quarta-feira, 20 de agosto de 2014

PROJECÇÃO



Entro no largo da Câmara Municipal pela Rua de São Tiago. Avisto-o de costas, estático, como se fosse uma estátua ali colocada. Os longos cabelos brancos caem sobre as costas, manto que o protege das intempéries. Certifico-me de que se trata de quem penso. Dou uma volta ao largo, sento-me do lado oposto ao que se encontra e observo-o. Intento a palavra certa, não vá cortar a boca no arame farpado. Ele não pestaneja, está recostado no banco do largo remodelado. A coluna curvada. Uma barba farta que se mistura com a cabeleira estende-se sobre o peito. Descobrimos-lhe o olhar só quando nos aproximamos. De quando em vez, esboça um cumprimento. Acena com a cabeça, levanta uma mão. Parece calmo. Mas tem nos olhos a cor grisalha dos cabelos, uma paz combalida. Há pouco, as gaivotas sobrevoavam o aterro sanitário em busca de alimento.



Aproximo-me, meto conversa. A poesia gera pontes, mas são todas de ferro velho enferrujado. A palavra certa é a mais simples. O homem dos cabelos brancos mantém o discurso que já lhe ouvira. Uma coerência desarmante. Pressinto-lhe as mazelas de um acidente vascular recente. Explica-me o que os médicos não admitem, que o achaque afinal foi uma projecção. Quando se preparava para descansar da missão que o trouxe à cidade, aconteceu-lhe aquilo. Agora não pode descansar, não pode voltar a ser quem era. Ninguém volta, penso. Mas este homem, tão certo e convencido de ser quem é, entala-me entre os benefícios da loucura e os estragos da normalidade. Não sei se chame liberdade ao seu abandono, não tem o sentido de abnegação da esfinge hindu.  Talvez o seu mundo cresça do avesso, jogo de espelhos onde as horas são preenchidas tentando perceber o que há de real no reflexo. 
Évora, Julho, 2014.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

DOLORES DURAN

Sobre Dolores Duran, um documentário da TV Globo:
1ª parte: aqui; 2ª parte: aqui; 3ª parte: aqui; 4ª parte: aqui; 5ª parte: aqui.

