terça-feira, 26 de junho de 2012

BASTA, BASTA, INFELIZES!


Queluz, Sintra. 2010.





Por cima do campo de batalha, tão formoso e alegre algumas horas antes, quando resplandeciam as baionetas ou se esgarçavam os vapores do sol matinal, estendia-se agora um nevoeiro húmido à mistura com fumo donde se desprendia um cheiro estranho e acre a salitre e a sangue. Enevoara-se o céu e uma chuva fina caía sobre os mortos, sobre os feridos, sobre aqueles homens extenuados, tomados de pânico, que principiavam a duvidar. Parecia gritar-lhes: «Basta, basta, infelizes! Cessai… Tomai tento! Que estais a fazer?»
Os soldados de ambos os exércitos, cansados e esfomeados, principiavam a perguntar-se a si próprios se valeria a pena continuarem a matar-se uns aos outros, e nos seus rostos lia-se a hesitação e em cada alma surgia esta pergunta:
«Porquê, por quem devo eu matar ou deixar-me matar? Matai, vós, a quem quiserdes; fazei o que quiserdes; por mim, não quero mais!» Ao entardecer esta ideia amadurecera em todas as almas. De um momento para o outro estes homens podiam vir a sentir horror pelo que estavam a fazer e abandonar tudo e fugir fosse para onde fosse.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Leão Tolstoi.

O ALVO CERTO

Camarada Van Zeller, o título desta epístola pouco tem que ver com o conteúdo da mesma. Simplesmente julguei caricato o título de um artigo no Expresso onde eram exibidos, devidamente trajados, os enviados de Seguro junto do Ministério das Finanças. Esta prosa tem outros motivos, muito menos engravatados (ou não). Os portugueses preocupam-se amiúde com as queimadas vivas e as desfiguradas do Islão, mas insistem em manter uma atitude negligente para com as suas próprias vítimas de violência doméstica. Parece que a crise tem dado conta do recado também neste domínio. 20 vítimas mortais já este ano (em 2011 foram contabilizadas 29 vítimas mortais de violência doméstica). Por aqui, onde vivo, são frequentes os casos. Fala-se de ameaças concretizadas, porrada da grossa, tiros na praça pública, o Inferno ao virar da esquina. 25126 queixas durante o ano que passou não serviram para colocar de sobreaviso as autoridades, empenhadas na defesa dos zeladores do Estado e na manutenção da ordem junto de jornalistas ameaçadores. Alguns juízes creem mesmo que uma mulher abstémia atenua a embriaguez do agressor, ou seja, o que foi gerado para servir, servir deverá. Caso contrário, ao chicote sua função. Ora, esta realidade pôs-me a pensar. E a primeira coisa que me ocorreu foi fazer aqui um apelo a todos os potenciais agressores. Se vos sentirdes traídos, pensai duas vezes antes de decidirdes sobre quem despejar vossa legítima raiva. Um cornudo merece o nosso respeito, o respeito de todos quantos se sentem ou sentiram encornados, para não dizer algo mais escandaloso, pelas elites retrógradas da justiça portuguesa, do governo português, da nação. Constata-se que, muito frequentemente, estes homens mais sensíveis acabam por se suicidar depois de assassinarem suas mulheres. Apelo pois a esses homens, compreensivamente, que ponderem, que pensem, que parem por segundos e que façam da sua dor um bem universal. Não descarreguem sobre as mulheres o ódio que podem descarregar sobre alvos muito mais justificáveis. Se podeis, caros concidadãos, transforma-vos em heróis junto de um povo inteiro, porque haveis de reduzir-vos à mediocridade com gestos inaceitáveis? Pensai bem no que vos digo antes de agirdes. Estou certo que o camarada Van Zeller concordará comigo quando afirmo que um homem disposto a suicidar-se para se vingar de um mal sentido sobre si, poderá antes de se suicidar desviar o alvo das atenções do ódio que o motiva e, desse modo, poupar a vida de uma infeliz e tornar um pouco mais felizes milhões de concidadãos que anseiam por um maluco capaz de atirar sobre o alvo certo. O alvo certo toda a gente conhece, não é preciso comprar o Expresso para o saber.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

NIILISTA

A vantagem dos niilistas é saírem sempre a ganhar, mesmo quando já cá não estão para os festejos.

COMBOIO, n.


Entre Campos, Lisboa. 2011.





