domingo, 14 de outubro de 2012

MORTE DE UMA ESTAÇÃO

Está um dia perfeito de Outono. Céu bastante nublado, temperatura suportavelmente baixa, chuva miudinha. Avistam-se queimadas ao longe, o cheiro das lareiras já anda no ar e a terra atapeta-se de folhas secas. Um dia à medida de Antonia Pozzi, poetisa milanesa de malogrados outonos. Nascida em 1912 no seio de uma família burguesa, acabou por se suicidar, com apenas 26 anos, ingerindo uma quantidade fatal de barbitúricos. A sua poesia ficou praticamente inédita durante variadíssimos anos, sendo manipulada pelo pai como em vida terá sido a própria poeta. Ainda hoje se mantém uma desconfiança crítica perante a obra de Antonia Pozzi que a remete para uma certa marginalidade no contexto da poesia italiana. Morte de Uma Estação (Averno, Fevereiro de 2012), colige alguns poemas, com tradução de Inês Dias, prefácio de José Carlos Soares e posfácio de Matteo M. Vecchio. É precisamente no posfácio que encontramos uma síntese da controvérsia crítica que tem rodeado esta poesia, devendo ter-se em conta que as primeiras edições dos poemas de Antonia sofreram intervenções paternas que, em certa medida, deturparam o terreno existencial que deu azo aos versos. Refere Matteo M. Vecchio que «a vida de Pozzi põe-se exemplarmente no centro de problemáticas existenciais (…) como o dissídio Geist/Leben», assumindo a obra, «neste sentido, tonalidades – mas não se reduzindo a elas – testemunhais» (pp. 155-157). Erigida num clima existencial conflituoso, o corpo poético de Antonia Pozzi reflecte esse duelo permanente, e irresolúvel, entre as origens burguesas e a consciência social, entre a vida espiritual e as exigências da vida material. Acrescentem-se a estes antagonismos alguns factos biográficos e mais facilmente entenderemos a vertigem que se esconde por detrás da poesia de Antonia Pozzi. No prefácio, José Carlos Barros recorda um avô depressivo e uma tia que também se suicidaram, uma paixão precoce por um professor (ferozmente reprimida pelo pai da autora) e a importância decisiva do ambiente cultural vivido na Regia Università di Milano, nomeadamente em torno de Antonio Banfi, que aí leccionava Estética e História da Filosofia. A influência de Banfi sobre os seus alunos terá sido decisiva na vida de muitos, alguns dos quais se juntaram em publicações colectivas de cunho filosófico. No entanto, a filosofia de Antonia Pozzi assumia a forma vertical dos poemas. Foi na poesia que ela encontrou o melhor método para a expressão das suas reflexões, permitindo que para os poemas confluíssem sentimentos, estados de alma, conceitos e premissas filosóficas num só corpo onde a estética e a ética se uniam. José Carlos Soares refere que «há uma continuada luta em Antonia, um esforço de superação dos limites, na sua visada conquista de autenticidade: a elevada condição social a que pertence e lhe dá má consciência no confronto com a miséria dos bairros periféricos que visita e onde presta trabalho solidário; a opressão política do regime fascista; a distância dos seus amigos intelectuais perante a sua poesia que tomam como exercício de catarse e pouco mais» (pp. 18-19). Se é verdade que em muitos momentos encontramos nestes poemas vestígios de uma necessidade catártica, menos verdade não será que eles reflectem, também mas não só nesses vestígios, uma consciente intensificação do sentido último da vida. Daí que, muitas vezes, o que nos parece um retrato naturalista (Pôr do Sol Inquieto, Ameaças de Temporal, Regresso ao Crepúsculo, As Flores, etc.), se revele uma expressão profunda de um estado existencial com ligações directas quer à experiência do mundo, quer à reflexão que essa experiência do mundo exige:


PAUSA


Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.

Recorrendo amiúde a estas comparações entre estados de alma subjectivos e os exemplos da natureza, Antonia Pozzi logra estabelecer uma relação que lhe permite compreender, na sua essência, a inquietação, o desalento ou o desassossego que o mundo imprime no ser. Não são meras projecções sentimentais, são reflexos de uma consciência profunda desse domínio do tempo sobre as coisas (evidente em poemas como Novembro, Tempo, Precoce Outono ou Morte de Uma Estação) e do fim último que a tudo se reserva: a morte. É por isso que uma leitura superficial destes poemas pode induzir em erro aquele que neles leia apenas a expressão sentimental de um sujeito problemático, deixando na penumbra a revelação de um problema para o qual não se vislumbra solução por ser esse problema solução e sentido de si próprio:

CANTO DA MINHA NUDEZ


Olha para mim: estou nua. Da inquieta
languidez da minha cabeleira
até à tensão fina do meu pé,
sou toda de uma magreza amarga
envolta numa cor de marfim.
Olha: como é pálida a minha carne.
Dir-se-ia que o sangue não a percorre.
O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida
pulsação azul se esbate no meio do peito.
Vê como tenho o ventre côncavo. Incerta
é a curva das ancas, mas os joelhos
e os tornozelos e todas as articulações
são escanzelados e duros como os de um puro-sangue.
Hoje, deito-me nua, na limpidez
da banheira branca e deitar-me-ei nua
amanhã sobre um leito, se alguém
me quiser. E um dia nua, só,
estendida de costas sob demasiada terra,
hei-de estar, quando a morte me tiver chamado.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

DO JORNAL TOPEKA WEEKLY DAILY, 1869

Lagos, Faro. 2012.

Os índios Sioux são os PATIFES mais miseráveis, sujos, piolhosos, ladrões, mentirosos, cínicos, cruéis e sem-vergonha que o Senhor permitiu que contaminassem a terra e todos os HOMENS, excepto os agentes para os assuntos índios e os comerciantes, deviam rezar pelo seu extermínio imediato e definitivo.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: citado por Bruce Chatwin.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #68


Jason Swinscoe é o homem por detrás da câmara, mestre da manipulação e do ilusionismo sonoros. É verdade que The Cinematic Orchestra não se restringe a um homem só, mas a este estudante de artes devemos a iniciativa de toda uma nova banda sonora para velhas imagens. Motion (1999), o primeiro álbum, não permitia grandes dispersões, ao atirar-nos para dentro de uma Night Of The Iguana com pista jazzística sobre a qual dançavam vários elementos electrónicos em atraente fusão. A música desta orquestra nada fica a dever ao jazz mais conservador, indo buscar ao saxofone soprano de Tom Chant ou à trompete de Jamie Coleman raízes que a espontaneidade e o instinto se encarregam de ligar. Mas há aqui um sentido estético, apoiado na arte da colagem, que desvia a The Cinematic Orchestra para terrenos da música electrónica. A ideia é improvisar sobre linhas melódicas e rítmicas repetitivas, temperando a orgia com samplers de vozes e linhas musicais breves facilmente identificáveis por quem aprecie a música de dança da primeira metade do século XX. Como é costume ouvir-se por aí, é música com groove, ou seja, embala-nos e contagia-nos na sua cadência e com as suas oscilações. Quem escutar, perceberá o que pretendo dizer ao passar do jogo melódico atractivo de Channel 1 Suite para o delírio rítmico de BlueBirds. Cenas diversas de um mesmo filme, onde por vezes o coração se apaixona para logo depois se enraivecer. Música para espíritos temperamentais, como nos melhores filmes.

ESCRITO EN «ANAHUAC» (TALITAS)

Torel, Lisboa. 2012.

Verde esencialmente reconcentrado en mis ojos que pintan la hieba que luego echa flores en la memoria de los animales.

Abrazada a la tierra. Tierra o madre o muerte, no me abandones aun si yo me he abandonado.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Alejandra Pizarnik.

