sábado, 17 de maio de 2014

AUTOBIOGRAFIA


O volume que agora se toma como sendo a Autobiografia (Sistema Solar, Janeiro de 2014) do “escritor austríaco” Thomas Bernhard (n. 1931 – m. 1989) consiste, na realidade, numa reunião de cinco livros de pendor autobiográfico publicados entre 1975 e 1982. São eles A Causa (1975), A Cave (1976), A Respiração (1978), O Frio (1981) e Uma Criança (1982). Nestes livros, Bernhard percorre, sem respeitar uma ordem cronológica, as memórias da infância e da adolescência. José A. Palma Caetano, responsável pela versão portuguesa, explica numa breve introdução que «essa ordem obedece ao pretexto que deu origem ao primeiro volume, que não foi concebido como o início de uma autobiografia, mas nela veio depois a resultar, como um encadeamento natural, que não deve nem pode deixar de ser respeitado (como já houve quem quisesse fazer, transformando o quinto volume em primeiro)» (pp. 14-15). Isto sucede porque o quinto volume é aquele que mais se concentra nos tempos da infância, não sendo, porém, exclusiva de nenhum dos livros uma fase específica do desenvolvimento da personagem em análise.
Digo personagem por ser nesse papel que Bernhard se coloca a si próprio, negando logo à partida a possibilidade de uma reconstrução biográfica fiel a uma suposta verdade. A noção de que esta verdade é inatingível implica a substituição da verosimilhança, enquanto carácter final do exercício de memória, pelo porventura mais correcto e justo conceito de alusão. Desta forma, o percurso estabelecido não respeita qualquer lógica cronológica, não reivindica nenhum estatuto de verdade, optando antes pelos interstícios de uma representação lacónica, e deliciosamente divagante, onde se torna evidente a vontade de um ajuste de contas, por vezes ao jeito de exame de consciência, com a vida. Ao terceiro livro dirá: «A perfeição em nada é possível e muito menos no que é escrito e de modo algum em notas como estas, que se compõem de milhares e milhares de farrapos de recordação. O que aqui se apresenta são fragmentos, com os quais, se o leitor quiser, se pode compor um todo. Nada mais. Fragmentos da minha infância e juventude, nada mais» (p. 288).
Alguns dados são sublinhados reiteradamente, pelo que podemos supor serem os mais determinantes para o autor: um pai ausente, uma figura materna inspiradora de sentimentos ambivalentes, a influência determinante do avô materno, uma irrequietude inata que abrirá as portas ao desassossego, à desesperança, à inquietação, o desprezo absoluto pelo ambiente social de Salzburgo, cidade adoptiva, as complicações da guerra e do pós-guerra, uma permanente indefinição quanto a talentos e aptidões, uma infância marcada por uma sensibilidade extraordinária e, por isso, irreconhecível, saúde débil, perturbações depressivas, tendências suicidas ultrapassadas por uma confessada cobardia… Outro aspecto fundamental é o facto de haver na parte da vida aqui retratada uma permanente sujeição aos ditames de instituições diversas onde o autor se sentiu ao mesmo tempo exilado de si próprio, cativo de interesses alheios, vítima de obsessões terceiras. Da casa de correcção na infância ao sanatório da adolescência, passando pelos abrigos no tempo da guerra e a reclusão num sistema de ensino onde a severidade do catolicismo extremo é comparada à austeridade do nacional-socialismo dos tempos da ocupação nazi, encontramos esta expressão revulsiva da liberdade oprimida e castrada.
As conclusões são hiperbólicas, embora inteligíveis: «Durante toda a minha vida nunca houve nada que eu mais admirasse do que os suicidas. Eles excedem-me em tudo, tudo, pensei eu sempre, não valho nada e estou preso à vida, por mais horrível e mesquinha, mais asquerosa e infame, mais banal e ignóbil que ela seja. Em vez de me suicidar, aceito todos os compromissos repugnantes, rebaixo-me a toda a gente e refugio-me na falta de carácter como numa pele que cheira mal, mas que aquece, na reles sobrevivência! Desprezo-me, porque continuo a viver» (p- 373). Importa esclarecer que estas palavras reproduzem pensamentos soltos, divagações de um jovem isolado e acossado pela doença, e é isso que as torna invulgares como invulgar é esta capacidade de Thomas Bernhard para percorrer a memória dando a ver o pensamento. Escrita reveladora que repercute violentamente as fraquezas e as forças, o orgulho e a repulsa, o medo, o ódio, a solidão que alicerçam a alma atormentando a personalidade, em relação directa com uma situação existencial que não está nas mãos de ninguém determinar. Ou seja, parece haver na escrita de Bernhard uma revolta que propõe o abandono dessa ideia de que está nas mãos do indivíduo a determinação da sua existência, tanto quanto se declina igualmente a subjugação do indivíduo a um destino. Herói e cobarde, vítima e criminoso, o homem cumpre a sua tragédia e alimenta a sua comédia podendo apenas assegurar-se que, feitas as cotas, resta-lhe o absurdo e a inutilidade como genes inultrapassáveis disto a que chamamos vida: «Toda a nossa vida, se a tomarmos a sério, não é senão uma sórdida agenda de acontecimentos, no fim completamente rasgada» (p. 284). 

O TEMPO SUJO


Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia

Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.

Alexandre O'Neill (n. 1924 - m. 1986), in No Reino da Dinamarca (1958). «O'Neill propaga à mordacidade satírica e à comoção lírica, por vezes combinadas entre si e com vários tons humorais flutuantes, a liberdade metafórica e sintáctica do surrealismo. Leva como que à coagulação poética as moléculas desagregadas do prosaico, dentro de uma tradição que vem das cartas de Camões até Garção, e desde o Abade de Jazente, Tolentino e Bocage até Penha e ao Junqueiro da Musa em Férias. Raras vezes se terá apreendido tão bem, e de um mesmo lance, a intimidade invisível «num tropeço de ternura» e a intimidade convincente da «vírgula maníaca» do burocrata, como na «pequena dor à portuguesa», de Um Adeus Português (um dos extraordinários poemas de amor que escreveu). A apreensão flagrante e humorada de ambientes e tipos (sobretudo velhotes) de Lisboa, dos pequenos e reveladores ridículos nacionais, próprios e alheios, supre bem alguns excessos de epanáforas inventariantes, de enumerações caóticas, de associações inicialmente aleatórias ou metodicamente viradas do avesso, entre outros ingredientes pobres ou de eficácia mais ocasional» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «A força e a violência das contradições da poesia de O'Neill impedem que nos refiramos a fraquezas formais. Elas não existem porque o poeta não se colocou no plano em que a expressão é criticável, ou o não atingiu ainda. Não é a harmonia ou a unidade dum poema o que nos oferece; não nos propõe qualquer mundo original ou qualquer original ponto de vista. Trata-se de provocar, de projectar a resistência interna do poeta; é necessário que as palavras firam como pedras. Poeta-exortista como esse não caprichoso nem arbitrário Michaux, O'Neill sabe a utilidade do esconjuro, de que é um belo exemplo O Poema Pouco Original do Medo, que é bom ler» (António Ramos Rosa, in Poesia, Liberdade Livre).

