segunda-feira, 5 de novembro de 2012

DOIS LIVROS DE MIGUEL-MANSO

Escrever sobre um livro de Miguel-Manso (1979) é correr o risco de ser capturado pelas armadilhas espalhadas nos seus livros, na medida em que é o próprio poeta – chamemos-lhe poeta para evitarmos outras designações talvez mais pomposas, como rapaz que escreve ou ser escrevente – quem manifesta um certo desprendimento, para não dizer desprezo, relativamente a este repisar que é, sem dúvida, o exercício da leitura impressionista: «Quando sobre um jovem autor se redigem excessivas loas ao resultado dos seus primeiros trabalhos o provável é crescerem nele, mais tarde, graves disfunções orgânicas de origem acumulativa. Para evitar certas patologias e combater o inchaço patológico (tumefacção) é necessário usar-se sem atrasos lancetas de sangria. A punção resultará, a breve trecho, do modo seguinte: desinflama, descongestiona, desintoxica, tranquiliza, neutraliza o ilustre mas silenciado Síndrome do Pânico, transversal à classe. É então indispensável que sobre esse autor caiam já as piores desonras e agravos, venham eles do blá-blá-blá autorizado, ou da sarjeta de comentários de um blogue» (p. 32, Um Lugar a Menos). Apesar das humilíssimas edições de autor, publicadas sob o título genérico de Os Carimbos de Gent, Miguel-Manso não se furta, porém, à entrevista, à fotografia para o jornal, à aparição televisiva ou radiofónica. Estamos perante um paradoxal caso do culto do não-culto, estupenda herança da sociedade do espectáculo tal como a entenderam os situacionistas ao mesmo tempo que nela se penduravam. É hoje difícil escapar, mesmo que em nichos de atenção mediática, às teias que a comunicação tece. E Manso(-Miguel) não escapa, por muito que isso lhe inspire poemas em sentido contrário. Sucede que, neste caso, a qualidade da matéria produzida justifica as atenções. Dois livros em 2012 vêm renovar o entusiasmo colocado sobre uma escrita cujo maior defeito é, sem culpa disso, gerar expectativas no leitor. É certo que Ensinar o Caminho ao Diabo (Março de 2012) é uma recolha de poemas em verso que não faz justiça às anteriores, mas os poemas em prosa (porquê evitar tal conceito optando por chamar-lhes aforismos?) de Um Lugar a Menos (idem) são, no seu conjunto, do melhor que a poesia portuguesa pariu nos últimos anos. O mais curioso, pelo menos para mim, é que aquilo que nos versos do primeiro livro resulta redundante, nas prosas do segundo consegue uma intensidade espantosa. E o que é aquilo? É uma necessidade auto-reflexiva sobre o lugar do poeta no mundo, o lugar da poesia no poeta, o lugar do poeta no poeta, o lugar da poesia na poesia, em suma, e por absurdo, o lugar do lugar. Desde o primeiro livro que Miguel-Manso se revela um poeta do espaço. Os seus poemas estão repletos de referências geográficas, são consequência do lugar. Repare-se como os títulos Ensinar o Caminho ao Diabo e Um Lugar a Menos remetem, cada qual à sua maneira, para essa noção de espaço, seja pelo movimento que nele se opera, seja pela violação de que é alvo. Nos poemas de Ensinar o Caminho ao Diabo, agrupados em dois conjuntos com nome de movimento na matemática do xadrez (Grande Roque, Pequeno Roque), somos levados a passear pelas Grutas de Mira de Aire, Lisboa, São Paulo, Londres, Veneza, Cabo Verde, Índia (mais imaginária que real), Los Angeles e, por razões evidentes, Porto e Évora (grande parte dos poemas resultaram da participação do autor em residências de criação nessas cidades). Às referências geográficas juntam-se referências literárias (Pasolini, Cioran, Sá-Carneiro, Sá de Miranda, Llansol, etc.) e musicais (Tom Waits, Cohen, João Gilberto, Sei Miguel, Gaiteiros de Lisboa, Bob Dylan, Fausto, entre outros). É deste emaranhado referencial que os poemas resultam, numa produção que somos levados a crer ter tanto de diarística como de ecfrásica (palavrões que, reconhecemos, nada dizem e pouco acrescentam). Sucede que há tiques irritantes nestes poemas que se repetem mais do que seria desejável, como a tendência para o trocadilho fácil («emudecida detonação que alimenta ainda / esta pena (tenho tanta)»), para a aliteração forçada («ideio a ideia», «bárbaro, barbado», «estrófico e catastrófico», «do acto / e do facto»), para o jogo de significados que a língua sugere e ao qual o poeta não resiste. A poesia torna-se demasiadas vezes objecto de si própria, o fazer do poema, o motivo para o poema, a construção do poema, quando, na realidade, o poema resulta mais cativante quando se liberta da poesia e nos oferece as paisagens dentro das quais o poeta deambula. Até porque Miguel-Manso é um exímio observador, não havendo necessidade nenhuma da (anti)pose que muitos poemas (ou parte deles) denuncia. Há um poema onde, pela adjectivação excessiva, se torna deveras... chato... isso a que aqui chamamos (anti)pose. É o poema Apanhado em Fragrante, cujo título é já de si um trocadilho dispensável. Veja-se agora a adjectivação: «melancólica bicicleta», «frios provinciais», «incalculável prejuízo dos versos», «laranjeiras flóreas», «imperceptível alegria», «fiada odorífera», «lumaréu de limoeiros, «caiados muros», «imaturo homem»… Tudo no mesmo poema, tal doce enjoativo. Ora, não são apenas os arcaísmos nem as anástrofes nem os hipérbatos nem o tom classicista que, ainda que numa toada lúdica, prejudicam os poemas. É a enfatuação do discurso. Esta desaparece no livro Um Lugar a Menos, colheita que tem na sua origem já não a “clausura” das residências, mas a alforria da exposição. O que há de mais cativante nestes poemas em prosa é a relação que mantêm com o espaço, ora descrevendo-o, ora desmontando-o, ora arrastando o leitor por viagens físicas e imaginárias (metafísicas?), reflexivas e memoráveis. O uso das expressões latinas alvitra uma viagem dissimulada às origens, num jogo permanente de insinuações que está longe de se esgotar no carácter meramente lúdico de alguns versos do livro anterior. Não que aqui essa inclinação esteja ausente, apenas se revela muito mais capaz de provocar no leitor a ansiedade do pensamento, inquietando, desassossegando, obrigando-o a uma espécie de expedição (peregrinação, no sentido que lhe dava Jorge de Sena) pelos terrenos agrestes da linguagem. Nestes textos, o autor coloca-se numa posição introspectiva. É algo de novo, ou pelo menos extra-ordinário, na sua poesia. Se nos poemas em verso é muito mais cativante quando descreve a “paisagem”, nestas prosas a dimensão reflexiva de Miguel-Manso adquire um sentido inusitado. É elíptico e irónico sem ser previsível, torna o sentido dos seus textos mais complexo porque a relação entre eles e a realidade deixa de ser evidente. Dialoga nas entrelinhas com outros autores (Pessanha, Rui Knopfli, Barnett Newman, Hiram Bingham - fui ver ao Google - Walt Whitman...), numa direcção interpelativa que já não é apenas a do trocadilho fácil, é a de uma busca permanente, é a da dúvida e do espanto. E logra textos com uma profundidade ontológica rara entre os da sua geração. Exemplo:

