As guerras do BE não me interessam para nada, assim como as
guerras do PS não me interessam para nada. O BES só causa espanto a virgens
puras, toda a gente devia saber que a banca portuguesa tem sido um antro de
gatunagem. Só não sabe quem não quer ouvir quem o denúncia, quem o escreve,
quem o investiga, quem anda entretido com as guerras do PS e as guerras do BE.
O que eu gostava de saber, embora não me diga respeito, é quanto o BPI pagou pela
campanha com a melodia do Lou Reed depois de mandar fechar praticamente trinta
balcões. It's a perfect day...
quinta-feira, 17 de julho de 2014
DEBATE PÓS-MODERNO
Manuel Vieira, que não sei quem é, nem isso tem qualquer
relevância, podia ter chamado “estúpido e mesquinho” a este post na respectiva
caixa de comentários. Não o fez, preferindo fazê-lo à distância. Querem os
tempos que correm, com suas redes, elos e ligações, que a distância se encurte.
Por isso, senti necessidade de esclarecer dois pormenores que poderão
escapar a quem, eventualmente, venha a ler o referido post:
1º pormenor: parece-me evidente que o post não é sobre as
medidas anunciadas pelo Governo, sendo incorrecto julgá-lo por aquilo que ele não é. Como todas as medidas adoptados por um
Governo, não considero estas boas nem más em si mesmas (prefiro sempre considerá-las
discutíveis). Mas este não é o meu ponto, é, antes, a pessoa escolhida para dar o
rosto pelas mesmas. A coerência de um “especialista” é tão relevante quanto as
medidas. Estamos tão habituados a que políticos e “especialistas” não
actuem em função do que defendem que nos esquecemos desse valor que é o
princípio de toda a honestidade política: a coerência entre o que se apregoa e o que se faz. Parece-me pertinente descortinar,
na base de acções passadas, se para Joaquim Azevedo é mais importante a
“sustentabilidade” de uma empresa (no caso, uma universidade privada – o que
vai dar ao mesmo na cabeça destes “especialistas”) ou a “sustentabilidade” de
um país, pois podemos estar, mais uma vez, perante um flagrante caso de
HIPOCRISIA. A minha opinião, à partida, e pelo que sei, é que estamos.
2º pormenor: ao referir-me ao irmão de Joaquim Azevedo, tive
o cuidado de referir que “nada disto importa para o caso”. As ressalvas, portanto,
sou eu quem começa por fazê-las. Não é necessário reforçarem a distância entre
as acções de um e do outro. Mas não sou, porém, um falso moralista. A ICAR
está, sem dúvida, repleta deles. Fazem orelhas moucas dos seus próprios podres
para não terem que se confrontar com a desgraça em que caíram. Talvez Joaquim
seja um desses falsos moralistas, talvez não. A dúvida paira no ar. O Correio
da Manhã, sempre ágil nestas matérias, poderá investigar.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
A PALAVRA IMPOSSÍVEL
Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.
Adolfo Casais Monteiro (n. 1908 - m. 1972), in Noite Aberta aos Quatro Ventos (1943). «Se a tonalidade mais constante nesta poesia é traduzida por palavras como bruma, destroços, incertos, vão, gelado, etc., se o prato da balança, afinal, parece pender decididamente para esse lado negativo, a verdade é que o apelo à luz, à vida, às madrugadas, ao sol, surge a espaços em toda a sua obra como um contraponto, ou antes como a outra fase da mesma condição humana incerta e problemática. Também não se encontra em Casais o grau de transposição e reelaboração que permite considerar grande parte da poesia moderna como uma criação absoluta da linguagem, de que serão paradigmas Mallarmé, grande parte da obra de Rimbaud e de que em Portugal só poderemos encontrar fragmentàriamente alguns exemplos nas obras de Sá-Carneiro e de Fernando Pessoa. Em tais poetas, a visão transfiguradora ou o poder visionário eleva-os muito acima das contradições inerentes à realidade humana na sua dimensão temporal. Em oposição a este tipo de poesia, Casais Monteiro é totalmente fiel ao espaço existencial; por outras palavras, a sua poesia é expressão ao nível da sensibilidade e das vivências autênticas, do fluxo da sua consciência. A sua criação nunca transpõe a realidade imanente, respeitando integralmente a virtualidade desse não sei quê, essa totalidade indefinível e sempre futura (ou dilacerantemente passada) que a sua poesia desvenda como indeterminação essencial. É esta redução à existência sentida como fluxo contraditório, vazio, ansiedade, inquietação, incerteza, o que caracteriza mais fundamente a sua poesia» (António Ramos Rosa, in Poesia, Liberdade Livre).