sexta-feira, 16 de maio de 2014

#22


Já aqui disse que não aprecio colectâneas. Todavia, aceito excepções. O que me irrita verdadeiramente é o conceito de best of, uma obra reduzida aos momentos de maior popularidade. É verdade que os Violent Femmes nunca foram banda de hits massificados, à excepção, talvez, do tema Blister in The Sun (1982). O trio liderado por Gordon Gano, formado no início da década de 1980, aliou o espírito rock’n’roll, já na sua mutação punk, ao culto das canções de protesto no terreno da folk music. Com uma formação circunscrita à relação entre três instrumentos base (guitarra, bateria, baixo), souberam tornear as limitações impostas pela formação reduzida com elementos externos de proveito inquestionável. O xilofone que se escuta em Gone Daddy Gone, o banjo de Country Death, a secção de sopros em Black Girls, liderada pelo saxofone de John Zorn, entre outros e diversificados contributos, são mais valias que permitem aos Violent Femmes desbravar os horizontes da chamada canção popular. Add It Up (1981-1993) é uma compilação que merece ser ouvida com atenção, até porque ajuda a compreender os fundamentos de manifestações culturais que por vezes tendemos a considerar, erroneamente, muito nossas. O percurso da banda é percorrido desde o primeiro ao último álbum de originais, com separadores pelo meio reveladores do espírito adolescente e, por consequência, inconformado do trio norte-americano. Os Violent Femmes souberam não crescer, preservando uma rebeldia que outros não raras vezes se limitam a arrumar no álbum de memórias.  


quinta-feira, 15 de maio de 2014

PARABÉNS CARRIÇO


Confesso que senti um certo alívio com a vitória do Sevilha. Não é pelo anti-benfiquismo – na realidade, a alegria dos meus amigos benfiquistas (tantos, foda-se!) seria a minha alegria -, é mesmo pelo patriotismo. Tivesse o Benfica saído vencedor, aguardar-nos-ia uma semana de hipócritas recepções, condecorações, agradecimentos. O Presidente da República chamaria a si a vitória da equipa portuguesa (que de portugueses, “nicles batatóide”), o primeiro-ministro não perderia tempo a aproveitar-se do elã benfiquista, sendo provável que a própria coligação Rangel-Melo fizesse da putativa vitória um símbolo da afirmação de Portugal na Europa. Assim sendo, a retoma ficou-se pelo que é: tesão de mijo. Portanto, parabéns Carriço. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

GOSTOS...


Gostas de homens bonitos, ó Lésbia, ó minha querida (parva).
Relanceaste-me e armaste em tímida
como uma tímida que me fica à espreita.
Gostos não se discutem, eu discuto!
Não gosto de homens bonitos!
Gosto de homens curtidos
pelo mar, entre outros factores.
Lésbia (as mulheres são todas umas parvas...) eu sei que gostas de homens bonitos
sobre as ondas...
como tu - disseste-o há pouco e ainda me apontas!...
Agora explico:
Não gosto de homens bonitos, nem de bonitos homens.
Não gosto de homens bonitos.
Gosto de homens curtidos pela fealdade física da vida,
nem apolínea, nem dionisíaca,
mas de ambas.
Os homens feios - é questão de gosto -
têm, em geral, carácter,
uma beleza que se não vê
- Pulchrum est quod visum placet - disse S. Tomás de Aquino-Aristóteles.
Belo é o que me agrada
e me liga nos miolos, aos rins e ao núcleo lá no fundo.
Os homens bonitos podem ser famosos, garanhões e quase belos, mas não têm beleza.
A beleza reside no carácter
que irradia de um homem dito feio e o torna belo, um fim do mundo diário e renovado.
Os homens bonitos vivem em geral dos seus rendimentos, o que lhes não transmite nenhum capital,
são uns capitalistas avant la lettre de antes de depois.
Fazem a barba todos os dias por obrigação ou então depilam as pernas.
Se têm bigode, aparam-no de todas as maneiras e feitios, que é para agradar às mocinhas e às brotoejas,
de todos os feitios e maneiras,
em cima, em baixo, nos esconsos do além.
Se novos são béu-béus.
Se velhos, nem pensar nisso - retratos daguerreotipados, cheios de poeira e de simpática música.
- «Ó fulgor banal da mocidade» - disse Antero, sem exclamação...
Fulgor têm os homens ditos feios, mas com carácter, porque são o sal da terra.
E que a beleza deles fulgure a ponto dos bonitos desejarem ser mulheres,
se forem apenas bonitos, mas gostarem de mulheres.
Diagnóstico:
Homens bonitos - bananas, em geral.
Homens feios, estilo vulgares - espírito, vulgo alma ou um homem de carácter.
O resto é escória que pode incluir homens bonitos e feios.
Se o homem for apolíneo e dionisíaco ao mesmo tempo e for um homem de carácter, então é uma beleza
e eu gosto de uma certa beleza que pode haver nos homens bonitos,
quando os vejo à distância no écran do cinema.
Gostava aos 15 anos do Ramon Novarro - um bonito homem! -
por causa do Ben-Hur, dos Mares do Sul e do Último Pagão,
mas o Charlton Heston substitui-o com vantagem
passados 40 anos, que foram uma vida de xeque-mate com os tais homens bonitos.
Como homem bonito, gosto do Humphrey Bogart, da Anna Magnani, do Anthony Quinn, da Senhora Maria da Ribeira e do Chico d'Alfama.
Como homem sem carácter... eles são tantos... mijo!
O resto - repito, apenas para te fazer a vontade, ó Lésbia, não sejas parva! -
é o fulgor das ondas quando rebentam
e surgem das ondas em ruína homens bonitos,
homens do mar em tempos de naufrágio,
como o João Capelo Gaivota, irmão do Fernão.
Tu dizes, Lésbia, que eu sou muito directo e que sim e sopas...
Sou, graças a Deus, incapaz de flics-flics, vulgo intrujice.
Sou o que sou. Ecce Poeta!
Basta comparar o meu retrato aos vinte anos
com o que o espelho me retrata diário aos sessenta,
como a minha mulher-a-dias quando me chama o seu boneco velho...
mas tu, Lésbia, conheces-me... é tudo fita...
e não me olhes assim com esses maviosos olhos de trocista que levas uma lambada
e eu já disse, pronto, não gosto de homens bonitos!

