Incapaz de sobreviver com mais cortes, o povo voltou a sair
à rua e expressou-se inequivocamente contra as políticas de austeridade que vêm
sendo impostas ao país. Os mercados reagiram como se esperava. Vem tudo contado
aqui.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
VERA CRUZ (1954)
O fim da Guerra Civil Americana em 1865 reservou destinos
diversos para os ex-combatentes dos Estados Federados. Muitos, rumaram na
direcção do México em busca de uma nova oportunidade. As forças de
Benito Juárez batiam-se, então, contra as tropas do Imperador
Maximiliano. Trava-se a luta pela independência do México. Maximiliano, nascido
em Viena, tinha sido colocado no território pelo imperador francês Napoleão III.
Protegido por tropas francesas, ordenou a execução dos líderes republicanos
mexicanos. Restava Juárez e os seus homens, essencialmente camponeses, fiéis à causa
da independência, desprovidos de armas e de preparação militar. Os
mercenários sulistas norte-americanos ofereciam a sua experiência a quem
pagasse mais, colocando-se a si próprios numa situação de mercadoria. A história de Borden Chase
(mais uma) que Robert Aldrich (1918-1983) adaptou ao cinema em 1954, apoia-se
nestes elementos históricos para desenvolver uma aventura frenética,
integralmente filmada no México, que resistiu como o melhor dos filmes
assinados pelo realizador de What Ever Happened to Baby Jane?. Vera
Cruz apresenta-nos dois mercenários distintos, numa época, nunca é escusado
lembrá-lo, em que os EUA disseminaram pelos quatro cantos do mundo este género
de profissionais da guerra. Benjamin Trane (Gary Cooper, um ano depois de ter
ganho um Oscar pelo desempenho em High Noon) combateu pelo Sul na Guerra de
Secessão. Perdeu tudo. A determinada altura, confessa que desses tempos resta-lhe
apenas a camisa cinzenta. Mas cedo perceberemos que não é bem assim. Se já não
guarda quaisquer resquícios idealistas, colocando o seu interesse sobretudo nos
benefícios materiais, a verdade é que mantém uma sageza na arte de negociar que
faz dele, apesar de tudo, uma personalidade muito mais diplomática do que Joe Erin. Este, interpretado por um Burt Lancaster desumano, é o típico outlaw
sem problemas de consciência. Não tem amigos, desconfia das pessoas, chama a
Trane coração mole quando este mata um cavalo para o impedir de sofrer ou
defende uma pobre camponesa “juarista” de ser humilhada pelos gangues de
americanos que entravam no México nesses tempos. Parceiros na aventura de Vera
Cruz, acabarão por confrontar-se num duelo final que parecia inevitável desde o
início. Contratados pelo Imperador Maximiliano para escoltarem a condessa Marie
Duvarre (Denise Darcel, a mesma de Westward the Women) até ao porto de Vera
Cruz, Trane e Joe, mais uma dúzia de homens, juntam-se aos militares comandados
pelo marquês Henri de Labordere para uma viagem repleta de surpresas. Entre os
americanos requisitados, encontramos o grande Ernest Borgnine (The Wild Bunch) e um incipiente Charles Bronson. Rapidamente a tarefa se complica quando Joe & Trane se apercebem de que estão a escoltar não apenas uma
condessa mas também uma quantia inestimável de ouro escondida debaixo dos pés
da aristocrata. Ouro roubado aos mexicanos, a caminho da Europa como pagamento
pelo reforço das tropas que garantiriam a continuidade do Império. Assistiremos,
então, a um curiosíssimo choque de culturas. Por um lado, a aristocracia
europeia, colonialista e imperialista, com as suas formalidades e os seus
esquemas maquiavélicos de intriga palaciana. Por outro lado, a informalidade dos
mercenários norte-americanos, divididos entre um egoísmo selvagem e pretensões meramente
pragmáticas e utilitaristas. Por fim, um povo ostracizado e humilhado, em busca
da libertação, na defesa de uma causa moralmente nobre com métodos pouco
convencionais, representado, sobretudo, pela figura de Nina (a bela Sara
Montiel). O que liga esta panóplia é uma teia de interesses diversos,
afunilados na direcção de um bem comum: o ouro. Montado com o ritmo dos filmes
de aventuras e o realismo dos melhores épicos produzidos por Hollywood, esta
obra de Robert Aldrich tem o mérito de transmitir um desencanto sobre as
lutas da humanidade que está longe de ser pacífico. As personagens aqui evocadas,
exceptuando, talvez, os libertadores de Benito Juárez, retratados com dignidade
moral na personagem do General Ramírez (Morris Ankrum), parecem ter-se afastado
definitivamente do sentido altruísta que sustém as grandes causas. Com mudanças
rápidas de planos, Aldrich sublinha uma agitação que os rostos das personagens
não disfarçam. São seres desconfiados e oportunistas num poker onde o bluff e a
traição ditam as regras com irreversível fatalismo. Estamos, ainda, no domínio
do western clássico, num ano rico para o género com filmes tais como
Johnny Guitar, The Far Country ou Drums Across the River.
CÂNTICO NEGRO
«Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, serei vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
.E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!
José Régio (n. 1901 - m. 1969), in Poemas de Deus e do Diabo (1925). «Ao contrário do que acontece entre nós, ao contrário do que acontece no Brasil, onde os grandes poetas, mesmo João Cabral de Melo Neto, têm edificado a sua obra predominantemente dentro das novas formas, José Régio parece nem as ignorar, para ser como se elas nunca tivessem existido. Apesar de um poema como Bailarino, que poderia ser caro a Mário de Sá Carneiro ou a José de Almada Negreiros, o poeta que temos presente vai entroncar directamente nos versificadores tradicionais e, além de utilizar os metros, os esquemas estróficos, a rima que neste século têm tido menos favor, chega mesmo a recorrer às chamadas liberdades poéticas, que, como é natural, deixaram de ter sentido quando se instaurou a grande liberdade poética. Por outro lado, se se considerar a introdução da inteligência, da reflexão na arte como a grande conquista moderna, particularmente característica da obra de Fernando Pessoa, não deixaremos de notar que, embora de construção lapidar, a poética de José Régio se apoia predominantemente na sensibilidade. E o efeito surpresa, os deliciosos traumatismos que a melhor poesia do nosso tempo se mostra capaz de produzir cedem aqui o lugar à regularidade da versificação, à perfeição dos esquemas. // (...) Para Régio, a poesia é música, canção, são «rimas e ritmos» e o poeta é um trovador que mede pelos dedos subtis segredos». (Ruy Belo, in Em Torno do Último Livro de Poesia de Régio)
EXTERMINAR COMUNISTAS
O projeto nasceu de uma
vontade de retratar uma realidade e de uma advertência. A realidade era a
memória de esquadrões da morte que, há quatro décadas, mataram milhares de
militantes e simpatizantes comunistas em Sumatra (Indonésia) sob um regime de
impunidade que ainda hoje faz dos perpetradores dessas mortes figuras de
tranquilo dia-a-dia. Joshua Oppenheimer soube das histórias ao caminhar por
aqueles lados, as memórias do terror ainda vivendo entre os habitantes da
região. Queria filmar essas memórias. Mas, advertido, optou por falar com os
perpetradores e não com familiares e amigos de sobreviventes. E, para seu
espanto, deram o sim ao desafio e falaram para a câmara...
