sexta-feira, 11 de julho de 2014

DOIS MIL E DOZE


A morte reclama-me a uma velocidade feroz.
Resisto-lhe há cinquenta e nove anos, mas ela não confirma
a dispensabilidade da rasura, veio-me aos braços com uma dor fortíssima
e bloqueou-me as artérias, como se nada mais houvesse
a render ao preito que a tudo devo. A ladrar-me às canelas,
fincou-se no coração, a pôr uma inviabilidade no meu peito
que não sei suportar mas que, como regra ancestral, mais não posso
do que receber, a fechar todas as portas e todas as janelas, mas abrindo-as
porque já chorei demais. Morte a escrever-me na cabeça
a volatilidade, a importunar-me por todos os lados onde me pedalo,
a fazer de mim um mistério da física quântica, um gato
de Schrödinger, vivo e simultaneamente morto, febril pela realidade,
sem um cometimento de várzeas a que me possa arrostar,
um monte de destrezas em que aplicar as letras com que a minha vida
se compôs. Quer a morte que eu deixe de escrever, que o latido do poema
se não ouça, que eu rebente as têmporas por não o encontrar, consumido
pelo esquecimento a que me vejo destinado, neste silêncio iníquo
que a idiotia vigente força, este ultraje que o crapuloso impõe, sanciona, justifica.
Nenhuma morte é legítima, penso há décadas que nascer para morrer
é um descalabro divino, mas não me larga o pescoço a morte, vou num fascínio
de antílopes a atravessar a savana, o leão vigia-me, creio até que me protege,
mas a víbora acossa-me com múltiplos estratagemas, esta sombra, esta falta de mar,
este rosário de ampolas e drageias, esta deslocação de ar sobre as coisas futuras
que presentificam a aflição, como se não estivesse já, algures, o meu testemunho
a dizer: este rapaz punha as unhas de fora quando o sangramento se entrosava,
mas sempre foi de uma bondade avassaladora, o mais que fez foi nunca serenar.
Tomo o quinhão, a estrada estende-se para lá do entendimento, nem eu mesmo sei
como desemaranhar os meus piores pesadelos, a morte põe ravinas sob os passos,
põe lâminas, põe traições, e o alimento subverte-se, entre o sólido e o líquido,
entre os fluxos do corpo, esses jactos que, azuis e verdes, emanam do enigma
para que nada seja irremissível, nem benéfico, nem necessário quando o rufo nocturno
se ouvir, e for dia pleno, e a morte, atrás da luz, se esconder para, de novo, me cercar.
Inspecciona a morte os meus joelhos, digo-lhe, vou ali e já venho, preciso de um café
para acordar, e lá está o seu trabalho a progredir, enchem-se de tristeza
os meus olhos, o horizonte de árvores que à minha frente se abre é um rodízio
de extermínio, as mãos tremem-me, escorre um fio de saliva pelo meu queixo,
sujam-se as unhas da higienização hospitalar, nem paciente sou, o soro flui pelo tubo
de plástico, a cama oscila, encosta a morte o seu flanco a este silêncio assombroso
onde tudo é letal e, como sempre, a morte extravasa as minhas prerrogativas,
deixa-me fora de mim, ainda inocente, alma inestimável em busca de consolo,
porventura manejadora de percalços há tempo suficiente para que eu possa presumir
que a salvação existe, que pode morrer a morte mas eu nunca morrerei, pese embora
o débil batimento cardíaco, esses cumes, esses abismos, essas derrogações, o aparato
desta gente imortal que, na enfermaria, toda a noite geme a meu lado,
aquele rosto com um xaile sobre os cabelos a abençoar-me porque lhe acautelo o sono,
igual à minha mãe quando a vi no esquife, igual à minha avó na praia de Miragaia
a dançar o mais exuberante feitiço que alguma vez conheci, igual a mim
no retrato em que mais não era do que um menino acanhado a ver as ondas a ampliar
o areal da praia de Francelos. Dessa imortalidade somos, não há avalanche
que o não desminta, a vida é coisa errante e nunca seremos um erro,
a vida é o que se contrapõe à omissão, o esquecimento, esse cimento infecto há-de
vencer-se pelo que for irrestrito em nós, um livro que há-de abrir-se à força
de faca, ou escrever-se à míngua de desalento, ou construir-se por um tenaz vaticínio,
ou amar-se como se amou uma mulher, ou um filho, ou uma praia que se perdeu.
Ei-la que volta, a morte. Ei-la que insiste. Ei-la que rememora
os mortos que já revimos na migração inultrapassável, ei-la que nos restringe,
a dilatar o campo de visão da nossa memória - estou a morrer naqueles mortos
da infância mas que vivos permanecem sob a minha memória, estou a morrer
com esta anciã a quem abriram o coração e não irá resistir senão quanto os anjos
permitirem, estou a morrer pela tua ausência, meu amor, nem saber se existes
e se, existindo, alguma coisa sabes de mim, ou sabes e não queres saber.
Estou a morrer há cinquenta e nove anos consecutivos e a boa notícia
é que ainda subsisto e, na estante, perfilo uns quantos volumes onde inscrevi
o meu nome, apesar de teres sido tu, morte, a redigi-los, a prescrever-mos,
a desgastar-me o coração em sucessivos abalos e deflagrações constantes.
Ah, deixa-me em paz. Deixa que, entre tumultos, agora a minha vida se inscreva
como um epílogo, mas que não haja epílogo, mas só um riso sobre todas as coisas,
um riso apoteótico sobre as sombras, um alvoroço como uma arte poética,
certo acinte singularmente objectivo para que anda fique por dizer na matemática
da vida, palavras deslumbradas que se embicaram umas nas outras como quem
acede ao prejuízo da morte, este rosto desamparado, este riso que ergo
ao pressentir-te, este açougue infinito.