19/6/76

Ruy Cinatti (n. 1915 - m. 1986), in 56 Poemas (1981). «A poesia de Ruy Cinatti, precisamente por ser essencialmente evocativa, por apontar em vez de descrever e, além disso, por lançar mão do natural nomadismo do homem para transpor uma realidade que infinitamente o transcende, permite diversas zonas de interpretação, todas elas verdadeiras, pelo menos em parte. Estamos em dar razão a Carlos Branco, quando afirma que a mensagem de Ruy Cinatti só se surpreende integralmente vista com uma perspectiva católica. / Mesmo quando fixa momentos transitórios, não é difícil notar por trás dos poemas a concepção cristã do homem (...). / Também é possível que se tenha vindo a verificar uma cisão entre a vida e a obra levemente crescente. Mas, nessa altura, nunca o poeta deixa de reconhecer e de se subordinar a "uma ordem mais alta do que a atingível pela exclusiva intuição poética". Essa subordinação é-nos dada por um sentido de fidelidade que supera a instabilidade emocional, criadora de Poesia: "Somos fiéis ao que queremos - E Deus ouve-nos por certo". / A arte de Ruy Cinatti tem-se tornado cada vez mais indirecta, cada vez mais alusiva, e daí o desaparecimento ou a obnubilação sofridos por concepções anteriormente enunciadas de uma forma mais explícita» (Ruy Belo, in Apontamentos sobre o nomadismo de Ruy Cinatti). «Um poeta de Fé, como Ruy Cinatti se afirma na sua poesia, é um poeta que acredita na realidade dos símbolos. (...) Por isso, porque acredita na realidade dos símbolos, Ruy Cinatti não necessita de os criar ou recriar na sua escrita. A realidade fala-lhe dos símbolos. A realidade é símbolo» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos).

terça-feira, 13 de maio de 2014

#21


Depois de uma digressão com os Tortoise e os Labradford, os Ui, formados pelo baixista Sasha Frere-Jones e pelo baterista Clem Waldmann, almejaram alguma visibilidade dentro do universo post-rock. Estávamos em meados da década de 1990, músicos oriundos de escolas distintas uniam esforços para revitalizar tanto o jazz como o rock. O post-rock resulta disso mesmo, apostando essencialmente em instrumentais onde riffs minimalistas, típicos da música rock, tabelam improvisos com derivações pela música electrónica. A singularidade dos Ui apoia-se na secção rítmica, colocando diversas vezes dois baixos em diálogo sobre uma cadência assegurada pela percussão. Ao segundo álbum, este Lifelike (1998), a música do trio expandiu-se noutras direcções. Alguns temas surgem coloridos por sopros, samples, guitarras que evocam tanto o estro melancólico de Vini Reilly (The Durutti Column) como a urgência punk dos finais da década de 1970. Doze temas onde a voz que se escuta é a voz dos instrumentos, ora gerando paisagens de um groove sedutor, ora remetendo para orientações mais abstractas com linhas melódicas intimistas. Alguns temas, apesar de curtos (o mais extenso não chega a durar cinco minutos), reflectem ritmos destoantes, solo sobre o qual rebentam imagens capazes de embaraçar leituras unívocas e sólidas. Na sua aparente homogeneidade, esta é uma música sincrética, multicolorida, contrastante. A título de exemplo, escute-se Drive Until he Sleeps

INVESTIMENTO ESTRATÉGICO


MEMORANDO


Senhor:
Se o meu tempo é de campos de concentração,
De bombas de hidrogénio e de maldição.
E de cruéis tiranos
Com pêlos nos ouvidos e no coração,
Que ando eu a fazer aqui,
Funâmbulo de angústia
Com miragens de esperança?
Pois que não há lugar neste universo imundo
Para bucólicos prados de trigo e calhandras,
E foguetes festivos,
E chefes que eu eleja e destitua,
Corta lá no canhenho do destino
A humana condição de ser poeta!
Sinto em nome de todos que se calam
As vergastadas de absurdo e medo
Que consentes na alma dos mortais.
E como nada posso, senão isto:
Protestar, protestar,
Desta maneira inútil que tu vês
E o rebanho pressente,
Risca na ardósia dos obreiros laicos,
Que procuram sentido à tua obra,
O sagrado condão de dedilhar
Nas grades da gaiola que fizeste
Quando eras rapaz
E mal sonhavas quanto mal fazias.
Jovem deus criador,
Assombrado de cada imperfeição
Do barro da olaria,
Ias doirando esses desenganos
Com milagres gratuitos e originais.
Saía-te das mãos, cercada de incertezas,
A redonda amargura deste mundo;
Que remédio senão alguns harpistas
A entoar harmonias ideais!
Mas o tempo passou. Envelheceste.
Morreu-te a fantasia.
E queres a repressão dos que te negam
Ou te corrigem.
Eu e outros, perdidos neste inferno
Onde nenhum Plutão nos ouve ou nos tolera,
Somos a consciência atormentada
Pelos anjos-da-guarda que te servem,
A trair os irmãos, tão condenados
Como eles.
Por caridade, pois,
E divina lisura,
Apaga lá no céu
A luz que representa
A vida destas pobres criaturas
Cuja missão traíste, por decrepitude.
Bardos da luz que punham nos teus olhos
E da graça do mágico universo
Que generosamente
Como um pomo irreal viam na tua mão,
Rangem agora os dentes de revolta
A falar de injustiça,
De igualdade
E de amor,
Coisas que já nem tu
Sabes que valores são.
Risca! Risca no livro etéreo
O infeliz e belo
Nome de Orfeu!

Coimbra, 16 de Dezembro de 1952.