domingo, 7 de outubro de 2012

AS MINHAS LEMBRANÇAS OBSERVAM-ME

Passado um ano sobre a consagração com um tardio Prémio Nobel de Literatura, Tomas Tranströmer (n. 1931) chega finalmente às livrarias portuguesas. A Sextante edita-lhe o único livro em prosa que se lhe conhece: As minhas lembranças observam-me (Setembro de 2012), aqui acrescentado por uma dezena de primeiros poemas e por um posfácio saído da pena de Pedro Mexia, enquanto a Relógio d’Agua deita a mão a 50 Poemas (Julho de 2012) com tradução de Alexandre Pastor. Vamos ao primeiro. Escrito quando o autor contava sessenta anos, percorre os tempos da primeira infância até à juventude. Organizado em breves capítulos temáticos, pode ser lido como um livro de memórias (ou lembranças) onde mais do que reconstruir o passado se procura perceber o que terá havido nesse passado a contribuir decisivamente para aquilo em que o autor se tornou: poeta. As lembranças de Tranströmer estão, por isso, expurgadas de quaisquer aspectos superficiais, não deixando de parecer desinteressantes a quem busque nelas tudo o que elas resolvem omitir. Não há aqui grandes factos nem grandes feitos, nenhuma maldade confessada nem gestos terríveis, há uma ausência de êxtase que coloca o texto numa dimensão deveras paradoxal: buscando o essencial, revela-se banal. Isto percebe-se logo no primeiro texto: «A minha recordação datável mais antiga é a recordação de um sentimento. Um sentimento de orgulho. Fiz três anos, e disseram-me que isso era muito importante, que agora eu era grande. Estou deitado na cama, num quarto luminoso, e levanto-me, desço da cama, extraordinariamente consciente de que estou a ficar crescido. Tenho uma boneca a que pus o nome mais bonito que consegui inventar: KARIN SPINNA. Não a trato de uma forma maternal. Ela é uma amiguinha, ou uma paixão» (pp. 11-12). O que há de revelador nesta primeira recordação? Provavelmente nada, a não ser tratar-se da primeira recordação datável. A matéria da memória tem esta plasticidade, quanto mais lhe mexemos mais a deformamos e, desse modo, a adulteramos, tornando o passado mais numa construção abstracta do que num repositório de factos impossíveis de reconstruir. As aproximações tendem a deturpar a verdade se não formos cuidadosos, se não mantivermos aquela distância de nós próprios que se impõe sempre que procuramos autoavaliar-nos. A forma como o poeta descreve o ambiente familiar, marcado desde cedo pela separação dos pais e pelo proteccionismo materno, recordando pequenos episódios domésticos mais ou menos violentos (uma briga entre vizinhos ou o ter-se perdido nas ruas de Estocolmo), denota um ambiente onde não se empolam dramas e se ocultam tragédias por debaixo de uma capa de naturalidade alicerçada na norma e numa aparente ausência de emoções. Ora, quem leia com atenção estes textos, apercebe-se de que o poeta surgiu, precisamente, de uma espécie de reacção a este ambiente, primeiro através do fascínio provocado pelas figuras gigantescas do Museu de História Natural, a penetração nos grandes mistérios da natureza, depois a própria condição, anormal à época, de filho de pais divorciados, a consciência da diferença apontada quer por adultos, quer por colegas da escola, a inclinação para paisagens geográficas distantes, nomeadamente as de África, encontradas nos livros da biblioteca do centro cívico… São estas lembranças que nos levam aos primeiros anos do liceu Södra Latin, onde Tranströmer se iniciará na escrita de versos. Mas ainda antes disso ter acontecido, a angústia dos quinze anos materializada naquilo a que talvez chamássemos hoje uma crise de pânico: «A dimensão mais importante da existência era a Doença. O mundo era um imenso hospital. Via diante de mim pessoas de corpo e alma desfigurados. O candeeiro aceso esforçava-se por afastar os seus rostos pavorosos, mas às vezes eu dormitava, as pálpebras caíam, e aquelas faces medonhas tomavam-me de assalto» (p. 66). A sensibilidade que aqui emerge é uma sensibilidade acossada pelo medo, já anteriormente sugerida noutras experiências, embora nenhuma delas com a ênfase que o poeta coloca neste episódio em particular. É precisamente o último episódio antes da iniciação na escrita de poesia modernista, em contraposição às formas rígidas da poesia clássica. Uma escrita que surge, também, da experiência reveladora que a tradução proporciona: «Esta alternância entre o medíocre e trivial e o vigoroso e sublime ensinou-me muito. Era a condição da poesia. Era a condição da vida» (p. 74). No fundo, é esta condição o que mais se evidencia nestas pequenas lembranças e nos primeiros poemas coligidos neste agradável volume.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

MORTE LENTA




“Devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender”, ilustrou, considerando que só com “persistência”, “exigência” e “intransigência” o país terá “credibilidade”.



Questionado sobre se aconselharia os “professores excedentários que temos” a “abandonarem a sua zona de conforto e a “procurarem emprego noutro sítio”, Passos Coelho respondeu: “Em Angola e não só. O Brasil tem também uma grande necessidade ao nível do ensino básico e secundário”, disse durante uma entrevista com o Correio da Manhã, que foi publicada hoje.


"Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal", declarou ainda Pedro Passos Coelho, durante o jantar do grupo parlamentar do PSD para assinalar o fim desta sessão legislativa, na Assembleia da República.



Na homenagem a Adriano Moreira, Passos Coelho citou a estrofe 66 do Canto V da Epopeia Portuguesa, de Luís Vaz de Camões, a terminar a sua intervenção. "Camões fala-nos aqui de uma corrente que nos arrasta para trás e que é mais poderosa do que os ventos que nos impelem para a frente. Mas hoje em Portugal, se é certo que não podemos subestimar a corrente em que o navio português foi posto - até porque estamos todos os dias a sentir dolorosamente a sua força -, também temos de reconhecer que há ventos favoráveis a soprar nas nossas velas", defendeu. "E serão ventos mais favoráveis quanto mais firmes, quanto mais hasteadas, quanto mais resistentes forem as nossas velas: as velas da nossa economia, das nossas leis, das nossas instituições; mas também da nossa vontade e da nossa determinação", concluiu.


DE PERNAS PARA O AR


Camarada Van Zeller, hoje dirijo-me a si enquanto pai: você é completamente ignorante, não passaria no primeiro ano do meu curso e duvido que passasse no primeiro ano do curso do Relvas. Portugal deixou de ser uma república das bananas para se transformar numa república dos pentelhos, enquanto o Presidente hasteia a bandeira de pernas para o ar e o Pedro vai de scooter para Bratislava comemorar o que só ele sabe. Talvez tenha ido encontrar-se, secretamente, com o Catroga, um desaparecido em combate que se fartou de trabalhar para levar ao poder os alunos do António Borges. Já ninguém se ouve, já ninguém se escuta, e eu falo-lhe, camarada, enquanto pai. No Pátio da Galé, uma cidadã ainda tentou fazer-se ouvir. Sem efeito. Os seguranças do governo-pentelheira encarregaram-se de catar mais este chato elemento do melhor povo do mundo. É de facto uma chatice não poder comemorar em silêncio as porras da república, encher a boca de bolo-rei, mastigar a saliva e poder passar a noite na Quinta da Coelha ao som do vento e do mar. Não faço declarações, não tenho nada a declarar, não sei, não digo. Que saudades desses tempos. Agora, há sempre um chato por perto, um chato dispendioso a contribuir para a saúde financeira das agências de segurança. Bem-vindos ao país do “não me filmas a cara, pá”, esse onde o melhor povo do mundo até pode ser o melhor activo de Portugal mas não deixa de ser também um irritante empecilho às experiências do professor Gaspar. Daí que lhe sugiram a emigração, ao povo, enquanto Portas se fecha à coligação pela frente mas abre-se à coligação pelas traseiras. Desenganem-se, ó cigarras, nós não debandamos para França, Suíça ou Brasil em busca de futuro, debandamos porque ficámos convencidos de que esses países precisam do melhor povo do mundo, um povo de cigarras, enquanto por cá o Miguel Macedo se vai metamorfoseando num híbrido metade formiga outra metade barata. Um dia, olharemos para o presente e espantar-nos-emos com isto. Não estamos a viver uma anedota, é mesmo esta a nossa realidade caríssimos concidadãos.  E pior que isto eu não me recordo de alguma vez ter havido.

 

 

P.S.: reparai na imagem, é tudo de tal modo revelador que parece ter sido encenado. Custa acreditar na realidade quando a olhamos assim, com tanta clarividência. Um Presidente da República hasteia a bandeira do seu país, rodeado dos notáveis da nação, que com cara de parvos olham para uma bandeira do avesso. Na legenda, as comemorações do 5 de Outubro são acompanhadas das notícias que mais interessam ao melhor povo do mundo: Tottenham e Panathinaikos empatam a 1 Golo na Liga Europa. Isto é tão Portugal a entrar-nos pelos olhos adentro que apetece fechar os olhos e dormir uma eternidade.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O ESPÍRITO DOS TEMPOS

Fábrica de Braço de Prata, Lisboa, 2012.


Há muito tempo já me reinas sobre a fronte
Na tua nuvem 'scura, Deus dos Tempos!
Selvático e horrível por demais é tudo em volta,
Tudo vacila e rui para onde quer que eu olhe.

Ai! como um menino lanço a vista ao chão
E na caverna busco livrar-me de ti, desejaria,
Pobre louco, achar um sítio,
Ó Deus que tudo abalas, onde tu não estejas.

Que eu finalmente, ó Pai! te possa olhar
De olhos abertos! Não foste tu que primeiro
Com teu raio me despertaste o espírito?
Que à vida me trouxeste magnífico, ó Pai?! -

Certo é que de vides novas nos vem força sagrada:
Em ar suave vem à busca dos mortais,
Quando eles vagueiam tranquilos pelo bosque,
Um deus, animador; mais poderoso, tu,

Contudo, despertas a alma pura dos jovens
E ensinas aos velhos artes sábias; só o mau
Se faz pior, para acabar mais breve,
Quando tu, Tremendo! o tocas.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Hölderlin.