No jornal: mulher esteve nove anos morta em casa. passou quase uma década entre o momento íntimo dessa morte e o maior ou menor espavento civil (e/ou religioso) que a autorizou. A morte, que acontece sempre aos outros, precisa, idealmente, da exibição do seu resíduo: o corpo consumado. Ou então de um vestígio, notícia, um boato que seja. se ninguém acolheu a morte dessa mulher, então ela só morreu (tornou a existir) de facto, no dia em que a encontraram no chão do seu apartamento. Mais do que uma utopia, ou um hiato (uma hiatopia) o lugar e o tempo onde e em que ela desexistiu (apurados e admitidos postumamente) têm a dimensão do mito. E eis que o vocábulo apartamento atingiu ali a sua literalidade. Mas de nada, para nada, por nada e em tempo nenhum

sábado, 3 de novembro de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #71

Poucas bandas terão dado mais substância ao conceito de ecletismo do que os The Flaming Lips. The Soft Bulletin (1999) ofereceu-lhes o que há muito mereciam, uma plateia extensa. E não deixou de ser curioso verificar, por esses tempos, que nos concertos da digressão que então os trouxe ao Sudoeste podia juntar-se todo o tipo de gente. Justificava-se o alarido, tal a magistralidade do produto. Sendo absolutamente experimental num contexto noise-rock, é provavelmente o mais amistoso dos seus registos. As orquestrações que envolvem as melodias oferecem à textura pop das canções uma falsa grandiosidade. Nada de épico há aqui. Pelo contrário, temos uma refinada e acutilante ironia sobre a salvação do mundo e a humanização dos heróis. Já depois da ciência ter ganho território a Deus, na era da tecnologia – e os The Flaming Lips têm sabido usar-se dela como ninguém – a salvação reside, muito provavelmente, na capacidade de resistir aos desenganos com doses generosas de sentido de humor. Poções mágicas não haverá, nem heróis de banda desenhada reparam o mundo. Talvez possa ajudar a capacidade de rirmos de nós próprios e de não nos deixarmos levar no êxtase das nossas conquistas.  Há algo de sinfónico nestas composições, um pouco à semelhança do que várias bandas fizeram quando trouxeram para dentro de formações tipicamente rockeiras os contributos da chamada música erudita. O que aqui impressiona e se diferencia é a capacidade de manter o ruído onde ele parece extinto, como uma espécie de nervura que revigora o romantismo dos floreados.

A REFUNDAÇÃO DAS AMOREIRAS

Camarada Van Zeller, tenho uma teoria sobre a refundação. Lembrar-se-á o meu amigo do escândalo sexual que perturbou o país nos saudosos oitentas. Também nessa época a expressão “aguenta, aguenta!” ganhou na voz popular um novo contexto, embora pronunciada por um famigerado arquitecto enquanto sodomizava um rol interminável de moças de recados. Agora, temos sentado no sofá um coelho insaciável. A verga está bem oleada e o cuzinho dos portugueses há muito vem cedendo generosa e submissamente aos apetites de violadores consentidos. Começou o coelho por meter a cabecinha mandando às favas os chamados privilégios da classe trabalhadora, enquanto por detrás instruía as suas vítimas sobre as posições menos dolorosas. Emigrem e não sejam piegas. À cabecinha seguiu-se parte do tronco, com a vergastada da austeridade penetrando, como há muito não se via, nos subsídios do laxismo. Vão-se as férias, vão-se os feriados, vai-se o Natal, vem-se a besta. O Coelho larga o pêlo em privatizações à balda, no jogo das fundações que nunca o foram, na alienação do pouco que é nosso, de todos quantos vão baixando as calças a uma violação para a qual têm apenas como resposta os ais e os uis das manifestações alegres e musicais. O povo canta acordai, acordai, como se estivesse alguém a dormir. Não está o Coelho, que tal arquitecto das Amoreiras continua a brincar com os tintins enquanto discute novas medidas de austeridade. Nem está o povo, encafuado na casa do lirismo a meter pomada em feridas incuráveis. Está visto que o Coelho só descansará quando puder gritar triunfantemente: está todo lá dentro. Certo gorduroso do Estado diz que faltam 20 meses, outros dizem que nem daqui a 20 anos, nós olhamos para os números e pasmamos de certezas: nunca fomos tão brutalmente violados como nos prestamos a ser no ano que aí vem. Para quê? – perguntamos, como se ainda valesse a pena. Por detrás das nossas dúvidas já a verga novamente se levanta. O Estado leva-nos tudo para nada nos oferecer, nem a garantia de que quando chegar a vez do cu descansar teremos direito a algum descanso. Pagamos cada vez mais impostos para pagarmos cada vez mais serviços. A educação gratuita é uma miragem neste deserto inóspito de um ensino em franca decadência. Não tarda, só aos filhos dos ricos será possível estudar. A segurança social não só já não protege como se preparar para empurrar para a mais pura das misérias milhares de cidadãos, num sofá social onde nem continuando a baixar as calças e com a coluna bem curvada haverá direito a velhas ou novas oportunidades. Não lhes basta roubarem-nos o futuro, levam-nos também a esperança. Porque sem ela, crêem, tudo será possível, incluindo uma nova escravatura de come e cala com a cidadania reduzida às imperiosas necessidades do trabalho. A saúde não interessa. Quem quer ser saudável num mundo assim? Melhor será mesmo enlouquecer de vez ou apanhar uma doença má. Pode ser que a consigamos passar ao insaciável violador. Acabaremos todos numa enorme orgia de mortos vivos, como num filme de zombies. Mas já sem o sentido sequer de haver um vivo vivo para atacar.

