sábado, 5 de janeiro de 2013

TRUE GRIT (2010)




Em 2010, os irmãos Joel & Ethan Coen fizeram um remake do western que valeu a John Wayne o Oscar por melhor interpretação masculina em papel principal. Agora exibido nas terras de Zé do Telhado com o título Indomável, o True Grit dos irmãos Coen partilha apenas com o filme de Henry Hathaway a mesma base narrativa, ou seja, o romance de Charles Portis. Quanto ao resto, são filmes substancialmente diferentes. Uma diferença perceptível logo à partida tem que ver com a atmosfera que serve de cenário à acção. A Primavera de Hathaway dá lugar ao Inverno dos irmãos Coen, à neve, ao frio, aos vapores e à respiração ofegante dos animais. Os Coen dispensam grande parte dos elementos emotivos que tornam a primeira versão algo sentimentalista, concentrando-se na personalidade determinada e firme da jovem Mattie Ross (Hailee Steinfeld). 
Deste modo, o filme parece desenvolver-se muito mais a partir dessa personagem que é a da jovem com um objectivo definido: vingar a morte do seu pai. A sua relação com o implacável Marshal Rooster Cogburn (Jeff Bridges) mantém-se, mas este deixa de ser uma figura paternalista para passar a ser, juntamente com o ranger LaBoeuf (Matt Damon), objecto de sedução no interior de uma personalidade adolescente desbravando caminho na direcção da maturidade. Mattie encontra-se, assim, entre dois pesos e duas medidas de avaliação da realidade. A sua determinação apenas vacila quando confrontada com a necessidade de optar. De um lado, o pragmático e informal Rooster Cogburn. A sua coragem é inegável, tanto quanto a determinação de Mattie em capturar o assassino de seu pai. Do outro lado, o formal e orgulhoso LaBoeuf, talvez mais metódico e previdente. 
Não se opondo um ao outro, Cogburn e LaBoeuf actuam de modo diverso. Se na versão de 1969 aparecem sempre juntos, intervindo em equipa, agora são separados, seguem trilhos diferentes, não divergentes, reencontram-se, separam-se novamente, distanciam-se, reaproximam-se. Este duelo sem balas mantido entre ambos, esta espécie de jogo que tem na sua origem personalidades distintas, oferece a Mattie o que há de essencial na construção de uma personalidade: o choque de valores. Cogburn e La Boeuf acabam por se constituir como o pai ideal para Mattie depois de o pai real haver sido assassinado. Não é acidental o discurso derradeiro de um dos condenados na cena de enforcamento, dirigindo-se aos filhos e à importância das boas companhias. É uma subtileza humorística que se compreende no desenrolar da história. 
Mas esta história aceita também uma outra perspectiva. Se é verdade que a interacção entre Cogburn e LaBoeuf amadurece Mattie, também não deixa de ser verdade que é a resolução desta jovem que transporta aqueles homens para uma outra dimensão, talvez heróica, onde as hesitações humanas que quase os levam a desistir do objectivo inicial acabam por ser superadas pela necessidade de intervir. Lembremo-nos de que LaBoeuf morre no filme de Hathaway. Os Coen mantêm-no vivo porque isso se torna indiferente. Não há aqui nenhuma necessidade de exaltar o papel de Cogburn. Há, antes, uma vontade clara de nos fazer perceber que é Mattie quem está no centro das atenções. E esta recolocação da narrativa sobre os ombros de uma personagem obriga-nos a uma pergunta essencial, afinal onde reside essa valentia, essa firmeza, essa coragem que dá título ao filme na expressão de true grit? 
Joana d’Arc do velho Oeste, sem a componente mística e muito mais realista do que a própria realidade, esta Mattie Ross não pode ser apenas ficção. É uma energia que advém do desejo, personalização daquilo a que Nietzsche em tempos chamou vontade de poder e alguns interpretaram, maldosamente, como “vã glória de mandar”. Ela é uma força porventura incomensurável e indeterminável cientificamente, que não se resume apenas à coragem desmedida de Cogburn nem à bravura deontológica de LaBoeuf. É uma força íntima, inerente ao ser, que desabrochará subjectivamente em cada um de nós sempre que formos confrontados com o que não pode deixar de ser feito, sob pena de, não sendo feito, roubar-nos a nossa própria identidade.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