UBI SUNT



A opção por uma expressão latina para título de um livro oferece ao objecto uma certa solenidade. Não é caso único no conjunto da obra de Manuel de Freitas (n. 1972), desta feita devidamente inventariada ao longo de cinco páginas posteriores ao índice. Perturbadora, porém, esta opção no menos solene dos poetas portugueses contemporâneos, assim como impressionante a produtividade de um autor estreado apenas há catorze anos mas que conta já com cerca de quatro dezenas de títulos publicados em nome individual. Ubi Sunt (Averno, Junho de 2014) é aquilo que anuncia: um livro evocativo de pessoas e de lugares ausentes. Sendo a morte, na sua íntima relação com a pesada mecânica do tempo, um tema recorrente nesta obra, ela aparece agora directamente associada à perda. O volume é dedicado à memória de Maria de Lourdes de Almeida Pereira de Freitas, embora diversos dos textos que preenchem as três partes (Hic, Et Nunc, Et Semper) sejam objecto de dedicatórias a personalidades facilmente identificáveis (geralmente escritores que se presumem do círculo de amizades do autor). Esta vertente intimista é fortalecida pela omnipresença da companheira de Manuel de Freitas ao longo dos três conjuntos, convocada múltiplas vezes a partir de referências mais ou menos directas. Trata-se de um registo pessoalíssimo que, curiosamente, parece pretender anunciar um certo distanciamento. Desde sempre encontramos também nesta poesia evocações da infância, dos lugares onde a mesma se concretizou, assim como daqueles por onde se foi perdendo. A poesia de Manuel de Freitas apela a uma viagem no tempo, com recuos onde a memória vai encontrar os elementos que explicam a tristeza, a melancolia e a nostalgia enquanto sentimentos fundadores de uma poética marcada pela saudade nesse sentido muito próprio que a poesia portuguesa lhe confere (mas que nada tem que ver com cultos messiânicos ou bandeiras identitárias). «O maior andarilho e boémio / da minha aldeia» (p. 12), «um grande bêbedo / e um fumador diligente» (p. 13) não são meros recursos literários, conectam o poema a lugares e tempos povoados por figuras de uma memória que aqui se constitui enquanto imaginário possível da experiência de vida sobre a qual o texto se constrói. Os poemas em prosa, em maior número, desenvolvem este processo com especial acidez, chamando a atenção para sítios onde o poeta conheceu os melhores e os piores espíritos da sua geração, ou se atira aos «evangelistas da eternidade» (p. 17) depois de uma consulta médica, ou lamenta ter-se esquecido dos nomes de praticamente todos os professores de Português. A constatação da decadência propulsionada pela passagem do tempo — «o desgaste do tempo» (p. 41) — resulta numa nostalgia desapiedada, sem concessões líricas nem encantamentos fugazes. O ambiente cultural e social do país encontram nesta poesia um retrato desencantado, centrado, é certo, na expressão de um Eu que se afasta do que agride mas admite aproximar-se pela linha afectiva: «a amizade é uma ponte incalculável» (p. 38). Sem pretender parecer nostálgico ou ser confessional, Manuel de Freitas acaba por ser ambas as coisas: «Com ou sem talento, fui ou sou tudo o que vagamente desejei: poeta, crítico, editor, barman, livreiro e tradutor. De um modo quase sempre bastante heterodoxo, é certo. E tive amigos, conheci de perto o amor. Também houve falsos amigos, traições, os piores enganos» (p. 46). A literalidade do discurso, que por vezes insinua uma enervante autocomiseração, agita a leitura. Não é usual, mas, por isso mesmo, recentra na autenticidade da voz a sua maior força. Dúvidas sobre a utilidade da poesia («aproximar pessoas» e «diluir falsas fronteiras» na p. 35, «serve para nos sentirmos um pouco mais tristes, solitários e deslocados» na p. 54), o desconsolo das dores intoleráveis (o tédio dos dias, a perda…), indícios de uma saturação aparentemente fatal, são instantes que denunciam uma poética feita de despedidas, uma poética exclusivamente ligada à existência (que é, para todos os efeitos, uma despedida constante). O poema que, quanto a mim, melhor sintetiza tudo isto é este:



FIM DE CASO

Foi num dos muitos táxis que me conduziram à ausência da minha mãe, cada vez mais óbvia, que ouvi «Fim de Caso». O nome de Dolores Duran era-me totalmente desconhecido, mas logo fiquei preso àquela gravidade simples, em sentido musical. Nem só de Bach e de Billie se pode viver, embora por vezes apeteça. Cheguei a casa e apenas me interessava saber que gravações havia dessa mulher que viveu 29 anos e decidiu dormir até morrer. Compreendo-a muito bem.

*

A quase integral chegou no dia seguinte à cremação da minha mãe (obrigado, Inês). Dolores impressiona, sobretudo, pela sua convincente mudança de persona, o tom canalha nas canções francesas ou nos temas nordestinos, a sensualidade dos boleros, a inesquecível versão de «My Funny Valentine» (que Ella Fitzgerald terá considerado a melhor que já ouvira). E devemos-lhe, além de «Fim de Caso», composições como «A Noite do Meu Bem». «Quero a alegria de um barco voltando» é dos melhores versos que conheço. Corrijam-me, se estiver errado.


Manuel de Freitas, in Ubi Sunt, Averno, Junho de 2014, p. 60.

