sexta-feira, 18 de abril de 2014

VERA CRUZ (1954)



O fim da Guerra Civil Americana em 1865 reservou destinos diversos para os ex-combatentes dos Estados Federados. Muitos, rumaram na direcção do México em busca de uma nova oportunidade. As forças de Benito Juárez batiam-se, então, contra as tropas do Imperador Maximiliano. Trava-se a luta pela independência do México. Maximiliano, nascido em Viena, tinha sido colocado no território pelo imperador francês Napoleão III. Protegido por tropas francesas, ordenou a execução dos líderes republicanos mexicanos. Restava Juárez e os seus homens, essencialmente camponeses, fiéis à causa da independência, desprovidos de armas e de preparação militar. Os mercenários sulistas norte-americanos ofereciam a sua experiência a quem pagasse mais, colocando-se a si próprios numa situação de mercadoria. A história de Borden Chase (mais uma) que Robert Aldrich (1918-1983) adaptou ao cinema em 1954, apoia-se nestes elementos históricos para desenvolver uma aventura frenética, integralmente filmada no México, que resistiu como o melhor dos filmes assinados pelo realizador de What Ever Happened to Baby Jane?.  Vera Cruz apresenta-nos dois mercenários distintos, numa época, nunca é escusado lembrá-lo, em que os EUA disseminaram pelos quatro cantos do mundo este género de profissionais da guerra. Benjamin Trane (Gary Cooper, um ano depois de ter ganho um Oscar pelo desempenho em High Noon) combateu pelo Sul na Guerra de Secessão. Perdeu tudo. A determinada altura, confessa que desses tempos resta-lhe apenas a camisa cinzenta. Mas cedo perceberemos que não é bem assim. Se já não guarda quaisquer resquícios idealistas, colocando o seu interesse sobretudo nos benefícios materiais, a verdade é que mantém uma sageza na arte de negociar que faz dele, apesar de tudo, uma personalidade muito mais diplomática do que Joe Erin. Este, interpretado por um Burt Lancaster desumano, é o típico outlaw sem problemas de consciência. Não tem amigos, desconfia das pessoas, chama a Trane coração mole quando este mata um cavalo para o impedir de sofrer ou defende uma pobre camponesa “juarista” de ser humilhada pelos gangues de americanos que entravam no México nesses tempos. Parceiros na aventura de Vera Cruz, acabarão por confrontar-se num duelo final que parecia inevitável desde o início. Contratados pelo Imperador Maximiliano para escoltarem a condessa Marie Duvarre (Denise Darcel, a mesma de Westward the Women) até ao porto de Vera Cruz, Trane e Joe, mais uma dúzia de homens, juntam-se aos militares comandados pelo marquês Henri de Labordere para uma viagem repleta de surpresas. Entre os americanos requisitados, encontramos o grande Ernest Borgnine (The Wild Bunch) e um incipiente Charles Bronson. Rapidamente a tarefa se complica quando Joe & Trane se apercebem de que estão a escoltar não apenas uma condessa mas também uma quantia inestimável de ouro escondida debaixo dos pés da aristocrata. Ouro roubado aos mexicanos, a caminho da Europa como pagamento pelo reforço das tropas que garantiriam a continuidade do Império. Assistiremos, então, a um curiosíssimo choque de culturas. Por um lado, a aristocracia europeia, colonialista e imperialista, com as suas formalidades e os seus esquemas maquiavélicos de intriga palaciana. Por outro lado, a informalidade dos mercenários norte-americanos, divididos entre um egoísmo selvagem e pretensões meramente pragmáticas e utilitaristas. Por fim, um povo ostracizado e humilhado, em busca da libertação, na defesa de uma causa moralmente nobre com métodos pouco convencionais, representado, sobretudo, pela figura de Nina (a bela Sara Montiel). O que liga esta panóplia é uma teia de interesses diversos, afunilados na direcção de um bem comum: o ouro. Montado com o ritmo dos filmes de aventuras e o realismo dos melhores épicos produzidos por Hollywood, esta obra de Robert Aldrich tem o mérito de transmitir um desencanto sobre as lutas da humanidade que está longe de ser pacífico. As personagens aqui evocadas, exceptuando, talvez, os libertadores de Benito Juárez, retratados com dignidade moral na personagem do General Ramírez (Morris Ankrum), parecem ter-se afastado definitivamente do sentido altruísta que sustém as grandes causas. Com mudanças rápidas de planos, Aldrich sublinha uma agitação que os rostos das personagens não disfarçam. São seres desconfiados e oportunistas num poker onde o bluff e a traição ditam as regras com irreversível fatalismo. Estamos, ainda, no domínio do western clássico, num ano rico para o género com filmes tais como Johnny Guitar, The Far Country ou Drums Across the River.

CÂNTICO NEGRO


«Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, serei vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
.E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!

José Régio (n. 1901 - m. 1969), in Poemas de Deus e do Diabo (1925). «Ao contrário do que acontece entre nós, ao contrário do que acontece no Brasil, onde os grandes poetas, mesmo João Cabral de Melo Neto, têm edificado a sua obra predominantemente dentro das novas formas, José Régio parece nem as ignorar, para ser como se elas nunca tivessem existido. Apesar de um poema como Bailarino, que poderia ser caro a Mário de Sá Carneiro ou a José de Almada Negreiros, o poeta que temos presente vai entroncar directamente nos versificadores tradicionais e, além de utilizar os metros, os esquemas estróficos, a rima que neste século têm tido menos favor, chega mesmo a recorrer às chamadas liberdades poéticas, que, como é natural, deixaram de ter sentido quando se instaurou a grande liberdade poética. Por outro lado, se se considerar a introdução da inteligência, da reflexão na arte como a grande conquista moderna, particularmente característica da obra de Fernando Pessoa, não deixaremos de notar que, embora de construção lapidar, a poética de José Régio se apoia predominantemente na sensibilidade. E o efeito surpresa, os deliciosos traumatismos que a melhor poesia do nosso tempo se mostra capaz de produzir cedem aqui o lugar à regularidade da versificação, à perfeição dos esquemas. // (...) Para Régio, a poesia é música, canção, são «rimas e ritmos» e o poeta é um trovador que mede pelos dedos subtis segredos». (Ruy Belo, in Em Torno do Último Livro de Poesia de Régio)

EXTERMINAR COMUNISTAS


O projeto nasceu de uma vontade de retratar uma realidade e de uma advertência. A realidade era a memória de esquadrões da morte que, há quatro décadas, mataram milhares de militantes e simpatizantes comunistas em Sumatra (Indonésia) sob um regime de impunidade que ainda hoje faz dos perpetradores dessas mortes figuras de tranquilo dia-a-dia. Joshua Oppenheimer soube das histórias ao caminhar por aqueles lados, as memórias do terror ainda vivendo entre os habitantes da região. Queria filmar essas memórias. Mas, advertido, optou por falar com os perpetradores e não com familiares e amigos de sobreviventes. E, para seu espanto, deram o sim ao desafio e falaram para a câmara...
Nuno Galopim, aqui.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ (1928-2014)


«O mundo estará fodido de vez», disse então, «no dia em que os homens viajarem em primeira classe e a literatura no vagão de carga.» Foi essa a última coisa que lhe ouviram dizer.
In Cem Anos de Solidão

THE WHY AND HOW OF EFFECTIVE ALTRUISM

Peter Singer no TED talks. Ver e ouvir aqui. E, já agora, ler os livros também pode fazer bem à alma. Caso estejam interessados.

