sábado, 8 de dezembro de 2012

RIO BRAVO (1959)



Por falar em John Russell. Lembrar-se-ão dele em Rio Bravo, mítico western de Howard Hawks (1896-1977) com o incontornável John Wayne, Dean Martin e o malogrado cantor Ricky Nelson (faleceu num acidente de avião quanto tinha apenas 45 anos). John Russell aparece neste filme no papel do todo-poderoso Nathan Burdette, que paga a uma série de mercenários para capturarem o seu irmão Joe da prisão guardada pelo sheriff John T. Chance (Wayne) e o seu velho ajudante de nome Stumpy (Walter Brennan, excelente). A Chance e Stumpy juntar-se-ão o jovem Colorado (Ricky Nelson) e Dude (Dean Martin), um ex-camarada de Chance corrompido pelo álcool após desgosto amoroso. Vejamos os quatro numa das cenas inesquecíveis do filme, um momento de pausa onde quatro homens confraternizam ao som das canções do oeste: 



Conta-se que Johnny Cash escreveu Restless Kid para que Ricky Nelson a interpretasse nesta cena, embora o tema nunca apareça durante o filme. Aparecem antes Cindy e My Rifle, My Pony and Me, de Dimitri Tiomkin (director musical do filme de Hawks). A cena é especialmente importante por marcar a passagem do tempo e a importância das canções na vida destes homens, gerando um ambiente de amizade entre quatro indivíduos aparentemente descontraídos. Na realidade, estão sob a ameaça dos contratados de Burdette, contra quem terão de se confrontar dentro de momentos. Ainda assim, os duelos mais importantes neste filme de Howard Hawks, um realizador onde o realismo disfarça sempre inúmeras subtilezas, são de outra ordem. Mais do que o conflito inicial entre a ordem, representada pelo sheriff John T. Chance, e a desordem estabelecida pela família Burdette mais seus lacaios, o que vai marcar a narrativa é uma relação amorosa.


Podemos afirmar, sem ferir susceptibilidades, que Rio Bravo é uma história de amor onde os jogos de sedução pautam cada uma das cenas. Temos Dude, outrora seguro, firme e rápido com a pistola, agora caído nas malhas do álcool. O corpo treme-lhe, a ressaca desassossega-o. Somente velhas canções têm o condão de o serenar. Arrasta-se pelos saloons deixando-se humilhar por aqueles que atiram moedas para as escarradeiras, no gozo de verem Dude, el borrachón, recolher as moedas para poder pagar “o comprimido”. O contraste é extraordinário, depois de Chance o recuperar levando-o a barbear-se e a mudar os farrapos que traz vestidos pela roupa que lhe guardava afectuosamente. O que levou Dude àquele estado de degradação? Um desgosto amoroso. Em tempos apaixonara-se, partira de Rio Bravo com o seu amor e aí regressou transportando as feridas abertas de um amor desfeito.


A figura feminina deste novo drama é a jovem Feathers (Angie Dickinson), supostamente procurada pela justiça sob acusação de conluio em burla no jogo de cartas. A relação que mantém com o sheriff John T. Chance é, desde a sua chegada, de provocação. Como a carruagem em que chega está de partida, a provocação supõe-se breve. Mas a carruagem parte e ela mantém-se, instaurando um impasse na relação com o sheriff onde a provocação dá lugar à sedução e da sedução nasce a paixão. John T. Chance não resistirá aos argumentos de Feathers, embora tente distanciar-se e manter-se impassível. Sucede que o seu comportamento oscila entre o estouvado e a pura fascinação, perdendo o sheriff junto da figura feminina a constância que não perde rodeado de desordeiros.


É conhecida, e amplamente discutida a misoginia de Howard Hawks, que neste Rio Bravo não atribui à mulher um papel diferente do quadro mais tradicionalista. Figuras frágeis, personalidades insidiosas, manipuladoras e sedutoras, as mulheres de Hawks tanto são capazes de levar um homem à ruína como simplesmente de o desconcertarem com a sua irresistível tentação. Não obstante, o que torna Rio Bravo sui generis é o turbilhão que apanha John T. Chance no caminho. De um lado o amigo alcoólico, de outro lado os bandidos e de outro lado ainda uma tentadora mulher. Rio Bravo é o cenário perfeito para a elevação de um homem que consegue manter-se firme no centro da tempestade, resolvendo os problemas com a simplicidade e a argúcia dos mais nobres.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

INOCENTE

Camarada Van Zeller, a cabeça do Herberto Helder estremece com todo o esquecimento. A do Ângelo Correia e do Marques Mendes também. Terá o meu amigo lido nas notícias que nos idos de 1996 o nosso actual Primeiro criou uma ONG com o nome pomposo de Centro Português para a Cooperação. Entre os membros figuravam Ângelo e Mendes, agora esquecidos de terem figurado entre os membros. Passos Coelho, à época deputado em regime de exclusividade, criou a ONG com o objectivo de contribuir para o apoio directo e efectivo a programas e projectos em países em vias de desenvolvimento. Ao que parece, o único desses países a beneficiar dos 137 mil euros atribuídos à famigerada ONG pelo Fundo Social Europeu e pela Segurança Social foi… Portugal. Fica mais uma vez provado o elevado sentido patriótico do nosso primeiro. O mesmo sentido patriótico que segura Relvas no Governo como a carne prende a unha e varre Nuno Santos da RTP. Bem pode este despesista defender-se afirmando-se vítima de saneamento político. Na verdade, o que aqui está em causa é um elevado sentido patriótico. Nada de comparável aos métodos negros dos generais angolanos que instauraram em Portugal um processo contra a editora Tinta-da-China por causa da publicação do livro de ficção «Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola». Toda a gente sabe que em Angola não há corrupção, muito menos tortura, quanto mais diamantes. Em Angola só há bananas, palhotas, pretas de tanga, chimpanzés, leões e tarzans. Este mundo anda, de facto, tão trocado e confuso que chegamos a sentir dó do Primeiro ao lermos as notícias: Passos luta por tratamento igual à Grécia, Passos rejeita dizer onde vai cortar na despesa pública. Ou seja, passos luta por tratamento igual à Grécia rejeitando dizer onde vai cortar na despesa pública. Ao mesmo tempo, Vítor Gaspar, o das finanças, faz dos portugueses atrasados mentais. Quem o afirma é Marques Mendes. Ele próprio português, tal como Vítor Gaspar e Passos Coelho. Embora existam portugueses mais portugueses que os portugueses, é de supor que eles andem todos a tratar-se como deficientes mentais. Vai-se a ver, Portugal é um manicómio com um ministro das finanças que se contradiz, um primeiro-ministro que rejeita comunicar as suas soluções e um comentador político com a cabeça a estremecer de esquecimento. Do que isto precisava era de uma caterva de generais angolanos ou de um Medina Carreira em cada esquina.  Ups: 


