Se o conceito de multiculturalismo tivesse sido inventado
pelos índios Tupinambás, a antropofagia constaria na Declaração Universal dos
Direitos do Homem.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
PRIORIDADES
Recordemos o exemplo citado por Darian Leader do homem que, ao entrar num restaurante com a sua companheira, no momento de pedir ao empregado uma mesa, diz «Um quarto para duas pessoas, se faz favor!», em vez de «Uma mesa para duas pessoas, se faz favor!» Faremos melhor se invertermos aqui a explicação freudiana clássica («Naturalmente, ao seu espírito ocorria já a noite de sexo que previa para depois do jantar!»): esta intervenção do fantasma sexual subterrâneo é antes a barreira que serve de defesa contra o facto de ter de sustentar uma conversa que, na realidade, o preocupa muito mais do que o sexo. A inversão activa nesta anedota citada por Leader é encenada de modo exemplar num recente spot publicitário alemão dos bem conhecidos gelados Magnum. Vemos, num primeiro tempo, um modesto casal operário que se beija apaixonadamente; quando ela e ele se preparam para fazer amor por acordo mútuo, a rapariga arrasta o rapaz até um bar próximo, à beira-mar, para comprar um preservativo que lhes permita fazer amor com toda a segurança. O rapaz entra no corredor onde está instalada a máquina que vende preservativos e vê, ao lado, uma outra máquina que, pelo seu lado, vende automaticamente gelados Magnum; procura no bolso e descobre que só tem uma nota de cinco marcos, suficiente para comprar um preservativo ou um cone de gelado, mas que lhe não consente a compra das duas coisas. Após um momento de hesitação desesperada, vemo-lo lamber apaixonadamente o cone, ao mesmo tempo que se lê no ecrã a seguinte legenda: «Por vezes é preciso começar pelas prioridades!» É particularmente interessante na circunstância a conotação fálica bastante óbvia do cone Magnum, enquanto péni «grande»: quando, no último plano, o rapaz lambe o cone de gelado, o seu gesto rápido e sacudido evoca uma felação intensa; a mensagem que incita a começar pelas prioridades pode, então, ser do mesmo modo interpretada em termos sexualmente explícitos: mais vale a experiência quase-homoerótica do sexo oral do que a experiência heterossexual desprovida de equívoco...
Slavoj Žižek, in Elogio da Intolerância, trad. Miguel Serras Pereira, Relógio D'Água, Julho de 2006, pp. 73-74.
ONE-EYED JACKS (1961)
Todo o cinéfilo que se preze recordará Marlon Brando
(1924-2004) como o excelente actor de On the Waterfront (1954) ou The Godfather
(1973), para mencionar apenas dois filmes que lhe valeram a estatueta dourada.
Poucos lembrarão a sua presença em The Missouri Breaks (1976), de Arthur Penn
(1922-2010). Mas praticamente ninguém saberá que Brando também esteve sentado
atrás das câmaras. Realizou um único filme, curiosamente um western. One-Eyed Jacks/Cinco
Anos Depois (1961) mereceu uma nomeação da Academia para a categoria de melhor
fotografia (responsabilidade de Charles Lang), chegando a ganhar alguns prémios
no festival de San Sebastián. Inicialmente, era para ter sido assinado por Stanley
Kubrick. Desentendimentos entre Kubrick e Brando acabaram por afastar aquele,
tendo este tomado nas mãos a tarefa do realizador. O elenco conta com personalidades
conhecidas do universo western, tais como Katy Jurado (High Noon, Pat Garrett & Billy the Kid), Ben Johnson (Rio Grande, Shane, Hang ‘Em High, The Wild Bunch) e Elisha Cook Jr. (Shane,
The Indian Fighter, Day of the Outlaw, El Condor, Pat Garrett & Billy the
Kid), embora a estrela da companhia seja Karl Malden. Malden já tinha
contracenado com Brando em filmes emblemáticos, tais como A Streetcar Named
Desire (1951) e o supracitado On the Waterfront (1954). Em One-Eyed Jacks a
parelha supera-se nos paradoxos e nas ambiguidades. Baseado na história
verídica de Billy the Kid, o argumento, escrito originalmente por Sam Peckinpah, foge
à convencionalidade bio-historiográfica chamando para o centro das atenções uma
pungente história de amor. Rio (Marlon Brando) e Dad (Karl Malden) são dois
assaltantes de bancos que actuam na zona de Sonora (México). Após uma
perseguição, Rio fica sozinho no alto de uma colina à espera que Dad regresse
com cavalos frescos para a fuga. Mas Dad não regressa, e Rio acaba por ser
capturado. Cinco anos depois, consegue fugir da prisão de Sonora e junta-se a
outros bandidos com uma dupla intenção: voltar a assaltar bancos e reencontrar
Dad para se vingar. Reencontrá-lo-á em Monterey (Califórnia) na posição de
sheriff Dad Longworth, casado com Maria Longworth (Katy Jurado) e pai adoptivo
de Louisa (Pina Pellicer). Os cenários conseguidos na costa de Monterey são
especialmente cativantes. Poucos westerns têm como palco zonas costeiras,
praias e dunas, em muito poucos a robustez dos cavalos contrasta com a imponência
das ondas do mar. One-Eyed Jacks ganha
imenso neste aspecto, sendo particularmente convincentes as sequências passadas
no cenário marítimo que enquadra o amor entre Rio e Louisa e, posteriormente, o
período de convalescença de Rio após a tortura infligida por Dad. Embora a
intenção inicial de Rio fosse vingar-se da traição de Dad matando-o, o plano
muda de figura quando se apaixona por Louisa. É esta a história de amor que
pautará o filme, muito mais interessante nas cenas finais por nelas se misturarem
elementos típicos do western clássico (traição e vingança) com elementos
mais identificáveis em dramas familiares e tragédias amorosas. Rio não é um
bandido tradicional, nele esconde-se uma propensão para amar que a paixão por
Louisa acabará por espoletar. Uma excelente interpretação da bela Pina Pellicer
confere à figura de Rio uma fragilidade emocional que não é comum nos bandidos
da sua estirpe. Não me refiro às perturbações psicológicas que geralmente afectam
tais personagens, refiro-me antes a uma ductilidade entre ambos que transforma
gestos inicialmente mal-intencionados em ingénuas práticas de sedução. É como
se na presença um do outro um deles (ele) parasse e o outro (ela) crescesse, completando-se
com o magnetismo fundador dos grandes casais amorosos. Perante Louisa, a
máscara de Rio tomba. Com o mar em pano de fundo, os cinco anos de cárcere que
alimentaram a raiva e o ódio de Rio desaparecem. Nela, ele encontra um amor
redentor, expia os pecados deixando a verdade vir à tona do discurso, pois já
não tem para Louisa a mesma atitude embusteira que o vimos ter para com outras
mulheres. Há uma poalha que acompanha esta história no início que adquire no final uma
inusitada luminosidade. Os duelos entre homens feridos perdem significado
quando confrontados com a batalha amorosa entre Marlon Brando e Pina
Pellicer. Ascendemos a um outro plano, um plano onde a derradeira cartada excede
a desconfiança entre os jogadores. Deixa de haver bluff, é tudo claro e
autêntico.