A TERCEIRA MISÉRIA

Ainda antes do índice, Hélia Correia confessa a sua dívida para com, entre outras, as obras de Hölderlin, Nietzsche e Lord Byron. Tínhamos percebido a importância das mesmas na construção do poema A Terceira Miséria (Relógio d’Água, Fevereiro de 2012) - sequência em trinta e três breves estrofes, onde a voz daqueles poetas ecoa como uma espécie de fonte na qual a autora de Adoecer colheu a água para regar os versos. «Para quê, perguntou ele, para que servem / Os poetas em tempo de indigência?» (p. 7) Com esta dúvida, encontrada numa das mais belas elegias de Hölderlin, O Pão e o Vinho«Entretanto às vezes melhor parece / Dormir do que viver assim sem companheiros, ter / De esperar assim; e o que fazer e dizer entretanto / Não sei; e para quê Poetas em tempos de indigência?» (Hölderlin, Poemas, trad. Paulo Quintela, Relógio d’Água, 1991) —, inicia Hélia Correria uma reflexão poética onde a inquietação sobre o lugar e a função da própria poesia está sempre presente. Os tempos de indigência a que Hölderlin aludia eram, certamente, diferentes deste nosso tempo, embora a indigência permaneça e faça o seu caminho sobre um manto de ruínas. A ruína sobre a qual surgiu o romantismo alemão foi a de uma Grécia perdida, a Grécia porventura mitológica de uma relação com o sagrado desfeita pela espada do monoteísmo. Ouvi há pouco alguém comentar “Deus nos salve da anarquia” e não pude deixar de pensar, depois de ouvir o comentário e embalado por este livro, que nos salve antes a anarquia de Deus. Há, pois, uma indigência latente no nosso tempo que é em tudo idêntica à pressentida pelos idealistas e românticos alemães, a mesma que Novalis denunciava num texto essencial intitulado A Cristandade ou a Europa. A nostalgia de um sentimento religioso, alimentado pelo espanto e independente de visões literais do sagrado, está muito mais próxima da anarquia do que desse “valha-nos Deus” apregoado sem sentido nem substância. A ter que valer a todos, Deus não vale a ninguém. Fica arrumado numa caixinha de conceitos, acessíveis a meia dúzia de iluminados que sobre os néscios exercerão o seu poder. Ora, o sentimento que naquele tempo inspirou, digamos assim, os poetas alemães, assemelha-se, de facto, ao sentimento que agora inspira esta poeta portuguesa: «Nós, os ateus, nós, os monoteístas, / Nós, os que reduzimos a beleza / A pequenas tarefas, nós, os pobres / Adornados, os pobres confortáveis, / Os que a si mesmos se vigarizavam / Olhando para cima, para as torres, / Supondo que as podiam habitar, / Glória das águias que nem águias tem, / Sofremos, sim, de idêntica indigência, / Da ruína da Grécia» (p. 13). Esta ruína, tão espiritual quão material, acaba por ser simbólica de uma ruína civilizacional, porque estava ali, recordemos, o berço da democracia, a mesma democracia hoje arrasada pela ordem económica e financeira que tudo determina na vida das populações. Se Nietzsche matou o Deus subjugador do Vaticano, não foi para nos libertar do sagrado tanto quanto terá sido para nos libertar dos nossos próprios medos. Sendo inerente ao próprio homem, sendo humano, demasiado humano, o sentido do sagrado é a força que, pela fé, liberta o escravo do senhor, indica os caminhos múltiplos e diversos da espiritualidade afastando-nos de um materialismo ganancioso e assoberbado, vírus infalível de uma desumanização do mundo evidenciada pelos trilhos do consumismo. «Sim, foi essa / A primeira miséria, a deserção / Dos deuses. A segunda, a sua morte, / Já na morte de Pã anunciada / Pelo lamento dos bosques, o clamor / Lutuoso das ilhas do Egeu» (p. 24). Apartados dos deuses, alienados do sagrado, eis-nos então chegados à terceira das nossas misérias, «A miséria da interpretação / Que tudo trai» (p. 26): «A terceira miséria é esta, a de hoje. / A de quem já não ouve nem pergunta. / A de quem não recorda. E, ao contrário / Do orgulhoso Péricles, se torna / Num entre os mais, num entre os que se entregam, / Nos que vão misturar-se como um líquido / Num líquido maior, perdida a forma, / Desfeita em pó a estátua» (p. 29). É a miséria das multidões contra o primado do indivíduo, não do individualismo, mas da pessoa única e singular entre os demais que também são; é a miséria de um povo transformado em consumível, usurpado da sua dignidade humana, ou seja, dessa mesma dignidade fundada na relação com aquilo que se perdeu e hoje é ruína: o sagrado. Chamemos-lhe deuses ou natureza, chamemos-lhes Apolo ou Árvore, foi deles que nos tornámos órfãos tornando-nos, desse modo, tão insignificantes como hoje é o poema. Por isso voltamos a perguntar, como há duzentos anos,  para que servem os poetas em tempos de indigência?

CUPCAKE EM FORMA DE CORAÇÃO

O maior problema do humorista é quando ele próprio se transforma numa anedota. Veja-se o caso de Herman José, um tipo que nos fazia rir quando se limitava a ser humorista e começou a causar-nos asco quando se transformou numa piada de si próprio. Vi-o recentemente num vídeo a comentar a actualidade e o suicídio de Dimitri Christoulas, o reformado grego que não quis deixar dívidas aos filhos e se matou a poucos metros do Parlamento grego. Herman desvalorizou o gesto, insinuando que provavelmente se tratava de um homem que estava a tentar pagar uma casa na ilha de Santorini e que se calhar ia a meio do pagamento de uma carrinha nova que tinha oferecido ao neto e que se calhar estava cheio de dívidas que não conseguia suportar… Ou seja, Herman avaliou o gesto daquele homem tomando como padrão a sua própria vida. E foi acrescentando uma série de asneiras sobre empreendedorismo, naquele discurso vazio de “arregaça as mangas e vai trabalhar”. A gente olha para o percurso de Herman José e não se espanta que ele pense assim. No entanto, também eu por vezes não escapo a uma avaliação do mundo em função da minha própria realidade ou daquela que me é mais próxima. Penso, por exemplo, na mais crescida das minhas irmãs. Herman nasceu e cresceu em Lisboa, a minha irmã nasceu e cresceu numa aldeia isolada; com quatro anos de idade, Herman protagonizava os filmes do pai; com quatro anos de idade, a minha irmã aguardava o telefonema do pai colocado em Moçambique na guerra do ultramar; aos cinco anos, Herman entrou para a Escola Alemã de Lisboa; a minha irmã entrou para a escola pública lá da aldeia; Herman teve resultados pouco lineares, a minha irmã foi sempre excelente aluna; Herman ainda estudava quando comprou a sua primeira viola-baixo, a minha irmã ainda estudava quando começou a trabalhar para que fosse possível aos meus pais sustentarem-lhe os estudos; Herman conheceu a vida artística através da música, a minha irmã conheceu a austeridade através de uma vida de privações; quando se colocou a hipótese do serviço militar, Herman optou pela nacionalidade alemã e preparou-se para zarpar. O serviço militar da minha irmã foi outro, na Universidade de Lisboa a estudar e a trabalhar, contando os tostões, para conseguir levar até ao fim a formação ambicionada. Ao contrário de Herman, a maioria dos portugueses não tinha/não tem como fugir à realidade do país. E é isto que ele nunca entenderá, porque custa admitir que as circunstâncias também fazem os homens. Basta ler um manual de sociologia do 12º ano para o entender. Não importa prosseguir nestas vidas comparadas, importa apenas entender algo tão simples como isto: quando nascemos, não nascemos com as mesmas oportunidades. Uma sociedade mais justa é aquela que proporciona a todos, pelo menos, oportunidades, não condenando os desfavorecidos a uma existência ou miserável ou limitada ou permanentemente desfavorável. Não se trata apenas, pois, de arregaçar as mangas e ir trabalhar, fazendo cupcakes em forma de coração ou escrevendo piadas. Trata-se de gerar condições para que o fruto do trabalho de cada um seja devidamente valorizado, exactamente o contrário do que hoje se passa.

ACABOU-SE A IMPUNIDADE

 
Camarada Van Zeller, ponha-se a pau. Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz entrou ao serviço. Esperemos que não venha tarde. Com ela, acabou-se a impunidade. Se apenas agora acabou é porque até aqui a tínhamos tido. Antes dela, todos os ministros foram cúmplices das vigarices do sistema. Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz é a primeira Ministra da Justiça a admiti-lo, com ela tudo será diferente. Investigue-se. Hosanna!

 
É desta que a Operação Furacão vai arrasar com o sistema. Cavaco terá reforma antecipada e passará os seus últimos dias na Quinta da Coelha, embalado pela Cabrita. Com Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz ninguém estará acima da lei. O ex da ministra, que passou à situação de reforma em função de relatório de junta médica (entenda-se: compensações - 1,9625 milhões de euros; remunerações variáveis - 7,770 milhões de euros; pensão vitalícia - 37,5 mil euros mensais durante catorze meses por ano) e acabou, apesar de inapto, ao lado de Celeste Cardona e Eduardo Catroga, no conselho geral e de supervisão da EDP a discutir pentelhos, que se cuide.


É o fim da macacada. Finalmente veremos investigado e apurado o surpreendente enriquecimento de dezenas de políticos que passaram pelos governos nas últimas décadas. Uns a pescar robalos, outros a vender fruta, todos a encher o saco.  Com Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz a impunidade acabou e tudo será investigado até ao ínfimo pormenor. Isto apesar de Cândida Almeida garantir que os políticos portugueses não são corruptos. Talvez seja a justiça. Comece, desde já, a investigar-se a Directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal. Força Paula, estamos contigo.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

NÃO ME FILMAS A CARA


Este vídeo é um sintoma do que teremos sempre que um membro deste Governo sair à rua. Cidadãos livres detidos para identificação, seguranças impedindo os jornalistas de filmar. Estamos a um passo de ver a Maria Teresa Horta com buscas domiciliárias por ter recusado um prémio das mãos do Primeiro. Não deixa de ser irónico, o Primeiro-ministro sentir-se inseguro perante os portugueses. É como o ladrão sentir-se inseguro perante a vítima.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

CIGARRAS, FORMIGAS, BARATAS


Ninguém percebeu Miguel Macedo, o ministro que renunciou a um subsídio de alojamento previsto na lei como previstas na lei estão todas as regalias das cigarras. É óbvio que ao falar de um país com muitas cigarras e poucas formigas, o ministro referia-se aos deputados do PSD, ainda há não muito apontados como dos mais faltosos no Parlamento. Ninguém o entendeu  porque este é um país de baratas tontas, e o ministro Macedo mais que os outros.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

QUANTOS DE NÓS PODERIAM SUPORTAR QUE OS SEUS DEVANEIOS FOSSEM AUTOMATICAMENTE REGISTADOS E APRESENTADOS COMO NUMA TELA À SUA FRENTE?


Fábrica de Braço de Prata, Lisboa. 2012.



