sábado, 22 de dezembro de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #76


Encantadores de serpentes, discípulos de Xiva, os King Kooba são um duo de música electrónica com especial inclinação para a manipulação de sons com origem nas terras do Bhagavad-Guitá. Charlie Tate e Matt Harris (DJ Shuff) estrearam-se em 1998, tendo almejado alguma projecção com o registo do ano seguinte: Enter the Throne Room. Sem o sucesso de uns Kruder & Dorfmeister ou dos Thievery Corporation, movimentam-se em circuitos semelhantes. O que os distingue dos demais é a opção por ritmos não tão introspectivos, optando antes por estruturas drum’n’bass com breves incursões na música soul e no jazz e na world music. Como em tantas coisas na vida, o fascínio de um disco como este reside sobretudo nos defeitos, nas discrepâncias, nas oscilações de talento que nos permitem falar de coisas tão vagas como inspiração. Em alguns temas, os King Kobba parecem estar exclusivamente interessados em fazer dançar as pedras. Fraternety, em colaboração com MC Chickaboo, possui um ritmo avassalador, mas não dispensa sons de fundo que podiam ter sido recuperados nos flancos poeirentos de um qualquer templo perdido nas florestas orientais. Há nestes enlaces uma hábil capacidade de fazer conciliar a espiritualidade hipnótica do mantra com a desconstrução rítmica, tipicamente urbana e ocidental, do hard bop. O talento para a manipulação não está nas mãos de qualquer um. Os King Kooba têm mais desse talento do que reconhecimento popular. É a vida.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE (1962)


Porque, como dizia o outro, isto anda tudo ligado, quem tiver visto Once Upon a Time in the West (1968) terá reparado que o actor negro da sequência inicial é Woody Strode, que ficou para a história do cinema como o actor negro de John Ford (1894-1973). Nessa sequência inicial do filme de Leone, passada numa estação de comboios, Strode é um dos três pistoleiros que o homem da harmónica mata. Obra repleta de envios e de citações, Once Upon a Time in the West revela, logo de início, a intenção, posteriormente confirmada, de Leone abandonar o western. O assassinato de Strode não é, pois, inocente, tem algo de emblemático no contexto geral da filmografia do realizador italiano.
Um dos westerns de Ford em que podemos ver Strode é este The Man Who Shot Liberty Valance, no papel de Pompey - encarregado do rancheiro Tom Doniphon. Ainda que se trate de um papel secundário, foi, como outros atribuídos por Ford, de uma extrema importância para a afirmação dos actores negros num universo criativo liderado por brancos. De resto, este filme de Ford tem algumas linhas de diálogo onde se releva aquele “moralismo fordiano” que, de certo modo, acabou por estigmatizar a sua obra. No entanto, The Man Who Shot Liberty Valance é tudo menos um filme moralista. Coloca o público numa arena moral cujas respostas ainda hoje se mantêm sob a forma de interrogações. E as suas personagens, filmadas sempre com a sombra a persegui-las, são mais contraditórias/artísticas do que exemplares/científicas.
O filme começa com um comboio a chegar à cidade de Shinbone. Dentro do comboio vêm dois ilustres habitantes da terra, há muito emigrados: o senador Ranson Stoddard (James Stewart) e sua mulher Hallie (Vera Miles). O que os traz de regresso? O funeral de Tom Doniphon (John Wayne). A narrativa desenrolar-se-á, então, em flashback, com Ranson Stoddard a recordar os tempos em que chegou à cidade quando ainda era um jovem advogado e como se encontrou com Tom Doniphon depois de ter sido assaltado pelo fora da lei Liberty Valance (um enérgico e ruim como as cobras Lee Marvin). Este regresso é pautado por uma nostalgia que demarca o passado do presente, aponta para as mudanças na paisagem geral e no comportamento dos cidadãos.
Agora, os homens já não andam de coldre à cintura, a cidade passou a ter igrejas e escolas, os seus habitantes adoptaram os modos civilizados de um mundo onde tudo é política e oratória. Esta contraposição permitir-nos-á entender o cerne de um problema geograficamente definido pelas linhas que separam o leste do oeste, a cidade do campo, os livros de direito das armas. Distantes um do outro, mas não tanto quanto isso, o jovem advogado Ranson Stoddard e o rancheiro Tom Doniphon têm soluções diferentes para um mesmo problema: Liberty Valance. Eles são personificações do dilema que há muito assola os americanos, confiar na lei ou nas armas a protecção de que carecem quando se sentem ameaçados. A evolução, o progresso, parece ter dado mais força aos livros de direito. Mas não será isto um grande equívoco?
Aceitamos a dúvida quando somos confrontados, em pleno século XXI, com mais um massacre numa escola norte-americana e novamente se discute nesse país o acesso fácil às armas de fogo. O toque conservador que denunciamos nos filmes de John Ford readquire, por força da história, uma pertinência atroz. O velho Oeste ainda está vivo naquela região, apesar das escolas e das igrejas, assim como estão vivos o medo e a violência no sangue da humanidade. Não sei se se trata de um problema ontológico, mas compreendo que se procure solucioná-lo por intermédio da política.
Daí que o filme de Ford, na oposição que alimenta entre armas e direito, sem que se incline para qualquer uma das soluções - pois, como veremos, toda a narrativa política do filme assenta num equívoco temperado por sentimentos bem mais íntimos como o amor a uma mulher (a menina Hallie do restaurante dirigido por um casal de emigrantes suecos!) -, resulte como uma equação intrincada e filosófica, nada silogística e muito pouco moralista. Mas The Man Who Shot Liberty Valance é também, além de tudo isto, um elogio à imprensa livre enquanto poder inalienável num mundo que se queira civilizado, justo e verdadeiro. Este elogio é especialmente paradoxal, pois o filme termina, precisamente, com a imprensa a queimar a verdade sobre a história do homem que matou Liberty Valance. Porquê? Porque no Oeste: quando a lenda se torna um facto, imprime-se a lenda.

POEMA DE NATAL

Para todos os leitores do Insónia


Naquele tempo as luzes duravam toda a
noite. Mas faltava-lhes a eléctrica eficácia de
quem chama, vinde todos comprar um souvenir,
reis magros, corretores da bolsa, funcionários
e teleguiadas tias por estrela que conduz aos
mares do sul, cristãos e bronzeados, a minha vida
dava um filme. Nem sabe o que me aconteceu, o
vestido da Senhora não traz instruções de lavagem
e a vaquinha de polietileno engorda sozinha, eu próprio
já não sinto os olhos de tanto ver as luzes acender e
apagar. Mas uma coisa é certa: Jesus se fosse vivo
havia de ter um partido, ler os tops da Fnac e saber
de cor o nome de todos os ministros. Havia de
sair de casa pela porta da frente, cumprimentar
os jornalistas e conceder duas medidas correctivas dos
excessos do capitalismo; depois, no último degrau
levantaria a palma de sua mão direita e os passantes,
subitamente inundados de um fulgor renascido,
estugariam o passo e entrariam no metro, sorrindo,
acreditando um pouco mais no reino
que tarda a ter um fim.


Rui Costa

In Insónia, 18/12/2007 (aqui)


domingo, 16 de dezembro de 2012

ASFIXIA DEMOCRÁTICA


Talvez um dia as vítimas de asfixia democrática nos tempos de Sócrates venham a pronunciar-se sobre os saneamentos políticos no tempo de Passos Coelho. E que dizer de mais um caso, claríssimo, de perseguição política (chamar-lhe intimidação é um eufemismo) em plena democracia? Democracia? Só quando varrermos definitivamente do poder esta gentalha toda, a começar por esse furúnculo que dá pelo nome de Miguel Relvas. Agridem jornalistas no exercício da profissão, detêm e ameaçam jovens estudantes dentro dos seus estabelecimentos de ensino, carregam indiscriminadamente sobre manifestantes.  E levam pouco mais de 1,5 ano de governação. É obra.

sábado, 15 de dezembro de 2012

PARA PREPARAR PASTÉIS GOSKY

Ponta Delgada, Açores. 2012.