GORDURAS DO ESTADO


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

ÚLTIMA PARAGEM, MASSAMÁ

Recentemente contemplado com o Prémio Primeira Obra do PEN Club, Última Paragem, Massamá é o romance de estreia de Pedro Vieira (n. 1975). Vieira chamou sobre si as atenções do universo blogosférico como caricaturista e é como caricaturista que a sua prosa melhor se afirma, oferecendo aos leitores uma perspectiva irónica do Portugal suburbano. Personagens respigadas no percurso de todos os dias, num quotidiano vulgar e, felizmente, sem truques fantasiosos nem hiperbolizações desnecessárias, compõem o ramalhete deste romance que, num certo sentido, arrisca-se a ser um romance geracional. É o sentido de quem o leia encontrando ali um retrato impiedoso de uma geração que já foi rasca, passou a ser à rasca e vai sendo, como tantas outras, a geração do desenrasca. Até aí nada de novo. Diz-se da geração representada nestas páginas que é a mais bem qualificada de sempre, predicado que lhe valeu lugar cativo nos cubos de um qualquer call center, como caixa de hipermercado ou ao balcão de uma livraria. Com a vantagem, obviamente, de não ter mais pelo que sonhar. Eduardo Pitta referiu-se a Nome de Guerra quando escreveu sobre Última Paragem, Massamá, mas parece-nos mais justo lembrar aqui O Que Diz Molero. Não se trata de comparar, pelo menos não tanto quanto pretende tratar-se de enquadrar. Tal como o “livro-bomba” de Dinis Machado, também este “livro-petardo” «é humor, é violência álacre, é cinema escrito» (Luiz Pacheco). E faz barulho, mesmo que não provoque estragos. Mas marca pontos nos riscos que corre ao assumir um ritmo vertiginoso, garantido por uma pontuação mínima e uma extrema competência na desconstrução das palavras, arrancando-lhes significados dúbios e conjugando-as com o talento de quem faz parecer simples a fluidez do discurso. Pejados de expressões populares, estrangeirismos de uso corrente, apontamentos coloquiais na linguagem ordinária de todos os dias, passe a redundância, os parágrafos de Última Paragem, Massamá são como o andar da carruagem: a viagem vai sendo feita com paragens que não descontinuam a narrativa. Antes pelo contrário, imprimem-lhe uma dinâmica que transporta o leitor para o interior da locomotiva, dando-lhe a ver as cenas de uma vida como quem espreita o mundo lá de fora à janela de casa ou como quem observa olhando, com os olhos da imaginação, o passageiro do lado. Talvez o ponto mais fraco do livro seja o narrador não resistir aos comentários ora escarninhos, ora auto-irónicos, que vai fazendo sobre a sua própria prosa. O tom jocoso geral, mesmo quando permite descobrir alguma raiva e um pouco de melancolia nas entrelinhas, bastava à narrativa, e evitava transformar o autor em mais uma personagem desta tragicomédia. Sublinhemos porém um pormenor na estrutura que não é meramente decorativo. Cada cena da história aqui contada é separada por um breve apontamento que nos envia para a Roma de 9 d.C., e para o infortúnio de Públio Quintílio Varo na batalha travada contra os germanos na Floresta de Teutoburgo. Colocando aí o início do romance, Vieira diz-nos também que foi aí que tudo começou. A nossa desgraça às mãos de uma Alemanha dominadora foi a desgraça dos romanos aos pés da Germânia. Podíamos indagar-nos sobre o que teria sido de nós se o império da Grande Puta continuasse a disseminar pelo mundo os seus bons hábitos. No fundo, a Vanessa do romance, que tal como Públio Quintílio Varo acaba se suicidando (podemos dizê-lo porque o narrador não o omite desde o início) tem em si o heroísmo dos derrotados. Mais que por grandes feitos, fica na história por à sua volta se tornar  evidente a degenerescência da humanidade e a miséria dos povos. É por isso que o tempo a partir de onde se narra não é tão concreto quanto possa parecer. Sabemos onde estamos porque olhamos o nome do local na placa da Estação, mas os calendários da História são enganosos. Quando menos esperamos, o passado torna-se presente e o futuro intromete-se abruptamente como consequência das acções. O Império Romano dos separadores é e não é a Massamá de Vanessa & Cª, porque à força de já não haver semideuses a mais heróica das acções parece ser a sobrevivência e, paradoxalmente, o mais heróico dos gestos parece ser a recusa desse estado geral de subvida que é, como diria O’Neill, a vidinha de todos os dias.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

AGUENTA, AGUENTA!

Fernando Maria Costa Duarte Ulrich, que provém de uma família ligada à banca e às finanças, com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII, afirmou recentemente que o país aguenta mais austeridade. Não sei de que país Ulrich, que Estudou no Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa sem terminar a licenciatura, está a falar. Não sei se é da Alemanha do século XVIII, da Angola do século XIX ou deste Portugal exangue com pedintes por todo o lado e comércio devoluto. Duvido que Ulrich ande pelas ruas a pé. Certamente terá um chauffeur à boa maneira das famílias com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII. Também não sobreviverá com o chamado “ordenado mínimo nacional”, mas seria interessante colocá-lo (e a outros como ele) numa espécie de Big Brother para homens de fato cinzento e gravata azul, a viverem durante, vá lá, seis meses com 500€ por mês. Fernando Ulrich, que preside a um banco que encaixou 117,1 milhões de euros de lucros nos primeiros nove meses de 2012, só lamenta as imposições do Ministério das Finanças  relativamente aos custos com consultores, não sendo necessariamente por isso que reduziu agências e eliminou postos de trabalho. Este herdeiro de uma família com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII, ex-chefe de gabinete de um ex-ministro da extinta AD, que ainda há não muitos dias afirmava que a capacidade dos portugueses para aguentar sacrifícios é agora menor, vem entretanto acrescentar às afirmações anteriores que, afinal, apesar de essa capacidade ser menor os portugueses ainda aguentam mais sacrifícios. Eu tenho a certeza de que o filme preferido de Ulrich é A Paixão de Cristo, do Mel Gibson, e que não há cena que mais o excite do que aquela em que Cristo está a ser torturado pelos romanos aguentando, aguentando, aguentando, aguentando todo o tipo de castigos e violência. Ora, julgo que este sadismo do banqueiro com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII merece uma resposta à altura. Note-se como fala da Grécia: 


 
Se estão vivos, é porque aguentam. Um pouco à semelhança dos sobreviventes do Holocausto nazi, que aguentaram. Ou o bilhão de pobres no mundo, que aguenta. Ou toda a humanidade que atravessou a Idade Média e aguentou. Ou o que resta de índios nas américas, que aguentaram. Na cabeça de Ulrich, umas montras partidas e um bocadinho de mais veemência nos protestos são até compreensíveis neste cenário de irmos aguentando. Por mim, sei bem por que montras poderíamos começar não andássemos todos distraídos dos Ulrich deste mundo. Aqui deixo, ao cuidado de Fernando Maria Costa Duarte Ulrich, em jeito simbólico, um nome que não aguentou. Por detrás do nome havia um homem. Chamava-se Dimitri Christoulas, era grego, não aguentou. Como ele há mais, muitos mais, não só gregos, não só portugueses, que não aguentam. Mas esses não entram nas % de Fernando Maria Costa Duarte Ulrich, porque Fernando Maria Costa Duarte Ulrich, afinal, provém de uma família ligada à banca e às finanças, com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII.

QUAL O PERIGO DE REFLECTIRES E DE TENTARES? PODES DIZER-ME?

Rêgo, Lisboa. 2011.