Nuno Galopim, aqui.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ (1928-2014)
«O mundo estará fodido de vez», disse então, «no dia em que os homens viajarem em primeira classe e a literatura no vagão de carga.» Foi essa a última coisa que lhe ouviram dizer.
In Cem Anos de Solidão
THE WHY AND HOW OF EFFECTIVE ALTRUISM
Peter Singer no TED talks. Ver e ouvir aqui. E, já agora, ler os livros também pode fazer bem à alma. Caso estejam interessados.
P.S.: As minhas sinceras desculpas por não ter avisado os leitores mais sensíveis de que não se trata de nenhuma voz espantosa no The Voice Portugal nem de nenhum prato deslumbrante no Masterchef. Podem, portanto, saltar o anúnico. Só não se esqueçam de levantar o braço quando vos questionarem sobre o que têm feito por um mundo melhor e mais justo.
P.S.: As minhas sinceras desculpas por não ter avisado os leitores mais sensíveis de que não se trata de nenhuma voz espantosa no The Voice Portugal nem de nenhum prato deslumbrante no Masterchef. Podem, portanto, saltar o anúnico. Só não se esqueçam de levantar o braço quando vos questionarem sobre o que têm feito por um mundo melhor e mais justo.
terça-feira, 15 de abril de 2014
LISBOA
É rica a história de Lisboa, ancestral porto da
Europa onde desde sempre confluíram povos e culturas diversas. Encalhada entre
o seu natural cosmopolitismo e o provincianismo típico da nação, com uma
população essencialmente miscigenada, sofreu ao longo dos séculos alguns abalos
importantíssimos. Depois das invasões romana e mourisca, o primeiro desses
abalos terá sido o cerco no ano de 1147. A tomada de Lisboa aos mouros, que deixaram
espalhadas pela cidade marcas ainda hoje facilmente detectáveis, foi
magistralmente evocada por Saramago no romance História do Cerco de Lisboa (1989).
A inclinação para o mar ofereceu à cidade características posteriormente
desenvolvidas com a aventura ultramarina, os chamados descobrimentos, as
conquistas de territórios longínquos e a chegada desses ecos ao Terreiro do
Paço. O segundo abalo é o terramoto de 1755, a ruína, a destruição e a miséria
espalhados pelas ruas da capital. O processo de reconstrução que se seguiu, notável,
veio a encontrar já no Estado Novo a congruente homenagem ao punho de ferro de
Pombal na Rotunda do Marquês. Há um terceiro abalo, a todos os níveis
impressionante, que consiste no acolhimento e (re)integração de centenas de milhar de
retornados após o 25 de Abril de 1974 e respectiva descolonização. São três
momentos históricos fundadores de uma cidade, comoventes até pelo exemplo de elevada
estatura moral que representam, tão elevada que nos é hoje difícil aceitá-los
como factuais. A atitude daninha e miserabilista a que nos fomos submetendo nas
últimas décadas é de tal forma aglutinadora do espírito que parece mentira ter
sido possível edificar uma cidade desta grandeza ao longo de mais de dois mil
anos. Mas o interesse desta Breve História de Lisboa – cidade do mar (Lisbon,
City of the Sea), escrita por um estrangeiro de seu nome Malcolm Jack, não se
restringe ao tom laudatório da (re)visão histórica. Alguns episódios
permitem-nos compreender um pouco melhor porque somos o que somos enquanto
povo, aceitando, obviamente, a individualidade de cada um dos elementos que
compõem o todo oferecendo-lhe contradição. Tomemos de exemplo a desgraçada
figura de Gabriel Malagrida, jesuíta italiano que pregava na capital à época do
terramoto. Compreensível que em 1755 um acontecimento de tal envergadura
inspirasse a imaginação clerical. Atribuído o terramoto à fúria divina, de
costas voltadas para o luxo e a opulência exibidos por Lisboa, nomeadamente
onde era possível exibi-los, foi este Malagrida o principal porta-voz de Deus
na terra. A cidade estava contaminada pelo pecado, apesar de haver quem
julgasse o terramoto «um acto de amor e um instrumento mais nobre do que aquele
que os pecaminosos cidadãos de Lisboa realmente mereciam» (p. 116). O missionário
italiano, protegido pelo rei D. João V, queixava-se dos passatempos lascivos
dos lisboetas, apelando ao jejum, ao arrependimento, à conversão. A reconstrução da cidade era questão sem
importância. O debate estava instalado e extravasou fronteiras. O Marquês de
Pombal é que não estava para conversas. Virou-se para o clero português,
empossou o irmão para chefiar a Inquisição, persuadiu os clérigos portugueses a
insurgirem-se contra Malagrida, acabando por atirar o herege italiano para a
fogueira depois de ser garrotado. Dir-se-á hoje que Malagrida estava a
pedi-las, mas também não podemos deixar de notar no episódio a supremacia do
pragmatismo face ao pensamento. Lembrei-me disto depois de ouvir ontem o
ex-Presidente da República General Ramalho Eanes, numa intervenção extraordinariamente
sentida, apelar à reflexão que tanto tem faltado ao país. Ora, é precisamente
esta ausência de reflexão que permite todo o tipo de abusos há demasiado tempo
perpetrados pelas elites no poder. E aqui chegamos à visita de Byron, o poeta
romântico inglês que chegou a Portugal sabendo apenas pronunciar alguns palavrões.
Chocado com a imundície de Lisboa, matilhas de cães ingovernáveis nas ruas,
bandos de jovens armados com facas, um clero mendicante, o que Byron mais
apreciou em Lisboa foi… Sintra. Diz Malcolm Jack que Childe Harold, que ainda não
li, publicado em 1812, «está repleta de um tom distintamente lusofóbico». Mas a
verdadeira decepção de Byron é com a postura dos portugueses face à invasão
francesa: «Byron era um jovem imbuído de ideias de lutas gloriosas pela
liberdade: era a essência dos heróis; uma convocação exultante às armas. A ausência
de um espírito de combate em qualquer nação teria atraído o seu escárnio. A
atitude de Byron para com Portugal era portanto complexa. Chegou cedo à conclusão
que os portugueses eram uma raça servil. Até nem mereciam possuir o paraíso de
Sintra» (p. 153). Este povo servil sem espírito combativo é-nos tristemente
familiar, quarenta anos depois de uma revolução militar que nos libertou da
ditadura e contadas praticamente três décadas de ruinoso cavaquismo. Lisboa
permanece, deste modo, como símbolo de um país com uma história muito antiga e
complexa, mas também como berço de um povo aparentemente conspurcado pela nuvem
introspectiva, langorosa, conformada e apática da cidade.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
A LOTA CONTINUA
É vedada a passagem a estranhos
à actividade portuária e a verdade
é que por aqui faríamos
um levantamento dos sons
e dos acasos
melódicos
por um lado os barcos
muito ágeis e que por acaso
não são barcos mas
traineiras
por outro o mar que é reconhecimento
de terra da terra e onde estamos
é terra a acabar ou com sorte
em princípio nesta altura a vida temo-la
por um fio e por força
depois da terra o mar é bravio
faz vento temos sono faz frio
enfim e se vivemos a vida em 35 milímetros
a lota tem muita gente dentro
ou tem a gente a lota pela frente
nenhuma sorte e bem vendo pouca morte
e ultimamente sobretudo um pouco de tudo
o mundo é muito mas que fazer afinal
da roda da frente da bicicleta azul
que dia sim dia não tem um furo?