Arranje um porco de três ou quatro anos de idade, e prenda-lhe uma pata traseira a um poste. Coloque 5 libras de passas, 3 de açúcar, 2 celamins de ervilhas, 18 castanhas assadas, uma vela e sei alqueires de nabos ao seu alcance; se ele comer isto, forneça-lhe mais, cosntantemente.
Depois arranje um pouco de natas, algumas fatias de queijo Cheshire, quatro cadernos de papel almaço e um pacote de alfinetes pretos. Molde tudo numa pasta e estenda-a a secar sobre um lençol lavado de linho castanho impermeável.
Quando a pasta estiver completamente seca, mas não antes, comece a bater violentamente no porco com o cabo de uma vassoura grande. Se ele guinchar, volte a bater-lhe.
Vá ver a pasta e bata no porco alternadamente durante alguns dias, e verifique se no fim desse período tudo começa a transformar-se em pastéis Gosky.
Se até então não se transformar, nunca se transformará; nesse caso pode soltar o porco, e deverá considerar todo o processo terminado.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Edward Lear.

ONCE UPON A TIME IN THE WEST (1968)



Há um elemento político em Johnny Guitar (1954) que serviu de moldura a muitos outros westerns. Trata-se da expansão do caminho-de-ferro e das vítimas que o progresso económico arrastou, fenómenos que nunca mudam. Uma das mais nobres dimensões do western é, precisamente, descer aos infernos e trazer à superfície o que se esconde debaixo de terra, desmascarar a realidade, desnudar a sociedade e confrontar-nos, enquanto seres humanos, com os seus podres. Ora, nos subterrâneos desta bandeira do progresso temos o nascimento do crime em grande escala, relacionado com a prospecção de terrenos onde passavam as máquinas a vapor. O mercado imobiliário atingiu nesses tempos valores incalculáveis num país onde a justiça não acompanhava, definitivamente, a velocidade das locomotivas. Surgiram os grandes barões da economia, que ora negociavam a bem com os chamados pioneiros instalados onde menos convinha, ora se rodeavam de capangas para se apoderarem de terrenos onde edificariam grandes cidades.
Se bem se recordam, a chegada de Johnny Guitar ao saloon de Vienna é acompanhada por enormes explosões onde se abre caminho para a passagem da via-férrea. De resto, Vienna instalou o saloon naquele local já na perspectiva de que aí viesse a ganhar um bom dinheiro quando chegasse a locomotiva àquelas paragens. Argumento similar acompanha Once Upon a Time in the West (1968), de Sergio Leone (1929-1989). Não obstante, os elementos políticos no western são quase sempre secundarizados pela força do carácter das suas personagens. Os valores humanos vêm à tona em estado bruto, como ouro negro ou dourado que importa transformar. Um dos aspectos mais fascinantes neste género cinematográfico é a capacidade de narrar personalidades complexas e suas respectivas idiossincrasias em poucas horas, dar a ver o carácter dos homens e a construção da identidade dos indivíduos em escassos frames. Leone foi um mestre na área, não tanto na fase do chamado western-spaghetti (lá iremos) como no seu filme-síntese de 1968.
Once Upon a Time in the West é um filme com contornos que o distanciam da chamada trilogia dos dólares, repleto de evocações e homenagens. Leone coloca em acção duas estrelas do cinema norte-americano, subvertendo a imagem que as suas carreiras haviam projectado e aniquilando vários clichés em torno das boas e das más figuras construídas pelo grande ecrã. Só mesmo o impagável Henry Fonda (mercenário de nome Frank, ao serviço de um barão dos caminhos de ferro) consegue ser totalmente desprezível, o que denota, desde logo, a perversidade de Leone na desmistificação dos seus actores. A Fonda opõe-se Charles Bronson, aqui no papel de um misterioso pistoleiro sem nome que toca harmónica quando devia falar e fala quando devia tocar harmónica. O homem da harmónica é das mais inesquecíveis personagens produzidas pelo western e elevou a um nível superior, diria transcendental, um actor geralmente diminuído aos caminhos estreitos da pura acção.
Embora muitas leituras sejam possíveis, incluindo a tal leitura política que contorna o quadro geral, esta oposição Bronson/Fonda é, para mim, o grande segredo do filme de Sergio Leone. O homem da harmónica como que dá corpo a um dos mais importantes elementos, senão o elemento fundador, da cinematografia do realizador italiano: a música de Ennio Morricone. Este elemento é de tal modo importante que precede a própria filmagem, tendo Morricone composto os temas ainda antes do filme existir. A personagem de Bronson, sem nome, confunde-se na identidade com a música que o acompanha. Tudo é música neste filme, a câmara persegue a melodia, os ritmos, as paragens, o suspense, o silêncio determinado por magníficos planos fechados, tudo isso é música em estado de permanente fusão com a imagem.
Mais do que os diálogos, parcos mas eficazes, importa sublinhar uma montagem que nos obriga a olhar para a tela como um todo. A expressividade de cada um dos elementos da pintura é indissociável desta linguagem onde a música assume o papel fundador. Os planos fechados, os movimentos lentos, as sequências arrastadas, intensificam as tensões e dão-nos a ver pormenores em cada uma das personagens que passariam despercebidos de outra forma. A figura feminina do argumento, uma prostituta de Nova Orleães (Claudia Cardinale) arrastada para aquele fim do mundo com a esperança de uma vida nova, ou a ambivalência moral do picaresco fora da lei Cheyenne (Jason Robards), o perfil implacável de Frank e a aura enigmática do homem da harmónica são "caractrerizações" que, no final, apontam todas na direcção do mistério desvendado por um flashback com início no olhar de Bronson em close-up.
No fundo, o que temos aqui é uma história de vingança, a história de uma vítima que procura vingar o mal de que foi alvo num passado distante, a história de um homem que carrega dentro de si o desejo de se libertar de uma condenação imerecida. Digamos que é no terreno delineado por este desejo de vingança que toda a acção decorre, com um cinismo moral tão convincente que nos vemos cúmplices de um género de pessoas cujo maior bem é não serem tão maus quanto os piores dos seres humanos. As balas disparadas pelo homem da harmónica têm a atenuante de um passado que só nos é dado a compreender no termo da narrativa, tornando relativa toda e qualquer asserção moral sobre cada uma das personagens. Isto acontece com uma gestão dos tempos onde cada gesto vale não por si só, mas, sobretudo, pelas causas que o determinam. É cinema, não é outra coisa senão cinema.

A SOCIEDADE ESTÁ PODRE


A sociedade está podre
já fede
e não lhe cheira,
o mal só se vê nos outros
só cheira nos outros:
quando o mal é nosso
pegaram-nos
é um mal estranho.
Disseram que o homem é um animal social
aí o têm
arranjaram-na bonita.
E se calhar estão todos como eu.
Quem nos teria posto em sociedade?
Quem fez de «todos» uma realidade
ou estava a pensar na lua
ou doente de paranóia.
Que linda ideia: «Todos!»
E mais ainda: «o bem de todos!»
Serei parvo ou imbecil
só entendo cada um.
Vejo até por mor de todos
dar cabo de cada um.
Não quero mal a ninguém
mas já tenho raiva a todos.
Isto de levar cada um a ter raiva a todos
é igualzinho a desejar o bem comum
lindas maneiras de eliminar a cada um.
Porque a sociedade é de alguns
alguns daqui e alguns d'acolá
«alguns» não pode deixar de ser contra alguns
é a guerra de grupos de cá e de lá
bem diferente das batalhas de cada um.
E quando nós pertencemos a um grupo
ou contra ele ou não somos de nenhum
o mesmo dá
andam connosco às voltas
e nós a zero
no cabide
esquecemo-nos de nos levar connosco
fizeram-no-lo esquecer
falaram-nos no bem de todos.
Todos! essa conta que ninguém sabe somar
e que nos faz suar
a nós, as suas parcelas
todos juntos para simplificar
mais simples que todos é impossível
quem foi o da ideia?
Lindas maneiras de eliminar a cada um.
Em qualquer sítio onde um seja apanhado
aí mesmo o fazem soldado
e dão-lhe o sítio pra defender
um pedaço de terra com significação
pois que chamam civilização
andarem os homens agrupados
e como há vários lados em toda a combinação
fazem-nos parte de todos os de um lado
e não entendemos todos
que nos matam um por um por todos os lados
em nome da sociedade.
Que nos mate a morte já o sabíamos
mas que ponham o ferro a explodir
para não escapar nem um
que outro sentido poderá agora ter a morte
do que o de um acidente provocado?
Isto tira valor à morte
como à vida lhe tiraram todo o sentido
foi a tal ideia de «todos»
que pôs isto neste estado.
Pode limpar as mãos à parede
o homem que teve a ideia de sociedade
e também aquele que disse
que éramos um animal social.