Não julgueis que me calo por indiferença ou orgulho. Tenho, antes, o coração dilacerado quando me vejo transformado num objecto de escárnio. Todavia, quem mais do que eu terá oferecido dignidade aos novos deuses? Silencio, porém, aquilo que sabeis. Mas escutai as misérias dos homens; escutai como, no começo, eram eles ignorantes e os tornei cientes e senhores da sua inteligência. Digo isto sem qualquer censura aos humanos, mas só para vos mostrar que nasceram do coração das minhas dádivas. No começo, eles olhavam e não viam, escutavam e não ouviam, passavam a vida alongada e néscia como sombra de fantasias. Não conheciam as casas soalheiras e feitas de tijolos, nem a madeira trabalhada. Viviam em cavernas, nas eternas trevas dos profundos antros, como formigueiros fervilhando. Não possuíam signos para o Inverno, nem para a florida Primavera, nem para o fecundo Verão. Faziam tudo sem entendimento, até eu lhes ensinar o nascimento e o acaso das estrelas mais difíceis de avistar. Para eles inventei o número, suprema sabedoria, e a arte de juntar as letras, memória de todas as coisas e infatigável mãe das Musas. Fui o primeiro a submeter ao jugo e ao carrego os cavalos selvagens para que ajudassem os homens nos trabalhos mais fatigantes; fui o primeiro a atrelar a carruagem, ornamento de magnífica riqueza, os cavalos submissos ao freio. Primeiro e sozinho, eu congeminei os velívolos carros dos marinheiros que vagueiam pelo mar. Tudo isto inventei em favor dos homens, mas - ai, mísero de mim! - vejo-me incapaz de inventar um meio de libertar-me agora dos meus tormentos.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Ésquilo.

domingo, 28 de outubro de 2012

A MAIOR PARTE DA GENTE, NASCE, MORRE SEM TER OLHADO A VIDA CARA A CARA.

Cacilhas, Almada. 2011.


Quer queiram quer não queiram aí estão na minha frente, ridículos, maníacos, pueris, nesta marcha desordenada para o sonho; tenho-os na minha frente, e com eles a hipocrisia, as explicações confusas, as leis, as regras, os hábitos fétidos, e tudo o que lhes serve para encobrir as duas ou três realidades de que se não podem libertar, com a sua filosofia, os seus livros, as suas teorias - e no fundo instinto! instinto! instinto!; tenho-os aqui só bichos em frente da necessidade fatal, da verdade iniludível, com olhos abertos de espanto, com bocas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar de desespero. Tenho-os aqui ridículos, só ridículos, só enfim ridículos, mas já prontos para todas as infâmias. A vida espalmou-os, secou-os, deformou-os a todos. Andou por aqui a mão da desgraça, a mão do vício, a grande mãozada de ferro que deprime e esmaga. Um alimentou-se de lascívia, outro de sonho, outro de avareza, outro de fel. Todos diante da nova visão do universo se sentem grotescos e inúteis de corpo e alma, com lepras que nunca mais se limpam, com nódoas que nunca mais de lavam, com ideias e palavras entranhadas, com ímpetos de gozo e monstruosos apetites. Os anos passaram, os anos marcaram-nos. E ei-los nus, uns em frente dos outros, nus e reles, nus e grotescos, com o esplendor cada vez maior, cada vez mais doirado, cada vez mais sôfrego diante de si. Nus e obscenos, nus, com doenças e infâmias secretas. Aqui está a embófia e o orgulho, aqui está o que come e digere, mas, no fundo deste estômago que esmói, há ainda um resto de sonho; aqui está a velha que envelheceu ridícula, mas este ridículo é atroz. Tudo isto contém ânsia, ressuma dor até nas plumas, até nos trapos. Todos os sonhos absurdos, os sonhos que ninguém se atrevia a declarar, os produtos fétidos de noites sobre noites de relento e insónia, os ridículos sonhos de almas embrionárias, transformarem-se em realidade e resolvem-se em gritos, em dor e em grotesco. A puerilidade que constitui o fundo do nosso ser, as pequenas misérias que formam montanha, e as grandes tragédias desgrenhadas afundam-se em grotesco. A todo o drama se mistura grotesco, a toda a dor rictos, e toda a convulsão emerge a escorrer grotesco.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Raul Brandão.

DEBAIXO DO SOL


Sobre Bruce Chatwin (1940-1989) se diz ter sido um mestre da moderna literatura de viagens, rótulo que desagradava ao escritor por preferir ver os seus livros nas estantes de ficção a arrumá-los ao lado dos relatos de viagem. Quem leia as suas obras mais conhecidas – Na Patagónia (1977), O Vice-Rei de Ajudá (1980) ou O Canto Nómada (1987) - facilmente compreenderá o desconforto, pois neles de torna evidente um esforço de ficcionar a realidade, tanto a partir de retratos registados pela experiência, como na base de um intenso trabalho de recolha e investigação histórico-jornalístico. Tomando de exemplo O Canto Nómada, labor de uma vida publicado mais de 17 anos depois de assinar o contrato inicial, deparamo-nos com uma narrativa fragmentária onde se intrometem diversos apontamentos, sublinhados, diálogos, citações deliberadamente selecionadas para o efeito. Cubismo literário ou arte de colagem, é literatura a um nível genialmente inclassificável. Curiosamente, é neste domínio do inclassificável que melhor se entendem as cartas editadas e reunidas por Elizabeth Chatwin, viúva do autor, e Nicholas Shakespeare. De certo modo, esta recolha, apoiada por notas de rodapé preciosas e apontamentos biográficos que contextualizam, no tempo e no espaço, a produção epistolográfica reproduzida, funciona quase como uma espécie de autobiografia involuntária. Nelas descobrimos o homem para lá da lenda em que se transformou o autor, em momentos de revelação idiossincrática ora comoventes, ora desmistificadores. O Chatwin aventureiro de mochila às costas torna-se humano, demasiado humano, na inquietação permanente de quem se busca a si próprio indo ao encontro do diverso. Episódios caricatos alternam com confissões e desabafos, mas esclarecem um autor extremamente meticuloso e exigente nos assuntos profissionais e domésticos, empenhado em sobreviver em concordância com os seus sentimentos sem se expor a ponto de magoar terceiros. Daí a homossexualidade omitida, apesar do casamento nunca desfeito com Elizabeth, e a morte por sida transformada num raríssimo fungo tropical. Mas muito mais significante do que estes aspectos da vida privada são as passagens onde se esclarece, sem que no entanto se obvie, a personalidade humana que gerou o autor. Isso acontece, por exemplo, numa carta a Michael Cannon quando Bruce ainda trabalhava para a Sotheby’s: «A mudança é a única coisa pela qual vale a pena viver. Nunca passes a vida sentado a uma secretária. Seguir-se-ão úlceras e doenças cardíacas» (p. 54); ou quando numa carta a Sunil Sethi, de 1978, se refere à relação sempre complexa que manteve com a imprensa escrita (trabalhou para o Sunday Times): «O vício inveterado de todos os escritores ingleses é a sua atracção fatal por periódicos, o seu fascínio por revistas e a sua paixão por brilhar na edição. / Resolução do mês: Nunca escrever para jornais» (p. 239); ou ainda quando se refere à função do artista, numa carta dirigida a Keith Milow: «A função de um artista é trabalhar a) para si próprio b) deixar algo memorável para o futuro, escorar ruínas. Que se lixe o resto!» (p. 248). Foi este o investimento da inquietação que tomou conta, desde muito cedo, do homem Bruce Chatwin, dando origem a um escritor onde a errância e a vagabundagem foram métodos utilizados para a compreensão de si próprio e, de alguma maneira, de toda a humanidade. O nomadismo de Bruce Chatwin resulta de um conflito particular entre a necessidade de estar em trânsito e a busca de um lugar ideal para viver. Encontramos nestas cartas preocupações, até de algum modo excessivas, com a busca de uma casa, porque «toda a gente, de uma maneira ou de outra, é ciosa do seu território, e não vale a pena ter uma casa que não sentimos como nossa» (em carta ao arquitecto John Pawson, p. 350). Talvez o que inquiete o nómada seja, precisamente, o vislumbre desse território onde possa sentir-se integrado, em sintonia com o mundo e com as forças geradoras desse mesmo mundo. Já no termo da vida, Chatwin converteu-se à Igreja Ortodoxa e não deixa de ser sem perplexidade que o ouvimos dizer: «Quem me dera deixar de escrever, e tu? Esta actividade dos livros cada vez me convida mais ao silêncio» (carta a Murray Bail, p. 399). No fundo, apercebemo-nos que os estudos de arqueologia levados a cabo nos primeiros tempos encontraram o seu rumo na literatura. E que, provavelmente, a grande descoberta arqueológica de Bruce Chatwin foi o próprio Bruce Chatwin, quando se deparou com a morte num corpo consumido pela doença.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O QUE É A VIDA? O QUE É O PRAZER, SEM A DOURADA AFRODITE?