PROJECTO ANDRESA



Camarada Van Zeller, tenho uma meta para 2013: viver com a Andresa Salgueiro. Não, camarada, não há aqui nenhum equívoco. Eu quero mesmo dizer viver com a Andresa. Não é como, é com. Para tal, conto ir até Marrocos dar a minha mulher para troca. Basta-me um camelo para a viagem de regresso. Pelo caminho, deixo as filhas numa qualquer instituição católica. Estou certo de que carecem de criancinhas frescas como o estômago do Passos Coelho carece de vegetais. Depois, juntar-me-ei à Andresa no projecto Believe. Podia ser Acreditar, mas em inglês a coisa fica mais internacional. Com sorte, chegaremos à Serra Leoa com estas ideias fantásticas. Se não chegarmos à Serra Leoa, talvez cheguemos a Marrocos (onde a minha mulher estará, rodeada de camelos). Quem diz Believe diz Croire. O que interessa é chegarmos lá fora, patentearmos a ideia, faremos do terceiro mundo o nosso porto de abrigo. Descobri neste início de ano que há em mim um profundo desejo de mudança. Já deixei de fumar, comecei a correr e comprei o livro de receitas do Pedro Passos Coelho. O Jamie Oliver que se amanhe, com as receitas do Passos Coelho e uma alimentação saudável, à base de sementes, a felicidade sorrir-nos-á a cada segundo das nossas vidas. Desde há muito que, tal como a Andresa, eu quero ser eu próprio, seguir a minha missão de elo entre várias pessoas e grupos. Pensei em orgias, sanduíches e outras variantes, meti-me no facebook, licenciei-me em Messianismo e Profecias na Universidade do Relvas, mas agora a Andresa desbravou-me o caminho e iluminou-me o futuro. Eu hei-de sobreviver trocando aquilo de que preciso pelo que de melhor posso dar. A Andresa espera não ter de gastar 1111 euros durante um ano, eu tenho a certeza de que não gastarei um tostão. Só se for para comprar palha para o camelo. As despesas mais formais estão garantidas pela frugalidade do consumo. Não preciso de água porque não tomarei banho, excepto se a Andresa me o exigir quando vivermos juntos. Beberei o que o céu me oferecer e a terra me proporcionar. Tenho um livro que explica como se fazem estas coisas. E como já o li, bem que o posso trocar, sei lá, por uma dúzia de suculentas tangerinas. A minha luz será a Andresa, de nenhuma outra luz carecerei para ser feliz. De gases estou bem servido e o seguro e o selo do carro deixarão de ser necessários, pois venderei o carro para poder ir até Marrocos trocar a minha mulher pelo camelo com o qual começarei a deslocar-me para todo o lado. Para pagar a Internet, farei uma troca com a Andresa: ela dar-me-á a sua palavra passe e eu dar-lhe-ei muitos beijinhos e palmadinhas no rabo. Como em Fevereiro ou Março estaremos a partilhar casa, ela disponibilizar-me-á o quarto em troca do meu entusiasmo. Nenhuma adversidade me fará baixar os braços neste objectivo. Depois de recentemente me terem assaltado o carro, levando-me os telemóveis (tinha um para cada orelha, como os brincos), as chaves de casa, os cartões de identificação, incluindo o de aderente FNAC, e até a placa dentária e a máquina de enrolar charros, mantive o espírito positivo e recorri a trocas para resolver quase tudo. Troquei o vidro partido do carro por um saco plástico do Modelo, deixei de usar orelhas, pelo que já não precisarei de telemóveis, tenho a porta cá de casa sempre aberta, estou à espera do meu novo passaporte russo e marquei consulta com um curandeiro de Djemaa el-Fna para dentes novos a troco de muito amor e carinho. Desistir está, portanto, fora de questão. Deixei-me seduzir pelo conceito Believe a ponto de estar seriamente empenhado em seduzir o conceito Andresa Salgueiro. Sinto neste momento uma energia nova a obsidiar a minha vida, sinto isto desde que o projecto da Andresa deixou de ser o meu projecto para passar a ser o meu projecto a própria Andresa. Tem sido uma experiência hipergratificante e a minha vida deu uma volta de 360 graus e mais alguns centímetros. Há pessoas que me deixam sacos com comida à porta (acho que é comida, a fome não regateia), a Quitéria trocou comigo 21Kg de batatas por um par de estalos (eu dei as batatas) e no bairro pressente-se já todo um futuro mais ecológico, saudável e feliz. Os ciganos vão à lenha, ateiam o lume, eu contribuo com os gases. Os meus consumos são muito baixos, estão mais ou menos ao nível das solas, o que faz com que me comece a alimentar de forma mais saudável com alimentos da terra. Dantes só comia porcarias caídas do céu. Também não compro coisas desnecessárias, tais como brincos e lenços de pescoço Jonet ou mesmo roupa. Prefiro andar roto e nu, apesar do frio, mas muito dignamente roto e nu. A roupa só me servia para encher o ego, não a alma. A alma, eu encho-a de Andresa. Acho que num futuro a médio longo prazo deixarei de usar dinheiro e serei sustentável, ecológico, saudável e feliz. Sempre que visito os meus avós no cemitério verifico que será essa a minha realidade. Por enquanto, camarada Van Zeller, quero apenas deixar uma mensagem para quem ambicionar seguir-me o exemplo: estamos sempre a tempo de mudar as nossas vidas, de mudar a nossa família, de mudar a nossa cidade, de mudar o nosso país, de mudar o nosso mundo… Qualquer cidadão da Eritreia sabe que isto é verdade. Mas tudo começa apenas e só quando começamos a acreditar em nós. Eu comecei a acreditar muito em mim desde que comecei a acreditar muito na Andresa. Não tenho dúvidas de que vale a pena acreditar na Andresa, no Pai Natal, nas fadas e nos querubins.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

CERTO DA MINHA VIDA E DA MINHA MORTE, OLHO OS AMBICIOSOS E QUERIA ENTENDÊ-LOS.

R. Maria da Fonte, Lisboa. 2012.


(...)
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, rápido ao atacar.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes da mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um ganido de guitarra, alguns retratos e uma velha espada,
a clara prece do salgueiral nos entardeceres.
O tempo está a viver-me.

(...)

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Jorge Luis Borges.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #77


Um qualquer acto falhado que ainda estou para entender levou-me a omitir Valtari, dos islandeses Sigur Rós, neste pessoalíssimo balanço de 2012. Não o ter encontrado nas tradicionais e patéticas listas de melhores do ano, disseminadas pela imprensa escrita, weblogs e afins, avivou-me a memória. É provável que a música dos Sigur Rós seja já parte tão integrante da minha vida que nem me lembre dela quando é para me lembrar de alguma coisa. Suponho que aconteça com toda a gente este estranho fenómeno de só nos lembrarmos do que é muito nosso quando, por alguma razão, deixa de o ser. O único comentário a Valtari que me recordo de ter escutado ou lido, não posso precisar, foi o de que se tratava de um álbum chato. Talvez não tenha sido este o epíteto, mas a ideia que me ficou foi essa. A música chata dos Sigur Rós transporta-nos para universos transcendentais, difíceis de aceitar a quem não tenha dentro de si qualquer predisposição mediúnica. Os sons que se escutam neste registo, como nos anteriores da banda, provêm deste mundo, mas transportam-nos para um outro, não oposto a este, mas dele diferente, como sempre faz a melhor arte. Ao contrário de alguns projectos congéneres movendo-se naquilo que se convencionou chamar de post-rock, os Sigur Rós enjeitam paisagens urbanas decadentes, com edifícios em ruínas, preferindo embarcar em navios fantasma numa viagem levitante com momentos épicos e oscilações de volume de acordo com as marés. Esta viagem é íntima, penetra nas coisas como o tempo na carne, movimenta-se no interior da matéria trazendo à superfície, sob a forma de som, uma realidade desconhecida e misteriosa. Tem o dom, por assim dizer, de reproduzir mistérios que nenhuma ciência explica. É arte. Daí que, no seu decurso, escutemos vários sons perfeitamente identificáveis, embora por vezes improváveis, acompanhados pela lentidão das cordas e uma quase estática melodia fluindo do motor mais típico da música dita popular. Porque a música dos Sigur Rós não é projectada pelos instrumentos, ela flúi dos instrumentos como se estes fossem uma fonte natural de sons, melodias, ritmos. O melhor de 2012 estará invariavelmente ligado a este Valtari, por mais que demorem certas pessoas a perceber o quão chata é a beleza.