Miguel Torga (n. 1907 - m. 1995), in Diário VI (1953). «A obra de Miguel Torga procura banhar num ambiente de mitos agrários e pastoris que da sua origem aldeã transmontana remontam aos símbolos bíblicos. A semente, a seiva, a colheita, a água, a terra, o vento, o pão, o parto, o pastoreio, Adão e Eva, por exemplo, recorrem nos seus livros como se fossem, não ideias, mas imagens irradiantes. (...) A sua poesia exprime os mesmos mitos agrário-pastoris, mas de um modo simultaneamente mais genérico e mais pessoalista, e é percorrida por apóstrofes e reptos ao Criador do «homem de carne e osso», do «arbusto de dois pés», Adão universal, multiplicado e sempre redivivo pela procriação apesar da morte, ascendendo titanicamente desde a lama para um sentido terreno da vida, através de todos os erros e egoísmos que o tornam inimigo e explorador de si próprio. Essa poesia reflecte ainda as apreensões, esperanças e angústias do seu tempo, dentro do seu «titanismo» individualista e, no fundo, religioso de visão, e a sua pureza e originalidade rítmicas, a coerência orgânica das suas imagens impõem-se. (...) Algumas das mais densas poesias de Torga estão contidas no Diário (16 vols., alguns refundidos. 1941-93), que pode ser considerado uma continuação, sob outra forma, do romance de fundo autobiográfico A Criação do Mundo» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

domingo, 11 de maio de 2014

QUE O FOGO RECORDE OS NOSSOS NOMES

Adeus Gabriel Garcia Marquez, já ninguém te escreverá.
Antonio Orihuela


Uma breve nota introdutória põe-nos ao corrente das motivações para o poema: «surge de uma repentina doença que pode a qualquer momento acabar com a vida do poeta. No hospital, os médicos informam-no que viver ou morrer será decidido numa longa noite. Nessa noite é escrito Que o Fogo Recorde os Nossos Nomes, uma elegia onde o autor percorre a sua vida saudando com um adeus os seus entes queridos» (p. 5). Contextualização desnecessária para a leitura, aceita-se tendo em conta que o longo poema traduzido e publicado por manuel a. domingos na sua Medula se insere no conjunto de uma obra caudalosa que Antonio Orihuela (n. 1965) vem produzindo desde meados da década de 1990. À margem de discursos reinantes e oratórias comuns, essa obra surge de uma propensão inata para o intervencionismo libertário, em diálogo com toda uma tradição que é, paradoxalmente, a de um confronto ininterrupto com a própria tradição. Ou seja, esta poesia alimenta-se de um estado de crise sem descontinuidade, o seu paradigma é o de uma relação crítica com o mundo alicerçada na liberdade de pensamento e, por consequência, na liberdade de expressão desse mesmo pensamento. Não obstante, encontramos neste poema uma contaminação emocional que advém da ameaça imposta pela doença. Sabendo-se para a morte, o poeta constrói um poema onde a despedida de lugares, influências, no sentido de referências, coordenadas políticas, sentimentais, literárias, artísticas, tecem um mapa emocional que é, feitas as contas, a substância caótica do próprio sujeito poético. Mais do que confissão impõe-se o conceito de catarse, utilizado há muito por Aristóteles para definir o objecto da tragédia. Dizia o estagirita que esta purificava, oferecendo-lhe um significado de tratamento que, não salvando da morte o espírito ameaçado, pelo menos alivia a dor cuja origem pode encontrar feridas diversas. Em Orihuela, a catarse reproduz uma narrativa evocatória do espírito beatnik, atirando para o ar, sem lógica aparente, inúmeras referências das quais o poeta se despede com uma raiva que permite antever na sombra dos versos tanto uma certa nostalgia como a desesperança provocada por um presente falhado: «Adeus Diggers que destes de comer ao faminto / pelo simples facto de ser assim que se deve fazer. / Adeus Yippies que quisestes abolir o dinheiro / e a polícia. / Adeus hippies, paz, amor e moca, / o vento levou-os, mas para onde, para onde? / (…) Adeus USA, esfomeado esgoto do mundo» (pp. 14-15). Apesar da truncagem, repare-se no fio que conduz as “boas acções” dos movimentos de contra-cultura norte-americanos, algures perdidas no tempo, levadas pelo vento sabe-se lá para onde, a uma definição sinistra do palco onde tiveram lugar. Por outro lado, sem querer parecer rebuscado, note-se igualmente como esse “esgoto” pode também aqui ser entendido como a doença que ameaça um outro doente, o “mundo”. Orihuela despede-se de si próprio ao despedir-se de tudo quanto o tocou, mas coloca-se, talvez involuntariamente, no papel de um microrganismo que representa o definhamento do mundo: «Adeus necessidade, propriedade, escravidão, moral, / poder, estatuto, ambição, autoridade, / conceitos e deveres absurdos que nunca foram novos. / Adeus ética, liberdade, potência, / adeus a ver tudo ao contrário, / adeus a colher pela raiz aquilo que ninguém ousa ver, / fio vermelho, razões, safanões» (p. 26). Em suma: «Adeus burguesia, lixo, / nunca mais me dirás como viver a minha vida» (p. 30). Ora, ainda que, como pretende o poeta, possamos entender ser este «um poema épico e elegíaco», não podemos deixar de sublinhar a sua vertente política, nessas coordenadas mais nobres da intervenção que são as de uma expurgação sem constrangimentos partidários nem segundas intenções evangelizadoras. Que o Fogo Recorde os Nossos Nomes (Abril de 2013) é um excelente poema que merece ser lido atentamente. Dele se fizeram 100 singelos exemplares, sendo certo que, passado um ano sobre a publicação, muitos ainda se encontram disponíveis. Isto, por si mesmo, já diz muito do tempo que actualmente atravessamos.

FOI ISTO QUE PROVOCOU A CRISE DO EURO

A retórica da coligação PPD-PSD/CDS-PP às europeias não podia ser mais trapaceira: os portugueses não vão punir quem foi parte da solução, mas sim quem causou o problema. Ou seja, para Paulo Rangel & Cª Lda Cavaco Silva nunca existiu, Durão Barroso nunca existiu, Santana Lopes nunca existiu e a crise financeira internacional é uma ficção longínqua. Tudo começou em 2005 com a chegada de Sócrates ao poder, andava Paulo Rangel a dar lustro aos botões de punho na Cuatrecasas, Gonçalves Pereira & Associados. Azar dos azares, vem agora um ex-conselheiro de Barroso pôr os pontos nos iii. O que diz Philippe Legrain sobre a origem da crise?

…o que começou por ser uma crise bancária que deveria ter unido a Europa nos esforços para limitar os bancos, acabou por se transformar numa crise da dívida que dividiu a Europa entre países credores e países devedores. E em que as instituições europeias funcionaram como instrumentos para os credores imporem a sua vontade aos devedores. Podemos vê-lo claramente em Portugal: a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado. Isso tornou-se claro quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal.

Mas, mas, mas senhor Legrain não tivemos uma saída limpa? O pior não passou já? E o Sócrates, esse ladrão? O Dr. Rangel anda para aí a dizer que o pior já passou.

As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa.