José de Almada Negreiros (manuscrito s/d, publicado pela primeira vez nas Obras Completas, INCM, 1985)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

JOHNNY GUITAR (1954)

Tal como existem filmes que se aproximam do western sem realmente o serem, também há westerns que o são sem que a sua identidade se esgote nessa categoria. Johnny Guitar é hoje considerado por inúmeros críticos de cinema senão um dos melhores filmes de todos os tempos, pelo menos a obra-prima de Nicholas Ray (1911-1979) – realizador a quem devemos tantas e tão primas obras tais como Rebel Without a Cause (1955) ou Bitter Victory (1956). Apesar do título remeter para uma figura masculina, no centro da acção está uma mulher chamada Vienna (Joan Crawford) e a sua arqui-inimiga Emma (Mercedes McCambridge). Vienna e Emma opõem-se como Eros e Thanatos, são duas forças contrárias que modelam a raiz maniqueísta do filme, mantendo sobre permanente tensão um duelo que dura do princípio ao fim. Há uma sequência que as define com inquestionável clareza:
Emma chega ao saloon de Vienna acompanhada de um grupo de homens com intenções justicialistas. Quer matar, destruir. Procuram Dancin’ Kid e o seu gangue, depois destes terem assaltado um banco no centro da cidade. Neste momento já sabemos da relação próxima entre Kid e Vienna, e foi-nos sugerida a paixão reprimida de Emma pelo mesmo Kid. O ciúme interpõe-se entre ambas, sendo resolvido pela primeira com uma cumplicidade distante (o verdadeiro amor de Vienna é Johnny Guitar) e pela segunda com um ódio de morte, quer a Kid, quer a Vienna. Repare-se na luminosidade de Vienna, no seu vestido branco, na calma com que vai tocando o piano (magnífica banda sonora de Victor Young) enquanto os homens vasculham o seu sofisticado saloon no encalço do bando de Dancin’ Kid. E olhe-se depois para Emma, no contraste que a sua postura alvoroçada engendra, no fato negro e no ódio que o seu olhar transparece. Branco e negro, paz e guerra, amor e ódio, opostos trágicos e universais aqui magnificamente representados. A cena resvala para uma situação de denúncia onde a inocência de Vienna fica comprometida. Só o espectador sabe dessa inocência, mas nada pode fazer. Ao espectador cabe apenas assistir impotentemente ao linchamento que se prepara. Estamos nos EUA da era McCarthy, e tudo isto evoca, claramente, as listas negras de Hollywood, a perseguição aos comunistas de que Sterling Hayden, o actor que aqui faz de Johnny Guitar, foi vítima. Talvez por isso este filme leve o título que leva e comece como começa, com Johnny regressando para os braços de Vienna cinco anos depois de se terem separado. Atentemo-nos a outra cena, provavelmente das mais magníficas cenas de amor alguma vez desenhadas por um cineasta:
A música de fundo é a mesma, mas o ambiente é outro. Porém, há uma tristeza nesta melodia que confere ao filme um romantismo constante. Também no western as personagens de Nicholas Ray são de uma humanidade avassaladora. Por humanidade entendam-se aqui os vícios e as virtudes que nos tornam, a todos, questionáveis, erráticos, ambivalentes, frágeis. Os deuses e os semideuses da tragédia grega são o protótipo destes homens e destas mulheres, como a imperturbável Vienna desmascarando-se num rio de lágrimas quando deixa sair de si a confissão mais dolorosa: cinco anos a esperar por Johnny. Nos cinco anos que os afastaram, tantos foram os homens que ela esqueceu como foram as mulheres que ele recorda. Johnny desfaz-se aos pés de Vienna e pede-lhe mentiras, ela oferece-lhas indolentemente. Mas logo se exaspera e reabre as feridas, soltando angustiadas emoções sob a forma de lágrimas. A música acompanha-os neste reencontro, tornando pungente o fim de cena como pungentes são todas as feridas caladas no interior de um peito em carne viva. Johnny regressa em dia de tempestade. Mais do que proteger, vem, quiçá, recuperar o tempo perdido. Como se isso fosse possível fora dos sonhos que o melhor cinema torna possíveis.

PAGA O QUE DEVES

Dois animadores de uma rádio australiana fizeram-se passar pela rainha de Inglaterra e o príncipe Carlos, ligando para o Hospital onde estava internada Kate Middleton. A enfermeira que os atendeu não percebeu que estava a ser alvo de uma piada e rapidamente se transformou em saco de boxe para a chacota das pessoas divertidas. Resultado: enforcou-se. O mundo está cheio de pessoas divertidas e bem-humoradas, engraçadinhos que pregam partidas e se divertem muito rindo da ingenuidade dos outros. Antes começassem por se rir de si próprios. Este caso recordou-me uma discussão que tive em tempos, em torno de partidinhas do género levadas a cabo pelo humorista Nilton no programa 5 Para a Meia-noite (não sendo caso único, é o mais recorrente). Como sou um bota-de-elástico com o sentido de humor de uma múmia, nunca consegui esboçar um sorriso que fosse com tais partidinhas. E certo dia mostrei-me revoltado com o humor sórdido praticado sobre gente indefesa, como a rapariga que está no seu posto de trabalho e se vê obrigada a manter uma postura séria perante o cliente mais estapafúrdico. Porque há sempre a hipótese de se tratar de um cliente mistério, daqueles que avaliam a nossa competência e determinam a continuidade ou cessação dos contractos de trabalho. Nunca vi mal algum em ser-se alvo de uma partida, mas deslocar da esfera privada para a esfera mediática situações de logro, onde só os elos mais fracos são vítimas de gozação, equivale, no meu mundo conservador e moralista, a um linchamento público da auto-estima. E isso pode ser perigoso, levando a gestos radicais como o de Jacintha Saldanha. Ela não pagou o que devia, pagou, provavelmente, por ser frágil num mundo de gente bruta e insensível, incapaz de ponderar a diferença que diferencia uns de outros. Mas isto sou eu a pensar, na minha redoma moralista e conservadora, com o sentido de humor de uma múmia. O mundo é dos artolas, gente engraçada e divertida a quem nada pode atingir porque estão protegidos pela carapaça da indiferença.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

RAVI SHANKAR (1920-2012)

