segunda-feira, 30 de julho de 2012

TÊM OUVIDO AS LETRAS DAS CANÇÕES?!


Calçada da Glória, Lisboa. 2012.




Mentira e falsidade irrompendo da desconfiança da populaça pela elite para onde quer que olhemos, desconfiança pelos intelectuais a que Tolstói chamava indignos de confiança, uma gente inútil e artificial que se nutre não da experiência mas de livros que nunca combateu numa guerra ou lavrou um campo e por isso os seus livros não produzem senão mentiras mas claro, vocês não acreditam em mim porque eles são moeda corrente não é. A mentira é a moeda corrente e com isto voltamos ao início, não a mentira pura e sem mistura mas aquilo a que Platão chama a mentira por palavras essa é apenas uma espécie de imitação, uma imagem vaga que por vezes é útil por exemplo quando temos pela frente um inimigo todos o fazemos não é? Mas porra Tolstói diz que é nosso dever edificar as massas, que é nossa vocação edificar a Humanidade mesmo daqueles que pensam que se pode educar sem saber nada já que os artistas e os poetas educam inconscientemente, e que a música, a literatura, a pintura todas as artes não são mais que disparates e mentiras se as massas não as aprovam porque, onde é que está, ah aqui. "Se eles não entendem nem querem entender a nossa linguagem literária será talvez por esta não lhes servir e eles se encontrarem no processo de criar a sua própria literatura" isto dito por Tolstói, devemos escrever o que o público deseja ou não escrever nada, "nós somos milhares e eles milhões" escreve Tolstói, obedeçam à lei do maior número falar da ditadura da maioria aqui está Ezra Pound a alargar o fosso quando diz um artista sério não permite que os valores do público modelem a sua própria visão, doutro modo está a mentir, mas não podes negar que Tolstói era um artista sério pois não?



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: William Gaddis.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #61





Em 2006, a melhor banda de post-rock juntou-se ao melhor escritor de canções da actualidade para fazer um álbum de versões: The Brave and The Bold (2006). Os Tortoise, para quem não saiba, são oriundos de Chicago e reúnem músicos excepcionais como Dan Bitney, John Herndon, Douglas McCombs, John McEntire, entre outros. Compõem uma música ecléctica alicerçada numa formação jazzística sólida, que mistura elementos de krautrock com experiências minimalistas. Millions Now Living Will Never Die (1996) é uma obra-prima. Já Bonnie ‘Prince’ Billy, talvez o mais relevante dos muitos alter-egos de Will Oldham, é um escritor de canções nascido em Louisville que começou por dar nas vistas pela mais genuína das razões: canções descarnadas, numa voz sofrível mas suficientemente sofrida para ser convincente, melodias despretensiosas sob influência do melhor que a música country nos ofereceu. É o Bob Dylan do futuro ainda antes de Dylan ser passado. The Brave and The Bold junta, deste modo, aqueles de quem esperamos o melhor. Quando apareceu, não excitou os fãs. (Re)escutado agora, vezes sem conta, seis anos depois, soa-nos a algo de muito especial. Há versões com arranjos claramente concebidos à medida de Will Oldham: Thunder Road (Bruce Springsteen), Some Say (I Got Devil) (Melanie) e Calvary Cross (Richard Thompson) resultam na perfeição. Não é exagero considerar que, em alguns casos, melhor que nos originais. E há igualmente doses generosas de experiências rítmicas e melódicas que resgatam os temas da banalidade conferida pelo tempo, arranjos onde a electrónica se sintoniza com o rock em registos que ajudam velhas canções a ressuscitar com máscaras respeitadoras do rosto escondido por detrás. Dois momentos a sublinhar: Will Oldham a cantar em português Cravo e Canela e o tema Pancho, de Don Williams, numa interpretação simplesmente espantosa.

UM POEMA DE LOUIS MACNEICE


O CÁLICE DE BRANDY

Deixa que mais uma vez ganhe forma nas suas mãos –
O instante embalado como um cálice de brandy.
Sentado sozinho na sala de jantar vazia…
Começa a cair neve dos candelabros
Acumulando-se à volta das garrafas e das pernas da mesa
E entupindo a passagem da porta giratória.
O último a jantar, como um boneco de ventríloquo
Abandonado pelo mestre, contemplando-o defronte, implora:
“Deixa que mais uma vez ganhe forma nas minhas mãos”.