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

DIA DOS MORTOS

Oscar Niemeyer
(15 de Dezembro de 1907 — 5 de Dezembro de 2012)
 
Dave Brubeck
(6 de Dezembro de 1920 – 5 de Dezembro de 2012)
 
Joaquim Benite
(1943 - 05 de Dezembro de 2012)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

CARTA DA REGIÃO MAIS FÉRTIL

(a meu pai)
 
vai certamente estranhar esta quase interminável carta
pai
há muito que o silêncio se fez entre nós
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar
e eu pobre de mim
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo
a cidade é veloz
não sei se o pai poderá compreender esta velocidade
aqui tudo se tornou dia após dia mais doloroso
minha mulher anda atarefadíssima com o arranjo da casa
parece que mais nada existe para ela
eu sempre na rua por aí
porque não consigo mais suportar aqueles móveis
onde o pó não chega a pousar
não consigo suportar aquela barulheira de electrodomésticos
continuamente a funcionarem
já não consigo suportar a minha mulher
 
saio de casa logo de manhã
muitas vezes não me apetece ali voltar
deambulo pela cidade e gasto tempo de café em café
perco-me
noite dentro caminho sem direcção precisa
sem saber para onde vou atravesso a cidade
à procura não sei de quê
o corpo esvaziou-se lentamente e
com o passar do tempo sei agora
este casamento foi um erro
estou terrivelmente só
talvez seja por isso que me lembrei de lhe escrever
 
pai
decidi partir
não me pergunte para onde nem porquê
partir é o que ressoa na minha cabeça
viajar sem fim e jamais voltar
também é inútil perguntar-me as razões de tudo abandonar
este conforto enjoa-me esta vida dá-me vertigens e diarreia
de resto duvido que existam razões de peso
tenho a certeza de que seria capaz de suportar minha mulher
se ainda a amasse
partilharia com ela a loucura que adquiriu pela casa
a semanal mudança de lugar dos móveis
e mais estranho ainda
quando põe a máquina da roupa a trabalhar sem nada lá dentro
diz que adora aquele insuportável ronronar de aço
que lhe faz muita companhia
enfim
se eu ainda a amasse talvez
 
mas é certo que arranjei outras compensações
a amizade segura de um amigo
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo
que quer
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas
e de beber
muitas vezes nem sei bem quem são as pessoas com quem falo
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível
desde que me conheço que me fujo
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando-se
com pedaços sombrios da minha
não leve a mal estes desvarios
no fundo teria sido melhor para mim ficar aí
onde o tempo parece não avançar e a terra é fértil
provavelmente hoje seria um desses pastores que meditam
sobre as fases da lua mesmo antes delas se iniciarem
é possível que hoje fosse um operário exemplar
trabalharia sem querer me pôr a questão de que há outro mundo
por descobrir para lá do incessante roncar surdo das máquinas
tudo explodiu dentro de mim e não sei como dizer-lho
vou largar tudo
a mulher o trabalho a cidade onde vivo a casa de que não gosto
a cidade apagou em mim muitos desejos
a única coisa que ainda faço com prazer é vagabundear
o que não é muito
mas sinto-me livre e feliz e anónimo
 
olho a vida como se o mundo desabasse dentro de instantes
quanto ao emprego não se preocupe
vou escrever ao meu patrão para me despedir
não sei o que me espera longe daqui
nem onde pararei de viajar
sei que devo partir de todos os lugares onde chegar
se é que alguma vez vou chegar a algum lugar
fascinam-me sobretudo as cidades costeiras
nelas poderei embarcar para outras cidades
ou ficar no cais a ver os barcos afastarem-se
e quedar-me silencioso horas a fio
olhando-os desaparecer
com o simples desejo de ir com eles
mas ficar
ficar um dia mais para que o desejo de partir se torne tão forte
insustentável
e me apeteça morrer em cada porto de partida e de chegada
nesta incerteza viverei o resto dos meus dias
atravessando mares devassando corpos e noites
que de mastro em mastro se tornam peganhentas
indecisas
 
digo isto porque ultimamente tenho sonhado muito
facto extraordinário que já não me acontecia há muito tempo
nesses sonhos surgem-me grandes planos de rostos
antigas topografias de corpos
desenhados minuciosamente no espaço como mapas pormenorizados
dalguma costa pedregosa
paisagens exuberantes imagens a preto e branco
semelhantes a fotografias ou a visões
feras que silentemente passeiam pela praia
e parecem não ter peso
imensos mares que não consigo localizar nos mapas
cheguei mesmo a comprar uma quantidade incrível de mapas
passei noites a estudá-los
sentia a necessidade absoluta de saber onde encontraria
aquelas paisagens de rostos e de feras com pêlo ruivo
assim percorri estradas e arquipélagos
percorri cidades sem me deter para pernoitar
imaginei sedes e fomes terríveis doenças
e nada consegui saber de mim mesmo
nem onde se encontrava meu corpo
 
por vezes acordava em sobressalto
olhava minha mulher dormir
perscrutava seu corpo moreno enrolado no lençol
avistava praias espreguiçadas pela penumbra do quarto
deve ter sido uma das últimas vezes que a amei
mas só mais tarde comecei a ter visões
ficava sentado na cama estático os olhos em alvo
apercebia pequenas formas geométricas flutuantes
delicados cristais movimentando-se aderiam aos dedos
sementes de estrelas rebentavam deixando escorrer resina
claridades pelas paredes abauladas
o ar ficava incandescente
podia vê-lo e senti-lo cortante sobre o peito
a princípio assustei-me
mas com o tempo habituei-me
como me habituei a ver no escuro a desolação de barcos naufragados
e a viver sem corpo sem sombra e sem reflexo
minha mulher achou melhor internarem-me
mas nunca me foi visitar
nem uma só vez enquanto estive atado a uma cama
precisava tanto dela
ou de alguém que me tocasse
para me certificar que a vida ainda latejava no fundo do corpo
não se assuste pai
tudo isto passou e a morte parece não querer nada comigo
de resto
a vida também não
talvez não devesse falar-lhe nestas coisas
que direito terei eu de o inquietar? de o perturbar?
nem sequer lhe devia escrever
na verdade fomo-nos afastando tanto nos últimos anos
o pai já deve ter os cabelos todos brancos
pouco ou nada tínhamos a dizer um ao outro
o sol a chuva o mar e a tempestade eram-lhe indiferentes
o cheiro quase doce da terra molhada
não sei se o pai consegue imaginar o que é uma cidade
que respiração ferida de cimento se exala dela
um coração de gasolina e de néon palpita das avenidas
aos subúrbios de lata e de estrumeiras
que cicatrizes sujas de lágrimas se abrem ao cair da noite
e tudo brilha e tudo parece viver por trás do que já está morto
entradas de cinemas montras jornais luminosos umbrais de luz
poderá imaginar tanta luz em plena noite?
o espaço rasgado por passos rostos barulhos sibilantes
sirenes gritos aflições pequenos suicídios
ignoro se o céu imenso daí não o acharia estreito aqui
percebe agora como é que alguém se pode perder na noite?
não sei
 