AGRADECE DIVULGAÇÃO
Olá.
O meu julgamento começa amanhã à tarde no Campus de
Justiça e prossegue, pelo menos, nas próximas duas quintas-feiras.
O Ministério Público (MP) acusa-me, com base no
testemunho de um polícia que assina o Auto de Notícia em anexo, de ter
projectado uma cadeira de uma das esplanadas do Chiado sobre uma linha de
polícias que na Rua Serpa Pinto protegia a detenção de um manifestante. Não
tendo sido identificado durante a manifestação, nem em nenhum outro momento
anterior ou posterior, o Auto refere que se fez uso para tal de informações do
Núcleo de Informações da PSP, na forma que passo a citar: “trata-se de um
indivíduo que é presença habitual neste tipo de manifestações/concentrações,
pautando sempre a sua conduta de forma agressiva para com as Forças de
Autoridade”. Ainda não é certo se este julgamento servirá para esclarecer a
qualidade de polícia política que a PSP parece requerer para si no documento
citado.
Passaram agora mais de dois anos sobre os “acontecimentos
do Chiado” e a memória dilui-se. Nada que a Internet e os jornais da altura não
reponham num instante. Foi dia de greve geral combativa, com várias manifestações
a atravessarem o Chiado em direcção a São Bento. Perante a passagem de uma
delas a PSP tem a ideia genial de deter um estivador que vinha rebentando
petardos ao longo do percurso. É um homem de meia-idade com um pacemaker,
cuja detenção provoca o espanto e reacção imediata dos seus amigos e depois a
indignação de toda a manifestação. Foi este o momento inicial de um descontrolo
policial que varreu, a vários tempos e intensidades, todo o Chiado até ao Largo
de Camões com um balanço final de dezenas de feridos entre manifestantes,
jornalistas e transeuntes. Nesse dia temos o Ministro da Administração Interna
na televisão a explicar-se e dias depois a ser requerido pelo Bloco de Esquerda
para uma audiência parlamentar convocada de urgência para o efeito; temos um
inquérito aberto pelo IGAI ao comportamento da PSP, preenchido com declarações
de várias pessoas agredidas; e temos o MP a agrupar num mega-processo penal
cerca de uma dezena de queixas.
De tudo isto nada reza a história, Macedo é ainda
Ministro da Administração Interna, os resultados do IGAI são aparentemente
nulos e o MP arquiva todos os processos na fase de instrução, por falta de
provas, todos à excepção daquele contra mim. A PSP atacou uma manifestação em
dia de greve geral, o Ministro da Administração Interna defende-a e responde
politicamente no parlamento; as várias queixas apresentadas contra polícias,
tanto no penal como junto do IGAI, são arquivadas e esquecidas, sobrando um
processo contra uma pessoa que, como milhares de outras desde o último mandato
de Sócrates, têm participado e organizado várias manifestações. É disto que
fala, em específico, a ideia de que a história é sempre a história dos
vencedores.
Junto algumas ligações de Internet,
E anexo o Auto de Notícia.
As audiências serão sempre às 14h, no 5º Juízo Criminal
de Lisboa, 1º Secção (edifício “B” do Campus de Justiça, na Expo)
Agradeço divulgação em blogues e fb pois não os tenho.
Que a denúncia seja por ora a nossa arma. Se alguém quiser produzir opinião com
mais folgo sobre esse dia/julgamento posso enviar documentação vária do
processo, nomeadamente o despacho de acusação e a nossa contestação.
Abraços e beijinhos
Miguel Carmo
Ligações:
A imagem ao alto foi respigada aqui. Convém aumentar para ler convenientemente. Mais um exemplo concreto de que estamos a caminhar para trás.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
OUVIMOS O REAL
Já chegou o homem novo, aquele
por Whit-
man anunciado, embora
sujeito a insuspeitos
refrões financeiros. Basta
que um fale
conhecemo-los todos, todos
igualmente superficiais,
trazem na lapela o sinal
emblemático da sua pobreza
de espírito. Outros trazem mais
a regra da indiferença
e nós, as mulheres, cobrimo-nos
com as pinturas da guerra
declarada ao sucesso
do homem novo. Moderno
como um fogo cáustico, tudo
devora, a Natureza
e as próprias raízes, tudo
sobrevoa cego de apenas ver
em diferido.
Nós ouvimos o real uivar
prisioneiro da sombra, o mapa distor-
cido, a cartografia desta doença
planetária que murcha e desagrega
o cérebro à lareira, no bramido
à vida pondo fim. Desapareceu
dos lábios a doce palavra
«companheiro», somente
a beiça voraz escancara dentes
dourados, rupestres, as presas
do bom hálito do homem novo.
Tanto faz ficares connosco, porque
partir é onde ilusionistas
e agências nos transportam, só
a cortês nesga do rio nos leva:
ásperas, pedra-pomes. Desgraça,
demais confiámos o corpo à margem
calma, aos risonhos bebedouros, - insinuavam:
pejados de alma, mas alma, alma
é coisa para antigos
livros poéticos.
A verdura ainda cresce, é no peito
que floresce o íntimo
herbário das mulheres, a opala
pensante, pensativa cria e crença
terra no feminino. Inócua ordem
a baniu face à constelação
pagã das nossas certezas.
