sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O ESPÍRITO DOS TEMPOS

Fábrica de Braço de Prata, Lisboa, 2012.


Há muito tempo já me reinas sobre a fronte
Na tua nuvem 'scura, Deus dos Tempos!
Selvático e horrível por demais é tudo em volta,
Tudo vacila e rui para onde quer que eu olhe.

Ai! como um menino lanço a vista ao chão
E na caverna busco livrar-me de ti, desejaria,
Pobre louco, achar um sítio,
Ó Deus que tudo abalas, onde tu não estejas.

Que eu finalmente, ó Pai! te possa olhar
De olhos abertos! Não foste tu que primeiro
Com teu raio me despertaste o espírito?
Que à vida me trouxeste magnífico, ó Pai?! -

Certo é que de vides novas nos vem força sagrada:
Em ar suave vem à busca dos mortais,
Quando eles vagueiam tranquilos pelo bosque,
Um deus, animador; mais poderoso, tu,

Contudo, despertas a alma pura dos jovens
E ensinas aos velhos artes sábias; só o mau
Se faz pior, para acabar mais breve,
Quando tu, Tremendo! o tocas.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Hölderlin.

A TERCEIRA MISÉRIA

Ainda antes do índice, Hélia Correia confessa a sua dívida para com, entre outras, as obras de Hölderlin, Nietzsche e Lord Byron. Tínhamos percebido a importância das mesmas na construção do poema A Terceira Miséria (Relógio d’Água, Fevereiro de 2012) - sequência em trinta e três breves estrofes, onde a voz daqueles poetas ecoa como uma espécie de fonte na qual a autora de Adoecer colheu a água para regar os versos. «Para quê, perguntou ele, para que servem / Os poetas em tempo de indigência?» (p. 7) Com esta dúvida, encontrada numa das mais belas elegias de Hölderlin, O Pão e o Vinho«Entretanto às vezes melhor parece / Dormir do que viver assim sem companheiros, ter / De esperar assim; e o que fazer e dizer entretanto / Não sei; e para quê Poetas em tempos de indigência?» (Hölderlin, Poemas, trad. Paulo Quintela, Relógio d’Água, 1991) —, inicia Hélia Correria uma reflexão poética onde a inquietação sobre o lugar e a função da própria poesia está sempre presente. Os tempos de indigência a que Hölderlin aludia eram, certamente, diferentes deste nosso tempo, embora a indigência permaneça e faça o seu caminho sobre um manto de ruínas. A ruína sobre a qual surgiu o romantismo alemão foi a de uma Grécia perdida, a Grécia porventura mitológica de uma relação com o sagrado desfeita pela espada do monoteísmo. Ouvi há pouco alguém comentar “Deus nos salve da anarquia” e não pude deixar de pensar, depois de ouvir o comentário e embalado por este livro, que nos salve antes a anarquia de Deus. Há, pois, uma indigência latente no nosso tempo que é em tudo idêntica à pressentida pelos idealistas e românticos alemães, a mesma que Novalis denunciava num texto essencial intitulado A Cristandade ou a Europa. A nostalgia de um sentimento religioso, alimentado pelo espanto e independente de visões literais do sagrado, está muito mais próxima da anarquia do que desse “valha-nos Deus” apregoado sem sentido nem substância. A ter que valer a todos, Deus não vale a ninguém. Fica arrumado numa caixinha de conceitos, acessíveis a meia dúzia de iluminados que sobre os néscios exercerão o seu poder. Ora, o sentimento que naquele tempo inspirou, digamos assim, os poetas alemães, assemelha-se, de facto, ao sentimento que agora inspira esta poeta portuguesa: «Nós, os ateus, nós, os monoteístas, / Nós, os que reduzimos a beleza / A pequenas tarefas, nós, os pobres / Adornados, os pobres confortáveis, / Os que a si mesmos se vigarizavam / Olhando para cima, para as torres, / Supondo que as podiam habitar, / Glória das águias que nem águias tem, / Sofremos, sim, de idêntica indigência, / Da ruína da Grécia» (p. 13). Esta ruína, tão espiritual quão material, acaba por ser simbólica de uma ruína civilizacional, porque estava ali, recordemos, o berço da democracia, a mesma democracia hoje arrasada pela ordem económica e financeira que tudo determina na vida das populações. Se Nietzsche matou o Deus subjugador do Vaticano, não foi para nos libertar do sagrado tanto quanto terá sido para nos libertar dos nossos próprios medos. Sendo inerente ao próprio homem, sendo humano, demasiado humano, o sentido do sagrado é a força que, pela fé, liberta o escravo do senhor, indica os caminhos múltiplos e diversos da espiritualidade afastando-nos de um materialismo ganancioso e assoberbado, vírus infalível de uma desumanização do mundo evidenciada pelos trilhos do consumismo. «Sim, foi essa / A primeira miséria, a deserção / Dos deuses. A segunda, a sua morte, / Já na morte de Pã anunciada / Pelo lamento dos bosques, o clamor / Lutuoso das ilhas do Egeu» (p. 24). Apartados dos deuses, alienados do sagrado, eis-nos então chegados à terceira das nossas misérias, «A miséria da interpretação / Que tudo trai» (p. 26): «A terceira miséria é esta, a de hoje. / A de quem já não ouve nem pergunta. / A de quem não recorda. E, ao contrário / Do orgulhoso Péricles, se torna / Num entre os mais, num entre os que se entregam, / Nos que vão misturar-se como um líquido / Num líquido maior, perdida a forma, / Desfeita em pó a estátua» (p. 29). É a miséria das multidões contra o primado do indivíduo, não do individualismo, mas da pessoa única e singular entre os demais que também são; é a miséria de um povo transformado em consumível, usurpado da sua dignidade humana, ou seja, dessa mesma dignidade fundada na relação com aquilo que se perdeu e hoje é ruína: o sagrado. Chamemos-lhe deuses ou natureza, chamemos-lhes Apolo ou Árvore, foi deles que nos tornámos órfãos tornando-nos, desse modo, tão insignificantes como hoje é o poema. Por isso voltamos a perguntar, como há duzentos anos,  para que servem os poetas em tempos de indigência?

