imagine a coisa aplicada por cá, seria um descanso. Por exemplo, nas escolas. Volta não volta, vem à baila o problema da violência nas escolas. Que me lembre, opinei sobre o assunto aqui e acolá. Há quem não se sinta chocado por um professor responder com tabefes aos insultos dos alunos, esses delinquentes que é preciso pôr na ordem sob pena de virem um dia a transformar Lisboa numa qualquer Atenas, Madrid ou Londres. Nós somos um povo de bons costumes, manda o bom costume que o aluno seja tratado como merece: ao tabefe. A realidade justifica-o. As nossas escolas, ao contrário das americanas, são autênticos antros de maldade, os nossos alunos uns energúmenos enraivecidos. Isto não é Beslan, Bath School, Virgínia Tech, Maalot, Dunblane, Gutenberg, Columbine, Montreal, isto não é a Universidade do Texas ou a Escola Tasso da Silveira ou Toulouse, onde acontecem massacres motivados, certamente, pela passividade nas novas teorias da educação. Por cá, o belo do tabefe deve continuar a fazer escola na escola. Ora, o que se passa actualmente nas escolas portuguesas é uma pouca vergonha. Por certo as terríveis criancinhas nasceram assim, não se tornaram no que são em interacção com pais, sociedade, escola. Não, elas nasceram más. Logo, terão o que merecem. Os cães educam-se a pontapé, o mesmo deverá ser com as terríveis criancinhas do nosso país que andam para aí a ameaçar professores, aos empurrões e cuspidelas, jogando ao bullying como quem joga o berlinde. Não interessa a causa do problema, importa a solução: porrada em cima deles. Olho por olho, dente por dente, como no Médio Oriente. E se os pais vierem responder, que sejam lapidados. A escola deverá amarrá-los, apedrejá-los, a bem da boa educação do país, a que formou bons exemplos da nação tais como o ministro Relvas, o Duarte Lima, a “catrefa” do BPN e demais amigos de seu bom amigo. Esses sim, gente bem-educada, bons pais de família. Sei do que falo, fui professor durante dez anos, tenho Himalaias de amigos stôres e professores e professores doutores. Sei do que falo. Um reguila só se verga a murro, o pai do reguila a bastonada e assim sucessivamente. Mais sugiro que a mesma táctica seja aplicada nos hospitais entre doutores e pacientes, nos tribunais entre juízes e réus, nos quartéis entre capitães e magalas, nos próprios lares entre maridos e mulheres. Dantes é que era bom, mulher em casa a cuidar dos filhos, marido fora a cuidar-se com amantes. Dantes é que era bom, um país de gente bem educada que saía da escola a saber ler e com a tabuada na ponta da língua e os nomes dos rios de Portugal e tudo o que era rei decorado… A porcaria da Internet veio dar cabo disto tudo, devíamos voltar ao dantes. Quais competências técnicas, quais carapuça. Eu quero é que as minhas filhas saibam de cor as dinastias que nos trouxeram a esta miséria, e quero que elas saibam quem foi Salazar para que o culto lhe seja prestado pelos bons serviços oferecidos à nação. Olho por olho, dente por dente, e a PIDE com eles todos afiados, os olhos e os dentes, num país de populaça desdentada e olhos comidos pelas cataratas. Que o professor tem que dar o exemplo? Pois que o dê à traulitada! Seja ele um exemplo de como um bom par de estalos corrige os desvios e não causa traumas. Trauma é chegar ao século XXI observando o estado a que isto chegou, um estado de gente amorfa num país de ladrões bem-educados, todos eles saídos de escolas com excelentes professores, muita ordem e bonomia, e hordas de maltrapilhos a darem cabo da boa tradição: olho por olho, dente por dente. Não traumatiza nadinha, não custa nadinha, tudo à mocada pela ordem, pela autoridade, pela dignidade humana (pelo menos a de alguns). Eu, meu caro, vou já ali praticar: tenho duas filhas e uma mulher que estão mesmo a pedir. Não custa nada, não traumatiza nada. Não é violência, é educação.