Repare-se no veneno
escorrendo pelos cantos
da boca do homem, a poção
mágica que dele nos livre,
mudo fervem-lhe os olhos, o
gadanho suplicante da mão à procura
como se merecesse lenitivo:
hora indigesta no silencioso pasto.
Para nós, a refeição frugal
faz-se à beira
Tejo, simples miradas mergulham
acima dos joelhos verdes
e então águas soltam de nós
a sede de bocas moribundas.
Fuma-se contra o peso nado desse
silêncio, contra
as ressonâncias, essas,
o estalar do soalho sob pés nus
(«nos campos, eles não precisam
das minhas lágrimas», diz uma)
crispa a cigarrilha no ressalto
de imagens televisivas, dói-nos
quanto vemos, são estilhaços
virtuais, representações ósseas
da inclassificável travessia das criadas
pelo homem novo a devastar
(«e nas cidades, quem precisa?»)
o sonho moderno. Que desperdício
nos sucede! Um desespero sem nome
e como queima
lixívia a brotar das sílabas e do adeus
que se instala no dédalo, em desarmonia
depois passa, submissa, uma,
as demais resignadas
à luz do dia.
Gazela, na penumbra,
ouve a respiração do solo, escuta
a exigência de rictos límpidos,
sazonais:
Os que passam cortam
e nenhum pára
nesta estação de dicionários
passam por palavras úteis
mas não, poucos eram
os indícios de caça, o Verão
subitamente passado.
Na sombra das folhas
rubras do Outono
a pintura, o coado
princípio de luz
soa a pássaros e a segredos
cadentes de juras
e corações gravados.
Olhar para fora de campo, para o lado
do pólen, para a ausência,
e contudo («volta...») tudo prosseguir:
Frio e chuva, mais real
que vento, o vento é
um embalo na gaiola do labor
no Inverno, livro ardente
a horas interditas, quase
já foi, intacta, uma
vida.
E o adiamento da putrefacção? narrativa
de aromas ritualizando-se em sons,
aí está, oráculo de sémen e sementes
para a controvérsia dos dias de alimentos
sumários... estação de lamber
o mel e a cal dos muros. Cerúlea
pole o cristal, insígnia de gazela:
não, ninguém, a nenhum homem novo
te atreveste dar o verdadeiro nome,
ou o mais consentâneo... Pôncio!...
Salomão!... Josué!... Ivan!... -
Queres lá saber por que
nomes o chamam ou responde,
nove meses já chegou.
Paulo da Costa Domingos (n. 1953), in Carmina 1971-1994. «A acusação é, para mim, juntamente com o sofrimento - elementos quase sempre a par - dos valores mais esperados de encontrar nos versos, porque dos que mais fomenta a impossibilidade de a poesia ser passível de ser assumida como um outro dos enfeites sociais dos triunfadores (obviamente que me coloco na posição do meu modo de julgar um gosto e saiba que de um modo diferente deste também a poesia possa resultar como ume feito de surpresa e até de sedução para alguns. Para mim, porém, há esta hierarquia, por mais certa ou errada que possa estar, a qual é um nunca admitir pôr-se ao serviço de uma qualquer legitimação de um qualquer assenhoramento). (...) Que se passa neste momento entre nós, que decapitação? Para que pessoas sem compromisso a não ser com o esmagamento dos outros (Rui Nunes, Armando da Silva Carvalho, Silvina Rodrigues Lopes, Paulo da Costa Domingos, e não refiro nenhum mais para não me acusarem de falar daqueles, e são vários, que são os meus amigos mais imediatos) actuem em nome de uma acusação visceral que ninguém pode apodar de compromisso partidário, ultrapassem a alegria vegetativa dos escritores que dão vivas a si mesmos e se dependuram da possibilidade de serem excelentes "herdeiros"? Daqui irradia o território do poema, a sua gramática de esmeril. O poema transforma-se numa descrição ética. Parte de uma zona expositiva inicial, aprofunda-a, espreme-a, deixa todo o pus a supurar na reiteração. Não há margem de escape, não há consolação, não há transcendência: é o puro afundamento do humano por um pouco do humano que nos é enunciado em bruscos alinhamentos. Aí a lírica ganha o poder (sem poder) de equacionar a abjecção do tempo e da história, da humanidade e do que, contemporâneos dela por uma breve vida, podemos testemunhar» (Joaquim Manuel Magalhães, in Expresso, 10 de Setembro de 2005, a propósito de uma nova versão de Asfalto).
GORDURAS DO ESTADO
Já ninguém se lembra das "gorduras do estado". Nesta "asfixia democrática" em que vivemos, as "gorduras do estado" desaparecem debaixo do país gorduroso. O caminho para a obesidade está patente aqui, ficando apenas latente que este post tenha que ver com este outro. São pentelhos, Senhor. São pentelhos.
VALE TUDO
Entretanto, sabemos de fonte segura que um ex-namorado de M.
Dhanis, assim como uma ex-namorada de M. Dhanis, se preparam para publicar na
mesma Xibado Editora dois livros, dois, de correspondência íntima entre a
jornalista e os respectivos companheiros. Ao que se sabe, a jornalista manteve
relações paralelas, ao mesmo tempo e em espaços diferentes, com ambos os
autores dos livros. Também serão divulgados vídeos íntimos no Youtube, sendo
certo que M. Dhanis não irá reagir de forma negativa, até irá compreender o
forte interesse jornalístico da iniciativa. O resto vem aqui.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
REQUIEM POR RUTH HANDLER
Morreu ontem a mãe da Barbie,
a boneca adolescente. À semelhança de
Atena, Barbie saiu armada dum
cérebro, não divino, mas industrioso,
com a longa cabeleira e a azúlea mirada.
Morreu a mãe da Barbie, a filha
que nunca será orfã, pequeno duende
de soutien 38 e de 33 polegadas
de altura. Trinta e três polegadas
multidesejantes de sonho
anatomicamente impossível.
Morreu a mãe da Barbie, que
faz ballet, ski, patins em linha e
todos os desportos radicais e tem
um namorado elegante, que jamais
a trairá e amigos tão anatomicamente
imperfeitos como ela.