Versão de HMBF.

domingo, 29 de julho de 2012

A NOSSA VIDA É TÃO CURTA, A NOSSA MISÉRIA TÃO ÍNFIMA


Fábrica de Braço de Prata, Lisboa. 2011.







Ser mau tornou-se uma necessidade contemporânea. Ser perverso um ideal... que infelizmente poucos saboreiam. O homem não é mais irmão do homem, é seu concorrente, é seu rival. A fortuna dele não quer dizer o prémio dum esforço respeitável: representa apenas a dentada em quinhão que nos pertence. Por cada um que morre, menos uma boca esfomeada a defraudar-nos. Acresce além disso que os poderosos representam quase sempre, a par uma concorrência enérgica, por via de regra uma extorsão metodizada - e legítimo desforço é que nos riamos quando eles tombam, e nos vinguemos deles, apupando-os depois de mortos, uma vez que nos foram prejudiciais.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Fialho de Almeida.

sábado, 28 de julho de 2012

LAS BACTERIAS Y LOS VIRUS FUERON LOS ALIADOS MÁS EFICACES.


Anjos, Lisboa. 2011.


Los europeos traían consigo, como plagas bíblicas, la viruela y el tétanos, varias enfermedades pulmonares, intestinales y venéreas, el tracoma, el tifus, la lepra, la fiebre amarilla, las caries que pudrían las bocas. La viruela fue la primera en aparecer. ¿No sería un castigo sobrenatural aquella epidemia desconocida y repugnante que encendía la fiebre y descomponía las carnes? «Ya se fueron a meter en Tlaxcala. Entonces se difundió la epidemia: tos, granos ardientes, que queman», dice un testimonio indígena, y otro: «A muchos dio muerte la pegajosa, apelmazada, dura enfermedad de granos». Los indios morían como moscas; sus organismos no oponían defensas ante las enfermedades nuevas. Y los que sobrevivían quedaban debilitados e inútiles. El antropólogo brasileño Darcy Ribeiro estima que más de la mitad de la población aborigen de América, Australia y las islas oceánicas murió contaminada luego del primer contacto con los hombres blancos.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Eduardo Galeano.

TRABALHEI. O QUE É QUE QUERES QUE EU TENHA FEITO MAIS?


Seixal, Setúbal. 2011.



Era sempre a mesma coisa: Hélène recebia-o com prazer, mas ao fim de cinco minutos estava aborrecida ao pé dele. Examinava-o com um olhar crítico; era um rapaz bonito com a sua guedelha loira e a sua pele fresca, salpicada de ruivo; mas, por baixo da testa saliente, os olhos eram demasiado doces. A concha era dura mas transparente; apercebia-se através dela um inocente molúsculo igual ao que ela descobria em si própria.
- Em que estás a pensar? - perguntou Paul.
- Descobri que a vida não é muito divertida - disse Hélène.
- Tu tens sorte, apesar de tudo - disse Paul. - Pensa que se tivesses de trabalhar oito horas por dia num escritório ou numa fábrica...
- Mais vale uma pessoa suicidar-se - disse Hélène. Acrescentou num tom agressivo: - Pergunto a mim mesma como fazes para estar sempre de bom humor.
- Sabes, entre os operários, não passamos o tempo a ocuparmo-nos com os humores de cada um - disse Paul um pouco secamente
.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Simone de Beauvoir.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O ANÃO E A NINFETA

Quando soube da atribuição do Prémio Camões a Dalton Trevisan (n. 1925), senti, em doses equivalentes e ao mesmo tempo, uma enorme alegria e uma profunda tristeza. Alegria pelo autor que Trevisan é, tristeza por me parecer praticamente impossível um contista português vir a merecer tamanho reconhecimento. É verdade que, nos últimos anos, o conto na sua vertente mais curta tem merecido atenções editoriais outrora irreconhecíveis, muito por culpa do acolhimento dedicado à obra imensa de Gonçalo M. Tavares. Em tempos, Pedro Paixão também ameaçou, com alguns dos seus livros, inverter a situação, mas acabou, no final, a contribuir para uma ainda maior desconfiança dos leitores face aos contos reduzidos à sua estrutura óssea. Já Alface nunca teve do público nem da crítica a atenção que merecia. Sob o pretexto da inexistência de leitores interessados, os editores recusam investir em autores que elevem a prosa breve a um adequado estatuto de exigência. O panorama só não é desolador porque, ao ritmo de uma infecção urinária, a coisa ainda vai pingando.

