terça-feira, 17 de julho de 2012

PRIMEIRA VIAGEM

A poesia é como a água, intromete-se por todo o lado. Por mais que a tentemos barrar, ela descobre sempre uma fenda, minúscula que seja, para atravessar as barreiras que lhe são impostas e inundar terrenos, salas, corpos. Os últimos anos têm sido de cimento armado para a poesia. As editoras com distribuição alargada ou deixaram de publicar poetas ou publicam apenas o que deles vai dando à costa em prosa. Fica o poema confinado a distribuições restritas e deficientes, pequenas editoras e projectos editoriais quase invisíveis, edições de autor levadas de porta em porta, de mão em mão, de boca em boca. Atravessamos um período de respiração assistida, no que à poesia diz respeito. A visibilidade nas livrarias tende, deste modo, a encolher, tão atafulhados que estão os espaços com a parangona das novidades, promoções duvidosas e campanhas oportunistas. No entanto, a poesia persiste, os poetas insistem e os livros vão aparecendo às centenas. Se têm leitores, não sabemos. Os leitores são um espelho da sociedade, e a sociedade não é exigente, alimenta-se do supérfluo e do superficial, cultiva o efémero em despreza o perene. Prefere o espectáculo à reflexão, o ruído ao silêncio. A sociedade convive pessimamente com o silêncio, por isso andam as pessoas pelos locais mais barulhentos, procuram conforto na confusão das vozes, metem auscultadores nos ouvidos, colam os telemóveis aos tímpanos, desesperam se não falam, porque a sociedade actual tem uma ânsia tremenda de conversa. Sobretudo fiada. O preâmbulo vai longo, é certo, mas impõe-se quando nos deparamos com um livro de um autor português publicado por uma livraria portuguesa e galega, de seu nome Orfeu, sedeada em Bruxelas. Em 2010, fizeram-se 1000 exemplares de primeira viagem. O número assusta, tendo em conta as tiragens caseiras de 100, 150 e pouco mais exemplares, quando o nome parece merecer o risco. Em Portugal, Fernando Machado Silva (n. 1979) jamais mereceria o risco. Ninguém sabe quem é. Um doutorando de Filosofia Contemporânea jamais merecerá a atenção, vá lá, de um figurante nos programas da Júlia Pinheiro. Abre o livro com duas epígrafes sacadas a Joaquim Manuel Magalhães e Helder Moura Pereira, o que poderia dizer algo acerca desta poesia não fosse esta uma poesia que procura mais dizer do que dizer-se. O esforço colocado na organização dos poemas é notório, repartindo-se a produção de cinco anos (2004-2009) por cinco partes: apresentação, cartas e promessas, confissões, memórias, despedidas. O resultado, ainda que de um modo algo involuntário, acaba por sugerir um drama e seus respectivos actos. Da partida de Lisboa à manhã de todas as noites, o que encontramos é um processo de separação/distanciamento com objectos e focos de análise díspares. Por vezes, penetramos os campos do amor; outras vezes, enredamo-nos em cenas domésticas; não raramente, cedemos ao lirismo intimista de quem olha para si com refinado espírito autocrítico. Tome-se de exemplo este ALGUMA COISA HÁ-DE FICAR: «não há nada de bom / nisto que eu sou / ficando todos / os esforços mortos // mau filho / desinteressado dos laços / que tanto lhe querem bem / péssimo amante / precoce infértil possessivo ciumento / pior amigo que nunca / tendo todos os meios / de comunicação e em nenhum pega // sou no fundo / Caim Iago Otelo / melhor deixarem-me / a um canto junto das ervas daninhas / talvez depois de morto / uma gerbéria dos meus pés». Desenha-se o auto-retrato em minúsculas, como o daninho das ervas, e recorrendo a pontuação mínima, como qualquer coisa de respiração incontida que vamos detectando ao longo dos poemas (sobretudo quando se alongam). A desmedida não é excessiva, parecendo-nos por vezes que, aqui e acolá, um corte nas ervas não ficaria mal. Há, no entanto, motivos vários de interesse na poesia de Fernando Machado Silva: a deslocação da urbe para o campo, a opção por uma auto-ironia em detrimento do pessimismo de pacotilha de quem anda com a ruína pendurada ao pescoço, um confessionalismo teatral que incorpora a vulgaridade de certas imagens no tecido exigente de temas ditos nobres. Alguns remates escusados, é certo, uma revisão que ficou por fazer, é verdade, mas, ainda assim, um bom prenúncio.

Ó RAPAZ, É ZEUS TONITRUANTE QUE DETÉM O DESFECHO DE TUDO QUANTO EXISTE E TUDO DISPÕE COMO QUER.


Seixal, Setúbal. 2011.





Não há inteligência nos homens, mas vivemos
efémeros como gado, sem sabermos
como o deus terminará cada coisa
.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Semónides.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O ESPANTOSO DE PORTUGAL




O espantoso de Portugal, no seu conjunto, com o povo do Minho e do Algarve, povo do Pará ou do Rio Grande, povo da Lunda ou de Sotala, povo da Taipa ou de Bankau, e até povo dos «papeamentos cristãos» de Singapura ou Curaçau, é que se tenham resistido praticamente incólumes a todo o desvario de vida que tem rolado de imitação a imitação, de barreira a barreira, e de engano a engano, sempre com a ideia, não das limpas, constantes asas que todos vejam bem claras no céu, mas das trocas de falcão e coruja em que foi mestre o Príncipe a que historiadores do mesmo naipe chamaram de Perfeito; o miraculoso destes povos todos, alentejano ou macua, kamaiurá ou malaio, é que tenham sobrevivido a séculos de contínua tentativa de deformação que têm sido os nossos sistemas políticos, as nossas instituições educacionais e as nossas práticas religiosas, tudo de acordo com um capitalismo que repugna às suas tendências de generosa solidariedade; que tenham ultrapassado, sobretudo, os exemplos que tantos de cima lhe deram.
Exemplos que não podiam ser outros: afastados do povo a que deviam pertencer e que deviam servir; querendo-lhe mal como a parente pobre e ignorante que importuna e humilha a quem subiu; repelidos por sua vez, como era fatal, pelas culturas europeias, que têm outras origens, outros comportamentos e principalmente outro destino - o da falência; caem no sentimento de que são inferiores a si próprios e a ele reagem, fantasiando virilidades que não tiveram, representando valentias de que não deram provas, orgulhando-se de obras que sentem ruins, intitulando-se o mais possível, condecorando-se o mais possível, falando o mais possível, fotografando-se o mais possível; inferiores o mais possível porque se quereriam superiores; e, julgando-se incuráveis, mais delirando a cada dia que passa; dando-lhes até às vezes o delírio para a humildade circunspecta, isto é, a que olha à volta; e para a falinha comedida, isto é, a calculada e mansa.


Agostinho da Silva, in Educação de Portugal.

sábado, 14 de julho de 2012

PESCADOR DE ILUSÃO


Elevador do Lavra, Lisboa. 2012.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.

A DESOBEDIÊNCIA CIVIL

Esta é a terceira edição, pela Antígona, de um dos textos mais inspirado(re)s de Henry David Thoreau: A Desobediência Civil. Traduzido por Manuel João Gomes, sucede-o Defesa de John Brown, uma comunicação encomiástica, proferida a 30 de Outubro de 1859, tendo por objecto um abolicionista revolucionário que acabou por ser julgado e executado depois de ter assistido vários escravos numa fuga para o Canadá. Liga os dois textos uma ideia profunda de justiça, uma ideia alicerçada na moral e na dignidade da pessoa humana, deveras afastada das conveniências do Direito e das opressões impostas pela lei do Estado. Este afastamento, porventura impossível de resolver, mantém ainda hoje uma acesa controvérsia entre ética e lei. A lei legitima práticas privadas de ética e absolutamente imorais aos olhos da opinião pública, enquanto a ética obriga a uma censura subjectiva dessas mesmas práticas: «Nunca a lei tornou um homem mais justo; é por causa do respeito pela lei que até alguns bem-intencionados se tornam todos os dias agentes da injustiça» (p. 18). Podemos assim distinguir dois planos onde a justiça se exerce, o plano onde ela se faz aplicar pelo recurso à lei decretada pelo poder político e o plano onde ela transcende as intenções desse mesmo poder, podendo reivindicar junto de homens em particular acções contrárias ao que foi decretado pela sociedade. Estes textos, e os exemplos oferecidos pelos intervenientes Thoreau e Brown, tornam claro o desfasamento existente nas democracias ocidentais entre as exigências de uma organização social erigida a partir de interesses meramente económicos e a noção de uma justiça universal que garanta a defesa dos desprotegidos. Manuel João Gomes faz bem em alertar o leitor para os perigos de uma interpretação enviesada, podendo A Desobediência Civil ser aproveitada para fins que nunca foram, claramente, os do seu autor. A revolta aqui promovida contra as democracias ocidentais é uma revolta que tem na sua origem um entendimento do papel da Justiça no Estado, não promove tanto um liberalismo selvagem como defende um sistema filantrópico liberto de “abusos e perversões” economicistas. Não defende qualquer tipo de ditadura, concentrando-se na defesa dos indivíduos e da sua inviolável liberdade. Insurgindo-se contra a escravatura e contra guerras expansionistas, Henry David Thoreau aponta as armas aos submissos zeladores de um Estado que viola uns e explora outros como se tal fosse imprescindível para a defesa de uns poucos. Não é. Por isso Thoreau dirige-se aos que lhe são próximos, incita-os a uma desobediência que seja coerente com os princípios morais da humanidade, uma desobediência cujo objectivo seja a justiça proclamada pela força da razão, ao contrário de uma justiça proclamada pela força das entidades coercivas dos Estados opressores. Procura inspirar uma minoria, crente de que uma minoria inspirada pode fazer tremer o poder que traz as massas nas suas mãos. O exemplo de John Brown serve este acicatar de vontades, este espicaçar da indignação contra o comodismo, contra a subserviência e contra o servilismo perpetuadores de um poder injusto: «As leis injustas existem. Deveremos nós contentar-nos com obedecer ou devemos antes fazer tudo para as emendarmos? Deveremos cumpri-las até conseguirmos emendá-las ou deveremos transgredi-las sem mais?» (p. 27). As dúvidas são prontamente desfeitas: «Tenho de evitar, dê por onde der, submeter-me ao erro que condeno» (p. 28). Thoreau incita, então, à coerência, a actos de insurreição que podem passar, por exemplo, pela recusa no pagamento dos impostos, pressionando os governos até, se necessário for, a prisão se tornar o lar de todos nós: «A prisão é, num estado esclavagista, o único local onde um homem livre pode morar com honra» (p. 31). As consequências são por demais reconhecidas, a solidão e o isolamento esperam, numa primeira instância, todos aqueles que se revoltam contra os paradigmas da sociedade onde estão inseridos, todos aqueles que declaram abertamente guerra ao Estado. É o preço a pagar por uma vida livre. Se sempre foi assim, porque haveria agora de ser diferente?