Morreu a mãe da Barbie, que vai
a todas as festas com muitos
vestidos de gala e enegreceu
há uns anos, qual Naomi Campbell, para
ser consumida pela boa
consciência racial do Ocidente.
Morreu a mãe da Barbie, que jamais
a viu, assim anatomicamente imutável,
padecer de uma gravidez adolescente.
A Barbie é sabida e deve ter tido educação
sexual. Que fará ela, com o Ken
no regresso de tantas festas?
Nem paixão, nem desgosto, nem fome
ou uma boa tareia dos adultos, alteram
a sua fábula de plástico, muito menos
fabulosa que a Branca de Neve ou a
Bela Adormecida, onde existiam
humanas bruxas, vencidas maldições
e príncipes que davam beijos ao acordar.
Morreu a mãe da Barbie, cedo demais
para inventar uma Barbie de burka,
ou de explosivos escondidos no cinto. No
fim da vida continuava a vender milhões
de próteses mamárias, na sequência da sua
própria mastectomia. Coisas sem brilho,
impossíveis de acontecer
à Barbie.
Inês Lourenço (n. 1942), in Logros Consentidos. «Só os mais desatentos estranharão o tom desabrido, se não mesmo programático, em que se firma esta escrita. (...) Estamos perante uma escrita que sabe muito bem por onde não quer ir e que se dispõe a execrar um contexto literário concreto e reconhecível. Mais precisamente, e de um modo não poucas vezes cirúrgico, são vilipendiados todos aqueles que «encenam como velhos profetas / tardias formas de beleza / extinta - e fazem do verso / um ritual nado-morto / de pequenos afectos». Concorde-se ou não com esta postura «bélica», temos de reconhecer que são inúmeros os alvos possíveis da autora (...). De facto, é notável a veemência com que Inês Lourenço resume e denuncia este «pequeno país de bravia / palavra, sofrida crueza / de mato ardido e estrumes, sucatas, / detritos» (...). Dir-se-ia que a ambiguidade - pretensa característica essencial da linguagem poética - se deixa eficazmente substituir por uma clareza irredutível, capaz mesmo de fazer da redundância uma mais-valia literária» (Manuel de Freitas, Expresso 2 Julho 2005). «Um inventário tenso, irónico, à Chostakovitch, de lugares de memória, físicos e mentais, se desenvolve, revelando a apoeticidade do que se referencia como belo, poético ou contemporâneo (...). Poesia de análise do quotidiano, mas encontrando nele, por si e em si, um neobucolismo, já que o posicionamento observatório do sujeito da poesia de Inês Lourenço prefere-o como ponto de comparação para dele observar o vazio - de actos, de atitudes, de uma beleza que o sustente» (Pedro Sena-Lino, in Público, 10 Setembro 2005).
«Diga: está arrependido dos seus maus pensamentos?»
Torel, Lisboa. 2012.
Entrei na primeira igreja e confessei-me ao primeiro padre que encontrei.
«Padre. Além do que lhe disse, apareceu-me o diabo.»
«Meu filho, deixe-se disso. (...)»
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Ruy Cinatti
domingo, 18 de maio de 2014
#23
Mero acaso levou-me ao encontro dos WhoMadeWho numa tenda do
Festival Sudoeste. Agradou-me tanto a prestação que prometi procurar o álbum de
estreia no regresso. Procurei, mas não encontrei. Para compensar, estava
disponível este Green Versions (2006) que, como o título indica, reúne versões
do álbum homónimo do trio dinamarquês. Os WhoMadeWho foram originalmente
associados à cena post-punk, sendo clara, desde o início, a colagem electro que
tingia temas mais elaborados do que seria imaginável em bandas de inspiração
punk. Tal elaboração tornou-se patente nas versões desnudadas e melancólicas de Green Versions, redundando o registo num conjunto
extraordinário de canções sedimentadas no legado norte-americano e numa
folk-pop europeia que alimentou projectos com imaginários bastante diversos. A
versão de Rose, por exemplo, envia-nos para certos ambientes góticos, ao passo
que Out the Door ganha nesta versão uma tonalidade bluesy irresistível. Mas o
que mais perturba é a percepção de como uma maquilhagem exagerada pode afectar a estrutura de uma canção. Estas versões não se limitam a
limpar o rosto dos originais, de certo modo reconfiguram esse mesmo rosto com
uma luminosidade mais autêntica e imediata. Ao contrário de simplificarem,
complexificam. Porque afastaram o que tornava as canções vulgares. Não
encontrei vídeos que fizessem justiça a autenticidade de Shake your boat, mas gostei muito
desta versão live de Space for rent:
A LER
Memória de William N. Loew, por João Miguel Henriques, no Quartos Escuros.
Memória de William N. Loew. Segunda Parte, idem, ibidem.
Memória de William N. Loew. Segunda Parte, idem, ibidem.
FILOSOFIA DO MIJO
Na obra reunida de M. S. Lourenço – O Caminho dos Pisões
(Assírio & Alvim, Setembro de 2009) – há um texto intitulado As Ilhas (p. 67)
onde deparamos com um escritor que faz a seguinte confissão:
O meu modo de dormir nada tem de especial ou característico
que mereça aqui uma referência especial. Talvez apenas valha a pena citar o
pormenor que até tarde, mesmo já depois dos vinte anos, acontecia por vezes que
urinava na cama. Mas isto verificava eu de manhã com mágoa; procurava
emendar-me mas era inevitável.
A repetição do termo especial numa só frase, onde a excepcionalidade do caso anunciado pretende ser anunciada, leva-nos a desconfiar da honestidade por detrás da afirmação. Na realidade, é bastante especial aquilo a que se nega especialidade. Senão veja-se, acrescenta o narrador que este facto originou várias
animosidades na sua vida, culminando num afastamento dos outros, numa solidão
intransponível, numa «vida de incomunicação e de desamor». E conclui:
Defendo energicamente que é impossível dois homens chegarem
a um entendimento. Ou duas mulheres. Ou um homem e uma mulher. Vivemos como
ilhas.