Praça D. Luis, Lisboa. 2011.

Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,
que são flores da juventude sedutoras
para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa
velhice, que faz do homem belo um homem repulsivo,
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Mimnermo.

BOM ALUNO

Carlos Borrego (quem ainda se lembra dele?) saiu de um Governo depois de ter contado uma anedota; Manuel Pinho (quem o pode esquecer?) pôs-se a andar depois de ter simulado uns corninhos em plena AR; e Pedro Lynce (só eu para me lembrar deste) demitiu-se depois de ter sido acusado de criar um regime de excepção para favorecer a filha do ministro António Martins da Cruz (outra alma que andará perdida sabe-se lá onde). São apenas três exemplos de ministros que fizeram o que se esperava deles mediante situações de gravidade relativa. Miguel Relvas, tão preocupado em servir de exemplo à própria filha, vai colando o cu ao poder mesmo depois de se ter tornado evidente que lhe foi atribuído o grau de licenciatura por favor, em tempo recorde, com uma candidatura aceite fora do prazo legal e com equivalência a unidades que não existiam no ano em que frequentou o curso. São dados de uma auditoria à Lusófona que o Público hoje revelou. Este caso não é especialmente estranho num país de chicos-espertos, mas só mesmo um espécime dessa classe para não perceber a mensagem que está a passar ao país: não vale a pena estudar, o estatuto não se obtém pelo conhecimento, mas sim pelo grau de influência que se pode exercer. É uma mentalidade tipificadora do maior desprezo pelo que há de mais precioso numa sociedade democrática, o conhecimento, o saber; é uma mentalidade que coloca o exercício da política ao nível de um concurso como a Casa dos Segredos, onde os mecanismos de manipulação da opinião pública fazem o homem (um homem gasto na sua superficialidade, sem conteúdo, vazio, legitimado não pela moralidade das suas acções, mas pela destreza que aplica ao tornear a lei). Indivíduos como Relvas são o que não falta neste país. Que ele se mantenha no Governo por não perceber o mal que está a fazer ao seu país não admira (outra coisa não esperamos de indivíduos com tal carácter), mas não deixa de ser sintomático do fosso em que caímos ao constatarmos que ninguém por ele, naquele Governo, tem a consciência que ele jamais terá. Este caso aprofunda uma inevitável desconfiança sobre algumas das mais nobres instituições que dão forma a uma nação. A universidade (privada) em causa faz passar de si uma imagem absolutamente medíocre, de antro de negociatas e relações promíscuas com o poder; o Governo, na pessoa do Primeiro-ministro, mostra-se indiferente a esta pornografia de diplomas e graus académicos, como se fosse normal o que se passou ou como se não tivesse importância alguma. É um Governo, claro está, concentrado nos valores materiais, nas contas públicas e na dívida suprema. É um Governo que se está nas tintas para valores tão serôdios e obtusos tais como carácter, verdade, educação, conhecimento, honestidade. Só isso explica que Relvas possa continuar a fazer parte deste (des)governo. Isso ou as traficâncias denunciadas por Helena Roseta. Venha o Diabo e escolha.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

TU QUE EXPLORAS TUDO À TUA VOLTA E VÊS OS SIGNOS, SABERÁS DIZER-ME PARA QUAL DESTES FUTUROS NOS IMPELEM OS VENTOS PROPÍCIOS?

Damaia, Amadora. 2011.

O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Italo Calvino.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #70

Com uma vasta discografia iniciada na década de 1980, os alemães Einstürzende Neubauten talvez tivessem passado completamente despercebidos não fosse contarem na sua formação com Blixa Bargeld, durante largos anos componente determinante nos Bad Seeds de Nick Cave. Mas a música dos alemães nada deve às canções de Cave e só por completa distracção pode ser reduzida ao protagonismo de Bargeld, desde logo porque conta com a criatividade do percussionista N.U.Unruh – autor da maioria dos instrumentos que conferiram à banda uma identidade única. A sonoridade industrial dos Einstürzende Neubauten, com ritmos produzidos por maquinaria diversa, choques eléctricos, distorções várias, metais em compassada erosão, seria de todo diferente sem o génio de N.U.Unruh. As composições de Tabula Rasa (1993), talvez o álbum onde, pela primeira vez, se terão aproximado de uma estrutura inteligível (o que, para o caso, quer apenas dizer não radicalmente inacessível), vivem, pois, dessa componente performativa e experimental onde a violência encontra eco no ruído e a vanguarda assume a (des)configuração da ruína. É verdade que com o passar dos anos se processou nesta música aquilo a que podemos chamar uma inflexão sónica, de que Silence is Sexy (2000) se tornou o melhor exemplo. Ainda assim, esse breve momento de sossego não foi senão a reafirmação de um desassossego criativo que passou sempre por ir além do que as convenções permitem. As letras estilhaçadas, ao jeito de poemas modernistas com variantes e colagens tão surreais quão irónicas - Headcleaner cita Beatles onde, aparentemente, isso seria impossível – dão conta do universo descomplexado da banda. Tabula Rasa resume tudo na perfeição.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

