domingo, 14 de setembro de 2014

QUATRO VOZES UM DIA À VEZ


1.
No princípio havia o campo e os lavores,
éramos oito irmãos e um que morreu,
o pai a monte, a mãe aflita e sempre alguém
adoecia, e foi quando se meteu para Lisboa
para tratar uma com mais complicações;
acharam felizmente onde servir
e então viemos todos a seguir. Eu
com jeito para coser, idade para namorar,
afeiçoei-me, tive sorte, arranjei bom marido,
bons sogros. Foi ele à frente, já nascida a filha,
tentar a sorte para o ultramar, pôs-nos casa,
mandou-nos chamar, Angola, tão diferente,
outros modos de ser livre, de ter sol, nem
notei nunca que um preto quisesse mal à gente
quando ia lá às sopas do jantar, saíamos
sempre aos fins de semana, há uma foto
em que eu estou de fato de banho a pescar;
casou mal o meu rapaz, não sei onde anda,
mas há que precaver o que deixamos
criei 3, tenho 6 netos, 2 bisnetos
e aos 85 anos tanto ainda que fazer.

2.
Nunca quis dar desgostos a meus pais
e tenho hoje duas filhas que não espero ver,
mas nunca disse mal de ninguém e não
peço mais para mim: mesa para comer, cama 
para dormir, casa onde viver - a minha agora,
à R. das Canastras, é grande, e eu por aqui
ando desde que morreu o pai e fugi e deixei
para lá a guardar gado o homem que era ruim
e me fazia desgraçada. Vim servir e tanto tempo
me faltaram tecto e condições, e chegou Abril
e eu ajudei a União dos Trabalhadores mas
não quis ocupar nunca, antes fui
pagar com o meu dinheiro e um empréstimo
de cento e dez contos ao banco na altura
gostei do ar da revolução, mas me desapego
hoje destas ruas onde cheira a falta
de respeito e podridão. Por isso mais
fico onde me sinto em família
com o meu filho e o meu neto e as arrelias
da minha nora. Fiz de tudo
para não passarmos fome. Não aprendi
a escrever mas apanho bem as legendas,
só me custa quando tenho de assinar o nome.

3.
Menina fui levada de casa de meus pais,
mas melhor sorte achei que a moça
do Bernardim; sempre tive bom trato
e sempre gostaram de mim. Mais:
fiz o que quis, não fiquei por casa
a ser prendada porque era amiga da rua,
de bailes e vara larga, e tanto o ar
me faltava que o meu tio acedeu
a montar um estabelecimento onde eu
pudesse trabalhar. Tirei cursos, guardei
livros, e pus-me cedo a namorar com o rapaz
que desde os catorze anos montou cerco
à minha casa. Ora, já na altura eu pela rua
o catrapiscava, pelo que foi "ver-te
e amar-te". Muito felizes fomos até
que lhe veio a morte. Tínhamos um cão
que gostava de dar cabo do terraço.
Por entre visitas de filhos e vizinhos,
cultivo a leitura e as minhas quadras,
semeio canteiros, e ainda conversamos muito
os dois, dou os meus passeios e depois
com doçura conto-lhe, para que se lembre.

4.
Eu cá nasci do nada e fui criada
por um funileiro que tinha mão de artista
mas que todos sabiam não ser meu pai,
e há quem diga que fui filha
de ciganos ou comunistas. Não sei
da história da mulher que pôs em verso
uma mosca a zumbir quando morreu,
e se viu jazer, a gente à volta e fosca
a luz, posto que aberta ainda
a janela; sei, porém, do insecto insolente
que ciranda em dias e se enrosca
adentro do que nos cerca e nos traz sós.
Mas mal ou bem, não troco
este presente, um dia à vez, sentir
a minha fibra, mau grado os ossos fracos -
antes ouço a corda de aço que em mim vibra.