Enfim, o resto vem aqui e merece ser lido. Muito mais do que ouvir os discursos primários de um advogado com botões de punho que, queira Deus, ainda há-de, como outros antes dele, vir a parar no sector bancário.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

POEMA


A simplicidade é a casa dos últimos
e dos raros, o espaço que mais
demora a construir. As suas
paredes são de silêncio, a sua
matéria a luz que, no seu e no
nosso devir, une e destrói a vida, a
casa que se completa. À medida
que se vive, e os dias vão acumulando
a porosidade e o lodo, a casa é o
espaço não habitado do fogo a que
sempre regressamos com a força
da labareda inicial. E no fim, quando
se conclui, o seu lugar é sombra, abdicação
e ausência, e é preciso fechar os olhos
com força para ver que existe.

Ricardo Marques (n. 1983), in Eudaimonia (2012). Há na poesia de Ricardo Marques uma busca da simplicidade que, por vezes, não evita o sentimentalismo. Em alguns poemas de verso mais largo do que é comum, uma linguagem de pendor clássico cruza-se com um sentir da actualidade onde percebemos o esforço da compreensão do mundo que transcende as delimitações impostas pela vida quotidiana. O próprio título Eudaimonia sustenta uma atenção ao belo enquanto aprendizagem da vida feliz, apontando reflexões mais ou menos problemáticas em versos atravessados tanto pela luz da espiritualidade como pelas sombras da existência (aqui marcada pela noção de efemeridade do corpo). Gaivotas e árvores são metonímias de espaços etéreos e terrestres entre os quais a vida se processa. A Grécia antiga surge, deste modo, como uma espécie de lugar imaginário compreensível a partir do contraste que é possível desenhar entre esse ideal e a realidade. De um mesmo modo, o amor afirma-se pela ausência, a transcendência pelo silêncio, o mundo pelo tempo. Poemas como Friday Night at Last, Gnossienne ou Portugal (MMXI) talvez sejam excessivos, banalizando a intimidade que outros, mais cativantes, apenas insinuam. Ainda assim, Eudaimonia deixa boas referências.

«Como é que eu podia achar que pertencia a uma coisa onde a podridão e a desesperança absoluta sufocavam a alma, matavam o cérebro?»


Av. Marechal Gomes da Costa, Lisboa. 2012.

Provavelmente, deixar-me cair fora simplesmente mais fácil para mim do que revoltar-me, ser contra, a verdade é assim tão simples. Muitas vezes abdicamos, desistimos muitas vezes, só por comodidade. Mas pelo preço da vida, de toda a existência, da qual eu não podia saber qual era, no fundo, o valor e qual virá talvez ainda a ser uma vez mais, conquanto eu saiba que é absurdo congeminar nisso, porque no fim dessa congeminação é o absurdo que triunfa, a absoluta inutilidade, que daí se conclui

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Thomas Bernhard

THE COWBOYS (1972)


À semelhança de The Spikes Gang (1974), outro western da década de 1970 marcado pela passagem de testemunho é The Cowboys (1972). Aqui, ao contrário do que tantas vezes acontece, estamos verdadeiramente na presença de um filme de cowboys. Mark Rydell (n. 1929), realizador competentíssimo nomeado para um Oscar por On Golden Pond/A Casa do Lago (1981), oferece a John Wayne uma derradeira possibilidade de brilhar. O rancheiro Wil Andersen retoma muitas das características do magnífico Thomas Dunson de Red River/O Rio Vermelho (1948), nomeadamente traços de carácter cuja inflexibilidade perdura no tempo. Wayne está mais velho, assim como a sua personagem, embora ambos mantenham o orgulho intacto, uma coragem que se mistura com teimosia, persistência, obstinação e, sobretudo, sobre todos, uma tremenda vontade de vencer. Rydell sublinha esses traços, acrescentando-lhes marcas que farão deste rancheiro, mais do que um chefe, um verdadeiro pai.
Baseado num controverso romance de William Dale Jennings, conhecido no universo das reivindicações LGBT como fundador da Mattachine Society, o filme sofreu algumas adaptações no argumento que, de certo modo, expurgaram eventuais alusões homossexuais. O que nos é dado a ver é um grupo de adolescentes iniciando-se na vida adulta. A título de curiosidade, refira-se que muitos dos miúdos que fazem parte do elenco não tiveram outras experiências de representação dignas de nota. As excepções foram Norman Howell (iremos vê-lo em Dances with Wolves/Danças com Lobos) e Robert Carradine (rebuscado por Tarantino para o seu Django), assim como A Martinez, o bastardo rebelde do grupo. Entre ambos, dois pesos pesados: o já referido John Wayne e Roscoe Lee Browne (1925-2007), importante actor negro, com uma voz poderosa, que oferece a The Cowboys um equilíbrio e uma dignidade que teriam sido difíceis de garantir com um elenco tão jovem e inexperiente. 
É verdade que quando foi rodado este filme pouco teria a acrescentar à história de um género fundador do cinema norte-americano, limitação que o talentoso Mark Rydell soube ultrapassar com um elenco exigente e picante (são conhecidas as divergências políticas entre os intervenientes), sequências onde as manadas de gado que atravessam a pradaria evocam tempos perdidos e emoções recalcadas. Wil Andersen é, pois, um velho cowboy de 60 anos que tem de percorrer cerca de 400 milhas de território hostil com mais de 1500 cabeças de gado. A febre do ouro usurpou-lhe mão-de-obra, vendo-se agora obrigado a contratar adolescentes para a execução da épica tarefa. O ofício é duro, exige solidez e método. Andersen, que perdera dois filhos, acabará por adoptar, mais do que contratar, estes jovens. O filme desenvolve-se, deste modo, em dois planos paralelos: o da reconquista de uma família por parte do velho cowboy e o da iniciação na vida adulta por parte dos jovens. 
Errado, porém, julgar ter sido este um western infantil, indeciso perante públicos mais ou menos experientes. Na realidade, esta é uma obra em diálogo profícuo com o passado, com a própria história do cinema, sendo imensas as alusões, algumas as citações, diversas as referências. E há um condimento que a enriquece. A personagem interpretada por John Wayne acabará por ser assassinada, colocando-se ali ponto final a uma geração que vislumbrará nos jovens recrutados um futuro promissor. Já agora, deve-se esta trágica ponte entre passado e futuro a um outro grande actor que tivemos oportunidade de rever, recentemente, ao mais alto nível. Refiro-me a Bruce Dern (o velho Woody Grant do belíssimo Nebraska), elemento maligno em The Cowboys cujo nome é a sugestiva alcunha de Long Hair.
Ora, toda esta construção narrativa apela não só a um imaginário cinematográfico concreto como desbrava terreno para futuras e abstractas (re)criações. Mark Rydell filma com agradável classicismo os seus cowboys, enquadra-os num contexto específico onde o drama do tempo, da passagem do tempo, do crescimento e do envelhecimento, no fundo o drama do desenvolvimento da personalidade, se evidencia fora das banais transfigurações de conflitos geracionais, exercendo-se antes a partir de um palco onde os estádios e as etapas do desenvolvimento reflectem, também, o amadurecimento de uma arte. Daí que este filme possa ser igualmente interpretado como homenagem ao western enquanto género, uma homenagem matizada de vitalidade que olha para o passado com espanto, não se deixa intimidar, segue o seu natural percurso - já não na sombra das influências, antes enriquecida pela sua assimilação.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