Hugo Milhanas Machado (n. 1984), in Clave do Mundo (2007). Professor
de filologia portuguesa na Universidade de Salamanca, Hugo Milhanas Machado tem
publicado com frequência desde a estreia com poema em forma de nuvem (2005). A
sua poesia ainda não encontrou o eco crítico que merece, distribuída por
pequenas edições com uma singularidade que escapa às lengalengas estreladas pelo
recenseamento oficial. Poesia com motivos incomuns, tais como acampamentos em Peniche
ou velocipedismo, elaborada a partir de imagens dispersas que encontram na
desconstrução sintáxica um impressionismo assaz sugestivo. Por vezes,
transmite uma invulgar alegria de viver. Noutras ocasiões, deixa-se contaminar
por uma ligeira nostalgia. Não obstante, os poemas são geralmente luminosos e ressoam
experiências, vivências, partilhas, tanto quanto conjugam estes elementos com
memórias disfarçadas por um discurso elíptico que se inscreve no sentido oposto
da narrativa confessional reproduzida por tanta da poesia portuguesa contemporânea.
sábado, 12 de abril de 2014
CABO DA ROCA
O farol é falacioso, não te orienta nos acidentados
recessos da alma. Com sorte, o nevoeiro abrir-te-á os olhos para a serra. É lá
que os covis protegem do naufrágio piratas com espadas de pau. Mortos do
trabalho, enterrados pela vida doméstica, correm o sério risco de encalhar
algures num promontório sugestivo. Seria tentador, acelerar a queda com um
mergulho, não fosse o impacto do vento na pele.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
DESCONHEÇO EM ABSOLUTO
A qualidade da advogada estimula-nos o empreendedorismo: uma
empresa de clientes mistério para auditar o funcionamento das empresas de
clientes mistério. E, já agora, dos escritórios de advogados que "ponderadamente" contornam a justiça fazendo um bom uso da lei. Afinal, só não
vive do ar quem é guloso. "Epifânico"!!!
Adenda: recupero este post humilde para vos dar conta de um outro, desenvolvido e assinado por Lourenço Bray. Está aqui. Leiam, vale mesmo a pena. Pelo menos valerá mais do que ler o chorrilho de banalidades motivacionais que é o livro de Forjaz.
Adenda: recupero este post humilde para vos dar conta de um outro, desenvolvido e assinado por Lourenço Bray. Está aqui. Leiam, vale mesmo a pena. Pelo menos valerá mais do que ler o chorrilho de banalidades motivacionais que é o livro de Forjaz.
EXEMPLOS
é tão misterioso como o
funcionamento dos neurónios.
João Vário, Exemplo Coevo
Uma das boas notícias que 2013
trouxe à poesia portuguesa foi a inauguração de uma colecção de poesia na
editora Tinta-da-China. Livros graficamente bonitos e com distribuição alargada,
tornando acessível um género geralmente acantoado no espaço cada vez mais
ingovernável das livrarias portuguesas. Com coordenação de Pedro Mexia, esta
colecção acaba de ver sair o seu quinto volume. Vai fazer um ano, publicou-se o
primeiro. Exemplos (Tinta-da-China, Maio de 2013), de João Vário, pseudónimo de
João Manuel Varela (n. 1937 - m. 2007), serviu de pórtico. E que pórtico. Poeta
praticamente desconhecido dos leitores portugueses, João Manuel Varela nasceu
em Cabo Verde, estudou medicina em Coimbra e Lisboa, exilou-se na Bélgica. Com
vasta obra publicada no domínio científico, escolheu para pseudónimos
literários os nomes de João Vário, Timóteo Tio Tiofe e G. T. Didial. Cada qual
tem as suas particularidades, sendo João Vário o poeta do mundo, errante no
espírito, meticuloso na escrita.
A sua obra começa a ser
publicada em Coimbra, no ano de 1958, com um livro posteriormente retirado de
circulação. Exemplos é monumento arquitectado com rigor, cujas fundações
remontam ao ano de 1961 num caderno de poesia intitulado Êxodo, organizado com
Luís Serrano e Rui Mendes. De doze volumes projectados, sairão nove: Exemplo
Relativo (1968), Exemplo Dúbio (1975), Exemplo Próprio (1980), Exemplo Precário
(1981), Exemplo Maior (1985), Exemple restreint (1989), Exemple irréversible
(1989) e Exemplo Coevo (1998). Este volume da Tinta-da-China, organizado por
Osvaldo Manuel Silvestre, deixa de fora os dois livros escritos em língua
francesa, escolhe excertos dos restantes respeitando a estrutura rígida de cada
um deles: uma ode inicial e a divisão do poema em três cantos. O método faz
estremecer o leitor contemporâneo, porventura mais habituado a construções
singelas. Mas os mestres de Vário são de outros tempos: «Pound e Eliot, nossos mestres
mais ditosos» (p. 260).
A poesia de João Vário
esquiva-se ao paradigma do escritor dito africano, sendo a designação de poeta cabo-verdiano
demasiado estreita para alguém cuja escrita repercute constantemente ambientes
urbanos e influências culturais europeias. Do texto bíblico aos clássicos,
destes aos modernos, são diversas as citações ou evocações que se intrometem
nos poemas, servindo de referencial a reflexões intensas sobre temas tais como
a morte (logo no primeiro livro), o exílio, o tempo, a predestinação, a
cidadania. Silvina Rodrigues Lopes dirá: «Em toda a poesia deste autor
encontramos o mesmo imenso obstáculo à decifração — perseverança na opacidade,
que se gera pela reflexão que hesita e pela atenção ao que vem, o nascer do
mundo, na sua irreconhecível e demasiado próxima escrita» (Via Atlântica, Junho
de 2009). No entanto, o que há de enigmático em João Vário é uma original articulação
da linguagem com a experiência, numa escrita onda redemoinham imagens, se recorre
à anáfora com frequência, uma escrita que retoma os seus motes diversos e neles
insiste até à saturação de um impulso que vislumbra na sombra disfarce ideal
para a expressão da consciência.