Margarida Vale de Gato (n. 1973), in Mulher ao Mar - Retorna (2013). «Trata-se de uma poesia dotada de uma perícia quase virtuosa na construção, na invenção métrica e vocabular, e no uso lúdico, irónico, parodístico e evocativo das formas e dos tópicos temáticos da tradição literária. Ou seja, é uma poesia altamente culta, mas que sabe dissimular muito bem, e tornar produtivo, aquilo que de outra maneira seria pesado e esterilizante. Não se trata, portanto, de um talento a funcionar no vazio ou na contemplação deslumbrada de si mesmo. O que aqui há de lúdico – e é muito – nunca sucumbe à frivolidade e ao gratuito. É um jogo pouco inocente e capaz de esconjurar os perigos dos discursos psico-sociológicos sobre a diferença sexual e as construções culturais que legitimam a dominação masculina. (…) Esta é uma poesia que se escuda num segundo grau, não por via da reflexividade que o modernismo herdou do romantismo teórico, mas por via de uma distância salvífica em relação à matéria de que trata (a sua “matéria de Bretanha” é a mulher e o feminino), não por cinismo ou ironia. E é nessa distância que reside precisamente a inteligência ‘política’ – que é também uma inteligência literária – desta poesia» (António Guerreiro, Expresso, 19 de Junho de 2010).

PROFISSIONAIS DA POBREZA


Ricardo Salgado, esse doce de pessoa que um dia espantou o país com seus lapsos de memória (esquecer-se de declarar nove milhões ao fisco não é para qualquer Alzheimer), aparece no The Financial Times com cara de Metralha. Aos quadradinhos, só mesmo a metáfora – que neste país os Metralha passeiam-se como passarinhos a vida inteira. O homem para quem os portugueses preferiam o subsídio de desemprego a trabalhar era uma espécie de Jonet dos bancos (não propriamente dos alimentares), que ainda recentemente veio confrontar de novo o mundo com as suas peculiares perspectivas da pobreza: «Há profissionais da pobreza em Portugal». Pois há, e talvez se chamem Salgado e sejam metralhas (sic) e tenham famílias numerosas. A beta do Banco Alimentar certamente andará incrédula com a desgraça em que caiu a família Espírito Santo, a boa família Espírito Santo. E nem lhe passará pela cabeça que profissionais da pobreza são quem torna o país mais pobre, quem o rouba, quem o trai, quem o vigariza e saqueia com suas fraudes milionárias. Convém nunca esquecer que antes de ser tratado como Metralha o bom Ricardo foi condecorado e premiado com invejável recorrência:

Foi nomeado Economista do Ano, pela Associação Portuguesa de Economistas (1992) e Personalidade do Ano, pela Câmara Portuguesa de Comércio do Brasil (2001). Recebeu as condecorações de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito (1994) e da Ordem Nacional da Legião de Honra (2005), de França, e a de Grande-Oficial da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul (1998), do Brasil. Em 2012, foi condecorado Commander's Cross Order of Merit da República da Hungria  e distinguido na categoria Lifetime achivement em Mercados Financeiros nos Investor Relations and Governance Awards 2012, iniciativa da Deloitte que distingue as melhores práticas no sector empresarial. Em julho de 2013 foi-lhe atribuído o douturamento Honoris Causa pela Universidade Técnica de Lisboa, tendo sido distinguido por serviços prestados à Economia, Cultura, Ciência e à Universidade.


Curriculum apreciável de um homem exemplar, apesar de Metralha, apesar de esquecido. Enfim, sabemos agora, nunca é tarde para descobri-lo, quem é um dos irmãos Metralha. Mas quem serão os outros? E quem é o Tio Patinhas nesta história? Aguardamos pacientemente os próximos episódios, cada vez mais desconfiados dos bons currículos desta malta profissionalizada em… esquecimentos.

sábado, 13 de setembro de 2014

VIBRATE


Andei toda a noite de rua em rua
à procura de nada levava o IPod
para ouvir rufus até perceber
que por ti o coração entrara em loop,
um pouco mais amargo ia deixando atrás de mim
a orla vã do futuro o rio de uma só margem
alguém mais adiante voava num skate e sem parar
pediu um cigarro o seu pequeno gorro
branco estendido estandarte de um destino
torto que acompanha a neblina deixei
toda a solidão do rio ecoar na tua voz
não ia à procura de nada, de ninguém
porque a vida crescera demasiado depressa.