P.S.: As minhas sinceras desculpas por não ter avisado os leitores mais sensíveis de que não se trata de nenhuma voz espantosa no The Voice Portugal nem de nenhum prato deslumbrante no Masterchef. Podem, portanto, saltar o anúnico. Só não se esqueçam de levantar o braço quando vos questionarem sobre o que têm feito por um mundo melhor e mais justo.

terça-feira, 15 de abril de 2014

LISBOA

É rica a história de Lisboa, ancestral porto da Europa onde desde sempre confluíram povos e culturas diversas. Encalhada entre o seu natural cosmopolitismo e o provincianismo típico da nação, com uma população essencialmente miscigenada, sofreu ao longo dos séculos alguns abalos importantíssimos. Depois das invasões romana e mourisca, o primeiro desses abalos terá sido o cerco no ano de 1147. A tomada de Lisboa aos mouros, que deixaram espalhadas pela cidade marcas ainda hoje facilmente detectáveis, foi magistralmente evocada por Saramago no romance História do Cerco de Lisboa (1989). A inclinação para o mar ofereceu à cidade características posteriormente desenvolvidas com a aventura ultramarina, os chamados descobrimentos, as conquistas de territórios longínquos e a chegada desses ecos ao Terreiro do Paço. O segundo abalo é o terramoto de 1755, a ruína, a destruição e a miséria espalhados pelas ruas da capital. O processo de reconstrução que se seguiu, notável, veio a encontrar já no Estado Novo a congruente homenagem ao punho de ferro de Pombal na Rotunda do Marquês. Há um terceiro abalo, a todos os níveis impressionante, que consiste no acolhimento e (re)integração de centenas de milhar de retornados após o 25 de Abril de 1974 e respectiva descolonização. São três momentos históricos fundadores de uma cidade, comoventes até pelo exemplo de elevada estatura moral que representam, tão elevada que nos é hoje difícil aceitá-los como factuais. A atitude daninha e miserabilista a que nos fomos submetendo nas últimas décadas é de tal forma aglutinadora do espírito que parece mentira ter sido possível edificar uma cidade desta grandeza ao longo de mais de dois mil anos. Mas o interesse desta Breve História de Lisboa – cidade do mar (Lisbon, City of the Sea), escrita por um estrangeiro de seu nome Malcolm Jack, não se restringe ao tom laudatório da (re)visão histórica. Alguns episódios permitem-nos compreender um pouco melhor porque somos o que somos enquanto povo, aceitando, obviamente, a individualidade de cada um dos elementos que compõem o todo oferecendo-lhe contradição. Tomemos de exemplo a desgraçada figura de Gabriel Malagrida, jesuíta italiano que pregava na capital à época do terramoto. Compreensível que em 1755 um acontecimento de tal envergadura inspirasse a imaginação clerical. Atribuído o terramoto à fúria divina, de costas voltadas para o luxo e a opulência exibidos por Lisboa, nomeadamente onde era possível exibi-los, foi este Malagrida o principal porta-voz de Deus na terra. A cidade estava contaminada pelo pecado, apesar de haver quem julgasse o terramoto «um acto de amor e um instrumento mais nobre do que aquele que os pecaminosos cidadãos de Lisboa realmente mereciam» (p. 116). O missionário italiano, protegido pelo rei D. João V, queixava-se dos passatempos lascivos dos lisboetas, apelando ao jejum, ao arrependimento, à conversão. A reconstrução da cidade era questão sem importância. O debate estava instalado e extravasou fronteiras. O Marquês de Pombal é que não estava para conversas. Virou-se para o clero português, empossou o irmão para chefiar a Inquisição, persuadiu os clérigos portugueses a insurgirem-se contra Malagrida, acabando por atirar o herege italiano para a fogueira depois de ser garrotado. Dir-se-á hoje que Malagrida estava a pedi-las, mas também não podemos deixar de notar no episódio a supremacia do pragmatismo face ao pensamento. Lembrei-me disto depois de ouvir ontem o ex-Presidente da República General Ramalho Eanes, numa intervenção extraordinariamente sentida, apelar à reflexão que tanto tem faltado ao país. Ora, é precisamente esta ausência de reflexão que permite todo o tipo de abusos há demasiado tempo perpetrados pelas elites no poder. E aqui chegamos à visita de Byron, o poeta romântico inglês que chegou a Portugal sabendo apenas pronunciar alguns palavrões. Chocado com a imundície de Lisboa, matilhas de cães ingovernáveis nas ruas, bandos de jovens armados com facas, um clero mendicante, o que Byron mais apreciou em Lisboa foi… Sintra. Diz Malcolm Jack que Childe Harold, que ainda não li, publicado em 1812, «está repleta de um tom distintamente lusofóbico». Mas a verdadeira decepção de Byron é com a postura dos portugueses face à invasão francesa: «Byron era um jovem imbuído de ideias de lutas gloriosas pela liberdade: era a essência dos heróis; uma convocação exultante às armas. A ausência de um espírito de combate em qualquer nação teria atraído o seu escárnio. A atitude de Byron para com Portugal era portanto complexa. Chegou cedo à conclusão que os portugueses eram uma raça servil. Até nem mereciam possuir o paraíso de Sintra» (p. 153). Este povo servil sem espírito combativo é-nos tristemente familiar, quarenta anos depois de uma revolução militar que nos libertou da ditadura e contadas praticamente três décadas de ruinoso cavaquismo. Lisboa permanece, deste modo, como símbolo de um país com uma história muito antiga e complexa, mas também como berço de um povo aparentemente conspurcado pela nuvem introspectiva, langorosa, conformada e apática da cidade. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A LOTA CONTINUA


É vedada a passagem a estranhos
à actividade portuária e a verdade
é que por aqui faríamos
um levantamento dos sons
e dos acasos
melódicos

por um lado os barcos
muito ágeis e que por acaso
não são barcos mas
traineiras

por outro o mar que é reconhecimento
de terra da terra e onde estamos
é terra a acabar ou com sorte

em princípio nesta altura a vida temo-la
por um fio e por força
depois da terra o mar é bravio
faz vento temos sono faz frio
enfim e se vivemos a vida em 35 milímetros
a lota tem muita gente dentro
ou tem a gente a lota pela frente
nenhuma sorte e bem vendo pouca morte

e ultimamente sobretudo um pouco de tudo
o mundo é muito mas que fazer afinal
da roda da frente da bicicleta azul
que dia sim dia não tem um furo?