25 ANOS, 25 LIVROS

No último número da revista LER, quatro críticos literários escolhem 25 livros de autores portugueses publicados nos últimos 25 anos. Foram inquiridos Eduardo Pitta, Dóris Graça Dias, Carlos Câmara Leme e Fernando Venâncio. Entre escolhas óbvias e outras nem tanto, algumas surpresas e, como seria de esperar, muitos esquecimentos. A inclinação para a ficção e para a poesia podia ter sido evitada. Embora se trate de um desafio superficial, parece-me sempre estimulante ir organizando bibliotecas pessoais. Aventurei-me numa selecção. Ei-la:

1987: Sião, org. Al Berto, Paulo da Costa Domingos, Rui Baião, frenesi;
1988: Lunário, Al Berto, Contexto;
1989: Educação de Portugal, Agostinho da Silva, Ulmeiro;
1990: Um Beijo Dado Mais Tarde, Maria Gabriela Llansol, Rolim;
1991: O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago, Caminho;
1992: A Noiva Judia, Pedro Paixão, Cotovia;
1993: Trabalhos e Paixões de Benito Prada, Fernando Assis Pacheco, ASA;
1994: O Amor é Fodido, Miguel Esteves Cardoso, Assírio & Alvim;
1995: O Erro de Descartes, António R. Damásio, Publicações Europa-América;
1996: Nunca Mais se Apagam as Imagens, João Camilo, Fenda;
1997: De Profundis, Valsa Lenta, José Cardoso Pires, Publicações Dom Quixote;
1998: Nova Asmática Portuguesa, Nuno Moura, Mariposa Azual;
1999: Rima Pobre, Joaquim Manuel Magalhães, Editorial Presença;
2000: Obra, Adília Lopes, Mariposa Azual;
2001: Livro da Dança, Gonçalo M. Tavares, Assírio & Alvim;
2002: Poesia Completa 1979-1994, Luís Miguel Nava, Publicações Dom Quixote;
2003: Obra Poética, Rui Knopfli, Imprensa Nacional-Casa da Moeda;
2004: Portugal, Hoje: o Medo de Existir, José Gil, Relógio d’Água;
2005: Diário Remendado 1971-1975, Luiz Pacheco, Publicações Dom Quixote;
2006: A Mais Nova Profissão do Mundo, Alface, Fenda;
2007: Alexandre O’Neill – Uma Biografia Literária, Maria Antónia Oliveira, Publicações Dom Quixote;
2008: A Faca Não Corta o Fogo – súmula & inédita, Herberto Helder, Assírio & Alvim;
2009: Com os Holandeses, J. Rentes de Carvalho, Quetzal;
2010: Adoecer, Hélia Correia, Relógio d’Água;
2011: Puta Que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco, João Pedro George, Tinta-da-china.

O MUNDO DA ARTE, A ARTE DO MUNDO, O MUNDO, A ARTE


A obra prima do pintor Edvard Munch, “O Grito”, tornou-se no quadro mais caro da história vendido em leilão. A pintura foi leiloada por 119,92 milhões de dólares (91,24 milhões de euros). O anterior recorde pertencia a “Nu, folhas verdes e busto”, um quadro de Pablo Picasso vendido por 106,5 milhões de dólares há 2 anos. Leon Black, um milionário nova-iorquino, é actualmente o proprietário do quadro.

Mais de 250 milhões de dólares (190 milhões de euros) foi quanto a família real do Qatar pagou pelo quadro “Os jogadores de cartas” de Paul Cézanne (1839-1906). Nos últimos anos a aposta do Qatar na arte tem sido evidente, tendo vindo a construir uma colecção de luxo de arte moderna e contemporânea. É um país pequeno mas grande em riqueza e nos últimos seis anos esteve por trás dos maiores negócios de arte, tendo sido considerado em 2011 pelo The Art Newspaper como o maior comprador mundial de arte contemporânea, na qual já tinha então investido mais de 400 milhões de dólares (cerca de 277 milhões de euro).

Cerca de meio milhão de pessoas vivem actualmente no campo de Dadaab, perto da fronteira com a Somália. A população do complexo de Dadaab aumentou em mais de um terço ao longo do último ano, devido ao afluxo de dezenas de milhares de somalis que fugiram da seca e da violência no seu país de origem. Muitas destas pessoas vivem em tendas provisórias, que pouco duram sob as difíceis condições meteorológicas da região, e as agências que trabalham no campo sublinham ser necessário construir alojamentos e estruturas mais resistentes e capazes de providenciar abrigo e uma forma de vida a longo prazo para estes refugiados. O esgotamento dos fundos põe em risco a contjnuação de serviços essenciais. As dezenas de milhares de pessas que lá estão correm perigo de vida.São necessários 25 milhões de dólares para enfrentar apenas o que é mais urgente: a construção de 30 mil novos abrigos (só há dinheiro para 4000) e o abastecimentos de água e saneamento para mais de 50 mil refugiados, que correm elevado risco de contraírem cólera.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

DITO ISTO

Aceitam-se apostas sobre para onde irá trabalhar o ministro Relvas depois de sair do governo.



Adenda: afinal, o besunta já não precisa de trabalhar. Miguel Relvas, de 51 anos, optou por suspender a sua pensão quando aceitou integrar o Governo liderado por Passos Coelho, dando cumprimento à lei que impede a acumulação de salários com pensões aos titulares de cargos políticos. A subvenção vitalícia de Relvas é de 2.800 euros por mês. No ano passado, a Caixa Geral de Aposentações pagou mais de 14 mil euros ao ministro adjunto a título de pensão vitalícia, um pagamento que foi suspenso quando tomou posse no atual Governo. Ah, país do caralho!!!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

JÁ O DISSE E REPITO: GANHAM-SE RELAÇÕES



E gastam-se fortunas em vestidos para a mulher.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

OLGA: QUE VAZIO O QUÊ?


Cacilhas, Almada. 2011.





HUGO: com um gesto circular: Tudo isto! Estes móveis parecem abandonados num deserto. Na prisão, quando eu estendia os braços podia tocar ao mesmo tempo em duas paredes opostas. Anda cá para o pé de mim. (Olga não se aproxima.) É verdade; fora da prisão as pessoas vivem a uma distância respeitosa. Tanto espaço perdido! É cómico estar em liberdade: dá vertigens. Tenho de me habituar outra vez a falar com os outros sem lhes tocar.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Jean-Paul Sartre.

terça-feira, 10 de julho de 2012

PROVA DA EXISTÊNCIA DA ALMA

Deixaste a ressurreição a meio.
Não me lembro de nada tão incompleto como ela.
O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.
A morte chega a ser desejada tal o sofrimento.
Nas palavras de São Paulo a criação teve parto e dores
em relação. Um prelúdio, sabemos hoje, prelúdio
sem mais nada. Os animais não aspiram à eternidade.
Nisto devia consistir a alma que lhes foi negada.
Por menos despediria eu um empregado.
O meu cão brinca a que eu sou o cão dele.
Atira-me um osso e corro atrás, todos corremos atrás.
Mas é assim que se sobe na vida porque aspiramos.
Prova provada de que temos alma
.


Rosa Alice Branco, in O Gado do Senhor, XVII Premio de Poesía Espiral Maior, Edicións Espiral Maior, 20 de Novembro de 2009, Culleredo - A Coruña - Galicia, p. 35.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O SOM APAIXONADO DO REALEJO

Lagos, Faro. 2011.





O que não acontece aos sentidos de uma pessoa quando passa fome?



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Knut Hamsun.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #59

Vi os Radiohead há uns bons anos, no Pavilhão dos Belenenses, a fazerem a primeira parte dos James. Experiência extraordinária, as paredes do pavilhão pareciam suar. Voltei a vê-los no Coliseu, já na fase Ok Computer (1997), e acabei o concerto com a sensação de ter tido uma epifania. Os Radiohead nunca foram uma banda rock vulgar. Isso deve-se, em parte, à extraordinária voz de Thom Yorke. Mas não só. Há ali uma sabedoria musical que ultrapassa o imediatismo dos três acordes. Convém notar que Creep, o single de Pablo Honey (1993) que lhes ofereceu uma popularidade vertiginosa, continha já o gérmen de um universo autocrítico bastante diferenciador. Paranoid Android, o single de promoção desta terceira aventura pelos álbuns de originais, ultrapassava o tempo médio de uma canção congénere. Ainda por cima é um tema estruturalmente ousado, contendo num só corpo três metamorfoses rítmicas e melódicas com a coerência de um monstro divino. Exit Music (for a film) – canção de uma vida – e Karma Police fizeram o resto, transformando Ok Computer numa obra-prima do rock vindo a lume na última década do século XX. É tudo perfeito, as melodias erguidas a um patamar etéreo sem par, a melancolia passeando-se ligeiramente por entre os canaviais de guitarras distorcidas, os efeitos futuristas remetendo para aviões levantando voo e naves espaciais transportando-nos para universos paralelos de romantismo e nostalgia. Por vezes, parece rock progressivo; a espaços, podemos falar de post-rock; mas é sempre, a cada segundo, uma explosão de musicalidade que Bach não descuraria. Se há que ter medo da perfeição, Ok Computer é um susto dos piores.