Ficamos chocados quando descobrimos que os grandes homens eram fracos e mesquinhos, desonestos ou egoístas, sexualmente viciosos, fúteis ou desbragados; e muitos julgam incorrecto revelar ao público as falhas dos seus heróis. Não há muito por onde escolher entre os homens. São todos uma mistura de grandeza e pequenez, de virtude e vício, de nobreza e baixeza. Alguns têm mais força de carácter, ou mais oportunidades, e assim, numa direcção ou noutra, libertam os seus instintos, mas potencialmente são a mesma coisa. Quanto a mim, não creio que seja melhor ou pior que a maioria das pessoas, mas sei que, se confessasse cada acção da minha vida e cada pensamento que me atravessou o espírito, o Mundo me julgaria um monstro de depravação.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: W. Somerset Maugham

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #67





Em meados da década de 1990, Baby Bird, alter-ego de Stephen Jones, foi capa de revista por causa de centenas de canções despejadas, a um ritmo avassalador, para um rudimentar gravador de quatro pistas. É verdade que quando a prolixidade aterrou num estúdio de múltiplas vias, a veia secou e deixou de entusiasmar. Mas até lá, pelo menos uma colecção de canções ficou entre o que de melhor se registou naqueles tempos: Fatherhood (1995). Trago-o à liça por me agradar sobremaneira a capa, reveladora de um espírito iconoclasta que perpassa nas canções gravadas. De resto, as capas de Baby Bird foram sempre do melhor que se viu na pop britânica do final do século XX. Escondem melodias simples e epidémicas, embora por vezes desçam aos subúrbios de uma pop menos acolhedora. Ouça-se, a título de exemplo, Cool & Crazy Things To Do, Bad Blood ou, já agora, o tema Copper Feel, do CD The Happiest Man Alive. O facto de terem sido rejeitados em várias companhias discográficas, optando o autor, posteriormente, por uma difusão limitada e independente, garantiu-lhes culto. Isto não deve desviar-nos do essencial, o valor inegável, espontâneo e auto-suficiente das composições. Socorrendo-se de uma caixa de ritmos e de uma guitarra, por vezes distorcida, outras vezes límpida, aumentando ou diminuindo o volume de efeitos baratos, respigando samplers que semeia pelas canções como uma espécie de fertilizante caseiro, Jones logrou uma dicção melódica que estava determinada em acrescentar qualquer coisa à tradição pop britânica. Talvez um pouco dessa melancolia que faz rebentar margaridas de ironia na sombra de um homem só. Tudo o que perece quando em torno da solidão começam a crescer daninhas e perniciosas companhias.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

JOSÉ & FLORENCE

No decorrer da estadia madrilena, José Moreno Villa (1887-1955) permaneceu na Residencia de Estudiantes enquanto director da Biblioteca da Faculdade de Farmácia. Foi aí que se tornou numa espécie de tutor de jovens vanguardistas tais como Luis Buñuel, García Lorca ou Salvador Dalí. Em 1927, quando era director da revista Arquitectura e colaborador do El Sol, conheceu e apaixonou-se por uma jovem americana chamada Florence. Chegou a propor-lhe casamento, tendo a oposição da família da jovem obrigado o poeta a viajar até Nova Iorque e aí permanecer, sem glória, durante três meses. Dessa experiência surgiram os textos de Pruebas de Nueva York e também, já em 1929, um livro de poemas intitulado Jacinta la Pelirroja. Esta Jacinta é a jovem Florence, tornada, desde então, tema central na poesia do poeta andaluz. Rafael de Cózar refere-se à obra em causa da seguinte maneira: «Há no livro um relativo distanciamento da personagem amada, um desejo de se distanciar de todo o sentimentalismo, algo que não apenas obedece ao pressuposto estético do momento (purismo literário) como também a um desejo de dissimular, de algum modo, talvez perante os seus amigos escritores, o reconhecimento do fracasso, uma relação que, com os seus momentos melhores e piores, de distanciamento e aproximação, irá perdurar durante quase toda a sua vida». Para mais, sugiro a leitura deste texto. Por ora, deixo dois poemas:

OBSERVAÇÕES COM JACINTA

Vê, cinematográfica Jacinta,
vê bem o que tem o elefante no lugar do nariz.
Vê do que precisamos para nos sentarmos,
vê a casa imensa que tem aquele a quem chamamos rei.
Vê isto de dormir, levantar-se, dormir e levantar-se;
vê o homem e a mulher que concordam jamais separarem-se;
vê a canalha, dona do nosso globo;
vê como a terna flor brota do solo duro;
vê que dos ramos das árvores
nascem comestíveis aromáticos.
Vê que do céu puro nos chegam
água, raio, luz, frio, calor, pedras, neve.
Mistério e absurdo em tudo, Jacinta.


JACINTA ACUSA-ME DE DESPERDÍCIO

Ao lado do avarento, sinto-me mãos-rotas, Jacinta.
Os pássaros foram criados para ver os elefantes,
e a nossa terra em vista do imenso vazio.
Abre, Jacinta, os olhos à criação
as mãos e todo o teu ser.
Que tombem e se percam os dólares.
Há um dólar de valor mais elevado,
o que não resvala da carteira;
o que se embala e surge novo todas as manhãs;
o que viaja sem a rosa dos ventos;
o que põe a sua vontade nas Índias ocultas;
o que condiz com o distante;
o que esclarece o confuso;
o que não mente;
o que não se dobra;
o que continua amarrado a uma correia de solidão.

domingo, 16 de setembro de 2012

HELENA DE TROIKA

Camarada Van Zeller, tirei o dia para descansar da luta e ver documentários sobre os povos do deserto. Qual não foi o meu espanto quando, num desses documentários, vi surgir no alto de uma duna, envolta em pó e tal uma miragem, a Helena Matos. Para quem não saiba, e muitos não saberão porque, em boa verdade, não interessa saber, trata-se de uma dessas luminárias que pululam pela imprensa portuguesa debitando teses com a convicção dos tontos. Sem pretender tomar a sua perspectiva por algo mais do que um mero arroto intelectual, até porque os burros usam viseiras e a Helena usa franja, o que lhe impede de ver um pouco mais que seja acima do seu nariz, sirvo-me aqui das suas palavras para, camarada Van Zeller, lhe comunicar o que senti durante o dia de ontem. Diz a Helena que as manifestações estão longe de traduzir desaprovação em relação ao governo. Temos aqui algo que nos obriga a rever o conceito de cegueira, pois cego não é, definitivamente, aquele que não vê. Mas também não é apenas aquele que não quer ver. É, de hoje em diante, aquele que finge não ver. A Senhora Dona Helena finge não ver o óbvio, ou seja, o estado de saturação a que uma imensa maioria da população portuguesa chegou e que lhe torna insuportável a contínua roubalheira a que vem sendo sujeita. Independentemente de questões ideológicas, é disso que se trata. As pessoas parecem ter consciência das dificuldades económicas, mas não estão dispostas a engolir o argumentário hipócrita (e idiota) de quem lhes diz terem vivido acima das suas possibilidades quando outra coisa não fizeram senão ir vivendo na medida do possível. As pessoas parecem ter consciência das dificuldades do país, mas não estão dispostas a suportar sacrifícios infligidos por aqueles que, afinal, são os mais óbvios responsáveis pelo estado a que o país chegou, invertendo assim todo o sentido da justiça colocando no lugar do juiz um criminoso e no lugar dos réus as vítimas. Foi essa saturação que levou ontem centenas de milhar de pessoas à rua, misturando radicais com betos entre os quais só não vimos a Helena Matos porque, na melhor tradição portuguesa, preferiu ficar sentada no sofá a apontar tudo o que mexe e a criticar quem faz alguma coisa. A Helena Matos lembra-me as pessoas da terra onde nasci, Rio Maior, que se alguma vez reagiram contra alguma coisa foi sempre contra aquilo que reage, em nome de um conformismo e de uma passividade tão artificial como a peruca que a Helena parece trazer sobre o crânio. Ao dizer que nesta manifestação só esteve quem nunca apoiou este governo, a Senhora Dona Helena assobia para o lado e cospe contra o vento. Porque nela esteve, e eu vi, gente que votou no programa deste governo, um programa traído diariamente, sempre no pior dos sentidos, como facilmente se comprova, tornando Passos Coelho em mais uma réplica da governação mentirosa, aldrabona, vigarista e até criminosa de que os portugueses há muito são vítimas. Mas mais hilariante é aquilo que entra pelos olhos adentro da Helena (não sabemos quantos, nem quais e estamos longe de desejar sabê-lo): «quem apela à revolta da rua são os privilegiados do sistema. Aqueles que enriqueceram ou atingiram apreciáveis níveis de vida graças a esses estado (sic) que agora não conseguimos sustentar». Ok, admito que seja difícil digerir a expressão massiva de indignação que ontem levou à Praça de Espanha, e depois a São Bento, e a várias ruas e praças de outras cidades deste país, centenas de milhares de cidadãos certamente tão ou mais ou menos privilegiados do sistema que a Dona Helena, mas nada se compara à indigestão provocada pela insanidade vomitada nestas palavras. Será que a Helena se toma ela própria por uma privilegiada do sistema? Ou faz parte desse povo que, segundo ela, irá penalizar o governo indo para a praia e não pagando impostos? O que é Helena? Quem é? De que lado está? Chega a ser cómico julgar que uma coisa destas foi escrita, partindo do princípio que pensá-la já era mau e dizê-la pior seria. Escrevê-la é passar um atestado de estupidez a si próprio. Portanto, na rua estiveram os privilegiados do sistema!... Mas quem são eles na cabeça de Helena? A gatunagem do BPN? Os papa cargos? Os oportunistas da política? Os “donos de Portugal”? Não. São, e passo a citar, «os artistas, os designers, os patrões da imprensa, os bispos eméritos das forças armadas, os provedores, os professores doutores em saberes tão vagos quanto a licenciatura de Relvas, os empresários dos magalhães e similares, os sindicalistas com progressões automáticas garantidas…. que querem que o povo se revolte». É a loucura, senhores, é a loucura. E isto no dia em que ficámos a saber de mais um estudo onde se prova que Portugal é o país da UE, com excepção da Letónia e Lituânia, a ter maiores desigualdades na distribuição dos rendimentos. Mas é óbvio que para Helena de Troika também este estudo só pode ter sido levado a cabo por uma cambada de privilegiados. Este estudo não cabe no olho de Helena, mas bom seria que alguém lho enfiasse pelos olhos adentro.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

TODOS SE GABAM DO PROGRESSO SOCIAL E NINGUÉM PROGRIDE.


Âlcantara, Lisboa. 2012.