A recorrência a superlativos
sintéticos sugere-nos uma intensidade emotiva que os poemas, altamente reflexivos,
exploram a partir de problemas fundadores como aquele expresso logo nos versos
iniciais: «Porque alegrarmo-nos na nossa obra / é a parte que nos cabe, / pois
quem nos fará voltar / para ver o que será depois de nós?» (p. 13) Esta dúvida,
que parece percorrer todos os volumes, surge posteriormente colocada de outras
formas. Com um ritmo avassalador, repleto de curvas e contracurvas, João Vário
disseca a experiência vivida para, a partir de um trabalho anatómico que por
vezes resvala num tom oratório, nos inquietar de novo com a ditadura do tempo,
numa espécie de ataque ao destino onde a posteridade e a eternidade são capturadas
pelo eterno retorno. Vejam-se, a título de exemplo, estes versos do canto
segundo do Livro 4, Exemplo Próprio (p. 144):
Homem de pouca fé, por que
temes o peso dos teus passos?
Vamos pela vida arrastando
essas noções
de nação, de cultura, de
civilizações
- coisas estranhas, sem
dúvida, à índole do mundo,
da fraternidade ou da
natureza,
porém coisas talvez da ordem
das coisas,
das fábulas ordinárias,
mas será que somos disto ou
daquilo, que a verdade é essa,
que não escutamos senão de
dois ouvidos
e há um país para a leitura
dos nossos mitos próprios
e que a alma não acende além
do madeiro recebido
as parábolas que o auxílio
sugere
e as volvem, quando deus
morre, melhor árbitro do mundo?
E comparem-se agora com estes,
do canto terceiro do Livro 9, Exemplo Coevo (p. 277):
Sabe-se que os homens são
fracos, volúveis,
que esta terra é pequena e
molesta,
e o bem e o mal apenas são
esse tédio das euménides,
porque, em verdade, os justos
não se revoltam,
as musas são imperturbáveis
e não pode haver Sodomas e
Gomorras indefinidamente,
porque o homem olha e é Deus
que se faz estátua.
Tal, se nos interrogamos sobre
o sentido do desvelo
ou da violência, como ele as
duas metades
do nosso corpo separa, dando
metade
às nossas camas e a outra
metade distribuindo
por estranhos como moeda pobre
ou erva de Constantinopla,
o fundo tocamos de tal
imprevidência e a abundância
que a vida reduz a essa conta
divina: o âmago irreconhecível,
a casa, a mulher e tal dom da
imaterialidade, da decifração.
Homem de pouca fé, por que
temes o peso dos teus passos?
Ora, do problema da identidade
cultural, típico do homem exilado, à experiência aterradora da humanidade, que
encontra no cidadão inevitável desassossego, repete-se uma mesma dúvida: «Homem
de pouca fé, por que temes o peso dos teus passos?» Mas esta dúvida já não é
apenas do homem exilado nem do cidadão desassossegado, é dúvida do ser único e consistente
que a ambos persegue num só corpo, o corpo do poeta. Ontológica, portanto, esta
poesia, por nos remeter para questões universais e intemporais do ser a partir
da experiência finita e efémera de um homem só. A leitura de João Vário exige,
assim, uma predisposição para o pensamento que não se coaduna com uma mera
fruição da linguagem, da expressão ritmada das palavras, com o espanto
provocado pela erupção de imagens e metáforas. Se tivermos que chamar difícil a
um poeta, seja a João Vário. Embora eu prefira o termo exigente.
terça-feira, 8 de abril de 2014
NÃO HÁ ALTERNATIVA
Quem quiser compreender a crise que estamos a atravessar,
pode começar por aqui. Bertrand Rothé (economista) e Gérard Mordillat
(escritor, cineasta) pegaram no célebre chavão thatcheriano —There is no
alternative… — e desmontaram com simplicidade décadas de propaganda económica.
Em três conjuntos de textos, coloridos de sagacidade e ironia, explicam o desmoronamento
progressivo do Estado-Providência erguido no pós-guerra com a hegemonia de
teses “liberais” que endeusam os mercados e a sua mão invisível. Transformado
em virtude, o egoísmo só tem um horizonte em vista: o lucro. Desregulamentação dos
mercados, desenvolvimento de empresas offshore, fragilização do sector público,
prostituição da classe política, multiplicação de serviços prestados pela
banca, “big bang especulativo”, flexibilização das leis laborais, uma justiça
impotente face à corrupção financeira, colocaram o poder na mão invisível dos
mercados. Mas os mercados não são entidades meramente abstractas, existem e
funcionam na base de interesses concretos que protegem os bancos e, por
consequência, beneficiam as grandes empresas (multinacionais e não só) onde se movimentam, num trânsito
imparável de cargos, políticos subitamente transformados em empresários e
empresários metamorfoseados em políticos. A realidade francesa, que o livro
expõe com especial atenção, não é diferente da nossa. Cá é tudo ainda
mais óbvio, tacanho até, cá é tudo ainda mais evidente com o beneplácito de uma
população ou desinteressada ou conformada ou impotente (não sei bem).
Banqueiros claramente corruptos cujos crimes prescrevem, políticos incólumes, escritórios
de advogados ao serviço de suas majestades, toda uma classe de ”ultra-privilegiados”
que nos querem convencer, pela boca de «artistas de variedades para distrair o
público, missionários para salmodiar dia após dia o novo catecismo» (vide
Camilo Lourenço, vide José Gomes Ferreira…), da inexistência de uma alternativa a estas
oligarquias que meteram a democracia na gaveta e se estão nas tintas para o bem
comum. Estão-se tanto nas tintas quanto é evidente serem as suas receitas causa
essencial do agravamento das assimetrias no mundo, com a inevitável
globalização a encher os bolsos de uma ínfima minoria que prospera encavalitada
numa imensidão de desafortunados: «Os menos afortunados podem mesmo trabalhar a
tempo inteiro e no entanto ter de dormir no carro. (…) Têm de sofrer em nome da
modernidade e de uma liberdade de concorrência não falseada. E tanto pior se,
depois, de entre aqueles que têm a sorte de ter ainda um emprego, alguns se
irão tornar working poors. Assalariados e pobres, é esse o preço a pagar para
aceder ao mundo do futuro» (p. 66). Mas que importa as pessoas perante a saúde
dos mercados? Apetece parafrasear o pseudo-político português que recentemente
se vangloriava de um país muito melhor apesar de reconhecer estarem pior as
pessoas, como se o país não fosse essa coisa distante a que o próprio dá o nome de pessoas. Ora, ironia das ironias, o que
esta crise veio trazer foi a heterogeneização do paradoxo. Temos, assim, países
de bandeira comunista que são a menina dos olhos de ouro, sobretudo em termos
laborais, dos neo-liberais e seu séquito de empresários avarentos (China? Angola?); temos os
inimigos do Estado a socorrerem-se do Estado quando a dor aperta (BPN?); temos biliões
de dólares desbloqueados para salvar bancos da ruína quando para a educação, a
saúde, a cultura, falta sempre dinheiro (não há, não dá); temos uma plutocracia falida a passear pelo
mundo em jactos privados… «Moral: quando os lucros florescem, o lema é “abaixo
o Estado”; quando as perdas se acumulam, passa logo a ser “viva o Estado”!» (p.