Como chega o escritor a esta conclusão? Aquilo a que chama o seu «pensamento
filosófico» fundamentou-se numa anomalia fisiológica: incontinência urinária. Não
vou especular sobre a influência de factores biográficos específicos na formação
de teses filosóficas pretensamente universais, mas sublinho o desenvolvimento da revelação:
O sono é o único momento na vida do homem, juntamente com as
funções fisiológicas mais imediatas, em que se pode falar de fraternidade entre
os homens. Aí, no momento em que cada um dorme, urina, defeca, vomita, aí –
digo eu – devemos procurar o traço que liga todos os homens. Particularmente no
sono: será aqui, com toda a certeza, que a animalidade do homem está mais
patente. Ressonar, respirar com estrondo, acordar a pessoa que dorme a nosso
lado, ou o vizinho, que, no outro quarto, não consegue dormir, etc.
Repare-se como ascendemos da física à metafísica a partir da
consciência escatológica da humanidade. Unidos pelas funções vitais, os homens
- diria mesmo todos os seres animais - perdem
as propriedades que os afastam, distinguem, separam. A dormir, somos fraternos. A cagar, a mijar, a vomitar, os homens reencontram-se na alteridade. Somos todos cagões e mijões,
embora uns mais que outros. Também nas páginas finais do quinto volume da
Autobiografia de Thomas Bernhard nos confrontamos com esta “filosofia do mijo”:
Depois da refeição fomos dormir por trás de uma porta de
vidro, na qual estavam colados bonitos papéis antigos com desenhos orientais. Foi
uma noite em branco, como se pode imaginar. Felizmente. Pois pela primeira vez
depois de muito tempo, devido ao facto de não ter podido ou querido adormecer,
não urinei na cama. Com efeito eu tinha-me tornado havia muito um chamado mijão,
além de desordeiro, passei a ser também, com o tempo, o mijão. Em casa não havia
nenhuma noite em que eu não acordasse com o lençol molhado, sempre cheio de
medo, como se pode imaginar. Urinar na cama tem as suas causas, mas disso não
tinha eu ideia nenhuma. Quando acordava, já tinha caído na maior desgraça. Tremia
de medo. Mal me levantava, queria geralmente esconder ainda a minha vergonha
com o cobertor, mas a minha mãe puxava-o logo furiosa e atirava-me com o lençol
à cara. Durante meses, por fim durante anos. Eu tinha um novo título, quase
mortal: mijão!
Dispensarei o leitor dos pormenores traumatizantes sobre os
quais Bernhard exerce a sua auto-análise literária. Quero apenas sublinhar esta
feliz coincidência entre dois escritores mijões cujas obras dificilmente teriam
sido as mesmas se não tivessem encontrado fundamento nesse momento de alivio
que liga os mundos onírico e real. Muita filosofia nasce da incontinência. E se urinar na cama tem as suas causas, não podemos negar que terá igualmente as suas consequências. Estranho que nas histórias da literatura,
nos compêndios de crítica literária, nos guias de hermenêutica e de exegese filosófica, nunca tenhamos encontrado uma entrada dedicada ao tema: xixi na cama. M. S. Lourenço e Thomas Bernhard lançam pistas para uma filosofia do mijo, a qual, infelizmente, ainda está por arquitectar com o rigor que a questão merece.
NUNCA MAIS É SÁBADO!...
- conjecturamos à segunda-feira,
início de uma longa ressaca,
em todas as claves, desde o ré menor
gemebundo aos claros tons de sol maior.
Nós os humildes e os humilhados,
os que não temos rosto próprio porque somos
o rosto da multidão. Nós, o branco-branco,
o preto-preto e o branco-preto.
O senhor que desce o elevador da manhã
e a virgem desflorada na véspera
que o sobe trazendo nos olhos o pavor
da gravidez e da desonra (e é obrigatória
em todos os articulados deste género). E a moça
desflorada há mais tempo, um namorado
tímido e um senhor casado a compensar
a timidez do adolescente, com a ciência
mais exacta, mais precisa, que lhe vem
do tédio conjugal. E o velho guarda negro
do elevador, a piscar, a piscar um sono
nunca redimido. E o contínuo que não vai
de elevador, mas sobe pela escada de serviço
até ao quinto andar, carregando em jeito
de via sacra a bicicleta da firma,
cada qual trepando a seu Gólgota privativo.
E os que esperam para lá da penumbra
dos balcões, no silêncio húmido dos armazéns,
no bafio burocrático e gris das repartições
com funcionários de vida atribulada
funcionários de vida empenhada,
funcionários de vida sempre estragada.
Os que esperam na jaula envidraçada dos cafés,
fumando o cigarro bronquítico da melancolia;
na fuligem luminosa do cais, nas zonas
de carga e descarga, na longa fita de asfalto
ardente, na perigosa articulação dos ângulos
de betão do prédio de onze andares.
Os que uma regra de excepção escondeu
por detrás dos altos muros de um silêncio
recluso e têm o olhar mortiço
e a expressão resignada. Os que dormitam
atentos, em bancos públicos de jardim,
os que fazem um amor rápido e dolorido
a horas impróprias, em apartamentos de empréstimo.
O estudante com a mão entalada nas coxas
firmes e tépidas da colega morena e sensual,
o marinheiro adormecido na branca espuma
da sétima cerveja, as putas adejando,
multicolores borboletas do vício, blenorragias
de transmissão fulminante e cura arrastada.
Os que alimentam de miséria a sua miséria
e outros que, estando melhor, a nutrem
na miséria de pequenas e grandes indústrias.
E os que nem sequer a alimentam
no lôbrego ventre de oficinas e fábricas.
Toda a população flutuante do elevador
e da escada de serviço, do prédio e da rua;
o senhor engenheiro com uma dor de corno
e dois projectos enguiçados; o clínico preso
aos afazeres (cinco prédios, uma hérnia estrangulada
e o consultório cheio de pacientes); o advogado
a correr atrás dos prazos, dos prazos
cada vez mais curtos; a senhora enfrentando
a crise difícil da menopausa, a viúva
de negro que vai ao médico com uma pontada
no baixo-ventre e uma amostra de urina
num frasco embrulhado em papel de jornal.
Da escada de serviço e do elevador
para o prédio, do prédio para a rua,
da rua para a praça, da praça para a cidade,
da cidade para o subúrbio, onde crescem
a doença, o medo, a fome e o futuro,
- nunca, nunca mais é sábado.