O homem civilizado construiu uma carroça, mas perdeu o uso dos pés. É amparado por muletas, mas falta-lhe o apoio dos músculos. Tem um belo relógio fabricado em Genebra, mas já não sabe reconhecer as horas pela posição do Sol. O homem na rua possui um almanaque náutico de Greenwich e está tãos eguro de poder obter todas as informações quando precisa, que já nem sabe reconhecer uma estrela no firmamento. Não observa o solstício e desconhece outro tanto o equinócio; todo o brilhante calendário anual não corresponde a qualquer quadrante na sua mente. Os seus blocos de notas debilitam-lhe a memória, as suas bibliotecas sobrecarregam-lhe a mente; as companhias de seguros apenas aumentam o número de acidentes e podemos até perguntar-nos se as máquinas não nos entravam, se os nossos refinamentos não nos fazem perder energia e se o Cristianismo entrincheirado em formas e instituições não terá perdido o vigor de uma virtude selvagem, pois cada estóico era verdadeiramente estóico, mas onde está o Cristão na Cristandade?

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Ralph Waldo Emerson

A CONFIANÇA EM SI

Um autor perigoso é aquele que nos cativa pela beleza das palavras a ponto de lhe perdermos o fio às ideias. Pode acontecer com Platão como facilmente sucede com Vieira, aconteceu-me com Santo Agostinho na mesma medida em que o senti, com o passar dos anos, na obra de outro Agostinho, o da Silva. Exemplos não faltam. Ralph Waldo Emerson (1803-1882) é mais um. Lemo-lo com agrado extremo. Mas parados sobre os pensamentos, ficamos hesitantes e intrigados. Chega a ser inquietante o quanto nos revemos em fragmentos do seu pensamento, para logo descrermos por completo de algumas das suas conclusões. O seu transcendentalismo ideológico e, por isso, utópico e, também por isso, facilmente desmontável, não pode ser reduzido a uma mera profissão de fé. Emerson absorveu as tradições dos indígenas norte-americanos e soube adaptá-las à realidade do seu tempo, não sendo, claro está, pela sua distanciação da ortodoxia católica que nos afastamos dele. Antes pelo contrário. Nesse sentido, A Confiança em Si é um ensaio deveras cativante, onde fica clara a intenção humanista do autor d'elevar o indivíduo a uma circunstância, por assim dizer, demiurgica. Não obstante, as suas ideias são difíceis de assimilar numa época onde o indivíduo se faz cada vez mais numa relação contraceptiva com o outro e com a natureza, ou seja, com o mundo abetumado que o rodeia. A liberdade que Ralph Waldo Emerson enfatizava, num mundo de escravos evidentes, pode ser a mesma que enfatizamos hoje, num mundo de escravos implícitos; mas a forma como se revela, constrói, afirma, nada tem que ver com esse tempo onde as forças oponentes, o inimigo, eram objectivas. Repare-se como ao longo dos tempos o capitalismo logrou tornar o homem-escravo inimigo de si próprio, transferindo a responsabilidade das suas opções para um outrem abstracto (governo, instituições, associações, grupos, etc.) e conformando-o às exigências que o conforto lhe coloca diariamente. A autoconfiança torna-se, deste modo, numa aprendizagem para a acção em conformidade, ou seja, numa autoeducação para o conformismo, para a produtividade, para o consumismo. A vontade de poder vê-se substituída por uma vontade de consumir, de aglutinar, de absorver. A autoconfiança de Emerson era a mesma que Sócrates promovia, hoje arrumada na estante da indiferença, no armário da resignação, na arca congeladora do comodismo tão facilmente ridicularizável quando nos metemos a observar as correntes de indignação cibernética com direito a sofá e pipocas. As amizades sem cheiro de hoje nada têm que ver com a amizade exposta pelo filósofo norte-americano num dos seus ensaios dedicado ao tema, a amizade absoluta e incondicional que se confunde com o amor e se alicerça na Verdade e na Ternura. Por isso deixou de ser Amizade, diluindo-se antes num sem fim de amizades gasosas, fúteis, facilmente descartáveis. Não que por agora ser assim estivesse Emerson errado. Com ele sublinhamos este caminhar solitário no mundo: «Amigos, tais como os desejamos, são sonhos e fábulas» (p. 176). O que nos parece evidente é não haver lugar na realidade para essa fábula, sendo difícil resistir à tentação de pensar que, provavelmente, outra amizade não há senão estas amizades egoístas do indivíduo dito independente num mundo onde a autonomia se mede pelo conjunto de electrodomésticos disponibilizados em habitação própria. O optimismo do autor de Self-Reliance contrasta com o pessimismo incutido pela actualidade e, já agora, pela história contemporânea. Daí que ao escutarmos nas suas palavras os ecos de Epicuro e ao assimilarmos algumas das suas verdades como sendo a mais fiel expressão dos nossos sentimentos, desconfiemos do registo missionário que caracteriza os textos. Tendo sido um viajante, pode afirmar com propriedade que «viajar é o paraíso dos tolos» (p. 30). E até entendemos a sua noção de domesticidade, à luz de um pensamento erigido a partir da relação do homem com a Natureza. O homem só de Emerson é o homem autónomo, auto-suficiente, livre, expressão material de uma realidade sublime e transcendente que assume forma na Natureza. É o homem resistente, capaz, poético, no sentido de criador, fazedor. A sua teoria da Natureza e do homem deve ser perspectivada a partir de um sentimento utópico do mundo, uma fé incomensurável no indivíduo enquanto construtor de um mundo melhor. As nossas dúvidas, legitimadas pela realidade, não negam essa perspectiva, apenas desviam o olhar no sentido de um quadro ruinoso que não pode ser negado. Por isso continuamos a preferir o «nomadismo intelectual» (p. 126) de outras tribos ao «espírito caseiro» deste homem domesticado, ocidental. De resto, este «espírito caseiro» parece-nos deveras contraditório com a «filosofia de mobilidade e fluidez» invocada noutras paragens do mesmo autor. A Confiança em Si, A Natureza e Outros Ensaios foi publicado pela Relógio d’Água, com tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira e José Luís Costa, em Outubro de 2009. Curiosamente, dos ensaios coligidos (sete), Montaigne, ou o Céptico é o nosso preferido.

SÓ EU SEI PORQUE NÃO FICO EM CASA



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O PORTUGAL FUTURO


Torel, Lisboa. 2012.




O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do sfalato da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro



Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Ruy Belo

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #66



Dou por findo o caderno, fecho a janela.

Pressinto a brisa esvaecendo na ponta dos dedos.

Não temo o esquecimento

tanto quanto me amedronta a indiferença,

mas é melhor assim.

Permito-me guardar num lugar indefinível do corpo

os cheiros, as sombras e, foda-se, o toque da pele.

Deixo rodar o mais recente trabalho de Andrew Bird, um músico de excelência que fez do violino o seu instrumento de eleição. Eu só invejo na vida os tipos com sentido de humor e os grandes instrumentistas. Quanto ao resto, a assobiar bato qualquer um. Mesmo quando as canções aromatizam o ar com a brisa marítima agora esvaecida. Break It Yourself (2012) é um conjunto de canções perfeitamente adequado ao momento: we keep breeding desperation / in this era of thieves. Bird recorre a artifícios simples para sobrepor malhas, misturar melodias, compor paisagens povoadas de elementos diversos que parecem ter todos a sua origem numa mesma fonte. E essa fonte é a da música folk que embarcou nas ilhas britânicas e aportou nas Américas para aí ganhar uma outra dimensão, reproduzindo a vastidão geográfica que a condição insular limitava. Give it Away, o quarto tema (se tivermos em conta que o segundo contabiliza uns escassos 45 segundos), é uma das melhores canções que pudemos ouvir este ano, alternando uma melodia sedutora com o tom jazzy que dá sentido às palavras e permitindo as palavras darem sentido à actualidade: your charts and graphs don’t mean a thing to me. Em breves momentos, os loops e o lirismo em registo pizzicato dão lugar a uma inesperada explosão de energia. É o caso do tema Eyeoneye, um hino às gerações perdidas do presente com um apaixonante estilo anos setenta: made yourself invulnerable / no one can break your heart / so you break it yourself. Digamos que se trata de sintetizar a modernidade em três simples versos. Os delays e os condimentos electrónicos fazem o efeito do sal e da pimenta num queijo fresco, dão-lhe sabor. Para mim é o álbum do ano. Não preciso d'outro.

EU POSSO, EU VOU



terça-feira, 11 de setembro de 2012

O PERIGOSO PROFESSOR GASPAR

O ministro Gaspar dirigiu-se ao país no seu tom impecavelmente pedagógico. A sua pedagogia é anestesiante, funciona sempre de um modo evidente para quem tenha estudado as mais elementares regras dessa velha ciência. É pausado, denota serenidade, faz transparecer uma segurança inabalável. Hão-de reparar que começa invariavelmente por responder aos jornalistas sublinhando a pertinência das questões, agradecendo, até, a inteligência de quem as colocou. E os jornalistas, como quaisquer bons alunos, vão na cantiga, sentem-se valorizados e encantos da vida. Não resistem à táctica hipnótica do ministro, comentando posteriormente no mesmo tom complacente, pacífico e tranquilo os assuntos que a besta contornou com a habilidade dos mestres. A indignação e a revolta pacientam-se com lenitivos baratos. O que a pedagogia do ministro não explica, nem a dele nem a de ninguém no governo, é o que as mais óbvias dúvidas levantam:
- Quem são os responsáveis por termos chegado a este estado?
- Porque não são julgados esses responsáveis?
- Que razões justificam que sejam chamados a pagar as dívidas do país aqueles que nada fizeram para que essas dívidas existissem e se acumulassem?
- Com que critérios se fundamentam medidas de austeridade sobre austeridade que têm por alvo as franjas mais frágeis da sociedade?
- Como se pode compreender esta intenção recente de cobrar mais aos trabalhadores e menos às empresas?