E a canção continuava astuta, a divagar com
olhos de verdugo, numa deriva de combate,
que moeda de troca quer o destino?, o teu corpo
encerado a bronze, agitado na escuridão — Oh, a romantic
blowjob! —, uma insónia de escadas e elevadores,
portas queimadas, o sorriso complacente do quarto escuro?

Sento-me a escutar os aviões da portela,
acendo outro cigarro, o cigarro faz sempre falta
a versos assim, uma espécie de laço com os
sonhos que se esfumam,
um sinal de salvação na selva escura.


Fernando Luís Sampaio (n. 1960), in Falsa Partida (2005). «Não será exagero afirmar que devemos a Fernando Luís um dos mais singulares e conseguidos livros («plaquette», em rigor) entre nós publicados na década de 80 (Hotel Pimodan, Frenesi, 1987). Seguiu-se-lhe um duradouro silêncio e o regresso — admirável — com Escadas de Incêndio (Quetzal, 2000). (...) O tom abrupto, em tardia e jocosa conexão com o «leixa-prem» trovadoresco, tolhe-nos logo no primeiro poema [de Falsa Partida]. (...) O mesmo poema é já em si uma «falsa partida», no sentido em que arranca e não arranca, consignando da melhor maneira uma sugestão de exorcismo. (...) O que protege estes versos da «tristeza da tribo igualitária» é, além de uma rara capacidade de enunciar e denunciar o país real, uma firme e desencantada concisão (...)» (Manuel de Freitas, Expresso, 7 de Janeiro de 2006).

VÍTOR BENTO

Não me canso de o lembrar, Portugal tem os melhores especialistas do mundo, tem os melhores analistas do mundo, tem os melhores fazedores de opinião do mundo, tem os melhores painéis de debate nos melhores programas de televisão e rádio, tem os melhores cronistas do mundo, e escrevem livros e são um sucesso. Portugal tem para dar e para vender gente com todas as soluções para os problemas do mundo, gente que sabe como devia ter sido feito, como não foi feito, gente que percebe onde se errou e sabe como não se erraria, gente que compreende, experts, gente com soluções ágeis para intricados problemas. Portugal é magnífico porque tem muitos génios por metro quadrado. O problema é que não se adaptam aos gabinetes, quando chegam aos ministérios, às administrações, aos institutos, esquecem-se, derrapam, falham, esmorecem, demitem-se. O problema, como é óbvio, está nos gabinetes. Remodelem os gabinetes, metam lá câmaras de televisão e jornalistas a fazer perguntas, metam microfones de rádio e editores de livros de economia. Remodelem os gabinetes, transformem os gabinetes em estúdios de imprensa.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

UM CÉU DE FUNCIONÁRIOS


   Apetecia-lhe escarrar a alma contra o pára-brisas, para que esse escarro ficasse a boiar na solidão, a fazer corpo com ela, e aí se diluíssem os traços fisionómicos de todos os transeuntes. «Uma aberta», implorou mentalmente, «uma aberta», como se as nuvens lhe entrassem na garganta e a névoa o sufocasse. Ao aguardar vez para entrar num dos grandes eixos da cidade o aroma pisado a ervas trouxe-lhe dum tímido canteiro o primeiro sinal da primavera. Aspirou-o como se o esgotasse, como se tudo o que naquelas ervas houvesse de fragrância dentro de si pudesse fazer corpo com os olhos, os ouvidos e o palato. «Consubstanciação», pensou, «transubstanciação». Subitamente sucederam-se parkings, estações de serviço, anúncios de escritórios, versiekerung, na própria treva que os portais bolçavam havia algo de estagnado, amarelado, a luz seguia algures o seu percurso, sentia a vida nos escapes dos camiões como se ao meterem as mudanças os condutores metessem outra realidade, era pelo menos essa a sensação que dava quando ouvidos na distância. Num carro ao lado beijavam-se dois heterossexuais aproveitando mais uma paragem forçada, semáforo ou novo engarrafamento. O que do almoço lhe restava na lembrança era mais real do que o que dele trazia no estômago, rua após rua, esquinas, travessas sucedendo-se às avenidas, gruas subitamente hieráticas, totémicas, um escarro, a luz tornando a solidão tangível, luz onde as janelas se rasgam como coisas vivas, como se por trás delas houvesse água, poços onde a treva fermentasse, de uma janela aberta chegaram-lhe aos ouvidos duas ou três notas de um piano, duas ou três notas musicais onde uma vida inteira se poderia cifrar, bastaria que para tanto se encontrasse uma forma, um estilo (diria o poeta), algo que nos seus moldes contivesse o esparramar da vida. Ia chegando atrasado, disso não havia a menor dúvida.
   Como se algures, num plano que ele apenas intuía, a luz rodopiasse velozmente, sorvida por um invisível ralo que ele trouxesse dentro do seu espírito.
   Um céu de funcionários.