Hugo Milhanas Machado (n. 1984), in Clave do Mundo (2007). Professor de filologia portuguesa na Universidade de Salamanca, Hugo Milhanas Machado tem publicado com frequência desde a estreia com poema em forma de nuvem (2005). A sua poesia ainda não encontrou o eco crítico que merece, distribuída por pequenas edições com uma singularidade que escapa às lengalengas estreladas pelo recenseamento oficial. Poesia com motivos incomuns, tais como acampamentos em Peniche ou velocipedismo, elaborada a partir de imagens dispersas que encontram na desconstrução sintáxica um impressionismo assaz sugestivo. Por vezes, transmite uma invulgar alegria de viver. Noutras ocasiões, deixa-se contaminar por uma ligeira nostalgia. Não obstante, os poemas são geralmente luminosos e ressoam experiências, vivências, partilhas, tanto quanto conjugam estes elementos com memórias disfarçadas por um discurso elíptico que se inscreve no sentido oposto da narrativa confessional reproduzida por tanta da poesia portuguesa contemporânea. 

sábado, 12 de abril de 2014

CABO DA ROCA

O farol é falacioso, não te orienta nos acidentados recessos da alma. Com sorte, o nevoeiro abrir-te-á os olhos para a serra. É lá que os covis protegem do naufrágio piratas com espadas de pau. Mortos do trabalho, enterrados pela vida doméstica, correm o sério risco de encalhar algures num promontório sugestivo. Seria tentador, acelerar a queda com um mergulho, não fosse o impacto do vento na pele.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

DESCONHEÇO EM ABSOLUTO



A qualidade da advogada estimula-nos o empreendedorismo: uma empresa de clientes mistério para auditar o funcionamento das empresas de clientes mistério. E, já agora, dos escritórios de advogados que "ponderadamente" contornam a justiça fazendo um bom uso da lei. Afinal, só não vive do ar quem é guloso. "Epifânico"!!!


Adenda: recupero este post humilde para vos dar conta de um outro, desenvolvido e assinado por Lourenço Bray. Está aqui. Leiam, vale mesmo a pena. Pelo menos valerá mais do que ler o chorrilho de banalidades motivacionais que é o livro de Forjaz. 

EXEMPLOS

Por certo, o surto da grande poesia
é tão misterioso como o funcionamento dos neurónios.
João Vário, Exemplo Coevo


Uma das boas notícias que 2013 trouxe à poesia portuguesa foi a inauguração de uma colecção de poesia na editora Tinta-da-China. Livros graficamente bonitos e com distribuição alargada, tornando acessível um género geralmente acantoado no espaço cada vez mais ingovernável das livrarias portuguesas. Com coordenação de Pedro Mexia, esta colecção acaba de ver sair o seu quinto volume. Vai fazer um ano, publicou-se o primeiro. Exemplos (Tinta-da-China, Maio de 2013), de João Vário, pseudónimo de João Manuel Varela (n. 1937 - m. 2007), serviu de pórtico. E que pórtico. Poeta praticamente desconhecido dos leitores portugueses, João Manuel Varela nasceu em Cabo Verde, estudou medicina em Coimbra e Lisboa, exilou-se na Bélgica. Com vasta obra publicada no domínio científico, escolheu para pseudónimos literários os nomes de João Vário, Timóteo Tio Tiofe e G. T. Didial. Cada qual tem as suas particularidades, sendo João Vário o poeta do mundo, errante no espírito, meticuloso na escrita.

A sua obra começa a ser publicada em Coimbra, no ano de 1958, com um livro posteriormente retirado de circulação. Exemplos é monumento arquitectado com rigor, cujas fundações remontam ao ano de 1961 num caderno de poesia intitulado Êxodo, organizado com Luís Serrano e Rui Mendes. De doze volumes projectados, sairão nove: Exemplo Relativo (1968), Exemplo Dúbio (1975), Exemplo Próprio (1980), Exemplo Precário (1981), Exemplo Maior (1985), Exemple restreint (1989), Exemple irréversible (1989) e Exemplo Coevo (1998). Este volume da Tinta-da-China, organizado por Osvaldo Manuel Silvestre, deixa de fora os dois livros escritos em língua francesa, escolhe excertos dos restantes respeitando a estrutura rígida de cada um deles: uma ode inicial e a divisão do poema em três cantos. O método faz estremecer o leitor contemporâneo, porventura mais habituado a construções singelas. Mas os mestres de Vário são de outros tempos: «Pound e Eliot, nossos mestres mais ditosos» (p. 260).

A poesia de João Vário esquiva-se ao paradigma do escritor dito africano, sendo a designação de poeta cabo-verdiano demasiado estreita para alguém cuja escrita repercute constantemente ambientes urbanos e influências culturais europeias. Do texto bíblico aos clássicos, destes aos modernos, são diversas as citações ou evocações que se intrometem nos poemas, servindo de referencial a reflexões intensas sobre temas tais como a morte (logo no primeiro livro), o exílio, o tempo, a predestinação, a cidadania. Silvina Rodrigues Lopes dirá: «Em toda a poesia deste autor encontramos o mesmo imenso obstáculo à decifração — perseverança na opacidade, que se gera pela reflexão que hesita e pela atenção ao que vem, o nascer do mundo, na sua irreconhecível e demasiado próxima escrita» (Via Atlântica, Junho de 2009). No entanto, o que há de enigmático em João Vário é uma original articulação da linguagem com a experiência, numa escrita onda redemoinham imagens, se recorre à anáfora com frequência, uma escrita que retoma os seus motes diversos e neles insiste até à saturação de um impulso que vislumbra na sombra disfarce ideal para a expressão da consciência.

A recorrência a superlativos sintéticos sugere-nos uma intensidade emotiva que os poemas, altamente reflexivos, exploram a partir de problemas fundadores como aquele expresso logo nos versos iniciais: «Porque alegrarmo-nos na nossa obra / é a parte que nos cabe, / pois quem nos fará voltar / para ver o que será depois de nós?» (p. 13) Esta dúvida, que parece percorrer todos os volumes, surge posteriormente colocada de outras formas. Com um ritmo avassalador, repleto de curvas e contracurvas, João Vário disseca a experiência vivida para, a partir de um trabalho anatómico que por vezes resvala num tom oratório, nos inquietar de novo com a ditadura do tempo, numa espécie de ataque ao destino onde a posteridade e a eternidade são capturadas pelo eterno retorno. Vejam-se, a título de exemplo, estes versos do canto segundo do Livro 4, Exemplo Próprio (p. 144):

Homem de pouca fé, por que temes o peso dos teus passos?

Vamos pela vida arrastando essas noções
de nação, de cultura, de civilizações
- coisas estranhas, sem dúvida, à índole do mundo,
da fraternidade ou da natureza,
porém coisas talvez da ordem das coisas,
das fábulas ordinárias,
mas será que somos disto ou daquilo, que a verdade é essa,
que não escutamos senão de dois ouvidos
e há um país para a leitura
dos nossos mitos próprios
e que a alma não acende além do madeiro recebido
as parábolas que o auxílio sugere
e as volvem, quando deus morre, melhor árbitro do mundo?

E comparem-se agora com estes, do canto terceiro do Livro 9, Exemplo Coevo (p. 277):

Sabe-se que os homens são fracos, volúveis,
que esta terra é pequena e molesta,
e o bem e o mal apenas são esse tédio das euménides,
porque, em verdade, os justos não se revoltam,
as musas são imperturbáveis
e não pode haver Sodomas e Gomorras indefinidamente,
porque o homem olha e é Deus que se faz estátua.
Tal, se nos interrogamos sobre o sentido do desvelo
ou da violência, como ele as duas metades
do nosso corpo separa, dando metade
às nossas camas e a outra metade distribuindo
por estranhos como moeda pobre ou erva de Constantinopla,
o fundo tocamos de tal imprevidência e a abundância
que a vida reduz a essa conta divina: o âmago irreconhecível,
a casa, a mulher e tal dom da imaterialidade, da decifração.