Amadeu Baptista (n. 1953), in Açougue (2012). «Amadeu Baptista é um poeta caudaloso que não tem tido o devido eco pelo facto de ter vindo a lume muitas vezes em editoras de escassa divulgação, o que não permite ao leitor comum ajuizar sobre o fôlego e a qualidade das suas mil páginas publicadas, que já dobram as duas dezenas de livros. (...) A poesia de Amadeu Baptista vive da tensão entre aquilo que descreve e o que a linguagem exuma, na linhagem duma prática imemorial que procura sondar as ressonâncias e "correspondências" entre natureza e imaginação» (António Cabrita, Expresso, 2004). 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

TURBE

juntando breu,
o'neill se rube.
deita mais rubé
e fica ubre, eu

sei que há mil
poeta na urbe
que faz bure
e não rubi, ó'neill.

Tenta rebu-
çado de erbu
para comer

a urbe com buré.
coisa de rebu: é
nil, poema béru.


Rui Costa, in Big Ode, nº 4, tema: Urbe, Março de 2008 - Junho de 2008, Edição e Design de Rodrigo Miragaia, Design de conceito de Rodrigo Miragaia e Sara Rocio, Coordenação de Maria João Lopes Fernandes, p. 92.

HIGIENE MENTAL

Nas mais de quarenta páginas que dedica à poesia de João Miguel Fernandes Jorge em Rima Pobre, Joaquim Manuel Magalhães cita um episódio paradigmático de um certo olhar sobre “os portugueses”:

vv. 14-15 — Ataque à maneira como os portugueses se deixam transformar à medida em que envelhecem; comparados a «porcos» em muitos dos seus comportamentos civilizacionais; daí que só enquanto novos, isto é, «leitões», possam ser reconhecidos como «bonitos»: ao contrário do que se supõe na civilização nórdica. (O jogo de palavras provém de um ataque a uma assistência maioritariamente jovem num programa de vídeos musicais, organizado por Miguel Esteves Cardoso na Fundação Gulbenkian. Vendo esse público reagir com gargalhadas provincianas a um vídeo de Marc Almond, o Miguel gritaria «porcos!» à assistência. O João Miguel ter-lhe-ia dito, para o acalmar, que eram tão novos e não tinham assim tão mau aspecto. O Miguel ter-lhe-á retorquido que então eram apenas «leitões» e em breve seriam «porcos».)

Excluindo o preconceito das gargalhadas provincianas, que suponho sejam distintas das gargalhadas urbanas onde o acontecimento teve lugar, consigo imaginar a situação. Lembra-me, aliás, uma outra, ocorrida em Coimbra aquando de uma leitura de poesia levada a cabo por Al Berto. O registo sonoro é sobejamente conhecido. Mas isto nada tem que ver com “comportamentos civilizacionais”, os quais são bem mais contidos e desinteressantes do que a javardice aludida permite supor. Isto tem que ver com uma outra realidade, muito mais complexa de expor e de pensar, mas que Ruy Belo sintetizou com uma expressão no prefácio ao primeiro livro de João Miguel Fernandes Jorge, prefácio esse, aliás, densamente rebatido por Joaquim Manuel Magalhães no ensaio supracitado. Escreve Ruy Belo:

Oxalá João Miguel venha a ser não só um poeta, num tempo em que a poesia morreu, mas também o «maor», como diz o Sr. Joaquim Baltazar, o banheiro da Senhora da Guia.

O sublinhado é meu. Aquele tempo em que a poesia morreu, o nosso, não nos livra desta ambivalência que é persistir na poesia para lá da morte. Sabemos que a poesia está morta, mas também sabemos que nem por isso se ausentou das nossas vidas. Torna-se, de facto, difícil encontrá-la onde o espectáculo deplorável da humanidade indiferente, distraída, apalermada se impõe. Mas de quando em vez lá surge, no meio da multidão, como um espectro que o poeta distingue. Há qualquer coisa de mediúnico no poeta hodierno, o que faz deste Portugal país de poetas (expressão por si só já deplorável) um país de médiuns, tanto quanto de trapaceiros, burlões, prestidigitadores, velhacos, vigaristas, intrujões, etc., etc., etc., que mais facilmente prosperam na cidade do que na província, onde as distâncias e o silêncio garantem, pelo menos, um certo isolamento imprescindível à higiene mental.

DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA


Para a Beatriz Vieira

Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
São alunos do curso nocturno e respondem a um
exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
deste estrado de aula.
Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso
dizer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
anos que vive num seminário adventista (mal
percebo o seu português e irá, decerto, na
pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever-
-me deuses com letra maiúscula e falará deles no
singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
meu por causa de um dos primeiros. Por causa
dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
veio dizer-me que também era monárquico e desde
então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
de Portugal.
O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
Belmira - lembro-me sempre da Benilde do 
Régio -, chegam, nunca faltam, são um confuso
poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
por demais crédulas e indiferentes à
enunciada mentira dos filósofos.
Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
apenas vem assistir aos meus longos monólogos
sobre o Fédon.
Por último o Zé Manel - o único com quem
gostaria de tomar um café depois da prisão
das aulas e saber que livros lê, que vinho
bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
a Susana perguntando se saber e conhecer
são coisas diferentes.)

Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.

João Miguel Fernandes Jorge (n. 1943), in A Jornada de Cristóvão de Távora, Segunda Parte (1988). «João Miguel Fernandes Jorge tem uma já extensa obra, cerca de uma trintena de títulos, tão aliciante como evasiva, num ritmo de verso, entoação e imagens extremamente fluidos, com a constante surpresa de referências pessoais ou culturais, onde se justapõem títulos e traços históricos, alusões sibilinas de diverso sabor epocal, farrapos de fala viva; por vezes parece que esta música concreta verbalizada dá lugar à simples imagem flagrante, embora desgarrada, que tenderia por isso a eclipsar a metáfora, ou seja, tenderia à translação universal do significante; noutros momentos, com a rasura do sujeito, o senso de precariedade atinge a sua mais sóbria aridez (...)» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «A relação de alguma poesia de João Miguel Fernandes Jorge com temas, motivos e episódios históricos é um aspecto importante. (...) Esta relação com a história é, nas suas motivações e implicações, não muito diferente daquela que uma outra parte da obra do poeta mantém com a arte. Em ambos os casos estamos perante a tendência para descentrar a poesia, para a libertar de complexos expressivos, de absolutos poéticos, de intransitividades» (António Guerreiro, Expresso, 9 de Abril de 2005). 

ESPÍRITO SANTO DE ORELHA


Terá o camarada ouvido falar dos esquecimentos do nosso amigo Ricardo Salgado, que deixou 8,5 milhões de euros por declarar ao fisco. Ora, toda a gente sabe que o Salgado é um doce de pessoa. Jamais deixaria de declarar o que quer que fosse, não fosse, passe a redundância, ter-se esquecido. Acontece aos melhores, esquecerem-se de declarar 8,5 milhões.

 ***

Vi o salário de Ricardo Salgado cair 31% em 2012. Agora apenas aufere 552 mil euros por ano, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deve fartar-se de trabalhar, o desgraçado.

***
O Ricardo Salgado diz que os portugueses preferem o subsídio de desemprego. O Primeiro-ministro sugere aos portugueses que emigrem. O Ricardo Salgado ganha 548 mil euros por ano. A Carris ganhou 15 milhões cortando nos salários e aumentando bilhetes. A Carris perdeu 17 milhões com os swaps. Os portugueses não sabem o que são swaps.
 
 
 
Ricardo Salgado, que apoiou a recandidatura de Cavaco, também tinha excelentes ideias sobre o salário mínimo. Um homem inteligente, honesto, amigo do seu amigo, dirão quando falecer.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

«Mas porquê esta canção / Tarada e quase bucólica?»


Calçada da Glória, Lisboa. 2012.

O XERIFE

Trouxeram um esquife
E meteram-no dentro
Com ordem do xerife
P'ra bom isolamento.

Antes ali xerife
Do que em cidades foscas
No género de Lisboa:
Pasmo, calor e moscas.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Cristovam Pavia.

INSISTÊNCIA RACIONAL

Um amigo meu uma vez explicou-me tudo isto bem longe de todas estas explicações. Disse-me: «Já reparou que depois de um charro faz tudo sentido com os poemas do João?»
O leitor é que sabe. Eu não sabia. Concerteza perdi tempo demais com a insistência racional.
 
Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre - poesia portuguesa de agora, Editorial Presença, Abril de 1999, p. 188, a propósito de João Miguel Fernandes Jorge.

MILTON AVERY (1885-1965)


UM POEMA DE JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

À PRAÇA DA REPÚBLICA

Disseram-me em criança o que era aquilo
que eu estava agora a ver. Disseram-me
que se chamava foder ao mais desejado por
dois corpos. Foder era, pois, aquilo.
Uma folha sobre outra folha
uma pedra entrando numa página.

Não tinha cheiro nem gosto tão-pouco
qualquer ilusão. Ausentes estavam os
sentidos e morava naquilo em que pousavam
centena de olhares, um enlanguescido golpe
sobre golpe. Caralho erigido, agudo;
cona vergada e furtiva. Táctil. Eco
de me terem dito ser aquilo que
eu estava agora vendo: foder.