Ao ler agora O Anão e a Ninfeta (Record, 2011), colectânea mais recente do escritor brasileiro, que me chegou em envelope generoso enviado da Noruega, acompanhado de mais uma dúzia de títulos que a seu tempo serão aqui partilhados, volto a experimentar a bipolaridade inicialmente confessada. Dalton Trevisan tem uma prosa gingona com rara capacidade de expor ao pormenor, e através de pormenores, as dissonâncias da vida quotidiana. As suas personagens resultam de uma observação minuciosa do ambiente urbano, ora mais hostil, ora algo patusco, embora o autor revele, nas entrelinhas, um certo «pavor ao caricato». Anões com apetites sexuais insaciáveis, velhos que coleccionam livros por devoção amorosa às caixeiras das livrarias, putas, heróis improváveis, falsas beatificações, amores impossíveis e paixões invulgares, o rasgo inesperado das crianças, os martírios da vida doméstica, tudo se mistura em contos breves, por vezes de linhas, outras vezes de meia dúzia de páginas, ou ainda partidos em verso, quais pequenos dramas, poemas minimais disfarçados de micronarrativas:

CAQUIS

A linda noivinha
de avental florido
serve a mesa
hoje inventei uma salada de caqui
pró meu amor
admirando as graças da jovem
ele já se promete
o grande guloso
tão outras saladas
bem outros caquis


No entanto, neste livro em particular ressalta a história do coleccionador de livros – retomada nos contos O Colecionador, A Caixeira e Rute, Meu Bem -, um velho apaixonado pela balconista de uma livraria, perdido entre o desejo incontrolável e o medo do ridículo, num labirinto onde a dignidade adquire a textura de uma oportunidade perdida, desenganado pela desconfiança e remoído pelos cotovelos e, em certa medida, no corno da ilusão: «Ai, dores malditas de amor. Que assunto mais usado e repetido. Eterno cantiquinho monocórdico. / Nem sequer merece um conto» (p. 96). A velhice uiva noutras narrativas, uma velhice que aproxima os homens adultos das crianças devido a uma certa ingenuidade sentimental que o autor expõe complacentemente. Há que ser compreensivo, mesmo quando a paixão murcha no leito da cama doméstica e outros demónios rugem dentro de um homem acossado pelo desejo. Largo aqui mais um, a ver se estimulo apetites transatlânticos:



A VIAGEM

— Como foi de segunda lua de mel?
— Quer mesmo saber?
A viagem desde o início arruinada pela companhia sabe de quem.
Rabiscava as iniciais em toda sagrada coluna de templo grego.
Murchou a delícia do mais carnoso figo siciliano.
Converteu o vinho francês da melhor safra em vinagrão azedo.
E o pior é que, sempre juntos, nem podia rezar que o avião dele caísse
.


Dalton Trevisan, O Anão e a Ninfeta, Editora Record, Rio de Janeiro, 2011.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

PEOPLE DIE AS YOU ELECT NEW APOSTLES OF NEGLECT


Telheiras, Lisboa. 2011.


As you sip your brand of scotch,
crush a roach or scratch your crotch
as your hand adjusts your tie,
people die.

In the towns with funny names
hit by bullets, caught in flames,
by and large, not knowing why,
people die.

In small places you don't know
of, yet big for having no
chance to scream or say goodbye,
people die
.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Joseph Brodsky

segunda-feira, 23 de julho de 2012

CONSIDEREMOS O QUE SE PASSA DIA-A-DIA EM VOLTA DE NÓS.


Av Fontes Pereira de Melo, Lisboa. 2011.




A causa principal da miséria pública é o número excessivo de nobres, ociosos zangãos que vivem à custa do suor e do trbalho de outrém, e que no cultivo das terras exploram rendeiros até ao osso, para aumentarem os seus rendimentos.


Fotografia: Jorger Aguiar Oliveira.
Texto: Tomás Morus.

domingo, 22 de julho de 2012

AO LONGE, MUITO LONGE...


Cruz Quebrada, Oeiras. 2011.