ANIMAIS DOMÉSTICOS

*
As pessoas não prestam para nada, querem sol para se porem à sombra.
*
Não há melhor protector solar do que o tecto de casa.
*
É difícil confiar em quem não sai de casa sem besuntar o corpo com meia dúzia de cremes.
*
Triste existência: andar de um lado para o outro a queixar-se dos parolos.
*
Plantar, semear, pescar, caçar, colher, são actividades protectoras dos animais.
*
Posso ser ignorante, mas ninguém me tira da cabeça que a vida é isto.
*
Trabalhar não me angustia, o que me angustia é ter que voltar ao trabalho.
*
Nunca digas que sofres de insónias quando roncas como um porco.
*
Há inúmeras vantagens em dormir acordado, sendo que todas podem resumir-se à enormíssima vantagem de não teres que acordar.
*
Quando te questionarem sobre a que praia ir, responde sempre: à que tiver menos gente.
*
Entre a rua e o hotel de cinco estrelas há a tenda. A virtude está no meio.
*
O flâneur passeia pela cidade a sua rústica melancolia.
*
O rústico passeia pelo campo a sua desassossegada inquietação.
*
De onde quer que venhas, vens sempre com a triste constatação de que te trazes de onde quer que foste. O ideal seria podermos deixar-nos algures como quem mete um saco no lixo.
*
O rapaz está zangado com todos excepto consigo próprio. São compreensíveis as expectativas de que venha a zangar-se também consigo próprio quando descobrir que, afinal, não é senão um entre muitos entre os quais também ele está. Lê-se nos livros, mas aprende-se com o tempo. Isto se a cultura literária não toldar a sabedoria.
*
Por mais que caminhe não sai da cepa torta.
*
Patinar nos sonhos, derrapar na vida. Melhor mergulhar na lama. E tomar banho de seguida.
*
Ontem estava feliz, hoje estou nostálgico. A nostalgia não nega a felicidade, nem mesmo a tristeza (esta opõe-se à alegria). Só a felicidade pode negar-se a si mesma. A infelicidade impede a nostalgia. A infelicidade é triste. Só porque impede a nostalgia.
*
Sonhei que os pais morreram com uma sensação criminosa de liberdade. Jamais nos perdoaremos por sermos humanos.
*
A canção diz «a minha vida foi-me feita». Ser punk é isto, não querer entender nem sequer aceitar que em última instância somos nós quem fazemos o outro e não o outro quem nos faz a nós.
*
Vítimas da sociedade? Só conheço os animais domésticos.
*

domingo, 17 de agosto de 2014

SILÊNCIOS QUE FALAM

À angústia da página em branco, alguns autores vão contrapondo a inspiração do branco da página. Processa-se, nesta arte, uma inversão dos papéis. Algo que poderia ser interpretado como falta de estro, acaba por sugerir o poder do vazio - deixando assim ao leitor a missão de encontrar palavras onde porventura não farão falta alguma. Lembro-me do Poema Branco de Rui Costa, incluído no premiado, mas ignominiosamente inacessível, A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (2005):


Outro exemplo, num poeta que se presta bastante a este tipo de experiências metalinguísticas, surge-nos com o poema A parte pelo todo, de João Luís Barreto Guimarães, que ofereceu o título a todo um conjunto compreensivelmente mais palavroso:


Mas não se julgue que estamos num território exclusivo da poesia. Recentemente, Bruno Vieira Amaral almejou um dos mais intensos graus da expressividade narrativa com a seguinte página no seu romance de estreia As Primeiras Coisas:


Talvez a nota de rodapé fosse escusada, encargo que deixo aos críticos profissionais. O que me interessa nestes três exemplos, e mais poderiam ser dados, é a capacidade que cada um dos autores teve de superar com engenho e risco uma limitação expressiva. Poderão chamar-lhe truque ou falta de originalidade, poderão acusar os autores de nada terem a dizer e de se acomodarem por detrás de um vazio experimental que nem sequer é inovador. Por mim, o que estas páginas praticamente em branco acrescentam, no contexto específico em que aparecem, é uma enorme capacidade de síntese que muito nos agradaria verificar na maioria dos autores mas que, para mal dos nossos pecados, nem todos estão dispostos a trabalhar.