A mais importante das invenções que nos permitem sair do sítio onde estamos e ir para um sítio onde não estaremos melhor. Por esta razão, o comboio é muito apreciado pelo optimista, pois permite-lhe fazer a viagem com grande rapidez.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Ambrose Bierce.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #58



Não é a primeira vez que os poemas de Nuno Moura encontram encarnações musicais. Lembramo-nos, assim num repente, da gravação em tempo real divulgada com um dos números da revista Big Ode, um cheirinho da mesma na colectânea Não resistir Só e Não Só resistir (vide Ventilan), ou das recriações levadas a cabo por A Naifa em 3 Minutos Antes de a Maré Encher. Aparentemente inadaptável, a poesia de Moura reclama constantemente as oscilações da língua portuguesa. Mau Sangue é, muito provavelmente, a melhor das encarnações que tais textos podiam encontrar. Essencialmente electrónica, a música de José Ferreira tem o mérito de responder à urbanidade dos textos. E fá-lo cumprindo o mais nobre dos estímulos: a dança. Há aqui temas, chamemos-lhe assim, tão radio friendly que custa acreditar não virem a ser grandes sucessos do Verão de 2012. Por outro lado, as concessões rítmicas acabam pervertidas pela derrisão da palavra. Cock Ring é um bom exemplo, com manipulações rítmicas claramente dançáveis a servirem de base ao discurso aguilhoado do poeta. Tem qualquer coisa de revolucionário, se entendermos por revolução a arte de pôr Deus a dançar com um martini na mão e os olhos postos nas ancas das virgens. A voz de Beatriz Nunes empresta sensualidade melódica a alguns temas, ao mesmo tempo que eleva a fasquia interpretativa dos textos. É como se naquela voz as palavras se abrissem, largando no ar a musicalidade enclausurada no texto escrito. Portanto, instantes de extraordinária libertação poética. Fado do Osso (Almodóvar) e Parabéns Amália, com um arranjo de viola neo-romântico ideal para noites de Verão, são grandes momentos musicais do ano. Escuto-os em repeat e não me canso. Imperdível.

domingo, 24 de junho de 2012

AS CARAS MAIS CONTENTES


Cais do Sodré, Lisboa. 2011.




Quem, ao ir pelas ruas, observar bem, julgo que verá as caras mais contentes no interior dos carros funerários.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Jonathan Swift.

«ELES NÃO REGULAM, ELES APRECIAM RELAÇÕES HUMANAS»*

Camarada Van Zeller, a semana que passou foi de loucos. Portugal venceu a Holanda, Gaspar ficou preocupado com a queda da receita fiscal, Eusébio sentiu-se mal, Carlos Bessa escreveu sobre Cão Celeste, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social provou não servir para nada. No Expresso, Fernando Madrinha coloca a questão como ela deve ser colocada: vale a pena gastar 4,5 milhões de euros anuais para sustentar uma entidade cujos membros se limitam a replicar, noutra sede, as posições dos partidos que os propuseram? Vale, respondemos nós. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Estamos a falar de pessoas carenciadas num país assaltado pela austeridade. Cabe ao Estado socorrer os indigentes onde eles mais revelam a sua indigência. Tome-se de exemplo o caso concreto do pobre ministro Relvas, que teve de gastar uma pipa de massa em telefonemas, despendendo do seu precioso tempo, para conseguir travar a publicação de um vergonhoso atentado ao seu bom nome. As pessoas dizem que Relvas telefonou com ameaças, mas o homem estava apenas a defender-se. De hoje em diante, fique-se de uma vez por todas a saber a diferença entre uma ameaça e legítima defesa. Ameaçar é quando um jornalista questiona para poder esclarecer; agir em legítima defesa é quando um ministro telefona para a redacção de um jornal argumentando, com toda a deferência, que no caso de virem a ser publicados artigos contra a sua pessoa ele sentir-se-á no direito de tornar públicos dados privados sobre a jornalista que investiga o assunto. É uma espécie de moeda de troca: se tu dizes quem eu sou eu direi quem tu és. Veja-se este bom exemplo de uma terrível ameaça descaradamente feita em directo por Helena Roseta:


Passamos a transcrever, para o caso de por aqui passar algum leitor surdo: «é uma história que se passou comigo, não tem nada a ver com o relatório da ERC, mas tem a ver com a figura do Miguel Relvas, que é uma pessoa trabalhadora, diligente, a uma certa altura ele era Secretário de Estado do poder local e eu era Presidente da Ordem dos Arquitectos, e o Miguel Relvas disse-me para eu ir falar com ele porque havia a possibilidade de um acordo entre a secretaria de estado e a OA, e lá fui eu, e o acordo era sobre um programa chamado FORAL, que se destinava a fazer formação dos arquitectos municipais com verbas comunitárias, mas havia uma condição e a condição era simplesmente esta, a formação tinha de ser feita pela empresa do Dr Passos Coelho». Mais uma vez, Relvas em legítima Defesa e, neste caso, Helena Roseta numa vergonhosa ameaça ao bom nome, à honra, à idoneidade de Relvas e Cª. Lda. Desde já manifesto o meu mais forte repúdio relativamente a esta revelação, esperando sinceramente que o governo de Passos Coelho encontre entre as receitas fiscais de Gaspar 4,5 milhões para a fundação de uma qualquer Entidade Reguladora que trave a língua peçonhenta destas gentes eivadas de maldade.
*Remate respigado numa crónica de Henrique Monteiro.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

UM CAVALHEIRO SOU COMO OS MAIS TODOS.


Rego, Lisboa. 2011.





Há muito tempo
Que no livro das fábulas ‘stá escrito,
Sem valerem por isso mais os homens:
Do Mau se desfizeram, mas ainda
Lhes ficaram os maus
.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Mefistófeles, segundo Johann W. Goethe.

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA



Foram necessários dez anos para que Nuno Moura (n. 1970) regressasse aos livros, após uma primeira incursão pela prosa com Calendário das dificuldades diárias (&etc., 2002). Para trás ficaram quatro livros em verso. Este Prémio Nacional de Poesia (Abril de 2012), também em prosa, não vem só. Acompanha-o um CD dos Mau Sangue, projecto especialmente concebido para o efeito: música de José Ferreira, textos e voz de Nuno Moura, colaborações vocais de Beatriz Nunes e participação de André Neto com viola d’arco. Importa referir que o CD não reproduz o livro, são objectos autónomos mas interligados. É este o conceito da Mia Soave - editora fundada, entre outros, pelo próprio Nuno Moura -, que já antes havia editado Reality Show ou a Alegoria das Cavernas (Fevereiro de 2011), de Alberto Pimeta (n. 1937). Prémio Nacional de Poesia abre com uma breve nota explicativa: «O que aqui se lê em silêncio foi escrito para ser lido ao vivo. / É uma versão de vários textos não editados em livro. / É dedicado às personagens que o escreveram. / Os vossos poemas fazem este». Devemos retirar desta nota dois importantes esclarecimentos. O primeiro é o de que estamos perante um trabalho de colagem com origem em textos concebidos para serem ditos em voz alta, não apenas escutados no silêncio da leitura. Este acto de escrever para dizer, não sendo novo, encontra em Nuno Moura uma voz ímpar dentro da sua geração. São múltiplos e dificilmente inventariáveis os empreendimentos do poeta nesse sentido, quer a solo, quer acompanhado, em duelo ou em dueto, com instrumentos ou socorrendo-se apenas das cordas vocais. Mais do que uma estratégia de promoção, podemos falar de uma atitude poética que só compreende o texto na relação que este mantém com o ouvinte. Esta relação distancia o autor da sua suposta produção, esvaindo-se o mesmo numa multiplicação de personagens que não são propriamente heterónimos. São, e este é o segundo esclarecimento que a nota introdutória nos oferece, fonte, alimento, terreno onde a experiência semeia as palavras e o texto germina. Daí que não nos surpreenda a ironia da pergunta projectada nas cortinas do palco onde a acção terá lugar: «Oom, já se pode?» Trata-se, obviamente, de um diálogo com a Actuação Escrita de Pedro Oom. É natural que uma leitura superficial desta obra, não só deste livro, nos leve a falar de elos à tradição surrealista, de uma prática em desuso da escrita automática, de uma inclinação para a experimentação dadaísta. Não está mal. Porém, é redutor. O que aqui se passa é uma mais depurada do que possa parecer encenação da realidade, é um teatro de sombras com bolas de cristal, é um modo de estar na poesia que se define por ser um modo de estar com poesia. A irrisão patente no título, cultivada desde Não saia nem entre após aviso de fecho de portas (Signo, 1993), promete uma espécie de prolongamento daquele que é, talvez, um dos mais conhecidos poemas de Nuno Moura: o lançamento do livro de poesia que abria Nova Asmática Portuguesa (Mariposa Azual, 1998). Aí temos personagens arquetípicas como o escritor, o crítico literário, o poema, a própria poesia, o livreiro, a nova geração de poetas, os curadores de agremiações, os recitais e os encontros de escritores, entre nomes cujo realismo parece inventado e outros cuja destreza satírica torna absolutamente credíveis. Dentro de pequenos textos que se vão sucedendo como frames num documentário aleatório, revela-se o olhar sagaz de quem despreza sem concessões a pedantearia literária: «Para que a sua poesia não enjoe um surdo anote que a palavra gosto denota mau sentimento para começar um texto. Mas gosto de tem mais leitura» (p. 11); «As miúdas vão voltar a gritar nos recitais» (p. 12); «O poeta ocupa o lugar do chocolate no papel prata» (p. 23); «Todos os seus poemas sabem a arco-íris, diziam uns dos outros» (p. 36). Por outro lado, a música dos Mau Sangue revela um aspecto sociológico fundamental que o texto deixa apenas implícito. Há, sem dúvida, uma dificuldade tremenda em conviver com a diferença no chamado meio literário. O que o disco sublinha é, precisamente, a recusa de uma comunidade castradora da individualidade, onde todos cuidam uns dos outros para não terem que cuidar de si próprios. A própria expressão “mau sangue” é um achado, talha o cordão umbilical das famílias afirmando-se desviada de uma hereditariedade sufocante. «O poeta diz é meu, a criança diz trinco-te o nariz. O poeta é muito bom pai. Só gosta deles, são os poemas que mais lhe interessam, come com eles, dormem juntos, cuidam de uma família de raízes ao Parque da Cidade. Regras da paternidade: primeiro os livros, chá de segurelha e aguardente» (p. 42). Este dizer do poeta não é ingénuo nem tem nada de automático, é um manifesto libertador com razões de ser muito objectivas. Querem vozes de ruptura? Saiam dos gabinetes, abram os ouvidos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #57