SR. MINISTRO, ESPERAMOS QUE TENHA HUMILDADE SUFICIENTE PARA SE DEMITIR

Bárbara Reis esteve a ser ouvida na Entidade Reguladora para a Comunicação Social durante duas horas e meia, em conjunto com o director-adjunto Miguel Gaspar.
No telefonema que fez à editora de Política depois de ter recebido por e-mail uma pergunta da jornalista Maria José Oliveira, “o ministro disse que ia fazer queixa à ERC, aos tribunais, ia dizer aos membros do Governo para não falarem com o PÚBLICO e iria revelar dados da vida privada da jornalista”. Questionada pelos jornalistas, a directora afirmou que o ministro especificou os dados, mas Bárbara Reis adiantou que não é “o momento” para os identificar.
“Na sequência dessa pressão, a direcção entendeu por correcto e importante protestar formalmente junto do ministro [dizendo-lhe] que o telefonema e a pressão tinham sido inaceitáveis”, contou Bárbara Reis. Nessa conversa, “o ministro respondeu a uma série de coisas e disse que tinha humildade suficiente para pedir desculpa à Leonete Botelho e foi o que foi fazer”.
(aqui)
terça-feira, 22 de maio de 2012
OS MEXICANOS DA GRÉCIA
Entrei na Grécia por Patras, depois de apanhar um ferry em Brindisi. 18 de Agosto de 1998. Uma noite de viagem passada no convés, ora lendo, ora à conversa com quem mostrasse vontade de paleio. Lembro-me de trocar algumas impressões com um inglês que andava a ler o Drácula de Bram Stoker, seis anos antes perdera-me várias vezes pelas salas de cinema de Lisboa a ver a adaptação do Coppola. Mas a maior parte do tempo foi ocupada na companhia de dois alemães, munidos com cerveja, e um indivíduo da Charneca da Caparica com um sentido de humor amplamente beneficiado pelas bolotas enroladas sucessivamente. Sempre soube escolher companhias. Ainda me enfiei no saco-cama e adormeci ao relento, iluminado por altas e românticas estrelas onde não vislumbrei conforto senão para divagações inúteis.
A alvorada foi crescendo envolta em nevoeiro, deixando perceber aqui e acolá ilhas não mais atraentes do que a Berlenga. A chegada a Patras deu-se em confusão, sem saber para onde me virar, com uma mochila às costas, sem postos de turismo por perto, o corpo maçado e sujo, a cabeça, já de si débil, desfeita em divagações. Lá encontrei o caminho para os comboios, uma estação velha e decadente, um corrupio danado onde contrastavam duas velhas ao largo vestidas de negro da cabeça aos pés. Pareciam viúvas da Nazaré, aspecto melancólico e passado, elegias ambulantes equilibrando sobre a cabeça canastras cheias de víveres.
O comboio para Atenas estava apinhado de gente, sobretudo turistas, malta dos inter-rails. Sentei-me ao lado de um tipo provavelmente de origem nipónica. Ofereci-lhe o melhor do meu inglês e ele pagou-me na mesma moeda, falámos muito sem entendermos nada do que dizíamos um ao outro. Com o italiano instalado defronte a conversa foi mais inteligível. Era arqueólogo, andava em investigações, o que, dada a sujidade espalhada pelo corpo, me pareceu evidente. Sem saber explicar porquê, olhava para ele e via uma personagem d’Os Caminhos de Katmandu.
Pouco tempo antes tinha avistado em Patras um porco com uma mochila às costas e, por instantes, julguei estar a ver-me ao espelho. A higiene não era, definitivamente, uma das nossas prioridades. Ainda assim, consegui do italiano informações valiosas sobre como lidar com os gregos. Era preciso desconfiar de tudo o que dessem por garantido, jamais sorrir para um homem na rua sem pretender engatá-lo, mostrar firmeza na hora das decisões mesmo que, do outro lado, nos chegasse a mais cínica das indiferenças. Interrompido o diálogo pelo espanto ao atravessarmos o Canal de Corinto, prestei alguma atenção a um Mexicano que há largos minutos tentava vender as vantagens de uma pensão chamada Aphrodite.