HAMMAM COM LETRAS

Num passeio por Évora, subo a Rua 5 de Outubro. Precisava de comprar cola e fui informado, por uma comerciante local encalhada entre a revolta e o conformismo, que era provável que os chineses vendessem o que eu precisava porque as lojas dos chineses vendem tudo indiscriminadamente. Estava certa na descrição. Já com a cola no bolso, deixo os chineses, subo uns metros na 5 de Outubro e deparo-me com uma montra de livros expostos, por assim dizer, indiscriminadamente. Entrei. Do lado esquerdo, dois bancos baixos suportavam pequenos montes de livros. Um deles, totalmente preenchido com edições do autor Carlos Mota de Oliveira. No outro, livros da Eucleia, Casa do Sul, Licorne. Ao centro, colocados em caixas aparentemente expostas de um modo informal, reparei em livros da Averno, Mariposa Azual, Douda Correria, Pianola, &etc… É a secção da “literatura de alterne”, alguém me disse com um sorriso contagiante. Adquiri dois livros. Não digo que comprei porque o ambiente não se presta a compras. Algo diferente se presta naquele espaço, onde não ouvi falar em cartões, em promoções, em campanhas, nas trafulhices comerciais que nos poluem os dias. E a venda acrescentada surge naturalmente, quando a conversa se estende pelos livros sem compromisso nem ansiedade. Trouxe dois. Um deles é o que ilustra a prosa, com a capa a remeter para os saudosos Cadernos de Poesia. Os Poetas Adoram Massagens, a livraria Fonte de Letras é um Hammam bastante recomendável. Longa vida a espaços destes de onde saímos com a respiração mais leve. Resta o poema:

OS POETAS ADORAM MASSAGENS

Os poetas adoram massagens
ficam de papo para o ar
ficam a ver passar os navios
ficam à mercê de Deus
ficam em paz
e o resto da Obra
fica por fazer.
Também eu hoje
me fico por aqui
com a “Massagem”
do Fernando Pessoa.



Carlos Mota de Oliveira, in Os Poetas Adoram Massagens, Edição do autor, s/d, p. 16. 

sábado, 16 de agosto de 2014

POEMA


Eu não sabia então —
nem sei se mesmo hoje saberei —
que a poesia era para isto
falar das coisas miseráveis
— a memória do que é miúdo, o que é rasteiro —
o sono escombros que o mar devolve à terra.

Ou então lembrar meu Pai
suas mãos secas tisnadas do sol
sua vasta alma camponesa rosto de terra
coração de menino olhos ingénuos
um chapéu protegendo-lhe a cabeça
caminhando entre folhas de videira
suavemente falando aos que trabalhavam na colheita se acercassem de um outro campo mais acima
para colher sob sol braseiro
uvas que eu ia devorando
até do sumo doce fartar minha boca.

Ou lembrar meu avô
que conduzia mal
levando o carro pelo meio da estrada de província
a buzinar longamente em cada curva
afugentando galinhas ovelhas
crianças ranhosas
filhas do álcool.

Lembrá-lo agora como quem evoca um sabor cheiro da infância
não chegando para me humedecer os olhos
(não sou especialmente dado à comoção)
leva-me a um outro tempo:
um tempo de girassóis e de pão farto e doce
a encher-me a boca miúda
momentos coincidentes com o agora:
a guerra na Palestina as eleições em França
a notícia de um óbito no jornal do dia
a graça do pivô a fechar outro telejornal
ou tão-somente essa presença intensa
teu perfil recortado no ecrã dos meus olhos.

Tudo acontecendo ao mesmo tempo numa linha horizontal
em simultâneo como se de fora
como se fosse um outro
desconhecendo sempre
o lugar exacto a que pertenço.

Bernardo Pinto de Almeida (n. 1954), in Hotel Spleen (2003). «Partindo de um certo surrealismo (movimento a que, no seu romantismo tardio, Bernardo Pinto de Almeida está profundamente ligado), o lado datado de uma escrita foi-se lentamente apagando para dar lugar a uma poesia liberta de espartilhos doutrinais, que se pode ler sem pressupostos acentuados. Hoje, encontramos um poeta que vai além dos temas tradicionais (não se trata apenas do amor, da morte, da infância, do quotidiano) e que cria uma temática que tem o imenso mérito de não ser designável por qualquer palavra conhecida, sem no entanto convocar os deuses para preencher esse vazio. (…) Anotemos alguns traços essenciais: o uso das maiúsculas, mas a mesma palavra pode surgir com maiúsculas ou com minúsculas; a capacidade da repetição das palavras promovendo uma música própria: o uso metafísico das maiúsculas; o sentido intensificado das interrogações; o sentido do pormenor concreto, a capacidade de mudar de patamar (daí a utilização do travessão)» (Eduardo Prado Coelho, Público, 1 de Abril de 2006). «Estamos perante uma poesia da voz, onde há uma dimensão declamatória e, quase sempre, o endereço a um “tu”, seja o da invocação lírica, seja o da poesia como diálogo. (…) Esta poesia não renega o pathos romântico e a sua inspiração nocturna, com os seus motivos recorrentes da luz e das trevas. Ela vai, aliás, mais longe: aproxima-se de um panteísmo místico, fusional, até um estado de apoteose que Baudelaire identificou com o universo lírico. Nalguns momentos, ela permite-nos convocar o conceito rilkiano de “Weltinnenraum”, de espaço interior do mundo onde se abole a distinção entre sujeito e objecto. Estamos nos antípodas de uma poesia referencial» (António Guerreiro, Expresso, 18 de Março de 2006).  