UMA ATRÁS DAS OUTRAS


Camarada Van Zeller, o Governo de Miguel Relvas resolveu baixar, mais uma vez, as indemnizações por despedimento. Fê-lo sem dar cavaco a ninguém. A CGTP fala em vigarice, a UGT queixa-se de violação. É provável que o camarada Ulrich venha a terreno sugerir vaselina no rabinho da UGT, com o camarada Borges a sorrir de boca fechada, como fazem as almas aristocráticas, enquanto o Arménio berra e ninguém liga. Este país de orelhas moucas tem no presidente Cavaco a coisa que merece. Cavaco chegou a primeiro-ministro em 1985, conseguindo posteriormente duas maiorias absolutas (87 e 91). Ao todo, foram 10 anos de governação. Do seu legado, basta lembrar esse lupanar de putas finas e grossos proxenetas conhecido por BPN. O povo, sempre atento ao essencial, aguentou, aguentou, aguentou o cavaquismo durante 10 anos. Não satisfeito com tamanha empreitada, resolveu dar-lhe mais 10 no poleiro da República. E vão 20, de Cavaco, em 38 de democracia. Não fosse o planeta dos macacos ideia dos sessentas, acreditaríamos ter Pierre Boulle encontrado inspiração nesta república de bananas. Só mesmo um povo primata para aguentar tanto tempo nos mais altos cargos do poder tal abocanhador de bolo-rei, com seus tabus e históricos silêncios. Mas não se julgue, camarada Van Zeller, que esta fava que raramente se enganava e nunca tinha dúvidas não evolui como qualquer criatura à face da terra. Darwin poderia mesmo, fosse vivo, iniciar aqui, neste alucinante couto de chimpanzés, uma nova teoria sobre a evolução. Cavaco agora tem dúvidas, está mais próximo de qualquer ser humano dito normal. Qualquer dia ainda se lembra de começar a elogiar a quietude das vacas no momento da ordenha. Para já, pediu ao Tribunal Constitucional a vigilância da inconstitucionalidade de um Orçamento de Estado. Porque a realidade, por mais que o pobrezinho da reforma que não lhe dá para as despesas sugira o contrário, é clara e óbvia como o cogito, ergo sum: na esfera do poder político, já ninguém liga puto à Constituição da República Portuguesa, um texto sucessivamente desrespeitado pelas práticas políticas de quem lhe jura respeito e lealdade. Por mim, caro coiso, bem podes dedicar-te a deliciar vacas:
 


sábado, 29 de dezembro de 2012

TRUE GRIT (1969)


Em 1969, John Wayne tinha 62 anos e contava com centenas de participações em filmes de sucesso e de interesse desigual. A sua reputação como actor estava estabelecida, confundindo-se em grande parte com a figura de herói do Oeste consolidada por inúmeros papéis em westerns de relevo. Realizadores como John Ford ou Howard Hawks foram alguns dos melhores com quem trabalhou. Não tão reconhecido como estes, Henry Hathaway (1898-1985) também deu cartas no género. True Grit, adaptação do romance de Charles Portis, foi o derradeiro dos seus westerns e um dos últimos filmes que realizou. A escolha não podia ter sido melhor, valendo a John Wayne um Oscar pelo desempenho como melhor actor principal.
Exibido por cá com o título A Velha Raposa, True Grit mistura numa só história vários elementos típicos do western: a caça ao homem, o contraste entre o território selvagem onde decorre a maior parte da acção e as cenas iniciais em Fort Smith, as relações de confiança/desconfiança entre as várias personagens, a problematização de uma justiça demasiado personalizada. Podemos mesmo dividir o filme em duas partes. Uma primeira concentrada na cidade, com as suas instituições e formalidades. A outra, no território selvagem para onde a jovem Mattie Ross, o Marshall Rooster Cogburn e o ranger do Texas La Boeuf se deslocam no encalço de um assassino em fuga.
Esta deslocação permite-nos acompanhar duas realidades distintas, a da cidade com as suas formalidades e a de um mundo onde a coragem se sobrepõe às formalidades na consecução da justiça. Contraste tanto mais importante quanto se revela claro o retrato de Fort Smith traçado nas cenas iniciais, com um triplo enforcamento público e o juiz a assistir à execução na varanda do tribunal. Na pensão onde Mattie e La Boeuf estão instalados, este tem de tirar as esporas, quando se senta à mesa, para não riscar as cadeiras. Mas a Mattie Ross (Kim Darby) não convêm tais formalidades. Para vingar a morte do pai e capturar o seu assassino, Mattie contrata o mais duro e rijo dos oficiais de justiça.
É o velho e sórdido Marshall Rooster Cogburn (John Wayne), alcoólico, zarolho e nada formal, quem ela contrata. A ambos junta-se La Boeuf (o cantor Glen Campbell), que também anda no encalço do mesmo fugitivo por razões diversas mas com o mesmo propósito. Tom Chaney, o assassino em fuga, abrigou-se no bando de Ned Pepper (Robert Duvall) em território índio. É por lá que se desenrolará grande parte da acção, quiçá a mais relevante. O contraste entre Fort Smith, com os seus tribunais, advogados, com as suas prisões e enforcamentos públicos, com as suas negociatas e o seu convencionalismo social emergente, e o comportamento destas personagens em território selvagem é deveras elucidativo de um distanciamento (ou de uma aproximação) dos valores essenciais que constroem os grandes seres humanos.
Daí que o elemento essencial neste filme acabe por se revelar apenas no final, quando vimos desabrochar na personalidade pedregosa de Rooster Cogburn um comovente paternalismo para com Mattie Ross. Dentro do velho Cogburn ainda florescem sentimentos e emoções. Torna-se fácil de entender o quão emblemático é este papel na carreira de um actor como John Wayne, desmascarado aos 62 anos pela interpretação de um velho Marshal de reputação duvidosa. O lado sentimental e afectuoso da personagem confere-lhe uma dimensão humana que já não é apenas a do herói implacável e algo sobre-humano, é a de um indivíduo com as suas fragilidades ocultadas pelo manto da coragem e da determinação.

CONTRIBUTO PARA UMA HISTÓRIA DO MODERNISMO

Pré-Modernismo:

Je est un autre.
Jean Arthur Rimbaud

Modernismo:

Eu-Próprio o Outro.
Mário de Sá-Carneiro

Pós-Modernismo:

Nós não somos duas pessoas.
Pedro Passos Coelho

COMBOIO DAS CINCO

 
Luís Afonso (1965) é um conhecido cartunista português cujo talento pode ser facilmente comprovado, por exemplo, nas páginas do Público. Recentemente, a editora Abysmo publicou-lhe O Comboio das Cinco (Outubro de 2012). Não é um livro de cartoons, embora o género esteja presente à laia de separadores que acompanham uma novela dividida em seis capítulos. Cada capítulo corresponde a uma cena no argumento de um filme que o escritor pós-moderno Lopes tenta escrever. Partindo do princípio amplamente reiterado de que os livros são sempre melhores do que os filmes, Lopes entrega o seu livro, ainda por escrever, ao realizador do filme que o adaptará. A ideia pode parecer algo rebuscada, mas revela uma indubitável argúcia nos métodos do escritor pós-moderno: fazer um filme baseado num livro que será influenciado pelo filme. Sentimo-nos tentados a parafrasear o realizador a quem Lopes entrega o seu livro inacabado, afirmando que há aqui muita coisa por analisar. A primeira coisa que nos vem à tona, sem pretensões hermenêuticas escusadas, é a de que este "pretexto diegético" introduz-nos no muito português universo da chico-espertice. De resto, o ambiente conjugal que caracteriza a primeira cena pode muito bem ser lido como uma parábola introdutória da relação que os portugueses mantêm com a pátria. Fugir, nem que seja para Espanha, é solução que não está fora de questão, fugir de um país onde os neologistas se revoltam contra acordos ortográficos num arrobo nacionalista que nunca penalizou o mau uso da língua; fugir deste clima onde todos são maus, horríveis, péssimos, excepto nós próprios e quem nos ouve dizer que todos são maus, horríveis, péssimos; fugir de uma sociedade que se despreza e maltrata diariamente, mas não suporta ver-se acusada do que diz de si própria por quem a olha do outro lado da fronteira. Mas isto sou eu em pleno delírio, armado em escritor pós-moderno, sem indicadores de qualidade literária nas margens do post (ou deverei dizer entrada?). O livro de Luís Afonso não é sobre nada disto, é uma mera paródia a um país com gente parada numa estação onde jamais chegará o comboio por quem todos esperam. Chame-se Dom Sebastião ao comboio e temos aqui uma versão pós-moderna do messianismo português, com alguns desvios nada inocentes como o facto de toda a gente fazer de conta muito a sério que o comboio chegará e que a estação funciona. País do faz de conta, talvez, estação do faz de conta,  quem sabe, mas de um faz de conta que se leva suficientemente a sério para que todos os actores possam negar a si próprios a condição de actores. Como o putativo suicida que se deita na linha do comboio sabendo que ali não passará comboio algum. O que importa, afinal, é a intenção. O logro não advém da mentira, como nos prova o recente caso do presumível burlão Artur Baptista da Silva. O logro advém da verdade não ter a sustentá-la os pergaminhos que a tornam credível. Ou seja, o pregão nunca é tão valoroso quanto o pregador. Por isso tão facilmente resvalamos, neste país de faz de conta, numa espécie de esquizofrenia atrofiante que nos inviabiliza toda e qualquer compreensão da realidade. Porque a realidade já se confunde de tal modo com a aparência que a aparência ameaça tornar-se na única realidade. Paradigma da esquizofrenia é a cena IV d'O Comboio das Cinco, onde o presidente de um clube entra em conflito com o presidente da Junta de Freguesia local por causa da cedência de terrenos. Tudo muito banal não se desse o caso de ambos, presidente do clube e presidente da Junta, serem uma e a mesma pessoa. A dimensão hilariante deste conflito pode muito bem servir de exemplo, neste país ziguezagueante onde toda a gente conhece toda a gente sem que ninguém se conheça a si próprio. E esse talvez seja o verdadeiro problema de quem espera pelo comboio das cinco: saber que ele não vem e, no entanto, continuar à espera. Como se nada fosse.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

BONDADE, CARIDADE, SOLIDARIEDADE


Amigo Pedro, hoje dirijo-me a ti. O camarada Van Zeller foi passar o ano nas Maldivas, está demasiado longe para que a minha voz lhe chegue. Acabei agora mesmo de ler a tua mensagem de Natal no Facebook e só posso dizer-te que me sinto profundamente desiludido. Afinal, Pedro, és tão piegas quanto a maioria dos portugueses. A época natalícia desmascarou-te, despiu-te da armadura de ferro, amoleceu-te. Falas-nos como se fosses um convidado da Oprah ou um entrevistado do Alta Definição, esvaindo-se em lágrimas de menino pendurado numa qualquer parede de um qualquer solar português. Dizes, ó Pedro, que este Natal não foi o Natal que merecíamos. Reconhece-lo depois de teres acabado com essa gordura social do décimo terceiro salário. Convenceste-nos de que precisávamos de fazer dieta, e agora vens vender-nos a banha da cobra em que terás banhado as azevias da Laura. Lamentas que muitas famílias não tenham gozado na Consoada “os pratos que se habituaram”, como se os pratos tivessem hábitos. E que muitos não conseguiram ter a família toda à mesma mesa, como se isso fosse um problema para quem já nem mesa tem. Quanto mais família! Deves pensar que andamos todos a cultivar afectos, estimulados quiçá pela literatura da E. L. James. Mas tu não vês, ó Pedro, que os velhos foram abandonados, as criancinhas deglutidas e os gérmenes secados que nem figos? Não andas a escutar com atenção o Presidente da República. Se escutasses, também tu questionar-te-ias sobre o que mais é preciso fazer para que nasçam crianças em Portugal. E também tu ficarias fascinado com a mungidura das vacas e os méritos do bolo-rei em bocas amordaçadas. Os portugueses que não puderam dar aos filhos um simples presente deviam dar os filhos a este Pedro. Ele que os crie com pratos de Sacavém. Ó Pedro, tu não és assim. Tu és outra coisa qualquer, tu és um Trinitá da política portuguesa. Resta-me a esperança de que esta tua metamorfose não seja, em boa verdade, tão piegas quanto aparenta. Talvez sejas um menino da lágrima a verter crocodilos pelos olhos. Afirmas, numa sintaxe elíptica de fazer inveja aos maiores poetas da língua portuguesa, que “já aqui estivemos antes”. Interrogo-me sobre onde será o aqui em que estivemos, tu e eu, Pedro, os dois, antes. A comida que então esticava para todos lembrou-me a sardinha para três de que tantas vezes me falou meu pai, mas nesse tempo não havia presentes maiores nem menores, as pessoas não lavavam os dentes e poupavam no banho. Não havia presentes, nem solas nos sapatos. Ponto final parágrafo. Este ano que para muitos foi um ano cheio de sacrifícios, Pedro, não foi “apenas” mais um ano. Foi o ano em que vimos a excelência administrativa de um Oliveira e Costa a ser premiada com mesas exíguas na Consoada das famílias portuguesas. Pergunta ao José Oliveira e Costa de que tamanho era a mesa dele, e que prendas deu à filha Iolanda, e pergunta ao Caprichoso que pratos lhe levaram à mesa, e ao Monteverde se dividiu as sardinhas, e ao Duarte Lima se comeu bacalhau ou se partilhou com o filho uma lata de atum, pergunta ao Arlindo Carvalho e ao Almerindo Duarte e ao Dias Loureiro, e ao Aprígio e ao Joaquim Coimbra e ao Fernando Fantasia e ao Catum, que conhecerás bem melhor do que qualquer um de nós, pergunta-lhes, Pedro, os sacrifícios que têm feito. Pergunto-te eu, Pedro, se é neles que pensas quando pensas nos que estão a sofrer. Se não é, devia ser. Devias pensar mais neles e noutros como eles, como esses a quem vais dando abrigo nas tuas lágrimas de Pedro. Pergunta ao Relvas se dividiu o bacalhau com os angolanos. Ou então aprende com o César das Neves e deixa de ser piegas, varre essas mensagens de facebook para debaixo do tapete como fizeste com todas as promessas que te trouxeram ao poder. Emigra, ó Pedro, faz desta crise uma oportunidade, desperta o que de melhor há em ti, mata-te, emigra, enclausura-te num mosteiro, faz qualquer coisa de útil para todos nós. Leva a Laura a passear à Sibéria e não regresses. Porque não é com orgulho que fazemos sacrifícios, estimado Pedro, muito menos supondo que esses sacrifícios trarão aos nossos filhos um futuro melhor. Mas qual futuro, ó Pedro? Tu, que ainda vês futuro onde já só se avista desesperança, explica-nos como alegrar os dias num país onde a morte ultrapassa a vida. Tu não percebes, Pedro, que estás a falar para 900 mil desempregados e outros tantos perto de o serem? Ou julgarás que só a Jonet e o César das Neves fazem um país inteiro? Pedro, ao pé de ti o embuste Artur da Silva é uma anedota para entreter meninos, uma piada de mau gosto, um número de stand-up comedy. Tu sim, Pedro, tu és o grande embuste que nos saiu na rifa, tu mais as tuas garantias e a alegria misericordiosa das Jonet e dos César das Neves, o vaselina Ulrich e o Relvas da consciência tranquila. Tenho a certeza de que caberão todos a uma mesma mesa, a mesa dos caras-de-pau. À bondade, caridade e solidariedade da tua estirpe, eu continuo a preferir sentar-me à mesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade… Pedro.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O BARRETE DO PAI NATAL