O HOMEM CORVO

Tenho há muito a mania de que grande parte daquilo em que nos tornamos advém de um imaginário alimentado, desde muito cedo, pelas histórias ouvidas na infância. Sinto, por isso, enormes dificuldades digestivas perante os cenários de princesas e de bailarinas estupidamente promovidos junto do público infanto-juvenil. Também nunca fui fã dos chamados livros de aventuras, talvez por julgá-los demasiado inverosímeis. As grandes aventuras acontecem sempre aos outros, pensava eu, quando era puto, com a cabeça enfiada entre as orelhas e uma existência tristemente entediante. É verdade que tive os meus dias, pese embora o facto de terem sido dias quase sempre castrados por uma família protectora e previdente (sou o mais novo de três irmãos). Os amigos imaginários surgiram-me tarde na vida, quando percebi serem metáforas de projecções vindas dos lugares íntimos que a consciência gera algures no mais sombrio dos seus recantos. As minhas filhas devem achar-me chato quando lhes digo não acreditar no Pai Natal, mas nunca me ouvirão menosprezar o poder de uma boa metáfora. É o caso de O Homem Corvo, uma personagem engendrada por David Soares cuja principal característica é uma hábil capacidade para permutar lágrimas por corações. Sucede que para manhoso, manhoso e meio. E o Homem Corvo acaba com uma maçã no lugar do coração, ainda por cima uma maçã habitada por um bicho. Este livro ocupa um lugar especial no segmento da literatura infantil, porque ousa escapar às redundâncias de um mundo ingénuo e inocente, penetrando nas dimensões obscuras da fábula tradicional. As ilustrações de Ana Bossa, concebidas a três dimensões, foram fotografadas por Nuno Bouça. Garante-se que não há ali qualquer tratamento digital da imagem, o que torna ainda mais fascinante cada uma das páginas deste pequeno livro. O tom respeita o universo nebuloso do autor, que despreocupadamente e sem freios morais introduz vermes, grutas fundas, teias de aranha e lagos de água a ferver numa narrativa de contornos góticos. Ideal para quem procura alguma coisa que caiba no lugar do coração, nem que seja uma maçã com bicho (corruptela, talvez, das clássicas maçãs envenenadas que sempre nos fizeram desconfiar de ofertas sem troco).

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O VALOR DA VERGONHA NA BOCA DA MERDA




Lida a crónica de Vasco Pulido Valente no Público, pouso o jornal sobre a mesa do café e penso no que estarão a sentir os meus pais neste momento. Uma vida de trabalho, duas, uma existência sacrificada, duas, para que os filhos pudessem estudar, formar-se, ter os seus cursos. Nunca lá em casa houve o preconceito dos doutores, nunca por lá se ouviu que as licenciaturas faziam as boas pessoas ou que para se ser alguém na vida era preciso atingir-se um certo estatuto. Os meus pais têm a quarta classe, não precisaram de licenciaturas para serem alguém na vida ou para serem, que o são, pessoas exemplares. A mentalidade era outra, poder dar aos filhos o que aos pais havia sido negado: a possibilidade de aprender, outrora privilégio de famílias ricas ou relativamente bem relacionadas. O que há de insultuoso em mais este caso de licenciaturas por encomenda é a revaloração da vergonha na boca da merda, ou seja, a forma como um hipócrita consegue fazer carreira na hipocrisia passando por cima de tudo e de todos. Relvas não é apenas mais um cretino, é um sabujo que insulta o sacrifício feito por milhares de famílias para que os filhos possam estudar. Centenas de milhares de famílias a pagarem propinas, deslocações, livros, manuais, tudo o que está implicado nesse tipo de investimento que é um curso. E se ao começar o texto lembro os meus pais, agora que o termino penso em Bruno Schmitt Balthazar. Ao leitor de parca memória reencaminho-o para aqui.

GERRIT KOMRIJ (1944-2012)



DIAFANIA


Eu tenho um sósia que me põe maluco.
Querendo ser em tudo a mim igual.
Possui o mesmo sósia, então apanha
Com um grande susto ao ver-me, e mais ao tal.

Assim me assusto eu ao ver-nos ambos.
Ele nada me oferece. É um ladrão.
Não pára de sugar ecos em mim
E nada meu sobra em tal multidão.

De início, havia ainda um certo laço.
Vivíamos os dois em paz, aos quatro.
Agora, onde eu olhe, vejo o meu vulto
E a quantos fantasmas já dou resguardo.

Quando eu morrer, um ser desfigurado
Há-de achar-se estendido no caixão.
E o corpo transparente abrigará
Não um cadáver, mas coisa de um milhão
.


Gerrit Komrij, in Contrabando – uma antologia poética, trad. Fernando Venâncio, pos. Arie Pos, Assírio & Alvim, Setembro de 2005, p. 65. Sobre o mesmo livro, publiquei um post aqui.

WE SHALL BE HAPPY


Amoreiras, Lisboa. 2011.



the only thing to do is simply continue
is that simple
yes, it is simple because it is the only thing to do
can you do it




Fotograia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Frank O’Hara

quarta-feira, 4 de julho de 2012

PORTUGAL: NORTE DE ÁFRICA

Camarada Van Zeller, a austeridade tem-me obrigado a uma vida de trabalho sem direito a descanso. Peço-lhe, por isso, perdão. Eu sei que não devia ter tirado uma licenciatura como deve ser, todas as cadeiras feitas e um estágio pedagógico a preço d'ouro em época de crise. Foi um erro, reconheço-o. Devia ter investido na amizade, devia ter assumido o compromisso de uma existência inteiramente dedicada à coisa pública, devia ter sido mais amigo de meu amigo. O que me pagam para que eu possa fazer frente às despejas não deixa margem para dúvidas, eu nunca devia ter queimado os neurónios a estudar Aristóteles, São Tomás de Aquino, Leibniz, Espinosa, Kant e Hegel. Dez anos de docência, oito dos quais a recibo verde, sem direitos hoje considerados privilégios e sem privilégios hoje considerados atentados à dignidade humana, foram a primeira consequência de um erro estratégico irremediável.
Eu devia ter seguido os bons exemplos do Ministro Relvas, aquele que anda a telefonar para as redacções dos jornais ameaçando os jornalistas com boicotes e denúncias da vida privada; eu devia ter feito uma carreira de lacaio, devia ter servido a nação propondo negócios do Estado em favor de empresas privadas geridas por amigos; eu devia ter apostado numa longa experiência política e em vários cargos de relevo económico, criando laços familiares que me garantissem uma boa reforma. Um curso de Filosofia terminado com média de 14,37 valores para quê, se podia ter feito um curso de Ciência Política num ano, a créditos, com classificação final de 11 valores, e acabado como ministro? Eu podia ser ministro, podia dar-me ao luxo de mandar às urtigas os autarcas do país, como a da Justiça, podia dedicar-me a ameaçar jornalistas, como o dos Assuntos Parlamentares, podia dizer coisas, como o da Economia, e receber no fim do mês um vencimento de acordo com a categoria dos cargos exercidos (ao contrário do salário de enfermeiro que recebo todos os meses).
Também eu para mais não sirvo do que para limpar o cu da nação. Eu podia ser, por exemplo, que bons exemplos não nos faltam, o bom amigo de seu amigo José Luís Arnaut, que depois de ter contribuído para o esclarecimento dos portugueses quanto à história da Grécia se viu promovido a administrador da REN, curiosamente cliente do seu escritório de advogado. Há sempre curiosidades destas na distribuição destes cargos. Ainda há quem, ingenuamente, fale de obscenidades nestes bons exemplos. Camarada Van Zeller, obsceno é levantarmo-nos diariamente para ir trabalhar, obrigarmos os nossos filhos a estudar; obsceno é sermos boas pessoas, obsceno é sermos honestos, porque tudo isso nos transforma em autênticas aberrações face aos bons exemplos chegados de cima. Eu podia ser um bom exemplo.
Quando a moral das gentes do Estado fica claramente exposta, sem que se toque um milímetro que seja na sua (in)rectidão, que nos resta? Já sabemos que estes amigos de seu amigo continuarão as suas carreiras com o beneplácito de eleitores embrutecidos e de uma Justiça inoperante, já sabemos que Relvas pode continuar a ser um trafulha, Arnaut um oportunista desavergonhado e assim sucessivamente, que ninguém está para se chatear muito. Num país de criminosos legais é assim. E sabemos que os maridos frustrados continuarão a carregar sobre suas mulheres, quando poderiam investir um pouco da sua raiva carregando nestes ladrões de colarinho branco que vão passando incólumes pelo terreno dos seus crimes. Mais austeridade, menos austeridade, mais imposto, menos imposto, mais BPN, menos BPN, mais Quinta da Coelha, menos Quinta da Coelha, cá andaremos labutando, estúpidos e explorados, como sua eminência o Presidente Cavaco de Todos Nós: sem dinheiro para as despesas. E, ainda por cima, governados pelo Primeiro-ministro mais africano de todos. Ele próprio o disse, não o desmentimos.

A DOMA E SUA DANAÇÃO

Animal doméstico,
animal de festa e guerra,
homem,
preso a si mesmo pela cauda ridícula,
preso aos outros pelo movimento da pata,
não tens outra porta ou acomodação necessária,
não tens outro tema ou teorema
a modular com as traças.

Teus pais te engendraram para seres doméstico.
Uma estrela guiou tua vinda para seres doméstico.
Cresceste além da sede e da fome
para seres doméstico.
E quando pensaste atingir o infinito, com as têmporas
ficaste enterrado num sótão doméstico.

Doméstico como os gatos e as moscas,
não pões asco de estar ali
a farejar os pratos
e cheirar por justiça nos corredores.

Doméstico e atado
pela coleira das convenções,
doméstico e fácil, satisfatório
em todos os assuntos de disciplina,
hábil na manipulação dos horizontes,
que fazer senão saber-se
passivamente doméstico,
enrolando-se nisso?

Articulas-te, entre a angústia e a esperança,
com o dorso numa e noutra coisa
e as pernas da ambição nos eléctricos.

Animal doméstico,
dormes nos calendários
e a morte te desperta
no melhor da sesta.

Doméstico, até na morte doméstico
.