Oṁ śānti śānti śāntiḥ

A ARTE DE AGRAFAR POEMAS

Caso ainda não se tenham apercebido, estamos no último mês de 2012. O mundo está prestes a acabar. Ia dizer que para o ano estaremos em 2013, mas as inferências nem sempre são confirmadas pelos factos. Há que deixar à nossa frente a hipótese de estarmos todos enganados, e de para o ano nem ser 2013, mas o mundo ter, de facto, acabado, ou ser 2013 e o ano ter acabado ou não ter acabado e 2012 nunca ter existido ou ou ou ou. Certo é que estas coisas são pensadas, sentidas, vividas, nem que no mundo imaginário onde se pensam coisas como haver quem detenha esse dom (ou deveria chamar-lhe função?) de pensar. Nesse mundo cabem os poetas, classe operária excluída dos mundos ideais platónicos. Os poetas operam na inconsequência, são impagáveis, saem caros, por isso tinham de ser excluídos da cidade ideal. Numa república como a nossa, neste fim do mundo à beira mar plantado, seria, no mínimo, de esperar que os poetas já estivessem há muito extinguidos. Restar-nos-iam ossos, curiosidades arqueológicas, fósseis dispostos geometricamente nos museus da literatura. Há muitos deles vivos que aparentam a respiração de um fóssil, porque neles vivos é apenas um eufemismo para estarem mais que mortos e enterrados. Curiosos os caminhos da poesia nesta terra de poetas à beira mar naufragados. Em pleno século XXI, com tanta tecnologia à mão, weblogs ao desbarato, facebook, twitter e mais porcarias congéneres, seria de esperar, no mínimo, que aí os poetas se fizessem mostrar, angariando milhares de seguidores tão interessados nos seus versos como nas javardices exibidas num reality show qualquer. Ao contrário, insistem em manter-se platonicamente excluídos, dobram os poemas em páginas A4 agrafadas ou mandam imprimir na gráfica do bairro panfletos, cadernos, folhetos onde coleccionam males, confissões, aventuras, emoções, em suma, delírios. A pergunta mantém-se: para quê gastar papel e tinta com a porra dos poemas? Para quê insistir nas tiragens de 100 amigos, convertidos nessa coisa exemplar de leitores? A verdade é que neste fim do mundo há malucos para tudo, mesmo para a poesia a copo. Tomem-se de exemplo Fernando Machado Silva (poemas da despedida, vol. II seguido de 7 poemas, Março de 2012), Hugo Milhanas Machado (Plato Chico, edição bilingue, tradução castelhana de Rebeca Hernández, Maio de 2012) e manuel a. domingos (Penumbra, Setembro de 2012). Consegue este triunvirato fazer o pior possível, ou seja, persistir no inóspito asilo da actualidade que dá pelo nome de edição de autor (fenómeno muito da crise que há centenas de anos, no mínimo, sobrevive por terras lusas). Portugal é, sem dúvida alguma, um país de poetas. Constatação ‘inda mais surpreendente quando confirmamos não ser um país de leitores de poesia. Se o fosse, não teria, como na política, os poetas que merece. Teria, pelo contrário, a poesia imerecida de um Fernando Machado Silva (n. 1979), de um Hugo Milhanas Machado (n. 1984), de um manuel a. domingos (n. 1977). Porque o que esta rapaziada faz  - perdoe-se-me a presunção, que já estou nos 38 - é alimentar a esperança ao fazê-lo assim, deste modo. Sabemos bem que desejam ser admirados, mas também percebemos a diferença entre o desejo e a ambição. Desejarão ser lidos, mais que não seja pelos 100 amigos convertidos em exemplares leitores. O mais importante é que desejam fazer, concretizar, arrumar a voz, actuar no palco devoluto da poesia. E nesse palco eu estendo o jornal e nele me deito, nesse palco busco abrigo e pasto a filha da puta da esperança. No meu diário íntimo escrevi o que agora partilho em registo pós-moderno: consolam-me mais estas páginas agrafadas, dobradas, do que centenas de livros que só não atiro para a fogueira por respeito ao dinheirinho que tanto custa conquistar. A edição de autor de Fernando Machado Silva confirma as nossas suspeitas: temos parêntesis com fartura, uma língua em busca de ofício, quer dizer, uma língua em busca de leitores que aí suspendam os preconceitos da linguagem e se deixem embalar pelo lirismo da forma. Se alguém disser que há muito aqui a apurar (no sentido de libertar), tem razão. Mas onde nada há a apurar é que não vemos remédio. Estes poemas, estigmatizados pelo pretérito da memória, espantam quando soltam fogachos de paixão, como essa “grafia da pupila” que ficámos a invejar por nela revermos o programa de quem mais que pela boca fala pelos olhos. Já Plato Chico põe-nos a dançar. Tenho uma teoria nova, muito recente. Os melhores poetas são DJs frustrados. Hugo Milhanas Machado é ciclista, não sei se pedala nas pistas de dança. Pelo menos, tem a estranha capacidade de fazer dançar a leitura. Atira-nos com o mar às trombas em dias deprimentes, mete-nos a pensar em palmeiras e miúdas inesquecíveis quando somos já tão-somente uma memória perdida nos labirintos do passado. Um crítico tenderia a falar de elipses, mas o crítico não dança. Limita-se a bater o pé, muito contidamente, como que temendo gastar os músculos à medida das solas. Por isso terá sempre dificuldades em perceber as frases escangalhadas, o passo lento de quem mais que passar pelas coisas contempla-as e se deixa absorver por elas para nelas se sentir alguém. O mérito destes tão parcos poemas é fazerem-nos delirar, cobram-nos a postura com uma espécie de irresistível tentação. Não é preciso citá-los, na medida em que se não cita a terra onde se plantam árvores de fruto. Simplesmente apontamos as coordenadas do texto e tudo vimos convergir para um lugar onde dá vontade de, digamos, dançar. Bem diferente é a Penumbra de manuel a. domingos, poeta simplista a fazer-se de parvo onde há uma melancolia doméstica resolvida da única maneira possível. E essa maneira possível única reside em obviar o óbvio, simplesmente simplificar a mais complexa das dimensões humanas. Digo: doméstico; mas sei que ao dizê-lo digo também o contrário. Isto é, a dúvida que assombra tudo é esse tédio do absurdo a que certos existencialistas chamaram náusea. Creio que manuel a. domingos é um poeta do absurdo (talvez involuntariamente, talvez não). Mesmo quando escreve poemas tão pueris como esse último, com almofadas debaixo do cu, ou aqueloutro com cabelos brancos na idade de Cristo, ele revela a estupidificação das vidas comuns, as nossas, as dos poetas, esses seres fantásticos e únicos, excluídos pelo filósofo da cidade ideal, incluídos por si próprios na República da parvalheira. Aqui abraçam a mulher no silêncio da casa, remexem o café nos lugares-comuns de Outubro, olham para tudo sem novidade e para o resto sem surpresa… Neles, o que mais espanta é a ausência de espanto. Mesmo quando são surpreendidos pela inocência do riso e nos fazem dançar (entre parêntesis). Grato.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

MOMENTO PRESENTE


Uma das grandes tragédias do momento presente é que a maior riqueza social, o indivíduo, assaltado por todos os lados com uma violência cultural que nenhum alto espírito é capaz de discernir sozinho (porque, se é letrado, intrujam-no cientificamente, e vice-versa) o indivíduo tenha de diminuir-se, associar-se, adquirir, por permuta com companheiros dignos de confiança, aquela consciência que, solitariamente, não pode atingir. Tenha, portanto, de abdicar, em nome da liberdade do espírito, algumas parcelas dessa mesma liberdade.

Jorge de Sena

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

PASSOS, NÃO SABES ONDE CORTAR?


PELA ESCOLA PÚBLICA, SEMPRE.