Nem sequer o saber do tempo
respeitou sonhos de juventude. Nem sequer a morte.
(Mais tarde haveria de ver
dois mármores, lisos, de Fabro, fodendo
nos degraus de umas escadas. Outras pedras
espreitavam na balaustrada
os lamentos, os túmulos, os silêncios, as sombras.)

João Miguel Fernandes Jorge, do livro O Barco Vazio (1994), in Março, Os Remadores no Douro, Edições Asa, Fevereiro de 2002, p. 25.

terça-feira, 8 de julho de 2014

DEUS

Gostava muito de poder ir a este encontro. Apesar de ser ateu, o tema Deus sempre me interessou. No entanto, lamento a ausência na antologia de um poeta para quem Deus, sob diversas formas, sempre esteve no centro de tudo quanto escreve: António Barahona da Fonseca. Aliás, julgo mesmo ser o único dos poetas portugueses onde valha a pena perscrutar o tema do sagrado (a par de Herberto Helder, claro).

RESTOS

Acontece-me por vezes ser surpreendido pelos restos, pelo que fica para lá do aproveitável. Certos poetas, não necessariamente os que publicaram pouco e deixaram muitos inéditos, interessam-me mais pela lateralidade do que pelo chamado corpo canónico do seu trabalho. Aos restos, os críticos tanto podem chamar “poemas de valor duvidoso” como “poemas de valor porventura menor”. Estou-me nas tintas, até porque tenho há muito para mim que o valor de um poema está mais no que diz a quem o lê do que no que alguns querem que ele diga a quem nem sequer se dá ao trabalho de o ler. Ao regressar a Cristovam Pavia, voltei a deparar-me com os restos de um poeta a quem agradeço toda a comida deixada no prato. Confesso que prefiro essa à outra, vá lá perceber porquê. Exemplos:

Construiu a poesia como uma casa
E fechou as janelas por dentro.
E ficou fechado lá dentro.
Depois foram abertas todas as torneiras
E a casa desceu no espaço
Como uma gota de água.

***

O Senhor que foi à fonte
Encontrou um lubizonte
Que se abespinhou com ele…
Foram os dois para um talho
Comer carne de porcalho
E também de um urso reles
Comeram pêlos e peles
E através de um discurso
Ressuscitaram o urso
E o urso deu cabo deles.

***

LITANIA DA RUA DOS FANQUEIROS

Ó porque será este chulé ibérico
Em Espanha é pitoresco mas aqui é pindérico
    Ó Rua dos Fanqueiros
Ó Salazar com teu rebanho de sacristas
Pensar que isto já foi terra de sardinha assada e de fadistas
     Ó Rua dos Fanqueiros
Ó Lisboa ó Lisboa enjoada e indecente
Ó cidade sifilítica, são carochas ou gente?
    Ó rua dos Fanqueiros
Ó Portugal minha pátria de meia-tigela
— Aqui para nós, passa-se tão bem sem ela!


***


Escrevo em papel de retrete
Os meus ditos poemáticos,
Meus poemas também ditos
Meus por assim dizer escritos
Escritos porém na retrete
Porquê porém, como o frete
De rimar retrete e gritos
Que mais não são que soluços
Pruridos de literatura
Da alma estéril e dura
Porquê soluços? Arrotos,
Para dizer mais chãmente…
(Falta rima para arrotos:
Embora literariamente,
Talvez o mais coerente
Ainda seja: esgotos.)



São brevíssimos exemplos de um poeta descomprometido, sem constrangimentos formais, temáticos, sem preocupações de organização ou coerência. Muito provavelmente, estes poemas são ocasionais, não foram escritos a pensar num livro, surgiram livremente, de um improviso, com a espontaneidade de um arroto. Para mim, isto é o que há de mais belo na poesia. O resto é escrita criativa.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

ÚLTIMAS DISPOSIÇÕES DO H.M.E.

Para começar tirem-me este trapo da cara, que faz cócegas
e amortalhem nele o meu gato e enterrem-no
ali onde era o meu jardim cromático.

Levem a coroa de latão de cima do meu peito
e atirem-na às estátuas erguidas no entulho,
e ofereçam os laços às putas, para que com eles se enfeitem.

Rezem as orações a um telefone antiquado e sem fio
ou embrulhem-nas num lenço de assoar cheio de farelos
para os estúpidos peixes do charco.

O Bispo que fique em casa e se emborrache,
dêem-lhe uma garrafa de rum
(o sermão vai fazer-lhe sede).
E deixem-me em paz com lápides e chapéus altos!
Com o belo basalto pavimentem uma viela
onde ninguém more,
uma Ruazinha para pássaros.

Na minha mala há muito papel amarelo para o meu primo miúdo
fazer com ele avionettes que hão-de voar, bonitas, da ponte
e ir mergulhar no rio.

O mais que fica (umas cuecas, um isqueiro, uma linda opala
e um despertador) isso é para oferecer a Calístenes, o trapeiro,
com a devida gorjeta.

Quanto à ressurreição da carne, entretanto, e à vida eterna,
dessas coisas trato eu, se estão de acordo:
É cá comigo, não acham? Então, adeus!

Na banca de cabeceira há ainda alguns cigarros.