CUPCAKE EM FORMA DE CORAÇÃO

O maior problema do humorista é quando ele próprio se transforma numa anedota. Veja-se o caso de Herman José, um tipo que nos fazia rir quando se limitava a ser humorista e começou a causar-nos asco quando se transformou numa piada de si próprio. Vi-o recentemente num vídeo a comentar a actualidade e o suicídio de Dimitri Christoulas, o reformado grego que não quis deixar dívidas aos filhos e se matou a poucos metros do Parlamento grego. Herman desvalorizou o gesto, insinuando que provavelmente se tratava de um homem que estava a tentar pagar uma casa na ilha de Santorini e que se calhar ia a meio do pagamento de uma carrinha nova que tinha oferecido ao neto e que se calhar estava cheio de dívidas que não conseguia suportar… Ou seja, Herman avaliou o gesto daquele homem tomando como padrão a sua própria vida. E foi acrescentando uma série de asneiras sobre empreendedorismo, naquele discurso vazio de “arregaça as mangas e vai trabalhar”. A gente olha para o percurso de Herman José e não se espanta que ele pense assim. No entanto, também eu por vezes não escapo a uma avaliação do mundo em função da minha própria realidade ou daquela que me é mais próxima. Penso, por exemplo, na mais crescida das minhas irmãs. Herman nasceu e cresceu em Lisboa, a minha irmã nasceu e cresceu numa aldeia isolada; com quatro anos de idade, Herman protagonizava os filmes do pai; com quatro anos de idade, a minha irmã aguardava o telefonema do pai colocado em Moçambique na guerra do ultramar; aos cinco anos, Herman entrou para a Escola Alemã de Lisboa; a minha irmã entrou para a escola pública lá da aldeia; Herman teve resultados pouco lineares, a minha irmã foi sempre excelente aluna; Herman ainda estudava quando comprou a sua primeira viola-baixo, a minha irmã ainda estudava quando começou a trabalhar para que fosse possível aos meus pais sustentarem-lhe os estudos; Herman conheceu a vida artística através da música, a minha irmã conheceu a austeridade através de uma vida de privações; quando se colocou a hipótese do serviço militar, Herman optou pela nacionalidade alemã e preparou-se para zarpar. O serviço militar da minha irmã foi outro, na Universidade de Lisboa a estudar e a trabalhar, contando os tostões, para conseguir levar até ao fim a formação ambicionada. Ao contrário de Herman, a maioria dos portugueses não tinha/não tem como fugir à realidade do país. E é isto que ele nunca entenderá, porque custa admitir que as circunstâncias também fazem os homens. Basta ler um manual de sociologia do 12º ano para o entender. Não importa prosseguir nestas vidas comparadas, importa apenas entender algo tão simples como isto: quando nascemos, não nascemos com as mesmas oportunidades. Uma sociedade mais justa é aquela que proporciona a todos, pelo menos, oportunidades, não condenando os desfavorecidos a uma existência ou miserável ou limitada ou permanentemente desfavorável. Não se trata apenas, pois, de arregaçar as mangas e ir trabalhar, fazendo cupcakes em forma de coração ou escrevendo piadas. Trata-se de gerar condições para que o fruto do trabalho de cada um seja devidamente valorizado, exactamente o contrário do que hoje se passa.