domingo, 9 de dezembro de 2012

BRUTOSGATE



Camarada Van Zeller, quem julgava ter no Gaspar um messias à altura do Salazar que foi chamado às finanças em 1926 bem pode tirar o cavalinho da chuva. Não lhe resta senão uma figura inspiradora para anúncios ao Jumbo e ao Licor Beirão. O ministro diz-se e desdiz-se, aponta-nos equívocos e alucinações, com o semblante irremediável de um lunático à solta. Aqueles papos nas olheiras não enganam, são demasiadas horas a olhar para o monitor do Mac. Já essa figura sinistra que dá pelo nome de Miguel Relvas não tem direito a anúncio, mas há-de ter direito a um canal de televisão inteiro. Há tempos, Helena Roseta tentou definir o personagem revelando o seu lado de moço de recados dos interesses privados no Oceano dos dinheiros públicos. Foi assim com a empresa do doutor Passos Coelho, a lançar mão às verbas comunitárias, há-de ser assim com os amigos angolanos, colombianos, brasileiros. O estilo não engana, e é muito popular em Portugal. Chamem-lhe cunha, clientelismo, nepotismo, o que preferirem. É a sem vergonha de um povo inteiro que se deixa governar por vigaristas, copia-lhes os actos à medida das suas possibilidades, e deixa-se enredar na alegria das dúvidas existenciais que os teóricos lançam para a mesa: seremos a Grécia?  Tudo muito protegido pela legalidade das actuações. Não somos a Grécia, somos bem pior. Somos a cauda de uma europa com gastroenterite, a borrar Relvas e Coelhos e Gaspares e Borges numa incontinência de porcaria sem remédio à vista. O povo que sai à rua acomoda-se, faz a árvore de Natal, prepara a consoada, preocupa-se com o Banco Alimentar e os lenços de seda chinesa da Jonet, olha-se ao espelho para se certificar de que não está a metamorfosear-se em grego e condescende com os Relvas e mais sua companhia de metralhas que vão sugando o que ainda há para sugar nesta cauda europeia exangue e desidratada. Não chegou apanhar o mentiroso que conseguiu o grau académico mais meteórico da riquíssima história do mundo universitário português, um mundo fascinante ainda por explorar que já nos ofereceu uma Lusófona ao serviço de currículos improváveis, uma Independente especializada na formação de burlões e uma Moderna dan browniana com contas na Suíça, viaturas de luxo e ligações subterrâneas às Grandes Lojas maçónicas das boas elites portugueses. Portugal não é a Grécia, é pior. É o fundo do vulcão para onde Empédocles saltou, uma lava sulfurosa de gente corrupta, mesquinha, desavergonhada e com a consciência ética e moral de uma varejeira, divertindo-se com jogos de bastidores, manipulando a opinião pública, distraindo a sempre serena populaça enquanto se passeia nos corredores do poder distribuindo cargos e títulos. O mais recente dos jogos está à altura dos tempos, pois estas máfias são exigentes. Não lhes basta já os jogos de tabuleiro, anseiam, como qualquer criança, pela luminosidade dos ecrãs. É vê-los de joystick na mão a dar cabo da RTP, a televisão pública que andam a cozinhar para privados com temperos de requinte cujas consequências se resumirão, mais uma vez, a um altissonante arroto de satisfação no estômago do poder (angolano). Varreram um director de informação com uma pinta que há-de deixar Moura Guedes e Crespo, as vítimas do terrível e maléfico Sócrates, roídos de inveja. António Borges, o obscuro mensageiro do Governo, já veio a público trazer o recado. Alberto da Ponte, amigo de seu amigo Passos Coelho, reuniu-se com os angolanos que estão a tentar meter no saco DN, JN, TSF e mais uns trocos, numa orgia dramática que traz a palco empresas várias no domínio dos media portugueses e a misteriosa Newshold, de proprietários desconhecidos e «participada a 95% pela offshore Pineview  Overseas, registada no Panamá». Portanto, gente invisível que traz ao negócio a eterna clareza e transparência que os nossos políticos adoram e se esforçam imenso por promover. John le Carré não engendraria melhor argumento.

sábado, 8 de dezembro de 2012

THE SOUTHERNER (1945)


Geralmente reduzido a filme de aventuras com pistoleiros, sheriffs, índios, cowboys, assaltos a comboios e outras vigarices do género, o western é, na realidade, tudo isso e muito mais. Há personagens tipo que se repetem, há estereótipos como em qualquer outro género, há elementos paisagísticos imprescindíveis, mas nem tudo se reduz a cavalos e revólveres, a desejos de vingança e conflitos territoriais. Façamos uma ligeira inflexão panorâmica e tomemos de exemplo The Southerner (A Semente do Ódio, 1945), de Jean Renoir (1894-1979). Inimigo público número 1 para Goebbels, Renoir foi apanhado pela guerra quando rodava em Itália. Refugiou-se nos states, chegando mesmo a adquirir nacionalidade norte-americana. Os seus filmes americanos não são os mais famosos, talvez por assumirem uma postura algo panfletária perfeitamente compreensível à luz da época. A Semente do Ódio surge nesse contexto, estreado precisamente no ano em que a segunda grande guerra termina. Nele não há índios (apenas referências) nem cowboys (no sentido literal do termo), não há sheriffs nem pistoleiros, mas há algo que o aproxima do ambiente vivido em muitos westerns. Neste filme, Renoir centra as atenções sobre uma família pobre lutando pela sua independência. O filme é terrivelmente actual e sugere-se uma exibição televisiva nos canais públicos enquanto os temos. O problema introduzido é o do trabalho, muito à semelhança da forma como hoje o entendemos. A família Tucker trabalha nos campos de algodão para um grande empresário, mas ambiciona autonomizar-se e ser independente. A perspectiva de permanecer pobre toda a vida trabalhando para terceiros ou perder o pouco que se tem arriscando numa vida melhor é o desafio que se coloca a esta família. Estamos, pois, numa zona de risco, delineada pela luta entre fortes e fracos e, num sentido muito neo-realista dos termos, na divisão dos fracos que lutam entre si quando, na realidade, seria de esperar que se unissem contra os fortes. A linearidade do argumento, com as suas personagens patéticas (ingenuamente comoventes), deixa algo a desejar, embora Renoir procure dar a volta ao assunto com algumas sequências onde se intui um forte carácter simbólico. Por exemplo, na sequência passada num bar, que equivaleria em contexto western a um duelo, observamos um busto semelhante ao de Marianne (alegoria da República Francesa) ser destruído pelas garrafas arremessadas por uma “garota de programa” em fúria. E desde muito cedo se coloca a questão da exploração laboral, o contraste entre a vida dos operários na cidade e a vida dos camponeses no campo… Nada disto é muito relevante ao pé do essencial, ou seja, a perseverança de uma família que, contra ventos e marés, tenta contrariar o destino, assumindo nas suas próprias mãos e pela sua obstinada tenacidade as inúmeras contrariedades com que se vai confrontando. A questão que se coloca é, então, que diferença substancial existe entre a família Tucker e as famílias de filmes como Shane ou Pale Rider? Eu diria que nenhuma, porque no essencial o que temos são os fundamentos do mundo tal como ainda hoje o conhecemos: as galinhas no topo da capoeira cagam para cima das que estão em baixo. Foi assim no passado, é assim no presente, nada indica que não venha a ser assim no futuro. O resto é ambiente.

RIO BRAVO (1959)



Por falar em John Russell. Lembrar-se-ão dele em Rio Bravo, mítico western de Howard Hawks (1896-1977) com o incontornável John Wayne, Dean Martin e o malogrado cantor Ricky Nelson (faleceu num acidente de avião quanto tinha apenas 45 anos). John Russell aparece neste filme no papel do todo-poderoso Nathan Burdette, que paga a uma série de mercenários para capturarem o seu irmão Joe da prisão guardada pelo sheriff John T. Chance (Wayne) e o seu velho ajudante de nome Stumpy (Walter Brennan, excelente). A Chance e Stumpy juntar-se-ão o jovem Colorado (Ricky Nelson) e Dude (Dean Martin), um ex-camarada de Chance corrompido pelo álcool após desgosto amoroso. Vejamos os quatro numa das cenas inesquecíveis do filme, um momento de pausa onde quatro homens confraternizam ao som das canções do oeste: 



Conta-se que Johnny Cash escreveu Restless Kid para que Ricky Nelson a interpretasse nesta cena, embora o tema nunca apareça durante o filme. Aparecem antes Cindy e My Rifle, My Pony and Me, de Dimitri Tiomkin (director musical do filme de Hawks). A cena é especialmente importante por marcar a passagem do tempo e a importância das canções na vida destes homens, gerando um ambiente de amizade entre quatro indivíduos aparentemente descontraídos. Na realidade, estão sob a ameaça dos contratados de Burdette, contra quem terão de se confrontar dentro de momentos. Ainda assim, os duelos mais importantes neste filme de Howard Hawks, um realizador onde o realismo disfarça sempre inúmeras subtilezas, são de outra ordem. Mais do que o conflito inicial entre a ordem, representada pelo sheriff John T. Chance, e a desordem estabelecida pela família Burdette mais seus lacaios, o que vai marcar a narrativa é uma relação amorosa.


Podemos afirmar, sem ferir susceptibilidades, que Rio Bravo é uma história de amor onde os jogos de sedução pautam cada uma das cenas. Temos Dude, outrora seguro, firme e rápido com a pistola, agora caído nas malhas do álcool. O corpo treme-lhe, a ressaca desassossega-o. Somente velhas canções têm o condão de o serenar. Arrasta-se pelos saloons deixando-se humilhar por aqueles que atiram moedas para as escarradeiras, no gozo de verem Dude, el borrachón, recolher as moedas para poder pagar “o comprimido”. O contraste é extraordinário, depois de Chance o recuperar levando-o a barbear-se e a mudar os farrapos que traz vestidos pela roupa que lhe guardava afectuosamente. O que levou Dude àquele estado de degradação? Um desgosto amoroso. Em tempos apaixonara-se, partira de Rio Bravo com o seu amor e aí regressou transportando as feridas abertas de um amor desfeito.