Segui os bons conselhos do italiano e não me deixei ir em cantigas, embora o procurador não fosse grego. Parvo fui ao deixar-me cair numa esparrela de nome San Remo; quarto por mil dracmas, terraço amplo, ao ar livre, por metade do preço. Tendo em conta a bofa, não me pareceu mau negócio. Ora experimentemos o terraço. Uma lixeira a céu aberto, gerida por um emigrante do Sri Lanka casado com uma indonésia. O procurador era mexicano. Da falta de cosmopolitismo não nos podíamos queixar. Havia também uma espécie de bar, frequentado sobretudo por nórdicos, enfeitado com canas verdes e uns bancos de palha, muito ranhosos, quase tão labregos como o arqueólogo italiano.
No amplo terraço, os inquilinos pareciam vítimas dum terramoto em busca de lugar num qualquer abrigo. Encontrei um canto onde podia pousar a mochila, mas era impossível esticar as pernas. Peguei num toalhão e dirigi-me à casa de banho para tomar duche. O cenário era surreal. Uma casa de banho que cabia no elevador do meu prédio em Chelas, um cubículo com sanita e chuveiro, um orifício numa das paredes, de onde entravam melgas enormes enquanto me tentava esfregar com sabão azul, batiam na água e escorriam-me pelo corpo abaixo em direcção ao ralo, para aí desfalecerem sem dó nem piedade. Nunca tomei um banho que me fizesse sentir tão sujo.
Não quis saber de mais nada nesse dia. Procurei o mexicano que me trouxera à alfurja e comuniquei-lhe que só ficaria em troca de um colchão onde pudesse esticar as pernas e descansar, o que me foi prometido para a noite seguinte. A latrina estava sobrelotada, não havia como resolver o meu problema e imediato, se estivesse cansado que fosse até ao bar trocar impressões com os nórdicos sobre filósofos antigos e mitologia grega, os quinhentos estavam pagos e não havia como reavê-los. Cabrão do mexicano, pensei. Voltei-lhe as costas e fui até ao bar. Pedi uma cerveja e perguntei ao índio que geria o estaminé se serviam algo comestível. O tipo olhou-me desconfiado e respondeu três vezes, não fosse eu não perceber à primeira: no snacks, no snacks, no snacks. Paguei a cerveja, peguei num mapa e saí.
A caminho da Praça Victoria fui interpelado por um velho. Queria saber se eu andava perdido, se precisava de um guia. Disse-lhe que precisava de comer. Indicou-me alguns locais no mapa onde seria possível provar o melhor feta de Atenas e beber o melhor ouzo do mundo, a preço de vagabundo e com direito a música tradicional ao vivo. Se eu quisesse, poderia fazer-me companhia. Dispenso, disse-lhe, ao que me apalpou o cu, sorriu e despediu-se com um bye bye beautiful Apollo. Acabei num McDonald’s, julgo que, à época, o único de Atenas, a devorar um Big Mac como se estivesse a banquetear-me em casa de Ágaton. Depois vagueei pelas ruas, sem mapa nem direcção, observando os edifícios decrépitos, uma vasta panóplia de janados, metáfora perfeita de armaduras perdidas e civilizações caídas em desgraça.
A noite no terraço da pensão San Remo foi passada na conversa. Ainda consegui deitar-me sobre uma manta improvisada com caixas de cartão desfeitas, fechar os olhos por breves horas até um sol impiedoso começar a assar-me o corpo. De manhã, mudei-me para um quarto. Haviam providenciado um divã singular junto a duas camas de casal. Iria dividir os aposentos com dois polacos (um ele e uma ela), uma italiana e um norueguês chamado Klaus. Seguiram-se longas caminhadas pelas ruas da cidade, os olhos esbugalhados respigando os pormenores dos confins da Europa, mercados a céu aberto com vísceras atraindo a voracidade das moscas, vermes em acção, iscos por todo o lado aos quais não era difícil resistir dada a precariedade da carteira pessoal.