Podemos agradecer ao fotógrafo Guy Le Querec a junção do trio Romano (Aldo), Sclavis (Louis), Texier (Henri). Carnet de Routes foi o resultado de uma digressão por seis países da África Central, em busca das raízes do jazz ou, por outro lado, na demanda de um reencontro que importava patrocinar. Toda a gente sabe das origens desta música, rebentada num terreno fertilizado pela junção do ritmo com a improvisação. As fotografias que acompanham o álbum, gravado entre 1994 e 1995, depois de duas tournées, em 1990 e 1993, dão conta de uma extraordinária aventura humana. E a música faz-lhe justiça, respigando sonoridades encontradas por caminhos que provam ser esta arte o elemento essencial da humanidade. Porque a partir dela as imagens explodem sem que seja necessário representar, a dança começa como uma espécie de respiração que acompanha a língua(gem), a poesia medra nessas reclinações do corpo e torna-se expressão máxima do indizível. Fala-se, a páginas tantas, de jam sessions mágicas. Somos levados a acreditar na descrição ao vermos os músicos franceses, excelentes como nunca, actuando para as endoidecidas tribos da República Centro-Africana ou acompanhados pelos djembés do Mali ou em puro êxtase espiritual na República Popular do Congo… Os temas posteriormente registados em estúdio foram desbravados, mas quem os desbravou soube guardar as cicatrizes colhidas pelo caminho. Tive o prazer de assistir a um concerto do trio, salvo erro, no Seixal. Só faltou a Leica, quinto instrumento de um trio branco onde a bateria, o contrabaixo, o clarinete e o saxofone soprano chegaram e sobraram para provar não ser inautêntico o sopro da magia negra.

QU'É DOS PINTORES DO MEU PAÍS ESTRANHO, ONDE ESTÃO ELES QUE NÃO VÊM PINTAR?


Fábrica de Braço de Prata, Lisboa. 2011.




Tísicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
Etnas de carne! Jobs! Flores! Lázaros! Cristos!
Mártires! Cães! Dálias de pus! Olhos-fechados!
Reumáticos! Anões! Deliriums-tremens! Quistos!
Monstros, fenómenos, aflitos, aleijados,
Talvez lá dentro com perfeitos corações:
Todos, à uma, mugem roucas ladainhas,
Trágicos, uivam «uma esmola p’las alminhas
Das suas obrigações!»
Pelo nariz corre-lhes pus, gangrena, ranho!
E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrasar…





Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: António Nobre.

terça-feira, 19 de junho de 2012

HÁ EM TODA A POESIA UMA CONTRADIÇÃO ESSENCIAL

Santos, Lisboa. 2011.






A vida de Heliogabalo é toda ela anarquia agente porque Elagabalus, o deus unitário que religa o homem e a mulher, os pólos hostis, o UM e o DOIS, é o acabar das contradições, da anarquia e da guerra, mas pela guerra, e é também, nesta terra de contradição e desordem, o início da obra da anarquia. E a anarquia, levada ao ponto a que Heliogabalo a leva, é poesia realizada.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Antonin Artaud.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

cf. SALA DOS FUNDOS, MELANCÓLICO 3, OCIOSIDADE, RETIRO 1

Estoril, 2011.






A ambição paga aos seus cultores obrigando-os a uma exposição constante, como a estátua de um mercado (…) Estes nem sequer têm a retrete como retiro… Num certo sentido, acho mais suportável estar sempre só do que nunca o poder estar.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Montaigne.

domingo, 17 de junho de 2012

A ILHA DE CARIBOU

A Ilha de Caribou (Abril de 2012) é o primeiro romance do jovem escritor norte-americano David Vann (n. 1966). Antes, as Edições Ahab haviam publicado entre nós a novela A Ilha de Sukkwan (Junho de 2011). Os dois livros têm como cenário o Alasca, de onde o autor é natural, mas as coincidências não ficam pelo título nem pelo cenário. São obras onde o espaço geográfico surge como extensão das personagens que o povoam, gerando assim uma identificação entre o carácter hostil do território e as perturbações temperamentais das personagens. Curiosamente, trata-se do mais vasto dos estados norte-americanos e, simultaneamente, o menos povoado de todos. A zona exige dos seus habitantes uma adaptabilidade nem sempre fácil de alcançar, deixando a nu todas as fraquezas do ser humano. Este lado débil e inadaptado, com todas as consequências subsequentes, entre as quais se torna evidente uma tremenda frustração, é aquele que David Vann melhor explora nas personalidades das suas personagens. Se n’ A Ilha de Sukkwan assistimos à tentativa de um pai reforçar laços afectivos com o filho, convocando-o para uma estadia numa cabana isolada, em A Ilha de Caribou voltamos a encontrar este sentido da deslocação e do isolamento como pretexto para o fortalecimento de uma afectividade ameaçada. Porém, no romance, o recolhimento tem na sua origem o desgaste de trintas anos de relacionamento conjugal. Gary e Irene deslocam-se para Caribou, por iniciativa dele, a fim de construírem uma cabana onde poderão passar o resto dos seus dias. Ela desconfia da solução, mas deixa-se arrastar pela iniciativa do marido. A construção da cabana surge, deste modo, como metáfora da relação mantida entre os dois, representação tosca de um casamento falhado, encalhado e emparedado em sentimentos de culpa, complexos de inferioridade, sacrifícios vários que trazem à superfície vidas nunca desejadas, oportunidades perdidas, trilhos tomados mais por arrastamento do que por vontade própria. Esta refundação do lar, rumo a uma terra nova, nada tem de verdadeiramente surpreendente. A escrita de Vann é directa, mas subtil, depurada nas descrições e capaz de nos fazer sentir não haver ali uma paisagem escolhida por acaso, uma frase sem sentido, um parágrafo a mais. O que torna tudo verdadeiramente surpreendente é o paralelo estabelecido entre o Inferno vivido por Gary e Irene e a ilusão de um Paraíso alimentada por Rhoda, a filha dos dois. Assim, capítulo a capítulo, somos confrontados com as desilusões de Irene e as ilusões de Rhoda, o pragmatismo desencantado da mãe e os sonhos e as fantasias da filha. Rhoda está noiva de Jim e sonha com um casamento perfeito, sem se aperceber das traições de Jim, da sua hipocrisia e, também, das frustrações pessoais que o levam a decidir-se por uma vida exclusivamente dedicada a ganhar dinheiro e a foder o maior número possível de mulheres. Ao longo do livro, os sonhos de Rhoda são consecutivamente desmentidos pela realidade existencial dos pais. Acompanha-os uma tese várias vezes repetida: não há nada como o princípio, depois cai-se na real. Ou seja, o que Vann nos expõe é a consciência da deterioração, também ela visível nas alterações atmosféricas e no passar das estações, a fatalidade da passagem do tempo e da degeneração que acompanha essa passagem, a impossibilidade de refazermos as nossas vidas e, por isso, a absoluta necessidade de as irmos fazendo sem pressa de chegar a lugares inexistentes. A felicidade é, neste contexto, uma miragem. Nenhuma cabana poderá salvar-nos de um sentimento de perdição inerente à própria condição humana. A ruína, aqui rodeada de árvores milenares, atapetada de musgo e de neve, coberta por lagos imensos, está dentro das personagens, reside no interior dos indivíduos e nenhuma fuga para o isolamento pode aliviá-la. Apenas a consciência da sua superioridade. Mark, o outro filho do casal, dedica-se à pesca do salmão, fuma charros uns atrás dos outros, é de poucas palavras. Num certo sentido, é ele e a sua infantilidade quem melhor se safa no labirinto da existência. Mantém algo de primitivo, esse princípio que todos buscam recuperar quando o tempo esgota as possibilidades de reencontrá-lo, um princípio esquivo que a toda a hora nos exige acções de acordo com o ser, absurdas mas livres, acções e decisões motivadas mais pela vontade do que pelo sacrifício. Não é egoísmo, é a negação da sobrevivência: é vida.