A figura feminina deste novo drama é a jovem Feathers (Angie Dickinson), supostamente procurada pela justiça sob acusação de conluio em burla no jogo de cartas. A relação que mantém com o sheriff John T. Chance é, desde a sua chegada, de provocação. Como a carruagem em que chega está de partida, a provocação supõe-se breve. Mas a carruagem parte e ela mantém-se, instaurando um impasse na relação com o sheriff onde a provocação dá lugar à sedução e da sedução nasce a paixão. John T. Chance não resistirá aos argumentos de Feathers, embora tente distanciar-se e manter-se impassível. Sucede que o seu comportamento oscila entre o estouvado e a pura fascinação, perdendo o sheriff junto da figura feminina a constância que não perde rodeado de desordeiros.


É conhecida, e amplamente discutida a misoginia de Howard Hawks, que neste Rio Bravo não atribui à mulher um papel diferente do quadro mais tradicionalista. Figuras frágeis, personalidades insidiosas, manipuladoras e sedutoras, as mulheres de Hawks tanto são capazes de levar um homem à ruína como simplesmente de o desconcertarem com a sua irresistível tentação. Não obstante, o que torna Rio Bravo sui generis é o turbilhão que apanha John T. Chance no caminho. De um lado o amigo alcoólico, de outro lado os bandidos e de outro lado ainda uma tentadora mulher. Rio Bravo é o cenário perfeito para a elevação de um homem que consegue manter-se firme no centro da tempestade, resolvendo os problemas com a simplicidade e a argúcia dos mais nobres.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

INOCENTE

Camarada Van Zeller, a cabeça do Herberto Helder estremece com todo o esquecimento. A do Ângelo Correia e do Marques Mendes também. Terá o meu amigo lido nas notícias que nos idos de 1996 o nosso actual Primeiro criou uma ONG com o nome pomposo de Centro Português para a Cooperação. Entre os membros figuravam Ângelo e Mendes, agora esquecidos de terem figurado entre os membros. Passos Coelho, à época deputado em regime de exclusividade, criou a ONG com o objectivo de contribuir para o apoio directo e efectivo a programas e projectos em países em vias de desenvolvimento. Ao que parece, o único desses países a beneficiar dos 137 mil euros atribuídos à famigerada ONG pelo Fundo Social Europeu e pela Segurança Social foi… Portugal. Fica mais uma vez provado o elevado sentido patriótico do nosso primeiro. O mesmo sentido patriótico que segura Relvas no Governo como a carne prende a unha e varre Nuno Santos da RTP. Bem pode este despesista defender-se afirmando-se vítima de saneamento político. Na verdade, o que aqui está em causa é um elevado sentido patriótico. Nada de comparável aos métodos negros dos generais angolanos que instauraram em Portugal um processo contra a editora Tinta-da-China por causa da publicação do livro de ficção «Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola». Toda a gente sabe que em Angola não há corrupção, muito menos tortura, quanto mais diamantes. Em Angola só há bananas, palhotas, pretas de tanga, chimpanzés, leões e tarzans. Este mundo anda, de facto, tão trocado e confuso que chegamos a sentir dó do Primeiro ao lermos as notícias: Passos luta por tratamento igual à Grécia, Passos rejeita dizer onde vai cortar na despesa pública. Ou seja, passos luta por tratamento igual à Grécia rejeitando dizer onde vai cortar na despesa pública. Ao mesmo tempo, Vítor Gaspar, o das finanças, faz dos portugueses atrasados mentais. Quem o afirma é Marques Mendes. Ele próprio português, tal como Vítor Gaspar e Passos Coelho. Embora existam portugueses mais portugueses que os portugueses, é de supor que eles andem todos a tratar-se como deficientes mentais. Vai-se a ver, Portugal é um manicómio com um ministro das finanças que se contradiz, um primeiro-ministro que rejeita comunicar as suas soluções e um comentador político com a cabeça a estremecer de esquecimento. Do que isto precisava era de uma caterva de generais angolanos ou de um Medina Carreira em cada esquina.  Ups: 


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

DIA DOS MORTOS

Oscar Niemeyer
(15 de Dezembro de 1907 — 5 de Dezembro de 2012)
 
Dave Brubeck
(6 de Dezembro de 1920 – 5 de Dezembro de 2012)
 
Joaquim Benite
(1943 - 05 de Dezembro de 2012)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

CARTA DA REGIÃO MAIS FÉRTIL

(a meu pai)
 
vai certamente estranhar esta quase interminável carta
pai
há muito que o silêncio se fez entre nós
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar
e eu pobre de mim
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo
a cidade é veloz
não sei se o pai poderá compreender esta velocidade
aqui tudo se tornou dia após dia mais doloroso
minha mulher anda atarefadíssima com o arranjo da casa
parece que mais nada existe para ela
eu sempre na rua por aí
porque não consigo mais suportar aqueles móveis
onde o pó não chega a pousar
não consigo suportar aquela barulheira de electrodomésticos
continuamente a funcionarem
já não consigo suportar a minha mulher
 
saio de casa logo de manhã
muitas vezes não me apetece ali voltar
deambulo pela cidade e gasto tempo de café em café
perco-me
noite dentro caminho sem direcção precisa
sem saber para onde vou atravesso a cidade
à procura não sei de quê
o corpo esvaziou-se lentamente e
com o passar do tempo sei agora
este casamento foi um erro
estou terrivelmente só
talvez seja por isso que me lembrei de lhe escrever
 
pai
decidi partir
não me pergunte para onde nem porquê
partir é o que ressoa na minha cabeça
viajar sem fim e jamais voltar
também é inútil perguntar-me as razões de tudo abandonar
este conforto enjoa-me esta vida dá-me vertigens e diarreia
de resto duvido que existam razões de peso
tenho a certeza de que seria capaz de suportar minha mulher
se ainda a amasse
partilharia com ela a loucura que adquiriu pela casa
a semanal mudança de lugar dos móveis
e mais estranho ainda
quando põe a máquina da roupa a trabalhar sem nada lá dentro
diz que adora aquele insuportável ronronar de aço
que lhe faz muita companhia
enfim
se eu ainda a amasse talvez
 
mas é certo que arranjei outras compensações
a amizade segura de um amigo
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo
que quer
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas
e de beber
muitas vezes nem sei bem quem são as pessoas com quem falo
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível
desde que me conheço que me fujo
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando-se
com pedaços sombrios da minha
não leve a mal estes desvarios
no fundo teria sido melhor para mim ficar aí
onde o tempo parece não avançar e a terra é fértil
provavelmente hoje seria um desses pastores que meditam
sobre as fases da lua mesmo antes delas se iniciarem
é possível que hoje fosse um operário exemplar
trabalharia sem querer me pôr a questão de que há outro mundo
por descobrir para lá do incessante roncar surdo das máquinas
tudo explodiu dentro de mim e não sei como dizer-lho
vou largar tudo
a mulher o trabalho a cidade onde vivo a casa de que não gosto
a cidade apagou em mim muitos desejos
a única coisa que ainda faço com prazer é vagabundear
o que não é muito
mas sinto-me livre e feliz e anónimo
 
olho a vida como se o mundo desabasse dentro de instantes
quanto ao emprego não se preocupe
vou escrever ao meu patrão para me despedir
não sei o que me espera longe daqui
nem onde pararei de viajar
sei que devo partir de todos os lugares onde chegar
se é que alguma vez vou chegar a algum lugar
fascinam-me sobretudo as cidades costeiras
nelas poderei embarcar para outras cidades
ou ficar no cais a ver os barcos afastarem-se
e quedar-me silencioso horas a fio
olhando-os desaparecer
com o simples desejo de ir com eles
mas ficar
ficar um dia mais para que o desejo de partir se torne tão forte
insustentável
e me apeteça morrer em cada porto de partida e de chegada
nesta incerteza viverei o resto dos meus dias
atravessando mares devassando corpos e noites
que de mastro em mastro se tornam peganhentas
indecisas
 