Rui Knopfli (n. 1932 - m. 1997), in Mangas Verdes com Sal (1969). «Poeta do quotidiano e dos seus desassossegos, Knopfli é motivado por factores diversos e imponderáveis, por vicissitudes biográficas que estão na raiz dos seus poemas. Mas a memória, que tem na poesia o seu livro de horas, é mais significativamente detectável nos planos da sincronia ideativa do que ao nível do calendário privado e da sucessão cronológica, cuja importância não se pretende minimizar, nem jamais se descurou, porque sem ela é impossível apontar a trajectória seguida pelo poeta na elaboração da sua experiência. Poesia de uma subjectividade lúcida e autovigiada, ela é também e declaradamente o memorial privado de uma história colectiva. (...) O seu lirismo antilírico, a sua ironia comovida, o seu sarcasmo - bem menos iconoclasta do que, à primeira vista, poderá parecer -, aparentam-no, umas vezes, com João Cabral de Melo Neto ou Carlos Drummond de Andrade. Outras vezes, no apuro torturado da forma, Knopfli lembra essoutro maneirista, Gerard Manley Hopkins (1844-1889), o que não o faz menos poeta do seu tempo do que este o foi do dele, e é e continuará a ser do nosso. O apuramento verbal é para Knopfli a qualidade suprema do discurso poético. Por isso visita os mesmos temas, transfigurando-os nos desgastes e empolamentos da memória, ou retomando-os numa outra clave» (Luís de Sousa Rebelo, in A Memória Consentida de Rui Knopfli)
sábado, 17 de maio de 2014
AUTOBIOGRAFIA
O volume que agora se toma como sendo a Autobiografia
(Sistema Solar, Janeiro de 2014) do “escritor austríaco” Thomas Bernhard (n. 1931
– m. 1989) consiste, na realidade, numa reunião de cinco livros de pendor
autobiográfico publicados entre 1975 e 1982. São eles A Causa (1975), A Cave
(1976), A Respiração (1978), O Frio (1981) e Uma Criança (1982). Nestes livros,
Bernhard percorre, sem respeitar uma ordem cronológica, as memórias da infância
e da adolescência. José A. Palma Caetano, responsável pela versão portuguesa,
explica numa breve introdução que «essa ordem obedece ao pretexto que deu
origem ao primeiro volume, que não foi concebido como o início de uma
autobiografia, mas nela veio depois a resultar, como um encadeamento natural,
que não deve nem pode deixar de ser respeitado (como já houve quem quisesse
fazer, transformando o quinto volume em primeiro)» (pp. 14-15). Isto sucede
porque o quinto volume é aquele que mais se concentra nos tempos da infância, não
sendo, porém, exclusiva de nenhum dos livros uma fase específica do
desenvolvimento da personagem em análise.
Digo personagem por ser nesse papel que Bernhard se coloca a
si próprio, negando logo à partida a possibilidade de uma reconstrução biográfica
fiel a uma suposta verdade. A noção de que esta verdade é inatingível implica a
substituição da verosimilhança, enquanto carácter final do exercício de memória,
pelo porventura mais correcto e justo conceito de alusão. Desta forma, o percurso
estabelecido não respeita qualquer lógica cronológica, não reivindica nenhum
estatuto de verdade, optando antes pelos interstícios de uma representação lacónica, e deliciosamente divagante, onde se torna evidente a vontade de um ajuste de contas, por vezes ao jeito de exame
de consciência, com a vida. Ao terceiro livro dirá: «A perfeição em nada é possível
e muito menos no que é escrito e de modo algum em notas como estas, que se compõem
de milhares e milhares de farrapos de recordação. O que aqui se apresenta são
fragmentos, com os quais, se o leitor quiser, se pode compor um todo. Nada
mais. Fragmentos da minha infância e juventude, nada mais» (p. 288).
Alguns dados são sublinhados reiteradamente, pelo que
podemos supor serem os mais determinantes para o autor: um pai ausente, uma
figura materna inspiradora de sentimentos ambivalentes, a influência
determinante do avô materno, uma irrequietude inata que abrirá as portas ao desassossego,
à desesperança, à inquietação, o desprezo absoluto pelo ambiente social de
Salzburgo, cidade adoptiva, as complicações da guerra e do pós-guerra, uma permanente
indefinição quanto a talentos e aptidões, uma infância marcada por uma sensibilidade
extraordinária e, por isso, irreconhecível, saúde débil, perturbações
depressivas, tendências suicidas ultrapassadas por uma confessada cobardia… Outro
aspecto fundamental é o facto de haver na parte da vida aqui retratada uma
permanente sujeição aos ditames de instituições diversas onde o autor se sentiu
ao mesmo tempo exilado de si próprio, cativo de interesses alheios, vítima de
obsessões terceiras. Da casa de correcção na infância ao sanatório da adolescência,
passando pelos abrigos no tempo da guerra e a reclusão num sistema de ensino
onde a severidade do catolicismo extremo é comparada à austeridade do
nacional-socialismo dos tempos da ocupação nazi, encontramos esta expressão revulsiva
da liberdade oprimida e castrada.
As conclusões são hiperbólicas, embora inteligíveis: «Durante toda a minha vida nunca houve nada que eu mais admirasse do que os suicidas. Eles excedem-me em tudo, tudo, pensei eu sempre, não valho nada e estou preso à vida, por mais horrível e mesquinha, mais asquerosa e infame, mais banal e ignóbil que ela seja. Em vez de me suicidar, aceito todos os compromissos repugnantes, rebaixo-me a toda a gente e refugio-me na falta de carácter como numa pele que cheira mal, mas que aquece, na reles sobrevivência! Desprezo-me, porque continuo a viver» (p- 373). Importa esclarecer que estas palavras reproduzem pensamentos soltos, divagações de um jovem isolado e acossado pela doença, e é isso que as torna invulgares como invulgar é esta capacidade de Thomas Bernhard para percorrer a memória dando a ver o pensamento. Escrita reveladora que repercute violentamente as fraquezas e as forças, o orgulho e a repulsa, o medo, o ódio, a solidão que alicerçam a alma atormentando a personalidade, em relação directa com uma situação existencial que não está nas mãos de ninguém determinar. Ou seja, parece haver na escrita de Bernhard uma revolta que propõe o abandono dessa ideia de que está nas mãos do indivíduo a determinação da sua existência, tanto quanto se declina igualmente a subjugação do indivíduo a um destino. Herói e cobarde, vítima e criminoso, o homem cumpre a sua tragédia e alimenta a sua comédia podendo apenas assegurar-se que, feitas as cotas, resta-lhe o absurdo e a inutilidade como genes inultrapassáveis disto a que chamamos vida: «Toda a nossa vida, se a tomarmos a sério, não é senão uma sórdida agenda de acontecimentos, no fim completamente rasgada» (p. 284).