Cristovam Pavia, in Poesia, edição de Joana Morais Varela, prefácio de J. B. Martinho, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 2010, pp. 190-191. Segundo nota: Presumivelmente datado de 1956, no Hospital Militar da Estrela, em Lisboa. Manuscrito: no espólio do poeta, em duas folhas soltas. Edita-se pela primeira vez. Cristovam Pavia, pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho, nasceu em Lisboa a 7 de Outubro de 1933. Publicou um único livro em vida: 35 Poemas (1959). Suicidou-se a 13 de Outubro de 1968.

domingo, 6 de julho de 2014

POEMA VESPERAL


Dizem que não tenho idade para estar cansado.
Digo que não tenho idade para estar cansado.
Mas eu estou irremediavelmente cansado...
Não sei se conheço ou não a Vida,
(Toda a gente diz que não, que é impossível...)
Contudo, estou cansado.

Representei
E cansei-me; e desatei a gritar tudo... toda a Verdade.
Febrilmente gritei, rasguei máscaras, cuspi máscaras...
Agora até disso estou cansado
E nem leio o meu Baudelaire... o Príncipe de Todos.

Experimentei «tomar alegria»,
Ouvir danças bárbaras,
Ver danças bárbaras,
Grandes contorções modernas,
- Sabiam falso...

Mais tarde descobri morto aquele-menino-que-fui.
Chorei... tive saudades... ai!, puro menino saudável...

Cansei saudades e lágrimas também...

- Ainda procurei vibrar...
Vibrar!, vibrar!
Vibrou apenas minha carne
E até ficar exausta, também...

Estou muito cansado.

Só interessa ir para a cama
E dormir...

Dormir bem...


Cristovam Pavia (n. 1933 - m. 1968), in Poesia [Julho de 1949]. «Ainda que usando uma prosódia ligada predominantemente ao verso-livre, a sua poesia assenta na tradicional expressão dos sentimentos pelas palavras e, contudo, não com elas. Quero dizer: não há, na sua poesia, qualquer consciência de o jogo verbal se poder prestar a uma exploração voltada para si própria, através de um adensamento da estratégia vocabular do poema. Aquilo a que procede é à utilização da linguagem tal como um critério como o gosto lhe diz para a usar, de modo a que essa linearidade nos transmita determinadas experiências íntimas. A sua poesia nunca aponta para a construção do sentido, mas para objectos sentimentais que nos chegam pela limpidez tradicional da frase. Afasta-se, deste modo, duma das pulsões fundamentais da poesia do pós-guerra entre nós, que consiste em procurar um sentido do poema nos próprios modos de expressão verbal. Propõe-nos, ao contrário, o desejo de um certo romantismo ao assumir o poema como exclamação duma experiência pessoal íntima, impulso acordado por essa experiência privilegiada dentro de nós e viabilizado para os outros através da partilhável linguagem de todo comum» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos). 