O ministro apoia-se em estudos desconhecidos, receitas não reveladas, experiências empíricas que ainda ninguém comunicou. Os jornalistas ouvem atentamente e não indagam. Já não esperamos sequer que algum deles se digne a atirar-lhe um sapato às trombas, mas pelo menos podiam indagar o perigoso professor Gaspar. Estas são cinco dúvidas simples que eu gostava de ver respondidas. O leitor que acrescente as suas.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O ESTILO, POR SI SÓ, SUGERE QUE ALGO ESTÁ SERIAMENTE ERRADO.


Paço de Arcos, Oeiras. 2011.



Os arquivos de combates sanguinários e carnificinas da história humana, desde os tempos recuados da Suméria ou do Egipto antigo até às mais recentes atrocidades da Segunda Guerra Mundial, correspondem ao canibalismo universal praticado nos tempos primitivos, com os sacrifícios humanos e de animais ou os seus substitutos nas formas religiosas ritualizadas, com a disseminada caça aos esclapes e às cabeças, as mutilações corporais, as práticas necrofílicas, e revelam esse gosto generalizado pelo sangue que é próprio da espécie, esses costumes predatórios, essa marca de Caim que, no plano alimentar, diferenciam o homem dos seus parentes antropóides e o classificam entre os carnívoros mais cruéis.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Raymond Dart, citado por Bruce Chatwin

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #65





Das canções bêbedas para este manifesto contra o egoísmo, admito que possa parecer algo bipolar. Talvez encontrando ligações com a orgia rítmica de Art Blakey tudo fique menos improvável. 1-Speed Bike é o alter-ego, pelos menos um dos, de Aidan Girt, baterista do colectivo canadiano godspeed you blak emperor!. Aqui, em registo mais solitário, ocupa-se a remisturar colagens do seu trabalho de percussão. Os temas têm nomes tão estranhos tais como yuppie restaurant-goers beware because this song is for the dishwasher. Os ambientes gerados por Girt são igualmente estranhos, revelando uma complexidade criativa que não deixa de ser irónica. Pelo meio de batidas várias e colagens electrónicas, surgem, aqui e acolá, algumas vozes com um claro propósito político. Mais do que reproduzir os ruídos decadentes de uma humanidade em queda, 1-Speed Bike escapa à ordem, como a imagem da capa sugere, e manifesta-se contra todo o tipo de subjugação cultural, social, política. Droopy Butt Begone! (s/d) não procura ouvidos amestrados nem músculos em estado de letargia, prefere mergulhar no universo da contracultura e oferecer ao mundo uma dose considerável de irreverência. Na contracapa, afirma: there are those who sleep in hotels and those who sleep on the street. There are cultural agents os change and there are those who watch too much TV. Alguém duvida?

EPITÁFIO PARA OS POETAS LIBERAIS

No fim tardio
— que está para breve — a vida ocidentalizar-se-á
E alguns dirão
E Daí e outros Que Importa,
Prontos, sob novos nomes, para explorar ou serem explorados.
Melhor seria que pensassem no que dirá a história
De nós, os que caminharam sonâmbulos e morreram na Dúvida.

Nós, que sempre tivemos, sem o admitir, um dono,
Que fomos imaginados — e pagos — para sermos nós mesmos,
Condicionados a pensar livremente, como podemos nós
Consertar os nossos corações destroçados e engessar o pensamento
E glorificar com histórias cromadas
Aqueles que nos tornam inúteis e dispensáveis —
Os Conquistadores tecnocráticos de boca calada?

O Indivíduo morreu antes; Catulo
Faleceu novo, deu lugar aos que nasceram velhos
E mais adaptáveis e nem sequer sentiram ciúmes
Das suas palavras e vida selvagem. Ainda que as nossas canções
Não sejam tão calorosas como as suas, o nosso fado não é menos frio.

Tal como esse silêncio diante de nós, pregado às paredes,
Por que nos queixamos? Não há saída, nada mais
Nos dirão os pássaros; desapareceremos primeiro,
Porém deixando para trás certas palavras geladas
Que um dia, embora sem certezas, poderão derreter
E, por breves instantes, realçar uma sede.



Louis MacNeice
Versão de HMBF.

domingo, 9 de setembro de 2012

CANTO DO VIAJANTE



Dion-Bouton, carruagem,
vagão de comboio, carroça,
mula parda, sorridente trepadora,
velho rocim fleumático,
e, em suma, pés humildes, peregrinos,
que lei os move à face da terra?
Quem põe a ânsia de ver nestas
pobres pupilas?
Como compensa este puro deleite
toda a agonia da marcha?

Não será o movimento
fonte de todo o bem, firme base
sobre a qual se levanta a alegria,
branco Triunfo batendo suas asas?
A turbina doente da nuca
não dá o fruto rosado da ideia?
Teremos que adorar o pesadume?
Se é a angústia quem gera bons filhos
e a condenação do Senhor, Trabalha!,
é em seu fim uma alba melodiosa,
teremos que aceitar as aflições
como a maior oferta da vida?

Dá-me o cajado, calça-me as botas,
e enche-me o surrão de caridades.
Já o remanso desfrutei e o rio flui.
Pelo carreiro há pobres
que não desfrutam de Deus; cheio o alforge
com broas de amor, que há muita fome.

Caminho dourado em pleno dia,
caminho prateado da noite;
cume avermelhado onde o viajante
chega, se detém e cresce!
Doces fogueiras na noite crua,
fontes em dias quentes,
carinhosas pousadas nos portos,
urzais escondidos na sombra;
surpresas do caminho,
chispas de luz ou raio que te fende!...

Continuareis esperando-me, submissos
ao jugo das horas?
Deverei afundar a minha dor no regaço
tíbio e silente da vossa existência?

Para quem emanas, fonte
oculta nas entranhas da estepe?
Garbosa fruta no oásis perdido
por que nasceste?
Terás nascido para mim, para o vadio
viajante? E se eu nunca
tivesse nascido? E se subitamente
a humanidade morrer, continuarás dando
seiva ou carne melosa esterilmente?

Dá-me o fuzil do amor e a cartucheira
bem munida de tiros.
Ferozes bestas erram pelo mundo,
e a bala do amor tempera e amansa.

Dá-me o fuzil do amor para as hordas
humanas, carniceiras;
e que sejam agudas as balas
para que as penetre finamente…

Bandidos, traidores, vigaristas
que surpreendeis o viajante na noite
tépida ou glacial, vorazes
aguietas humanas, quem vos temerá
se consigo levar o fuzil dourado
que põe a flor do amor nas entranhas?



José Moreno Villa (1887-1955)

Versão de HMBF.

AS GARANTIAS DE PASSOS

Pedro Passos Coelho achou por bem dirigir-se aos portugueses, através da sua página de Facebook, descendo ao nível dos mentirosos que juram pela saúde dos filhos: «Queria escrever-vos hoje, nesta página pessoal, não como Primeiro-Ministro mas como cidadão e como pai, para vos dizer apenas isto: esta história não acaba assim. Não baixaremos os braços até o trabalho estar feito, e nunca esqueceremos que os nossos filhos nos estão a ver, e que é por eles e para eles que continuaremos, hoje, amanhã e enquanto for necessário, a sacrificar tanto para recuperar um Portugal onde eles não precisarão de o fazer». Sei de gente como Passos Coelho, pelo menos em termos de estatuto, que gosta tanto dos filhos como eu gosto das pulgas do meu cão. Os consultórios deste país muito teriam a revelar, fosse o caso. Como é óbvio, não estou a colocar em causa o amor do primeiro-ministro relativamente aos seus herdeiros directos. O mesmo não me passou pela cabeça quando Relvas afirmou que queria chegar a casa e sentir que a sua filha estava orgulhosa do que o pai andava a fazer. Espero que a filha de Relvas ainda não tenha sufocado no próprio vómito. O que importa sublinhar é que Coelho está a transformar este país naquilo que ele já foi antes do 25 de Abril, um país onde os filhos de Passos Coelho não terão certamente as mesmas oportunidades que os meus filhos e a maioria dos filhos dos cidadãos portugueses. A ponto de, a breve trecho, ninguém poder jurar nada pelos filhos, pois quando o assunto é a sobrevivência tudo se hipoteca. Ora pense lá, Dr. Passos, quem poderá pensar em ter filhos hoje em dia? Mas que jovens casais poderão sequer sonhar com ter filhos hoje em dia? Onde arranjarão dinheiro para os criar, alimentar, vestir, para lhes comprar os manuais escolares e os manter na escola? Pedro Passos Coelho sugere aos jovens que emigrem ao mesmo tempo que se dirige aos portugueses enquanto pai. Isto já não é mera hipocrisia, é pura crueldade. Mais grave, é uma crueldade que não tem consciência de si própria. Eu não acredito que Pedro Passos Coelho seja sensível o suficiente para ter consciência do que anda a fazer, estou mesmo convencido de que se trata de um lunático. É por isso que estes episódios nunca me pareceram meros episódios, são reveladores do carácter de um homem:



À ESPERA NO CENTEIO

O manuel a. domingos tem vindo a elaborar uma lista sobre critérios que são os dele. Não me interessa esmiuçá-los. Interessa-me chamar a atenção para algo afirmado sobre À Espera no Centeio, de Jerome David Salinger (n. 1919 – m. 2010). O manuel refere-se ao livro em causa como uma obra despretensiosa e simples, o que a colocará, se bem entendo, nos antípodas das obras pretensiosas e complexas. Ora, custa-me engolir este tipo de classificações e julgo que o grande mérito de um livro como À Espera no Centeio reside na sua complexidade. A pretensão ou despretensão da obra é-me inacessível, embora tenda a considerar todos os livros pretensiosos à sua maneira, mais que não seja por pretenderem exprimir alguma coisa (mesmo quando alguma coisa é coisa nenhuma). De resto, a complexidade do livro não é desmentida pelo remate do texto que o manuel a. domingos lhe dedica: «Todos nós gostaríamos de ter alguém à nossa espera, que nos impedisse de cair no abismo. Só que o abismo está lá. Encontrar alguém que nos segure, é outra conversa.» A última frase terá uma vírgula a mais, problema que não reconhecemos na prosa de Salinger. Autor de um único romance, é daqueles de quem ouvimos por vezes dizer ter sido recluso da sua genialidade. Publicou algumas histórias na New Yorker logo após serviços prestados durante a Segunda Grande Guerra; em 1951, ganhou fama com o seu único romance The Catcher in The Rye (título que a edição portuguesa verteu para À Espera no Centeio); depois só lhe conhecemos alguns volumes de contos reunidos, termo de uma exposição pública que J. D. Salinger resolveu fechando-se num absoluto e eterno silêncio. Podemos olhar para o seu romance como a história de um adolescente a caminho da idade adulta, ou seja, no trilho da perda de inocência. Vários indícios apontam nesse sentido. Mas o que me leva a desconfiar de Holden Caulfield, o jovem rebelde de dezassete anos que não pretende senão contar-nos os seus últimos dias, é precisamente o facto de ele tantas vezes sentir necessidade de reforçar a verdade das suas asseverações com expressões tipicamente coloquiais tais como «fora de gozo» ou «a sério». Salinger oferece-nos, deste modo, uma voz narrativa aparentemente simples (adolescente) atravessando um estádio de vida extremamente complexo (adolescência). Oferece-nos essa voz num estado de contradições que sugere, sem indicar, uma certa perspectiva sobre a própria condição humana. Nada disto, para já, parece muito complexo. O que não é tão simples é a capacidade do autor nos fazer acreditar na personagem como se estivéssemos sentados ao balcão de um bar a ouvi-lo contar a sua história. Torna-se, pois, bastante irónico que seja a própria personagem central do livro a dizer o que pensamos: «O que realmente me enche as medidas é um livro que, depois de acabarmos de o ler, nos faça desejar que o autor que o escreveu fosse um grande amigo nosso e pudéssemos telefonar-lhe sempre que nos desse para aí» (p. 27). Imaginamos o quanto se terá arrependido J. D. Salinger desta simples frase que não é uma frase simples. A partir deste momento, Holden Caulfield como que captura o leitor transferindo-o para dentro da história. Nós passamos a ser parte integrante de uma efémera mas intensa vagabundagem íntima, porque a vida não se resume a chegar a um cruzamento e optar por um dos seus caminhos. Revela-se tremendamente complexa quando nela encontramos diversas sensações entrelaçadas, numa espécie de bordado construído através da experiência presente mas em constantes envios para memórias remotas (tanto quanto podem ser remotas as memórias de um adolescente). Os anseios de Holden (reparem bem no nome, qualquer coisa entre o verbo hold - agarrar - e o substantivo holder - aquele que agarra) são os de quem não pretende esperar mais pela suposta independência da idade adulta, olhando, porém, para os adultos com um desprezo evidente. Apesar de se referir à sua infância em tom depreciativo, é na inocência de uma criança que ele encontra redenção. O desejo expresso a partir do poema que oferece título à obra parece simbolizar isso mesmo: a consciência de uma inocência perdida, lá nesse lugar chamado infância, a par da consciência de uma queda vertiginosa que é a vida na idade adulta: «A maior parte das pessoas quase que não têm sorriso nenhum, ou então é um sorriso merdoso» (p. 66). O ideal para Holden, se assim podemos dizer, seria agarrar a infância nos alçapões da experiência que nos vão tornando adultos. Como interpretar o seu ódio ao cinema? E as suas hesitações sexuais? Como não ver nos milhões de cabelos brancos que tem num dos lados da cabeça a marca de qualquer coisa que não sabemos bem o quê? Como entender os seus acessos de compaixão para com as fragilidades do ser? É por isso que, ao lermos o livro, pensamos que gostávamos de ser a vida inteira o que o jovem Holden foi durante três dias, sabendo que talvez ele ainda não possa perceber que foi em três simples dias o que nós, adultos, gostaríamos de ser a vida inteira. Autênticos. Acho que é isso.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

ENTREGA-SE ÀS CRIANÇAS, PARA QUE COM ELE BRINQUEM E NÓS COM ELAS BRINQUEMOS


Calçada da Glória, Lisboa. 2012.




O ponto fundamental do culto do Espírito Santo não é, porém, nem o banquete comum e livre, nem o soltar de presos, nem a procissão que segue a Pomba, no estandarte ou coroa; é a instalação de uma criança como Imperador do Mundo. No Paraíso terrestre que se quer dispensam-se os adultos de todas as funções dirigentes que têm tido até hoje e se declara mais importante quer quanto possa ter sido na vida o mesmo que foram e tão infelizmente morreu; declara-se que todos os Imperadores de qualquer Império declarado Santo pela vontade, os interesses e os apetites dos homens, devem ceder seu trono às características infantis de atenção contínua à vida, de existência total no presente, de ignorância de códigos, manuais e fronteiras, de integração no sonho, de valorização do jogo sobre o trabalho, de simpatia pela cigarra, que logo a nossa escola substitui pelo aplauso à formiga, já que uma convém à alegria, apenas, e a outra ao lucro.


Fotografia: Jorge Aguiar Olivria
Texto: Agostinho da Silva

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #64





Quem gosta de canções não pode passar ao lado das chamadas drinking songs irlandesas. É dito, sabido e facilmente comprovável que o povo irlandês tem uma especial inclinação para a copofonia. Daí a proliferação de poetas a um nível de excelência incomparável. Nascesse um homem nómada, e não precisaria do álcool para nada. Mas neste mudo sedentário onde por azar fomos paridos, só uma hipótese resta a quem não se confirme com a monotonia das viagens entre os não sei quantos metros quadrados do lar e os não sei quantos metros quadrados do local de trabalho: parar a meio da viagem e embarcar na nave alcoólica. Whiskey in The Jar é uma colectânea competente para turista ouvir. Só dos The Dubliners colhe cinco temas fundamentais: The Wild Rover, Seven Drunken Nights, Black Velvet Band, The Holy Ground e Molly Malone. São temas para decorar e cantar em coro com um copo de guiness na mão. Um outro exemplo de excelência deste tipo de canção é o popularíssimo tema Dirty Old Town, aqui interpretado por Luke Kelly (o turista português conhecerá melhor a versão dos The Pogues, embora Kelly, fundador dos The Dubliners, seja um dos nomes incontornáveis da folk irlandesa). Fique registado que os irlandeses fazem maravilhas com um banjo nas mãos, uma concertina (ou algo parecido) ao peito, um violino ao ombro, uma flauta nos beiços. Melodias simples, geralmente alegres, embora tingidas pelas pequenas e grandes revoltas da vida quotidiana. Letras que contam histórias e partilham anseios (a independência, a liberdade). Neste aspecto, somos todos muito insulares – rodeados que vivemos de agitação, desassossego e inquietude. Resolvê-lo com o fado não é remédio que se aconselhe.

O TAPETE PERSA



Teus olhos inquietos passam
pelo tapete oriental…
Signos cabalísticos, enigmas,
policromias… talvez
caminhando pelo bosque
dos seus fios, penses
que essas listras que se cruzam,
e que voltam, e se vão,
e se enrolam loucamente,
as traçou o teu pé ao andar.

Teu pé, pobre pé de cego
que não sabe aonde vai,
nem porque é dura a terra,
nem porque tem de andar…
Pé de cego, que pintou
de carmim a branca paz
do carreiro, permitindo
sua esperança derramar
como um fio verde, em cima
do tapete da verdade
.


José Moreno Villa (1887-1955). Na imagem ao alto, da esquerda para a direita, Salvador Dali, José Moreno Villa, Luis Buñuel, Federico Garcia Lorca e Jose Antonio. Depois conto o resto.



Versão de HMBF.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O CASO PATOLÓGICO DO TRAVESTI


Bairro Alto, Lisboa. 2012.







A relação que um homem tem com a sua mulher, por mais perfeita que seja, torna-se, com o tempo, tão rotineira como a que mantém com a sua cidade. Rotineira no sentido de que a atenção vai afrouxando e ele acaba por não conhecer, do objecto que lhe está próximo, mais do que certos pontos de referência. Tal como ao fim de muitos anos a morar numa cidade já não reparamos nas praças, nas avenidas, nos monumentos, excepto quando o acaso ou o dever no-los apontam (Ah, mas aqui havia árvores; oh, repara que belo edifício, etc.), também às vezes descobrimos que a nossa mulher tem seios ou olhos bonitos ou quadris tentadores. Mas são momentos esporádicos e seguramente anormais, uma vez que exigem de nós uma nova abordagem ou um novo ajuste do diafragma da nossa consciência, o que implica um esforço e, por essa mesma razão, encontra em nós resistência. É por esse motivo que a vida conjugal, quando não há filhos nem interesses comuns nem afinidades intelectuais nem, sobretudo, compatibilidades temperamentais ou sexuais, acaba por se transformar numa ficção, num companheirismo às cegas, tão fantasmagórico como o itinerário mil vezes percorrido numa cidade, em que nos limitamos a ser conduzidos pelos nossos reflexos. A mulher percebe isso e, uma vez por outra, tenta fazer-se notar através de um novo penteado, de um novo detalhe no vestuário ou de um convite para que a sigam pelo bairro não visitado e censurado do seu corpo. O homem também o percebe e impõe-se, de vez em quando, uma mudança de aparência (caso patológico do travesti). Mas os disfarces também cansam e não passam de disfarces.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Julio Ramón Ribeyro