Carlos Nejar, in Antologia Poética de Carlos Nejar, org. António Osório, Pergaminho, 2003, pp. 43-44.

terça-feira, 26 de junho de 2012

BASTA, BASTA, INFELIZES!


Queluz, Sintra. 2010.





Por cima do campo de batalha, tão formoso e alegre algumas horas antes, quando resplandeciam as baionetas ou se esgarçavam os vapores do sol matinal, estendia-se agora um nevoeiro húmido à mistura com fumo donde se desprendia um cheiro estranho e acre a salitre e a sangue. Enevoara-se o céu e uma chuva fina caía sobre os mortos, sobre os feridos, sobre aqueles homens extenuados, tomados de pânico, que principiavam a duvidar. Parecia gritar-lhes: «Basta, basta, infelizes! Cessai… Tomai tento! Que estais a fazer?»
Os soldados de ambos os exércitos, cansados e esfomeados, principiavam a perguntar-se a si próprios se valeria a pena continuarem a matar-se uns aos outros, e nos seus rostos lia-se a hesitação e em cada alma surgia esta pergunta:
«Porquê, por quem devo eu matar ou deixar-me matar? Matai, vós, a quem quiserdes; fazei o que quiserdes; por mim, não quero mais!» Ao entardecer esta ideia amadurecera em todas as almas. De um momento para o outro estes homens podiam vir a sentir horror pelo que estavam a fazer e abandonar tudo e fugir fosse para onde fosse.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Leão Tolstoi.

O ALVO CERTO

Camarada Van Zeller, o título desta epístola pouco tem que ver com o conteúdo da mesma. Simplesmente julguei caricato o título de um artigo no Expresso onde eram exibidos, devidamente trajados, os enviados de Seguro junto do Ministério das Finanças. Esta prosa tem outros motivos, muito menos engravatados (ou não). Os portugueses preocupam-se amiúde com as queimadas vivas e as desfiguradas do Islão, mas insistem em manter uma atitude negligente para com as suas próprias vítimas de violência doméstica. Parece que a crise tem dado conta do recado também neste domínio. 20 vítimas mortais já este ano (em 2011 foram contabilizadas 29 vítimas mortais de violência doméstica). Por aqui, onde vivo, são frequentes os casos. Fala-se de ameaças concretizadas, porrada da grossa, tiros na praça pública, o Inferno ao virar da esquina. 25126 queixas durante o ano que passou não serviram para colocar de sobreaviso as autoridades, empenhadas na defesa dos zeladores do Estado e na manutenção da ordem junto de jornalistas ameaçadores. Alguns juízes creem mesmo que uma mulher abstémia atenua a embriaguez do agressor, ou seja, o que foi gerado para servir, servir deverá. Caso contrário, ao chicote sua função. Ora, esta realidade pôs-me a pensar. E a primeira coisa que me ocorreu foi fazer aqui um apelo a todos os potenciais agressores. Se vos sentirdes traídos, pensai duas vezes antes de decidirdes sobre quem despejar vossa legítima raiva. Um cornudo merece o nosso respeito, o respeito de todos quantos se sentem ou sentiram encornados, para não dizer algo mais escandaloso, pelas elites retrógradas da justiça portuguesa, do governo português, da nação. Constata-se que, muito frequentemente, estes homens mais sensíveis acabam por se suicidar depois de assassinarem suas mulheres. Apelo pois a esses homens, compreensivamente, que ponderem, que pensem, que parem por segundos e que façam da sua dor um bem universal. Não descarreguem sobre as mulheres o ódio que podem descarregar sobre alvos muito mais justificáveis. Se podeis, caros concidadãos, transforma-vos em heróis junto de um povo inteiro, porque haveis de reduzir-vos à mediocridade com gestos inaceitáveis? Pensai bem no que vos digo antes de agirdes. Estou certo que o camarada Van Zeller concordará comigo quando afirmo que um homem disposto a suicidar-se para se vingar de um mal sentido sobre si, poderá antes de se suicidar desviar o alvo das atenções do ódio que o motiva e, desse modo, poupar a vida de uma infeliz e tornar um pouco mais felizes milhões de concidadãos que anseiam por um maluco capaz de atirar sobre o alvo certo. O alvo certo toda a gente conhece, não é preciso comprar o Expresso para o saber.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

NIILISTA

A vantagem dos niilistas é saírem sempre a ganhar, mesmo quando já cá não estão para os festejos.

COMBOIO, n.


Entre Campos, Lisboa. 2011.





A mais importante das invenções que nos permitem sair do sítio onde estamos e ir para um sítio onde não estaremos melhor. Por esta razão, o comboio é muito apreciado pelo optimista, pois permite-lhe fazer a viagem com grande rapidez.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Ambrose Bierce.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #58



Não é a primeira vez que os poemas de Nuno Moura encontram encarnações musicais. Lembramo-nos, assim num repente, da gravação em tempo real divulgada com um dos números da revista Big Ode, um cheirinho da mesma na colectânea Não resistir Só e Não Só resistir (vide Ventilan), ou das recriações levadas a cabo por A Naifa em 3 Minutos Antes de a Maré Encher. Aparentemente inadaptável, a poesia de Moura reclama constantemente as oscilações da língua portuguesa. Mau Sangue é, muito provavelmente, a melhor das encarnações que tais textos podiam encontrar. Essencialmente electrónica, a música de José Ferreira tem o mérito de responder à urbanidade dos textos. E fá-lo cumprindo o mais nobre dos estímulos: a dança. Há aqui temas, chamemos-lhe assim, tão radio friendly que custa acreditar não virem a ser grandes sucessos do Verão de 2012. Por outro lado, as concessões rítmicas acabam pervertidas pela derrisão da palavra. Cock Ring é um bom exemplo, com manipulações rítmicas claramente dançáveis a servirem de base ao discurso aguilhoado do poeta. Tem qualquer coisa de revolucionário, se entendermos por revolução a arte de pôr Deus a dançar com um martini na mão e os olhos postos nas ancas das virgens. A voz de Beatriz Nunes empresta sensualidade melódica a alguns temas, ao mesmo tempo que eleva a fasquia interpretativa dos textos. É como se naquela voz as palavras se abrissem, largando no ar a musicalidade enclausurada no texto escrito. Portanto, instantes de extraordinária libertação poética. Fado do Osso (Almodóvar) e Parabéns Amália, com um arranjo de viola neo-romântico ideal para noites de Verão, são grandes momentos musicais do ano. Escuto-os em repeat e não me canso. Imperdível.

domingo, 24 de junho de 2012

AS CARAS MAIS CONTENTES


Cais do Sodré, Lisboa. 2011.




Quem, ao ir pelas ruas, observar bem, julgo que verá as caras mais contentes no interior dos carros funerários.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Jonathan Swift.

«ELES NÃO REGULAM, ELES APRECIAM RELAÇÕES HUMANAS»*

Camarada Van Zeller, a semana que passou foi de loucos. Portugal venceu a Holanda, Gaspar ficou preocupado com a queda da receita fiscal, Eusébio sentiu-se mal, Carlos Bessa escreveu sobre Cão Celeste, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social provou não servir para nada. No Expresso, Fernando Madrinha coloca a questão como ela deve ser colocada: vale a pena gastar 4,5 milhões de euros anuais para sustentar uma entidade cujos membros se limitam a replicar, noutra sede, as posições dos partidos que os propuseram? Vale, respondemos nós. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Estamos a falar de pessoas carenciadas num país assaltado pela austeridade. Cabe ao Estado socorrer os indigentes onde eles mais revelam a sua indigência. Tome-se de exemplo o caso concreto do pobre ministro Relvas, que teve de gastar uma pipa de massa em telefonemas, despendendo do seu precioso tempo, para conseguir travar a publicação de um vergonhoso atentado ao seu bom nome. As pessoas dizem que Relvas telefonou com ameaças, mas o homem estava apenas a defender-se. De hoje em diante, fique-se de uma vez por todas a saber a diferença entre uma ameaça e legítima defesa. Ameaçar é quando um jornalista questiona para poder esclarecer; agir em legítima defesa é quando um ministro telefona para a redacção de um jornal argumentando, com toda a deferência, que no caso de virem a ser publicados artigos contra a sua pessoa ele sentir-se-á no direito de tornar públicos dados privados sobre a jornalista que investiga o assunto. É uma espécie de moeda de troca: se tu dizes quem eu sou eu direi quem tu és. Veja-se este bom exemplo de uma terrível ameaça descaradamente feita em directo por Helena Roseta:


Passamos a transcrever, para o caso de por aqui passar algum leitor surdo: «é uma história que se passou comigo, não tem nada a ver com o relatório da ERC, mas tem a ver com a figura do Miguel Relvas, que é uma pessoa trabalhadora, diligente, a uma certa altura ele era Secretário de Estado do poder local e eu era Presidente da Ordem dos Arquitectos, e o Miguel Relvas disse-me para eu ir falar com ele porque havia a possibilidade de um acordo entre a secretaria de estado e a OA, e lá fui eu, e o acordo era sobre um programa chamado FORAL, que se destinava a fazer formação dos arquitectos municipais com verbas comunitárias, mas havia uma condição e a condição era simplesmente esta, a formação tinha de ser feita pela empresa do Dr Passos Coelho». Mais uma vez, Relvas em legítima Defesa e, neste caso, Helena Roseta numa vergonhosa ameaça ao bom nome, à honra, à idoneidade de Relvas e Cª. Lda. Desde já manifesto o meu mais forte repúdio relativamente a esta revelação, esperando sinceramente que o governo de Passos Coelho encontre entre as receitas fiscais de Gaspar 4,5 milhões para a fundação de uma qualquer Entidade Reguladora que trave a língua peçonhenta destas gentes eivadas de maldade.
*Remate respigado numa crónica de Henrique Monteiro.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

UM CAVALHEIRO SOU COMO OS MAIS TODOS.


Rego, Lisboa. 2011.





Há muito tempo
Que no livro das fábulas ‘stá escrito,
Sem valerem por isso mais os homens:
Do Mau se desfizeram, mas ainda
Lhes ficaram os maus
.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Mefistófeles, segundo Johann W. Goethe.