Camarada Van Zeller, este Natal ficará marcado pela decomposição do mito. Perdoe-me a sofisticação do discurso, mas estou em crer que também eu, com algum treino, podia ser especialista em alguma coisa. Podia ser entrevistado em jornais de referência, podia ser convidado para programas de informação de referência, podia ser citado por jornalistas de referência, podia transformar-me numa referência para opinantes vários, disseminados pelos mais diversos canais onde a opinião circula como bosta no esgoto. Ficámos então a saber que o Pai Natal existe, chama-se Artur Baptista da Silva. No país dos Silva, este Artur podia ser um alto destacado das Nações Unidas para um putativo centro de estudos, podia ser consultor do Banco Mundial, podia ser professor numa universidade norte-americana. É óbvio que no país dos Silva tudo é sempre o que não parece e o que parece nunca é, pelo que este Artur, afinal, foi antes parte do Conselho de Fiscalização do Sporting nos gloriosos tempos de Jorge Gonçalves, o bigodes, esteve preso por burla, abuso de confiança, emissão de cheques sem cobertura, é um tonto com perfeito domínio dos dossiers. Quem lhe deu cobertura, e não foi pouca, foram os media portugueses, sempre exigentíssimos na averiguação das fontes e criteriosos no aprofundamento e na investigação das notícias. Mas num tempo em que a notícia se confunde com a opinião, sem rede protectora a proteger os trapezistas da doxa que não seja o mero acto de aparecer - porque, como sabemos, neste mundo de auto-estradas informativas quem não aparece não existe -, ser um Silva com lábia é tudo quanto basta para apanhar o Expresso da Meia-Noite. "Vai-se a ver", as auto-estradas são carreiros de cabras, o expresso uma carroça puxada por dois burros, o mundo uma ilusão. Camarada Van Zeller, o Noel existe e chama-se Artur. Esta história é linda porque torna clara e inequívoca, cartesianamente evidente, a debilidade da opinião publicada. Muitas vezes nos interrogamos sobre o que saberão aqueles que aparecem canal sim, canal não, programa sim, programa não, a proferir banalidades em retórica bem ou mal articulada. Interrogamo-nos sobre se terão tido tempo para estudar os assuntos sobre os quais proferem as mais convincentes asserções, já que é tanto o tempo que passam a saltar de canal em canal repetindo teses e argumentos. Se gastam tanto tempo a opinar, que tempo lhes restará para estudar? Ora aí está mais um Silva a dar conta da superficialidade de tudo isto, do chamado universo mediático e das suas constelações. Ora aí está a mais perfeita ilustração de um reino onde o vago, o fútil, o laxismo, a vaidade, a ausência de espírito crítico, em suma a incompetência e, pior, a promoção dessa mesma incompetência ao serviço da MENTIRA, dita regras e precipita um burlão na parangona dos homens que merecem ser escutados. O barrete do Pai Natal só o enfia quem quer. Não fosse trágico, isto seria cómico. Porque isto é, afinal, da mesma ordem daquilo que mete Relvas no poder e os livros do Camilo Lourenço no top de vendas das livrarias nacionais. Isto é mais um sintoma de uma sociedade alicerçada no facilitismo sem o mínimo sentido da exigência que a verdade reclama. Isto é Portugal, o país dos Silva, dos messias, do nevoeiro, das aparições. Isto é todo um povo sumariado.

domingo, 23 de dezembro de 2012

O CANIL DOS CÃES ZAROLHOS

para o António Cabrita

 

 

desgraçadamente ladram mas não mordem

buscam nas urnas os donos
e estes passando a mão pelo pêlo
roubam-lhes a ração da boca
logo à boca das urnas

sempre fiéis e de beiços arreganhados
basta um açoite no traseiro
para ficarem mais obedientes e servis

os cães afiam os dentes
temendo as garras e os bicos dos abutres
numa ilusão - rasante às ciladas
da vida - gretada de palavras febris

uns ousam ladrar mais acirrados
correndo o risco de serem encarcerados
enquanto outros saltam a cerca
antes da manhã derramelar as hienas

e há os que se atiram contra o arame
farpado
             esfarrapando-se em massa
num mimetismo desesperante

subalimentados ladram docinho
roçando as pernas dos donos
para ganhar um osso
na praia dos trompetes em chamas
à beira-mar da noite espezinhada
pelo terror das hienas
enquanto anónimos suicidam-se
no sussurro da infâmia
defronte aos que mastigam bolores
para sobreviverem

a caridade vai derramando asfixiante
misturando-se a um crude solidário
                                                        legal
e é legal ladrarem um poucochinho
manifestando a ira de açaime sindical

cães velhos corroídos de crostas infecciosas
e respiração barbitúrica
rosnam aos espelhos do requiem
sabendo serem um enfarte de trabalhos
aos tratadores do canil

os veterinários vão ministrando remédios
contra-indicados corroborando
na deterioração lenta das carnes
embebidas em minutos sem sangue
cozinhando a ração para ser distribuída
aos da lista de espera que teimosamente restam
entre restos de lixo e lixos da fé

colocam açaimes controlando a informação
e uma coleira de mecânicas palavras escolhidas
repetidas até à exaustão

a imprensa tornou-se parasita e
os jornalistas uns piolhos de salão
alimentando-se de noticias tosquiadas
                                                              ocultam
a incómoda realidade para as hienas

os comentadores do regime viraram coveiros

e dentro das valas vão-se babando
as carraças que gravitam ao seu redor
vendendo-se para se sentarem à mesa
dum ficcionado banquete do real

com pedigree romano/nazi
tem o canil uma nova dona que vem
descaracterizando os sinais únicos
do âmago duma pátria
 
aos peixes saquearam as espinhas
aos frutos os caroços
e um temporal não se levantou

caminhantes dos atalhos moribundos
lançam ao passar pelos dias de esgoto
sementes bolorentas sabendo de antemão
ser o seu gesto inútil
                                  ser e nada brotar