ACABOU-SE A IMPUNIDADE

 
Camarada Van Zeller, ponha-se a pau. Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz entrou ao serviço. Esperemos que não venha tarde. Com ela, acabou-se a impunidade. Se apenas agora acabou é porque até aqui a tínhamos tido. Antes dela, todos os ministros foram cúmplices das vigarices do sistema. Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz é a primeira Ministra da Justiça a admiti-lo, com ela tudo será diferente. Investigue-se. Hosanna!

 
É desta que a Operação Furacão vai arrasar com o sistema. Cavaco terá reforma antecipada e passará os seus últimos dias na Quinta da Coelha, embalado pela Cabrita. Com Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz ninguém estará acima da lei. O ex da ministra, que passou à situação de reforma em função de relatório de junta médica (entenda-se: compensações - 1,9625 milhões de euros; remunerações variáveis - 7,770 milhões de euros; pensão vitalícia - 37,5 mil euros mensais durante catorze meses por ano) e acabou, apesar de inapto, ao lado de Celeste Cardona e Eduardo Catroga, no conselho geral e de supervisão da EDP a discutir pentelhos, que se cuide.


É o fim da macacada. Finalmente veremos investigado e apurado o surpreendente enriquecimento de dezenas de políticos que passaram pelos governos nas últimas décadas. Uns a pescar robalos, outros a vender fruta, todos a encher o saco.  Com Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz a impunidade acabou e tudo será investigado até ao ínfimo pormenor. Isto apesar de Cândida Almeida garantir que os políticos portugueses não são corruptos. Talvez seja a justiça. Comece, desde já, a investigar-se a Directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal. Força Paula, estamos contigo.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

NÃO ME FILMAS A CARA


Este vídeo é um sintoma do que teremos sempre que um membro deste Governo sair à rua. Cidadãos livres detidos para identificação, seguranças impedindo os jornalistas de filmar. Estamos a um passo de ver a Maria Teresa Horta com buscas domiciliárias por ter recusado um prémio das mãos do Primeiro. Não deixa de ser irónico, o Primeiro-ministro sentir-se inseguro perante os portugueses. É como o ladrão sentir-se inseguro perante a vítima.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

CIGARRAS, FORMIGAS, BARATAS


Ninguém percebeu Miguel Macedo, o ministro que renunciou a um subsídio de alojamento previsto na lei como previstas na lei estão todas as regalias das cigarras. É óbvio que ao falar de um país com muitas cigarras e poucas formigas, o ministro referia-se aos deputados do PSD, ainda há não muito apontados como dos mais faltosos no Parlamento. Ninguém o entendeu  porque este é um país de baratas tontas, e o ministro Macedo mais que os outros.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

QUANTOS DE NÓS PODERIAM SUPORTAR QUE OS SEUS DEVANEIOS FOSSEM AUTOMATICAMENTE REGISTADOS E APRESENTADOS COMO NUMA TELA À SUA FRENTE?


Fábrica de Braço de Prata, Lisboa. 2012.



Ficamos chocados quando descobrimos que os grandes homens eram fracos e mesquinhos, desonestos ou egoístas, sexualmente viciosos, fúteis ou desbragados; e muitos julgam incorrecto revelar ao público as falhas dos seus heróis. Não há muito por onde escolher entre os homens. São todos uma mistura de grandeza e pequenez, de virtude e vício, de nobreza e baixeza. Alguns têm mais força de carácter, ou mais oportunidades, e assim, numa direcção ou noutra, libertam os seus instintos, mas potencialmente são a mesma coisa. Quanto a mim, não creio que seja melhor ou pior que a maioria das pessoas, mas sei que, se confessasse cada acção da minha vida e cada pensamento que me atravessou o espírito, o Mundo me julgaria um monstro de depravação.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: W. Somerset Maugham