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA



Foram necessários dez anos para que Nuno Moura (n. 1970) regressasse aos livros, após uma primeira incursão pela prosa com Calendário das dificuldades diárias (&etc., 2002). Para trás ficaram quatro livros em verso. Este Prémio Nacional de Poesia (Abril de 2012), também em prosa, não vem só. Acompanha-o um CD dos Mau Sangue, projecto especialmente concebido para o efeito: música de José Ferreira, textos e voz de Nuno Moura, colaborações vocais de Beatriz Nunes e participação de André Neto com viola d’arco. Importa referir que o CD não reproduz o livro, são objectos autónomos mas interligados. É este o conceito da Mia Soave - editora fundada, entre outros, pelo próprio Nuno Moura -, que já antes havia editado Reality Show ou a Alegoria das Cavernas (Fevereiro de 2011), de Alberto Pimeta (n. 1937). Prémio Nacional de Poesia abre com uma breve nota explicativa: «O que aqui se lê em silêncio foi escrito para ser lido ao vivo. / É uma versão de vários textos não editados em livro. / É dedicado às personagens que o escreveram. / Os vossos poemas fazem este». Devemos retirar desta nota dois importantes esclarecimentos. O primeiro é o de que estamos perante um trabalho de colagem com origem em textos concebidos para serem ditos em voz alta, não apenas escutados no silêncio da leitura. Este acto de escrever para dizer, não sendo novo, encontra em Nuno Moura uma voz ímpar dentro da sua geração. São múltiplos e dificilmente inventariáveis os empreendimentos do poeta nesse sentido, quer a solo, quer acompanhado, em duelo ou em dueto, com instrumentos ou socorrendo-se apenas das cordas vocais. Mais do que uma estratégia de promoção, podemos falar de uma atitude poética que só compreende o texto na relação que este mantém com o ouvinte. Esta relação distancia o autor da sua suposta produção, esvaindo-se o mesmo numa multiplicação de personagens que não são propriamente heterónimos. São, e este é o segundo esclarecimento que a nota introdutória nos oferece, fonte, alimento, terreno onde a experiência semeia as palavras e o texto germina. Daí que não nos surpreenda a ironia da pergunta projectada nas cortinas do palco onde a acção terá lugar: «Oom, já se pode?» Trata-se, obviamente, de um diálogo com a Actuação Escrita de Pedro Oom. É natural que uma leitura superficial desta obra, não só deste livro, nos leve a falar de elos à tradição surrealista, de uma prática em desuso da escrita automática, de uma inclinação para a experimentação dadaísta. Não está mal. Porém, é redutor. O que aqui se passa é uma mais depurada do que possa parecer encenação da realidade, é um teatro de sombras com bolas de cristal, é um modo de estar na poesia que se define por ser um modo de estar com poesia. A irrisão patente no título, cultivada desde Não saia nem entre após aviso de fecho de portas (Signo, 1993), promete uma espécie de prolongamento daquele que é, talvez, um dos mais conhecidos poemas de Nuno Moura: o lançamento do livro de poesia que abria Nova Asmática Portuguesa (Mariposa Azual, 1998). Aí temos personagens arquetípicas como o escritor, o crítico literário, o poema, a própria poesia, o livreiro, a nova geração de poetas, os curadores de agremiações, os recitais e os encontros de escritores, entre nomes cujo realismo parece inventado e outros cuja destreza satírica torna absolutamente credíveis. Dentro de pequenos textos que se vão sucedendo como frames num documentário aleatório, revela-se o olhar sagaz de quem despreza sem concessões a pedantearia literária: «Para que a sua poesia não enjoe um surdo anote que a palavra gosto denota mau sentimento para começar um texto. Mas gosto de tem mais leitura» (p. 11); «As miúdas vão voltar a gritar nos recitais» (p. 12); «O poeta ocupa o lugar do chocolate no papel prata» (p. 23); «Todos os seus poemas sabem a arco-íris, diziam uns dos outros» (p. 36). Por outro lado, a música dos Mau Sangue revela um aspecto sociológico fundamental que o texto deixa apenas implícito. Há, sem dúvida, uma dificuldade tremenda em conviver com a diferença no chamado meio literário. O que o disco sublinha é, precisamente, a recusa de uma comunidade castradora da individualidade, onde todos cuidam uns dos outros para não terem que cuidar de si próprios. A própria expressão “mau sangue” é um achado, talha o cordão umbilical das famílias afirmando-se desviada de uma hereditariedade sufocante. «O poeta diz é meu, a criança diz trinco-te o nariz. O poeta é muito bom pai. Só gosta deles, são os poemas que mais lhe interessam, come com eles, dormem juntos, cuidam de uma família de raízes ao Parque da Cidade. Regras da paternidade: primeiro os livros, chá de segurelha e aguardente» (p. 42). Este dizer do poeta não é ingénuo nem tem nada de automático, é um manifesto libertador com razões de ser muito objectivas. Querem vozes de ruptura? Saiam dos gabinetes, abram os ouvidos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #57


Podemos agradecer ao fotógrafo Guy Le Querec a junção do trio Romano (Aldo), Sclavis (Louis), Texier (Henri). Carnet de Routes foi o resultado de uma digressão por seis países da África Central, em busca das raízes do jazz ou, por outro lado, na demanda de um reencontro que importava patrocinar. Toda a gente sabe das origens desta música, rebentada num terreno fertilizado pela junção do ritmo com a improvisação. As fotografias que acompanham o álbum, gravado entre 1994 e 1995, depois de duas tournées, em 1990 e 1993, dão conta de uma extraordinária aventura humana. E a música faz-lhe justiça, respigando sonoridades encontradas por caminhos que provam ser esta arte o elemento essencial da humanidade. Porque a partir dela as imagens explodem sem que seja necessário representar, a dança começa como uma espécie de respiração que acompanha a língua(gem), a poesia medra nessas reclinações do corpo e torna-se expressão máxima do indizível. Fala-se, a páginas tantas, de jam sessions mágicas. Somos levados a acreditar na descrição ao vermos os músicos franceses, excelentes como nunca, actuando para as endoidecidas tribos da República Centro-Africana ou acompanhados pelos djembés do Mali ou em puro êxtase espiritual na República Popular do Congo… Os temas posteriormente registados em estúdio foram desbravados, mas quem os desbravou soube guardar as cicatrizes colhidas pelo caminho. Tive o prazer de assistir a um concerto do trio, salvo erro, no Seixal. Só faltou a Leica, quinto instrumento de um trio branco onde a bateria, o contrabaixo, o clarinete e o saxofone soprano chegaram e sobraram para provar não ser inautêntico o sopro da magia negra.

QU'É DOS PINTORES DO MEU PAÍS ESTRANHO, ONDE ESTÃO ELES QUE NÃO VÊM PINTAR?


Fábrica de Braço de Prata, Lisboa. 2011.




Tísicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
Etnas de carne! Jobs! Flores! Lázaros! Cristos!
Mártires! Cães! Dálias de pus! Olhos-fechados!
Reumáticos! Anões! Deliriums-tremens! Quistos!
Monstros, fenómenos, aflitos, aleijados,
Talvez lá dentro com perfeitos corações:
Todos, à uma, mugem roucas ladainhas,
Trágicos, uivam «uma esmola p’las alminhas
Das suas obrigações!»
Pelo nariz corre-lhes pus, gangrena, ranho!
E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrasar…





Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: António Nobre.

terça-feira, 19 de junho de 2012

HÁ EM TODA A POESIA UMA CONTRADIÇÃO ESSENCIAL

Santos, Lisboa. 2011.






A vida de Heliogabalo é toda ela anarquia agente porque Elagabalus, o deus unitário que religa o homem e a mulher, os pólos hostis, o UM e o DOIS, é o acabar das contradições, da anarquia e da guerra, mas pela guerra, e é também, nesta terra de contradição e desordem, o início da obra da anarquia. E a anarquia, levada ao ponto a que Heliogabalo a leva, é poesia realizada.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Antonin Artaud.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

cf. SALA DOS FUNDOS, MELANCÓLICO 3, OCIOSIDADE, RETIRO 1

Estoril, 2011.






A ambição paga aos seus cultores obrigando-os a uma exposição constante, como a estátua de um mercado (…) Estes nem sequer têm a retrete como retiro… Num certo sentido, acho mais suportável estar sempre só do que nunca o poder estar.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Montaigne.