Luís Miguel Nava (n. 1957 - m. 1995), poema inédito incluído em Poesia Completa 1979-1994. «Estreado em 1979 com Películas e tendo publicado um total de seis livros até 1995, Luís Miguel Nava deixou-nos uma escrita situada na intersecção entre pelo menos três vectores essenciais: uma extrema criatividade metafórica, com um amplo poder transfigurador; uma vontade narrativa muitas vezes espraiada através de poemas em prosa; e ainda uma extrema vigilância do fluxo discursivo, que lhe adensa o sentido e lhe confere uma força expressiva pouco frequente na nossa tradição lírica» (Fernando Pinto do Amaral, no prefácio a Poesia Completa). «A estranheza do mundo que a poesia de Luís Miguel Nava nos apresenta é, certamente, uma das suas mais fortes e ostensivas características. Como nota Carlos Mendes de Sousa, naquele que é o mais completo estudo sobre ela escrito, «nesta poesia podemos encontrar reflexos da grande herança das distorções recebidas através da pintura de recorte expressionista»» (Gastão Cruz, in posfácio a Poesia Completa).

FRACTURAS

Basta ler o Aspirina B ou o Da Literatura para perceber quem tem saído melhor dos debates totós. A forma como estes apoiantes de Costa se referem a Seguro deixa a claro o temor e o tremor. Caso contrário, não sentiriam necessidade de chamar nomes a um líder que, afinal, é o do partido em que votam. A acutilância do Eduardo Pitta é reveladora: rasteiro, gajo, dinky toy, sacana, rufia pimpão… Tivemos Sócrates para saco de porrada, temos agora Seguro. A diferença é: Seguro anda a levar porrada dentro da própria casa. O PS transformou-se num ringue de wrestling. E embora a palhaçada seja a mesma, as fracturas são a sério.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

#42


Ex-vocalista dos Throwing Muses, Kristin Hersh encetou há vinte anos uma carreira a solo com este Hips and Makers (1994). Num registo muito mais despojado, fazendo-se acompanhar quase exclusivamente de uma guitarra acústica, Hersh ofereceu no seu primeiro trabalho a solo um conjunto de canções depuradas mas intensas. Por vezes, um violoncelo reforça o registo lancinante das composições. Há ainda um piano minimalista, quase infantil, que acompanha letras outonais repletas de imagens intimistas. A canção de abertura alcançou algum sucesso, porventura graças à colaboração com Michael Stipe dos populares R.E.M.. Mas o que verdadeiramente surpreende em Hips and Makers são os momentos de expurgação que várias canções encerram, fazendo emergir numa caligrafia clara as perturbações de um ser desassossegado: when I’m free from me / we should all be free. Cantadas sem envolvências artificiosas, num registo tão directo, estas canções adquirem uma consistência que fere e supera o tom geralmente melífluo da voz que as canta. Não estamos numa casa de bonecas, há fantasmas que nos perseguem e precisam ser expurgados. Ignore-se o anúncio:


A PRÁTICA DA MORTE


De morte natural nunca ninguém morreu.
Jorge de Sena

Que amor não se explica?
Fernando Pessoa

O tema único é enfim a morte
natural de que nunca ninguém morre
mas como designar a morte de que
se morre? Natural afinal é
qualquer morte mas menos natural
quando na própria vida longamente
reside: é então como se o pássaro
do mito no corpo vivo o bico por castigo
usasse e infinitamente exercitasse
a sua fome abstracta numa vida reduzida
a pasto dessa ave; deixa de
haver passado e o presente
torna-se eterno pois imaginar
o fim e o princípio da nocturna catástrofe
é não só impossível como inútil podemos
meditar, olhando o olhar que nos
olha e implora não sabemos
que forma de silêncio, sobre temas
antigos por exemplo o sentido
da vida lugar continuamente percorrido
por aqueles para quem ela não tem sentido
ou se o corpo é a alma ali tão viva
de pouco servirá todavia
o desejo de com ideias reflexões e teorias
procurar entender, nada na vida
realmente se explica só imagens
(de noite ao luar no rio uma vela
serena a passar que é que me revela?)
algo revelam talvez todas sejam
simplesmente o aviso de que um dia
de morte natural as perderemos


Gastão Cruz (n. 1941), in Repercussão (2004). «Gastão Cruz procedeu a uma ligeira inflexão na sua obra depois da publicação, em 1999, dos Poemas Reunidos. Entendamo-nos: depois de quatro décadas de poesia, Gastão estava (...) no momento mais alto da sua criação literária ou, pelo menos, num momento em que a sua poética fez um caminho e se apresenta, burilada, nalguns dos poemas mais acabados da poesia portuguesa contemporânea, com uma sintaxe e prosódia limpas, rigorosas, inconfundíveis. (...) O poeta abriu um pouco os seus textos a matérias que apareciam de modo mais filtrado até então, sobretudo a infância e a memória, mas também a algumas (surpreendentes) referências mais prosaicas (...). Gastão Cruz formula todo um programa contra uma ingenuidade do «real», mas faz essa subtil demonstração de forma concisa e exigente, em vez do espalhafato metafórico e imagético de que ao «real» opõe mero fogo de artifício» (Pedro Mexia, DN, 7 de Maio de 2004). «Saliente-se que, embora muitas vezes se considere esta poesia como excessivamente abstracta, ela tem um sentido da paisagem extremamente intenso (nisso se aproximando hoje de Joaquim Manuel Magalhães, tendo talvez como plataforma comum o lado descritivo e só aparentemente dissipado de Ruy Belo)» (Eduardo Prado Coelho, Público, 29 de Maio de 2004). «Falando em termos mais precisos: os processos sintácticos e de formação de imagens que, desde o início, marcaram esta poesia, deram-lhe também a reputação de hermética e virada para os seus mecanismos internos. Reagindo a este topos crítico, escreveu Gastão Cruz na apresentação do volume que, em 1983, reunia toda a sua poesia editada e acrescentava um conjunto inédito de textos: «Sempre me considerei um poeta realista e agrada-me que o presente volume se encerre com um grupo de textos intitulado Referentes» (António Guerreiro, Expresso, 26 de Junho de 2004).

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

PARTIDO SOCIALISTA



O Partido Socialista nunca esteve tão partido. Com um líder sem capacidades de liderança e um candidato a líder impelido por forças invisíveis a agir conforme a consciência, transformou-se numa querela entre totós que teve ontem o seu momento televisivo mais esclarecedor. Agastados com polémicas internas que arrastam o partido pelo lamaçal do descrédito, os dois antónios são a dupla face daquilo a que normalmente se chama debate democrático interno para encobrir o que existe nesse putativo debate de oportunismo e deslealdade. O que podia ter alguma piada não tem piada nenhuma, pois enquanto estes dois e suas respectivas comitivas de tachistas salivantes pelejam por lugares de poder a oposição ao governo esmorece e os problemas do país agravam-se. Noutros tempos, tudo podia ser feito de outra forma. Agora é impossível, tal a mesquinhice e mediocridade estratégica que tomou conta da acção (luta?) partidária. Não é de admirar certa descrença nos partidos e nos políticos, assim como na actividade política tradicionalmente democrática que dá força e elege demagogos profissionais. Já não bastava o nepotismo nesta sociedade oligárquica e corrupta em que vivemos, temos que aturar agora, ainda por cima em directo e com direito a diferidos sucessivos, o triste espectáculo da mediocridade. Nada há de substancial nesta guerra, a não ser a pobreza infinita dos intervenientes, totalmente incapazes de convencer quem quer que seja das suas reais preocupações para com o povo que poderia elegê-los não fosse preferir ficar em casa, abster-se, desligar.