2000 dracmas para visitar a Akropolis e provar a inexistência dos deuses. Fossem eles reais, nunca aquelas ruínas engessadas teriam acontecido, nunca o teatro de Dionysus se teria transformado num monte de calhaus, numa curiosidade arqueológica onde imaginamos Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Aristófanes, para conforto da memória e desconsolo da realidade. Lá do alto, junto ao Pártenon, a vista sobre a cidade não podia desmentir o desconchego. Uma densa nuvem de poluição caía sobre os edifícios erigidos em torno do centro histórico, era como se estivéssemos ali para comprovar a porcaria em que nos tornámos. As raízes, as origens, transformadas em peças de museu. E nós a visitarmos a nossa própria decadência, pagando para ver como paga para ser açoitado o masoquista.
Nenhum vestígio de Sócrates, nenhum resquício de Platão, nenhum rasto de Aristóteles. Nos jardins de Epicuro regavam-se pedras. Mataram os cínicos, enterraram-nos sob a desmesurada ambição do catolicismo, reduziram a pó e cinzas o gozo da liberdade. Resta-nos o ouzo e o queijo feta, filosofias não dão jeito ao estômago. Não me repetirei com histórias já contadas noutras províncias. Como, a título de exemplo, a de pela noite dentro terem os polacos começado a foder e eu, no meu divã singular, sem saber se partir ou ficar. Acabei por partir e juntar-me ao Klaus no bar de San Remo. Era um tipo simpático, sereno, com quem passei umas boas horas numa esplanada perto, talvez, da Praça Sintagma onde agora os gregos bulham. Depois regressei a Patras para dividir um quarto com dois mexicanos, ambos deitados com as botas calçadas, como nos filmes do Sergio Leone, e sem conversa alguma para cambiar. Enfim, não posso dizer que guarde boas memórias dos mexicanos da Grécia.
A alvorada foi crescendo envolta em nevoeiro, deixando perceber aqui e acolá ilhas não mais atraentes do que a Berlenga. A chegada a Patras deu-se em confusão, sem saber para onde me virar, com uma mochila às costas, sem postos de turismo por perto, o corpo maçado e sujo, a cabeça, já de si débil, desfeita em divagações. Lá encontrei o caminho para os comboios, uma estação velha e decadente, um corrupio danado onde contrastavam duas velhas ao largo vestidas de negro da cabeça aos pés. Pareciam viúvas da Nazaré, aspecto melancólico e passado, elegias ambulantes equilibrando sobre a cabeça canastras cheias de víveres.
O comboio para Atenas estava apinhado de gente, sobretudo turistas, malta dos inter-rails. Sentei-me ao lado de um tipo provavelmente de origem nipónica. Ofereci-lhe o melhor do meu inglês e ele pagou-me na mesma moeda, falámos muito sem entendermos nada do que dizíamos um ao outro. Com o italiano instalado defronte a conversa foi mais inteligível. Era arqueólogo, andava em investigações, o que, dada a sujidade espalhada pelo corpo, me pareceu evidente. Sem saber explicar porquê, olhava para ele e via uma personagem d’Os Caminhos de Katmandu.
Pouco tempo antes tinha avistado em Patras um porco com uma mochila às costas e, por instantes, julguei estar a ver-me ao espelho. A higiene não era, definitivamente, uma das nossas prioridades. Ainda assim, consegui do italiano informações valiosas sobre como lidar com os gregos. Era preciso desconfiar de tudo o que dessem por garantido, jamais sorrir para um homem na rua sem pretender engatá-lo, mostrar firmeza na hora das decisões mesmo que, do outro lado, nos chegasse a mais cínica das indiferenças. Interrompido o diálogo pelo espanto ao atravessarmos o Canal de Corinto, prestei alguma atenção a um Mexicano que há largos minutos tentava vender as vantagens de uma pensão chamada Aphrodite.