"A SEDE DE CANTAR SEM SABER PORQUÊ"
Não compete à poesia fornecer certezas definitivas, crenças definidas ou ilusórias consolações. O poeta é um destruidor de mitos, a poesia a Fénix que renasce das cinzas. Sem fechar os olhos ao mal, encarando de frente a realidade, o poeta é o mago lúcido que arranca do inferno uma centelha divina. A poesia é, assim, revelação do humano nas suas mais dolorosas contradições e nas suas ânsias mais secretas: é assunção e redenção, imersão no caos e ressurreição de entre os escombros, luz e trevas, morte e vida. A contradição «é a marca distintiva do espírito, o motor do universo, a vida da própria poesia.
António Ramos Rosa sobre Adolfo Casais Monteiro, in Poesia, Liberdade Livre, O Tempo e o Modo, 15/16, Livraria Morais Editora, Lisboa, 1962, p. 72.
ÍNDIO & MESSALINA
Entre o eco da lamentação esganiçada de Cavaco, que há
anos se interroga sobre o que é preciso fazer para que nasçam mais crianças, e as
medidas ontem anunciadas em prol da natalidade, ficou-me pelo meio a rainha
Ginga com seu harém de cinquenta jovens trajados de mulher. Tivesse Alfred
Jarry (1873-1907) conhecimento desta figura, talvez O Supermacho aparecesse com
outra configuração. A obra, de cariz mais satírico do que erótico, surgiu em
1902 (a narrativa passa-se em 1920), mas é de uma actualidade desconcertante. Nela se evocam algumas performances
sexuais absolutamente extraordinárias. Por exemplo, o idiota que Bathybius
conheceu em Bicêtre:
«…um idiota e, além do mais, epiléptico, o qual, durante
toda a vida, que ainda hoje dura, se entregou, por assim dizer
ininterruptamente, à prática de actos sexuais. Mas… solitariamente, o que
explica muita coisa».
Enfim, na Lusitânia de 2014 não escasseiam exemplares congéneres.
Por sua vez, o jovem André Marcueil é da opinião que:
«…não passa de uma brincadeira, não só desposar as trinta
ou as cinquenta filhas virgens do rei Lysius, como também bater o «record» do
Índio «tão celebrado por Teofrasto, Plínio e Ateneu», o qual, conta-nos,
segundo estes autores, Rabelais, «com a ajuda de certa erva, o fazia num só dia
setenta vezes, e mais».
Com ou sem erva, a opinião gerará polémica e carecerá de
prova científica. O bom Marcueil não se fará rogado. Antes, porém, do record do
Índio supermacho ser testado surge na discussão:
«A mulher conhecida na História por ter arrumado num só
dia, mais de vinte e cinco amantes (…)».
Falamos de Messalina. Nestas matérias, a Wikipédia é
sempre de uma utilidade imprescindível: Valéria Messalina, imperatriz-consorte
romana, terceira esposa do imperador Cláudio, terá conspirado contra o marido
(política e sexualmente). A reputação histórica de Messalina é discutível,
podendo ter sido denegrida tacticamente. Mas vale a pena citar:
Dois relatos foram os principais culpados pela má
reputação da imperatriz. Um é a história de uma suposta competição de sexo com
uma prostituta no livro X da "História Natural", de Plínio, o Velho,
que teria durado 24 horas e que Messalina venceu com um placar de 25 parceiros
diferentes. O poeta Juvenal apresenta uma descrição igualmente famosa em sua misógina
sexta sátira de como a imperatriz costumava trabalhar clandestinamente a noite
toda num motel sob o nome de "Loba".
Pouco nos interessa a veracidade dos relatos, os quais
parecem suficientemente atractivos para que sobre eles não deva pesar exigência e rigor científicos.
Um bom mito pode ser mais útil do que centenas de verdades. Assim parece ser
com o Índio de Teofrasto e Messalina, casal de sonho que Pedro Passos Coelho e seu
séquito de especialistas em natalidade só não se lembraram de reproduzir por
falta, lá está, de investimento na investigação científica.
«Porque é que, diz Aristóteles nos seus Problemas, não é propício ao acto sexual ter os pés frios?»