75) Tudo isto, entretanto, se tornou lugar-comum, mas nunca é de mais
lembrá-lo. Sobretudo quando estamos debaixo do fogo das “teorias da resiliência”,
com políticas de austeridade alicerçadas numa disseminação do medo (medo de
falir, medo de perder o emprego, medo de mudar…) que obnubila uma classe média
que a todo o momento procura não ter consciência do quão explorada vai sendo. Os
fast thinkers de serviço, cujo discurso anda sempre a favor do vento, podem
encontrar os seus bodes expiatórios no cigano que vive do RSI, na família que
se endividou para comprar uma vivenda, no peralvilho que ganha o SMN mas não
dispensa um smartphone pago a prestações. Nada disto apaga o essencial, ou
seja, alguém está a lucrar, e muito, com esta crise, alguém tem vindo a lucrar,
e muito, com a propagação do chavão thatcheriano: There is no alternative. À
refundação do Estado podemos propor, em herética alternativa, uma refundação do
capitalismo. Podíamos começar por acabar com os paraísos fiscais, “enquadrar as
práticas dos banqueiros”, nacionalizar as agências de notação, oferecer à
justiça ferramentas básicas contra a prescrição de crimes económicos e fiscais
profundamente lesivos da vida da maioria, lutar contra a fraude fiscal,
reestruturar o sector bancário, taxar os rendimentos financeiros, estabelecer
um imposto sobre o capital… Podíamos, não fosse dar-se o facto de as crises serem
«uma prenda do céu para os especuladores. (…) os responsáveis pelos bancos de
investimento põem-se a salivar só de pensarem nas generosíssimas comissões que
poderão obter com consultorias e restruturações de dívidas. (…) Os mercados são
entidades necrófilas!» (pp. 122-123) Portanto, congelem-se salários e aumentem-se
impostos, proteja-se a incúria dos bancos, vampirizem-se as populações, seja-se
rigoroso, claro está, com os mais fracos. Não é assim? Segunda moral da
história: «Jesus anunciava a chegada do Reino mas o que afinal acabou por vir
foi a Igreja, (…) o capitalismo anunciava a liberdade mas o que afinal acabou
por vir foi a oligarquia». Quem quiser compreender, pode começar por aqui.
AGRADECIDO
Excerto do discurso de Alexandra Lucas Coelho, ao receber o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de
Escritores, atribuído ao seu romance "E a noite roda".
"Estou a voltar de três anos e meio a morar no Brasil. Um dia,
a meio dessa estadia brasileira, pediram-me que gravasse um excerto de um conto
de Clarice Lispector para o site do Instituto Moreira Salles. Era um conto em
que a protagonista era portuguesa, daí o pedido, que a voz coincidisse com o
sotaque. Como detestei aquela portuguesa do conto da Clarice. Tudo na boca dela
era inho e ito. Era o Portugal dos Pequenitos com a nostalgia das grandezas.
Aquele que diz “cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas” mas sofre de
ressentimento. O Portugal que durante 40 anos Salazar achou que era seu, pobre
mas honesto-limpo-obediente, como agora o governo no poder quer Portugal,
porque acha que Portugal é seu.
Estou a voltar a Portugal 40 anos depois do 25 de Abril, do
fim da guerra infame, do ridículo império. Já é mau um governo achar que o país
é seu, quanto mais que os países dos outros são seus. Todos os impérios são
ridículos na medida em que a ilusão de dominar outro é sempre ridícula, antes de
se tornar progressivamente criminosa.
Entre as razões porque quis morar no Brasil houve isso:
querer experimentar a herança do colonialismo português depois de ter passado
tantos anos a cobrir as heranças do colonialismo dos outros, otomanos,
ingleses, franceses, espanhóis ou russos.
E volto para morar no Alentejo, com a alegria de daqui a nada
serem os 40 anos da mais bela revolução do meu século XX, e do Alentejo ter
sido uma espécie de terra em transe dessa revolução, impossível como todas.
Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da
República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos
representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril, a
começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um
império perdido.
E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho,
pois, que este presidente se faça representar na entrega de um prémio
literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país
não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as
orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.
Não sou crente, portanto acho que depende de nós mais do que
irmos indo, sempre acima das nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto
em vez de mais baixo, Para claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos
seres para a morte, que somos, que somos.
Partimos então do zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo
meio tudo é ganho porque só a perda é certa.
O meu país não é do orgulhosamente só. Não sei o que seja
amar a pátria. Sei que amar Portugal é voltar do mundo e descer ao Alentejo,
com o prazer de poder estar ali porque se quer. Amar Portugal é estar em
Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal apesar de o governo nos mandar
embora. Contrariar quem nos manda embora como se fosse senhor da casa.
Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui
representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do
arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio
Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no
Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza
dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo
que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação,
Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou
simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas
que a História não confina a míseras notas de pé de página”.
Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de
desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem
ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país;
dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a
perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam
emigrar.
Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do
seu governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem.
Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo
porque não temos alternativa.
Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque
aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito,
inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem
de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil, do que qualquer discurso oco
dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o
português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a
história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da
escravatura.
Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa,
e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou
7000 livros, uma tonelada, para um 11.º andar, que era o que dava para pagar de
aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado
caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual
presidente da República.
E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de
quem não cruzou os braços quando o governo no poder estava a acabar com o
cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa
conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas
presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância,
autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dividas à segurança
social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E ainda assim, de
cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se,
inventavam, aos altos e baixos.
Não devo nada ao governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos
agricultores, ao Rui Horta que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara
Bulhosa que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em
cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.
Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o
trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as
pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é
prémio, é compromisso.
Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo
corre para acabar, sabemos, Mas enquanto isso estamos vivos, não somos
sobreviventes."
segunda-feira, 7 de abril de 2014
DIETAS
O negócio das dietas prospera. Há a dieta dos 31
dias, a dieta das princesas, a dieta viva, a dieta perfeita, a dieta simples, a
dieta 1, 2, 3, a dieta barriga zero, a dieta Dukan, a dieta dos sumos, a dieta
dos 2 dias, a dieta do prazer, a dieta para uma pele saudável, a dieta 2 em
sete – dois dias de dieta, cinco dias de pausa -, a dieta do metabolismo
rápido, a dieta dos 2 tamanhos, a dieta sem dieta, a dieta dos passos, a dieta
dos 30 dias, a dieta sem castigo, a dieta 5:2, a dieta da comida crua, a dieta
dos estudantes, a dieta low-cost, a dieta ideal, a dieta revolucionária do Dr.
Atkins, a dieta de South Beach, etc, etc, etc… Com tantas dietas, suponho que
alguém ande a ficar gordo. Mas nada supera a dieta de Auschwitz. Arranjem-me um
nazi, por favor. Preciso emagrecer.
domingo, 6 de abril de 2014
WARLOCK (1959)
A geografia do western está maioritariamente concentrada
nos estados do Texas e Novo México, nas fronteiras a sul de uma nação
dividida e endemicamente desigual. Não obstante, é vasto o território deste
género cinematográfico. Cidades como Tombstone (Arizona), Dodge City (Kansas), St.