...dentro de horizontes
que abertamente se abrem às escâncaras
para a nocturna paz das bestas monstruosas,
de côncavas bocas bafejantes, garras retorcidas,
peludos e sedosos corpos, miriápodes, crustáceos
vertiginosos, lentamente moendo o refluir da vida,
gritarei até morrer que é um pesadelo apenas,
um pesadelo da humanidade vil,
não porque se venda, não porque assassine,
mas porque se consente em tudo o que não seja
a liberdade inteira no silêncio inteiro
de humildes assistirmos ao que somos
qual nascemos, qual somos, qual sorrimos...




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Jorge de Sena.

DO NATURAL





Publicado originalmente em 1988, Do Natural – Um Poema Elementar (Quetzal, Junho de 2012) marcou a estreia literária de W. G. Sebald (n. 1944 – m. 2001). Chamar-lhe elementar pode ser um eufemismo. Na realidade, são três textos onde se cruzam matérias diversas. No primeiro deles, intitulado Como a neve nos Alpes, Sebald debruça-se sobre a vida e a obra do pintor Matthaeus Grünewald de Aschaffenburg (n. 1470 – m. 1528). Contemporâneo de Dürer (n. 1471 – m. 1528), de seu verdadeiro nome Mathias Gothart Neithart, Grünewald permaneceu obscuro ao longo dos séculos, a ponto da sua obra mais importante, O Retábulo de Isenheim, ter sido durante muito tempo atribuído a Dürer. Na realidade foi Grünewald quem o concebeu para o Mosteiro da Ordem de Santo Antão em Isenheim, na Alsácia. Sebald dá conta dos factos, nomeia fontes, recria percursos, constrói um puzzle onde a intenção mais clara parece ser a de recuperar a memória e, desse modo, fazer justiça à História. Trata-se de um texto de pendor biografista onde a erudição extrema suporta uma meditação ecfrástica, concentrando-se o olhar na obra para daí retirar conclusões mais profundas. O texto reflecte as imagens do pintor como uma espécie de sombra projectada nas paredes de uma caverna, percebendo-se, neste entrecruzamento de olhares e de observações, a busca de um saber que tem a Natureza por objecto: «O torcicolo de pânico que se vê / em todas as figuras da obra de Grünewald / que expõem a garganta e muitas vezes viram / a cara para uma luz ofuscante / é o modo extremo de o corpo exprimir / a falta de equilíbrio da natureza / que entra às cegas em experiências brutas, / uma após outra e, / qual biscateiro louco, logo / desfaz o que acaba de fazer. / Ver até onde pode ir / é o seu único propósito, germinar, / perdurar, propagar-se, / em nós, através de nós e através das / máquinas criadas nas nossas cabeças / numa balbúrdia única, / enquanto nas nossas costas já as verdes / árvores largam as suas folhas e, / nuas, como tantas vezes nos quadros de / Grünewald, se erguem ao céu, / cobertos os ramos mortos de uma / substância musgosa que escorre» (p. 28). Se os mistérios da vida, nomeadamente no que têm de estranha relação do homem com a Natureza, são aqui penetrados através da obra de um pintor obscuro, no segundo texto, intitulado Quedara-me eu no fim do mar, o nervo óptico concentra-se nas aventuras do naturalista Georg Wilhelm Steller (n. 1709 – m. 1746), companheiro de Vitus Bering (n. 1680 – m. 1741) na famosa expedição que tinha por objectivo explorar a Sibéria e em viagens pela costa do Alasca. A “arte de descrever” é sublinhada pelo texto de Sebald, que não evita pormenores quando pretende desenhar atmosferas onde a morte de Bering e a experiência da expedição contribuem para uma dramatização da vida do explorador: solidão, agruras, tristeza, depressão, “uma negra ruína”, a consciência de que tudo definha e de que a velhice marca o passo da existência. Mas, mais importante do que qualquer outra descoberta, esta: «Durante o Inverno / o doutor alemão ensina / as crianças coriaques numa minúscula / escola de madeira, escreve, / quando o gelo quebra, / memorandos em defesa / das tribos indígenas que o Comando Naval de Bolcheretsk / maltrata e priva de direitos, / do que resulta / o envio de uma carta contra ele, / a realização de interrogatórios, / daí os mal-entendidos / a que se seguem prisões, e Steller / percebe plenamente / a diferença entre natureza e sociedade» (p. 70). Esta tomada de consciência vislumbramo-la também no último dos três textos que compõem este livro - A noite escura faz-se ao caminho -, embora aqui o sujeito poético seja já o próprio autor, na posição autobiográfica de quem procura nos vestígios da memória o princípio de uma organização mental sobre quem se é no lugar onde se está. Os avós e os pais, os lugares da infância e da maturidade, observados através de fotografias ou revividos pela memória, dão lugar a um quadro sobre o essencial: «O que morreu / morto está. De amar / vem a vida. Não sei quem me diz, o quê? Como? / Onde ou quando? Agora / o amor não é nada? Ou é tudo? / Água? Fogo? Bem? / Mal? Vida? Morte?» (p. 103) Do Natural não é apenas, deste modo, um poema elementar, é um poema essencial porque nele vislumbramos a pequenez do homem na periferia do Universo. Excelente, a imagem da capa.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