PORTUGAL CONTEMPORÂNEO

Camarada Van Zeller, recebi hoje com pesar a notícia da sua demissão. Este país não precisa de mais homens a engrossarem as filas de desempregados às portas da Segurança Social, pelo que sugiro-lhe, desde já, que emigre para Angola ou para o Brasil. Não seja piegas, aceite os bons conselhos do Primeiro aos professores desempregados e crie a sua própria oportunidade num país ultramarino. Com sorte, encontrar-se-á pelo caminho com o ex-conselheiro de Estado Dias Loureiro. Dizem que é bom amigo de seu amigo. Junte-se-lhe na fundação, peço desculpa, na criação de uma pastelaria e dediquem-se às natas. Os comunas violentos dos estaleiros de Viana não chegam onde homens liberais e pacifistas como Loureiro chegaram, pelo que é seguir-lhe os passos e o exemplo. A verdade é que este país não tem tino desde que António Guterres, lá nos idos de 1995, pôs-se a fazer contas. Veio Durão Barroso, apontou o país de tanga e zarpou para paragens mais apresentáveis. Ficámos nas mãos do poeta Pedro Santana Lopes, cuja poesia nunca é demais recordar:

 

Este é um Governo a quem
ninguém deu quase o direito
de existir antes dele nascer,
e que, depois de nascer
através de um parto difícil
teve que ir para uma incubadora
e vinham alguns irmãos
mais velhos e davam-lhe uns
estalos e uns pontapés

 
Ó camarada, que bem faria Pedro Passos se deixasse Camões na paz e no sossego do túmulo e se dedicasse à hermenêutica destes versos. Mas os tempos são outros, o mundo está difícil e os violentos comunistas dos estaleiros de Viana não lêem poesia. De resto, duvido mesmo que leiam. Têm cara de ignorantes, um pouco à semelhança dos empresários do António Borges. É por estas, e por outras como estas, que gosto de lembrar o célebre discurso de Paulo Rangel num 25 de Abril de algures. Recordar-se-á o meu amigo de que já nessa altura Rangel se referiu à asfixia democrática então vivida no país. Foi num tempo em que os políticos podiam sair à rua, depois de Cavaco ter degustado um bolo-rei engolindo em seco o brinde enquanto ordenhava vacas e se interrogava sobre o porquê de nascerem tão poucas crianças em Portugal. Foi num tempo, bom tempo, em que Manuela Ferreira Leite podia questionar-se sobre se não seria bom haver seis meses sem democracia para pôr tudo na ordem. Nesse tempo, os violentos comunistas de Viana não existiam. Se calhar estavam numa incubadora, enquanto Sócrates tentava vender o primeiro grande computador ibero-americano e Miguel Relvas norteava a sua vida pela simplicidade da procura do conhecimento permanente. Não sei se nesse tempo Vítor Gaspar já tinha acabado o curso, mas duvido que lhe passasse pela cabeça participar num Governo com o propósito de retribuir o enorme investimento que o país colocou na sua, dele, educação. Eram bons tempos, porque andávamos distraídos com assuntos mais importantes do que o défice. Afinal, há mais vida para lá do défice. Há, por exemplo, o violento e comunista sindicato dos trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana. E parece que há António José Seguro, embora não saibamos onde nem quando nem como. Talvez sentado na bancada de uma Assembleia da República que ele próprio pretende reduzir, para ficar, quem sabe, a jogar uma suecada com o Zorrinho, o Passos e o Relvas. Enfim, um abraço deste que muito o estima. Dê cumprimentos meus ao coiso.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

METAPHORIA


De visita a Guimarães, passei pela Sociedade Martins Sarmento para mergulhar a cabeça, literalmente, num barril de metáforas. Debaixo de água ouviam-se vozes, música, poemas, uma viagem subaquática com os pés na terra. Metaphoria é uma exposição que resulta, segundo a curadora Sílvia Guerra, de «uma vontade de pensar como é que a poesia, um dos géneros literários mais fortemente enraizados na história de uma país como Portugal, permite a um povo preservar o seu inconsciente, os seus sonhos, num momento em que eles lhe escapam». Quis a força das circunstâncias que este trabalho conjunto, onde a poesia convive com diversas manifestações artísticas, num diálogo sereno, mas proveitoso, em torno do conceito de metáfora, fosse dedicada ao poeta Rui Costa. O catálogo reproduz alguns textos do autor, entre os quais o poema que abaixo reproduzimos. Integram a exposição obras/instalações de Ellen Leblond-Schrader, Joana Serrado, Katie Paterson e Jason Dodge. O catálogo inclui ainda um CD com uma peça musical de Hélène Breschand e Jean-François Pauvros, originalmente interpretada aquando da inauguração. Metaphoria pode ser visitada até 10 de Novembro.

 

A TRAPEZISTA

 

Começou a subir aos telhados
Começou a resolver neles muito tempo.
 

(Primeiro, os dedos na janela mais acima.
Depois, era o cabelo que subia.
Um pulso a içar a alma para outra cidade.)

 
Daqui vê-se tudo.
Os gatos deitam-se e lambem-me os pés.
 

Os pés sobem molhados pela chuva.
Os homens congeminam negócios estendidos nas mulheres.
 

As crianças gritam dentro das casas quando os sonhos
lhes arrancam pedaços das costas.
 

Os homens caminham com quadros pendurados nos joelhos
As pessoas escrevem artigos nas revistas
sobre o que seria o mundo se alguém do outro lado as ouvisse
 

E é então que eu saio
e sobre os ombros das árvores disponho a economia
cravando-lhe os dentes ou
roçando apenas o meu sexo
no trapézio

 
Inclino-me sobre a sua demência particular
neste dia emparedado entre sucessos e crisântemos
e as crises
e ouço as ruas onde lá em baixo uma pessoa
ajeita um pouco melhor os ossos

 
Aquela mulher fabricou uma cozinha resistente a tudo
atravessou os séculos assoberbada de electrodomésticos
inexpugnáveis – ao fim-de-semana envolvia-os em celofane e espanava
um pouco melhor os filhos.

 
Mais à frente o parque onde as estratégias se apresentam –
o presidente à frente, seguido pelo hidrogénio ou o hélio
- conforme a posição do sol no buço da democracia –
e o écran reflectindo o écran e a
maresia.

 
Aqui no alto rodo os pés e alongo mais os braços.
Nos primeiros meses estendia-me com o corpo para baixo e deixava
o sangue inundar a cabeça. Via manchas vermelhas da
menstruação por entre os amigos que prometia esquecer.
Eles traziam-me os seus corpos nus e eu aquecia as suas unhas
cravadas pelo vidro.

 
Dizem: se os videntes permanecem firmes perante pequenos tiranos
podem chegar a suportar a presença do incognoscível.
Todo o conhecimento é o resultado de uma deslocação.
Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
Se quiseres fazer como o feiticeiro índio da tribo iaqui,
perguntarás: e esse caminho tem coração?

 
Perdi a minha agenda de fenómenos electromagnéticos.
Não sei por isso de que lado esperar
este súbito irromper
da melancolia.

 

Rui Costa, in catálogo da exposição Metaphoria, curadora Sílvia Guerra, direcção editorial, François Prodromidès, Guimarães – Capital Europeia da Cultura, Outubro de 2012, p. 19.