noutros tempos é possível que tivesse vivido como aventureiro
como esses homens tristes tisnados pelo mar
viajavam
levando mercadorias e mensagens iam de porto em porto
enriquecendo fornicando rezando e largando enteados e sífilis
quem sabe se não sou habitado pela sombra dum país qualquer
muito antigo e distante
ou apenas pelo eco duma língua que estala no coração
uma voz um rosto murmurado um presságio
então comecei por atravessar o rio nos cacilheiros
de dia e de noite sem me aperceber que o tempo deste rio
já o haviam pintado em retábulos magníficos
e o rio só existia quando sonhava
como se isto resolvesse alguma coisa ia e vinha
sem nunca ter a sensação de quem chega ou de quem parte
sentia-me como que a boiar num tempo remoto
e de mais longe ainda que o meu próprio corpo podia lembrar
um cheiro inquietante a sal devassava-me a intimidade do sonho
corroía-me a memória
 
pensei depois ao olhar as fotografias
as poucas onde me conseguia reconhecer
que resolveria esta angustiante procura
julguei que se pudesse recuar ou avançar no tempo
ser jovem e velho e velho e jovem simultaneamente
talvez pudesse reencontrar-me de novo ou insinuar-me
no corpo fotografado
encontraria o sorriso simples da infância que me revelaria o nome
mas foi impossível
porque aquele rapaz que me sorria e me olhava
com seus olhos em papel sépia não era eu
e tive medo
passava as noites a embebedar-me
turvava a memória de tudo e de todos
era-me doloroso não conseguir corrigir o passado
 
a viagem que de manhã inicio é um sobejo da vida
ignoro se irei parar a um desses países cuja linguagem desconheço
e os costumes do amor me são estranhos
não sei se haverá regresso
mas não esquecerei a sua colecção de selos
quando o pai receber um postal dum determinado lugar
é sinal de que já nesse lugar não estarei
será inútil tentar saber o meu paradeiro
pouco importa se continuo vivo
se calhar esta viagem não passa de pura imaginação
 
tem de me desculpar esta última carta
de resto pouco disse do que inicialmente lhe queria dizer
paciência pai
não nos veremos mais e eu tenho pena de nunca ter tocado
os seus cabelos brancos
mas de qualquer maneira já nos víamos muito pouco
tanto tempo sem memória nos separou
 
peço-lhe que queime esta carta
destrua-a
e se a minha mulher lhe escrever ou telefonar
diga que nada sabe do seu filho há muitos anos
é melhor assim
nenhum resíduo nenhum brilho deve assinalar a minha passagem
 
 
Al Berto, Três Cartas da Memória das Índias (1983/85)


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

QUEM NÃO QUER SABER?

Ponta Delgada, Açores. 2012.

Porque a política foi assim: quando as pessoas se cansaram muito de acreditar e deixaram de votar, foi inventada uma maneira de retomar o hábito que consistia em possibilitar o voto através da Rede e de lhe associar um benefício, normalmente um benefício fiscal. Desta forma havia um incentivo para que o voto continuasse a ser exercido, sendo que este incentivo foi revisto em alta duas ou três vezes até se confirmar que o desinteresse era já o princípio de outra coisa. Passados  alguns anos, e visto o fenómeno ser generalizado às mais diversas partes do mundo, a preocupação dos políticos foi maior. E o poder, que inclui também a política, estava à beira de uma nova mutação. Que mutação? Claro, para mais ainda virtual. Vejamos Foucault: no tempo da monarquia absoluta o Estado era o rei. O poder entrava de cabeça naquela pessoa e ficava lá a morar até desaparecer. Se lhe cortasses o pescoço ou o furasses, ele caía e o Estado também. O dono da faca ou da bala mais certeira reinaria um novo reino. Poder vulnerável: um tiro ou uma facada e ele não resite mais que a força  de todos os seus braços. Impunha-se forma mais sofisticada, que acabou por ser também mais invisível: na democracia do século vinte tu tens uma posição que não acaba quando o sujeito que a preenche desaparece: o deputado é substituído por outro, o ministro, o primeiro-ministro, todos, assim, sem que a falta de qualquer um deles - embora possa fazer diferença e efectivamente o faça - cause a queda do, como lhe chamam, sistema. De maneira que quem tem mais recursos de circulação pode circular pelos canais do sistema de forma mais liberta de atritos. Quem tem amigos e dinheiro, ou dinheiro e amigos, porque atrás daquele vêm estes, ainda que falsos, e ocupa tais posições, irradia para o lado dos vizinhos de forma a encher com o seu poder esta que é uma Rede também. Contaminando, saberá sempre por onde continuar a circular pois basta seguir o próprio cheiro nas rotas que a sua demasia foi pingando de gordura. E todos o ampararão na queda quando escorregar, porque em todos pendurou uma cópia do lixo com que o foram servindo: truques, muitos truques mas muito eficazes e com apresentações a condizer com a estação.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Rui Costa.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #75


Johnny Cash é um daqueles raríssimos casos em que um nome se torna conceito. Subentendem-se géneros e tendências, matrizes, origens, na sua música. Mas o resultado final é sempre algo irredutível às influências. Detestando a palavra inspiração, julgo tratar-se de um daqueles autores onde o conceito faz sentido e ganha até uma dimensão única. A inspiração, em Johnny Cash, é mais do que a ressonância de uma transcendência indecifrável. É a própria transcendência. A sua voz di-lo, o modo como se coloca de guitarra a tiracolo e a inquietação que sempre o perseguiu. É uma questão de postura, talvez, adquirida, aprendida, inata (sabe-se lá onde). A sua carreira, há muito tomada, conquistou uma nova vitalidade com as american recordings da década de 1990. Basicamente, tratou-se de uma recuperação espiritual que consistiu na abertura à modernidade num percurso que teve na tradição uma fonte primordial. Seja como for, Personal Jesus, dos Depeche Mode, deixa de ser Depeche Mode nas mãos de John R. Cash . É Johnny Cash. O mesmo se passa com os temas dos Nine Inch Nails, Simon & Garfunkel, The Beatles, Nick Cave, U2, entre tantos outros, reinterpretados nestas séries. Ou nos clássicos de Hank Williams, Parker & Charles, Neil Diamond e, claro está, John R. Cash. Porque Johnny Cash consegue esta coisa extraordinária de se reinterpretar rejuvenescendo-se. Ele é o próprio, o outro. Ouvir We’ll Meet Again no final de American IV: The Man Comes Around é estupidamente comovente. A gente mete a coisa em repeat e não cansa. Antes pelo contrário, inspira. Difícil é escolher. São seis, os volumes destas séries. Todos eles imprescindíveis.




segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

THE GREAT TRAIN ROBBERY (1903)

Façamos um breve preâmbulo histórico. Antes de mais, devo dizer que me guio pela História do Cinema Mundial (III Volumes, Livros Horizonte), de Georges Sadoul. Não tenho outra. A páginas noventa e três, o Capítulo IV dedica-se a O Primeiro Surto Norte-Americano. Sadoul informa-nos de que, em 1900, os cafés-concerto de Nova Iorque transformaram-se em cinemas, durante algumas semanas, para anular uma greve dos artistas. «O fonógrafo fazia as vezes da orquestra e um fala-barato comentava os filmes». Eis as novas tecnologias ao serviço do grande capital. Os filmes eram, desta forma, uma alternativa aos espectáculos de variedades, substituíam homens elefantes e mulheres barbudas, gigantes e anões. Foi neste contexto que, em 1905, Harry P. Davis e John P. Harris, empresários do espectáculo e agentes imobiliários, alugaram com enorme sucesso uma sala num bairro de Pittsburgh para passar Great Train Robbery. A experiência deu origem aos Nickel Odeons, salas bastante lucrativas, assim chamadas por ser um nickel o custo da entrada. Assim nasceram os impérios, por exemplo, do tintureiro Fox e dos irmãos Warner, reparadores de bicicletas. Assim nasceram, igualmente, os primeiros directores de estúdio. Entre eles, Edwin S. Porter. Georges Sadoul afirma que «a obra introduz no cinema uma atmosfera nova: o «western»». Não percam, nem que seja ao jeito de homenagem, esta pérola que os maravilhosos arquivos do YouTube disponibilizam:

domingo, 2 de dezembro de 2012

sábado, 1 de dezembro de 2012

PALE RIDER (1985)




Pale Rider decalca Shane em múltiplos aspectos. A comunidade de agricultores dá lugar a uma colónia de garimpeiros, ameaçados por um ganancioso industrial do minério. Em vez de um rapazito de nove anos, temos uma adolescente de quinze. Há pormenores simbólicos que são óbvias citações, como o reforço da união entre o forasteiro misterioso e a comunidade de acolhimento nas reuniões nocturnas onde se decide o futuro. E se em Shane tínhamos dois homens consolidando a amizade, de machado em riste, em torno de um velho tronco de árvore, em Pale Rider o tronco é substituído por um pedregulho e os machados dão lugar a marretas. As semelhanças não ficam por aqui. Em termos narrativos, os mundos que se opõem num filme e no outro são similares. De um lado, a ganância, uma ideia de progresso estigmatizada pela destruição do meio ambiente, a cidade. Do outro lado, a ambição legítima de famílias isoladas no campo, fazendo pela vida em registo arcaico, respeitando a Natureza na medida das suas necessidades. Em suma, o poder e o contrapoder. 

Não obstante as semelhanças, os dois filmes afastam-se com a naturalidade de um filho que se independentiza do pai. O pale rider de Eastwood pouco tem que ver com a insalubridade do Shane interpretado por Alan Ladd. Talvez este seja mais humano e aquele heróico. Se no carácter se aparentam, distinguem-se no porte e nessa outra dimensão que tantas vezes define os homens: o estilo. Eastwood confere ainda uma aura de mistério ao seu pistoleiro solitário, transforma-o em padre e fá-lo aparecer na sequência de uma prece. O mistério não paira sobre ele, ele é a própria encarnação do mistério. Tanto Shane como priest são dois pistoleiros em busca de uma nova vida, aparentemente resgatados de um passado que nunca nos é revelado. Apenas sugerido. Mas quando ambos aparecem de tronco nu, Shane tem a pele lisa e a carne incólume. Já as costas do padre ostentam seis indisfarçáveis cicatrizes, balas que o trazem morto dentro de um corpo vivo.

De resto, Clint Eastwood diz ao que vem na cena inicial. Não pode ser inocente o facto de logo aí assassinar um pequeno cão. A figura do cão está presente em Shane durante todo o filme, animal fiel e companhia do pequeno jovem que oferece à obra de George Stevens uma dimensão melodramática que Pale Rider rejeita. Por outro lado, o fascínio dos pistoleiros solitários exercido sobre as figuras femininas de ambas as histórias fica declarado em Pale Rider. Se em Shane apenas o subentendemos, em Pale Rider observamo-lo em dose dupla. Tanto Sarah (mãe) como a adolescente Megan (filha) declaram o seu amor ao priest, propondo-lhe a segunda aquilo que a primeira concretiza. Isto é possível devido a um ligeiro desvio narrativo que Eastwood não deixou escapar. Sarah é mãe solteira, vive apenas uma espécie de noivado com Hull Barret (o mais inconformado dos garimpeiros que acolhe pale rider na comunidade).

Todas estas semelhanças podiam legitimar a ideia de um remake. E assim será se entendermos por remake não uma cópia, mas uma reconstrução pessoal sem nenhum tipo de submissão ao original. O que se passa é que o filme de Clint Eastwood tem atrás de si mais trinta anos de história, foi filmado nos meados de uma década de 1980 que lhe permitia ter uma noção diferente (quiçá mais polémica) das relações mantidas entre o poder e a justiça. Repare-se como em praticamente todos os filmes de Eastwood a ideia de legalidade aparece associada aos serviços prestados a quem detém o poder económico. Também neste assim é. O Marshall (histórico John Russell) e seus delegados, contratados pelo poderoso empresário que pretende afastar do seu caminho a colónia de garimpeiros, são o quadro de uma pseudo-justiça, ou seja, de uma justiça que não está tão preocupada em defender os desprotegidos como está interessada em servir os poderosos.