As conclusões são hiperbólicas, embora inteligíveis: «Durante toda a minha vida nunca houve nada que eu mais admirasse do que os suicidas. Eles excedem-me em tudo, tudo, pensei eu sempre, não valho nada e estou preso à vida, por mais horrível e mesquinha, mais asquerosa e infame, mais banal e ignóbil que ela seja. Em vez de me suicidar, aceito todos os compromissos repugnantes, rebaixo-me a toda a gente e refugio-me na falta de carácter como numa pele que cheira mal, mas que aquece, na reles sobrevivência! Desprezo-me, porque continuo a viver» (p- 373). Importa esclarecer que estas palavras reproduzem pensamentos soltos, divagações de um jovem isolado e acossado pela doença, e é isso que as torna invulgares como invulgar é esta capacidade de Thomas Bernhard para percorrer a memória dando a ver o pensamento. Escrita reveladora que repercute violentamente as fraquezas e as forças, o orgulho e a repulsa, o medo, o ódio, a solidão que alicerçam a alma atormentando a personalidade, em relação directa com uma situação existencial que não está nas mãos de ninguém determinar. Ou seja, parece haver na escrita de Bernhard uma revolta que propõe o abandono dessa ideia de que está nas mãos do indivíduo a determinação da sua existência, tanto quanto se declina igualmente a subjugação do indivíduo a um destino. Herói e cobarde, vítima e criminoso, o homem cumpre a sua tragédia e alimenta a sua comédia podendo apenas assegurar-se que, feitas as cotas, resta-lhe o absurdo e a inutilidade como genes inultrapassáveis disto a que chamamos vida: «Toda a nossa vida, se a tomarmos a sério, não é senão uma sórdida agenda de acontecimentos, no fim completamente rasgada» (p. 284).
O TEMPO SUJO
Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção
São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação
Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia
Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.
Alexandre O'Neill (n. 1924 - m. 1986), in No Reino da Dinamarca (1958). «O'Neill propaga à mordacidade satírica e à comoção lírica, por vezes combinadas entre si e com vários tons humorais flutuantes, a liberdade metafórica e sintáctica do surrealismo. Leva como que à coagulação poética as moléculas desagregadas do prosaico, dentro de uma tradição que vem das cartas de Camões até Garção, e desde o Abade de Jazente, Tolentino e Bocage até Penha e ao Junqueiro da Musa em Férias. Raras vezes se terá apreendido tão bem, e de um mesmo lance, a intimidade invisível «num tropeço de ternura» e a intimidade convincente da «vírgula maníaca» do burocrata, como na «pequena dor à portuguesa», de Um Adeus Português (um dos extraordinários poemas de amor que escreveu). A apreensão flagrante e humorada de ambientes e tipos (sobretudo velhotes) de Lisboa, dos pequenos e reveladores ridículos nacionais, próprios e alheios, supre bem alguns excessos de epanáforas inventariantes, de enumerações caóticas, de associações inicialmente aleatórias ou metodicamente viradas do avesso, entre outros ingredientes pobres ou de eficácia mais ocasional» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «A força e a violência das contradições da poesia de O'Neill impedem que nos refiramos a fraquezas formais. Elas não existem porque o poeta não se colocou no plano em que a expressão é criticável, ou o não atingiu ainda. Não é a harmonia ou a unidade dum poema o que nos oferece; não nos propõe qualquer mundo original ou qualquer original ponto de vista. Trata-se de provocar, de projectar a resistência interna do poeta; é necessário que as palavras firam como pedras. Poeta-exortista como esse não caprichoso nem arbitrário Michaux, O'Neill sabe a utilidade do esconjuro, de que é um belo exemplo O Poema Pouco Original do Medo, que é bom ler» (António Ramos Rosa, in Poesia, Liberdade Livre).
sexta-feira, 16 de maio de 2014
#22
Já aqui disse que não aprecio colectâneas. Todavia, aceito
excepções. O que me irrita verdadeiramente é o conceito de best of, uma obra
reduzida aos momentos de maior popularidade. É verdade que os Violent Femmes
nunca foram banda de hits massificados, à excepção, talvez, do tema Blister in
The Sun (1982). O trio liderado por Gordon Gano, formado no início da década de
1980, aliou o espírito rock’n’roll, já na sua mutação punk, ao culto das canções
de protesto no terreno da folk music. Com uma formação circunscrita à relação
entre três instrumentos base (guitarra, bateria, baixo), souberam tornear as
limitações impostas pela formação reduzida com elementos externos de proveito inquestionável.
O xilofone que se escuta em Gone Daddy Gone, o banjo de Country Death, a secção
de sopros em Black Girls, liderada pelo saxofone de John Zorn, entre outros e
diversificados contributos, são mais valias que permitem aos Violent Femmes desbravar
os horizontes da chamada canção popular. Add It Up (1981-1993) é uma compilação que merece ser ouvida
com atenção, até porque ajuda a compreender os fundamentos de manifestações culturais
que por vezes tendemos a considerar, erroneamente, muito nossas. O percurso da banda é percorrido desde o primeiro ao último álbum de originais, com separadores pelo meio reveladores do espírito adolescente e, por consequência, inconformado do trio norte-americano. Os Violent
Femmes souberam não crescer, preservando uma rebeldia que outros não raras
vezes se limitam a arrumar no álbum de memórias.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
PARABÉNS CARRIÇO
Confesso que senti um certo alívio com a vitória do Sevilha.