NUNCA TEVE UMA SÚBITA NECESSIDADE DE SIMPATIA, DE AUXÍLIO, DE AMIZADE?


Almada, Setúbal. 2012.






Sim, com certeza. Eu aprendi a contentar-me com a simpatia. Encontra-se mais facilmente e, depois, não nos impõe nenhum compromisso. «Creia na minha simpatia», no discurso interior precede imediatamente «e agora ocupemo-nos de outra coisa». É um sentimento de presidente do Conselho: obtém-se muito barato, depois de catástrofes. A amizade é menos simples. A sua aquisição é longa e difícil, mas, quando se obtém, já não há meio de nos desembaraçarmos dela, temos de fazer frente. Sobretudo, não acredite que os seus amigos lhe telefonarão todas as noites, como deviam, para saber se não é precisamente essa a noite em que decidiu suicidar-se, ou, mais simplesmente, se não tem necessidade de companhia, se não está com vontade de sair. Oh, não, se telefonarem, esteja descansado, será na noite em que já não está só e em que a vida é bela.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Albert Camus.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

TODOS OS GRANDES DA TERRA E TODOS OS NOBRES ENFORCADOS E ESTRANGULADOS COM AS TRIPAS DOS PADRES


Parede, Cascais. 2011.






Numa palavra, tudo o que os vossos padres e doutores vos pregam com tanta eloquência sobre a grandeza, a excelência e a santidade dos mistérios que vos fazem adorar, tudo o que vos contam com tanta gravidade da certeza dos seus supostos milagres e tudo aquilo que vos papagueiam com tanto zelo e tanta segurança sobre a grandeza das recompensas do céu e sobre os horríveis tormentos do inferno não passam, no fundo, de ilusões, de erros, de mentiras, de ficções e de imposturas inventadas inicialmente por políticos subtis e manhosos, continuadas por sedutores e por impostores, posteriormente recebidas e seguidas cegamente por povos ignorantes e rudes, e, finalmente, mantidas pela autoridade dos grandes e dos soberanos da Terra que favoreceram os abusos, os erros, as superstições e as imposturas, que as autorizaram mesmo com as suas leis a fim de manter assim o comum dos homens com a rédea curta e fazer deles tudo o que quisessem.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Jean Meslier.

DA VIDA DELA

Ela usava pernas.

Usava saias, curtas, por causa das pernas.

As pernas eram brancas, por causa dos braços dela, e dos seios: brancos, brancos.

À noite era mais branca ainda. A noite é que era negra, como a alma dela.

A alma dela queimou-se muitas vezes: os pais eram tão baixinhos, tão estúpidos.

Mas queixava-se nunca, ela.

O pai dela era canalizador. Canalizava o seu rancor para a mãe dela. E para ela.

A mãe dela era canalizada para a telenovela.

Havia de subir na vida, ela, como estratagema para equipar os pais com asas. E com casas: havia de ser arquitecta! Se as casas voassem os pais seriam menos baixinhos, menos estúpidos.

Um dia o pai entrou pelo cano adentro e desapareceu.

A mãe entrou pela telenovela adentro e desapareceu.

Foi assim que ela saiu de casa. Sozinha, sem ninguém. Ou seja: branca.

Na rua, por momentos, respirou feliz. Mas depois chorou que se fartou e assoou o nariz.

Estava numa rua em que passavam carros negros.