DÓRIS GRAÇA-DIAS (1963-2014)


Há pessoas sobre cujo desaparecimento se abate um silêncio incomodativo. Este ano vão dois, e por isso o incómodo faz-se sentir ao quadrado. É possível que me tenha escapado a referência breve, mas nada desculpa que Jorge Fallorca tenha desaparecido sem que tenha sido oferecido aos leitores a oportunidade de saberem quem foi e o que deixou feito. Sucede algo semelhante, entretanto, com Dóris Graça Dias, que em tempos gerou vagas enormes de indignação por causa de uma acusação de censura (relembrei-me disto). Censurados em vida e na morte, certos autores parecem impor-se pela sua excepcional capacidade de incomodar. Não precisam de muito, basta-lhes escrever ou calarem-se para sempre. Os órgãos de comunicação social não têm que ser enciclopédias de obituários, mas pelo menos à hora da morte podiam exercitar alguma pedagogia. A imagem ao alto foi respigada aqui

ROBIN WILLIAMS (1951-2014)


E um dia, o homem que rasgava sorrisos resolveu cortar os pulsos. Pôs termo à vida de várias formas, mas ficará para sempre como Popeye (1980) — uma das minhas primeiras visitas, se não a primeira, a uma sala de cinema —, o DJ de Good Morning, Vietnam (1987), o professor de Dead Poets Society (1989), o psicólogo de Good Will Hunting (1997)… Há dias, revi Jacob the Liar (1999) e comovi-me (um filme que nos comove tem que ter algo de bom). Mrs. Doubtfire (1993) ofereceu-lhe um desempenho extraordinário. Mas nisto era praticamente imbatível.

SOBRE "CALL CENTER"



No universo de H.M.B.F., o espelho que reflete a sociedade partiu-se em mil estilhaços, e é sobre essas arestas de vidro que as personagens caminham, cortando-se e sangrando, mais impulsionadas pelo espanto do que pela revolta, seguindo ainda assim em frente, através do negrume. As incongruências da vida gregária (na família, no bairro, no país) e a entropia social geram uma energia turva que explode através de situações absurdas.

José Mário Silva, in Expresso, 2 de Agosto de 2014, ATUAL.

PEDRO COSTA


…algo está mal num país que tem personalidades de excepção como Pedro Costa a marcar presença em lugares emblemáticos como Locarno, ao mesmo tempo que o espectador comum — a quem nunca falaram de Pedro Costa, Locarno e tantas outras coisas... — é todos os dias bombardeado pela indigência narrativa dos nossos horários nobres…
João Lopes, aqui.

Em tempos, escrevi sobre um filme de Pedro Costa (aqui). E não foi por acaso que, instigado a sugerir, me lembrei de Cem Mil Cigarros (aqui). Parabéns Pedro Costa.