Homem de pouca fé, por que temes o peso dos teus passos?


Ora, do problema da identidade cultural, típico do homem exilado, à experiência aterradora da humanidade, que encontra no cidadão inevitável desassossego, repete-se uma mesma dúvida: «Homem de pouca fé, por que temes o peso dos teus passos?» Mas esta dúvida já não é apenas do homem exilado nem do cidadão desassossegado, é dúvida do ser único e consistente que a ambos persegue num só corpo, o corpo do poeta. Ontológica, portanto, esta poesia, por nos remeter para questões universais e intemporais do ser a partir da experiência finita e efémera de um homem só. A leitura de João Vário exige, assim, uma predisposição para o pensamento que não se coaduna com uma mera fruição da linguagem, da expressão ritmada das palavras, com o espanto provocado pela erupção de imagens e metáforas. Se tivermos que chamar difícil a um poeta, seja a João Vário. Embora eu prefira o termo exigente.

terça-feira, 8 de abril de 2014

NÃO HÁ ALTERNATIVA

Quem quiser compreender a crise que estamos a atravessar, pode começar por aqui. Bertrand Rothé (economista) e Gérard Mordillat (escritor, cineasta) pegaram no célebre chavão thatcherianoThere is no alternative… — e desmontaram com simplicidade décadas de propaganda económica. Em três conjuntos de textos, coloridos de sagacidade e ironia, explicam o desmoronamento progressivo do Estado-Providência erguido no pós-guerra com a hegemonia de teses “liberais” que endeusam os mercados e a sua mão invisível. Transformado em virtude, o egoísmo só tem um horizonte em vista: o lucro. Desregulamentação dos mercados, desenvolvimento de empresas offshore, fragilização do sector público, prostituição da classe política, multiplicação de serviços prestados pela banca, “big bang especulativo”, flexibilização das leis laborais, uma justiça impotente face à corrupção financeira, colocaram o poder na mão invisível dos mercados. Mas os mercados não são entidades meramente abstractas, existem e funcionam na base de interesses concretos que protegem os bancos e, por consequência, beneficiam as grandes empresas (multinacionais e não só) onde se movimentam, num trânsito imparável de cargos, políticos subitamente transformados em empresários e empresários metamorfoseados em políticos. A realidade francesa, que o livro expõe com especial atenção, não é diferente da nossa. Cá é tudo ainda mais óbvio, tacanho até, cá é tudo ainda mais evidente com o beneplácito de uma população ou desinteressada ou conformada ou impotente (não sei bem). Banqueiros claramente corruptos cujos crimes prescrevem, políticos incólumes, escritórios de advogados ao serviço de suas majestades, toda uma classe de ”ultra-privilegiados” que nos querem convencer, pela boca de «artistas de variedades para distrair o público, missionários para salmodiar dia após dia o novo catecismo» (vide Camilo Lourenço, vide José Gomes Ferreira…), da inexistência de uma alternativa a estas oligarquias que meteram a democracia na gaveta e se estão nas tintas para o bem comum. Estão-se tanto nas tintas quanto é evidente serem as suas receitas causa essencial do agravamento das assimetrias no mundo, com a inevitável globalização a encher os bolsos de uma ínfima minoria que prospera encavalitada numa imensidão de desafortunados: «Os menos afortunados podem mesmo trabalhar a tempo inteiro e no entanto ter de dormir no carro. (…) Têm de sofrer em nome da modernidade e de uma liberdade de concorrência não falseada. E tanto pior se, depois, de entre aqueles que têm a sorte de ter ainda um emprego, alguns se irão tornar working poors. Assalariados e pobres, é esse o preço a pagar para aceder ao mundo do futuro» (p. 66). Mas que importa as pessoas perante a saúde dos mercados? Apetece parafrasear o pseudo-político português que recentemente se vangloriava de um país muito melhor apesar de reconhecer estarem pior as pessoas, como se o país não fosse essa coisa distante a que o próprio dá o nome de pessoas. Ora, ironia das ironias, o que esta crise veio trazer foi a heterogeneização do paradoxo. Temos, assim, países de bandeira comunista que são a menina dos olhos de ouro, sobretudo em termos laborais, dos neo-liberais e seu séquito de empresários avarentos (China? Angola?); temos os inimigos do Estado a socorrerem-se do Estado quando a dor aperta (BPN?); temos biliões de dólares desbloqueados para salvar bancos da ruína quando para a educação, a saúde, a cultura, falta sempre dinheiro (não há, não dá); temos uma plutocracia falida a passear pelo mundo em jactos privados… «Moral: quando os lucros florescem, o lema é “abaixo o Estado”; quando as perdas se acumulam, passa logo a ser “viva o Estado”!» (p. 75) Tudo isto, entretanto, se tornou lugar-comum, mas nunca é de mais lembrá-lo. Sobretudo quando estamos debaixo do fogo das “teorias da resiliência”, com políticas de austeridade alicerçadas numa disseminação do medo (medo de falir, medo de perder o emprego, medo de mudar…) que obnubila uma classe média que a todo o momento procura não ter consciência do quão explorada vai sendo. Os fast thinkers de serviço, cujo discurso anda sempre a favor do vento, podem encontrar os seus bodes expiatórios no cigano que vive do RSI, na família que se endividou para comprar uma vivenda, no peralvilho que ganha o SMN mas não dispensa um smartphone pago a prestações. Nada disto apaga o essencial, ou seja, alguém está a lucrar, e muito, com esta crise, alguém tem vindo a lucrar, e muito, com a propagação do chavão thatcheriano: There is no alternative. À refundação do Estado podemos propor, em herética alternativa, uma refundação do capitalismo. Podíamos começar por acabar com os paraísos fiscais, “enquadrar as práticas dos banqueiros”, nacionalizar as agências de notação, oferecer à justiça ferramentas básicas contra a prescrição de crimes económicos e fiscais profundamente lesivos da vida da maioria, lutar contra a fraude fiscal, reestruturar o sector bancário, taxar os rendimentos financeiros, estabelecer um imposto sobre o capital… Podíamos, não fosse dar-se o facto de as crises serem «uma prenda do céu para os especuladores. (…) os responsáveis pelos bancos de investimento põem-se a salivar só de pensarem nas generosíssimas comissões que poderão obter com consultorias e restruturações de dívidas. (…) Os mercados são entidades necrófilas!» (pp. 122-123) Portanto, congelem-se salários e aumentem-se impostos, proteja-se a incúria dos bancos, vampirizem-se as populações, seja-se rigoroso, claro está, com os mais fracos. Não é assim? Segunda moral da história: «Jesus anunciava a chegada do Reino mas o que afinal acabou por vir foi a Igreja, (…) o capitalismo anunciava a liberdade mas o que afinal acabou por vir foi a oligarquia». Quem quiser compreender, pode começar por aqui.

AGRADECIDO

Excerto do discurso de Alexandra Lucas Coelho, ao receber o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, atribuído ao seu romance "E a noite roda".