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #67





Em meados da década de 1990, Baby Bird, alter-ego de Stephen Jones, foi capa de revista por causa de centenas de canções despejadas, a um ritmo avassalador, para um rudimentar gravador de quatro pistas. É verdade que quando a prolixidade aterrou num estúdio de múltiplas vias, a veia secou e deixou de entusiasmar. Mas até lá, pelo menos uma colecção de canções ficou entre o que de melhor se registou naqueles tempos: Fatherhood (1995). Trago-o à liça por me agradar sobremaneira a capa, reveladora de um espírito iconoclasta que perpassa nas canções gravadas. De resto, as capas de Baby Bird foram sempre do melhor que se viu na pop britânica do final do século XX. Escondem melodias simples e epidémicas, embora por vezes desçam aos subúrbios de uma pop menos acolhedora. Ouça-se, a título de exemplo, Cool & Crazy Things To Do, Bad Blood ou, já agora, o tema Copper Feel, do CD The Happiest Man Alive. O facto de terem sido rejeitados em várias companhias discográficas, optando o autor, posteriormente, por uma difusão limitada e independente, garantiu-lhes culto. Isto não deve desviar-nos do essencial, o valor inegável, espontâneo e auto-suficiente das composições. Socorrendo-se de uma caixa de ritmos e de uma guitarra, por vezes distorcida, outras vezes límpida, aumentando ou diminuindo o volume de efeitos baratos, respigando samplers que semeia pelas canções como uma espécie de fertilizante caseiro, Jones logrou uma dicção melódica que estava determinada em acrescentar qualquer coisa à tradição pop britânica. Talvez um pouco dessa melancolia que faz rebentar margaridas de ironia na sombra de um homem só. Tudo o que perece quando em torno da solidão começam a crescer daninhas e perniciosas companhias.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

JOSÉ & FLORENCE

No decorrer da estadia madrilena, José Moreno Villa (1887-1955) permaneceu na Residencia de Estudiantes enquanto director da Biblioteca da Faculdade de Farmácia. Foi aí que se tornou numa espécie de tutor de jovens vanguardistas tais como Luis Buñuel, García Lorca ou Salvador Dalí. Em 1927, quando era director da revista Arquitectura e colaborador do El Sol, conheceu e apaixonou-se por uma jovem americana chamada Florence. Chegou a propor-lhe casamento, tendo a oposição da família da jovem obrigado o poeta a viajar até Nova Iorque e aí permanecer, sem glória, durante três meses. Dessa experiência surgiram os textos de Pruebas de Nueva York e também, já em 1929, um livro de poemas intitulado Jacinta la Pelirroja. Esta Jacinta é a jovem Florence, tornada, desde então, tema central na poesia do poeta andaluz. Rafael de Cózar refere-se à obra em causa da seguinte maneira: «Há no livro um relativo distanciamento da personagem amada, um desejo de se distanciar de todo o sentimentalismo, algo que não apenas obedece ao pressuposto estético do momento (purismo literário) como também a um desejo de dissimular, de algum modo, talvez perante os seus amigos escritores, o reconhecimento do fracasso, uma relação que, com os seus momentos melhores e piores, de distanciamento e aproximação, irá perdurar durante quase toda a sua vida». Para mais, sugiro a leitura deste texto. Por ora, deixo dois poemas:

OBSERVAÇÕES COM JACINTA

Vê, cinematográfica Jacinta,
vê bem o que tem o elefante no lugar do nariz.
Vê do que precisamos para nos sentarmos,
vê a casa imensa que tem aquele a quem chamamos rei.
Vê isto de dormir, levantar-se, dormir e levantar-se;
vê o homem e a mulher que concordam jamais separarem-se;
vê a canalha, dona do nosso globo;
vê como a terna flor brota do solo duro;
vê que dos ramos das árvores
nascem comestíveis aromáticos.
Vê que do céu puro nos chegam
água, raio, luz, frio, calor, pedras, neve.
Mistério e absurdo em tudo, Jacinta.


JACINTA ACUSA-ME DE DESPERDÍCIO

Ao lado do avarento, sinto-me mãos-rotas, Jacinta.
Os pássaros foram criados para ver os elefantes,
e a nossa terra em vista do imenso vazio.
Abre, Jacinta, os olhos à criação
as mãos e todo o teu ser.
Que tombem e se percam os dólares.
Há um dólar de valor mais elevado,
o que não resvala da carteira;
o que se embala e surge novo todas as manhãs;
o que viaja sem a rosa dos ventos;
o que põe a sua vontade nas Índias ocultas;
o que condiz com o distante;
o que esclarece o confuso;
o que não mente;
o que não se dobra;
o que continua amarrado a uma correia de solidão.