Av. Marechal Gomes da Costa, Lisboa. 2012.
Caída a máscara, afigurou-se de uma absoluta evidência ao Supermacho que, embora possuísse, desde há dois dias, Ellen, totalmente nua, jamais a vira antes, mesmo sem a máscara.
Jamais a teria visto, se ela não tivesse morrido. Os pródigos tornam-se geralmente avaros no preciso momento em que se apercebem de que o seu tesouro se acha delapidado.
O Supermacho não tornaria a ver Ellen, cuja forma regressaria, pelas contracções musculares que precedem a decomposição, àquilo que foi anterior à forma. Nunca se interrogara a si próprio sobre se a amara ou se ela seria bela.
A frase que dera origem a essa prodigiosa aventura representou-se ao seu espírito tal como, personagem voluntariamente boçal e estúpida, ele por capricho a havia proferido:
- O amor é um acto sem importância, uma vez que pode ser feito indefinidamente.
Indefinidamente...
Sim. Havia um fim.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Alfred Jarry.
terça-feira, 15 de julho de 2014
VENHAM A MIM AS CRIANCINHAS
O governo quer incentivar a natalidade. Compreende-se. Depois
de incentivar a emigração e de ir aos bolsos dos idosos, que mais lhe resta?
Resolveu, então, apresentar com pompa justificada um pacote cheio de medidas. E
quer consensos. Para o efeito, destacou Joaquim Azevedo, professor catedrático
da Católica, se bem me lembro irmão de D. Carlos Azevedo, sobre o qual caíram
no esquecimento acusações de assédio sexual (ver aqui, aqui): «no interior da Igreja. D.
Januário Torgal Ferreira partilha do espanto relativamente à pressa com que,
segundo diz, Carlos Azevedo, saiu para o Vaticano». Enfim, nada disto
importa para o caso. Mas convinha esclarecer, porque nunca nada se esclarece
neste país, quem é, de facto, Joaquim Azevedo e quais as suas preocupações
reais com o problema demográfico português. Em 2009, essas preocupações ficaram
expressas em despedimentos e cortes salariais sem explicação (nomeadamente, sobre a gestão danosa que abanou a Católica do Porto - aqui). Nessa altura, as famílias pouco
pesaram nas decisões do eminente catedrático. Sabemos que em Portugal se salta
de cargo para cargo sem que para tal exista justificação curricular, a qual, de
resto, não tem relevância alguma quando está em causa servir as “boas
intenções” de um Governo à deriva. Portanto, quando o especialista Joaquim
Azevedo afirma que “A maioria das empresas não é amiga da natalidade; prejudica
as mulheres, sobretudo em idade fértil, com mecanismos que chegam a raiar o
inimaginável. Por isso as mulheres temem ter um filho, porque isso conduz a uma
penalização no trabalho”, o que quer, de facto, dizer? E como sustenta a afirmação
com o seu exemplo? O que é mais importante para este homem: a “sustentabilidade”
de uma empresa ou a “sustentabilidade” de um país?
[há que saber que o homem é o poema do homem]
homo homini sacra res.
há que saber que o homem é o poema do homem.
há que mascarar o anjo de pintor rupestre
e repetir o homem o homem o homem em todos os murais
há que plantar uma horta por cima dos textos proféticos
há que dar ouvidos aos passarinhos enquanto se tempera a salada
há que lamber os dedos da cria antes que ela escreva uma única palavra.
Catarina Nunes de Almeida (n. 1982), in Marsupial (2014). Estreou-se em livro com Prefloração (2006, Prémio Daniel
Faria e Prémio PEN Club Português para Primeira Obra). Desde então, a poesia de
Catarina Nunes de Almeida tem vindo a consolidar a inscrição num território de fusão
a que não serão alheios estudos académicos na vertente do orientalismo. Poesia
metafórica por excelência, porém de uma clareza discursiva na linha acmeísta,
dotada de recursos rítmicos onde encontramos amiúde divertimentos com palavras
homófonas e um labor imagético assaz cativante. Ao mesmo tempo erótica e
contemplativa, a poesia de Catarina Nunes de Almeida gera pontes entre os conceitos,
ergue-se a partir do gérmen onde humano e natural, homem e mulher, mãe e filho
se fundem e se encontram. Da superfície para o interior, esta poesia
movimenta-se através das raízes até à semente que gera o fruto. Há nestas
ligações de índole filosófica uma estética que não abdica, porém, da ética
subjacente aos afectos e ao amor enquanto princípios fundadores da existência.