A QUATRO MÃOS


A Quatro Mãos
Edição de manuel a. domingos
(fora do circuito comercial)
Julho de 2014


O meu amor por ti é igual ao teu amor por mim.
O resto, batatas fritas!
Ruy Cinatti 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

FÉRIAS

Estimados clientes, estamos de partida para férias. Qualquer assunto urgente, por favor entrai em contacto com Juryman:


L'OUBLI


de tudo o que esqueci me inquieta
uma memória outra. Feita de trapos, de búzios, de folhas
quadriculadas onde só restam junto
à curva azul dos olhos, as marcas
da batalha naval.
De madrugada é sobretudo a névoa que me falta,
o pêlo das mulheres, e as palavras
escritas devagar num livro redondo.
Protasis, apodosis. Anotado nas margens
de um antigo aristóteles: distinguir
energia de kinesis.
Distinguir
Gemeinschaft, Gesellschaft.
A energia em spinoza: conatus in suo esse
perseverandi.
Distinguir, sublinhar, suplicar.
Depois as rodas giram, as árvores
fazem pequenos ruídos ao crescer.
E esqueço-me da idade, a minha, encostado
ao balcão do bar em blue-jeans e camisola verde, 
o olhar preocupado das camas vazias e
das estrelas que morrem, se apagam, inexoravelmente.
Como um pequeno daimon de lutero, List,
Tucke, Schalkheit, será possível que
alegria de sempre sejam
hábitos, a experiência: associações de ideias,
o disse reynolds.
Porque te sentas porventura a meu lado
de mãos inclinadas. The ENGLISH are,
perhaps, greater philosophers, BUT
the FRENCH are the only people who
(por vezes, os nomes. A origem
e direcção das ruas, o modo
de levantar os dedos na carne,
e distinguir a voz ao fundo dos rios,
ou pela pele, os gestos, a maneira
de espalhar o silêncio, as mãos
dobradas sobre o peito.

esquecer é depois uma tesoura de água,
hesitante em frente à estante
dos livros pornográficos, folheando
slim and slanky, sem outra já lembrança
dos corpos na saliva;
asphodel, that greeny flower,
os olhos debruçam-se no aparelho das chamas
e nunca são os mesmos) error,
error, non est Geom,
ao meiodia são horas de ler cartas
com sabor a resina, tacteio
devagar os cavalos empinados ao canto,
decifrar uma língua pendurada dos fios,
ser português: e esqueço-me das mãos, o ruído
das aves ao crescer repete-se no crânio,
one falls in love and desires
mastery
                old Zeus ——— young Augustus
adormecido em lianas de cobre e de heroína:
«esquecer-me de tudo, memória
completa», (é talvez madrugada em Lisboa)
das regras do silêncio, da vulgar
tabuada decorada nos dedos,
o quadrado perfeito: harmonia: as chaves,
as horas, Klein's icosahedron.
Distinguir, uma face estrangeira suspensa
dos cabelos pela pedra inocente,
tempestades de vidro em barcos internos,
o fumo agreste sobre
o granito queimado das esquinas.
(agarro-me aos teus pulsos agarrado
ao horizonte. Ahab, meu amigo.
ils ont dit oui/à la pourriture)

: concelhos de emigração forte: os que
nos dois períodos apresentam taxas iguais
ou superiores a dez por cento
e que são trinta:
                       somente
a luz não é suspeita
feita de trapos, búzios, de seixos
guardados numa caixa de cartão azul,
e de chaves molhadas no bolso dos dedos
arrancados à pressa, a asma de verão
no sud-express, clarté de l'air,
soleil qui ose, e morre no silêncio
das máquinas agudas na garganta,
terias tu também esquecido a erva
ao canto dos quartos, O love
who places all where each is, as they are, for
                 every moment,
yield
           to this man
que a impossível distância / cicatrize
feita de trapos, búzios, de jornais
circulando nas veias, de estações viajando
ao encontro dos lentíssimos comboios, aonde
mercenários do congo discutem massacres,
de dicionário aos ombros como uma bomba fria.
esqueço, o som das asas
multiplica-se, alarga-se, explode sobre as folhas
quadriculadas da manhã, se encostado ao balcão
me aproximo sem gestos, e arde
no céu das mãos uma madeira antiga (je voudrais
m'approcher de toi et que tu m'aimes)
e me espanta nas costas um número tatuado
como uma flor-de-lis desenhada na água.
Kadmos, Laios. À margem: left-sided?, uma
frase de Séneca: per alta vade spatia
sublimi aethere: testare nullos esse, qua veheris, deos.
Margem: mission control / said early this morning
the oxygen supply will hold up. A voz
perdendo-se nas rugas, intervalos,
ao dormir devagar sonho vozes sem boca,
os braço inclinados: porque te sentas
porventura a meu lado, não vês
as unhas presas ao mar, a névoa
nas axilas, quanto me esqueço, lembro, quanto
me é madrugadanoite em volta de lisboa,
a ardósia decepada e uma garganta morta.
Asma, asthme, asthma, são cabelos nascidos dentro da boca,
a crescer para dentro das paredes,
os deuses invisíveis na distância, esqueço,
distinguir, conhecer: as palavras
escritas sem cessar no envelope redondo,
                        old Zeus ——— young Augustus
quanto as chaves nos duram sobre os olhos.