O medo que impede os garimpeiros de se deslocarem à cidade é o medo que a fé inspirada pelo priest vem combater, motivando a luta e a resistência dos mais fracos. Temos, deste modo, a fé ao serviço dos desprotegidos e a lei ao serviço dos mais fortes. Trata-se de um lugar-comum no western que não deixa de ter a sua fundamentação histórica e, para mal dos nossos pecados, muitas vezes se revela certeiro na actualidade. Há, pois, uma dimensão mística em Pale Rider que o torna um filme especial. E quando do alto da montanha o eco das vozes do passado desce à vila, nada mais resta a dois corpos tocados pela paixão do que deixarem-se envolver pelo perfume da nogueira em chamas.

GOLPE D'ASA #2


Golpe d'asa — Revista de Poesia
Directora: Ana Salomé
Edição CLEPUL e GOLPE Edições
Novembro de 2012


Apresentação de Nuno Moura, pp. 44-45.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

SHANE (1953)




A paixão pelo western vem de muito cedo, quando era miúdo e me escondia atrás dos reposteiros à espera que os meus pais se fossem deitar. Depois ficava a ver os filmes que passavam na televisão, quase sempre westerns ou filmes de piratas com o Errol Flynn. Apesar de nunca ter gostado do Carnaval, a minha mãe insistia em mascarar-me. Os únicos disfarces que eu admitia sem reclamações eram os de índio ou de cowboy, sendo que para cowboy só podia aceitar um modelo: a camisola com tranças usada por Alan Ladd em Shane (1953). Há quem o considere o melhor western de todos os tempos, o que está longe de ser verdade. É um western melodramático, marcado pela presença constante de um miúdo que há-de ter contribuído fortemente para a empatia gerada pelo filme.

Talvez tivesse a mesma idade que Brandon de Wilde (1942-1972), tragicamente desaparecido num acidente de viação, quando vi Shane pela primeira vez. George Stevens (1904-1975), realizador oscarizado, rodou-o na ressaca da Segunda Grande Guerra, onde foi operador de câmara do exército norte-americano. O filme tem uma série de elementos que apontam para essa experiência, nomeadamente as dúvidas levantadas sobre o uso das armas. Não é por acaso que um dos grandes dilemas representados neste filme é o da possibilidade de uma vida pacata, regida pela justiça e longe dos conflitos armados. Alan Ladd (Shane) não tem a mística de outros pistoleiros, é demasiado límpido e melífluo. Sobre ele pesa, no entanto, um passado que nos é apenas revelado implicitamente e do qual se pretende libertar.

Ao passar casualmente pela pequena quinta de uma família tradicional, resolve largar o coldre e juntar-se a um grupo de agricultores que ali tentam fazer pela vida. Rapidamente se apercebe de que esse grupo de agricultores vive ameaçado por um criador de gado que lhes pretende tomar as terras, a bem ou a mal. Este é um dos aspectos verdadeiramente curiosos do filme, oferecer-nos a extensão da paisagem onde pequenos agricultores tentavam sobreviver arduamente à ganância e ambição de velhos colonos sem escrúpulos. Com a justiça distante (a autoridade mais próxima estava a 160Km), a lei fazia-se valer pela força. Ainda assim, estamos num momento de viragem e contenção. O próprio fazendeiro hesita em recorrer às armas, tenta negociar com os agricultores, ameaça-os sempre no cuidado de não poder vir a ser incriminado pela justiça.

Há ali um jogo incipiente de manipulação da moral, em função de interesses pessoais que chocam com a necessidade de impor justiça numa nação erigida a ferro e fogo. Shane é a personificação dessa viragem. Ele sabe que o tempo dos pistoleiros acabou, ao mesmo tempo que se vê na contingência de o fazer reviver. Pode um homem ser quem não é? -  pergunta-se a todo o momento.  A resposta surge no fim, depois do fazendeiro contratar um pistoleiro cuja função seria provocar os agricultores até que estes não resistissem ao impulso de sacar das armas e acabassem desfeitos pela rapidez e inclemência do misterioso Jack Wilson (Jack Palance himself). O que aqui temos é, pois, o velho conflito da natureza humana anedoticamente simplificado com a fábula do escorpião que ferra a rã enquanto esta o ajuda a atravessar o rio. Desculpe, não o pude evitar, é a minha natureza.

Tudo isto é filmado com um cuidado nos pormenores que facilmente nos faz crer na angústia daquelas personagens e no que separa os frágeis agricultores, nas suas pequenas quintas isoladas no meio de extensos vales, e a vida na cidade, com os homens do fazendeiro ambicioso aí concentrados. O realismo dos cenários, dos trajes, das falas, da postura das personagens, só perde para uma excessiva simplificação da relação mantida entre Shane e a família de agricultores que o acolhe. Marian e Joe são um casal afectuoso, dedicam toda a atenção ao pequeno Joey, mas estão longe de parecer verosímeis. Não seria fácil tornar explícito em 1953 o que George Stevens resolveu deixar na sombra, o fascínio de Shane exercido sobre Marian. No filme, esse fascínio fica mais óbvio no pequeno Joey. Mas é Marian, a mulher do mais inconformado dos pequenos agricultores, quem ali se sente perder nas malhas de uma paixão inexplicável. Mais tarde, Clint Eastwood mostrou-nos essa paixão de um modo autêntico. Foi em Pale Rider (1985).

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

ELOGIO DO WESTERN


Se o José Duarte pode dizer que o jazz é a melhor música do mundo, sinto-me no direito de considerar o western o melhor género cinematográfico do mundo. As mulheres à minha volta não gostam de westerns, passam a vida a limpar o pó às casas e ficam preconceituosas quando vêem no ecrã a poeira levantada pela passagem dos cavalos. Dantes, as ruas eram de terra batida. E esse dado é fulcral na afirmação do western como o melhor género cinematográfico do mundo. Mesmo quando a terra batida se transforma em lama, o que ali vemos é a civilização a despertar. O western coloca em conflito tudo o que é verdadeiramente importante, as culturas, os géneros, o homem e a natureza, o campo e a cidade. É o mais filosófico dos “tipos” de cinema, sem deixar de ser histórico, pragmático, romântico, humorístico, pois no bom western todas estas dimensões confluem sob o signo da Vida. Os gregos só inventaram a tragédia porque ainda não havia cowboys, mas a criação do universo segundo os textos bíblicos pode ser considerado o primeiro dos westerns alguma vez escrito. Adão e Eva, Abel e Caim, são personagens-tipo em inúmeros westerns. A vantagem do western sobre os restantes géneros é poder oferecer-nos tudo isto ao mesmo tempo que nos coloca diante de um espelho onde o bem se reflecte no mal e vice-versa, trazendo à luz do dia o nascimento de uma nação e, lá está, a destruição de uma outra. A destruição da grande nação índia da América do Norte e o nascimento dos EUA como hoje os conhecemos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ENTRE OS SEUS PLANOS ESTAVA PARTIR PARA O SUL

Santos, Lisboa. 2012.