"Estou a voltar de três anos e meio a morar no Brasil. Um dia, a meio dessa estadia brasileira, pediram-me que gravasse um excerto de um conto de Clarice Lispector para o site do Instituto Moreira Salles. Era um conto em que a protagonista era portuguesa, daí o pedido, que a voz coincidisse com o sotaque. Como detestei aquela portuguesa do conto da Clarice. Tudo na boca dela era inho e ito. Era o Portugal dos Pequenitos com a nostalgia das grandezas. Aquele que diz “cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas” mas sofre de ressentimento. O Portugal que durante 40 anos Salazar achou que era seu, pobre mas honesto-limpo-obediente, como agora o governo no poder quer Portugal, porque acha que Portugal é seu.
Estou a voltar a Portugal 40 anos depois do 25 de Abril, do fim da guerra infame, do ridículo império. Já é mau um governo achar que o país é seu, quanto mais que os países dos outros são seus. Todos os impérios são ridículos na medida em que a ilusão de dominar outro é sempre ridícula, antes de se tornar progressivamente criminosa.
Entre as razões porque quis morar no Brasil houve isso: querer experimentar a herança do colonialismo português depois de ter passado tantos anos a cobrir as heranças do colonialismo dos outros, otomanos, ingleses, franceses, espanhóis ou russos.
E volto para morar no Alentejo, com a alegria de daqui a nada serem os 40 anos da mais bela revolução do meu século XX, e do Alentejo ter sido uma espécie de terra em transe dessa revolução, impossível como todas.
Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.
E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.
Não sou crente, portanto acho que depende de nós mais do que irmos indo, sempre acima das nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto em vez de mais baixo, Para claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos seres para a morte, que somos, que somos.
Partimos então do zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo meio tudo é ganho porque só a perda é certa.
O meu país não é do orgulhosamente só. Não sei o que seja amar a pátria. Sei que amar Portugal é voltar do mundo e descer ao Alentejo, com o prazer de poder estar ali porque se quer. Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal apesar de o governo nos mandar embora. Contrariar quem nos manda embora como se fosse senhor da casa.
Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”. 
Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar. 
Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.
Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil, do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura. 
Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11.º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual presidente da República. 
E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dividas à segurança social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos. 
Não devo nada ao governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.
Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.
Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos, Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes."

segunda-feira, 7 de abril de 2014

DIETAS


O negócio das dietas prospera. Há a dieta dos 31 dias, a dieta das princesas, a dieta viva, a dieta perfeita, a dieta simples, a dieta 1, 2, 3, a dieta barriga zero, a dieta Dukan, a dieta dos sumos, a dieta dos 2 dias, a dieta do prazer, a dieta para uma pele saudável, a dieta 2 em sete – dois dias de dieta, cinco dias de pausa -, a dieta do metabolismo rápido, a dieta dos 2 tamanhos, a dieta sem dieta, a dieta dos passos, a dieta dos 30 dias, a dieta sem castigo, a dieta 5:2, a dieta da comida crua, a dieta dos estudantes, a dieta low-cost, a dieta ideal, a dieta revolucionária do Dr. Atkins, a dieta de South Beach, etc, etc, etc… Com tantas dietas, suponho que alguém ande a ficar gordo. Mas nada supera a dieta de Auschwitz. Arranjem-me um nazi, por favor. Preciso emagrecer.

domingo, 6 de abril de 2014

WARLOCK (1959)



A geografia do western está maioritariamente concentrada nos estados do Texas e Novo México, nas fronteiras a sul de uma nação dividida e endemicamente desigual. Não obstante, é vasto o território deste género cinematográfico. Cidades como Tombstone (Arizona), Dodge City (Kansas), St. Joseph (Missouri), Crown City (Ohio) ou Sheridan (Wyoming), só para dar alguns exemplos, integram um roteiro que, bem vistas as coisas, é o dos Estados Unidos na sua totalidade. O western não se confina aos estados do sul nem ao ambiente social do chamado Old West, nas fronteiras que separavam a América do Norte do México ou, no interior da própria América, os territórios ocupados pelos colonos das nações índias. Esta complexidade geográfica oferece-nos uma riqueza identitária sem paralelo, a qual está na raiz multicultural dos states e se prolongará em manifestações artísticas aí desenvolvidas. Cinema incluído. Não admira, portanto, que muitas das narrativas produzidas em torno do fenómeno recorram a lugares imaginários, vilas recônditas, lugarejos abandonados, fortes perdidos no meio do nada, onde a civilização procurava impor-se ao clima selvagem recorrendo a métodos nem sempre ortodoxos, frequentemente ambíguos, controversos, paradoxais, estimulantes de um ponto de vista filosófico. Warlock é um desses lugares estranhamente esquecidos. Edward Dmytryk (n. 1908 – m. 1999), filho de imigrantes ucranianos, tinha tudo para ser um dos génios de Hollywood. A caça às bruxas na era McCarthy levou-o à prisão em 1947, vindo a ser reintegrado, depois do exílio britânico, na sequência de um depoimento onde bufou alguns dos seus antigos camaradas. Dmytryk ficou marcado em todas as direcções. Que a biografia não desfaça a arte. Warlock/O Homem das Pistolas de Ouro (1959) é filme para cinco estrelas, um dos melhores alguma vez produzidos. O elenco de luxo, onde pontificam Richard Widmark, Henry Fonda e Anthony Quinn, parece não ter sido suficiente para o resgatar do esquecimento. Estão lá, também, Dorothy Malone e Dolores Michaels (excelentes, as duas). Jean Tulard refere-se-lhe nestes termos: «As implicações homossexuais do roteiro (o matador é acompanhado por um amigo que é também seu guarda-costas, debilitado e de comportamento perturbado), achados de direcção e um elenco estrondoso fazem dele uma obra-prima». Não há exagero nas considerações. Warlock é uma vila isolada onde a lei não chega. Cansados de serem humilhados pelos cowboys de San Pablo, os habitantes resolvem contratar um Marshall para os defender. Clay Blaisedell (Henry Fonda) é o homem de quem todos ouviram falar, o homem cuja coragem motivou livros e a quem populações desesperadas ofereceram pistolas com punhos dourados. Aqui chegados, dois parêntesis se impõem. Primeiro: o argumento salienta uma representação ambivalente da figura do cowboy. Ao contrário do que tantas vezes se sugere, o cowboy aparece no western tanto como um desordeiro que importa controlar como o indivíduo corajoso, determinado e errante que inspira desconfiança. Nos bons westerns, o cowboy ocupa por vezes o lugar do índio onde este já não tem lugar. É igualmente nómada, não reconhece a lei nem a ordem, actua única e exclusivamente em função do seu individualismo, podendo ser bom quando dotado de consciência moral ou terrível quando imerso na anarquia da sua vontade. Segundo parêntesis: vilas isoladas como Warlock são frequentes na história do western, lugares sem rei nem roque onde as populações se organizavam na medida das suas forças, muitas vezes vítimas de um Estado mínimo que as votava ao esquecimento, obrigando os cidadãos a tomarem medidas extremas como sejam a contratação da sua própria justiça. Robert Nozick, autor de Anarquia, Estado e Utopia, tinha algo a ganhar se olhasse para estes exemplos com o cuidado que a História merece. Afinal, eles são reveladores de uma fragilidade social que a dura implementação da lei e da ordem torna maquiavélica. O pseudo-juiz coxo que Edward Dmytryk coloca no seu filme é metáfora pertinente da justiça onde a força do Estado se torna mínima, uma justiça que impele os cidadãos para alternativas extremas tais como a contratação de pistoleiros implacáveis (o town tamer de Man With the Gun) sem sentido de justiça que não seja a sua própria consciência. Entregues à consciência de um só indivíduo, as populações ficam à mercê dos caprichos e das paixões desse ser que, lá está, é humano como qualquer outro entre os demais. Verdadeiramente marcante a relação entre o Marshall contratado pela população de Warlock e o seu fiel companheiro. Henry Fonda e Anthony Quinn têm entre eles, como sugere Jean Tulard, um elo apaixonado que extravasa os domínios da amizade. Há qualquer coisa de sexual na forma como Tom Morgan (Quinn) protege Blaisedell (Fonda), nos cuidados na decoração dos novos aposentos, assim como na reacção de Blaisedell à morte do seu companheiro de dez anos, na forma como o segura ao colo, obriga a população a lamentar-lhe a morte e pega fogo ao French Palace entretanto transformado em câmara ardente. Paixão e ciúme acabam por separá-los. Não vale a pena esmiuçar um argumento repleto de pormenores incrivelmente sugestivos, filmado com argúcia rara e incrivelmente estética, onde o desempenho de actores excelentes tem o olhar que merece. É um filme para rever muitas vezes, tantas quantas as necessárias à justiça de uma memória perdida. 