domingo, 16 de setembro de 2012

HELENA DE TROIKA

Camarada Van Zeller, tirei o dia para descansar da luta e ver documentários sobre os povos do deserto. Qual não foi o meu espanto quando, num desses documentários, vi surgir no alto de uma duna, envolta em pó e tal uma miragem, a Helena Matos. Para quem não saiba, e muitos não saberão porque, em boa verdade, não interessa saber, trata-se de uma dessas luminárias que pululam pela imprensa portuguesa debitando teses com a convicção dos tontos. Sem pretender tomar a sua perspectiva por algo mais do que um mero arroto intelectual, até porque os burros usam viseiras e a Helena usa franja, o que lhe impede de ver um pouco mais que seja acima do seu nariz, sirvo-me aqui das suas palavras para, camarada Van Zeller, lhe comunicar o que senti durante o dia de ontem. Diz a Helena que as manifestações estão longe de traduzir desaprovação em relação ao governo. Temos aqui algo que nos obriga a rever o conceito de cegueira, pois cego não é, definitivamente, aquele que não vê. Mas também não é apenas aquele que não quer ver. É, de hoje em diante, aquele que finge não ver. A Senhora Dona Helena finge não ver o óbvio, ou seja, o estado de saturação a que uma imensa maioria da população portuguesa chegou e que lhe torna insuportável a contínua roubalheira a que vem sendo sujeita. Independentemente de questões ideológicas, é disso que se trata. As pessoas parecem ter consciência das dificuldades económicas, mas não estão dispostas a engolir o argumentário hipócrita (e idiota) de quem lhes diz terem vivido acima das suas possibilidades quando outra coisa não fizeram senão ir vivendo na medida do possível. As pessoas parecem ter consciência das dificuldades do país, mas não estão dispostas a suportar sacrifícios infligidos por aqueles que, afinal, são os mais óbvios responsáveis pelo estado a que o país chegou, invertendo assim todo o sentido da justiça colocando no lugar do juiz um criminoso e no lugar dos réus as vítimas. Foi essa saturação que levou ontem centenas de milhar de pessoas à rua, misturando radicais com betos entre os quais só não vimos a Helena Matos porque, na melhor tradição portuguesa, preferiu ficar sentada no sofá a apontar tudo o que mexe e a criticar quem faz alguma coisa. A Helena Matos lembra-me as pessoas da terra onde nasci, Rio Maior, que se alguma vez reagiram contra alguma coisa foi sempre contra aquilo que reage, em nome de um conformismo e de uma passividade tão artificial como a peruca que a Helena parece trazer sobre o crânio. Ao dizer que nesta manifestação só esteve quem nunca apoiou este governo, a Senhora Dona Helena assobia para o lado e cospe contra o vento. Porque nela esteve, e eu vi, gente que votou no programa deste governo, um programa traído diariamente, sempre no pior dos sentidos, como facilmente se comprova, tornando Passos Coelho em mais uma réplica da governação mentirosa, aldrabona, vigarista e até criminosa de que os portugueses há muito são vítimas. Mas mais hilariante é aquilo que entra pelos olhos adentro da Helena (não sabemos quantos, nem quais e estamos longe de desejar sabê-lo): «quem apela à revolta da rua são os privilegiados do sistema. Aqueles que enriqueceram ou atingiram apreciáveis níveis de vida graças a esses estado (sic) que agora não conseguimos sustentar». Ok, admito que seja difícil digerir a expressão massiva de indignação que ontem levou à Praça de Espanha, e depois a São Bento, e a várias ruas e praças de outras cidades deste país, centenas de milhares de cidadãos certamente tão ou mais ou menos privilegiados do sistema que a Dona Helena, mas nada se compara à indigestão provocada pela insanidade vomitada nestas palavras. Será que a Helena se toma ela própria por uma privilegiada do sistema? Ou faz parte desse povo que, segundo ela, irá penalizar o governo indo para a praia e não pagando impostos? O que é Helena? Quem é? De que lado está? Chega a ser cómico julgar que uma coisa destas foi escrita, partindo do princípio que pensá-la já era mau e dizê-la pior seria. Escrevê-la é passar um atestado de estupidez a si próprio. Portanto, na rua estiveram os privilegiados do sistema!... Mas quem são eles na cabeça de Helena? A gatunagem do BPN? Os papa cargos? Os oportunistas da política? Os “donos de Portugal”? Não. São, e passo a citar, «os artistas, os designers, os patrões da imprensa, os bispos eméritos das forças armadas, os provedores, os professores doutores em saberes tão vagos quanto a licenciatura de Relvas, os empresários dos magalhães e similares, os sindicalistas com progressões automáticas garantidas…. que querem que o povo se revolte». É a loucura, senhores, é a loucura. E isto no dia em que ficámos a saber de mais um estudo onde se prova que Portugal é o país da UE, com excepção da Letónia e Lituânia, a ter maiores desigualdades na distribuição dos rendimentos. Mas é óbvio que para Helena de Troika também este estudo só pode ter sido levado a cabo por uma cambada de privilegiados. Este estudo não cabe no olho de Helena, mas bom seria que alguém lho enfiasse pelos olhos adentro.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

TODOS SE GABAM DO PROGRESSO SOCIAL E NINGUÉM PROGRIDE.