Ela via os carros passar. Não eram anjos, eram carros. Se fossem anjos haviam de dirigir-se ao palácio do Rilke, aquele senhor que falava de anjos sempre que tinha a barriga cheia.

Ela nem sequer tinha fome. Nem asas, só as pernas. As pernas brancas do costume.

Parou um carro negro e uma boca aproximou-se dela:

- Entras?

Ela entrou. E o carro desapareceu por fora, e por dentro era outra coisa.

Já na casa, o senhor careca pôs as mãos nas pernas dela. No ar o cheiro do incenso de canela.

Ela passou as mãos nas pernas do senhor. E disse-lhe:

- Podemos conversar, prometo que não te conto a história da minha vida.

O senhor achou estranho:

- Conversar?

- Sim - disse ela. - Podemos ser amigos, ou quase.

- E o sexo? - perguntou o senhor, atrapalhando-se como um novato.

- Pois, não acho boa ideia conversar. Vamos comer, e se tiveres música escolhe alguma bem-disposta.

- Eu não vim aqui para... - ia a dizer o senhor, mas arrependeu-se.

O senhor tornou a vestir as calças. Foi à cozinha e abriu o frigorífico. Tinha comida enlatada, sopa, alguns iogurtes. Tirou estas coisas e pô-las em cima da mesa.

Ela comeu a sopa e dois iogurtes. Ele comeu sopa e ficou a olhar para ela.

E não houve conversas metafísicas, nem investigações físicas. Foram para a sala e puseram-se a ouvir música. Ela dançou, ele também dançou.

Ficaram cansados e o senhor disse que ela podia dormir no outro quarto.

No dia seguinte, quando o senhor acordou, ela já não estava lá. E o senhor ficou preocupado, porque queria voltar a vê-la.

À mesma hora do dia anterior o senhor voltou a passar na mesma rua. À mesma hora do dia anterior, ela entrou num carro negro, metendo primeiro a sua perna esquerda, branca, e depois a sua perna direita... branca. Reparou que se dirigiam para um sítio diferente. Logo percebeu: aquele senhor não era o do dia anteiror.

Saíram do carro e pouco depois entraram na casa do segundo senhor. Estava lá o senhor do dia anterior.

- O que é isto? Um assalto? - perguntou o segundo senhor.

- Não, esteja descansado - respondeu o primeiro senhor. - Estava à procura dela, e vi-a passar no seu carro. E depois, é só isto... antecipei-me!

Desta vez foi ela a escolher a música. Ainda havia sopa no frigorífico, mas ela resolveu tirar uns pastéis de bacalhau do congelador. Pôs a água a ferver para o arroz. Quando regressou à sala, os dois senhores ainda estavam lá.

Depois conversaram os três. Mas não conversaram muito. Beberam um licor de poejo.

Pareciam amigos. Mas a certa altura ela disse:

- Vou sair, quero ver o sol nascer. Hoje quero estar sozinha. É a minha segunda noite fora de casa.

- Podemos ir contigo - disseram os dois senhores.

- Voltaremos a encontrar-nos, sim. Mas hoje vou sozinha.

Saiu de casa e dirigiu-se para as docas.

Ouviu o som das gaivotas. O cheiro a peixe à passagem na lota.

Os primeiros barcos chegavam da pescaria da noite com as redes cheias. O mar estava calmo, nem as ondas quebravam.

A ondulação tocava na areia com o impulso da água a conhecer as pedras, mudando-as de lugar.

Uma brisa afastou-lhe os cabelos e ela sentiu frio. Cruzou os braços sobre o peito e encolheu a cabeça entre os ombros.

Depois pensou que na terceira noite começaria a cobrar 100 euros, só pela companhia, já que tencionava continuar virgem. Tinha 15 anos acabados de fazer. Precisava de juntar dinheiro para continuar a estudar. Não se tratava de acreditar no amor. Era um problema prático (a falta de dinheiro) mas não pretendia fazer sexo com estranhos.

A vida dos peixes é mais bela que a dos pescadores, pensou ainda, mas achou que só estava a pensar nisto por se tratar de uma imagem poética.

Estava com frio e a vida era dela.