rosnam trovões sob a morte das searas

lembranças do purgatório ateiam fogo
às papoilas
                   ao redor jovens cachorros
arregaçam os caninos aos escaravelhos
que esperneiam nos subúrbios do planeta
                                                                    em agonia
entrançando de nuances uma existência aziaga

nocturnos eram os rostos
diurnos os sonhos improváveis

improvável era encontrar os teus dizeres
guardados numa gaveta de nuvens
prenhas de anjinhos com açaimes  
percorrendo lentamente o vazio
onde ao centro um fedelho agrafa
penas de toutinegra nas asas do vento
a raspar a saudade
                                apunhalando os rostos
no enterro do pensar porque
                                               pensar é um veneno
e os retratos ardem nos lugares alertando
ser o amor um tumor de pó e cinza

perseguem estrada fora os da paz
                                                        uma antiguidade

mão de fogo outra de água espelhando o vulcão
cuspindo cadáveres enforcados
depositando a lava para os olhos
dos tempos que hão-de vir
                                            cegando de pavor

pela estrada paralela caminham os da guerra
seguindo por agora no contrário dos outros
reacendendo um sangue no peito

ao fundo a encruzilhada

assim chegámos assim chegaremos
à roda a um fim de mínimos de tudo
onde o todo é um nada

aos cães bastaria
alimentarem-se bem na infância

daí para a frente o cagado seria o alimento
continuado num circulo rotineiro
até a morte aparecer para se alimentar da luz
e cuspir a carcaça

o mundo
               mal cheiroso
confluindo merdas de vendáveis ilusões

como não é meu designo governar
fazer curriculum perpetuar a espécie
nem mesmo proferir oratórias
com estandartes bordados de lambidelas
a um qualquer regime
uso por hora as letras
                                    para dinamitar
o covil das hienas eleitas
com um cante ao desafio

é escusado irem ver a barca bela 
pois já não se faz ao mar 
a treta nunca foi nela
e os escravos é que iam a remar

santa Merkel é o piloto 
o FMI o general 
que nojento trapo levam
o fado de Portugal

as palavras sempre pertenceram à morte

um dia um cachorro das últimas ninhadas
ladrará bem alto pela libertação do canil
ferrando os dentes nas contorções das hienas
até o veneno fritar-lhes o cérebro no parapeito
da janela defronte à estrada muralhada
de cadáveres em vinagre e nadas

nesse tempo de nova rotina doméstica
eu já não andarei por estas bandas

nesse tempo os homens voltarão
por algum tempo de novo a ler
nos remoinhos do saber mais além
enquanto lá longe vou minguando
em busca dos meus olhos laminados
por gente vil que conseguiu tornar-me
na dor que lhes convém

cego seguirei para voltar ao sofrimento da terra
onde todos os trajectos de
                                           todos
os lugares vão sempre dar à morte

por hora
por hora volto
                       ao aconchego dos braços

o pouco que me resta


 

Jorge Aguiar Oliveira
Inédito. Cacilhas, Dezembro de 2012

PRESENTE DE NATAL PARA MIGUEL RELVAS


sábado, 22 de dezembro de 2012

QUERES SABER O QUE EU PENSO?


R. Angelina Vidal, Lisboa. 2012.


Que ela queria apenas viajar. Penso que não tinha a menor ideia de encontrar fosse onde fosse aquele que dizia andar à procura. Nunca teve essa ilusão. Mas nunca o tinha dito a ninguém. Na minha opinião, era a primeira vez na sua vida que se encontrava tão longe de casa que não podia lá chegar antes do sol posto. E chegara até este ponto sem dificuldades, com toda a gente a ter muitos cuidados com ela. Creio que foi só por isso que ela decidiu ir sempre andando um pouco para mais longe, ver o maior número de terras possível, porque, cá no meu entender, ela bem sabia que uma vez fixada em qualquer lugar, ali ficaria, com certeza, até ao final da sua vida. Isto é o que eu penso.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: William Faulkner.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #76


Encantadores de serpentes, discípulos de Xiva, os King Kooba são um duo de música electrónica com especial inclinação para a manipulação de sons com origem nas terras do Bhagavad-Guitá. Charlie Tate e Matt Harris (DJ Shuff) estrearam-se em 1998, tendo almejado alguma projecção com o registo do ano seguinte: Enter the Throne Room. Sem o sucesso de uns Kruder & Dorfmeister ou dos Thievery Corporation, movimentam-se em circuitos semelhantes. O que os distingue dos demais é a opção por ritmos não tão introspectivos, optando antes por estruturas drum’n’bass com breves incursões na música soul e no jazz e na world music. Como em tantas coisas na vida, o fascínio de um disco como este reside sobretudo nos defeitos, nas discrepâncias, nas oscilações de talento que nos permitem falar de coisas tão vagas como inspiração. Em alguns temas, os King Kobba parecem estar exclusivamente interessados em fazer dançar as pedras. Fraternety, em colaboração com MC Chickaboo, possui um ritmo avassalador, mas não dispensa sons de fundo que podiam ter sido recuperados nos flancos poeirentos de um qualquer templo perdido nas florestas orientais. Há nestes enlaces uma hábil capacidade de fazer conciliar a espiritualidade hipnótica do mantra com a desconstrução rítmica, tipicamente urbana e ocidental, do hard bop. O talento para a manipulação não está nas mãos de qualquer um. Os King Kooba têm mais desse talento do que reconhecimento popular. É a vida.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE (1962)