INFANTILISMO 2.0


Também eu sou tentado a pensar que é degradante viver num país governado por gente desta, mas depois contenho-me. São males do mundo. Entretanto, convém lembrar: 46 pessoas assassinadas, à moda medieval, em Odessa não fazem notícia (aqui). Passa tudo despercebido, mesmo tendo sido ali ao lado. Nos EUA uma selfie com suicida em pano de fundo (aqui). Na Nigéria, sequestram-se 200 raparigas. Parecendo que não, está tudo ligado (aqui). Talvez seja isto o tal mundo pós-humano em tempos anunciado. Pós-humano ou simplesmente humano, é mais que bárbaro. É um mundo onde a insensibilidade para com a barbárie ganha terreno, deixando todos num estado de infantilismo insuportável.

INFANTILISMO


É o maior desastre da democracia portuguesa, apenas secundado por quem, votando nele, o manteve no poder como Primeiro-ministro e Presidente da República. Tudo é péssimo em Cavaco. Mais uma vez se comprova: aqui.

terça-feira, 6 de maio de 2014

[Ando um pouco acima do chão]


Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

Daniel Faria (n. 1971 - m. 1999), in Explicação das Árvores e de Outros Animais (1998). «A morte prematura do Autor, aos 28 anos, interrompeu o curso de uma poesia sobre cuja evolução é impossível especular, sendo certo que muito prometia ainda, face à extrema qualidade do que nos deixou. Trata-se de uma poesia "imensamente complexa" (Guerreiro, 2001) e a sua leitura é um processo continuamente em aberto e que levanta inúmeras dificuldades. (...) Um primeiro aspecto a salientar consiste na forte lógica interna dos livros do Autor, os quais não podem ser reduzidos a um mero acumulado de poemas alinhados ao sabor de quaisquer afinidades mais ou menos superficiais. (...) A obra de Daniel Faria, portanto, é como que uma estrutura arquitectónica, muito tensa, onde há um travejamento constituído por elementos modulares com função nuclear que se vão repetindo e desdobrando a partir do estabelecimento de associações que amplificam o seu sentido. (...) Encontramos na opulência das imagens e na rede metafórica, no tipo de construção poemática, com a presença de elementos que se vão repetindo ao longo dos textos, mas também no ritmo e por vezes na própria selecção lexical, afinidades com a poesia de Herberto Helder, por cuja obra Daniel Faria terá sentido uma profunda e não escondida admiração» (José Ricardo Nunes, in 9 Poetas Para o Século XXI).

segunda-feira, 5 de maio de 2014

#20


Okinawa é uma província japonesa, outrora ocupada pelos americanos durante 27 anos. O músico Takashi Hirayasu tem aí as suas raízes, facto que não o impediu de conduzir a música tradicional da sua região (min'yo) ao encontro de linguagens ocidentais. Com importantes colaborações no currículo, fundadas num conceito de world music onde a tradição vai sendo constantemente construída, Takashi Hirayasu canta e explora múltiplos instrumentos onde a multiculturalidade se revela motivo, meio e consequência. A colaboração com o guitarrista norte-americano Bob Brozman, iniciada em 2000 com o álbum Jin Jin/Firefly, tem, deste modo, um propósito concreto de alargar horizontes, reunindo elementos provenientes de formas de sentir e de estar diferentes. Sem negar a tradição, sublinhada na dedicatória do primeiro tema a Rinsho Kadekaru, nome maior da música tradicional de Okinawa, Hirayasu & Brozman percorrem ritmos e melodias que vão do blues ao folclore mexicano (David Hildago, dos Los Lobos, é um dos músicos convidados), deste à música havaiana, passando inclusive por reminiscências da música cigana do leste europeu. No tema tradicional que encerra Nankuru Naisa (2001), Takashi Hirayasu toca o sanshin japonês (uma espécie de banjo de três cordas) e uma guitarra folk tipicamente ocidental, enquanto evoca num belíssimo poema a paisagem de Okinawa e as limitações que se impõem ao artista que pretenda exprimi-la. Em certo sentido, este disco resulta dessas limitações. 

OS NOSSOS NADAS


Por vezes, com a brusquidão com que um livro
é interrompido, as nossas vidas
são rubricadas pelos pequenos nadas,

decalcados do que fica nos espelhos
à hora em que as rosas
empurram o ar,
e o corpo, longínquo,
entoa o repertório da morte.

Por eles somos nivelados
mais do que pelo prazer e a sorte.
Nada nos salva
desses naufrágios de cinzas,

nada é a poesia,
prelúdio de outras ruínas
nunca afirmadas.
O que é nosso
arduamente conquistado -
sonhos ou esperança -
perece nesses momentos.

Não tenhas ilusões,
nada nos salva,
nem de nós mesmos.

Jorge Gomes Miranda (n. 1965), in Postos de Escuta (2003). «A poesia de Gomes Miranda brota de uma saudável usualidade (o que não quer dizer que possa adivinhar-se que sempre permanecerá assim) da vida de todos os dias e da prática de todos aqueles que têm de fazer da existência o equilíbrio, ora conseguido ora instável, para sobreviver. E isto sem qualquer espírito de confidência, antes relatando esse ofício de sobre-vivência (de além-vivência) em versos ateados de um empenho: o de recolocarem a poesia como linguagem do equilíbrio (do decorum) sem esquecimento de todas as complexidades psíquicas e históricas do homem contemporâneo e sem outros efeitos senão os do conseguido transvasamento das imagens e das regras causadoras da beleza. Pois que, de novo, se não teme falar de poemas que demandam a "perfeição", sem que tal signifique já esses neo-espartilhos dos epigonismos metrificantes (...). A simplicidade e, porque não, a humildade em que assentam deliberadamente estes versos não se repercute na formação da sua processualidade elaborativa. Há, sem dúvida, uma pacificação linguística deliberada, mas não há qualquer fuga à consciência do poema como busca extremada de encadeamentos e pulsões. Os poemas não querem ser a simplicidade apenas, querem declarar articuladamente que a poesia não necessita da complexidade como um valor em si mesmo, o qual pretenda sobrepor-se à vontade de tecer vocábulos, frases, conceitos, modos de crescimento do sentido. Como Gomes Miranda, quase ocultadamente, parece estar a referir quando regressa a entendimentos da poesia onde o desejo da beleza e a vontade do apelo retornam» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre).