Joseph (Missouri), Crown City (Ohio) ou Sheridan (Wyoming), só para dar alguns exemplos,
integram um roteiro que, bem vistas as coisas, é o dos Estados Unidos na sua
totalidade. O western não se confina aos estados do sul nem ao ambiente social
do chamado Old West, nas fronteiras que separavam a América do Norte do México
ou, no interior da própria América, os territórios ocupados pelos colonos das
nações índias. Esta complexidade geográfica oferece-nos uma riqueza identitária
sem paralelo, a qual está na raiz multicultural dos states e se prolongará em
manifestações artísticas aí desenvolvidas. Cinema incluído. Não admira,
portanto, que muitas das narrativas produzidas em torno do fenómeno recorram a
lugares imaginários, vilas recônditas, lugarejos abandonados, fortes perdidos
no meio do nada, onde a civilização procurava impor-se ao clima selvagem
recorrendo a métodos nem sempre ortodoxos, frequentemente ambíguos,
controversos, paradoxais, estimulantes de um ponto de vista filosófico. Warlock
é um desses lugares estranhamente esquecidos. Edward Dmytryk (n. 1908 – m.
1999), filho de imigrantes ucranianos, tinha tudo para ser um dos génios de
Hollywood. A caça às bruxas na era McCarthy levou-o à prisão em 1947, vindo a
ser reintegrado, depois do exílio britânico, na sequência de um depoimento onde
bufou alguns dos seus antigos camaradas. Dmytryk ficou marcado em todas as
direcções. Que a biografia não desfaça a arte. Warlock/O Homem das Pistolas de
Ouro (1959) é filme para cinco estrelas, um dos melhores alguma vez
produzidos. O elenco de luxo, onde pontificam Richard Widmark, Henry Fonda e
Anthony Quinn, parece não ter sido suficiente para o resgatar do
esquecimento. Estão lá, também, Dorothy Malone e Dolores Michaels (excelentes,
as duas). Jean Tulard refere-se-lhe nestes termos: «As implicações
homossexuais do roteiro (o matador é acompanhado por um amigo que é também seu
guarda-costas, debilitado e de comportamento perturbado), achados de direcção e
um elenco estrondoso fazem dele uma obra-prima». Não há exagero nas
considerações. Warlock é uma vila isolada onde a lei não chega. Cansados de
serem humilhados pelos cowboys de San Pablo, os habitantes resolvem contratar
um Marshall para os defender. Clay Blaisedell (Henry Fonda) é o homem de quem
todos ouviram falar, o homem cuja coragem motivou livros e a quem populações
desesperadas ofereceram pistolas com punhos dourados. Aqui chegados, dois
parêntesis se impõem. Primeiro: o argumento salienta uma representação
ambivalente da figura do cowboy. Ao contrário do que tantas vezes se sugere, o
cowboy aparece no western tanto como um desordeiro que importa controlar como o
indivíduo corajoso, determinado e errante que inspira desconfiança. Nos bons westerns,
o cowboy ocupa por vezes o lugar do índio onde este já não tem lugar. É
igualmente nómada, não reconhece a lei nem a ordem, actua única e
exclusivamente em função do seu individualismo, podendo ser bom quando dotado
de consciência moral ou terrível quando imerso na anarquia da sua vontade.
Segundo parêntesis: vilas isoladas como Warlock são frequentes na história do
western, lugares sem rei nem roque onde as populações se organizavam na medida
das suas forças, muitas vezes vítimas de um Estado mínimo que as votava ao
esquecimento, obrigando os cidadãos a tomarem medidas extremas como sejam a
contratação da sua própria justiça. Robert Nozick, autor de
Anarquia, Estado e Utopia, tinha algo a ganhar se olhasse para estes exemplos
com o cuidado que a História merece. Afinal, eles são reveladores de uma
fragilidade social que a dura implementação da lei e da ordem torna maquiavélica.
O pseudo-juiz coxo que Edward Dmytryk coloca no seu filme é metáfora
pertinente da justiça onde a força do Estado se torna mínima, uma justiça que
impele os cidadãos para alternativas extremas tais como a contratação de
pistoleiros implacáveis (o town tamer de Man With the Gun) sem sentido de
justiça que não seja a sua própria consciência. Entregues à consciência de um
só indivíduo, as populações ficam à mercê dos caprichos e das paixões desse ser
que, lá está, é humano como qualquer outro entre os demais. Verdadeiramente marcante
a relação entre o Marshall contratado pela população de Warlock e o seu fiel
companheiro. Henry Fonda e Anthony Quinn têm entre eles, como sugere Jean
Tulard, um elo apaixonado que extravasa os domínios da amizade. Há qualquer
coisa de sexual na forma como Tom Morgan (Quinn) protege Blaisedell (Fonda),
nos cuidados na decoração dos novos aposentos, assim como na reacção de
Blaisedell à morte do seu companheiro de dez anos, na forma como o segura ao
colo, obriga a população a lamentar-lhe a morte e pega fogo ao French Palace
entretanto transformado em câmara ardente. Paixão e ciúme acabam por separá-los. Não vale a pena esmiuçar um
argumento repleto de pormenores incrivelmente sugestivos, filmado com argúcia
rara e incrivelmente estética, onde o desempenho de actores excelentes tem o
olhar que merece. É um filme para rever muitas vezes, tantas quantas as
necessárias à justiça de uma memória perdida.
PORNOGRAFIA SOCIAL
A chegada da Primavera crepita as hormonas, oferecendo ao
tema sexual a sua oportunidade libertária. Este ano, o trailer de um filme que
não vou ver, adaptado de um livro que não li, serve de aperitivo para o rol de
fantasias luxuriantes que enche ginásios com indivíduos em busca de uma forma
para o corpo que, perdoem-me a presunção, não alcançam para a cabeça. Não vou
ser eu a fazer o papel de César das Neves, mas seria injusto para comigo se escondesse aquilo que mais me excita de momento. Esqueçam as
futilidades da Rebelo Pinto, as toneladas de pornografia literária, ainda por
cima má, que a E. L. James inspirou, esqueçam também os artigos, as reportagens,
as notícias que hão-de fazer as delícias da imprensa humanista, isto é, sensacionalista.