Segui os bons conselhos do italiano e não me deixei ir em cantigas, embora o procurador não fosse grego. Parvo fui ao deixar-me cair numa esparrela de nome San Remo; quarto por mil dracmas, terraço amplo, ao ar livre, por metade do preço. Tendo em conta a bofa, não me pareceu mau negócio. Ora experimentemos o terraço. Uma lixeira a céu aberto, gerida por um emigrante do Sri Lanka casado com uma indonésia. O procurador era mexicano. Da falta de cosmopolitismo não nos podíamos queixar. Havia também uma espécie de bar, frequentado sobretudo por nórdicos, enfeitado com canas verdes e uns bancos de palha, muito ranhosos, quase tão labregos como o arqueólogo italiano.
No amplo terraço, os inquilinos pareciam vítimas dum terramoto em busca de lugar num qualquer abrigo. Encontrei um canto onde podia pousar a mochila, mas era impossível esticar as pernas. Peguei num toalhão e dirigi-me à casa de banho para tomar duche. O cenário era surreal. Uma casa de banho que cabia no elevador do meu prédio em Chelas, um cubículo com sanita e chuveiro, um orifício numa das paredes, de onde entravam melgas enormes enquanto me tentava esfregar com sabão azul, batiam na água e escorriam-me pelo corpo abaixo em direcção ao ralo, para aí desfalecerem sem dó nem piedade. Nunca tomei um banho que me fizesse sentir tão sujo.
Não quis saber de mais nada nesse dia. Procurei o mexicano que me trouxera à alfurja e comuniquei-lhe que só ficaria em troca de um colchão onde pudesse esticar as pernas e descansar, o que me foi prometido para a noite seguinte. A latrina estava sobrelotada, não havia como resolver o meu problema e imediato, se estivesse cansado que fosse até ao bar trocar impressões com os nórdicos sobre filósofos antigos e mitologia grega, os quinhentos estavam pagos e não havia como reavê-los. Cabrão do mexicano, pensei. Voltei-lhe as costas e fui até ao bar. Pedi uma cerveja e perguntei ao índio que geria o estaminé se serviam algo comestível. O tipo olhou-me desconfiado e respondeu três vezes, não fosse eu não perceber à primeira: no snacks, no snacks, no snacks. Paguei a cerveja, peguei num mapa e saí.
A caminho da Praça Victoria fui interpelado por um velho. Queria saber se eu andava perdido, se precisava de um guia. Disse-lhe que precisava de comer. Indicou-me alguns locais no mapa onde seria possível provar o melhor feta de Atenas e beber o melhor ouzo do mundo, a preço de vagabundo e com direito a música tradicional ao vivo. Se eu quisesse, poderia fazer-me companhia. Dispenso, disse-lhe, ao que me apalpou o cu, sorriu e despediu-se com um bye bye beautiful Apollo. Acabei num McDonald’s, julgo que, à época, o único de Atenas, a devorar um Big Mac como se estivesse a banquetear-me em casa de Ágaton. Depois vagueei pelas ruas, sem mapa nem direcção, observando os edifícios decrépitos, uma vasta panóplia de janados, metáfora perfeita de armaduras perdidas e civilizações caídas em desgraça.
A noite no terraço da pensão San Remo foi passada na conversa. Ainda consegui deitar-me sobre uma manta improvisada com caixas de cartão desfeitas, fechar os olhos por breves horas até um sol impiedoso começar a assar-me o corpo. De manhã, mudei-me para um quarto. Haviam providenciado um divã singular junto a duas camas de casal. Iria dividir os aposentos com dois polacos (um ele e uma ela), uma italiana e um norueguês chamado Klaus. Seguiram-se longas caminhadas pelas ruas da cidade, os olhos esbugalhados respigando os pormenores dos confins da Europa, mercados a céu aberto com vísceras atraindo a voracidade das moscas, vermes em acção, iscos por todo o lado aos quais não era difícil resistir dada a precariedade da carteira pessoal.