Durante muitos anos, na casa de Archimboldi as suas únicas posses foram a sua mala, que continha roupa e quinhentas folhas em branco e os dois ou três livros que estivesse a ler naquele momento e a máquina de escrever que Bubis lhe oferecera. A mala carregava-a com a mão direita. A máquina carregava-a com a mão esquerda. Quando a roupa começava a ficar usada, deitava-a fora. Quando acabava de ler um livro, oferecia-o ou abandonava-o numa mesa qualquer. Durante muito tempo recusou-se a comprar um computador. Às vezes aproximava-se das lojas que vendiam computadores e perguntava aos vendedores como funcionavam. Mas sempre, no último minuto, recuava, como um camponês receoso com as suas poupanças. Até que apareceram os computadores portáteis. Então sim, comprou um e ao fim de pouco tempo já o manejava com destreza. Quando o modem foi incorporado nos computadores portáteis, Archimboldi trocou o seu computador velho por um novo e às vezes passava horas ligado à Internet, à procura de notícias estranhas, nomes que já ninguém recordava, acontecimentos esquecidos. O que fez ele com a máquina de escrever que Bubis lhe ofereceu? Aproximou-se de um desfiladeiro e atirou-a para o meio das rochas!

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Roberto Bolaño. 

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #74

Lembrar-se-á o leitor amigo de Darin Pappas, o mais português dos tipos sem pátria que transformava pranchas de surf em esculturas. Nos idos da década de 1990 deu que falar, nomeadamente ao lançar dois excelentes álbuns de hip hop em Portugal: Flowers and The Color os Paint (1995) e Stellafly (1997). Que é feito do bicho? Não sei. Mas os álbuns ficaram-me por companhia. Darin Pappas ou Korvorowng ou Ithaka tem aquele perfil cosmopolita que muito nos agrada, ainda para mais por revermos nele um autodidactismo deveras apreciável. Escultor, músico, fotógrafo, escritor, homem dos sete instrumentos, com pinta, estilo, groove e uma coluna vertebral errante de meter inveja aos sedentários de Chelas. Flowers and The Color of Paint fez correr muita tinta. Desde logo, pela pior das dúvidas: deveria ser considerado música portuguesa? Como se pudesse a música admitir as fronteiras que os homens se impõem uns aos outros. Depois porque era hip hop com uma qualidade muito acima da média então registada por terras lusas. General D (quedê?) e Lince emprestaram vozes em alguns temas, João Paulo Feliciano deu guitarra a três temas, contando-se também entre as colaborações malta dos Cool Hipnoise (saudosíssima banda) e a poderosa voz de Marta nos mais soul dos coros alguma vez gravados em Portugal. Programações com uma toada urbaníssima (Sleepdriver, escutado agora, soa ao melhor Tricky) são quanto basta para marienetar os nervos do ouvinte, pondo os músculos a mexer e a anca a espanejar a atmosfera. Cai lindamente com os melhores tintos alentejanos em noites chuvosas como a de hoje. Garanto-vos.

DESABAFO


Não espero amor nem glória de ninguém:
Espero terra e cinza,
Os blocos do abordar lá na doca esquecida,
E ao longe o rolo branco,
Livre e amargo do mar
Que traz com água e indiferença
O cadáver e o frasco azul do adeus marinho.
Como as gaivotas levo água e ferro no bico:
Por isso passo e fico.

Naquilo que outros vêem um vago talento e sorte,
Outros: «belas qualidades, mas purgativo, aquele magnésio...»
Levo coisas tão simples como o meu sonho e a minha morte:
O menino que eu fui, parado nos meus olhos,
O garoto que eu fui, e os sinos que rachei à pedra ainda a vibrar,
Minha mãe no que tenho de condescendente e feminino,
Meu pai na força e pressa do meu próprio coração.

Não espero amor nem glória de ninguém:
Espero a terra e a lisura
Da pá que ma estender,
Além de erva ou torrão de calcadura
E os filhos velhos, graves,
Com um bocado de pão, a minha memória e uma acha a arder
Tudo isto espero com a força e a determinação da esperança,
Com as lágrimas do fraco melodioso
Mas, cheirando a esturro, a pulso,
Sozinho e perigoso.

Terei vestido e pão no mar e nos seus fundos
E nos peixes de cor as flâmulas de guerra;
Hei-de cravar o Sol no meu destino,
Dar a Lua a roer aos que duvidaram de mim,
E transparente como as baías me verão,
Que, vendo-as mansas, me verão a mim.

Mas, se acharem as baías bravas, que se aguentem!
Quando meu tio foi para Manaus, lá me aguentei!
Ah, baías salvadas e coléricas,
Açores de ronda ao vagalhão partido!
Morrer é bom quando se deixa
Algum pecado redimido.


Vitorino Nemésio, Nem Toda a Noite a Vida (1953)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