digo isto porque ultimamente tenho sonhado muito
facto extraordinário que já não me acontecia há muito tempo
nesses sonhos surgem-me grandes planos de rostos
antigas topografias de corpos
desenhados minuciosamente no espaço como mapas pormenorizados
dalguma costa pedregosa
paisagens exuberantes imagens a preto e branco
semelhantes a fotografias ou a visões
feras que silentemente passeiam pela praia
e parecem não ter peso
imensos mares que não consigo localizar nos mapas
cheguei mesmo a comprar uma quantidade incrível de mapas
passei noites a estudá-los
sentia a necessidade absoluta de saber onde encontraria
aquelas paisagens de rostos e de feras com pêlo ruivo
assim percorri estradas e arquipélagos
percorri cidades sem me deter para pernoitar
imaginei sedes e fomes terríveis doenças
e nada consegui saber de mim mesmo
nem onde se encontrava meu corpo
 
por vezes acordava em sobressalto
olhava minha mulher dormir
perscrutava seu corpo moreno enrolado no lençol
avistava praias espreguiçadas pela penumbra do quarto
deve ter sido uma das últimas vezes que a amei
mas só mais tarde comecei a ter visões
ficava sentado na cama estático os olhos em alvo
apercebia pequenas formas geométricas flutuantes
delicados cristais movimentando-se aderiam aos dedos
sementes de estrelas rebentavam deixando escorrer resina
claridades pelas paredes abauladas
o ar ficava incandescente
podia vê-lo e senti-lo cortante sobre o peito
a princípio assustei-me
mas com o tempo habituei-me
como me habituei a ver no escuro a desolação de barcos naufragados
e a viver sem corpo sem sombra e sem reflexo
minha mulher achou melhor internarem-me
mas nunca me foi visitar
nem uma só vez enquanto estive atado a uma cama
precisava tanto dela
ou de alguém que me tocasse
para me certificar que a vida ainda latejava no fundo do corpo
não se assuste pai
tudo isto passou e a morte parece não querer nada comigo
de resto
a vida também não
talvez não devesse falar-lhe nestas coisas
que direito terei eu de o inquietar? de o perturbar?
nem sequer lhe devia escrever
na verdade fomo-nos afastando tanto nos últimos anos
o pai já deve ter os cabelos todos brancos
pouco ou nada tínhamos a dizer um ao outro
o sol a chuva o mar e a tempestade eram-lhe indiferentes
o cheiro quase doce da terra molhada
não sei se o pai consegue imaginar o que é uma cidade
que respiração ferida de cimento se exala dela
um coração de gasolina e de néon palpita das avenidas
aos subúrbios de lata e de estrumeiras
que cicatrizes sujas de lágrimas se abrem ao cair da noite
e tudo brilha e tudo parece viver por trás do que já está morto
entradas de cinemas montras jornais luminosos umbrais de luz
poderá imaginar tanta luz em plena noite?
o espaço rasgado por passos rostos barulhos sibilantes
sirenes gritos aflições pequenos suicídios
ignoro se o céu imenso daí não o acharia estreito aqui
percebe agora como é que alguém se pode perder na noite?
não sei
 
noutros tempos é possível que tivesse vivido como aventureiro
como esses homens tristes tisnados pelo mar
viajavam
levando mercadorias e mensagens iam de porto em porto
enriquecendo fornicando rezando e largando enteados e sífilis
quem sabe se não sou habitado pela sombra dum país qualquer
muito antigo e distante
ou apenas pelo eco duma língua que estala no coração
uma voz um rosto murmurado um presságio
então comecei por atravessar o rio nos cacilheiros
de dia e de noite sem me aperceber que o tempo deste rio
já o haviam pintado em retábulos magníficos
e o rio só existia quando sonhava
como se isto resolvesse alguma coisa ia e vinha
sem nunca ter a sensação de quem chega ou de quem parte
sentia-me como que a boiar num tempo remoto
e de mais longe ainda que o meu próprio corpo podia lembrar
um cheiro inquietante a sal devassava-me a intimidade do sonho
corroía-me a memória
 
pensei depois ao olhar as fotografias
as poucas onde me conseguia reconhecer
que resolveria esta angustiante procura
julguei que se pudesse recuar ou avançar no tempo
ser jovem e velho e velho e jovem simultaneamente
talvez pudesse reencontrar-me de novo ou insinuar-me
no corpo fotografado
encontraria o sorriso simples da infância que me revelaria o nome
mas foi impossível
porque aquele rapaz que me sorria e me olhava
com seus olhos em papel sépia não era eu
e tive medo
passava as noites a embebedar-me
turvava a memória de tudo e de todos
era-me doloroso não conseguir corrigir o passado
 
a viagem que de manhã inicio é um sobejo da vida
ignoro se irei parar a um desses países cuja linguagem desconheço
e os costumes do amor me são estranhos
não sei se haverá regresso
mas não esquecerei a sua colecção de selos
quando o pai receber um postal dum determinado lugar
é sinal de que já nesse lugar não estarei
será inútil tentar saber o meu paradeiro
pouco importa se continuo vivo
se calhar esta viagem não passa de pura imaginação
 
tem de me desculpar esta última carta
de resto pouco disse do que inicialmente lhe queria dizer
paciência pai
não nos veremos mais e eu tenho pena de nunca ter tocado
os seus cabelos brancos
mas de qualquer maneira já nos víamos muito pouco
tanto tempo sem memória nos separou
 
peço-lhe que queime esta carta
destrua-a
e se a minha mulher lhe escrever ou telefonar
diga que nada sabe do seu filho há muitos anos
é melhor assim
nenhum resíduo nenhum brilho deve assinalar a minha passagem
 
 
Al Berto, Três Cartas da Memória das Índias (1983/85)


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

QUEM NÃO QUER SABER?

Ponta Delgada, Açores. 2012.

Porque a política foi assim: quando as pessoas se cansaram muito de acreditar e deixaram de votar, foi inventada uma maneira de retomar o hábito que consistia em possibilitar o voto através da Rede e de lhe associar um benefício, normalmente um benefício fiscal. Desta forma havia um incentivo para que o voto continuasse a ser exercido, sendo que este incentivo foi revisto em alta duas ou três vezes até se confirmar que o desinteresse era já o princípio de outra coisa. Passados  alguns anos, e visto o fenómeno ser generalizado às mais diversas partes do mundo, a preocupação dos políticos foi maior. E o poder, que inclui também a política, estava à beira de uma nova mutação. Que mutação? Claro, para mais ainda virtual. Vejamos Foucault: no tempo da monarquia absoluta o Estado era o rei. O poder entrava de cabeça naquela pessoa e ficava lá a morar até desaparecer. Se lhe cortasses o pescoço ou o furasses, ele caía e o Estado também. O dono da faca ou da bala mais certeira reinaria um novo reino. Poder vulnerável: um tiro ou uma facada e ele não resite mais que a força  de todos os seus braços. Impunha-se forma mais sofisticada, que acabou por ser também mais invisível: na democracia do século vinte tu tens uma posição que não acaba quando o sujeito que a preenche desaparece: o deputado é substituído por outro, o ministro, o primeiro-ministro, todos, assim, sem que a falta de qualquer um deles - embora possa fazer diferença e efectivamente o faça - cause a queda do, como lhe chamam, sistema. De maneira que quem tem mais recursos de circulação pode circular pelos canais do sistema de forma mais liberta de atritos. Quem tem amigos e dinheiro, ou dinheiro e amigos, porque atrás daquele vêm estes, ainda que falsos, e ocupa tais posições, irradia para o lado dos vizinhos de forma a encher com o seu poder esta que é uma Rede também. Contaminando, saberá sempre por onde continuar a circular pois basta seguir o próprio cheiro nas rotas que a sua demasia foi pingando de gordura. E todos o ampararão na queda quando escorregar, porque em todos pendurou uma cópia do lixo com que o foram servindo: truques, muitos truques mas muito eficazes e com apresentações a condizer com a estação.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Rui Costa.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #75