O ALMOCÁVAR JUDAICO

Vila Franca de Xira. 2011.






Dentro de mim, abatem-se paredes, casas, igrejas, aquedutos: no campo imaginariamente devastado, é, de novo, o burgo primitivo que me fala, na dolência vocal de uma canção sem música.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Daniel Filipe.

sábado, 16 de junho de 2012

ALEGRIA, PURA ALEGRIA


Cacilhas, Almada. 2011.






Reprimir o desejo, não só o dos outros mas também o nosso, ser o chui dos outros e de nós mesmos — é isto que dá tesão, e isto é ideologia: é economia. O capitalismo recolhe e possui o poder dos fins e dos interesses (o poder) mas tem um amor desinteressado pelo poder absurdo e não possuído da máquina. Com certeza que não é para ele nem para os filhos que o capitalista trabalha, mas para a imortalidade do sistema. Uma violência sem sentido, alegria, pura alegria de se sentir uma peça da máquina, atravessado pelos fluxos, cortado pelas esquizes. Põe-se assim na posição em que se é atravessado, cortado, enrabado pelo socius, à procura do lugar onde, de acordo com os objectivos e com os interesses que nos são impostos, se sente passar algo que não tem nem interesse nem objectivo.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Gilles Deleuze / Félix Guattari

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O QUE É A VIDA?


Lagos, Faro. 2012.






O que é a vida? É o brilho do pirilampo na noite. É o sopro dum bisonte no Inverno. É a sombra que corre sobre a erva e se come ao fim do dia.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Pé de Corvo.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #56





Quando os Pink Floyd surgiram em meados da década de 1960, rapidamente se percebeu estar ali uma fonte de energia diversa da produzida pelos conterrâneos The Beatles ou The Rolling Stones. Tinham uma música complexa, subvertiam os cânones da canção pop e não se deixavam contaminar pela postura meramente provocatória do rock’n’roll. Muito por influência de Syd Barrett, o alucinado fundador da banda, tinham uma aparência misteriosa, enigmática, cabalística. Foram, assim, rapidamente associados ao movimento psicadélico que então seduzia grande parte da comunidade hippie. Com Barrett, lançaram um álbum histórico: The Piper at Gates of Dawn (1967). A Saucerful of Secrets (1968) ainda mantém um pouco da atitude inicial, mas abre já portas para uma nova dimensão. Seguiu-se More (1969), banda sonora para um filme de Barbet Schroeder, e, no mesmo ano, este duplo Ummagumma. É, desde os tempos do vinil, o meu álbum preferido dos Pink Floyd. Composto por dois discos, um gravado ao vivo e o outro em estúdio, afirma definitivamente a banda face à ausência de Syd Barrett. No primeiro dos dois discos, assistimos a uma recriação em tempo real de alguns dos temas mais progressivos dos primeiros álbuns. Ao vivo, a prolixidade instrumental obrigava a um esforço suplementar de todos os elementos. A estranheza intensificava-se, transportando-nos para paisagens espaciais com uma forte componente de improvisação. A música dos Pink Floyd marcava a diferença por ir buscar influências a territórios até então pouco explorados pela música rock. Exemplos: do jazz de inclinação free à música dita étnica, daquilo a que hoje se chama world music (são claras as influências árabes em Set the Controls For The Heart of The Sun) à música erudita de cariz experimental. O segundo álbum, gravado em estúdio, tornava tudo isso evidente sem cair por um segundo na vulgaridade, ao organizar-se a partir dos contributos individuais, na composição, de cada um dos elementos da banda. Cada tema reproduz um imaginário diverso, a partir da exploração de um instrumento base. Há um gosto pela abstracção que diferencia claramente esta música, sendo possível encontrar em vários momentos de cada uma das composições fases de maior clarividência harmónica. O êxtase alterna com a melodia, o romantismo com o pânico, a contemplação com a angústia, ó épico com o concreto, o mistério com a transparência. Deve ser isto a genialidade.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