Rui Costa, in Da Vida Bela, vários autores, coordenação de Sara Monteiro, Fundação Odemira, Setembro de 2010, pp. 17-24.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #60





Ao longo dos anos, as atenções vão-se voltando para coordenadas diversas — conforme movimentos, tendências, modas ou simples aparições momentâneas que nos fazem dar mais atenção ao que até então desconhecíamos. Foi assim, a determinada altura, com a música do norte da Europa, como já tinha sido com a pop de Manchester ou o rock de Seattle. Entre múltiplos projectos então revelados, os islandeses Sigur Rós impuseram-se como um dos mais atraentes. A seu favor jogava o facto de não cantarem em inglês, opção arrojada que contribuiu para o culto da diferença ao mesmo tempo que reclamava o valor da música por si só. Ágætis byrjun (1998) revelou-os num estado de consolidação musical irresistível. A capa remete para um universo intra-uterino, mostrando um anjo em estado fetal. E os primeiros sons introduzem-nos, precisamente, nessa outra dimensão da realidade. O “sonar” de Svefn-G-Englar e a pulsação de Starálfur, temas iniciais, abrem-nos as portas de um útero onde germina a célula de uma outra vida. O álbum aponta, então, para uma viagem às raízes, continuada no desenvolvimento e na expansão de uma musicalidade épica e comovente. Mesmo quando assume influências reconhecíveis — a harmónica de Hjartaõ Hamast (Bamm Bamm Bamm) é tipicamente bluesy —, a música dos Sigur Rós evolui para territórios virgens e, por isso mesmo, tocantes. Há neles uma estranha capacidade de insuflar emoção no imo das pedras. Só escutando, que ouvindo já não basta.

terça-feira, 17 de julho de 2012

NÃO SEI DE NADA, DEUS, NÃO SEI DE NADA!...


Lagos, Faro. 2012






Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Florbela Espanca.

PRIMEIRA VIAGEM

A poesia é como a água, intromete-se por todo o lado. Por mais que a tentemos barrar, ela descobre sempre uma fenda, minúscula que seja, para atravessar as barreiras que lhe são impostas e inundar terrenos, salas, corpos. Os últimos anos têm sido de cimento armado para a poesia. As editoras com distribuição alargada ou deixaram de publicar poetas ou publicam apenas o que deles vai dando à costa em prosa. Fica o poema confinado a distribuições restritas e deficientes, pequenas editoras e projectos editoriais quase invisíveis, edições de autor levadas de porta em porta, de mão em mão, de boca em boca. Atravessamos um período de respiração assistida, no que à poesia diz respeito. A visibilidade nas livrarias tende, deste modo, a encolher, tão atafulhados que estão os espaços com a parangona das novidades, promoções duvidosas e campanhas oportunistas. No entanto, a poesia persiste, os poetas insistem e os livros vão aparecendo às centenas. Se têm leitores, não sabemos. Os leitores são um espelho da sociedade, e a sociedade não é exigente, alimenta-se do supérfluo e do superficial, cultiva o efémero em despreza o perene. Prefere o espectáculo à reflexão, o ruído ao silêncio. A sociedade convive pessimamente com o silêncio, por isso andam as pessoas pelos locais mais barulhentos, procuram conforto na confusão das vozes, metem auscultadores nos ouvidos, colam os telemóveis aos tímpanos, desesperam se não falam, porque a sociedade actual tem uma ânsia tremenda de conversa. Sobretudo fiada. O preâmbulo vai longo, é certo, mas impõe-se quando nos deparamos com um livro de um autor português publicado por uma livraria portuguesa e galega, de seu nome Orfeu, sedeada em Bruxelas. Em 2010, fizeram-se 1000 exemplares de primeira viagem. O número assusta, tendo em conta as tiragens caseiras de 100, 150 e pouco mais exemplares, quando o nome parece merecer o risco. Em Portugal, Fernando Machado Silva (n. 1979) jamais mereceria o risco. Ninguém sabe quem é. Um doutorando de Filosofia Contemporânea jamais merecerá a atenção, vá lá, de um figurante nos programas da Júlia Pinheiro. Abre o livro com duas epígrafes sacadas a Joaquim Manuel Magalhães e Helder Moura Pereira, o que poderia dizer algo acerca desta poesia não fosse esta uma poesia que procura mais dizer do que dizer-se. O esforço colocado na organização dos poemas é notório, repartindo-se a produção de cinco anos (2004-2009) por cinco partes: apresentação, cartas e promessas, confissões, memórias, despedidas. O resultado, ainda que de um modo algo involuntário, acaba por sugerir um drama e seus respectivos actos. Da partida de Lisboa à manhã de todas as noites, o que encontramos é um processo de separação/distanciamento com objectos e focos de análise díspares. Por vezes, penetramos os campos do amor; outras vezes, enredamo-nos em cenas domésticas; não raramente, cedemos ao lirismo intimista de quem olha para si com refinado espírito autocrítico. Tome-se de exemplo este ALGUMA COISA HÁ-DE FICAR: «não há nada de bom / nisto que eu sou / ficando todos / os esforços mortos // mau filho / desinteressado dos laços / que tanto lhe querem bem / péssimo amante / precoce infértil possessivo ciumento / pior amigo que nunca / tendo todos os meios / de comunicação e em nenhum pega // sou no fundo / Caim Iago Otelo / melhor deixarem-me / a um canto junto das ervas daninhas / talvez depois de morto / uma gerbéria dos meus pés». Desenha-se o auto-retrato em minúsculas, como o daninho das ervas, e recorrendo a pontuação mínima, como qualquer coisa de respiração incontida que vamos detectando ao longo dos poemas (sobretudo quando se alongam). A desmedida não é excessiva, parecendo-nos por vezes que, aqui e acolá, um corte nas ervas não ficaria mal. Há, no entanto, motivos vários de interesse na poesia de Fernando Machado Silva: a deslocação da urbe para o campo, a opção por uma auto-ironia em detrimento do pessimismo de pacotilha de quem anda com a ruína pendurada ao pescoço, um confessionalismo teatral que incorpora a vulgaridade de certas imagens no tecido exigente de temas ditos nobres. Alguns remates escusados, é certo, uma revisão que ficou por fazer, é verdade, mas, ainda assim, um bom prenúncio.