Em boa verdade vos digo que sexy, sexy, sexy, por estes tempos, só mesmo a Isabel Jonet. Confesso o tesão que a senhora me provoca, com seu
maternalismo social, a luta contra a fome, a que associo inevitavelmente uma
enorme vontade de comer, e, mais recentemente, o desprezo para com as redes
sociais. Escusado será dizer que partilho o desprezo, e entrevejo na sua
afirmação um erotismo puro. O pior inimigo dos desempregados são as redes
sociais, afirmou a mater dolorosa dos pobrezinhos. Podia ser o desemprego, o
trabalho precário, um Código do Trabalho sucessivamente alterado à medida dos
interesses de quem emprega, podia ser a ganância de patrões que exploram até ao
tutano recursos mínimos tendo em vista apenas lucro e crescimento para os seus
bolsos. A distribuição da riqueza, desigual e assimétrica, podia ser força
inimiga do desemprego, assim como um Estado subserviente aos interesses
privados, lacaio de empresários e banqueiros corruptos a quem a justiça nunca
mete mão por ser mais forte o valor dar prescrição. Tudo isto podia ser o outro
lado da trincheira do desemprego, não fosse medrar entre os desempregados o
demónio das redes sociais. Pode parecer estranho a quem me leia pressentir eu
nestas afirmações uma sensualidade irresistível. Explico-me: a estupidez dá-me
tesão, tanto quanto me excitam calções curtos e leggings pretas, saltos altos,
decotes ousados, tatuagens nas mamas. São coisas que um intelectual não evita,
perante elas rasteja como fera amansada. Tudo o que é fútil, superficial,
imediato, excita a mente complexa, porque liberta-a dos labirintos reflexivos e
solta-a de amarras mórbidas e existenciais. É o corpo, meus amigos, é o corpo tomando conta da alma. A descomplexificação do mundo está
para o intelectual como o Viagra para a disfunção eréctil, pelo que os palrares
da Jonet têm qualquer coisa de sexualmente estimulante. Não vale sequer a pena
supor que as redes sociais podem propiciar ao desempregado contactos
vantajosos, estreitar distâncias, promover ideias. Fiquemo-nos pela mais simplista
das leituras: aquilo é passatempo, perda de tempo, um antro de exibicionismo
público onde a vida privada se deixa voluntariamente profanar. Aquilo é o
diabo, como antes daquilo o diabo era a televisão, e antes desta a rádio. A
televisão é o pior inimigo do desempregado. E se queremos combater o inimigo,
só nos resta uma solução. Claro está que para Jonet, que não fala isolada
(estamos contigo), existem viais alternativas mais úteis e profícuas e
socialmente aceitáveis. Exemplos? Ah, meus caros, se as redes sociais são o
pior inimigo do desempregado, o maior amigo só pode ser o trabalho
voluntário. Claro, o trabalho voluntário. E logo a seguir o estágio não
remunerado. E subsequentemente o trabalho precário. E assim continuamente. Se isto
não é a base da pornografia social, então qual é?
sábado, 5 de abril de 2014
GROTO SATO
A confiar nas estatísticas, Raquel Nobre Guerra (n. 1979)
faz parte da “geração mais bem preparada” do país. Quer isto dizer que, nascida
em liberdade, tanto quanto de liberdade podemos supor na conservadora vida
portuguesa, beneficiou das décadas prósperas que ergueram Portugal ao nível dos
países mais apetecíveis do mundo. Não estou a ser irónico. É uma realidade
insofismável, se nos compararmos com o mundo para lá da Europa. Mas esta
geração é também a que vai aprendendo a lidar com uma “preparação” sem resposta
no mundo do trabalho, uma geração perdida algures entre o advento das novas
tecnologias e o desaparecimento de um tecido social concreto, orgânico, pele na pele. É
a geração das redes sociais, de uma existência virtualizada que o realizador David Cronenberg tão bem caricaturou em eXistenZ (1999), da fractura abrupta
com uma realidade agora julgada de obsoleta, arcaica, ultrapassada, embora
convivendo com nichos de resistência onde andar descalço sobre a terra pode ser um acto de insubordinação. No future, o slogan punk que os Sex Pistols celebrizaram, faz de novo
sentido, agora que julgamos mortos todos os profetas e da esperança resta apenas
vaga sombra.
Não sendo determinante para a leitura da sua poesia,
embora ajude a enquadrá-la, licenciou-se a poeta em Filosofia pela UCP e seguiu
estudos para mestre em Estética e Filosofia da Arte. Matérias inúteis,
portanto, neste novo mundo pós-humano. Talvez seja este o primeiro sinal de uma
filiação testamentária que a própria teimosia no poema reforça, dar testemunho da ruína, da morte, do declínio no seio emergente da novidade. A matriz filosófica nota-se, assim como o ambiente católico do berço
académico. Nota-se enquanto obstáculo, ou seja, há na poesia de Raquel Nobre
Guerra uma atitude de confrontação com as suas raízes. Groto Sato (Mariposa
Azual, 1ª edição 2012, 2ª edição Outubro de 2013) - Prémio Primeira Obra do PEN
Clube Português em 2013 - distribui por cinco secções (a última com um
único poema longo, decalcado de Álvaro de Campos) versos onde ficam patentes os domínios do confronto que
opõem o velho ao novo. O próprio título do livro assim o indica. No posfácio de
João Barrento à segunda edição esclarece-se a estranheza do título:
«É um livro esfíngico, e o leitor tem de ter a intuição e
o saber de Édipo. A começar pelo título: Groto Sato. Este título será para
muitos leitores um engulho, um engasgue, um sapo que custa a engolir. Ou afasta,
ou instiga à descoberta (aconselha-se a última). Levei tempo a chegar lá, não
tanto ao sato, mais ao groto, e sobretudo à ligação entre as duas palavras. O
que primeiro ocorre é talvez o japonês: Sato é nome dessa língua, com o
significado de «Iluminado» (tem a mesma raiz do Satori do Zen, a iluminação).
Mas é também uma forma verbal latina, com o sentido de cheio, saciado, farto
(disto tudo que nos cerca?). E groto? A gruta mágica da informação, a Net, não
ajuda muito. «Groto» é nome de pizzarias em Lamego e em Itália! Mas também
forma antiga de «gruta», que nos serve melhor. A polissemia vence, podemos ler
esse estranho título que se nos enrola na boca como «A gruta iluminafa», ou
também «O buraco de quem está farto», ou ainda, como me saiu espontaneamente ao
«traduzir» o título, «De saco cheio»!» (p. 109)
A citação é elucidativa de um trabalho linguístico que os
poemas repetem, absorvendo elementos clássicos numa linguagem onde o
vernáculo tem igual assento. É dado adquirido entre os poetas portugueses da
nova geração o usufruto mais ou menos caótico de múltiplas referências culturais,
proveito de uma herança histórica onde latim e grego, árabe e sânscrito, podem
fornecer condimentos apelativos para uma torrente expressiva cujos limites são os do
caldeirão onde se cozinham feitiços verbais. Da mesma forma, convivem nestes
poemas epígrafes provenientes da cultura popular com citações de autores
consagrados (preferencialmente maudits). Este caos referencial, multicultural,
repleto de envios e de evocações, não transforma esta poesia, porém, naquilo
que usualmente nos é sugerido como “poesia culta”. Na verdade, o emaranhado confunde-se com a própria vida de quem, lá está, calhou ter por experiência
a assimilação da experiência alheia, ao mesmo tempo que traduz de pequenos
gestos quotidianos épicas conquistas pessoais. Há nisto muito de poesia, é
certo, mas também de biografismo velado, como nesse poema intitulado No Tempo
dos Golos onde se subentende a vivência de uma Lisboa nocturna em tempos de,
digamos, repouso académico.
Sucede que a única referência que em todas as páginas
sombreia e que em todas as esquinas do poema ressoa, não vem explicitada.
Nietzsche, o filósofo que para matar Deus se matou a si próprio, escreveu este
aforismo intitulado Sentir a arte de maneira diferente: «Desde que se vive como
eremita insociável, devorador e devorado, com fecundos e profundos pensamentos
e somente com eles, ou não esperamos já seja o que for da arte, ou esperamos
uma coisa muito diferente do que antes – por outras palavras, mudamos o gosto.