Não é pelo anti-benfiquismo – na realidade, a alegria dos meus amigos benfiquistas
(tantos, foda-se!) seria a minha alegria -, é mesmo pelo patriotismo. Tivesse o
Benfica saído vencedor, aguardar-nos-ia uma semana de hipócritas recepções,
condecorações, agradecimentos. O Presidente da República chamaria a si a vitória
da equipa portuguesa (que de portugueses, “nicles batatóide”), o primeiro-ministro
não perderia tempo a aproveitar-se do elã benfiquista, sendo provável que a própria
coligação Rangel-Melo fizesse da putativa vitória um símbolo da afirmação de
Portugal na Europa. Assim sendo, a retoma ficou-se pelo que é: tesão de mijo. Portanto,
parabéns Carriço.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
GOSTOS...
Gostas de homens bonitos, ó Lésbia, ó minha querida (parva).
Relanceaste-me e armaste em tímida
como uma tímida que me fica à espreita.
Gostos não se discutem, eu discuto!
Não gosto de homens bonitos!
Gosto de homens curtidos
pelo mar, entre outros factores.
Lésbia (as mulheres são todas umas parvas...) eu sei que gostas de homens bonitos
sobre as ondas...
como tu - disseste-o há pouco e ainda me apontas!...
Agora explico:
Não gosto de homens bonitos, nem de bonitos homens.
Não gosto de homens bonitos.
Gosto de homens curtidos pela fealdade física da vida,
nem apolínea, nem dionisíaca,
mas de ambas.
Os homens feios - é questão de gosto -
têm, em geral, carácter,
uma beleza que se não vê
- Pulchrum est quod visum placet - disse S. Tomás de Aquino-Aristóteles.
Belo é o que me agrada
e me liga nos miolos, aos rins e ao núcleo lá no fundo.
Os homens bonitos podem ser famosos, garanhões e quase belos, mas não têm beleza.
A beleza reside no carácter
que irradia de um homem dito feio e o torna belo, um fim do mundo diário e renovado.
Os homens bonitos vivem em geral dos seus rendimentos, o que lhes não transmite nenhum capital,
são uns capitalistas avant la lettre de antes de depois.
Fazem a barba todos os dias por obrigação ou então depilam as pernas.
Se têm bigode, aparam-no de todas as maneiras e feitios, que é para agradar às mocinhas e às brotoejas,
de todos os feitios e maneiras,
em cima, em baixo, nos esconsos do além.
Se novos são béu-béus.
Se velhos, nem pensar nisso - retratos daguerreotipados, cheios de poeira e de simpática música.
- «Ó fulgor banal da mocidade» - disse Antero, sem exclamação...
Fulgor têm os homens ditos feios, mas com carácter, porque são o sal da terra.
E que a beleza deles fulgure a ponto dos bonitos desejarem ser mulheres,
se forem apenas bonitos, mas gostarem de mulheres.
Diagnóstico:
Homens bonitos - bananas, em geral.
Homens feios, estilo vulgares - espírito, vulgo alma ou um homem de carácter.
O resto é escória que pode incluir homens bonitos e feios.
Se o homem for apolíneo e dionisíaco ao mesmo tempo e for um homem de carácter, então é uma beleza
e eu gosto de uma certa beleza que pode haver nos homens bonitos,
quando os vejo à distância no écran do cinema.
Gostava aos 15 anos do Ramon Novarro - um bonito homem! -
por causa do Ben-Hur, dos Mares do Sul e do Último Pagão,
mas o Charlton Heston substitui-o com vantagem
passados 40 anos, que foram uma vida de xeque-mate com os tais homens bonitos.
Como homem bonito, gosto do Humphrey Bogart, da Anna Magnani, do Anthony Quinn, da Senhora Maria da Ribeira e do Chico d'Alfama.
Como homem sem carácter... eles são tantos... mijo!
O resto - repito, apenas para te fazer a vontade, ó Lésbia, não sejas parva! -
é o fulgor das ondas quando rebentam
e surgem das ondas em ruína homens bonitos,
homens do mar em tempos de naufrágio,
como o João Capelo Gaivota, irmão do Fernão.
Tu dizes, Lésbia, que eu sou muito directo e que sim e sopas...
Sou, graças a Deus, incapaz de flics-flics, vulgo intrujice.
Sou o que sou. Ecce Poeta!
Basta comparar o meu retrato aos vinte anos
com o que o espelho me retrata diário aos sessenta,
como a minha mulher-a-dias quando me chama o seu boneco velho...
mas tu, Lésbia, conheces-me... é tudo fita...
e não me olhes assim com esses maviosos olhos de trocista que levas uma lambada
e eu já disse, pronto, não gosto de homens bonitos!
19/6/76
Ruy Cinatti (n. 1915 - m. 1986), in 56 Poemas (1981). «A poesia de Ruy Cinatti, precisamente por ser essencialmente evocativa, por apontar em vez de descrever e, além disso, por lançar mão do natural nomadismo do homem para transpor uma realidade que infinitamente o transcende, permite diversas zonas de interpretação, todas elas verdadeiras, pelo menos em parte. Estamos em dar razão a Carlos Branco, quando afirma que a mensagem de Ruy Cinatti só se surpreende integralmente vista com uma perspectiva católica. / Mesmo quando fixa momentos transitórios, não é difícil notar por trás dos poemas a concepção cristã do homem (...). / Também é possível que se tenha vindo a verificar uma cisão entre a vida e a obra levemente crescente. Mas, nessa altura, nunca o poeta deixa de reconhecer e de se subordinar a "uma ordem mais alta do que a atingível pela exclusiva intuição poética". Essa subordinação é-nos dada por um sentido de fidelidade que supera a instabilidade emocional, criadora de Poesia: "Somos fiéis ao que queremos - E Deus ouve-nos por certo". / A arte de Ruy Cinatti tem-se tornado cada vez mais indirecta, cada vez mais alusiva, e daí o desaparecimento ou a obnubilação sofridos por concepções anteriormente enunciadas de uma forma mais explícita» (Ruy Belo, in Apontamentos sobre o nomadismo de Ruy Cinatti). «Um poeta de Fé, como Ruy Cinatti se afirma na sua poesia, é um poeta que acredita na realidade dos símbolos. (...) Por isso, porque acredita na realidade dos símbolos, Ruy Cinatti não necessita de os criar ou recriar na sua escrita. A realidade fala-lhe dos símbolos. A realidade é símbolo» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos).
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