NÃO MAIS, MUSA, NÃO MAIS


Bica, Lisboa. 2012.





Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza
.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Camões.

terça-feira, 12 de junho de 2012

GUIMARÃES, 2012


Trocámos as conservas ao Cais do Sodré, tornadas chique por um revivalismo pouco convincente, pela caldeirada de enguias junto à Ria de Aveiro. Muitos dos melhores momentos da nossa vida, que não são assim tantos, estão associados à composição de uma mesa. Suporta-a mais a boa conversa e a indispensável bebida, possivelmente, do que a qualidade das iguarias, embora o paladar, não sendo exigente, se agrave ou adormeça conforme o tempero. São conhecidos os efeitos. Um homem é aquilo que come, dizia o outro. Nem tanto ao mar, nem tanto à ria. O homem também pode ser a ausência de alimento, uma certa fome, a nostalgia dos apetites.

Ou então a ironia estampada na fachada duma ruína, algo encontrado pelo caminho sem ter sido necessário andar à procura. É quase sempre assim, o melhor vem de ser surpreendente. E depois, espantados, dizemos: o meu sonho seria caminhar sobre as águas, voar, querer falar e não conseguir, a Bardot aos 25, a Sophia Loren a qualquer época do ano, o meu sonho seria dar cabo do futuro do pretérito do indicativo em nome de um agora impossível de ser sonhado. A verdade é que as mulheres de outros tempos continuam a excitar-me mais do que as d'agora. São como as casas em ruínas, deixam-nos a imaginação aos saltos. E falava eu de revivalismos.

Palpite-nos o coração na direcção do futuro. Digamos que os tempos prestam-se à memória. Ai que bom que era quando… E aí paramos, metemos travão na nostalgia, ninguém precisa conhecer os crimes pelos quais estamos condenados. Enquanto passeávamos, já antes ou depois da caldeirada, não sei, entrámos numa loja onde um pássaro cantava. Desconheço a espécie. Pássaros, flores e história de Portugal sempre foram as minhas fraquezas. Com a diferença de apenas os pássaros me causarem temor. Mas não seus cânticos. Aquele palreava especialmente bem. Dir-se-ia um Pavarotti entre a passarada. Ao escutá-lo, pensei: olha se assim falássemos nós uns com os outros, não seria tudo mais compreensível e aceitável? Ao contrário, organizámos línguas e linguagens para andarmos todos a dizer as mesmas coisas por palavras diferentes discordando de tudo quanto se diz e se repete. A língua roubou-nos as penas, foi o que foi, e sem penas nenhum voo se logra.

Chegados ao berço, somos uma espécie de recém-nascidos com todos os receios já arrumados. Afinal pouco há a recear. Estamos convencidos de termos tomado o rumo certo, ainda que precipitados para o fracasso. É inevitável. Seja como for, agradam-me os vales onde as cidades cresceram rodeadas de sombra. E sobre elas mais me agrada ainda a velocidade do céu, com suas embaixadas na terra, em avenidas tornadas históricas sabe-se lá por que razão de que atrocidades aí cometidas. E gosto da água repuxada, mesmo que em lagos murados. Gosto de ver as rotinas por entre a água, como quem faz da fonte essencial da vida uma espécie de lente para tudo quanto seria dispensável, tivéssemos nós ainda sonhos.