RETROGUARDISTA


Joan Brossa, Poemes Visuals, Edicions 62, Janeiro 2001 (1ª edição 1975)

Sempre digo que não sou 'vanguardista'. Sou do meu tempo. O que acontece é que entre tanto 'retroguardista' ser do seu tempo é ser 'vanguardista'. A única forma de vencer a tradição é continuá-la, não repeti-la. Porque um facto é um saco vazio.
Joan Brossa, citado por Joaquim Manuel Magalhães a partir de uma referência de Jorge Riechman.

domingo, 4 de maio de 2014

RETOMA


Ontem foi um fartote de riso a ver O Governo Sombra e O Eixo do Mal. Não é difícil fazer humor hoje em dia, difícil é superar a tragicomédia quotidiana da nação. Mas desenganem-se os que vêem nas estatísticas um barómetro da realidade, só provam nada terem aprendido sobre a mesma. A realidade é isto: no primeiro dia soalheiro do ano, os shoppings enxeram-se de gente. As praias idem. Hoje vamos repetir a dose. A fazer fé na notícia ao alto, acreditamos que a família Silva já possa viver um bocadinho mais acima das suas possibilidades. Poderá passar o dia da mãe na praia ou no shopping, como a realidade portuguesa, aproveitando o sol do consumo, as marés de ronha. E o Governo poderá prosseguir com a sua caminhada para uma saída limpinha, limpinha, deixando para trás promessas de que já ninguém se lembra, uma austeridade que ninguém recordará, porque o mundo é belo e a vida muito mais, o desemprego não existe, a miséria é uma miragem, a economia está saudável, os mercados exultantes. Clara Ferreira Alves, num acesso oracular, previa ontem que os saqueadores sairiam limpos e como heróis desta nossa sina. Adoro profetas, só adivinham o óbvio. Até porque o Natal é em Maio. Imagem  respigada aqui.

sábado, 3 de maio de 2014

#19


Por detrás dos Sigmatropic está o músico grego Akis Boyatzis. Pouco sei sobre a banda, e dificilmente saberia alguma coisa não fosse este Sixteen Haiku & Other Stories (2003). O trabalho de Boyatzis consistiu em musicar poemas do grande poeta grego Giórgos Seferis (ou, se preferirem George Seferis). Para o efeito, convidou uma paleta matizada de vozes onde encontramos nomes mais ou menos familiares. Entre os mais familiares, Robert Wyatt, Lætitia Sadier (Stereolab), Carla Torgerson (The Walkabouts) – responsável por parte das versões inglesas -, Cat Power, Mark Eitzel (American Music Club), Lee Ranaldo (Sonic Youth), James Sclavunos (The Bad Seeds). Mas há mais, muitos mais. A música dos Sigmatropic, aqui alicerçada nas palavras de um poeta riquíssimo e confinada pelas diversas colaborações, mantém ao longo de 22 temas uma agradável consistência. Resvalando, por vezes, para leitos mais populares, mantém uma certa distância de retóricas oportunistamente emotivas. Recorre a tantos instrumentos quantas são as vozes, logrando paisagens que ora intrigam o ouvinte, ora o transportam para ambientes intimistas que estendem os ritmos para extrovertidos apontamentos de ressonância trip-hop. São temas geralmente curtos, mas intensos, dos quais pode ser exemplo este This Human Body que conta com a participação de Howe Gelb dos Giant Sand.

MASSACRE DE ODESSA

Depois de ler a notícia no Cinco Dias, procuro notícias sobre o assunto. O Público enquadra o tema desta forma: 

Um grupo de pró-russos com capacetes, armas de fogo, matracas, correntes e explosivos atacou esta sexta-feira uma manifestação pró-Kiev em Odessa — cerca de 1500 pessoas, a maior parte dos quais adeptos de clubes de futebol locais e de Kharkov, diz a AFP. Mas os manifestantes responderam violentamente e o edifício onde se barricaram os pró-russos foi incendiado. Segundo os números divulgados pelo Ministério do Interior ucraniano, morreram 35 pessoas, algumas intoxicadas pelo fumo e outras por se terem atirado da janela do prédio.

As fotografias seleccionadas mostram os tais pró-russos com armas de fogo, arremessando pedras, bloqueando estradas com carros blindados. É o que as legendas indicam. No entanto, os 35 mortos são, segundo a nomenclatura do Público, pró-russos. Sobre os assassinos, na realidade adeptos de clubes de futebol, que queimaram vivas 35 pessoas, nada. Nem uma foto. Estranhos critérios jornalísticos. O terror da guerra, até agora iminente, começou definitivamente. A Europa que se prepare, vêm aí tempos catastróficos.

RUI MÁRIO GONÇALVES (1934-2014)


A capacidade criativa e crítica, a sensibilidade exercitada no empenho expressivo, o critério estético, o sentido civilizacional, tudo se conjuga na lucidez do presente que reentende o passado. A reavaliação do património cultural é necessária para os actos civilizacionais. As tradições da expressão plástica portuguesa são agradavelmente surpreendentes para quem souber aproximar-se dos seus objectos com simpatia e informação. Não foram as tradições artísticas portuguesas que dificultaram a adesão à modernidade, mas o mau entendimento que se tem tido delas e a escassa observação das obras. Estas ensinam a olhar, umas através das outras. É o melhor método. é o método dos próprios artistas.

Rui Mário Gonçalves, in A Arte Portuguesa do Século XX, Círculo de Leitores, Dezembro de 1998, p. 12.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

ELEGIA (Saudade)


Hoje é um dia de perfeito verão. Já nele vejo,
com a dor de não querer ver, coisas de outono
quedas e melancolias, preparações do fim.
É por vezes em esplendor que as durações terminam
- crepúsculos, vindimas e bem-aventuranças.
Mas hoje ainda é julho e dia de verão
não queria ver a água tão limpa deste tanque
tocada pelas folhas que a vide já perdeu.
Não queria ver ainda, mas a alma mesmo cega
por distracções diurnas e brilhos mensageiros
não deixa de guardar em cofre o que não viu
para um momento exacto de silêncio e solidão.