OS COMENTÁRIOS DE MARCELO

- Professor, boa noite.
- Boa noite.
- Hoje comecemos pelas leituras.
- Ora bem, vamos às leituras. La Redoute. Maxi Reduções até 60%. Fantástico. Continente. Toda a frescura aos preços mais baixos. Interessante. Sport Zone. Neste Natal ofereça desporto! Imbatível. Devo dizer-lhe que fiquei com vontade de voltar a mergulhar no Tejo. AKI. Perto de si. Grandes ideias ao melhor preço, sempre presentes. Um pouco na linha do Continente, mas com opções diversas. Telepizza. Natal é quando chega o Peru. Magnífico. Para as crianças: todos os brinquedos com 50% de desconto. Uma proposta da Popota. Portanto, uma excelente propoposta. Ah, ah, ah…
- Ih, ih, ih…
- Temos ainda o E.Leclerc, já sabe onde compra mais barato, com 50% de desconto imediato na 2ª unidade. Óptima leitura dos tempos modernos. Especial atenção aos electrodomésticos e multimédia. Hiper Centro do Móvel, tenha uma grande natal com preços reduzidos. E por fim, o que é já um clássico, presentes para todos a preços nunca vistos. No Staples.
- Muito bem. Já agora, por curiosidade, leu a E. L. James?
- O primeiro ao pequeno-almoço, o segundo ao almoço, o terceiro ao jantar. Fiquei com dores no pulso. O terceiro é igual ao segundo e o segundo é igual ao primeiro. Só não consegui descobrir a que é que o primeiro é igual, embora me tenha parecido bastante familiar às saudosas aventuras da minha juventude.
- Ih, ih, ih… Muito bem, professor, vamos avançar.
- Judite, eu já avancei. Você não me apanha, eu vou todo embalado e levo um grande avanço.
- Professor, espere por mim. Esta semana o Médio Oriente tossiu.
- E eu na semana passada disse que havia um surto de gripe no Médio Oriente. E havia um surto de gripe no Médio Oriente, o que mais uma vez demonstra que eu sou excelente a diagnosticar problemas e a fazer previsões. Já agora, prevejo para a próxima semana o agravamento da tosse convulsa no conflito de Gaza.
- E por cá, professor?
- Bem, por cá, como a Judite imagina, é o regabofe. O Presidente da República foi aos Prémios Gazeta dizer umas piadas e toda a gente o levou a sério, ninguém se riu, não teve graça alguma. Falou a sério, ao dizer que os portugueses esqueceram o mar e a agricultura, que era preciso ultrapassar esses estigmas, e toda a gente desatou à gargalhada. Achavam que o Presidente da República estava a fazer uma piada.
- E que leitura faz disso, professor?
- Minha cara aluna, a leitura que eu faço é a que sempre fiz, porque eu sou magnífico a diagnosticar e a prever.
- Que leitura é?
- Tudo boas notícias, os árabes matam-se uns aos outros, os portugueses definham na miséria, o Relvas continua no Governo (outra piada). A única má notícia é que continuamos com um Presidente da República sem sentido de humor.
- Mas o professor tem um excelente sentido de humor.
- Pois tenho, pois tenho, mas eu não sou Presidente da República. Nem quero ser, nem tenho currículo para isso, e soui tão humilde, muito mais que o Marques Mendes.
- Professor, em relação à previsão do fim do mundo avançada pelo professor Medina Carreira. O que acha que podemos esperar?
- Bom, eu acho que podemos esperar boas notícias. Boas notícias, dentro do possível. O menino Jesus não nasceu entre burros e vacas, um hotel velho no Allgarve vai ser reconstruído como contrapartida da aquisição duns velhos submarinos, a Madeira vai gastar 1,2 milhões com fogo-de-artifício no ano novo, o BES é um banco amigo, Angola está aí.
- Onde, professor?
- Aí, ali, acolá, aqui. Angola está em todo o lado, Judite, é como o menino Jesus e o Pacheco Pereira.
- Professor, o caso RTP.
- Como sabe, há tempos eu já tinha dito que o caso RTP é daquele tipo que o povo diz nem o pai morre, nem a gente come a sopa. Ora, isto será bom ou mau. Depende da sopa. Se for sopa de feijão verde, é mau. Gosto. Se for sopa da pedra, é ainda pior. Gosto muito. Se for Caldo Verde, é indiferente. Não gosto nem desgosto. Se for gaspacho, é bom. Não gosto.
- Temos perguntas muito interessantes sobre a actualidade. O nosso telespectador Medina Carreira pergunta o que o professor acha da gestão de Carlos Horta e Costa nos CTT.
- Bom, Judite, como sabe Carlos Horta e Costa rima com Miguel Horta e Costa. Correios e Submarinos. Como sabe, em Portugal há uma coisa que é a presunção da inocência. Bom. Caso se prove que houve gestão danosa nos CTT, Horta e Costa não terá responsabilidade alguma. O dos submarinos. Caso se prove que houve alguma coisa de ilegal ou menos transparente no negócio dos submarinos, Horta e Costa poderá lavar as suas mãos. O dos CTT.
- Ó professor, e a sua biografia?
- Não li.
- E não está curioso?
- O que direi? Eu não queria, mas insistiram muito. Enfim… Direi só o seguinte: não cospe perdigotos.
- Notas finais, professor.
- Parabéns a este Governo e, nomeadamente, ao Primeiro-ministro Passos Coelho. São todos de tal forma alucinados que há já quem proponha que se altere a sigla PPD/PSD para PPD/LSD. Isto é um feito.

OLHOS NOS OLHOS

- Boa noite, professor…
- Olá Judite, ‘tá boa?
- Isso é uma afirmação ou uma pergunta, professor?!
- Ó Judite, interprete como quiser. A verdade é que não há solução para isso.
- Isso o quê, professor Medina Carreira?
- Isso. Com a agravante de eu o ter previsto há, pelo menos, 800 anos.
- 800 anos?
- Ah pois! Só que ninguém quis fazer caso disto.
- Disto o quê, professor?
- Judite, repare. Nós já não estamos no meio de uma catástrofe. Nós estamos sobre os destroços da catástrofe.
- Qual catástrofe, professor Medina Carreira?
- Este terramoto fiscal. Com a agravante de eu o ter previsto há, vá lá, 600 anos.
- Há-de haver uma solução…
- Pois há, é o tsunami que se segue ao terramoto.
- Um marmoto, quer o professor dizer?...
- Não, um terramoto é uma coisa. Um marmoto é outra. Mas isso não importa. O que importa é que vamos ser todos, sem excepção, arrastados na corrente, entre destroços. Uns, coitaditos, enterrados em lama até ao pescoço. Outros, nem isso. Já não têm pescoço.
- Mas ó professor Medina…
- Judite, repare, neste gráfico podemos ver as oscilações das placas tectónicas nas últimas três décadas do país. O que isto revela é que eu tenho um gráfico com as oscilações das placas tectónicas nas últimas três décadas do país.
- E?
- E?!
- Sim, professor Medina Carreira. E o que quer isso dizer?
- Não se está mesmo a ver, Judite? Se reparar bem está tudo aqui.
- Onde?
- No gráfico.
- Mas o que quer dizer esse gráfico em concreto.
- Bem, vamos pôr as coisas nestes termos. Isto quer dizer que depois do terramoto teremos um tsunami.
- O que é que o professor propõe para resolvermos esse... tsunami?
- Eu não proponho nada, Judite. Eu disse tudo e ninguém me quis dar ouvidos. Agora aguentem-se.
- Mas o professor também vai ter que se aguentar, também será arrastado na corrente.
- Eu já não interesso, estou velho. E sei nadar. O pior será para os vindouros.
- O que é que pode ser feito por eles?
- Judite, repare, nada pode ser feito. O que eu sei é que por este caminho vai cair um meteorito sobre todos nós.
- Mas isso seria o fim do planeta.
- Não propriamente.
- Pior que isso não há, professor.
- A Judite não está a ver bem. O planeta vai desintegrar-se, como um pedregulho desfeito em pequenos calhaus espalhados pela estratosfera.
- Pode ser?
- Ah não tenha dúvidas. E os calhaus vão desfazer-se em pó.
- É o fim, professor. É o fim.
- Não, Judite. O Homem da Lua vai limpar a poeira com o seu aspirador cosmogónico, vai meter-nos a todos dentro de um saco e depois vai enterrar-nos num buraco na Lua para poder mijar em cima do buraco e rir-se de todo este circo.
- O professor acredita no Homem da Lua.
- Judite, você não acredita em mim?