asphodel
             has no odor
                              save to the imagination,
tem o sabor das pedras contra o vidro,
esquecer, o ruído das rodas no ventre dos navios,
o pêlo das mulheres no intervalo dos ossos.
                                                     O love,
pousar as mãos na forma da madeira, abrir
uma caixa submersa, ver
palavras em fumo subindo na tarde,
estas, e um resto de saliva cai-nos dos olhos
sobre o cartão queimado, farrapos, búzios,
um mapa de lisboa com cruzes a lápis.
                                              O love,
este fumo nas ceias sem cheiro nem voz,
escrevendo-se longe num céu de mãos abertas
fuzilado de deus, porque me sento
ao balcão em blue-jeans e camisola azul
e anoitece, anoitece sempre, anoitece na cama
onde brilha nas costas um número passado,
anoitece nas folhas, nos barcos inclinados para a terra,
na ardósia onde se apaga devagar um nome,
anoitece nos olhos, ó somente dizer
amor, amor, e fazer-me sentido quanto esqueço
sem peso
             outro que a boca,
um hálito estrangeiro sobre as pedras:

désirer la maîrise c'est
en être loin, trop loin: esquecer é depois
esta inquieta maneira que nos fica
de debruçar as ruas, de acender
as luzes de repente e respirar 
a tranquilidade do terror adiado,
                          ó somente não ter
mais nada que lembrar, mais palavras a arder
dentro do crânio quando as folhas crescem,
acordar em Rapallo ou Santa Barbara
dentro de um corpo, colado, coincidente,
erguer o totem a meio do pátio com lixo e paixão
que nos dê sombra e a mansidão dos pulsos,
acabar, desistir, fechar o ouvido ao arrastar das unhas
nas paredes, não falar outra língua
que a da madeira ardida no cimo da água,
rios
    paralelos ao mar: ó somente
dizer, dizer, bater as mãos e os frutos contra a terra,
escavar a terra, escavar os rios dentro da terra,
escavar as mãos e o frutos dentro da terra,
adiar a memória que nos fica inquieta
a crescer nos farrapos, nos búzios; no pêlo das mulheres
deitadas nos pulsos, nas veias de cartão com cruzes desenhadas
                                                                   conatus
in suo esse perseverandi
but one falls in love and desires / mastery
                               ó somente dizer

«yield
        to this man
                        that the impossible distance
be healed»

(escrito em 1960, uma tarde tão lenta, as
asas cresciam nas costas dos muros,
uma mala de esquinas inclinada na boca: «adeus,
amigo antigo, amigo velho,
vou partir e não amo ninguém»; quanto
debruçado na chuva me custara o silêncio,
quanto as palavras, em notas
sobrepostas: «assim
sempre a distância nos cura de si mesma»,
«distância é estar aqui hoje e agora»,
ou mais tarde, verão de 1964, em portugal
quase perdido no rumor das chaves: «être ici
est magnífique, mas a luz apodrece
tão depressa!»; e à entrada de um novo
dicionário: «é impossível escrever português
fora de portugal. é impossível
escrever». Buscando
uma língua, um sinal, bêbedo de esperma
em siracusa imaginária, atravessando o golfo
em direcção ao cairo, ou «gravemente»
entre duas colinas, no centro da galiza, 
notando: «é preciso ler rosalía para nos
entender», «o a. diz, e é talvez verdade,
que cortámos os pulsos na fronteira, sem dar conta».
Buscando uma margem, um céu onde pousar
as mãos, uma cinza que baste
às marcas no peito, uma vertente
nua de cicatrizes: de genebra, a um amigo,
novembro de 67: «não se respira aqui,
come-se ar, e sabe a desânimo».
De boston, em resposta a poemas 
alheios: «estou inocente, é difícil».
Idem, março de 70, a uma crítica porventura
amável: «eu falod e raízes sem paixão nem medo.
Sempre me repugnou a ideia de salvar-me
ou de ser salvo: Xto & etecétera».)