Pois outrora queríamos, através da arte, mergulhar, um momento, no elemento em
que hoje vivemos permanentemente; ela permitia, outrora, sonhar o encontro com
uma coisa que agora possuímos verdadeiramente. Sim, despojarmo-nos
momentaneamente do que temos agora e sonharmo-nos pobres sob os traços de uma
criança, de um mendigo ou de um louco – eis o que pode agora encantar-nos ocasionalmente» (os sublinhados são meus).
À aurora nietzschiana corresponde, desta forma, um despojamento e uma ilusão
propiciadores de ocasional encanto. Do mesmo modo, os poemas de Groto Sato
implicam esse despojamento e essa ilusão que provocam espanto no eremita insociável e, por isso, (nos) encantam.
Há nestes versos uma arte de enfeitiçar que transcende a
raiva por eles exibida e o (aparente) niilismo que sublinham. A sintaxe
informal de poemas ora epigramáticos, ora de maior fôlego, imprime à leitura
ritmos diversos onde o sentimento de vazio abismal e um contexto político decadente
são como que exorcizados no ritual satânico da poesia. Baudelaire serve de farol, mas já não como serviu, por exemplo, a Manuel de Freitas (n. 1972) e correspondentes afectivos. Elipses súbitas desviam
sentidos, confundem a leitura, abrem alas para o termo estranho num certo
barroquismo imagético que tem sob si um desejo de subverter formas e fórmulas rígidas,
um sentimento heterodoxo da vida e, por consequência, da poesia que penetra as
zonas obscuras da mente com uma enorme vontade de trazer à superfície
sentimentos fechados nos lugares recônditos do corpo. Despojamento momentâneo,
como queria Nietzsche, a lembrar, por vezes, poetas como Sharon Olds ou Karen
Finley, sobretudo na dimensão cénica que coloca Eros a dormir na mesma cama com
Thanatos. Um poema para resumo, um poema
SEM TÍTULO
resistimos a todas as noites não à nossa
tudo indica que se insinua levita até
uma primavera vulpe a que se somam
detalhes médicos gongóricos e um tanto
da metafísica para desatar esta malha em rodilha
uma oração disposta a todas as misérias
um golo certo para abrandamento cardíaco
mas continuamos gente, singular detalhe
paramos arrefecemos
neste mistério participado, entrelaço de que seguramos
firme a ponta para que nela recaia a substância
de efeitos mágicos
morremos, nós que morremos tão apenas
na hora conciliadora de todas as agulhas
de bordalo indiferente ao dedilhado
e desenrolamo-nos todos no chão
sexta-feira, 4 de abril de 2014
JORGE FALLORCA (1949-2014)
Vinha escrever umas coisas. Fico-me. No weblog do manuel, a
notícia da morte do Jorge Fallorca. Já sabia que andava doente, e, com pesar,
as últimas palavras trocadas foram azedas. Mas tive oportunidade de lhe dizer
que independentemente do mau ambiente final, a admiração mantinha-se. Gosto sinceramente
dos livros deixados pelo escritor, guardarei da pessoa a alegria de o ter
conhecido e dos charros que partilhámos. Sobre os livros e algo mais, escrevi aqui, aqui (inicialmente publicado no Universos Desfeitos, foi este o texto que nos apresentou),
aqui, aqui, aqui (este foi ensaiado, a pedido do autor, para apresentação da
obra com o mesmo título). Fica O Cheiro dos Livros. Saúde,
quinta-feira, 3 de abril de 2014
THE CASTRO THEATRE
Um dos meus weblogs favoritos anuncia aqui a exibição dupla
de Rancho Notorious e Johnny Guitar no The Castro Theatre. Apesar do nome bem
português, a sala fica em San Francisco. Não dando jeito a deslocação, sugiro
que adquiram os DVDs e improvisem sessão idêntica no conforto do lar. Quando
alguém me diz que não gosta de western, indico sempre esses dois filmes. Nesta
lista, ainda em construção, são, muito provavelmente, o top of the tops para
quem pretenda iniciar-se no género.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
A CORRIDA DE 100 METROS
Vejamos o mundo.
Exércitos, lugares onde se sofre,
sacrifícios da mãe pelos quatro filhos, o erudito de óculos a
examinar
o filme pornográfico,
o velho de passo lentíssimo com um casaco exagerado,
uma criança a troçar de outra mais fraca,
o casal a discutir por causa do ruído dos pés de um
e da sensibilidade do ouvido do outro,
e no meio de tantos factos e de tão diversas possibilidades,
oito homens com calças curtas e números nas costas
correm cem metros
- nem um centímetro a mais - e ganham ou perdem.
e uma vitória, por exemplo, pode levar alguém a curvar-se
e a chorar. E o assunto são cem metros de espaço do Mundo.
Pensa, por exemplo, no espaço de um país
ou no espaço da tua casa,
ou no espaço que percorres atrás da rapariga
que te largou a mão no meio da cidade;
porém nada mais há em alguns instantes, para esses homens,
além de: cem metros. Cem metros de espaço no planeta.
Vejamos, pois, o Mundo outra vez.
Como quem lê pela segunda vez um livro. Voltemos atrás.
Vejamos onde o homem perdeu a razão.
Em que momento.
Gonçalo M. Tavares (n. 1970), in 1. Autor prolixo e inclassificável, Gonçalo M. Tavares
estreou-se em 2001 com Livro da Dança. Publicado numa prestigiada colecção de
poesia da editora Assírio & Alvim, à época referência maior da produção poética
nacional, esse livro aparece na mais recente organização que o autor fez da sua
bibliografia ao lado de um outro, Investigações. Novalis (Prémio de Revelação
APE/IPLB – Poesia 1999), sob a designação genérica de Investigações. O facto é
tanto mais relevante quanto o autor parece considerar Poesia, no conjunto da
sua obra, apenas o livro 1 (Relógio d’Água, Novembro de 2004). Sobre Gonçalo M.
Tavares muito se tem escrito: «Numa altura em que uma nova inocência épico-narrativa
restaurou a narração do tipo “A Marquesa saiu às cinco horas”, é bom encontrar
quem se coloca à distância da tagarelice e do “Kitsch” novelescos» (António
Guerreiro, Expresso, 29 Maio 2004); «Esta escrita-leitura multiplica as mediações
literárias e culturais e está nos antípodas de todo o realismo: corresponde, de
modo geral, a uma intenção alegórica que põe à distância o mundo, o real, a
sociedade» (idem, ibidem, 4 Dezembro 2004); «Mais uma vez Gonçalo M. Tavares
nos surpreende. Raramente encontramos autores literários com esta fulgurante
inteligência das coisas. E com esta estranha e deslumbrante capacidade de
inventar o formato dos livros, o livro como suporte, e simultaneamente a
literatura e a escrita, em cada novo livro» (Eduardo Prado Coelho, Público, 10
Junho 2006); «Tavares não se aventura por qualquer documentalismo politizado: o
que o fascina é o domínio absoluto da natureza sobre o nosso destino. E o que o
motiva é a nossa condição comum, precária e em anunciada desagregação» (Pedro
Mexia, Diário de Notícias, 9 Junho 2006).
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