PORNOGRAFIA SOCIAL

A chegada da Primavera crepita as hormonas, oferecendo ao tema sexual a sua oportunidade libertária. Este ano, o trailer de um filme que não vou ver, adaptado de um livro que não li, serve de aperitivo para o rol de fantasias luxuriantes que enche ginásios com indivíduos em busca de uma forma para o corpo que, perdoem-me a presunção, não alcançam para a cabeça. Não vou ser eu a fazer o papel de César das Neves, mas seria injusto para comigo se escondesse aquilo que mais me excita de momento. Esqueçam as futilidades da Rebelo Pinto, as toneladas de pornografia literária, ainda por cima má, que a E. L. James inspirou, esqueçam também os artigos, as reportagens, as notícias que hão-de fazer as delícias da imprensa humanista, isto é, sensacionalista. Em boa verdade vos digo que sexy, sexy, sexy, por estes tempos, só mesmo a Isabel Jonet. Confesso o tesão que a senhora me provoca, com seu maternalismo social, a luta contra a fome, a que associo inevitavelmente uma enorme vontade de comer, e, mais recentemente, o desprezo para com as redes sociais. Escusado será dizer que partilho o desprezo, e entrevejo na sua afirmação um erotismo puro. O pior inimigo dos desempregados são as redes sociais, afirmou a mater dolorosa dos pobrezinhos. Podia ser o desemprego, o trabalho precário, um Código do Trabalho sucessivamente alterado à medida dos interesses de quem emprega, podia ser a ganância de patrões que exploram até ao tutano recursos mínimos tendo em vista apenas lucro e crescimento para os seus bolsos. A distribuição da riqueza, desigual e assimétrica, podia ser força inimiga do desemprego, assim como um Estado subserviente aos interesses privados, lacaio de empresários e banqueiros corruptos a quem a justiça nunca mete mão por ser mais forte o valor dar prescrição. Tudo isto podia ser o outro lado da trincheira do desemprego, não fosse medrar entre os desempregados o demónio das redes sociais. Pode parecer estranho a quem me leia pressentir eu nestas afirmações uma sensualidade irresistível. Explico-me: a estupidez dá-me tesão, tanto quanto me excitam calções curtos e leggings pretas, saltos altos, decotes ousados, tatuagens nas mamas. São coisas que um intelectual não evita, perante elas rasteja como fera amansada. Tudo o que é fútil, superficial, imediato, excita a mente complexa, porque liberta-a dos labirintos reflexivos e solta-a de amarras mórbidas e existenciais. É o corpo, meus amigos, é o corpo tomando conta da alma. A descomplexificação do mundo está para o intelectual como o Viagra para a disfunção eréctil, pelo que os palrares da Jonet têm qualquer coisa de sexualmente estimulante. Não vale sequer a pena supor que as redes sociais podem propiciar ao desempregado contactos vantajosos, estreitar distâncias, promover ideias. Fiquemo-nos pela mais simplista das leituras: aquilo é passatempo, perda de tempo, um antro de exibicionismo público onde a vida privada se deixa voluntariamente profanar. Aquilo é o diabo, como antes daquilo o diabo era a televisão, e antes desta a rádio. A televisão é o pior inimigo do desempregado. E se queremos combater o inimigo, só nos resta uma solução. Claro está que para Jonet, que não fala isolada (estamos contigo), existem viais alternativas mais úteis e profícuas e socialmente aceitáveis. Exemplos? Ah, meus caros, se as redes sociais são o pior inimigo do desempregado, o maior amigo só pode ser o trabalho voluntário. Claro, o trabalho voluntário. E logo a seguir o estágio não remunerado. E subsequentemente o trabalho precário. E assim continuamente. Se isto não é a base da pornografia social, então qual é?

sábado, 5 de abril de 2014

GROTO SATO


A confiar nas estatísticas, Raquel Nobre Guerra (n. 1979) faz parte da “geração mais bem preparada” do país. Quer isto dizer que, nascida em liberdade, tanto quanto de liberdade podemos supor na conservadora vida portuguesa, beneficiou das décadas prósperas que ergueram Portugal ao nível dos países mais apetecíveis do mundo. Não estou a ser irónico. É uma realidade insofismável, se nos compararmos com o mundo para lá da Europa. Mas esta geração é também a que vai aprendendo a lidar com uma “preparação” sem resposta no mundo do trabalho, uma geração perdida algures entre o advento das novas tecnologias e o desaparecimento de um tecido social concreto, orgânico, pele na pele. É a geração das redes sociais, de uma existência virtualizada que o realizador David Cronenberg tão bem caricaturou em eXistenZ (1999), da fractura abrupta com uma realidade agora julgada de obsoleta, arcaica, ultrapassada, embora convivendo com nichos de resistência onde andar descalço sobre a terra pode ser um acto de insubordinação. No future, o slogan punk que os Sex Pistols celebrizaram, faz de novo sentido, agora que julgamos mortos todos os profetas e da esperança resta apenas vaga sombra.