Porque, como dizia o outro, isto anda tudo ligado, quem tiver visto Once Upon a Time in the West (1968) terá reparado que o actor negro da sequência inicial é Woody Strode, que ficou para a história do cinema como o actor negro de John Ford (1894-1973). Nessa sequência inicial do filme de Leone, passada numa estação de comboios, Strode é um dos três pistoleiros que o homem da harmónica mata. Obra repleta de envios e de citações, Once Upon a Time in the West revela, logo de início, a intenção, posteriormente confirmada, de Leone abandonar o western. O assassinato de Strode não é, pois, inocente, tem algo de emblemático no contexto geral da filmografia do realizador italiano.
Um dos westerns de Ford em que podemos ver Strode é este The Man Who Shot Liberty Valance, no papel de Pompey - encarregado do rancheiro Tom Doniphon. Ainda que se trate de um papel secundário, foi, como outros atribuídos por Ford, de uma extrema importância para a afirmação dos actores negros num universo criativo liderado por brancos. De resto, este filme de Ford tem algumas linhas de diálogo onde se releva aquele “moralismo fordiano” que, de certo modo, acabou por estigmatizar a sua obra. No entanto, The Man Who Shot Liberty Valance é tudo menos um filme moralista. Coloca o público numa arena moral cujas respostas ainda hoje se mantêm sob a forma de interrogações. E as suas personagens, filmadas sempre com a sombra a persegui-las, são mais contraditórias/artísticas do que exemplares/científicas.
O filme começa com um comboio a chegar à cidade de Shinbone. Dentro do comboio vêm dois ilustres habitantes da terra, há muito emigrados: o senador Ranson Stoddard (James Stewart) e sua mulher Hallie (Vera Miles). O que os traz de regresso? O funeral de Tom Doniphon (John Wayne). A narrativa desenrolar-se-á, então, em flashback, com Ranson Stoddard a recordar os tempos em que chegou à cidade quando ainda era um jovem advogado e como se encontrou com Tom Doniphon depois de ter sido assaltado pelo fora da lei Liberty Valance (um enérgico e ruim como as cobras Lee Marvin). Este regresso é pautado por uma nostalgia que demarca o passado do presente, aponta para as mudanças na paisagem geral e no comportamento dos cidadãos.
Agora, os homens já não andam de coldre à cintura, a cidade passou a ter igrejas e escolas, os seus habitantes adoptaram os modos civilizados de um mundo onde tudo é política e oratória. Esta contraposição permitir-nos-á entender o cerne de um problema geograficamente definido pelas linhas que separam o leste do oeste, a cidade do campo, os livros de direito das armas. Distantes um do outro, mas não tanto quanto isso, o jovem advogado Ranson Stoddard e o rancheiro Tom Doniphon têm soluções diferentes para um mesmo problema: Liberty Valance. Eles são personificações do dilema que há muito assola os americanos, confiar na lei ou nas armas a protecção de que carecem quando se sentem ameaçados. A evolução, o progresso, parece ter dado mais força aos livros de direito. Mas não será isto um grande equívoco?
Aceitamos a dúvida quando somos confrontados, em pleno século XXI, com mais um massacre numa escola norte-americana e novamente se discute nesse país o acesso fácil às armas de fogo. O toque conservador que denunciamos nos filmes de John Ford readquire, por força da história, uma pertinência atroz. O velho Oeste ainda está vivo naquela região, apesar das escolas e das igrejas, assim como estão vivos o medo e a violência no sangue da humanidade. Não sei se se trata de um problema ontológico, mas compreendo que se procure solucioná-lo por intermédio da política.
Daí que o filme de Ford, na oposição que alimenta entre armas e direito, sem que se incline para qualquer uma das soluções - pois, como veremos, toda a narrativa política do filme assenta num equívoco temperado por sentimentos bem mais íntimos como o amor a uma mulher (a menina Hallie do restaurante dirigido por um casal de emigrantes suecos!) -, resulte como uma equação intrincada e filosófica, nada silogística e muito pouco moralista. Mas The Man Who Shot Liberty Valance é também, além de tudo isto, um elogio à imprensa livre enquanto poder inalienável num mundo que se queira civilizado, justo e verdadeiro. Este elogio é especialmente paradoxal, pois o filme termina, precisamente, com a imprensa a queimar a verdade sobre a história do homem que matou Liberty Valance. Porquê? Porque no Oeste: quando a lenda se torna um facto, imprime-se a lenda.

POEMA DE NATAL

Para todos os leitores do Insónia


Naquele tempo as luzes duravam toda a
noite. Mas faltava-lhes a eléctrica eficácia de
quem chama, vinde todos comprar um souvenir,
reis magros, corretores da bolsa, funcionários
e teleguiadas tias por estrela que conduz aos
mares do sul, cristãos e bronzeados, a minha vida
dava um filme. Nem sabe o que me aconteceu, o
vestido da Senhora não traz instruções de lavagem
e a vaquinha de polietileno engorda sozinha, eu próprio
já não sinto os olhos de tanto ver as luzes acender e
apagar. Mas uma coisa é certa: Jesus se fosse vivo
havia de ter um partido, ler os tops da Fnac e saber
de cor o nome de todos os ministros. Havia de
sair de casa pela porta da frente, cumprimentar
os jornalistas e conceder duas medidas correctivas dos
excessos do capitalismo; depois, no último degrau
levantaria a palma de sua mão direita e os passantes,
subitamente inundados de um fulgor renascido,
estugariam o passo e entrariam no metro, sorrindo,
acreditando um pouco mais no reino
que tarda a ter um fim.


Rui Costa

In Insónia, 18/12/2007 (aqui)


domingo, 16 de dezembro de 2012

ASFIXIA DEMOCRÁTICA


Talvez um dia as vítimas de asfixia democrática nos tempos de Sócrates venham a pronunciar-se sobre os saneamentos políticos no tempo de Passos Coelho. E que dizer de mais um caso, claríssimo, de perseguição política (chamar-lhe intimidação é um eufemismo) em plena democracia? Democracia? Só quando varrermos definitivamente do poder esta gentalha toda, a começar por esse furúnculo que dá pelo nome de Miguel Relvas. Agridem jornalistas no exercício da profissão, detêm e ameaçam jovens estudantes dentro dos seus estabelecimentos de ensino, carregam indiscriminadamente sobre manifestantes.  E levam pouco mais de 1,5 ano de governação. É obra.

sábado, 15 de dezembro de 2012

PARA PREPARAR PASTÉIS GOSKY

Ponta Delgada, Açores. 2012.

Arranje um porco de três ou quatro anos de idade, e prenda-lhe uma pata traseira a um poste. Coloque 5 libras de passas, 3 de açúcar, 2 celamins de ervilhas, 18 castanhas assadas, uma vela e sei alqueires de nabos ao seu alcance; se ele comer isto, forneça-lhe mais, cosntantemente.
Depois arranje um pouco de natas, algumas fatias de queijo Cheshire, quatro cadernos de papel almaço e um pacote de alfinetes pretos. Molde tudo numa pasta e estenda-a a secar sobre um lençol lavado de linho castanho impermeável.
Quando a pasta estiver completamente seca, mas não antes, comece a bater violentamente no porco com o cabo de uma vassoura grande. Se ele guinchar, volte a bater-lhe.
Vá ver a pasta e bata no porco alternadamente durante alguns dias, e verifique se no fim desse período tudo começa a transformar-se em pastéis Gosky.
Se até então não se transformar, nunca se transformará; nesse caso pode soltar o porco, e deverá considerar todo o processo terminado.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Edward Lear.