domingo, 25 de novembro de 2012

OS TURISTAS



Estes são os turistas e vêm da Grécia
para me ver.
Não sabem que estou extinto
há um milhão de anos
e que me transplantei no vértice de uma
estrela perdida no futuro
luzindo à nossa imagem.
Eis os turistas, com suas rodas de fogo,
como eles chegam afoitos
e estacam diante das pedras
desta cidade que apodrece junto ao rio
porque não sabe distinta forma de amar.
São os turistas,
eles limpam as unhas às gaivotas
e comem pasta de atum
enquanto apertam as sandálias,
e olham para mim,
e levantam-se com o saco a tiracolo e
empunham o arpão
e perguntam se eu sou Herodes e eu
respondo-lhes que não,
nem Platão,
nem o seu vizinho acidental que
dominou a Lídia,
nem o cavalo que decidiu morrer para
ocultar a fuga do Mestre rumo a estâncias
balneares que não devem ser menosprezadas,
mas que posso carregar, sim,
no botão da máquina fotográfica,
e eu caminho os passos necessários e
diante dos séculos que o universo
não contempla
decepo-lhes a cabeça - e volto
para junto de mim
enquanto elas começam a escovar
o cabelo das gaivotas
e entrando num tubo que César
construiu caminham às cegas
para bem longe
da cidade que apodrece junto ao rio.


Rui Costa, in Piolho 010 [Revista de Poesia], Edições Mortas / Black Sun Editores, Setembro de 2012, p. 35.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

a mesma cantiga de sempre

a mesma cantiga de sempre (Lua de Marfim, Março de 2012) é o segundo livro de poemas de Pedro Afonso (n. 1979), publicado quatro anos após a estreia em livro próprio com ainda aqui este lugar (4 Águas, 2008). Trata-se de uma colecção de poemas organizada em quatro conjuntos distintos: a mesma cantiga de sempre, um braço suicida o outro assassino, corpo onde caber e travessia das mãos. Apenas os poemas do primeiro conjunto têm título, o que lhes confere uma autonomia face aos restantes explicada por vários deles terem integrado a antologia Algarve – 12 Poetas a Sul do Séc. XXI (Livros Capital, 2012). São poemas onde a região de onde o poeta é originário aparece reflectida num tom crítico, embora nunca de uma forma explícita. De resto, se há marca que define a poesia de Pedro Afonso é, precisamente, a de nela nada ser explícito. Um aspecto curioso neste conjunto é o de nele se subentender uma espécie de fatalismo ontológico, uma inevitabilidade identitária condenada à desesperança: «podes até ser nómada / mas condenaram-te a ti um dia» (p. 12). Este aspecto legitima alguma desconfiança relativamente à relação mantida entre o sujeito poético e o espaço geográfico onde exerce a sua actividade, algo que se torna menos confuso no poema que oferece o título ao conjunto: «onde vamos senão a lado nenhum / agora que ultrapassámos o porvir / avelámos a própria velocidade da luz // na mesma direcção de sempre até ao cais / a mesma colecta / apurada / pela lâmina dos dias / que nos coça os bolsos rotos da pele caduca // e o carro ou o autocarro / o comboio ou // o barco que partirá num fim de tarde escuro / e os bilhetes que serão sempre os mesmos» (p. 15). A multiplicidade de sentidos que o poema admite não esconde o desespero face à monotonia quotidiana, sobre ele paira a nuvem de uma deslocação impossível. Como é óbvio, esta deslocação pode ser interpretada em vários contextos. Agrada-me particularmente a ideia de uma deslocação interna, pessoal, íntima, a impossibilidade de sairmos de nós próprios por a nós próprios estarmos condenados, e de essa condenação resultar de uma série de condicionantes (biológicas, culturais, geográficas) que se intersectam em diferentes momentos da vida. Esta “impossibilidade” como que dificulta a comunicação, oferecendo à poesia o seu papel conciliador. Ou seja, o poema apresenta-se como o lugar onde os impedimentos se ultrapassam e a incomunicabilidade do ser se resolve mediante uma linguagem libertadora. Neste sentido, a poesia de Pedro Afonso surge na esteira do grande poeta algarvio António Ramos Rosa. Há um poema onde tudo isto ganha uma forma extraordinária, por nele lograr o poeta um equilíbrio raro entre o que os olhos vêem, o coração sente e a cabeça pensa:

urbanismo

ainda há cães que ladram a noite fora
de dentro de casas com pequenos quintais
onde alguém conseguiu pôr uma cadeira atravessada
uma mesa

conheço um sítio onde uma senhora rega
uma planta na rua
e outro onde não se estaciona no passeio
tenho um amigo que não tranca a porta de casa

janelas sem persianas
tocando a rua onde velhas
espreitam  os carros a tarde inteira
respirando o reflexo de seu bafo nos vidros
são vasos

casinhas térreas entre prédios
abandonadas pelo tempo
com cadáveres lá dentro
fedendo ao tiro que lhes deram nas costas

Repare-se como a enumeração de elementos paisagísticos excepcionais serve para reforçar a degradação do panorama geral, num remate que não enjeita o exterior sem deixar claro que tudo se passa dentro. Nos poemas dos três conjuntos subsequentes, a poesia de Pedro Afonso resvala para territórios mais líricos. Por vezes aparenta uma ausência de sentido, tal é a encruzilhada de sentidos que se interpõem; noutras ocasiões, uma sintaxe rudimentar leva-nos a pensar numa musicalidade cuja principal característica é a oposição à melodia; a maior parte das vezes, esta apresenta-se-nos como uma poesia complexa sem complexidade. Quero com isto dizer que seria supérfluo debitar texto sobre versos tais como «penteio o tempo com o marfim dos dedos» (p. 31) ou «uma ácida cúpula distante / sobrepõe-se-nos / e dos astros corroídos sugamos / no desapego da dor / a alegria doce de cabelos» (p. 45) ou ainda «a mão quando esgravata o ruído / arqueando os ossos cunhando a carne / e cega coça um pouco do silêncio» (p. 56), só para dar alguns exemplos. São versos inchados de imagens e de metáforas, mais ou menos (in)felizes, que tornam inútil o esforço de interpretá-los, sendo talvez preferível predispormo-nos a tão-somente ouvi-los.

UM NOME

 
 
 
Adenda: vale a pena ver isto, do princípio ao fim.