Não sendo determinante para a leitura da sua poesia, embora ajude a enquadrá-la, licenciou-se a poeta em Filosofia pela UCP e seguiu estudos para mestre em Estética e Filosofia da Arte. Matérias inúteis, portanto, neste novo mundo pós-humano. Talvez seja este o primeiro sinal de uma filiação testamentária que a própria teimosia no poema reforça, dar testemunho da ruína, da morte, do declínio no seio emergente da novidade. A matriz filosófica nota-se, assim como o ambiente católico do berço académico. Nota-se enquanto obstáculo, ou seja, há na poesia de Raquel Nobre Guerra uma atitude de confrontação com as suas raízes. Groto Sato (Mariposa Azual, 1ª edição 2012, 2ª edição Outubro de 2013) - Prémio Primeira Obra do PEN Clube Português em 2013 - distribui por cinco secções (a última com um único poema longo, decalcado de Álvaro de Campos) versos onde ficam patentes os domínios do confronto que opõem o velho ao novo. O próprio título do livro assim o indica. No posfácio de João Barrento à segunda edição esclarece-se a estranheza do título:

«É um livro esfíngico, e o leitor tem de ter a intuição e o saber de Édipo. A começar pelo título: Groto Sato. Este título será para muitos leitores um engulho, um engasgue, um sapo que custa a engolir. Ou afasta, ou instiga à descoberta (aconselha-se a última). Levei tempo a chegar lá, não tanto ao sato, mais ao groto, e sobretudo à ligação entre as duas palavras. O que primeiro ocorre é talvez o japonês: Sato é nome dessa língua, com o significado de «Iluminado» (tem a mesma raiz do Satori do Zen, a iluminação). Mas é também uma forma verbal latina, com o sentido de cheio, saciado, farto (disto tudo que nos cerca?). E groto? A gruta mágica da informação, a Net, não ajuda muito. «Groto» é nome de pizzarias em Lamego e em Itália! Mas também forma antiga de «gruta», que nos serve melhor. A polissemia vence, podemos ler esse estranho título que se nos enrola na boca como «A gruta iluminafa», ou também «O buraco de quem está farto», ou ainda, como me saiu espontaneamente ao «traduzir» o título, «De saco cheio»!» (p. 109)

A citação é elucidativa de um trabalho linguístico que os poemas repetem, absorvendo elementos clássicos numa linguagem onde o vernáculo tem igual assento. É dado adquirido entre os poetas portugueses da nova geração o usufruto mais ou menos caótico de múltiplas referências culturais, proveito de uma herança histórica onde latim e grego, árabe e sânscrito, podem fornecer condimentos apelativos para uma torrente expressiva cujos limites são os do caldeirão onde se cozinham feitiços verbais. Da mesma forma, convivem nestes poemas epígrafes provenientes da cultura popular com citações de autores consagrados (preferencialmente maudits). Este caos referencial, multicultural, repleto de envios e de evocações, não transforma esta poesia, porém, naquilo que usualmente nos é sugerido como “poesia culta”. Na verdade, o emaranhado confunde-se com a própria vida de quem, lá está, calhou ter por experiência a assimilação da experiência alheia, ao mesmo tempo que traduz de pequenos gestos quotidianos épicas conquistas pessoais. Há nisto muito de poesia, é certo, mas também de biografismo velado, como nesse poema intitulado No Tempo dos Golos onde se subentende a vivência de uma Lisboa nocturna em tempos de, digamos, repouso académico.

Sucede que a única referência que em todas as páginas sombreia e que em todas as esquinas do poema ressoa, não vem explicitada. Nietzsche, o filósofo que para matar Deus se matou a si próprio, escreveu este aforismo intitulado Sentir a arte de maneira diferente: «Desde que se vive como eremita insociável, devorador e devorado, com fecundos e profundos pensamentos e somente com eles, ou não esperamos já seja o que for da arte, ou esperamos uma coisa muito diferente do que antes – por outras palavras, mudamos o gosto. Pois outrora queríamos, através da arte, mergulhar, um momento, no elemento em que hoje vivemos permanentemente; ela permitia, outrora, sonhar o encontro com uma coisa que agora possuímos verdadeiramente. Sim, despojarmo-nos momentaneamente do que temos agora e sonharmo-nos pobres sob os traços de uma criança, de um mendigo ou de um louco – eis o que pode agora encantar-nos ocasionalmente» (os sublinhados são meus). À aurora nietzschiana corresponde, desta forma, um despojamento e uma ilusão propiciadores de ocasional encanto. Do mesmo modo, os poemas de Groto Sato implicam esse despojamento e essa ilusão que provocam espanto no eremita insociável e, por isso, (nos) encantam.

Há nestes versos uma arte de enfeitiçar que transcende a raiva por eles exibida e o (aparente) niilismo que sublinham. A sintaxe informal de poemas ora epigramáticos, ora de maior fôlego, imprime à leitura ritmos diversos onde o sentimento de vazio abismal e um contexto político decadente são como que exorcizados no ritual satânico da poesia. Baudelaire serve de farol, mas já não como serviu, por exemplo, a Manuel de Freitas (n. 1972) e correspondentes afectivos. Elipses súbitas desviam sentidos, confundem a leitura, abrem alas para o termo estranho num certo barroquismo imagético que tem sob si um desejo de subverter formas e fórmulas rígidas, um sentimento heterodoxo da vida e, por consequência, da poesia que penetra as zonas obscuras da mente com uma enorme vontade de trazer à superfície sentimentos fechados nos lugares recônditos do corpo. Despojamento momentâneo, como queria Nietzsche, a lembrar, por vezes, poetas como Sharon Olds ou Karen Finley, sobretudo na dimensão cénica que coloca Eros a dormir na mesma cama com Thanatos. Um poema para resumo, um poema

SEM TÍTULO

resistimos a todas as noites não à nossa
tudo indica que se insinua levita até
uma primavera vulpe a que se somam
detalhes médicos gongóricos e um tanto

da metafísica para desatar esta malha em rodilha
uma oração disposta a todas as misérias
um golo certo para abrandamento cardíaco
mas continuamos gente, singular detalhe

paramos arrefecemos

neste mistério participado, entrelaço de que seguramos
firme a ponta para que nela recaia a substância
de efeitos mágicos

morremos, nós que morremos tão apenas
na hora conciliadora de todas as agulhas
de bordalo indiferente ao dedilhado

e desenrolamo-nos todos no chão

sexta-feira, 4 de abril de 2014

JORGE FALLORCA (1949-2014)

Vinha escrever umas coisas. Fico-me. No weblog do manuel, a notícia da morte do Jorge Fallorca. Já sabia que andava doente, e, com pesar, as últimas palavras trocadas foram azedas. Mas tive oportunidade de lhe dizer que independentemente do mau ambiente final, a admiração mantinha-se. Gosto sinceramente dos livros deixados pelo escritor, guardarei da pessoa a alegria de o ter conhecido e dos charros que partilhámos. Sobre os livros e algo mais, escrevi aqui, aqui (inicialmente publicado no Universos Desfeitos, foi este o texto que nos apresentou), aqui, aqui, aqui (este foi ensaiado, a pedido do autor, para apresentação da obra com o mesmo título). Fica O Cheiro dos Livros. Saúde,

quinta-feira, 3 de abril de 2014

THE CASTRO THEATRE

Um dos meus weblogs favoritos anuncia aqui a exibição dupla de Rancho Notorious e Johnny Guitar no The Castro Theatre. Apesar do nome bem português, a sala fica em San Francisco. Não dando jeito a deslocação, sugiro que adquiram os DVDs e improvisem sessão idêntica no conforto do lar. Quando alguém me diz que não gosta de western, indico sempre esses dois filmes. Nesta lista, ainda em construção, são, muito provavelmente, o top of the tops para quem pretenda iniciar-se no género. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A CORRIDA DE 100 METROS


Vejamos o mundo.
Exércitos, lugares onde se sofre,
sacrifícios da mãe pelos quatro filhos, o erudito de óculos a
examinar
o filme pornográfico,
o velho de passo lentíssimo com um casaco exagerado,
uma criança a troçar de outra mais fraca,
o casal a discutir por causa do ruído dos pés de um
e da sensibilidade do ouvido do outro,
e no meio de tantos factos e de tão diversas possibilidades,
oito homens com calças curtas e números nas costas
correm cem metros
- nem um centímetro a mais - e ganham ou perdem.
e uma vitória, por exemplo, pode levar alguém a curvar-se
e a chorar. E o assunto são cem metros de espaço do Mundo.
Pensa, por exemplo, no espaço de um país
ou no espaço da tua casa,
ou no espaço que percorres atrás da rapariga
que te largou a mão no meio da cidade;
porém nada mais há em alguns instantes, para esses homens,
além de: cem metros. Cem metros de espaço no planeta.
             Vejamos, pois, o Mundo outra vez.
Como quem lê pela segunda vez um livro. Voltemos atrás.
Vejamos onde o homem perdeu a razão.
Em que momento.