Hoje é dia de julho mas são coisas de outubro
que já nele vaticinam melancolia e fim.
Não queria ver ainda este voo de andorinhas
caindo para sul - elas são chamadas a desaparecer.
Também este sossego no pátio das traseiras
ainda não o queria ver - aí já morrem pétalas
dos vasos das hortênsias. Frutos não colhidos
apodrecem pelo chão - ameixas de julho
lançadas a novembro. E tu, com a beleza
que o verão concede ao corpo: não queria ver ainda
essa expressão furtiva de quem se desengana
e entrega ao desamor. E no entanto é isso:
já cedo anoitece em províncias do teu rosto.

Hoje é dia de verão. Pudesse eu percebê-lo
sem os declínios e as forças sombreantes
antes nesse esplendor em que as durações culminam
- crepúsculos, vindimas e bem-aventuranças.
Oh, deixemos a tristeza desta lúcida saudade
e vamos para o sol e os jardins cheios de gente
louvemos as bebidas tão frescas e os risos
o rumor da aragem nas tílias e nas bétulas
e os cortinados leves arfando nas janelas.
As raparigas brilham e os rapazes são de sempre
no perfeito verão do seu dia de calor.
Que importa reparar que a hora já rodou
e o meu corpo lança uma sombra sobre o teu?

Carlos Poças Falcão (n. 1951), in A Nuvem (2000). «Há muito que a poesia de Carlos Poças Falcão procura uma difícil, e por vezes quase mística, simplicidade. Não há, claro, nada de pejorativo nesta asserção; simplicidade equivale aqui a uma extrema tensão verbal, a uma recusa frontal do acessório, de «truques» retóricos que são totalmente alheios ao autor de O Invisível Simples (título, aliás, bastante sintomático da poética e da dicção que caracterizam esta escrita)» (Manuel de Freitas, Expresso, 23 de Fevereiro de 2008). «(...) Estamos perante alguém que domina o léxico e a sintaxe dos seus sentimentos de um modo suficientemente vigoroso para que a vontade de dizer possa não se sobrepor à forma de dizer ou para que a organização formal se deixe tornar num exercício de retórica opaca e oca. (...) Construção e aparição: esta dualidade ritual enumera o mistério e as revelações em que os poemas se movem. E removem a densidade linguística e a densidade do mundo, de um mundo que é vocabular e geológico e astral e consumado em enigmas» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre). A imagem ao alto foi respigada aqui.

DIA DO COLABORADOR

Na ressaca das comemorações, importa repor a verdade: o dia do trabalhador devia passar a chamar-se dia do colaborador. É assim que as empresas tratam quem para elas trabalha, independentemente de ser trabalho ou colaboração o que “os colegas” têm para oferecer. Do ponto de vista do patrão, está claro que é colaboração. Do ponto de vista do empregado, será o que ele desejar. São sempre mais livres de pensar, os empregados. Pena não serem igualmente livres de actuar. O próprio Código do Trabalho devia passar a designar-se Código do Colaborador. Vai trabalhar, vagabundo, canta Chico Buarque. Antes cantasse vai colaborar. É mais fino.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

DIA DO TRABALHADOR

Há dois anos, escrevi isto no Dia do Trabalhador. Hoje seria mais contundente. Entretanto, sugiro as leituras de Uma Apologia dos Ociosos e de O Direito à Preguiça. Aliás, não consigo perceber por que não são estes livros de leitura obrigatória nos sistemas de ensino do mundo civilizado.

O TRABALHO SEGUNDO THOMAS BERNHARD

As pessoas estão, na sua maioria, habituadas ao seu e a qualquer trabalho ou ocupação regular e, quando isso lhes falta, perdem imediatamente o conteúdo da vida e a consciência e não são mais que um estado mórbido de desespero. A cada um acontece o mesmo que aos muitos outros. Pensam que se regeneram, mas na realidade é um vácuo em que se tornam meio malucos. Assim, todos têm nas tardes de sábado as ideias mais malucas e tudo acaba sempre em insatisfação. Começam por mudar de sítio armários e cómodas, mesas e cadeiras e mesmo as próprias camas, escovam os fatos nas varandas, engraxam os sapatos como loucos, as mulheres sobem para os peitoris das janelas e os homens vão para a cave e levantam aí nuvens de pó com os vasculhos. Famílias inteiras acham que têm de fazer arrumações e atiram-se ao recheio das suas casas e remexem-no de uma forma louca e enlouquecem elas próprias. Ou deitam-se e entregam-se aos seus padecimentos, refugiam-se nas suas doenças, que são doenças permanentes, de que se lembram ao acabar o trabalho, nas tardes de sábado. Os médicos conhecem isso, nos sábados à tarde os seus serviços são requeridos mais do que em qualquer outro momento. Com o largar do trabalho, começam a fazer-se sentir as doenças, de repente aparecem as dores, a famosa dor de cabeça de sábado, as palpitações do coração dos sábados à tarde, desmaios, acessos de fúria. Durante toda a semana as doenças são reprimidas, acalmadas pelo trabalho e mesmo por qualquer simples ocupação, mas nas tardes de sábado fazem-se sentir e a pessoa perde imediatamente o equilíbrio. E quando aquele que acaba de trabalhar ao meio-dia se apercebe pouco depois nem que seja só da sua verdadeira situação, que é de qualquer modo sempre uma situação desesperada, seja ele quem for, seja o que for, esteja onde estiver, é forçado a dizer a si próprio que não é senão uma pessoa infeliz, mesmo que afirme o contrário. Os poucos felizes que o sábado não deita abaixo confirmam apenas a regra. No fundo, o sábado é um dia que todos receiam, ainda muito mais que o domingo, pois no sábado todos sabem que têm ainda pela frente o domingo e o domingo é o dia mais terrível, mas ao domingo segue-se a segunda-feira e esta é dia de trabalho, o que torna o domingo suportável. O sábado é temível, o domingo é terrível, a segunda-feira traz o alívio. Qualquer outra afirmação  é malévola e estúpida. No sábado acumula-se a trovoada, no domingo descarrega, na segunda-feira vem a calma. O homem não gosta da liberdade, tudo o mais é mentira, ele não sabe o que fazer com a liberdade, mal se encontra livre ocupa-se com o abrir de guarda-fatos e cómodas, com a ordenação de papéis antigos, procura fotografias, documentos, cartas, vai para o jardim e revolve a terra ou corre em qualquer direcção de uma forma inteiramente absurda e inútil, quaisquer que sejam as condições atmosféricas, e chama a isso passeio.

Thomas Bernhard, in Autobiografia, trad. José A. Palma Caetano, Sistema Solar, Janeiro 2014, pp. 182-184.