Ficaram todos dentro de castelos antigos, muralhas que guardam fantasmas de sonhos desfeitos. Um ligeiro nevoeiro, conveniente. Andam por ali como sinais deixados ao acaso. Estimulam a memória e a fantasia, é certo, ao mesmo tempo que nos desviam do presente, para o qual somos chamados apenas quando nos pretendem cobrar por uma subida ao cimo da torre central. Também gosto de castelos e nunca o disse, sobretudo quando são de claras. Julgo que sobre esses nunca o João Miguel Fernandes Jorge escreveu.


Mas Deus é grande, há que ter esperança. Tem mais propriamente quatro metros de altura, foi feito com filtros de cigarro e criado por um tal João Leonardo. Está em exposição na capela do Paço dos Duques, temporariamente ocupado pela saudável inquietação da arte contemporânea. Estimulante contraste entre um passado tornado clássico e um futuro ainda contemporâneo. Além da criatura gigantesca, gostei especialmente de um vídeo de João Onofre e de uma escultura de Julião Sarmento. Mas havia mais: Rui Chafes, José Pedro Croft, Fernanda Fragateiro, Adriana Molder, Ana Pérez-Quiroga, Miguel Palma, Filipa César, Yonamine, João Louro, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira. Nomes, muitos nomes, tremendos nomes, pena que tenhamos de decorá-los, melhor seria que todas as obras ficassem anónimas como grande parte das expostas no Museu de Alberto Sampaio. Talvez tornar-se clássico seja isso mesmo, perder o nome. Ou prescindir dele em favor do tempo.


Não é preciso dar nome às casas. Damos nome às praças, aos largos, às ruas, mas só muito esporadicamente damos nome às casas. Não é preciso. Os números fazem a vez dos nomes onde se busca apenas abrigo. Novamente inclinados para o céu, reparamos no cuidado colocado na conservação. E falava eu de conservas, e falava eu de revivalismo. A cultura carece de conservação. Um país não tem de ser uma lata de conserva, mas a cultura carece de conservação. Para que por vezes possamos olhar à nossa volta e nos sintamos identificados, integrados, acolhidos.


Foi junto ao Padrão do Salado, ao pé da Igreja de Nossa Sra. Da Oliveira, que o tempo começou a acelerar. Não irei repetir o que já foi pronunciado sobre o assunto. Apenas lembrar o seguinte: eu vi-me a mim próprio, ali mesmo, na noite anterior, passeando com um cigarro segurado pelas mãos cruzadas atrás das costas, eu vi-me ali mesmo, eu próprio, daqui a 40 anos. Chamem-lhe profecia, premonição, oráculo, chamem-lhe visão de um tonto, mas era eu. Estava careca como o meu pai, os poucos cabelos já todos brancos, curvado como um velho livreiro reformado. Caminhava lentamente, arrastando com pesar as pernas, olhando para a calçada como quem vê em cada cubo de pedra um enigma por decifrar. E trazia aceso um cigarro que nunca levava à boca, deixava-o a queimar atrás das costas enquanto à minha volta, já meia-noite feita, grupos incontáveis de adolescentes bebericavam seus engates. Ali andava eu, sozinho, a micar as sombras. E a olhar para mim, dois amigos no corredor dos quarenta, ainda caminhando na direcção da porta, falando de tudo e mais alguma coisa como sempre falaram: discordando, pois a discordar o tempo passa mais depressa e o brandy sabe melhor. E eu que por ali andava quarenta anos depois de mim mesmo, perguntava-me: por onde anda agora o meu amigo de outrora?


É fácil de adivinhar, os amigos não esmorecem, são para a vida. Mesmo ausentes largos tempos, reencontram-se. Sentam-se a uma mesa, na tasca mais brejeira, e partilham malgas de vinho verde tinto, um prato de nozes e amêndoas oferecido pela casa; ao fundo, as compotas sedutoras e, entre os dois, milhares de aventuras para serem recordadas. Adiam-se os portos numa festa popular, uma travessa de leitão e negalhos para o caminho. Depois a vida retoma os passos do inferno, mesmo que continuemos a cantar como os pássaros da Ria. Enjaulados, mas ufanos.


Fotografias: Mário Calado Pedro.