domingo, 17 de junho de 2012

A ILHA DE CARIBOU

A Ilha de Caribou (Abril de 2012) é o primeiro romance do jovem escritor norte-americano David Vann (n. 1966). Antes, as Edições Ahab haviam publicado entre nós a novela A Ilha de Sukkwan (Junho de 2011). Os dois livros têm como cenário o Alasca, de onde o autor é natural, mas as coincidências não ficam pelo título nem pelo cenário. São obras onde o espaço geográfico surge como extensão das personagens que o povoam, gerando assim uma identificação entre o carácter hostil do território e as perturbações temperamentais das personagens. Curiosamente, trata-se do mais vasto dos estados norte-americanos e, simultaneamente, o menos povoado de todos. A zona exige dos seus habitantes uma adaptabilidade nem sempre fácil de alcançar, deixando a nu todas as fraquezas do ser humano. Este lado débil e inadaptado, com todas as consequências subsequentes, entre as quais se torna evidente uma tremenda frustração, é aquele que David Vann melhor explora nas personalidades das suas personagens. Se n’ A Ilha de Sukkwan assistimos à tentativa de um pai reforçar laços afectivos com o filho, convocando-o para uma estadia numa cabana isolada, em A Ilha de Caribou voltamos a encontrar este sentido da deslocação e do isolamento como pretexto para o fortalecimento de uma afectividade ameaçada. Porém, no romance, o recolhimento tem na sua origem o desgaste de trintas anos de relacionamento conjugal. Gary e Irene deslocam-se para Caribou, por iniciativa dele, a fim de construírem uma cabana onde poderão passar o resto dos seus dias. Ela desconfia da solução, mas deixa-se arrastar pela iniciativa do marido. A construção da cabana surge, deste modo, como metáfora da relação mantida entre os dois, representação tosca de um casamento falhado, encalhado e emparedado em sentimentos de culpa, complexos de inferioridade, sacrifícios vários que trazem à superfície vidas nunca desejadas, oportunidades perdidas, trilhos tomados mais por arrastamento do que por vontade própria. Esta refundação do lar, rumo a uma terra nova, nada tem de verdadeiramente surpreendente. A escrita de Vann é directa, mas subtil, depurada nas descrições e capaz de nos fazer sentir não haver ali uma paisagem escolhida por acaso, uma frase sem sentido, um parágrafo a mais. O que torna tudo verdadeiramente surpreendente é o paralelo estabelecido entre o Inferno vivido por Gary e Irene e a ilusão de um Paraíso alimentada por Rhoda, a filha dos dois. Assim, capítulo a capítulo, somos confrontados com as desilusões de Irene e as ilusões de Rhoda, o pragmatismo desencantado da mãe e os sonhos e as fantasias da filha. Rhoda está noiva de Jim e sonha com um casamento perfeito, sem se aperceber das traições de Jim, da sua hipocrisia e, também, das frustrações pessoais que o levam a decidir-se por uma vida exclusivamente dedicada a ganhar dinheiro e a foder o maior número possível de mulheres. Ao longo do livro, os sonhos de Rhoda são consecutivamente desmentidos pela realidade existencial dos pais. Acompanha-os uma tese várias vezes repetida: não há nada como o princípio, depois cai-se na real. Ou seja, o que Vann nos expõe é a consciência da deterioração, também ela visível nas alterações atmosféricas e no passar das estações, a fatalidade da passagem do tempo e da degeneração que acompanha essa passagem, a impossibilidade de refazermos as nossas vidas e, por isso, a absoluta necessidade de as irmos fazendo sem pressa de chegar a lugares inexistentes. A felicidade é, neste contexto, uma miragem. Nenhuma cabana poderá salvar-nos de um sentimento de perdição inerente à própria condição humana. A ruína, aqui rodeada de árvores milenares, atapetada de musgo e de neve, coberta por lagos imensos, está dentro das personagens, reside no interior dos indivíduos e nenhuma fuga para o isolamento pode aliviá-la. Apenas a consciência da sua superioridade. Mark, o outro filho do casal, dedica-se à pesca do salmão, fuma charros uns atrás dos outros, é de poucas palavras. Num certo sentido, é ele e a sua infantilidade quem melhor se safa no labirinto da existência. Mantém algo de primitivo, esse princípio que todos buscam recuperar quando o tempo esgota as possibilidades de reencontrá-lo, um princípio esquivo que a toda a hora nos exige acções de acordo com o ser, absurdas mas livres, acções e decisões motivadas mais pela vontade do que pelo sacrifício. Não é egoísmo, é a negação da sobrevivência: é vida.

O ALMOCÁVAR JUDAICO

Vila Franca de Xira. 2011.






Dentro de mim, abatem-se paredes, casas, igrejas, aquedutos: no campo imaginariamente devastado, é, de novo, o burgo primitivo que me fala, na dolência vocal de uma canção sem música.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Daniel Filipe.

sábado, 16 de junho de 2012

ALEGRIA, PURA ALEGRIA


Cacilhas, Almada. 2011.






Reprimir o desejo, não só o dos outros mas também o nosso, ser o chui dos outros e de nós mesmos — é isto que dá tesão, e isto é ideologia: é economia. O capitalismo recolhe e possui o poder dos fins e dos interesses (o poder) mas tem um amor desinteressado pelo poder absurdo e não possuído da máquina. Com certeza que não é para ele nem para os filhos que o capitalista trabalha, mas para a imortalidade do sistema. Uma violência sem sentido, alegria, pura alegria de se sentir uma peça da máquina, atravessado pelos fluxos, cortado pelas esquizes. Põe-se assim na posição em que se é atravessado, cortado, enrabado pelo socius, à procura do lugar onde, de acordo com os objectivos e com os interesses que nos são impostos, se sente passar algo que não tem nem interesse nem objectivo.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Gilles Deleuze / Félix Guattari

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O QUE É A VIDA?


Lagos, Faro. 2012.






O que é a vida? É o brilho do pirilampo na noite. É o sopro dum bisonte no Inverno. É a sombra que corre sobre a erva e se come ao fim do dia.



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Pé de Corvo.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #56





Quando os Pink Floyd surgiram em meados da década de 1960, rapidamente se percebeu estar ali uma fonte de energia diversa da produzida pelos conterrâneos The Beatles ou The Rolling Stones. Tinham uma música complexa, subvertiam os cânones da canção pop e não se deixavam contaminar pela postura meramente provocatória do rock’n’roll. Muito por influência de Syd Barrett, o alucinado fundador da banda, tinham uma aparência misteriosa, enigmática, cabalística. Foram, assim, rapidamente associados ao movimento psicadélico que então seduzia grande parte da comunidade hippie. Com Barrett, lançaram um álbum histórico: The Piper at Gates of Dawn (1967). A Saucerful of Secrets (1968) ainda mantém um pouco da atitude inicial, mas abre já portas para uma nova dimensão. Seguiu-se More (1969), banda sonora para um filme de Barbet Schroeder, e, no mesmo ano, este duplo Ummagumma. É, desde os tempos do vinil, o meu álbum preferido dos Pink Floyd. Composto por dois discos, um gravado ao vivo e o outro em estúdio, afirma definitivamente a banda face à ausência de Syd Barrett. No primeiro dos dois discos, assistimos a uma recriação em tempo real de alguns dos temas mais progressivos dos primeiros álbuns. Ao vivo, a prolixidade instrumental obrigava a um esforço suplementar de todos os elementos. A estranheza intensificava-se, transportando-nos para paisagens espaciais com uma forte componente de improvisação. A música dos Pink Floyd marcava a diferença por ir buscar influências a territórios até então pouco explorados pela música rock. Exemplos: do jazz de inclinação free à música dita étnica, daquilo a que hoje se chama world music (são claras as influências árabes em Set the Controls For The Heart of The Sun) à música erudita de cariz experimental. O segundo álbum, gravado em estúdio, tornava tudo isso evidente sem cair por um segundo na vulgaridade, ao organizar-se a partir dos contributos individuais, na composição, de cada um dos elementos da banda. Cada tema reproduz um imaginário diverso, a partir da exploração de um instrumento base. Há um gosto pela abstracção que diferencia claramente esta música, sendo possível encontrar em vários momentos de cada uma das composições fases de maior clarividência harmónica. O êxtase alterna com a melodia, o romantismo com o pânico, a contemplação com a angústia, ó épico com o concreto, o mistério com a transparência. Deve ser isto a genialidade.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

NÃO MAIS, MUSA, NÃO MAIS


Bica, Lisboa. 2012.





Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza
.




Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Camões.

terça-feira, 12 de junho de 2012

GUIMARÃES, 2012


Trocámos as conservas ao Cais do Sodré, tornadas chique por um revivalismo pouco convincente, pela caldeirada de enguias junto à Ria de Aveiro. Muitos dos melhores momentos da nossa vida, que não são assim tantos, estão associados à composição de uma mesa. Suporta-a mais a boa conversa e a indispensável bebida, possivelmente, do que a qualidade das iguarias, embora o paladar, não sendo exigente, se agrave ou adormeça conforme o tempero. São conhecidos os efeitos. Um homem é aquilo que come, dizia o outro. Nem tanto ao mar, nem tanto à ria. O homem também pode ser a ausência de alimento, uma certa fome, a nostalgia dos apetites.

Ou então a ironia estampada na fachada duma ruína, algo encontrado pelo caminho sem ter sido necessário andar à procura. É quase sempre assim, o melhor vem de ser surpreendente. E depois, espantados, dizemos: o meu sonho seria caminhar sobre as águas, voar, querer falar e não conseguir, a Bardot aos 25, a Sophia Loren a qualquer época do ano, o meu sonho seria dar cabo do futuro do pretérito do indicativo em nome de um agora impossível de ser sonhado. A verdade é que as mulheres de outros tempos continuam a excitar-me mais do que as d'agora. São como as casas em ruínas, deixam-nos a imaginação aos saltos. E falava eu de revivalismos.

Palpite-nos o coração na direcção do futuro. Digamos que os tempos prestam-se à memória. Ai que bom que era quando… E aí paramos, metemos travão na nostalgia, ninguém precisa conhecer os crimes pelos quais estamos condenados. Enquanto passeávamos, já antes ou depois da caldeirada, não sei, entrámos numa loja onde um pássaro cantava. Desconheço a espécie. Pássaros, flores e história de Portugal sempre foram as minhas fraquezas. Com a diferença de apenas os pássaros me causarem temor. Mas não seus cânticos. Aquele palreava especialmente bem. Dir-se-ia um Pavarotti entre a passarada. Ao escutá-lo, pensei: olha se assim falássemos nós uns com os outros, não seria tudo mais compreensível e aceitável? Ao contrário, organizámos línguas e linguagens para andarmos todos a dizer as mesmas coisas por palavras diferentes discordando de tudo quanto se diz e se repete. A língua roubou-nos as penas, foi o que foi, e sem penas nenhum voo se logra.

Chegados ao berço, somos uma espécie de recém-nascidos com todos os receios já arrumados. Afinal pouco há a recear. Estamos convencidos de termos tomado o rumo certo, ainda que precipitados para o fracasso. É inevitável. Seja como for, agradam-me os vales onde as cidades cresceram rodeadas de sombra. E sobre elas mais me agrada ainda a velocidade do céu, com suas embaixadas na terra, em avenidas tornadas históricas sabe-se lá por que razão de que atrocidades aí cometidas. E gosto da água repuxada, mesmo que em lagos murados. Gosto de ver as rotinas por entre a água, como quem faz da fonte essencial da vida uma espécie de lente para tudo quanto seria dispensável, tivéssemos nós ainda sonhos.

Ficaram todos dentro de castelos antigos, muralhas que guardam fantasmas de sonhos desfeitos. Um ligeiro nevoeiro, conveniente. Andam por ali como sinais deixados ao acaso. Estimulam a memória e a fantasia, é certo, ao mesmo tempo que nos desviam do presente, para o qual somos chamados apenas quando nos pretendem cobrar por uma subida ao cimo da torre central. Também gosto de castelos e nunca o disse, sobretudo quando são de claras. Julgo que sobre esses nunca o João Miguel Fernandes Jorge escreveu.