2000 dracmas para visitar a Akropolis e provar a inexistência dos deuses. Fossem eles reais, nunca aquelas ruínas engessadas teriam acontecido, nunca o teatro de Dionysus se teria transformado num monte de calhaus, numa curiosidade arqueológica onde imaginamos Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Aristófanes, para conforto da memória e desconsolo da realidade. Lá do alto, junto ao Pártenon, a vista sobre a cidade não podia desmentir o desconchego. Uma densa nuvem de poluição caía sobre os edifícios erigidos em torno do centro histórico, era como se estivéssemos ali para comprovar a porcaria em que nos tornámos. As raízes, as origens, transformadas em peças de museu. E nós a visitarmos a nossa própria decadência, pagando para ver como paga para ser açoitado o masoquista.
Nenhum vestígio de Sócrates, nenhum resquício de Platão, nenhum rasto de Aristóteles. Nos jardins de Epicuro regavam-se pedras. Mataram os cínicos, enterraram-nos sob a desmesurada ambição do catolicismo, reduziram a pó e cinzas o gozo da liberdade. Resta-nos o ouzo e o queijo feta, filosofias não dão jeito ao estômago. Não me repetirei com histórias já contadas noutras províncias. Como, a título de exemplo, a de pela noite dentro terem os polacos começado a foder e eu, no meu divã singular, sem saber se partir ou ficar. Acabei por partir e juntar-me ao Klaus no bar de San Remo. Era um tipo simpático, sereno, com quem passei umas boas horas numa esplanada perto, talvez, da Praça Sintagma onde agora os gregos bulham. Depois regressei a Patras para dividir um quarto com dois mexicanos, ambos deitados com as botas calçadas, como nos filmes do Sergio Leone, e sem conversa alguma para cambiar. Enfim, não posso dizer que guarde boas memórias dos mexicanos da Grécia.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
DALTON TREVISAN
Este ano, o Camões foi para um contista. Fica bem entregue... se ele o receber. Um conto aqui.
domingo, 20 de maio de 2012
PORTUGUÊS TÉCNICO
Tanta gente preocupada com o inglês técnico de Sócrates, e basta ver cinco minutos dos Globos de Ouro para percebermos que mais valia preocuparmo-nos com o português técnico dos apresentadores da SIC.
SHORT SHORTS
sábado, 19 de maio de 2012
THE NEW WORLD
O menos aclamado dos filmes de Terrence Malick recupera a história de Pocahontas, uma índia powhatan que, depois de ter sido expulsa da sua tribo na sequência de uma relação com o lendário capitão John Smith, acabou casada com o explorador inglês John Rolfe e transformada em celebridade do Novo Mundo pela aristocracia britânica. Factos cuja veracidade terá sido moldada, ao longo dos tempos, por uma grande dose de oportunismo. The New World (2005) não escapa incólume ao mito, oferecendo uma perspectiva alegórica, para não dizer ingénua, da colonização das américas e dos violentíssimos processos de aculturação que a acompanharam. No entanto, safa-se da desgraça quando se concentra nos dilemas de Pocahontas (representada por uma desconhecida, mas belíssima, Q’Orianka Kilcher que, à data das filmagens, tinha apenas 14 anos).
A evocação inicial do grande Espírito da Terra estabelece o contacto com a forma de pensamento índio, ao mesmo tempo que mapeia a formação de um Novo Mundo erigido sobre as cinzas duma existência humana fundada na comunhão com a Natureza. A chegada das caravelas às terras agora conhecidas pelo nome de Virgínia, em 1607, marca, precisamente, o princípio do fim de um mundo primitivo e selvagem. São óbvias as relações com The Thin Red Line (1998), sobretudo nas cenas onde se recria a vida dos indígenas no seio da floresta. Porém, quem leia um pouco sobre o assunto apercebe-se da visão adulterada que a história nos fez chegar em dois sentidos divergentes. Os colonos ali aportados não encontraram nem o Inferno, desse andavam fugidos, nem o Paraíso, que, sabemos hoje, só existe na imaginação celestial dos crentes. O que ali havia era um modus vivendi sem conflitos com a Natureza, porque conflitos entre os homens sempre se viram em todos os lugares.