sábado, 5 de julho de 2014

SABOTAGE


Num breve ensaio intitulado A Invenção da Teatralidade (Deriva, Novembro de 2009), Jean-Pierre Sarrazac afirma que «o texto tem obrigatoriamente no seio da representação uma função e um estatuto distintos dos das outras componentes… Em primeiro lugar, por defeito: o texto é o único elemento que deixa de existir por si próprio – enquanto texto escrito – no acto da representação; ele transforma-se, metamorfoseia-se, podendo mesmo anular-se durante o tempo em que se manifesta… Depois, por excesso: o texto é invasivo de uma forma muito diferente de todo e qualquer outro elemento presente em cena – através dos corpos, das vozes, do espaço, e mesmo no espírito dos espectadores que podem dele ter tido conhecimento antes da representação» (pp. 37-38). Independentemente deste conhecimento prévio, podemos olhar para o texto dramático já como uma espécie de palco sobre o qual encenador e actores exercerão a sua liberdade interpretativa. Ao contrário do texto poético, que coloca em relação directa autor e leitor através do poema, o texto dramático pressupõe entre o autor e o público alguns intermediários: encenador/actor. Esta relação talvez condicione a escrita, na medida em que, consciente da complexidade relacional do seu texto, o dramaturgo talvez parta para a escrita já na perspectiva de uma representação (o que é diferente de partir para a escrita com o propósito único de vir a ser lido). Apoiando-se no filme This Land is Mine (1943), de Jean Renoir, para a concepção de Sabotage (Douda Correria, Junho de 2014), Miguel Castro Caldas (n. 1972) oferece ao leitor, o primeiro dos “públicos”, uma possibilidade de enquadramento que pode simplificar a leitura. Está implícito neste processo uma sabotagem do próprio texto, o que faz do livro de Castro Caldas um curioso objecto de reflexão sobre os mecanismos da construção dramatúrgica. O leitor menos preguiçoso tem a possibilidade de satisfazer a curiosidade vendo o filme (acessível, desde logo, no Youtube), embora não se imponha que o veja para entender o texto. Sucede que vendo-o, a leitura saboreia-se com outro gosto: oferece-se à imaginação um cenário onde as tensões se intensificam, podendo inclusive os pormenores mais datáveis ser ultrapassados por uma rede de associações que actualizam a narrativa à luz dos nossos dias. O tom denunciadamente propagandístico do filme de Renoir não é desrespeitado, embora readquira uma força que a raiva do leitor actual, por certo também ele vítima de falsas acusações, alimentará com aquele sentido de injustiça onde o réu que é vítima vai descobrir a coragem que desconhecia possuir. Quem é Albert Lory? É um professor de liceu que anda pelos quarenta, vive com a mãe, de ar cândido e algo desajustado. Tem uma paixão, Louise, noiva do empresário George Lambert, colaborador da força ocupadora (naquele tempo, os nazis), irmã do resistente Paul Martin (que foi denunciado por Lambert). Lambert aparece morto e as suspeitas recaem sobre Lory. Crime passional? As interrogações sobre a justiça, e a forma como o poder exerce sobre os cidadãos os seus padrões de rectidão, percorrem o texto à superfície. Miguel Castro Caldas esquiva-se a uma replicação das teses anteriormente afloradas pelo filme de Renoir, preferindo recentrar-se noutras dimensões do conflito: «esta coisa de se dizer sagrado é o amor, basta googlar, quatrocentas mil entradas e em inglês cento e dezoito milhões. sagrado o amor, sagrada a amizade, sagrada a propriedade, sagrado o matrimónio, mas o amor pode ser uma coisa terrível, pode ser uma coisa criminosa, a começar no amor de mãe». E o resultado é uma explosão da personagem de Albert Lory, que não é apenas vítima de uma falsa acusação nem de uma situação fortemente condicionadora das acções individuais, mas também vítima de si próprio, de trazer calada nos calabouços da resignação «uma frase daquelas que se gravam na pedra / a sabotagem é a única arma que resta a um povo derrotado». Já não lhe interessa a acusação de que é vítima, pouco lhe importa se julgam que matou ou não. Tem a possibilidade de sair ilibado mas não quer, prefere exorcizar-se perante o seu público, recusa-se «a ser bombeiro da sobrevivência». Albert Lory quer viver e, neste tribunal, readquire, de facto, uma vivacidade estonteante. A defesa de Albert Lory, apesar de basear-se no filme This Land is Mine, tem muito mais que ver com a Defesa de John Brown, de Henry David Thoreau, porque o que aqui está em causa é a consciência individual daquele que, isolado perante o poder, sabe o que o espera se desafiar a lei: o desprezo e a solidão são o imposto a pagar pela consciência livre. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

#34


Empurrado para o pântano da fama por causa de uma canção incluída na banda sonora do filme Good Will Hunting (1997), o escritor de canções Elliott Smith (1969-2003) teve uma existência fugaz. No entanto, deixou-nos um legado precioso de canções de que XO (1998) é apenas uma recolha (a quarta). As composições de Smith reinventam aqui o pendor elegíaco de registos anteriores com uma produção elegante, sendo certo que as melodias sobre as quais pronuncia frases desencantadas e inquietas propiciariam, porventura, ambientes depressivos que os arranjos de cordas e sopros conseguem tornar bastante atractivos. Tendo como suporte ora o piano, ora a viola acústica, a voz de Elliott Smith arrasta-nos para refúgios introspectivos e escuros, embora no centro da escuridão surja invariavelmente a luz de uma vela que não é meramente decorativa: é a razão de nos deixarmos arrastar pela cadência geralmente apaixonada, apesar das letras pesarosas. Os dedilhados são perfeitos, permitindo contrastes que poucos dos escritores de canções da mesma geração se deram ao trabalho de explorar. Há uma elaboração melódica nestas canções que as torna imortais:



PROJECTO DE SUCESSÃO


Para o Mário Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

António Maria Lisboa (n. 1928 - m. 1953), in Ossóptico e Outros Poemas. «A sua produção conhecida contém alguns dos mais surpreendentes textos do surrealismo português, mas que, na maioria, talvez por morte prematura do autor, ou pela destruição de quase todo o espólio inédito, nos deixa sobretudo intrigados» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes in História da Literatura Portuguesa). «As preocupações fundamentais surrealistas portam-se como pilares da obra poética de António Maria Lisboa. Sua via principal segue rumo à liberdade do homem. Elementos como o amor, o sonho, o humor, o exótico e o esoterismo surgem na sua poesia como meios de atingir a libertação total, levando-o, pela transcendência de uma noção rasa de realidade, a atingir uma vida plena, da qual se encontra exilado» (Virgínia Boechat, in Do Amor em Vidro: António Maria Lisboa).

quinta-feira, 3 de julho de 2014

BURACO AZUL

Eu gostava de uma urbe que fosse dentro de um buraco azul como o da fotografia [a fotografia é a preto e branco mas fazem de conta?]
Um buraco azul que não ocupasse demasiado espaço por fora e que, lá dentro, fosse enorme para esticar as pernas e os braços e todas as tardes encontrar um café novo e uma mulher bonita (podia ser uma mulher verde, daquelas com algas no alto da cabeça, ou uma mulher negra com os mamilos espetados e sem deixar espaço na boca para respirar). Este buraco seria uma espécie de bolso na saia do universo; e de cada vez que acontecesse alguma desgraça a mulher da saia abanava o rabo e a desgraça saía cá para fora e ia chatear um universo muito longe. Não sei se esta ideia será muito praticável do ponto de vista dos arquitectos, engenheiros e economistas. Mas deixem-se convencer na mesma, porque eu preciso de mais uma pessoa para começar a urbe. O meu email é: msgtorc@hotmail.com.