Mas Deus é grande, há que ter esperança. Tem mais propriamente quatro metros de altura, foi feito com filtros de cigarro e criado por um tal João Leonardo. Está em exposição na capela do Paço dos Duques, temporariamente ocupado pela saudável inquietação da arte contemporânea. Estimulante contraste entre um passado tornado clássico e um futuro ainda contemporâneo. Além da criatura gigantesca, gostei especialmente de um vídeo de João Onofre e de uma escultura de Julião Sarmento. Mas havia mais: Rui Chafes, José Pedro Croft, Fernanda Fragateiro, Adriana Molder, Ana Pérez-Quiroga, Miguel Palma, Filipa César, Yonamine, João Louro, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira. Nomes, muitos nomes, tremendos nomes, pena que tenhamos de decorá-los, melhor seria que todas as obras ficassem anónimas como grande parte das expostas no Museu de Alberto Sampaio. Talvez tornar-se clássico seja isso mesmo, perder o nome. Ou prescindir dele em favor do tempo.


Não é preciso dar nome às casas. Damos nome às praças, aos largos, às ruas, mas só muito esporadicamente damos nome às casas. Não é preciso. Os números fazem a vez dos nomes onde se busca apenas abrigo. Novamente inclinados para o céu, reparamos no cuidado colocado na conservação. E falava eu de conservas, e falava eu de revivalismo. A cultura carece de conservação. Um país não tem de ser uma lata de conserva, mas a cultura carece de conservação. Para que por vezes possamos olhar à nossa volta e nos sintamos identificados, integrados, acolhidos.


Foi junto ao Padrão do Salado, ao pé da Igreja de Nossa Sra. Da Oliveira, que o tempo começou a acelerar. Não irei repetir o que já foi pronunciado sobre o assunto. Apenas lembrar o seguinte: eu vi-me a mim próprio, ali mesmo, na noite anterior, passeando com um cigarro segurado pelas mãos cruzadas atrás das costas, eu vi-me ali mesmo, eu próprio, daqui a 40 anos. Chamem-lhe profecia, premonição, oráculo, chamem-lhe visão de um tonto, mas era eu. Estava careca como o meu pai, os poucos cabelos já todos brancos, curvado como um velho livreiro reformado. Caminhava lentamente, arrastando com pesar as pernas, olhando para a calçada como quem vê em cada cubo de pedra um enigma por decifrar. E trazia aceso um cigarro que nunca levava à boca, deixava-o a queimar atrás das costas enquanto à minha volta, já meia-noite feita, grupos incontáveis de adolescentes bebericavam seus engates. Ali andava eu, sozinho, a micar as sombras. E a olhar para mim, dois amigos no corredor dos quarenta, ainda caminhando na direcção da porta, falando de tudo e mais alguma coisa como sempre falaram: discordando, pois a discordar o tempo passa mais depressa e o brandy sabe melhor. E eu que por ali andava quarenta anos depois de mim mesmo, perguntava-me: por onde anda agora o meu amigo de outrora?


É fácil de adivinhar, os amigos não esmorecem, são para a vida. Mesmo ausentes largos tempos, reencontram-se. Sentam-se a uma mesa, na tasca mais brejeira, e partilham malgas de vinho verde tinto, um prato de nozes e amêndoas oferecido pela casa; ao fundo, as compotas sedutoras e, entre os dois, milhares de aventuras para serem recordadas. Adiam-se os portos numa festa popular, uma travessa de leitão e negalhos para o caminho. Depois a vida retoma os passos do inferno, mesmo que continuemos a cantar como os pássaros da Ria. Enjaulados, mas ufanos.


Fotografias: Mário Calado Pedro.

sábado, 9 de junho de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #55





Há algo de divertido e eclético no Opus Ensemble, um conjunto de câmara que, à data de edição de 94 (1993), era composto por Ana Bela Chaves (viola), Olga Prats (piano), Bruno Pizzamiglio (oboé) e Alejandro Erlich-Oliva (contrabaixo). Pedro Ribeiro substituiu Pizzamiglio, após o falecimento deste em 1997. 94 abre com a peça Três Andamentos à Procura de um Quarteto, de António Victorino de Almeida. Seguem-se composições de Erik Satie, Maurice Ohana, Beethoven e Mozart (o pai). Os temas de Victorino de Almeida e Maurice Ohana foram especialmente escritos para o quarteto português. Em qualquer um dos momentos, assistimos a uma rigorosa recriação musical. O lado divertido está na assimilação da música enquanto alimento do fôlego, o que torna tudo mais genuíno. Distanciamo-nos, assim, da pretensão de um processo criativo exclusivamente centrado no intelecto, assistindo a uma difusão do corpouvinte pelas partículas de som que povoam a atmosfera. É pura experiência musical. Em andamentos diversos, paisagens enriquecedoras e contagiantes, instantes onde a poesia equivale à arte da dança. O tema de António Victorino de Almeida, tal como a peça de Ohana, são especialmente reveladores desta capacidade de colocar o ar a movimentar-se dentro de nós, a partir de um estímulo auditivo que, de um modo quase imediato e inexplicável, produz no cérebro paisagens distintas logo distribuídas por todo o sistema nervoso central. E o corpo baila de um modo espontâneo, sem necessitar de o expor na algazarra dos músculos.

PAISAGEM DE LISBOA


As salas dos cinemas King têm uma ligeira inclinação para o abismo. Cosmopolis pode não ser um grande filme, mas a limusine merece Óscar para melhor actriz……….Mulheres bonitas da Rua do Carmo, criminosos em potência na Rua Garrett. Réplicas de Renato Seabra, o assassino de Carlos Castro, gabam as últimas compras de Madame Tussauds. Tanta base no rosto ainda lhe provoca a queda das órbitas pelas bochechas abaixo. A banda rastafári toca Stevie Wonder. Na Igreja, os Mártires abanam a cabeça em sinal de jubilação……….O Nuno Moura é uma gaveta cheia de projectos. O Jonas já inventa palavras. Sai ao pai. Deus está morto, a poesia morreu, a pintura morreu, a música definha. Só os souvenirs se mantêm rijos que nem um pêro……….A Maria João tem uma gata lua, um gato sol e um mundo ilustrado nas mãos. O Jorge Aguiar de Oliveira não encontra nada de chocante na novelhíssima poesia portuguesa, eu continuo a julgar terapia de choque a poesia do Jorge. Artaud havia de gostar……….Descer a Avenida Almirante Reis a pé, da Praça do Chile ao Martim Moniz, faz bem ao sacro. As costas endireitam-se-nos num instante. Estava capaz de tatuar aquele par de mamas nas costas……….21000 pastéis de Belém por dia, em época de crise. Quase tantos quantas as obras do Museu Colecção Berardo. O C da colecção caiu e desfez-se em obra de arte contemporânea. Na exposição dedicada a Nikias Skapinakis eu ouvi: já não tenho paciência para decifrar obras. Ouvi: continuo a gostar muito de arte figurativa. Ouvi: sobretudo quando estão representadas figuras nossas conhecidas. E enquanto olhava Os Críticos (da esquerda para a direita: António Guerreiro, Pedro Mexia, Eduardo Pitta e Rogério Casanova), li na página em branco um desabafo de Natália Correia, com Fernanda Botelho e Maria João Pires ajoelhadas a seus pés (estavam as cadeiras do Botequim todas ocupadas): “a violência, enquanto conceito estético, deixou de me interessar, nem mesmo se aplicada no contexto doméstico, também não me interessa a morte e sobre o amor já disse tudo o que tinha a dizer, continua a preocupar-me o sentido da vida, na relação sempre conflituosa do homem com a natureza, do espaço com o tempo”. O público fala mais do que as obras, o público desabituou-se do silêncio e da contemplação, necessita de nomes para tudo como de ar para os pulmões, já não respira, sufoca. Não me revejo entre o público. Recolhi-me num quarto imaginário a exercitar a respiração……….Almoço na Graça, pela mão do Mário Calado Pedro. O Botequim estava fechado, mas mesmo ali ao lado o miradouro estava aberto. Lisboa é uma bela cidade quando apagamos na paisagem todos os resquícios de cagança……….Visita rápida à Fundação Calouste Gulbenkian para adquirir o último número da Colóquio/Letras, ainda ausente das FNAC. Não vinha aqui, provavelmente, desde a exposição dedicada a Amadeo de Souza-Cardoso. Sentei-me no jardim a ler a recensão. O mesmo vazio de sempre, a mesma letargia de sempre, nem um pingo de emoção. Consolo-me mais com um prato de conquilhas……….Pensão Amor: 150 imagens de retroerotismo espalhadas pelas paredes, decoração “nouveau démodé” inovando no excesso de conservação, desconfio sempre do erotismo encadernado, prefiro vê-lo sentado nas cadeiras, de boquilha esfumaçante entre os lábios e cocktail numa mão. A outra fica para gesticular. Em matéria de erotismo sou bastante conservador: odeio o conservadorismo, a sonsice e o romantismo bacoco das mulheres portuguesas……….O café Sol e Pesca, no Cais do Sodré, passou a fazer parte dos postais ilustrados da cidade depois da visita de Anthony Bourdain. É um belo postal ilustrado, com a vantagem de trazer putas por perto. Na conta da Mesa 23 podemos encontrar: escabeche de mexilhão, filete de peixe-espada, filete fumado de cavala, polvo com molho verde e filete fumado de truta. Cinco jarros de vinho branco. Não consta da factura a melhor das hipóteses: e se fôssemos a Guimarães? É o que Lisboa tem de favorável, partimos sempre de lá com ideias melhores do que aquelas que nos trouxeram até ela.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