Âlcantara, Lisboa. 2012.





O homem civilizado construiu uma carroça, mas perdeu o uso dos pés. É amparado por muletas, mas falta-lhe o apoio dos músculos. Tem um belo relógio fabricado em Genebra, mas já não sabe reconhecer as horas pela posição do Sol. O homem na rua possui um almanaque náutico de Greenwich e está tãos eguro de poder obter todas as informações quando precisa, que já nem sabe reconhecer uma estrela no firmamento. Não observa o solstício e desconhece outro tanto o equinócio; todo o brilhante calendário anual não corresponde a qualquer quadrante na sua mente. Os seus blocos de notas debilitam-lhe a memória, as suas bibliotecas sobrecarregam-lhe a mente; as companhias de seguros apenas aumentam o número de acidentes e podemos até perguntar-nos se as máquinas não nos entravam, se os nossos refinamentos não nos fazem perder energia e se o Cristianismo entrincheirado em formas e instituições não terá perdido o vigor de uma virtude selvagem, pois cada estóico era verdadeiramente estóico, mas onde está o Cristão na Cristandade?

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Ralph Waldo Emerson

A CONFIANÇA EM SI

Um autor perigoso é aquele que nos cativa pela beleza das palavras a ponto de lhe perdermos o fio às ideias. Pode acontecer com Platão como facilmente sucede com Vieira, aconteceu-me com Santo Agostinho na mesma medida em que o senti, com o passar dos anos, na obra de outro Agostinho, o da Silva. Exemplos não faltam. Ralph Waldo Emerson (1803-1882) é mais um. Lemo-lo com agrado extremo. Mas parados sobre os pensamentos, ficamos hesitantes e intrigados. Chega a ser inquietante o quanto nos revemos em fragmentos do seu pensamento, para logo descrermos por completo de algumas das suas conclusões. O seu transcendentalismo ideológico e, por isso, utópico e, também por isso, facilmente desmontável, não pode ser reduzido a uma mera profissão de fé. Emerson absorveu as tradições dos indígenas norte-americanos e soube adaptá-las à realidade do seu tempo, não sendo, claro está, pela sua distanciação da ortodoxia católica que nos afastamos dele. Antes pelo contrário. Nesse sentido, A Confiança em Si é um ensaio deveras cativante, onde fica clara a intenção humanista do autor d'elevar o indivíduo a uma circunstância, por assim dizer, demiurgica. Não obstante, as suas ideias são difíceis de assimilar numa época onde o indivíduo se faz cada vez mais numa relação contraceptiva com o outro e com a natureza, ou seja, com o mundo abetumado que o rodeia. A liberdade que Ralph Waldo Emerson enfatizava, num mundo de escravos evidentes, pode ser a mesma que enfatizamos hoje, num mundo de escravos implícitos; mas a forma como se revela, constrói, afirma, nada tem que ver com esse tempo onde as forças oponentes, o inimigo, eram objectivas. Repare-se como ao longo dos tempos o capitalismo logrou tornar o homem-escravo inimigo de si próprio, transferindo a responsabilidade das suas opções para um outrem abstracto (governo, instituições, associações, grupos, etc.) e conformando-o às exigências que o conforto lhe coloca diariamente. A autoconfiança torna-se, deste modo, numa aprendizagem para a acção em conformidade, ou seja, numa autoeducação para o conformismo, para a produtividade, para o consumismo. A vontade de poder vê-se substituída por uma vontade de consumir, de aglutinar, de absorver. A autoconfiança de Emerson era a mesma que Sócrates promovia, hoje arrumada na estante da indiferença, no armário da resignação, na arca congeladora do comodismo tão facilmente ridicularizável quando nos metemos a observar as correntes de indignação cibernética com direito a sofá e pipocas. As amizades sem cheiro de hoje nada têm que ver com a amizade exposta pelo filósofo norte-americano num dos seus ensaios dedicado ao tema, a amizade absoluta e incondicional que se confunde com o amor e se alicerça na Verdade e na Ternura. Por isso deixou de ser Amizade, diluindo-se antes num sem fim de amizades gasosas, fúteis, facilmente descartáveis. Não que por agora ser assim estivesse Emerson errado. Com ele sublinhamos este caminhar solitário no mundo: «Amigos, tais como os desejamos, são sonhos e fábulas» (p. 176). O que nos parece evidente é não haver lugar na realidade para essa fábula, sendo difícil resistir à tentação de pensar que, provavelmente, outra amizade não há senão estas amizades egoístas do indivíduo dito independente num mundo onde a autonomia se mede pelo conjunto de electrodomésticos disponibilizados em habitação própria. O optimismo do autor de Self-Reliance contrasta com o pessimismo incutido pela actualidade e, já agora, pela história contemporânea. Daí que ao escutarmos nas suas palavras os ecos de Epicuro e ao assimilarmos algumas das suas verdades como sendo a mais fiel expressão dos nossos sentimentos, desconfiemos do registo missionário que caracteriza os textos. Tendo sido um viajante, pode afirmar com propriedade que «viajar é o paraíso dos tolos» (p. 30). E até entendemos a sua noção de domesticidade, à luz de um pensamento erigido a partir da relação do homem com a Natureza. O homem só de Emerson é o homem autónomo, auto-suficiente, livre, expressão material de uma realidade sublime e transcendente que assume forma na Natureza. É o homem resistente, capaz, poético, no sentido de criador, fazedor. A sua teoria da Natureza e do homem deve ser perspectivada a partir de um sentimento utópico do mundo, uma fé incomensurável no indivíduo enquanto construtor de um mundo melhor. As nossas dúvidas, legitimadas pela realidade, não negam essa perspectiva, apenas desviam o olhar no sentido de um quadro ruinoso que não pode ser negado. Por isso continuamos a preferir o «nomadismo intelectual» (p. 126) de outras tribos ao «espírito caseiro» deste homem domesticado, ocidental. De resto, este «espírito caseiro» parece-nos deveras contraditório com a «filosofia de mobilidade e fluidez» invocada noutras paragens do mesmo autor. A Confiança em Si, A Natureza e Outros Ensaios foi publicado pela Relógio d’Água, com tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira e José Luís Costa, em Outubro de 2009. Curiosamente, dos ensaios coligidos (sete), Montaigne, ou o Céptico é o nosso preferido.