Rui Costa, in Big Ode, nº 4, tema: Urbe, Março de 2008 - Junho de 2008, Edição e Design de Rodrigo Miragaia, Design de conceito de Rodrigo Miragaia e Sara Rocio, Coordenação de Maria João Lopes Fenrandes, p. 92.

IVAN JUNQUEIRA (1934-2014)


Um poema: aqui.

HH

Em termos profissionais, nunca senti tanto o ridículo de uma profissão como com a situação gerada em torno de MSM. É tudo tão absurdo que contado ninguém acreditaria.

PRIMÁRIAS

Com esta história das primárias, o PS tem-se revelado um partido primário (no sentido de medíocre, pueril, limitado). Até cartazes já apareceram nas ruas apelando ao voto nas primárias, o que coloca a luta interna no partido a um nível acima da inteligibilidade. Só há uma salvação para os socialistas: bananas do Lidl.

terça-feira, 1 de julho de 2014

PROTOPOEMA DA SERRA D'ARGA


Sonhei ou bem alguém me contou
Que um dia
Em San Lourenço de Montaria
Uma rã pediu a Deus para ser grande como um boi
A rã foi
Deus é que rebentou

E ficaram pedras e pedras nos montes à conta da fábula
Ficou aquele ar de coisa sossegada nas ruínas sensíveis
Ficou o desejo que se pega de deixar os dedos pelas arestas das fragas
Ficou a respiração ligeira do alívio do peso de cima
Ficou um admirável vazio azul para crescerem castanheiros
E ficou a capela como um inútil côncavo de virgem
Para dançar à roda o estrapassado e o vira
Na volta do San João d'Arga

Não sei se é bem assim em San Lourenço da Montaria
Sei que isto é mesmo assim em San Lourenço da Montaria
O resto não tem importância
O resto é que tem importância em San Lourenço da Montaria
O resto é a Deolinda
A Deolinda dança a goita é leve
E feia a Deolinda
Dança os amores que não teve
Tem o fôlego do hálito alheio que lhe faltou a amolecer a carne
Seca como a da penedia

O resto é o verde que sangra nos beiços grossos de apetecerem ortigas
O resto são os machos as fêmeas e a paisagem é claro
Como não podia deixar de ser
As raízes das árvores à procura de merda na terra ressequida
Os bichos à procura dos bichos para fazerem mais bichos
Ou para comerem outros bichos
Os tira-olhos as moscas as ovelhas de não pintar
E o milho nos intervalos

Todas estas informações são muito mais poema do que parecem
Porque a poesia não está naquilo que se diz
Mas naquilo que fica depois de se dizer
Ora a poesia da Serra d'Arga não tem nada com as palavras
Nem com os montes nem com o lirismo fácil
De toda a poesia que por lá há

A poesia da Serra d'Arga está no desejo de poesia
Que fica depois da gente lá ter ido
Ver dançar a Deolinda
Depois da gente lá ter caçado rãs no rio
Depois da gente ter sacudido as varejeiras dos mendigos
Que também foram à romaria

As varejeiras põem as larvas nos buracos da pele dos mendigos
E da fermentação
Nascem odores azedos padre-nossos e membros mutilados

É assim na Serra d'Arga
Quando canta a Deolinda
E vem gente de longe só para a ouvir cantar

Nesses dias
As larvas vêem-se menos
Pois o trabalho que têm é andar por baixo das peles
A prepararem-se para voar

Quanto aos mendigos é diferente
A sua maneira de aparecer
Uns nascem já mendigos com aleijões e com as rezas sabidas
Do ventre mendigo materno
Outros é quando chupam o seio sujo das mães
Que apanham aquela voz rouca e as feridas
Outros então é em consequência das moscas e das chagas
Que vão à mendicidade

Não mo contou a Deolinda
Que só conta de amores
E só dança de cores
E só fala de flores
A Deolinda

Mas sabe-se na serra que há uma tribo especial de mendigos
Que para os criar bem
Lhes põem desde pequenos os pés na lama dos pauis
Regando-os com o esterco dos outros

Enquanto ali estão a criar as membranas que valem a pena
Vão os mais velhos ensinando-lhes as orações do agradecimento
Eles aprendem
Ao saberem tudo
Nasce de propósito um enxame de moscas para cada um

Todas as moscas que há no Minho
Se geraram nos mendigos ou para eles
E é por isso que têm as patinhas frias ou peganhosas
Quando pousam em nós
E é por isso que aquele zumbido de vaivém
Das moscas da Serra d'Arga
Ainda lembra a mastigação de lamúrias pelas alminhas do Purgatório
Em San Lourenço da Montaria