Ó RAPAZ, É ZEUS TONITRUANTE QUE DETÉM O DESFECHO DE TUDO QUANTO EXISTE E TUDO DISPÕE COMO QUER.


Seixal, Setúbal. 2011.





Não há inteligência nos homens, mas vivemos
efémeros como gado, sem sabermos
como o deus terminará cada coisa
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Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Semónides.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O ESPANTOSO DE PORTUGAL




O espantoso de Portugal, no seu conjunto, com o povo do Minho e do Algarve, povo do Pará ou do Rio Grande, povo da Lunda ou de Sotala, povo da Taipa ou de Bankau, e até povo dos «papeamentos cristãos» de Singapura ou Curaçau, é que se tenham resistido praticamente incólumes a todo o desvario de vida que tem rolado de imitação a imitação, de barreira a barreira, e de engano a engano, sempre com a ideia, não das limpas, constantes asas que todos vejam bem claras no céu, mas das trocas de falcão e coruja em que foi mestre o Príncipe a que historiadores do mesmo naipe chamaram de Perfeito; o miraculoso destes povos todos, alentejano ou macua, kamaiurá ou malaio, é que tenham sobrevivido a séculos de contínua tentativa de deformação que têm sido os nossos sistemas políticos, as nossas instituições educacionais e as nossas práticas religiosas, tudo de acordo com um capitalismo que repugna às suas tendências de generosa solidariedade; que tenham ultrapassado, sobretudo, os exemplos que tantos de cima lhe deram.
Exemplos que não podiam ser outros: afastados do povo a que deviam pertencer e que deviam servir; querendo-lhe mal como a parente pobre e ignorante que importuna e humilha a quem subiu; repelidos por sua vez, como era fatal, pelas culturas europeias, que têm outras origens, outros comportamentos e principalmente outro destino - o da falência; caem no sentimento de que são inferiores a si próprios e a ele reagem, fantasiando virilidades que não tiveram, representando valentias de que não deram provas, orgulhando-se de obras que sentem ruins, intitulando-se o mais possível, condecorando-se o mais possível, falando o mais possível, fotografando-se o mais possível; inferiores o mais possível porque se quereriam superiores; e, julgando-se incuráveis, mais delirando a cada dia que passa; dando-lhes até às vezes o delírio para a humildade circunspecta, isto é, a que olha à volta; e para a falinha comedida, isto é, a calculada e mansa.


Agostinho da Silva, in Educação de Portugal.

sábado, 14 de julho de 2012

PESCADOR DE ILUSÃO


Elevador do Lavra, Lisboa. 2012.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.