SÓ EU SEI PORQUE NÃO FICO EM CASA



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O PORTUGAL FUTURO


Torel, Lisboa. 2012.




O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do sfalato da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Ruy Belo

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #66



Dou por findo o caderno, fecho a janela.

Pressinto a brisa esvaecendo na ponta dos dedos.

Não temo o esquecimento

tanto quanto me amedronta a indiferença,

mas é melhor assim.

Permito-me guardar num lugar indefinível do corpo

os cheiros, as sombras e, foda-se, o toque da pele.

Deixo rodar o mais recente trabalho de Andrew Bird, um músico de excelência que fez do violino o seu instrumento de eleição. Eu só invejo na vida os tipos com sentido de humor e os grandes instrumentistas. Quanto ao resto, a assobiar bato qualquer um. Mesmo quando as canções aromatizam o ar com a brisa marítima agora esvaecida. Break It Yourself (2012) é um conjunto de canções perfeitamente adequado ao momento: we keep breeding desperation / in this era of thieves. Bird recorre a artifícios simples para sobrepor malhas, misturar melodias, compor paisagens povoadas de elementos diversos que parecem ter todos a sua origem numa mesma fonte. E essa fonte é a da música folk que embarcou nas ilhas britânicas e aportou nas Américas para aí ganhar uma outra dimensão, reproduzindo a vastidão geográfica que a condição insular limitava. Give it Away, o quarto tema (se tivermos em conta que o segundo contabiliza uns escassos 45 segundos), é uma das melhores canções que pudemos ouvir este ano, alternando uma melodia sedutora com o tom jazzy que dá sentido às palavras e permitindo as palavras darem sentido à actualidade: your charts and graphs don’t mean a thing to me. Em breves momentos, os loops e o lirismo em registo pizzicato dão lugar a uma inesperada explosão de energia. É o caso do tema Eyeoneye, um hino às gerações perdidas do presente com um apaixonante estilo anos setenta: made yourself invulnerable / no one can break your heart / so you break it yourself. Digamos que se trata de sintetizar a modernidade em três simples versos. Os delays e os condimentos electrónicos fazem o efeito do sal e da pimenta num queijo fresco, dão-lhe sabor. Para mim é o álbum do ano. Não preciso d'outro.