COSMOPOLIS


Reparei em duas raparigas sentadas numa das mesas do Rolhas e Rótulos, um winebar no centro histórico de Guimarães onde estive a degustar uma tábua de enchidos na companhia de um Eugénio de Almeida. Estavam sentadas com os respectivos laptops sobre a mesa, página do Facebook aberta e bocas cerradas que nem túmulos. Não trocaram uma palavra enquanto as olhei. De vez em quando, esboçavam um esgar que permitia perceber-lhes a vivacidade. Mas faziam-no sempre com os olhos apontados para o monitor. O mundo delas já não era apenas o meu mundo, era uma extensão inorgânica da vida material. É possível que consultassem a página uma da outra, partilhando vídeos, artigos, fotografias, curtindo descobertas individuais sem necessidade de conversa, dando comida às galinhas numa horta virtual, limitando-se apenas a manifestar um sentido de gosto com raízes na superfície das coisas. Afinal, não é o que fazem hoje as pessoas normais? Corrijo, não é o que faz hoje as pessoas sentirem-se normais? Curiosamente, uma das raparigas tinha um aspecto algo vanguardista, nada vulgar, o que me remeteu para o mais recente filme de David Cronenberg. Não posso dizer que me tenha comovido com Cosmopolis. Provavelmente não era intenção do filme comover um português saloio, embora o livro me tenha suscitado várias questões onde a racionalidade da interpretação procura aconchego nas emoções produzidas pelo texto. Há algo de emocional na história de um jovem multimilionário que não consegue foder a sua jovem mulher, só quer cortar o cabelo no barbeiro da infância e vem a descobrir que a solução para os seus problemas reside no seu próprio cu. Ou quase. A descoberta de uma próstata assimétrica pode ser reveladora, se nela quisermos ver uma espécie de oráculo sobre a natureza instável do mundo. Ou seja, nem tudo encaixa nas fórmulas e nos padrões com que avaliamos a realidade porque para lá da regularidade que o raciocínio consegue prever, por vezes com espantosa exactidão, há o acaso, os acidentes, as contingências, o erro, o caos. Repare-se como deixámos de nos comover com o tempo porque aprendemos a controlá-lo. Este domínio sobre a realidade, ou pelo menos a presunção desse domínio, rouba-nos o sentido enquanto ocupamos os sentidos com as novas fórmulas de extensão do mundo. A Internet introduziu isso nas nossas vidas com estranha resolução, ela já não serve apenas para partilharmos representações da existência. Ela serve para que nós próprios existamos. Não se trata da velha dicotomia entre artificial e autêntico. Hoje em dia, a artificialidade pode ser tão autêntica que causa guerras, provoca mortes, alimenta o luxo de uns poucos e a miséria da maioria. A especulação financeira é o exemplo mais paradigmático desta “nova realidade”. Inventámos exaustivos modelos de análise do tempo, gerimos o mundo no pressuposto de que não somos parte integrante desse mundo. Situamo-nos, o mais possível, nos não lugares da virtualidade. Talvez doam menos. Até que um dia acordamos para os apetites, somos levados pela paixão, apetece-nos ir ao barbeiro da infância e torna-se difícil manter a rota, queremos foder a nossa mulher e somos traídos pela poesia. Acabamos a disparar sobre nós próprios para nos certificarmos de que ainda estamos vivos, de que ainda somos gente, para aprendermos com a dor o significado de se estar vivo. No fundo só queremos ter a certeza de um corpo, confirmar se não nos teremos metamorfoseado numa versão actualizada e aperfeiçoada de um holograma hiper-hiper-realista. Para então podermos concluir:


Não consigo sentir o teu corpo quando primo a tecla C.

sábado, 2 de junho de 2012

O TRIUNFO DOS PORCOS

Camarada Van Zeller, não muito depois de termos ficado a saber que os deputados do PSD são os mais faltosos, eis que um governo laranja se prepara para combater a falta de assiduidade. Dos alunos, claro está, que a palavra dos deputados faz fé e a fazer fé na palavra dos deputados todas as faltas estão justificadíssimas por motivos de força maior.
Forças maiores não operam, porém, na vida dos fedelhos com inclinação para a greve. Vai daí, toca de engendrar medidas a favor da assiduidade. Como vivemos num país onde tudo o que é medida tem que arrastar uma sombra de tortura, o Ministério da Educação e Ciência achou por bem obrigar os faltosos a trabalhos a favor da comunidade, quais pequenos cadastrados reincidentes na má vida.
Os trabalhos a favor da comunidade, está mais que provado, têm vários méritos. Sobretudo junto de jovens desviados com preconceitos acerca dessa mesma comunidade. Têm o mérito, desde logo, de promover o trabalho, mormente o trabalho gracioso e solidário e compassivo. Ou seja, o mesmo tipo de conceito laboral que estes jovens irão encontrar quando procurarem penetrar no mercado de trabalho à séria.
Não satisfeito com a propaganda destes bons hábitos, prepara-se o Ministério da Educação para promover ainda uma forte censura social, cito, dos encarregados de educação dos alunos faltosos. Os maus pais de família serão alvo de merecidas sevícias, tais como reduções de apoio social à família (quais?) ou contra-ordenações. Ora aí está um bom pretexto para aplicar o mais apetecível dos castigos, a multa. O que seria de nós sem esta suprema figura do Direito?
Além de multas, poderão ainda os maus pais de família ficar sujeitos a programas de educação parental, administrados, desconfiamos, por padres e freiras, esses que sempre foram, neste país, quem melhor entendeu o conceito de família. Pelo menos à napolitana. Preparai-vos, pois, pais e mães de Portugal, trazei os vossos petizes pela trela se não pretendeis ver-vos achincalhados em plena praça pública pela comunidade de que fazeis parte integrante a bem ou a mal.
Aqui, como gostamos de ver o exemplo a ser dado pelos maiores, sugerimos que as mesmas regras sejam aplicadas aos senhores e às senhoras deputados e deputadas faltosos e faltosas. Poderão iniciar os bons serviços à comunidade já no próximo dia 16 de Junho, varrendo a porcaria que o megapiquenique do Continente deixará no Terreiro do Paço. É certo e sabido que porcos e couves foi coisa que nunca ali faltou, mas prevê-se que no próximo dia 16 aos porcos do costume venham a juntar-se suínos de quatro patas, desses para os quais, até ver, o Ministério da Educação e Ciência não ponderou nenhum programa de educação parental.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ÉRAMOS FELIZES E NÃO SABÍAMOS

Depois de se estrear no mais nobre dos géneros literários com Última Paragem, Massamá (2011), Pedro Vieira, que nada tem que ver com o homónimo autor de livros para transformar os desafios da vida em oportunidades de crescimento, aventura-se no reino da crónica. No entanto, estas crónicas têm uma particularidade: foram escritas para serem vistas e ouvidas. Acompanhadas pelos desenhos do autor, deram corpo à rubrica irmaolucia, exibida no Canal Q. São, por essa razão, textos contaminados pelas exigências da leitura em alta voz, o que pode produzir consequências desagradáveis em quem os pretenda ler, agora, no silêncio, no sossego e na paz de uma casa portuguesa. Na sua estrutura, apresentam defeitos porventura inultrapassáveis. Pedro Vieira usa e abusa de muletas da linguagem como «e por falar em» ou a interjeição «adiante», não resiste ao efeito coloquial de um «vá», repete várias vezes expressões irritantes como «aqui há atrasado». Uma outra fraqueza destes textos estará relacionada com o terem sido escritos para um hipotético público-alvo, o do programa onde eram lidos, o qual não terá de ser exactamente igual ao público do livro. Muitas piadas têm na sua raiz um lisboetismo não tão comum quanto possa julgar quem vive na capital. Nem toda a gente associa de imediato o Parque Eduardo VII à pedofilia, o Conde Redondo à prostituição ou a Costa de Caparica à imigração brasileira. Embora devesse, a bem da informação. Ainda assim, Éramos Felizes e Não Sabíamos é um bom cartão de visita para a silly season, a qual, em terras lusas, estende-se pelo ano inteiro teimando em não dar descanso a humoristas, cómicos, sátiros e histriões. A pena de Vieira encontra assunto com facilidade, o autor mostra-se atento aos boatos e às cenas mundanas, colecciona episódios caricatos da vida pública, gosta de disparar contra as forças do poder, sejam elas políticos ou a Santa Madre Igreja. Não sendo exactamente um cronista de costumes, desfaz mitos com uma ironia inteligente e afinada. Por vezes opta por um humor anedótico — «A notícia caiu com tal estrondo que até a Vénus de Milo bateu palmas» (p. 23) —, noutras ocasiões, muitas, inclina-se para a heterodoxia. Mas o humor de Pedro Vieira torna-se verdadeiramente interessante quando ousa pisar o risco do bom gosto e adopta uma postura corrosiva e negra. Leiam-se crónicas como Bom Rapaz, Sério, Trabalhador (sobre o famigerado homicídio de Carlos Castro) ou Bater Recordes (sobre violência doméstica) para percebermos que nem tudo aqui é leveza e galhofa. Ou ainda alguns momentos onde o facto abordado, por si só cómico, inspira aforismos de guerrilha que não desagradaria ver por aí espalhados em graffiti nas paredes de um Portugal emparedado. Bom exemplo é o remate da sátira intitulada Pentelhos: «Caros compatriotas, resta-nos uma de duas soluções: ou rapamos ou desinfectamos. Agora é escolher» (p. 91). Infelizmente, muitos compatriotas ainda não terão chegado a tão certeira conclusão, preferindo manter no poder as mesmas figuras que há décadas vão contribuindo para que os taxistas estejam cheios de razão. Não deixa de ser algo deprimente, pelas razões apontadas, terminar a leitura de um livro destes com a sensação de que andamos há demasiado tempo a coleccionar os mesmos cromos da mesma caderneta. Só um cenário tão pobre permite que em Novembro de 2011 alguém possa escrever uma crónica lembrando que «o cavaquismo não foi só o berço de homens impolutos como Duarte Lima, Dias Loureiro e Oliveira e Costa; foi também uma espécie de caldo de cultura muito favorável à actuação das polícias de choque e dos seus cães amestrados» (p. 139). Uma última nota: a deputada com penteado ao melhor estilo Vileda, eleita para Presidente da Assembleia da República, foi Assunção Esteves, e não Cristas, como se afirma a páginas 103. Basta olhar-lhes para a cabeça para percebermos a diferença. Ou talvez não.