Mas há igualmente a manifestação de uma crença na poesia enquanto expressão do
essencial, ou seja, dos fundamentos sem os quais a vida boa, que é o mesmo que dizer
bela, não se afigura possível.
MUNDO
Na página de um matutino, a 15 de Julho de 2014: Portugal
está na rota do tráfico de menores nigerianas forçadas a prostituírem-se pela
Europa fora, hospitais atendem cada vez mais grávidas com fome, perdas
potenciais dos swaps aumentaram 100 milhões em quatro meses, mulher obrigada a
partilhar casa com o marido que baleou, Israel aceita proposta de cessar-fogo
avançada pelo Egipto, espinhas de bacalhau estão a ser usadas para criar um
protector solar. Palavras para quê? É o mundo que temos, continuamente
alimentado pela nossa própria incúria.
DÉJÀ VU
Tenho passado os últimos dias a ler com as minhas filhas
de sete e dez anos As Mil e Uma Noites. Tem sido uma festa, eu faço as vozes e
lanço as canas e elas apanham os foguetes e reciclam-nos para que eu os volte a
atirar. Perco nisso uma hora e meia por dia, que arranco à escrita do romance
em que ando mergulhado. Há uns anos atrás eu não o faria. Acharia que perdia
tempo e que a minha “obra” não admitia esse desvio de energia. Agora estou-me
nas tintas para a “obra”, escrevo-a quando me diverte, e o mais importante é
conseguir fazer passar aquela corrente e as miúdas ulularem, divertidas. E que
me exijam todos os dias esse ritual. Eu sou apenas um elo.
Bela prosa do António Cabrita, para ler na íntegra: aqui.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
#36
O tango é a mais sensual das danças. Os Gotan Project
entenderam-no como ninguém antes deles no universo da música electrónica,
depois de alguns elementos do trio terem morrido de amores, como tantos outros,
pelos ritmos brasileiros. Philippe Cohen Solal é francês de gema, Eduardo
Makaroff nasceu em Buenos Aires, Christoph H. Müller é suíço. Os três formam
este estimulante projecto que, logo à entrada do séc. XXI, voltou a atrair
atenções para o tango. Ao percorrermos Best Of (2011) percebemos que o
travestimento da tradição não é meramente decorativo, como por vezes acontece na
chamada worldbeat. Se em alguns temas a cedência aos géneros de entretenimento
podem induzir uma certa superficialidade, a verdade é que pelo meio
vislumbramos apontamentos musicais extraordinariamente sofisticados. A
melancolia típica do tango não se afunda nos ritmos serpenteantes que apelam à
dança, flutuando antes com melodias que o piano, as cordas, a concertina se
encarregam de celebrar. Os Goten Project são, antes de mais, a celebração de um
género através da apropriação do legado tradicional sul-americano, que não fere
de morte a voluptuosidade nostálgica da música cujas raízes resolveram regar com
a ambígua seiva da modernidade. Lembrei-me deles ontem por causa deste tema:
CENTRO COMERCIAL 1
Agora a morte é diferente,
facilitaram-nos o desespero, a angústia
tem já ar condicionado. Em vez
dos bancos de jardim, por certo demasiado
rudes, temos enfim lugares amplos
onde apodrecer a miséria simples do corpo.
Que incalculável felicidade a de percorrer
galerias de nada tresandando a limpeza
e segurança. Aí se abandonam jovens
rebanhos sentados sorrindo ao
vazio palpável, ou ferozmente no meio
dele. Revezam-se - mas quase diríamos
que são os mesmos ainda, exaustos
de contentamento. Dêmos pois as boas-vindas a esses
heróis do betão consagrado. Só eles nos fazem
acreditar no advento do romantismo cibernético.
É doce a merda que nos sepulta
e o cancro que um dia destes nos matará
há-de ser muito limpo, quase ecológico.