A TRISTEZA DO CR7


AQUI


Camarada Van Zeller, o Cristiano Ronaldo anda triste. Embora ele diga que as pessoas sabem porquê, ninguém parece saber porquê (à excepção, talvez, do Miguel Sousa Tavares, da Joana Amaral Dias, do Medina Carreira, do professor Marcelo e do professor Bamboo). É difícil conjugar a tristeza do CR7 com Portugal a arder, a única boa notícia recebida pelos portugueses nas últimas semanas. A borrar o cenário, só mesmo os paraolímpicos. A alegria dos deficientes chega a ser pornográfica perante a tristeza do melhor jogador do mundo e arredores. Como é óbvio, para um português o mundo termina em Elvas. E eu desconfio das razões para aquela tristeza, mas vou já adiantando que, a verificarem-se, não se justificam. Desconfio que o Cristiano ande tristonho por causa das alterações ao Código do Trabalho.
A maioria dos portugueses deve orgulhar-se de mais este esforço, não tendo quaisquer razões para melancolias. Tristezas não pagam dívidas. Mas o CR já não é apenas português, é galáctico. Logo, é verdade que tem fortes argumentos a favor da sua anunciada mágoa. Ainda assim, sempre que jogar a um feriado o Cristiano receberá menos de metade do que recebia? Terá menos dias de férias e o trabalho nos feriados será compensado pela metade? O Ministro da Economia já veio acalentá-lo, dizendo-lhe ao ouvido que, para ele, mais milhão, menos milhão. A federação paga. O que se pretende é dinamizar o mercado de trabalho. Como? Carregando sobre os trabalhadores que, só não o percebe quem for parvo (tipo o Ministro da Economia), também são consumidores.
Vendo reduzidas as suas capacidades de consumo, é mais que legítimo que o trabalhador se questione sobre para quem e para quê anda ele a trabalhar? A gente sabe que é para as contas bancárias dos administradores e dos gestores, classes especiais de trabalhadores que se permitem aumentar os seus salários a fim de poderem fazer face às épocas difícies. Cresce, deste modo, o fosso das desigualdades salariais no Portugal actual - o Portugal da cristianidade. O que é de admirar é a passividade dos portugueses, que seguindo o pior dos exemplos se limitam a andar tristonhos e cabisbaixos. A Manuela Ferreira Leite dizia que a democracia precisava de parar durante uns tempos, nós julgamos que ela precisa de mais Tonys… caralhe.
Já não é apenas o problema da corrupção, camarada Van Zeller, que nos aflige, é essa corrupção tornar-se legítima com as práticas corruptas de quem governa. Porque corromper não é apenas infringir, é estragar, destruir, é arruinar. E outra coisa não têm feito os troikloditos. Se não, pergunte-se a quem insiste na necessidade de se pagar a dívida: quem contraiu essa dívida? E exija-se uma resposta clara. Quem a contraiu que a pague. E obrigue-se quem diz que andámos a viver acima das nossas possibilidades o que quer dizer com isso. Porque eu nunca andei. Os Cavacos dos CCBs e das Expos, os Guterres dos Euros e afins, os Sócrates das PPPs que sejam definitivamente julgados por terem dado alimento ao mal. Num país onde não há justiça e o povo é mole, continuarão luminárias congéneres a fazer os mesmos estragos… legitimados, sempre, pelas leis que os próprios criam para poderem encher os seus bolsos e os dos amigos indo às carteiras da maioria dos portugueses. Perante ladrões, larápios, vigaristas e gatunos, não se pode ficar tristonho como o CR7. É preciso ser-se implacável como um paraolímpico.

PROVE QUE NÃO É UM ROBOT

Após seis tentativas falhadas a tentar deixar um comentário no weblog de um amigo, fiquei confuso. Serei um robot? Pelo menos não consigo provar que o não sou. Se eu não conseguir provar que cometi um crime deverei ser condenado pelo crime de que me acusam? Ajude-me, camarada Van Zeller, como lidar hoje com a mentalidade formada à imagem e semelhança das caixas de comentários do Blogger?

terça-feira, 4 de setembro de 2012

QUATRO ANTOLOGIAS DE DALTON TREVISAN

Em 1979, a editora Record publicou uma antologia escolar de Dalton Trevisan intitulada 20 Contos Menores. O título diz algo do autor, mas muito mais dizem as notas reproduzidas nas badanas do volume que contempla, à razão de dois contos por cada, os livros Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de elefantes (1964), Morte na Praça (1964), Desastres do Amor (1968), Mistérios de Curitiba (1968), A Guerra Conjugal (1969), O Rei da Terra (1972), O Pássaro de Cinco Asas (1974), A Faca no Coração (1975) e Abismo de Rosas (1976). Nessas notas ficamos a saber que Trevisan (n. 1925) é advogado e pai de duas filhas, prefere que os contos falem de si a falar sobre os contos, considera-se, enquanto contista, um vampiro de almas, um espião dos corações solitários, definiu para si o caminho da brevidade, ao contrário dos autores que trazem na mira o romance. No entanto, lemos os contos do Prémio Camões 2012 e ficamos com a sensação de que nele a brevidade é apenas o fragmento de uma grande composição, como num puzzle a peça isolada é tão-somente um brevíssimo retrato da paisagem geral. Tendo por cenário quase exclusivo a cidade de Curitiba, as personagens de Dalton Trevisan cruzam-se umas com as outras como transeuntes nas ruas de uma cidade. O filho tresmalhado, a mulher maltratada, o homem solitário, os velhos, com suas cenas quotidianas, domésticas, sociais. Desavenças conjugais, cenas de ciúme, paixões amordaçadas, traições, a doença e a confissão, crendices, gente que se mata ou morre de causas naturalmente provocadas. Seja como for, isto não é mero realismo. Isto é uma espécie de crónica dos dias comuns filtrada pelo olhar inventivo do observador, um olhar que não enjeita nenhum tipo de linguagem ou dizer e nos faz desejar broinha de fubá mimoso sem que façamos a mínima ideia do que se trata. Em Busca de Curitiba Perdida (2.ª edição, 1997), a antologia que homenageia a cidade-palco, é especialmente reveladora da dimensão “cronística” desta obra. Mas também nos mostra um autor, nomeadamente nos textos colhidos em Dinorá (1994), com uma admirável capacidade irónica. Em Quem Tem Medo de Vampiro? descompõem-se enquanto contista, mas nas cartinhas ao velho poeta e ao velho prosador dirige-se, sem rodeios, à pesporrência dos instalados. Ao contrário da outra, a quem não bastava ser, tinha de parecer, Trevisan é... porque não faz por parecer. Autor discretíssimo, mas prolixo, investe nas personagens como um escultor que nunca dá por esculpida a pedra que tem em mãos. Não parece reflexivo, mas reflecte; não parece filosófico, mas filosofa; não parece descritivo, mas descreve; não parece imaginativo, mas a imaginação é nele uma fonte inesgotável. Daí que a paisagem da “cidade diabólica”, com suas cenas de violência doméstica e social, partidas em verso ou coladas em prosa, nos apareça mais em tom elegíaco, mesmo quando aparenta uma certa ligeireza caricatural, do que sob a forma de um louvor desgraçadamente cegueta. A pequena antologia 111 ais (coleção L&PM Pocket, 2000), que colige sublinhados transformados em micronarrativas respigadas nos livros Ah, é? (1994), 234 (1997) e Pico na veia (2002), com ilustrações de Ivan Pinheiro Machado, torna-se pela sua índole aforística uma bela síntese dos amores e dos desamores do autor. Entre os amores, destacamos a corruíra, ave cujo canto povoa as historietas de Trevisan como um abrigo inconfessado. Por vezes cómica, outras vezes melancólica, frequentemente nostálgica, esta prosa tem o mérito supremo de respeitar a vida na sua essência temperamental. O mais estranho é que Dalton Trevisan tem a capacidade de nos desenfastiar da realidade mostrando-nos a realidade. Com outra desenvoltura narrativa, os contos escolhidos pelo autor para 35 Noites de Paixão (BestBolso2009), tidos pelo que de melhor produziu na vida literária, são uma excelente porta de entrada para o universo trevisaniano. Podiam as editoras portuguesas começar por aqui. Compreendemos que a rua é a casa do contista, os episódios desenrolam-se a partir da relação entre os elementos que a compõem revelando, por vezes em meros pormenores na acção dos personagens, que noutras circunstâncias dissipar-se-iam e passariam despercebidos, a matéria com que se cozinha a humanidade. Fica de exemplo o ressoar da voz dos desafortunados num conto que podia ser, quem sabe, a mera reprodução de um discurso gravado a meio de uma rua qualquer (qualquer, não; numa rua de Curitiba, faz favor):

O PERDEDOR

O senhor conhece um tipo azarado? Esse sou eu. Em Janeiro bati o carro, não tinha seguro. Depois roubam o tocafitas, nem era meu. Vendi os bancos para um colega e recebo só a metade.
Em Março, despedido da firma onde trabalhei 7 anos. Empresto o último dinheirinho a outro amigo, que não me paga. Vou a um bailão, não danço e acabo apanhado.
Comprei um carro velho, atraso as prestações, o dono toma de volta. Monto uma banquinha, o negócio não dá certo. Sabe o que é um cobrador de vermelho sentado à sua porta?
Passo o ponto com prejuízo e vou à luta por um emprego. Preencho mil fichas, a resposta uma só: ganhava bem, não posso ter o salário reduzido.
Domingo no parque, dois pivetões me assaltam. Fico sem ténis, o relógio, o boné do meu time, eterno perdedor.
Era pouco ao Senhor? Estou com os dentes ruins, a vista fraca, acho que é diabete. Mais que converse com a mãe, visite a irmã, divirta os sobrinhos, faça um biscate, me sinto cansado de viver.
Noivei coma Maria que ontem me contou ser a outra de um fulano casado.
Ó Deus, de que lado está o Senhor? Sozinho em casa, fiz a barba, tomei banho, vesti a jaqueta cinza, a gravata azul de bolinha.
Lá vou eu de viagem: elegante, em flor, na ponta de uma corda. Perdão, mãe. Adeus, pessoal. Desta vez, Senhor, tem dó de mim.