ONCE UPON A TIME IN THE WEST (1968)



Há um elemento político em Johnny Guitar (1954) que serviu de moldura a muitos outros westerns. Trata-se da expansão do caminho-de-ferro e das vítimas que o progresso económico arrastou, fenómenos que nunca mudam. Uma das mais nobres dimensões do western é, precisamente, descer aos infernos e trazer à superfície o que se esconde debaixo de terra, desmascarar a realidade, desnudar a sociedade e confrontar-nos, enquanto seres humanos, com os seus podres. Ora, nos subterrâneos desta bandeira do progresso temos o nascimento do crime em grande escala, relacionado com a prospecção de terrenos onde passavam as máquinas a vapor. O mercado imobiliário atingiu nesses tempos valores incalculáveis num país onde a justiça não acompanhava, definitivamente, a velocidade das locomotivas. Surgiram os grandes barões da economia, que ora negociavam a bem com os chamados pioneiros instalados onde menos convinha, ora se rodeavam de capangas para se apoderarem de terrenos onde edificariam grandes cidades.
Se bem se recordam, a chegada de Johnny Guitar ao saloon de Vienna é acompanhada por enormes explosões onde se abre caminho para a passagem da via-férrea. De resto, Vienna instalou o saloon naquele local já na perspectiva de que aí viesse a ganhar um bom dinheiro quando chegasse a locomotiva àquelas paragens. Argumento similar acompanha Once Upon a Time in the West (1968), de Sergio Leone (1929-1989). Não obstante, os elementos políticos no western são quase sempre secundarizados pela força do carácter das suas personagens. Os valores humanos vêm à tona em estado bruto, como ouro negro ou dourado que importa transformar. Um dos aspectos mais fascinantes neste género cinematográfico é a capacidade de narrar personalidades complexas e suas respectivas idiossincrasias em poucas horas, dar a ver o carácter dos homens e a construção da identidade dos indivíduos em escassos frames. Leone foi um mestre na área, não tanto na fase do chamado western-spaghetti (lá iremos) como no seu filme-síntese de 1968.
Once Upon a Time in the West é um filme com contornos que o distanciam da chamada trilogia dos dólares, repleto de evocações e homenagens. Leone coloca em acção duas estrelas do cinema norte-americano, subvertendo a imagem que as suas carreiras haviam projectado e aniquilando vários clichés em torno das boas e das más figuras construídas pelo grande ecrã. Só mesmo o impagável Henry Fonda (mercenário de nome Frank, ao serviço de um barão dos caminhos de ferro) consegue ser totalmente desprezível, o que denota, desde logo, a perversidade de Leone na desmistificação dos seus actores. A Fonda opõe-se Charles Bronson, aqui no papel de um misterioso pistoleiro sem nome que toca harmónica quando devia falar e fala quando devia tocar harmónica. O homem da harmónica é das mais inesquecíveis personagens produzidas pelo western e elevou a um nível superior, diria transcendental, um actor geralmente diminuído aos caminhos estreitos da pura acção.
Embora muitas leituras sejam possíveis, incluindo a tal leitura política que contorna o quadro geral, esta oposição Bronson/Fonda é, para mim, o grande segredo do filme de Sergio Leone. O homem da harmónica como que dá corpo a um dos mais importantes elementos, senão o elemento fundador, da cinematografia do realizador italiano: a música de Ennio Morricone. Este elemento é de tal modo importante que precede a própria filmagem, tendo Morricone composto os temas ainda antes do filme existir. A personagem de Bronson, sem nome, confunde-se na identidade com a música que o acompanha. Tudo é música neste filme, a câmara persegue a melodia, os ritmos, as paragens, o suspense, o silêncio determinado por magníficos planos fechados, tudo isso é música em estado de permanente fusão com a imagem.
Mais do que os diálogos, parcos mas eficazes, importa sublinhar uma montagem que nos obriga a olhar para a tela como um todo. A expressividade de cada um dos elementos da pintura é indissociável desta linguagem onde a música assume o papel fundador. Os planos fechados, os movimentos lentos, as sequências arrastadas, intensificam as tensões e dão-nos a ver pormenores em cada uma das personagens que passariam despercebidos de outra forma. A figura feminina do argumento, uma prostituta de Nova Orleães (Claudia Cardinale) arrastada para aquele fim do mundo com a esperança de uma vida nova, ou a ambivalência moral do picaresco fora da lei Cheyenne (Jason Robards), o perfil implacável de Frank e a aura enigmática do homem da harmónica são "caractrerizações" que, no final, apontam todas na direcção do mistério desvendado por um flashback com início no olhar de Bronson em close-up.
No fundo, o que temos aqui é uma história de vingança, a história de uma vítima que procura vingar o mal de que foi alvo num passado distante, a história de um homem que carrega dentro de si o desejo de se libertar de uma condenação imerecida. Digamos que é no terreno delineado por este desejo de vingança que toda a acção decorre, com um cinismo moral tão convincente que nos vemos cúmplices de um género de pessoas cujo maior bem é não serem tão maus quanto os piores dos seres humanos. As balas disparadas pelo homem da harmónica têm a atenuante de um passado que só nos é dado a compreender no termo da narrativa, tornando relativa toda e qualquer asserção moral sobre cada uma das personagens. Isto acontece com uma gestão dos tempos onde cada gesto vale não por si só, mas, sobretudo, pelas causas que o determinam. É cinema, não é outra coisa senão cinema.

A SOCIEDADE ESTÁ PODRE


A sociedade está podre
já fede
e não lhe cheira,
o mal só se vê nos outros
só cheira nos outros:
quando o mal é nosso
pegaram-nos
é um mal estranho.
Disseram que o homem é um animal social
aí o têm
arranjaram-na bonita.
E se calhar estão todos como eu.
Quem nos teria posto em sociedade?
Quem fez de «todos» uma realidade
ou estava a pensar na lua
ou doente de paranóia.
Que linda ideia: «Todos!»
E mais ainda: «o bem de todos!»
Serei parvo ou imbecil
só entendo cada um.
Vejo até por mor de todos
dar cabo de cada um.
Não quero mal a ninguém
mas já tenho raiva a todos.
Isto de levar cada um a ter raiva a todos
é igualzinho a desejar o bem comum
lindas maneiras de eliminar a cada um.
Porque a sociedade é de alguns
alguns daqui e alguns d'acolá
«alguns» não pode deixar de ser contra alguns
é a guerra de grupos de cá e de lá
bem diferente das batalhas de cada um.
E quando nós pertencemos a um grupo
ou contra ele ou não somos de nenhum
o mesmo dá
andam connosco às voltas
e nós a zero
no cabide
esquecemo-nos de nos levar connosco
fizeram-no-lo esquecer
falaram-nos no bem de todos.
Todos! essa conta que ninguém sabe somar
e que nos faz suar
a nós, as suas parcelas
todos juntos para simplificar
mais simples que todos é impossível
quem foi o da ideia?
Lindas maneiras de eliminar a cada um.
Em qualquer sítio onde um seja apanhado
aí mesmo o fazem soldado
e dão-lhe o sítio pra defender
um pedaço de terra com significação
pois que chamam civilização
andarem os homens agrupados
e como há vários lados em toda a combinação
fazem-nos parte de todos os de um lado
e não entendemos todos
que nos matam um por um por todos os lados
em nome da sociedade.
Que nos mate a morte já o sabíamos
mas que ponham o ferro a explodir
para não escapar nem um
que outro sentido poderá agora ter a morte
do que o de um acidente provocado?
Isto tira valor à morte
como à vida lhe tiraram todo o sentido
foi a tal ideia de «todos»
que pôs isto neste estado.
Pode limpar as mãos à parede
o homem que teve a ideia de sociedade
e também aquele que disse
que éramos um animal social.


José de Almada Negreiros (manuscrito s/d, publicado pela primeira vez nas Obras Completas, INCM, 1985)