Manuel de Freitas (n. 1972), in Todos Contentes e Eu Também (2000). «Desde o seu primeiro livro de poemas (...), Manuel de Freitas colocou-se numa linha de tradição que provinha da turbulência anímica romântica (Baudelaire) e de continuações radicais, no desdobramento do século XX, dessa situação articulada com uma insistência niilista da relação do corpo com o mundo e do pensamento sobre esse mesmo mundo, via as referências a Malcolm Lowry e a E. M. Cioran» (Joaquim Manuel Magalhães, Expresso, 2005). «A poesia não é aqui uma questão de estilo ou de forma, da "metáfora que não usarei", mas uma questão de ética - de uma ética da imanência guiada por um princípio de coerência e justeza em que coincidem vida e escrita» (João Barrento, Público, 2005). «(...) Estamos perante uma poesia que, a par do seu carácter de narrativa íntima, aposta numa arquitectura retórica que dá pouco ou nenhum crédito à grandiloquência, mesmo quando modela o horror e o nojo, ou quando realça a degradação e o desastre. Uma poesia de grande economia verbal, que se alimenta enfaticamente dessa contenção, no que é um dos seus grandes méritos» (Carlos Bessa, Expresso, 2005). «Impressiona-nos o ritmo, a cadência de quem se move segundo o movimento do próprio olhar, um estilo de cinematógrafo projectando imagens sobre um lençol branco, num tipo de escrita que muitas vezes quase resvala para a prosa, para a alusão banal, para o pormenor narrativo, mas que consegue sempre, pela escolha de elementos que sobressaemna imagem, pelos cortes inesperados, pela montagem subtil dos efeitos da memória, inclinar-nos para a grande reflexão poética sobre o tempo e a morte» (Eduardo Prado Coelho, Público, 2003).
sábado, 12 de julho de 2014
CARNE DE PORCO
(imagem respigada aqui)
Grâce à vous une robe a passé dans ma vie.
Cyrano de Bergerac
Educado na contemplação das estátuas
gregas de efebos em mármore incolor
e na leitura de poetas e filósofos
de estrita e firme observância platónica,
entendido em vasos com erastas e erómenos
e em vidas de discípulos do amor socrático,
ao parar frente a um torso desconhecido
(igual ao peito das sereias nos rochedos)
próximo do mastro de sinal encarnado
sobre o macadame das avenidas novas,
vê fora do automóvel um par de seios,
transtornado pelo apetite de provar
o defeso gosto a fêmea como um judeu
proibido por lei de comer carne de porco.
José António Almeida (n. 1960), in O Rei de Sodoma e algumas palavras em sua homenagem (1993). «O espírito de organização é o principal gerador de consistência de sentido neste volume. Tanto mais quanto a sua qualidade dominante é precisamente a coesão e a firmeza em redor de direitos centrais do humano. A «ferocidade»^do rigor métrico e das opções estróficas é uma «medida» em que se fundem os intuitos expressivos e os intuitos morais. Pois que este livro eleva o conceito (formal e significativo) a um grau de exigência radical entre os novos poetas portugueses. Este poeta procura afirmar, silencioso e distante, um jeito conceptual que prenda, na consistência das distribuições e escolhas estróficas, uma segurança de valores, de atitudes, até mesmo de combates. (...) Contudo, a temática destes poemas nunca procura impor-se pelo excessivo do declarado. Pelo contrário, vive da elipse, da sobriedade e contenção vocabulares, da harmonia prosódica e duma contínua metonímia memoriosa onde os episódios são evocados fora de qualquer imediatismo brutal, antes tecendo uma ternura afectiva, mesmo nos encontros casuais; e um ambiente descritivo de enredos doces e perdidos que carregam de «canção» estas - apetece chamar-lhes assim - «coplas». Mesmo que por vezes atinjam essa tristeza do canto que um verso pode subitamente resumir: «funeral do amor é a amizade»» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre).
CHARLIE HADEN (1937-2014)
Morreu o contrabaixista Charlie Haden. Tive a oportunidade
de ouvi-lo ao vivo em Março de 1996, no Centro Cultural de Belém, com o Quartet
West: acompanhado pelo sax tenor Ernie Watts, pelo pianista Alan Broadbent e
pelo histórico baterista Larance Marable. Charlie Haden é sobretudo conhecido
pelas colaborações com Ornette Coleman e Keith Jarrett, assim como pelo
trabalho de intervenção social e política desenvolvido com a Liberation Music
Orchestra. Sensível, cool, activista com uma forte inclinação experimental, aproximou-se
de Portugal quando, em 1971, dedicou Song for Che aos revolucionários que
combatiam pela descolonização. Estávamos em plena ditadura salazarista, Haden
foi detido e interrogado. Mais tarde, juntou-se ao nosso Carlos Paredes para
gravar Dialogues (1990). Há quem considere a reunião infeliz, mas duetos tais
como Divertimento, Dança dos Camponeses ou Marionetas passaram a fazer parte do
repertório imprescindível de Paredes. Era pai de Josh Haden, líder dos Spain.