Adenda: imagens da exposição aqui.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA (1943-2012)


Num quarto com vista para o Douro, vejo na televisão a notícia. Triste. Que mais dizer? É o ano da desgraça de 2012. Tanta falta farão as crónicas deste poeta, grande poeta.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

OH VÓS QUE VOS DIZEIS LIVRES-PENSADORES, FILÓSOFOS DE MEIA TIGELA, PORQUE NÃO SEGUIS O VOSSO CAMINHO ATÉ AO DESTINO?


São João do Estoril, Cascais. 2011.


Raskolnikoff passou no hospital quase toda a Quaresma e a semana da Páscoa. Depois de restabelecido, lembrou-se dos sonhos que tivera durante a doença. Pareceu-lhe, então, ver o mundo inteiro assolado por um flagelo terrível e sem precedentes que, vindo do fundo da Ásia, caíra sobre a Europa. Todos deviam morrer, salvo um pequeníssimo número de eleitos. Vermes microscópicos, de uma espécie até então desconhecida, introduziam-se no organismo humano. Esses corpúsculos, porém, eram dotados de inteligência e vontade. Os indivíduos infectados ficavam no mesmo instante doidos furiosos. Todavia – coisa singular! – nunca os homens se tinham julgado tão sábios, tão seguros da posse da verdade, tão confiantes na infalibilidade dos seus julgamentos, das suas teorias científicas, dos seus princípios morais, como pensavam estar esses infelizes. Aldeias, cidades, povos inteiros eram atacados daquela moléstia e perdiam a razão, não se compreendendo uns aos outros.
Cada um julgava saber, ele só, a inteira verdade e, contemplando os seus semelhantes, afligia-se, batia no peito, chorava e torcia as mãos. Ninguém se entendia sobre o bem e o mal, nem sabia quem condenar ou absolver. Matavam-se uns aos outros, movidos por uma cólera absurda. Reuniam-se formando grandes exércitos, mas, começada a campanha, as tropas dividiam-se bruscamente, as fileiras rompiam-se, os guerreiros lutavam entre si, assassinavam-se e devoravam-se. Nas cidades tocava-se a rebate de manhã à noite, eram todos chamados a pegar em armas. Mas, porquê, e a que propósito? Ninguém o sabia e toda a gente andava inquieta. Cada um dava a sua opinião, propunha as suas reformas, e nunca chegavam a acordo; a agricultura tinha falta de braços. Aqui e além reuniam-se grupos, assentavam um plano de acção comum, protestavam jamais se desunirem. Mas não demorava que se esquecessem do juramento feito e começassem a acusar-se mutuamente, a bater-se, a matar-se. Este quadro desolador era completado pelos incêndios e pela fome. Tudo perecia, homens e coisas. O flagelo cada vez assumia proporções mais assustadoras. No mundo inteiro só conseguiriam salvar-se alguns homens predestinados a propagar o género humano, a renovar o mundo. Esses, contudo, ninguém os vira em parte alguma, ninguém ouvira as suas palavras, nem o som das suas vozes!

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: F. M. Dostoievski.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #69


O relativo sucesso que os Dead Combo alcançaram, ao aparecerem recentemente num programa de Anthony Bourdain, é inteiramente merecido e chega tarde. Falamos de uma daquelas bandas que tivesse nascido nos states, há muito encheria coliseus em Portugal. Acompanho-os desde Vol. 1 (2004). Praticamente restringidos à guitarra eléctrica de Tó Trips e ao contrabaixo de Pedro V. Gonçalves, praticam uma música essencialmente instrumental de inclinação elegíaca e com fortes ligações à tradição portuguesa. Não obstante, percebe-se uma assimilação melódica capaz de reunir a uma mesma mesa as composições de Ennio Morricone para westerns e a guitarra portuguesa de Carlos Paredes, o registo mais pop de uns saudosos Morphine (escute-se o tema Polaroid Omelete e os Três Miseráveis Saxes Barítonos) e a desconstrução da tradição bluesística levada a cabo por Tom Waits, algumas derivações (provavelmente involuntárias) dos primeiros Fleetwood Mac e o lirismo sedutor dos The Shadows. Mas esta mesa é uma mesa de poker, onde nos olhares cruzados das fontes insinua-se um bluff constante. Porque há nesta assimilação a capacidade de, sabotando as fontes, compor melodias simples à base de guitarras com imensa reverberação e um imaginário nocturno, nostálgico, tipicamente lusitano, mas igualmente moderno. A música dos Dead Combo é, por isso, assaz sugestiva visualmente, podendo nela serem observadas tanto as ruas de uma cidade envelhecida como as estradas poeirentas que atravessam o deserto… a caminho do México. Boa viagem, encontrar-nos-emos no futuro.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

PAÍS FACEBOOKEADO


O Correio da Manhã deu a notícia, e o povo, fazendo fé do jornalismo de referência praticado pelo periódico em causa, deu eco à situação tal como ela lhe chegou. A cruel directora de uma escola teria privado uma criança de uma refeição, sentando-a no refeitório a ver as outras crianças deglutirem o bife do dia, qual torturadora nazi, e proibindo uma caridosa auxiliar de acção educativa de levar o pão à boca faminta da humilhada criança. De imediato se fizeram petições exigindo a demissão do carrasco, a indignação proliferou como erva daninha, misturada com uma raiva e um ódio que, vivêssemos na Idade Média, teria justificado justiça pelas próprias mãos em plena praça pública. E a senhora directora já estaria enforcada. O país está perigoso, insuportavelmente perigoso. Aprofundada a notícia, ficamos a perceber o problema. E entre a compreensão do problema e a pintura sensacionalista que o Correio da Manhã lhe ofereceu vai uma enorme diferença. Lembrei-me logo dos alunos que solicitavam apoios sociais chegando de jeep à escola, gozando com o parque automóvel degradado dos docentes ao mesmo tempo que pegavam no seu telemóvel última geração para pedirem aos encarregados de educação mais uma declaração de rendimentos falsa. Vi disto às centenas nas poucas escolas onde trabalhei, e lembro-me muito disto agora. Afinal, a directora da escola tentou resolver um problema que se arrastava há mais tempo do que o suportável e, pelos vistos, colocava em causa o apoio dado às outras crianças. Os miúdos não têm culpa, é certo, de ter uns encarregados de educação irresponsáveis, que recusam justificar o porquê de não pagarem os almoços, como outros fizeram ficando isentados de pagar ou negociando o valor exigido. É um caso entre muitos que pode levar-nos a perguntar ao povo, que na praça pública vocifera e aponta a directora da escola, o que faria se, tendo uma loja aberta, lhe aparecessem reiteradamente a pedir fiado os mesmos clientes, sem justificar o porquê da dívida acumulada e, muitas vezes, ostentando um modo de vida que não deixa perceber o porquê das dificuldades. Bem sei que uma escola não é um negócio, e que o estômago da pobre criança não é responsável pelo que se passa à sua volta (por isso lhe terão levado pão e leite, mais um lanche reforçado), mas cabe interrogar-nos sobre o que fazer quando o vício nos bate à porta: alimentá-lo ou tentar corrigi-lo? Eu sou pela segunda opção, e por isso defendo um ensino verdadeiramente gratuito e público. Mas para que tal seja possível é fundamental que todos os cidadãos sejam responsáveis e sérios, o que está longe de se realizar muito por culpa, lá está, do estado degradante a que deixámos chegar a educação em Portugal. As redes sociais e o sensacionalismo fazem o resto.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