São, pois, simplórias as descrições do malogrado capitão John Smith (Colin Farrell) quando fala de um povo sem maldade. Não são tão simplórias quando chama a atenção para o essencial: os índios viviam em função da necessidade, entre eles não predominava o sentido de propriedade, que já o sargento Edward Welsh havia denunciado, em The Thin Red Line, como causa dos infernos para os quais o homem se atira. Rebelde e desobediente entre os seus, John Smith tem a pesar sobre si uma insuportável condenação. Falhará toda a vida, mormente onde menos deveria falhar: no amor. A sua paixão por uma indígena colocou-o no centro de um conflito onde, muito provavelmente, nunca pretendeu estar. Percebe-se a metáfora quando Malick o filma entre a tribo aberta dos powhatan e o forte dos colonos, a destruir árvores que servirão de paliçadas, uma fronteira traçada por obrigação contra as vontades de um estranho sentimento.
Os filmes de Malick estão repletos destas contradições, embora neste a atitude dicotómica seja talvez mais evidente. Onde se vivia em liberdade, passa a viver-se com medo, constroem-se torres de vigia, impõem-se leis severas que prevêem castigos cruéis e desumanos para os desobedientes. Pocahontas desobedece e é afastada da tribo, John desobedece e é chicoteado, obrigado a trabalhos forçados após vigílias permanentes pendurado pelos pés. Quem são os selvagens? Talvez não seja esta a dúvida essencial. Não o será, certamente, e disso nos apercebemos quando vemos Pocahontas deitada nas ervas e a confundimos com o tronco de uma árvore. Aqui, os opostos estimulam sentimentos diferentes, dúvidas antagónicas, emoções paradoxais. Não é por isso de estranhar que Smith abandone Pocahontas e regresse a Inglaterra com a missão de novas descobertas.
Pede o capitão que informem posteriormente a sua amada de uma morte inexistente, quer ser esquecido sem poder esquecer. Julga ser possível a felicidade dos outros sem se oferecer a quem o anseia para ser feliz. Mais uma vez, o que ressalta é a degradação da pureza no coração dos homens, o assalto da loucura que leva Smith a pensar se não seria melhor voltar a subir o rio, amar Pocahontas na natureza selvagem, soltar-se, ser livre... acabando por fazer exactamente o contrário. Porque entre o desejo e a acção há algo que o tolda, algo muito mais forte do que os grilhões a que o vemos preso no primeiro dos planos em que aparece. O quê? Talvez amar sem perceber o amor.
Contudo, antes e depois de John Smith esta é a história de Pocahontas (baptizada Rebecca, aliás, em nome do pai do filho e do espírito santo). Levada até ao Velho Mundo por um viúvo identificado com a sua dor, o colono John Rolfe (Christian Bale), ela apercebe-se da contradição em que vive. As cenas finais oferecem-nos indivíduos perturbados por uma série de interferências que impedem a sintonia entre o pensamento, o desejo e a acção. São personagens marcadas por uma espécie de anomalia que as faz tropeçar na mentira quando apenas pretendem verdade. Ver Pocahontas devidamente trajada entre a aristocracia britânica, olhando animais selvagens engaiolados para deleite de nobres palacianos, é como assistir a um funeral sem defunto.
Pior quando o reencontro com Smith, nos jardins geometricamente desenhados de um palácio, nos atira a realidade às fuças. Encontraste as tuas Índias, John? – pergunta ela. E ele baixa os olhos de vergonha, talvez, frustração, quem sabe. Hás-de encontrá-las, acrescenta. Ao que ele responde com a mais cruel das evidências: Talvez lhes tenha passado ao largo. Nada mais aconteceu nesta história de amor. Rebecca escolheu ficar com quem a soube amar. Fez muito bem. Cada qual é para o que nasce, e o malogrado John Smith, como é evidente, não tinha nascido para o amor.