Fica este momento purificador com Pat Metheny:
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Os mestres e as criaturas novas
sexta-feira, 11 de julho de 2014
DANIEL BESSA
Portugal está cheio de merda desta, gente com
responsabilidades que se passeia pelos corredores do poder, faz afirmações
inconsequentes, contribui para a chicana geral, oferece manchetes ao jornalismo
asqueroso da exploração sensacionalista, gente que passamos a vida a encontrar
em fóruns, programas de televisão e rádio, enchem páginas de jornais e de
revistas com entrevistas e palhaçada, gente que manda mas, ao primeiro passo
fora das linhas que demarcam o terreno determinista da missão para que foram
contratados, se revela do mais mesquinho e ordinário que existe, estamos
entregues a este esterco, estes homens que opinam, opinam, opinam, sabem tudo,
têm soluções para tudo, são geniais na casa de banho onde cagam pela boca os
pensamentos de merda que produzem, é gente do mais poluente que há, a que manda
no país, gente de que estamos fartos, fartos, fartos, insuportavelmente fartos.
#35
Se o conceito de rock abstracto faz algum sentido, algo que
em si mesmo parece contraditório, então os The Fiery Furnaces são o melhor
exemplo que temos para dar. Formados em Brooklyn no ano 00, este duo
surge na corrente de um revivalismo que teve nos The White Stripes o maior
sucesso. Mas a música dos irmãos Eleanor e Matthew Friedberger distanciou-se,
desde cedo, dos congéneres pela via menos convencional e mais experimental. Gallowsbird’s
Bark (2003), o primeiro álbum, apenas indiciou o que veio a confirmar-se com
Widow City (2007) de um modo absolutamente insuperável. As composições dos The
Fiery Furnaces resultam de colagens diversas, onde a tendência para brincar com
alternâncias rítmicas e melódicas gera uma imprevisibilidade que nada tem que
ver com o tradicional rock de três acordes. Tanto podem optar por um registo
dadaísta e surrealista como por uma espécie de cubismo sónico, com ressonâncias
onde se remisturam elementos oriundos do psicadelismo com outros da pop
mais óbvia, guitarras distorcidas a alto nível com arranjos orquestrais de um
romantismo épico, mas tudo em breves minutos distribuídos por dezasseis canções.
Há uma dimensão claramente irónica na música dos The Fiery Furnaces que
consiste em transpor fronteiras, recusar qualquer tipo de barreira à exploração
e conjugação de influências musicais. Ex-Guru é, provavelmente, o momento mais
radiofónico deste álbum:
DOIS MIL E DOZE
A morte reclama-me a uma velocidade feroz.
Resisto-lhe há cinquenta e nove anos, mas ela não confirma
a dispensabilidade da rasura, veio-me aos braços com uma dor fortíssima
e bloqueou-me as artérias, como se nada mais houvesse
a render ao preito que a tudo devo. A ladrar-me às canelas,
fincou-se no coração, a pôr uma inviabilidade no meu peito
que não sei suportar mas que, como regra ancestral, mais não posso
do que receber, a fechar todas as portas e todas as janelas, mas abrindo-as
porque já chorei demais. Morte a escrever-me na cabeça
a volatilidade, a importunar-me por todos os lados onde me pedalo,
a fazer de mim um mistério da física quântica, um gato
de Schrödinger, vivo e simultaneamente morto, febril pela realidade,
sem um cometimento de várzeas a que me possa arrostar,
um monte de destrezas em que aplicar as letras com que a minha vida
se compôs. Quer a morte que eu deixe de escrever, que o latido do poema
se não ouça, que eu rebente as têmporas por não o encontrar, consumido
pelo esquecimento a que me vejo destinado, neste silêncio iníquo
que a idiotia vigente força, este ultraje que o crapuloso impõe, sanciona, justifica.
Nenhuma morte é legítima, penso há décadas que nascer para morrer
é um descalabro divino, mas não me larga o pescoço a morte, vou num fascínio
de antílopes a atravessar a savana, o leão vigia-me, creio até que me protege,
mas a víbora acossa-me com múltiplos estratagemas, esta sombra, esta falta de mar,
este rosário de ampolas e drageias, esta deslocação de ar sobre as coisas futuras
que presentificam a aflição, como se não estivesse já, algures, o meu testemunho
a dizer: este rapaz punha as unhas de fora quando o sangramento se entrosava,
mas sempre foi de uma bondade avassaladora, o mais que fez foi nunca serenar.