de tudo quanto esqueço,
                                     vê,
me dói mais que a memória uma mancha
nas palmas das mãos. Porque me sento
ao balcão do bar com farrapos nos olhos
e desejo uma voz habitada por dentro,
la maîtrise, mastery.
Uma flor que não pense, sem perfume que entorne
a boca da memória.
Uma rosa que queime sem cinzas aos ombros.
Espalhar o silêncio, as armas
dobradas sobre o peito,
e dizer da alegria inclinada nos rios,
oculta, oculta ainda,
                              listen:
asphodel has no odor
save to the imagination
but it too
            celebrates the light,
ouve, por detrás das palavras uma voz acordada
escreve a luz,
celebra a luz,
nascer aqui être ici
é o espaço visível na ranhura dos lábios,
se as mãos se estendem na madeira ardida
o vento golpeia o intervalo dos dedos,
ouve, o ruído dos ossos ao crescer sobre a terra,
a eternidade possível a estender-se na água,
transitória, mexendo devagar
as pálpebras, ouve, movendo-se
através das paredes uma cicatriz quente,
desenhando, apagando, as marcas na quadrícula
regular do cimento,
ouve, esquecendo, esquecido, batendo de repente nos ombros
sem perfume outro
                          que a imaginação,
como aguarda, como foge, como se rasga
no côncavo da pele, como
espreita nos muros, nos trapos, nos búzios,
no pêlo das mulheres adormecidas,
no rumor das camas
vazias, na saliva
mais lenta, ouve, como cresce
nas árvores, nas asas, na terra
paralela aos pulsos, como se aproxima,
como suplica, como se perde,
ouve, como celebra
                             a luz,
(nous n'avons rien à voir / avec leur pourriture)
ouve, os braços invisíveis na distância,
a voz, o ruído
das unhas na parede,
o aparelho das chamas, como
celebram a luz,
                     suspensa
dos búzios, dos seixos guardados
numa caixa marinha, ouve,
como esqueço, como escrevo, aos galopes, nas veias, nos olhos,
porque me sento ao balcão do silêncio
a teu lado, ouve como esqueço,
porque celebro a luz e te encontro e te abraço
i have the words.

António Franco Alexandre (n. 1944), in Sem Palavras nem Coisas (1974). «Se excluirmos Distância (1969), livro de estreia com numerosas rugosidades de escrita e dívidas muito nítidas a uma retórica supostamente anti-discursiva dominante nos anos 60 portugueses, a marca da obra de António Franco Alexandre na nossa mais recente poesia está ligada aos finais do ano de 1974. (...) António Franco Alexandre propõe, portanto, e como quase todos os poetas portugueses mais significativos, virtualidades alteradoras importantes em português, na precisa medida em que procede a essa relativa absorção processual de outras tradições internacionais e as distribui perante nós, integradas numa perspectiva emocional própria. (...) O principal contributo da poesia de António Franco Alexandre não reside tanto na técnica de que nos torna participantes, mas na qualidade de réquiem urbano que nos faz ouvir, na mágoa dos corpos perdidos que nos faz partilhar, no desalento com que nos faz contemplar os objectos de um erotismo fatigado e infeliz. Essas , contudo, não deixam de ser importantes. Como a ampla construção de um poema através de sucessivas variações de um tema único ou de temas próximos, uma espécie de técnica pedida emprestada à sextina ou ao vilanelle, mas onde cada estrofe se visse explodida até um núcleo mais vasto de versos, constituindo uma das divisões em que se encontra articulado o poema» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos).

quinta-feira, 24 de julho de 2014

TUDO BONS RAPAZES


 
 
A bem dizer, têm todos um charme que lhes advém de uma aparente calma e da sabedoria. E que fique claro: não auferem do rendimento social de inserção.