Este poema não tem nada que ver com os outros poemas
Nem eu quero tirar conclusões como os poetas nos artigos de fundo
Nem eu quero dizer que sofri muito ou gozei
Ou simplesmente achei uma maçada
Ou sim mas não talvez quem dera
Viva Deus-Nosso-Senhor

Este poema é como as moscas e a Deolinda
De San Lourenço da Montaria
E nem sequer lá foi escrito

Foi escrito conscienciosamente na minha secretária
Antes de eu o passar à máquina
Etc., que não tenho tempo para mais explicações

É que eu estava a falar dos mendigos e das moscas
E não disse
Contagiado pelo ar fino de San Lourenço da Montaria
Que tudo é assim em todos os dias do ano
Mas aos sábados e nos dias de romaria
Os mendigos e as moscas deles repartem-se melhor
São sempre mais
E creio de propósito
Ser na sexta-feira à noite
Que as mendigas parem aquela quantidade de mendigozinhos
Com que se apresentam sempre no dia da caridade

Elas parem-nos pelo corpo todo
Pois a cerne
De tão amolecida pelos vermes
Não tem exigências especiais
E porque assim acontece
Todos os meninos nascidos deste modo têm aquele ar de coisa mole
Que nunca foi apertada

Os mendigos fazem parte de todas as paisagens verdadeiras
Em San Lourenço da Montaria
Além deles há a bosta dos bois
Os padres
O ar que é lindo
Os pássaros que comem as formigas
Algumas casas às vezes
Os homens e as mulheres

Por isso tudo ali parece ter sido feito de propósito
Exactamente de propósito
Exactamente para estar ali
E é por isso que se tiram as fotografias
Por isso tudo ali é naturalmente
Duma grande crueldade natural
Os meninos apertam os olhos das trutas
Que vêm da água do rio
Para elas estrebucharem com as dores e mostrarem que ainda estão vivas
Os homens beliscam o cu das mulheres para que elas se doam
E percebam assim que lhes agradam
Os animais comem-se uns aos outros
As pessoas comem muito devagar os animais e o pão
E as árvores essas
Sorvem monstruosamente pelas raízes tudo o que possam apanhar

Assim acaba este poema da Serra d'Arga
Onde ontem vi rachar uma árvore e me deu um certo gozo aquilo
Parecia a queda de um regímen
Tudo muito assim mesmo lá em cima
E cá em baixo dois suados à machadada

Ao cair o barulho parecia o de uma coisa muito dolorosa
Mas no buraco do sítio da árvore
Na mata de pinheiral
O azul do céu emoldurado ainda era mais bonito
Em San Lourenço da Montaria

António Pedro (n. 1909 - m. 1966), in Protopoema da Serra d'Arga (1948). «O primeiro português distintivamente surrealista, António Pedro contactara com o Grupo Surrealista Inglês quando locutor da BBC durante a guerra e tornou-se o mentor do primeiro Grupo Surrealista de Lisboa. Num efémero período de dois ou três anos, 1947-50, através da grande instabilidade desse grupo e da, ainda maior, de outro grupo dissidente (1949-51), editaram-se quatro cadernos, realizaram-se exposições e conferências, além de outros actos, cuja maior notoriedade foi, em 1949, atingida por uma série de debates públicos, a certa altura tumultuosamente boicotados, no Jardim Universitário de Belas-Artes» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «A sua versatilidade - também como ceramista iniciou uma renovação formal - e o seu multímodo talento têm, aos olhos de muitos, desvirtuado a unidade essencial de uma notabilíssima personalidade, entusiástica e original, com um extraordinário sentido do sabor das palavras, e que escreveu uma obra-prima do "romance surrealista": Apenas Uma Narrativa (1942), em que a imaginação, tantas vezes abstraccionante, do surrealismo adquire, como na sua pintura, um peso de regionalismo, de truculência campestre, de visão poética de uma realidade que transborda de símbolos verbais ou plásticos que são constantes da sua expressão. O mesmo sucede com a sua poesia, que foi evoluindo de uma lírica simplicidade à Guilherme de Faria, seu companheiro de juventude lisboeta, através dos aspectos fantasiosos e graciosos de certo modernismo, até um barroquismo cheio de gosto pelo concreto, que as experiências "dimensionistas" do poeta (...) preparavam para a libertação surrealista» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas).

PARABÉNS


 
Carlos do Carmo, um dos nomes históricos do fado, vai receber em Novembro um Grammy pela sua obra. A decisão foi tomada por unanimidade pelo Conselho Directivo da Academia Latina (Latin Academy of Recording Arts and Sciences) e foi comunicada directamente ao cantor na tarde de segunda-feira, 30 de Junho, e anunciada nesta terça-feira oficialmente à imprensa. É a primeira vez que um português recebe tal distinção.

BICHO RUIM

Leio weblogs desde 2003, ano em que também fui pai (pela primeira vez, que saiba), publiquei a Antologia do Esquecimento, comecei a escrever um weblog. E julgo que foi em 2003 que ouvi falar, pela primeira vez, do Rui Manuel Amaral. Aí está ele, a solo, no Bicho ruim. Boa malha!