Tomo o quinhão, a estrada estende-se para lá do entendimento, nem eu mesmo sei
como desemaranhar os meus piores pesadelos, a morte põe ravinas sob os passos,
põe lâminas, põe traições, e o alimento subverte-se, entre o sólido e o líquido,
entre os fluxos do corpo, esses jactos que, azuis e verdes, emanam do enigma
para que nada seja irremissível, nem benéfico, nem necessário quando o rufo nocturno
se ouvir, e for dia pleno, e a morte, atrás da luz, se esconder para, de novo, me cercar.
Inspecciona a morte os meus joelhos, digo-lhe, vou ali e já venho, preciso de um café
para acordar, e lá está o seu trabalho a progredir, enchem-se de tristeza
os meus olhos, o horizonte de árvores que à minha frente se abre é um rodízio
de extermínio, as mãos tremem-me, escorre um fio de saliva pelo meu queixo,
sujam-se as unhas da higienização hospitalar, nem paciente sou, o soro flui pelo tubo
de plástico, a cama oscila, encosta a morte o seu flanco a este silêncio assombroso
onde tudo é letal e, como sempre, a morte extravasa as minhas prerrogativas,
deixa-me fora de mim, ainda inocente, alma inestimável em busca de consolo,
porventura manejadora de percalços há tempo suficiente para que eu possa presumir
que a salvação existe, que pode morrer a morte mas eu nunca morrerei, pese embora
o débil batimento cardíaco, esses cumes, esses abismos, essas derrogações, o aparato
desta gente imortal que, na enfermaria, toda a noite geme a meu lado,
aquele rosto com um xaile sobre os cabelos a abençoar-me porque lhe acautelo o sono,
igual à minha mãe quando a vi no esquife, igual à minha avó na praia de Miragaia
a dançar o mais exuberante feitiço que alguma vez conheci, igual a mim
no retrato em que mais não era do que um menino acanhado a ver as ondas a ampliar
o areal da praia de Francelos. Dessa imortalidade somos, não há avalanche
que o não desminta, a vida é coisa errante e nunca seremos um erro,
a vida é o que se contrapõe à omissão, o esquecimento, esse cimento infecto há-de
vencer-se pelo que for irrestrito em nós, um livro que há-de abrir-se à força
de faca, ou escrever-se à míngua de desalento, ou construir-se por um tenaz vaticínio,
ou amar-se como se amou uma mulher, ou um filho, ou uma praia que se perdeu.
Ei-la que volta, a morte. Ei-la que insiste. Ei-la que rememora
os mortos que já revimos na migração inultrapassável, ei-la que nos restringe,
a dilatar o campo de visão da nossa memória - estou a morrer naqueles mortos
da infância mas que vivos permanecem sob a minha memória, estou a morrer
com esta anciã a quem abriram o coração e não irá resistir senão quanto os anjos
permitirem, estou a morrer pela tua ausência, meu amor, nem saber se existes
e se, existindo, alguma coisa sabes de mim, ou sabes e não queres saber.
Estou a morrer há cinquenta e nove anos consecutivos e a boa notícia
é que ainda subsisto e, na estante, perfilo uns quantos volumes onde inscrevi
o meu nome, apesar de teres sido tu, morte, a redigi-los, a prescrever-mos,
a desgastar-me o coração em sucessivos abalos e deflagrações constantes.
Ah, deixa-me em paz. Deixa que, entre tumultos, agora a minha vida se inscreva
como um epílogo, mas que não haja epílogo, mas só um riso sobre todas as coisas,
um riso apoteótico sobre as sombras, um alvoroço como uma arte poética,
certo acinte singularmente objectivo para que anda fique por dizer na matemática
da vida, palavras deslumbradas que se embicaram umas nas outras como quem
acede ao prejuízo da morte, este rosto desamparado, este riso que ergo
ao pressentir-te, este açougue infinito.