EU POSSO, EU VOU



terça-feira, 11 de setembro de 2012

O PERIGOSO PROFESSOR GASPAR

O ministro Gaspar dirigiu-se ao país no seu tom impecavelmente pedagógico. A sua pedagogia é anestesiante, funciona sempre de um modo evidente para quem tenha estudado as mais elementares regras dessa velha ciência. É pausado, denota serenidade, faz transparecer uma segurança inabalável. Hão-de reparar que começa invariavelmente por responder aos jornalistas sublinhando a pertinência das questões, agradecendo, até, a inteligência de quem as colocou. E os jornalistas, como quaisquer bons alunos, vão na cantiga, sentem-se valorizados e encantos da vida. Não resistem à táctica hipnótica do ministro, comentando posteriormente no mesmo tom complacente, pacífico e tranquilo os assuntos que a besta contornou com a habilidade dos mestres. A indignação e a revolta pacientam-se com lenitivos baratos. O que a pedagogia do ministro não explica, nem a dele nem a de ninguém no governo, é o que as mais óbvias dúvidas levantam:
- Quem são os responsáveis por termos chegado a este estado?
- Porque não são julgados esses responsáveis?
- Que razões justificam que sejam chamados a pagar as dívidas do país aqueles que nada fizeram para que essas dívidas existissem e se acumulassem?
- Com que critérios se fundamentam medidas de austeridade sobre austeridade que têm por alvo as franjas mais frágeis da sociedade?
- Como se pode compreender esta intenção recente de cobrar mais aos trabalhadores e menos às empresas?

O ministro apoia-se em estudos desconhecidos, receitas não reveladas, experiências empíricas que ainda ninguém comunicou. Os jornalistas ouvem atentamente e não indagam. Já não esperamos sequer que algum deles se digne a atirar-lhe um sapato às trombas, mas pelo menos podiam indagar o perigoso professor Gaspar. Estas são cinco dúvidas simples que eu gostava de ver respondidas. O leitor que acrescente as suas.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O ESTILO, POR SI SÓ, SUGERE QUE ALGO ESTÁ SERIAMENTE ERRADO.


Paço de Arcos, Oeiras. 2011.



Os arquivos de combates sanguinários e carnificinas da história humana, desde os tempos recuados da Suméria ou do Egipto antigo até às mais recentes atrocidades da Segunda Guerra Mundial, correspondem ao canibalismo universal praticado nos tempos primitivos, com os sacrifícios humanos e de animais ou os seus substitutos nas formas religiosas ritualizadas, com a disseminada caça aos esclapes e às cabeças, as mutilações corporais, as práticas necrofílicas, e revelam esse gosto generalizado pelo sangue que é próprio da espécie, esses costumes predatórios, essa marca de Caim que, no plano alimentar, diferenciam o homem dos seus parentes antropóides e o classificam entre os carnívoros mais cruéis.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Raymond Dart, citado por Bruce Chatwin

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #65





Das canções bêbedas para este manifesto contra o egoísmo, admito que possa parecer algo bipolar. Talvez encontrando ligações com a orgia rítmica de Art Blakey tudo fique menos improvável. 1-Speed Bike é o alter-ego, pelos menos um dos, de Aidan Girt, baterista do colectivo canadiano godspeed you blak emperor!. Aqui, em registo mais solitário, ocupa-se a remisturar colagens do seu trabalho de percussão. Os temas têm nomes tão estranhos tais como yuppie restaurant-goers beware because this song is for the dishwasher. Os ambientes gerados por Girt são igualmente estranhos, revelando uma complexidade criativa que não deixa de ser irónica. Pelo meio de batidas várias e colagens electrónicas, surgem, aqui e acolá, algumas vozes com um claro propósito político. Mais do que reproduzir os ruídos decadentes de uma humanidade em queda, 1-Speed Bike escapa à ordem, como a imagem da capa sugere, e manifesta-se contra todo o tipo de subjugação cultural, social, política. Droopy Butt Begone! (s/d) não procura ouvidos amestrados nem músculos em estado de letargia, prefere mergulhar no universo da contracultura e oferecer ao mundo uma dose considerável de irreverência. Na contracapa, afirma: there are those who sleep in hotels and those who sleep on the street. There are cultural agents os change and there are those who watch too much TV. Alguém duvida?