Johnny Cash é um daqueles raríssimos casos em que um nome se torna conceito. Subentendem-se géneros e tendências, matrizes, origens, na sua música. Mas o resultado final é sempre algo irredutível às influências. Detestando a palavra inspiração, julgo tratar-se de um daqueles autores onde o conceito faz sentido e ganha até uma dimensão única. A inspiração, em Johnny Cash, é mais do que a ressonância de uma transcendência indecifrável. É a própria transcendência. A sua voz di-lo, o modo como se coloca de guitarra a tiracolo e a inquietação que sempre o perseguiu. É uma questão de postura, talvez, adquirida, aprendida, inata (sabe-se lá onde). A sua carreira, há muito tomada, conquistou uma nova vitalidade com as american recordings da década de 1990. Basicamente, tratou-se de uma recuperação espiritual que consistiu na abertura à modernidade num percurso que teve na tradição uma fonte primordial. Seja como for, Personal Jesus, dos Depeche Mode, deixa de ser Depeche Mode nas mãos de John R. Cash . É Johnny Cash. O mesmo se passa com os temas dos Nine Inch Nails, Simon & Garfunkel, The Beatles, Nick Cave, U2, entre tantos outros, reinterpretados nestas séries. Ou nos clássicos de Hank Williams, Parker & Charles, Neil Diamond e, claro está, John R. Cash. Porque Johnny Cash consegue esta coisa extraordinária de se reinterpretar rejuvenescendo-se. Ele é o próprio, o outro. Ouvir We’ll Meet Again no final de American IV: The Man Comes Around é estupidamente comovente. A gente mete a coisa em repeat e não cansa. Antes pelo contrário, inspira. Difícil é escolher. São seis, os volumes destas séries. Todos eles imprescindíveis.




segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

THE GREAT TRAIN ROBBERY (1903)

Façamos um breve preâmbulo histórico. Antes de mais, devo dizer que me guio pela História do Cinema Mundial (III Volumes, Livros Horizonte), de Georges Sadoul. Não tenho outra. A páginas noventa e três, o Capítulo IV dedica-se a O Primeiro Surto Norte-Americano. Sadoul informa-nos de que, em 1900, os cafés-concerto de Nova Iorque transformaram-se em cinemas, durante algumas semanas, para anular uma greve dos artistas. «O fonógrafo fazia as vezes da orquestra e um fala-barato comentava os filmes». Eis as novas tecnologias ao serviço do grande capital. Os filmes eram, desta forma, uma alternativa aos espectáculos de variedades, substituíam homens elefantes e mulheres barbudas, gigantes e anões. Foi neste contexto que, em 1905, Harry P. Davis e John P. Harris, empresários do espectáculo e agentes imobiliários, alugaram com enorme sucesso uma sala num bairro de Pittsburgh para passar Great Train Robbery. A experiência deu origem aos Nickel Odeons, salas bastante lucrativas, assim chamadas por ser um nickel o custo da entrada. Assim nasceram os impérios, por exemplo, do tintureiro Fox e dos irmãos Warner, reparadores de bicicletas. Assim nasceram, igualmente, os primeiros directores de estúdio. Entre eles, Edwin S. Porter. Georges Sadoul afirma que «a obra introduz no cinema uma atmosfera nova: o «western»». Não percam, nem que seja ao jeito de homenagem, esta pérola que os maravilhosos arquivos do YouTube disponibilizam:

domingo, 2 de dezembro de 2012

sábado, 1 de dezembro de 2012

PALE RIDER (1985)




Pale Rider decalca Shane em múltiplos aspectos. A comunidade de agricultores dá lugar a uma colónia de garimpeiros, ameaçados por um ganancioso industrial do minério. Em vez de um rapazito de nove anos, temos uma adolescente de quinze. Há pormenores simbólicos que são óbvias citações, como o reforço da união entre o forasteiro misterioso e a comunidade de acolhimento nas reuniões nocturnas onde se decide o futuro. E se em Shane tínhamos dois homens consolidando a amizade, de machado em riste, em torno de um velho tronco de árvore, em Pale Rider o tronco é substituído por um pedregulho e os machados dão lugar a marretas. As semelhanças não ficam por aqui. Em termos narrativos, os mundos que se opõem num filme e no outro são similares. De um lado, a ganância, uma ideia de progresso estigmatizada pela destruição do meio ambiente, a cidade. Do outro lado, a ambição legítima de famílias isoladas no campo, fazendo pela vida em registo arcaico, respeitando a Natureza na medida das suas necessidades. Em suma, o poder e o contrapoder. 

Não obstante as semelhanças, os dois filmes afastam-se com a naturalidade de um filho que se independentiza do pai. O pale rider de Eastwood pouco tem que ver com a insalubridade do Shane interpretado por Alan Ladd. Talvez este seja mais humano e aquele heróico. Se no carácter se aparentam, distinguem-se no porte e nessa outra dimensão que tantas vezes define os homens: o estilo. Eastwood confere ainda uma aura de mistério ao seu pistoleiro solitário, transforma-o em padre e fá-lo aparecer na sequência de uma prece. O mistério não paira sobre ele, ele é a própria encarnação do mistério. Tanto Shane como priest são dois pistoleiros em busca de uma nova vida, aparentemente resgatados de um passado que nunca nos é revelado. Apenas sugerido. Mas quando ambos aparecem de tronco nu, Shane tem a pele lisa e a carne incólume. Já as costas do padre ostentam seis indisfarçáveis cicatrizes, balas que o trazem morto dentro de um corpo vivo.

De resto, Clint Eastwood diz ao que vem na cena inicial. Não pode ser inocente o facto de logo aí assassinar um pequeno cão. A figura do cão está presente em Shane durante todo o filme, animal fiel e companhia do pequeno jovem que oferece à obra de George Stevens uma dimensão melodramática que Pale Rider rejeita. Por outro lado, o fascínio dos pistoleiros solitários exercido sobre as figuras femininas de ambas as histórias fica declarado em Pale Rider. Se em Shane apenas o subentendemos, em Pale Rider observamo-lo em dose dupla. Tanto Sarah (mãe) como a adolescente Megan (filha) declaram o seu amor ao priest, propondo-lhe a segunda aquilo que a primeira concretiza. Isto é possível devido a um ligeiro desvio narrativo que Eastwood não deixou escapar. Sarah é mãe solteira, vive apenas uma espécie de noivado com Hull Barret (o mais inconformado dos garimpeiros que acolhe pale rider na comunidade).

Todas estas semelhanças podiam legitimar a ideia de um remake. E assim será se entendermos por remake não uma cópia, mas uma reconstrução pessoal sem nenhum tipo de submissão ao original. O que se passa é que o filme de Clint Eastwood tem atrás de si mais trinta anos de história, foi filmado nos meados de uma década de 1980 que lhe permitia ter uma noção diferente (quiçá mais polémica) das relações mantidas entre o poder e a justiça. Repare-se como em praticamente todos os filmes de Eastwood a ideia de legalidade aparece associada aos serviços prestados a quem detém o poder económico. Também neste assim é. O Marshall (histórico John Russell) e seus delegados, contratados pelo poderoso empresário que pretende afastar do seu caminho a colónia de garimpeiros, são o quadro de uma pseudo-justiça, ou seja, de uma justiça que não está tão preocupada em defender os desprotegidos como está interessada em servir os poderosos.

O medo que impede os garimpeiros de se deslocarem à cidade é o medo que a fé inspirada pelo priest vem combater, motivando a luta e a resistência dos mais fracos. Temos, deste modo, a fé ao serviço dos desprotegidos e a lei ao serviço dos mais fortes. Trata-se de um lugar-comum no western que não deixa de ter a sua fundamentação histórica e, para mal dos nossos pecados, muitas vezes se revela certeiro na actualidade. Há, pois, uma dimensão mística em Pale Rider que o torna um filme especial. E quando do alto da montanha o eco das vozes do passado desce à vila, nada mais resta a dois corpos tocados pela paixão do que deixarem-se envolver pelo perfume da nogueira em chamas.

GOLPE D'ASA #2


Golpe d'asa — Revista de Poesia
Directora: Ana Salomé
Edição CLEPUL e GOLPE Edições
Novembro de 2012


Apresentação de Nuno Moura, pp. 44-45.