Gonçalo M. Tavares (n. 1970), in 1. Autor prolixo e inclassificável, Gonçalo M. Tavares estreou-se em 2001 com Livro da Dança. Publicado numa prestigiada colecção de poesia da editora Assírio & Alvim, à época referência maior da produção poética nacional, esse livro aparece na mais recente organização que o autor fez da sua bibliografia ao lado de um outro, Investigações. Novalis (Prémio de Revelação APE/IPLB – Poesia 1999), sob a designação genérica de Investigações. O facto é tanto mais relevante quanto o autor parece considerar Poesia, no conjunto da sua obra, apenas o livro 1 (Relógio d’Água, Novembro de 2004). Sobre Gonçalo M. Tavares muito se tem escrito: «Numa altura em que uma nova inocência épico-narrativa restaurou a narração do tipo “A Marquesa saiu às cinco horas”, é bom encontrar quem se coloca à distância da tagarelice e do “Kitsch” novelescos» (António Guerreiro, Expresso, 29 Maio 2004); «Esta escrita-leitura multiplica as mediações literárias e culturais e está nos antípodas de todo o realismo: corresponde, de modo geral, a uma intenção alegórica que põe à distância o mundo, o real, a sociedade» (idem, ibidem, 4 Dezembro 2004); «Mais uma vez Gonçalo M. Tavares nos surpreende. Raramente encontramos autores literários com esta fulgurante inteligência das coisas. E com esta estranha e deslumbrante capacidade de inventar o formato dos livros, o livro como suporte, e simultaneamente a literatura e a escrita, em cada novo livro» (Eduardo Prado Coelho, Público, 10 Junho 2006); «Tavares não se aventura por qualquer documentalismo politizado: o que o fascina é o domínio absoluto da natureza sobre o nosso destino. E o que o motiva é a nossa condição comum, precária e em anunciada desagregação» (Pedro Mexia, Diário de Notícias, 9 Junho 2006).

PIOLHO #13


Piolho - Revista de Poesia
N.º 13, Tema: Fome
Coordenação de Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Fernando Guerreiro, A. Dasilva O.
Edições Mortas / Black Sun editores


Marraquexe, pp. 35-36

terça-feira, 1 de abril de 2014

CATATAU


Em 1975, o poeta brasileiro Paulo Leminski (1944-1989) publicou, em edição de autor, o romance Catatau. Dedicada, mas não só, aos mestres do concretismo brasileiro — Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos —, esta obra, concebida durante praticamente dez anos, é, muito provavelmente, a maior prova de fundo da literatura de língua portuguesa. Referem-se, a título comparativo, as composições intrincadas de James Joyce, a experimentação verbal de um Guimarães Rosa, o legado absurdo de Beckett, mas é inútil comparar. Catatau é obra ímpar, singular, «ego-trip», como o próprio autor lhe chamou, onde as referências podem notar-se como temperos mas se fundem no caldo geral de uma festa linguística impossível de decifrar. Entregamo-nos à festa como quem penetra, pela primeira vez, território selvagem, sendo nisso o efeito que a obra provoca sobre o leitor paralelo ao efeito que o espaço geográfico da narrativa provoca sobre a sua principal personagem. Aparece-nos ela logo na primeira página, chamada de Renatus Cartesius, ou seja, o autor de Discurso do Método, obra fundadora do racionalismo europeu. Renatus Cartesius chega ao Brasil, de luneta na mão, amplificando a realidade e, com isso, a própria transcrição da mesma no texto. O uso frequente de maiúsculas reproduz esse efeito, em linha com as experiências concretistas que faziam da palavra impressa mais do que mera expressão de um significado. Renatus Cartesius chega e deslumbra-se de espanto, atónito com fauna e flora inconcebíveis, «bestas, feras entre flores», numa orgia de cores, cheiros, sons, movimentos, que a razão se esforça ingloriamente por acompanhar. Evoca um tal de Artyczewski, sente-lhe a falta, amigo de manhãs partilhadas a procurar entender o mundo. Espera por Artyczewski, sendo todo o romance a reprodução dessa espera. Escrito em bloco, sem um único parágrafo, reclama um dos significados da palavra escolhida para título: «bloco de composição muito condensado, sem parágrafos». Num vulgar dicionário de português, catatau é besta grande e magra, mulher velha e magra, pancada, castigo. Bate-nos forte esta pancada, como a Renatus Cartesius batem os fumos dos índios: «Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce… Singulares excessos… In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio» (p. 17). Está dado o mote. A partir de aqui, acompanhamos Cartesius numa viagem alucinada onde a razão é assaltada pelo sonho, a realidade apreendida pelos sentidos em estado de choque, numa digressão onde se misturam línguas como se misturam imagens, onde o erro está em procurar compreender mais do que é possível sentir, onde a lógica se transforma na aporia, a percepção desviada e desviante das coisas contaminada pela efeito irracional dos fumos. Entre a confusão, surgem momentos vagos de organização mental. Mas logo o aforismo é vencido pelo trocadilho, pelo trava-línguas, pela palavra inventada, pelo desvario e pelo delírio. Uma teoria da monstruosidade do texto subjaz à obra. Todos os grandes temas metafísicos passam pela cabeça da personagem, passam com uma fugacidade estonteante, saltando de tema em tema, ziguezagueando como insectos na cabeça desgrenhada do filósofo. A páginas 116: «Fôssemos só os cagadores da merda mais clara neste âmbito sublunar, não haveria os sublimes seres como eu que maquinam o contrário! Mais carinho, trata-se do mundo, uma máquina cuja peça principal é minha cabeça! Entre um então e outro entrão, uma linha feita de infinitos pontos de exclamação, lá onde a bota de judas pisou na bosta do judeu errante, uma aleia de interrogações, e só depois o couro do tamborim, coxa de emboada, abarábebé!» Pode a cabeça do filósofo ser a peça principal da máquina mundo, nada o desmente. O que ela deixa de ser é o princípio da existência, a matriz do ser, pois essa surge aqui transformada num arquipélago indistinguível das águas que o rodeiam, fundido com o caos da realidade, cuja vontade é a dimensão mais lúdica da vida. Séria brincadeira de palavras, Catatau volta do avesso. No final, Artyschewsky (sic) chega: vem bêbado. Possui esta edição (Editora Iluminuras, 2010) alguns apêndices de valor: breves, mas luminosas, (des)coordenadas do autor e um conjunto de textos críticos reveladores da importância da obra no panorama da literatura brasileira.