MIGUEL "MAU HÁLITO" RELVAS

Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas, que tem um currículo maravilhoso de secretarias gerais, deputânsias, presidências e afins, chega a Ministro dos Assuntos Parlamentares com a tutela da Comunicação Social. E o que faz o ministro da tutela? Telefona para um jornal, a ameaçar uma jornalista em particular, insurgindo-se contra a eventual publicação de factos comprovativos das suas relações promiscuas com as secretas portuguesas. A jornalista incumbida de investigar as contradições do ministro, vê-se, deste modo, pressionada com as ameaças de um blackout dos ministros do Governo ao jornal que a emprega (todos os ministros, para que se note o poder do n.º 2); e, como se tal não fosse suficientemente escabroso, com a ameaça de virem a ser publicados na Internet dados sobre a sua vida privada. De onde vieram estes dados? Quem os espiolhou? Qual a fonte? Como teve o ministro Relvas acesso a eles? Pelas secretas? Denunciada a pressão, o ministro desmente. Agora pede desculpas, como se estivéssemos a falar de crianças a disputarem um saco de berlindes na escola primária. O ministro não se dá conta da gravidade de tudo isto, é um imbecil com as costas esquentadas pela evidente inimputabilidade. Depois de andar a espancar jornalistas no exercício da sua profissão, este Governo fica marcado pela mais ignóbil das pressões alguma vez exercidas, no regime democrático, sobre um jornalista em particular. Consequências?
sexta-feira, 18 de maio de 2012
UMA MEDALHA PARA O ZÉ POR TER LIVRADO DO COISO GERAÇÕES INTEIRAS DE POLÍTICOS QUE SE NÃO TIVESSEM NASCIDO TERIAM DE SER INVENTADOS
Camarada Van Zeller, a minha alma está parva. E pergunta você, com esse seu ar de Pluto apatetado: mas quando parva não foi? Tem razão, camarada. Porém, hoje está mais parva que nunca. Não por causa dos mil milhões encontrados na bagageira de um qualquer Zé Medalhas, enquanto os beneficiários deste PPR alternativo se mantêm tão intocáveis como os dalit da Índia. Milhões desses não me aparvalham, são feijões na minha camioneta. Eu estou aparvoado com outras realidades. Eu estou coiso como coiso está o Álvaro, com o desemprego cravado na garganta dos outros e muitas soluções à vista: não sejam piegas, uma, emigrem, duas, não façam disso um estigma, três, aproveitem a oportunidade para investir, quatro. Já disse à minha mulher, que está coisa, para não me chatear mais com as suas pieguices, siga os bons conselhos do PM e invista. Aproveite o tempo livre e faça crescer o dinheiro em investimentos de futuro, consulte o Zé Medalhas. Aconselhe-se. Mas a minha mulher, ai a minha mulher, ela não me ouve. O coiso não deixa. E sempre que fala é para me deixar abasbacado. Ela aprendeu com o Relvas, pressiona-me e ameaça-me, não me quer deixar dar voz às angústias e aos anseios da verdade. Ela é como aqueles opinantes da televisão e da rádio que se fartam de achar coisas, e eu tão pobre e azarento que nunca acho nada. A única vez que achei alguma coisa, levei um par de estalos nas trombas por ter metido mão em propriedade alheia. Mal sabia minha santa mãe ter ali gerado um pobre desgraçado, deitando por água méritos para uma promissora carreira política. Estou curado. Já nada disto me coisa. Nem mesmo ter ouvido um primata qualquer, que se não tivesse nascido teria de ser inventado, afirmar que a Grécia é um país inventado, uma ex-província do Império Otomano. Ai, caro Van Zeller, tanta estupidez nos governa e já nada disto me espanta, aparvoa, atrapalha. Nem Isaltino manter-se livre, nem ter o Estado oferecido uma pulseira ao Lima, nem as secretas ao serviço dos suspeitos do costume, gente bem empregada que nunca necessitou fazer do coiso uma oportunidade para mudar de vida. Camarada Van Zeller, sem mais rodeios, aqui lhe confesso que tudo o que me aparvalha neste momento é ter sabido, passados 20 anos, viver com uma mulher que já beijou o Primeiro Ministro Coelho. Foi nas tasquinhas do Landal, andava o jota, ainda de bibe, pendurado na comitiva do turco que governa as Caldas. Isto sim, é a morte de um homem em tempos de coiso exponencial.
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