NO SENTIDO DA NOITE

A obra de Jean Genet é um daqueles casos onde a experiência do homem e a expressão dessa experiência se uniram para gerar um mito. Para tal, contribuiu fortemente o famoso ensaio que Jean-Paul Sartre lhe dedicou. Saint-Genet Comédien et Martyr (1952) chegou a ser determinante no percurso literário de Genet, provocando uma crise produtiva que apenas viria a ser interrompida com textos breves e peças de teatro. Filho ilegítimo de uma criada para todo o serviço, nasceu em Paris no ano de 1910. A mãe entregou-o aos cuidados de uma instituição pública, vindo a falecer em 1919. Acusado de roubar quando tinha apenas 10 anos, foi internado na casa de correcção de Mettray. Aí permaneceu praticamente até aos vinte anos. Essa experiência foi a matriz do primeiro dos textos coligidos No Sentido da Noite (Sistema Solar, Junho de 2012), volume que em boa hora recupera alguns dispersos de Jean Genet anteriormente publicados entre nós, na sua maioria, pela Hiena Editora. A Criança Criminosa (1948) foi escrito para ser lido no programa radiofónico Carte Blanche, onde também deveria ter sido transmitido Pour en Finir avec le Jugement de Dieu, de Antonin Artaud. A censura da emissão levou Fernand Pouey, então autor do programa, a demitir-se. Trata-se de um texto provocatório onde Genet se refere à função das casas de correcção desmascarando conceitos como os de mal e de (re)educação, para daí assumir uma tomada de posição veementemente refractária da moral vigente e seus sistemas de socialização: «Quanto a mim, escolhi: vou estar do lado do crime. E vou ajudar as crianças: não a voltar para as vossas casas, as vossas fábricas, as vossas escolas, as vossas leis e os vossos sacramentos, mas a violá-los» (p. 29). Esta noção de crime deve ser entendida em toda a sua amplitude estética, e não apenas moral, na medida em que configura uma visão da arte enquanto acção libertadora e, dito de outro modo, enquanto acto de sabotagem das leis, normas e regras que oprimem os indivíduos numa sociedade mais empenhada em castrar do que em deixar florescer. É impossível dissociar esta perspectiva da repressão sexual colocada sobre o pederasta assumido que era Jean Genet, mas ela deve ser também compreendida na dimensão mais complexa de quem procurou desvelar na sua obra, iniciada em 1939, uma relação explicitamente conflituosa com as instituições zeladoras de uma Sociedade hipócrita. Podemos pois afirmar sobre Genet o que o próprio afirma num texto dedicado a Jean Cocteau (1950): «Poemas, ensaios, romances, teatro, toda a obra abre fissuras; e pelas fissuras deixa descobrir a angústia. Um coração extremamente complexo e doloroso queria esconder-se e desabrochar, ao mesmo tempo» (p. 36). Os criminosos na obra do autor de Notre-Dame-des-Fleurs (1943) assumem, neste sentido, o papel ambíguo do criador que, na mesma medida em que se dá vida na sua criação, mata-se aí mais um pouco. A sua posição é de oposição, primeiro à Sociedade e, no limite, à Moral que dá forma a essa mesma Sociedade. Na Carta a Jean-Jacques Pauvert (1954) e no texto Como Interpretar Les Bonnes (1962), indissociáveis por ter sido Pauvert o editor das duas versões da peça em causa, fica patente esta consciência dramática da criação, ainda que a mesma deva admitir um jogo entre a verdade e a encenação dessa mesam verdade: «Uma das funções da arte é, sem dúvida, substituir a fé religiosa pela eficácia da beleza. Esta beleza deve ter, pelo menos, a força de um poema, quer dizer, de um crime» (p. 42). Desafio permanente à autoridade, esta obra, onde a brutalidade do crime se transforma em beleza e a sexualidade desviante faz tremer os alicerces de uma moral conservadora, parece estar enraizada numa percepção do artista enquanto actor cujo palco é a sua solidão intrínseca. Pelo menos, é essa solidão que mais vem à tona nos Fragmentos (1954), rascunhos para um poema escritos em torno da relação com o prostituto italiano Decimo Christiani que quase terá levado Genet ao suicídio, e em O Funâmbulo (1957), “carta poética” a Abdallah Bentaga, protegido de Genet que se suicidou após o corte de relações: «Para o poeta dispor da solidão absoluta, a que precisa se quiser realizar a sua obra – extraída de um nada que ela preencherá e fará ao mesmo tempo sensível – poderá expor-se numa atitude qualquer, que seja para ele a mais perigosa. Afasta cruelmente todos os curiosos, todos os amigos, qualquer solicitação que tratasse de lhe inclinar a obra para o mundo. Queira ele, pode proceder assim: espalhando à volta um cheiro tão pestilencial, tão negro, que ele próprio se perca nele e fique por causa dele meio asfixiado. As pessoas evitam-no. Permanece só. A maldição aparente vai permitir-lhe todas as audácias porque mais nenhum olhar o perturba. Vê-lo-emos mover-se num elemento parecido com a morte, o deserto. A sua palavra não levanta nenhum eco. E porque ela já não se dirige a ninguém, já não deve ser compreendida pelo que está vivo, deve enunciar uma necessidade não exigida pela vida mas pela morte, que a ordenará» (p. 78). A citação justifica-se pelo que parece conter de pedagógico relativamente ao processo criativo do próprio Jean Genet. Aqui, a solidão não é apenas condição essencial do poeta, é também método. É o método que coloca o autor num lugar privilegiado, ou seja, o lugar onde as convenções se afundam e o homem emerge, o lugar onde o olhar do outro se distancia para que o olhar próprio possa dançar sem quaisquer constrangimentos. No pequeno ensaio intitulado A Estranha Palavra Que…(1967), Genet aprofunda estas concepções tendo por objecto de análise o teatro. E aí fala de um «teatro entre túmulos», isto é, um teatro muito mais de acordo com a vida, afastado da ordem científica que tudo pretende iluminar, lançando sobre as coisas uma luz artificial, mas próximo das entranhas da terra, que tudo consome e faz renascer. Nesta capacidade paradoxal de dizer a vida mostrando a morte parece assentar, igualmente, a interpretação da obra de Rembrandt sobrada em dois textos fragmentários aqui coligidos: O Segredo de Rembrandt (1958) e O que sobrou de um Rembrandt rasgado em quadradinhos muito perfeitos e que foi à vida nas latrinas (1967). Tendo Rembrandt como pretexto são, como sempre acontece, textos sobre Jean Genet. Ou, pelo menos, textos onde quem os escreveu se dá a ver resguardando-se de quem o lê. Destes paradoxos se fez a obra e a vida de um homem, sendo provável que não apenas de um homem, mas, pelo menos, de parte do que existe em todos os homens que criam.