Amadeu Baptista (n. 1953), in Açougue (2012). «Amadeu Baptista é um poeta caudaloso que não tem tido o devido eco pelo facto de ter vindo a lume muitas vezes em editoras de escassa divulgação, o que não permite ao leitor comum ajuizar sobre o fôlego e a qualidade das suas mil páginas publicadas, que já dobram as duas dezenas de livros. (...) A poesia de Amadeu Baptista vive da tensão entre aquilo que descreve e o que a linguagem exuma, na linhagem duma prática imemorial que procura sondar as ressonâncias e "correspondências" entre natureza e imaginação» (António Cabrita, Expresso, 2004).
quinta-feira, 10 de julho de 2014
TURBE
juntando breu,
o'neill se rube.
deita mais rubé
e fica ubre, eu
sei que há mil
poeta na urbe
que faz bure
e não rubi, ó'neill.
Tenta rebu-
çado de erbu
para comer
a urbe com buré.
coisa de rebu: é
nil, poema béru.
o'neill se rube.
deita mais rubé
e fica ubre, eu
sei que há mil
poeta na urbe
que faz bure
e não rubi, ó'neill.
Tenta rebu-
çado de erbu
para comer
a urbe com buré.
coisa de rebu: é
nil, poema béru.
Rui Costa, in Big Ode, nº 4, tema: Urbe, Março de 2008
- Junho de 2008, Edição e Design de Rodrigo Miragaia, Design de conceito de
Rodrigo Miragaia e Sara Rocio, Coordenação de Maria João Lopes Fernandes, p. 92.
HIGIENE MENTAL
Nas mais de quarenta páginas que dedica à poesia de João
Miguel Fernandes Jorge em Rima Pobre, Joaquim Manuel Magalhães cita um episódio
paradigmático de um certo olhar sobre “os portugueses”:
vv. 14-15 — Ataque à maneira como os portugueses se deixam
transformar à medida em que envelhecem; comparados a «porcos» em muitos dos
seus comportamentos civilizacionais; daí que só enquanto novos, isto é, «leitões»,
possam ser reconhecidos como «bonitos»: ao contrário do que se supõe na
civilização nórdica. (O jogo de palavras provém de um ataque a uma assistência
maioritariamente jovem num programa de vídeos musicais, organizado por Miguel
Esteves Cardoso na Fundação Gulbenkian. Vendo esse público reagir com
gargalhadas provincianas a um vídeo de Marc Almond, o Miguel gritaria «porcos!»
à assistência. O João Miguel ter-lhe-ia dito, para o acalmar, que eram tão
novos e não tinham assim tão mau aspecto. O Miguel ter-lhe-á retorquido que então
eram apenas «leitões» e em breve seriam «porcos».)
Excluindo o preconceito das gargalhadas provincianas, que suponho sejam distintas das gargalhadas urbanas onde o acontecimento teve lugar, consigo imaginar a situação. Lembra-me,
aliás, uma outra, ocorrida em Coimbra aquando de uma leitura de poesia levada a
cabo por Al Berto. O registo sonoro é sobejamente conhecido. Mas isto nada tem
que ver com “comportamentos civilizacionais”, os quais são bem mais contidos e
desinteressantes do que a javardice aludida permite supor. Isto tem que ver com
uma outra realidade, muito mais complexa de expor e de pensar, mas que Ruy Belo
sintetizou com uma expressão no prefácio ao primeiro livro de João Miguel
Fernandes Jorge, prefácio esse, aliás, densamente rebatido por Joaquim Manuel
Magalhães no ensaio supracitado. Escreve Ruy Belo:
Oxalá João Miguel venha a ser não só um poeta, num tempo em
que a poesia morreu, mas também o «maor», como diz o Sr. Joaquim Baltazar, o
banheiro da Senhora da Guia.
O sublinhado é meu. Aquele tempo em que a poesia morreu, o
nosso, não nos livra desta ambivalência que é persistir na poesia para lá da
morte. Sabemos que a poesia está morta, mas também sabemos que nem por isso se
ausentou das nossas vidas. Torna-se, de facto, difícil encontrá-la onde o
espectáculo deplorável da humanidade indiferente, distraída, apalermada se impõe.
Mas de quando em vez lá surge, no meio da multidão, como um espectro que o
poeta distingue. Há qualquer coisa de mediúnico no poeta hodierno, o que faz
deste Portugal país de poetas (expressão por si só já deplorável) um país de médiuns,
tanto quanto de trapaceiros, burlões, prestidigitadores, velhacos, vigaristas, intrujões,
etc., etc., etc., que mais facilmente prosperam na cidade do que na província,
onde as distâncias e o silêncio garantem, pelo menos, um certo isolamento
imprescindível à higiene mental.
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