AVÔ, COMO ERA A VIDA NO TEU TEMPO?



Quando a imagem começa a desfazer-se em água somos introduzidos na analepse, separador de tempos que anuncia um recuo cronológico. Usado até à exaustão, este efeito desapareceu dos ecrãs. É, pelo menos, muito mais raro.
Sabíamos do flashback pela sua mágica sugestão, é como se recuar no tempo fosse um mergulho nas águas profundas de um rio qualquer. Nas águas do Hades, talvez. Habituámo-nos a associar o tempo à água, o rio que corre, as águas paradas, o mar revolto das amarguras, o iceberg freudiano nos mares do ser.
Interrupção cronológica no interior da personagem, portal por onde o pensamento penetra os labirintos da memória e aí se perde até de novo ser despertado para a realidade, efeito mágico, talvez, que recupera o passado para dele fazer prova no presente: a imagem que treme em remoinho e se transforma numa aparição mais ou menos lúcida do passado, por vezes acompanhada de vozes distorcidas, esboços de figuras, espectros, é a porta do tempo que atravessamos diariamente.
 Divagações, ensimesmamentos, sonhos, momentos de introspectiva apatia, todos temos. E sempre antes de neles mergulharmos se forma, como que por magia, essa imagem flutuante no pensamento. Porque a memória enturvece a realidade, a realidade insidia a consciência, e entalados entre o que fomos e o que estamos a sentir pensamos quase sempre sob a luz deturpadora dos anseios.
Tenho vários destes momentos ao dia, quando pauso para o cigarro, enquanto bebo mais um café, durante a imperial no final da noite de trabalho. Não porque viva arreigado ao passado, passado que ainda não tenho ou é demasiado curto para o que uma vida carece de experiência. Tenho vários destes momentos ao dia porque me perco, naufrago amiúde nas marés da nostalgia e me questiono: que futuro é este sem passado?
E lembro-me como era bom não me lembrar de nada, sonhar apenas com amigos imaginários (todos os que tive na infância) e vidas virtuais. Lembro-me sem ilusões nem devaneios, lembro-me apenas porque se torna inevitável lembrá-lo. De certo modo, o mundo tecnológico devolve-nos o lado mágico da infância. Assim que ligamos o computador, dá-se o efeito que induz o flashback. Mesmo que circulemos pelas notícias do presente, é no passado que estamos - protegidos da realidade pelo mundo da fantasia.
O virtual não nos desliga da realidade, simplesmente produz sobre ela o tal efeito mágico de a tornar coisa passada. Porque é tudo efémero e hipersónico, superficial e epidérmico no mundo virtual. Mesmo quando da nossa vida já pouco resta de verdadeiro, autêntico, genuíno, mesmo quando da nossa vida já pouco resta que não seja separado pelo efeito mágico do remoinho, mesmo quando tudo se misturou ou fundiu para se confundir e ficamos sem saber se é no abismo ou sobre a terra que tocamos o ar, mesmo quando assim é ficamos sozinhos e à deriva.
Talvez o efeito tenha deixado de ser um separador para se tornar na realidade ela mesma, talvez estejamos todos a viver dentro de um flashback que já não é flashback, é apenas esta realidade espectral e distorcida que obsidia a mente e nos faz pensar nas coisas como se não fossem coisas, no homem como se não fosse homem, na vida como se não fosse vida, ou seja, na vida como se não fosse estar à morte, no homem como se não fosse amestrado instinto, nas coisas como se não fossem ruína, podridão, poeira, cinza, esquecimento, decomposição, morte e floração.
Deixando de haver esta separação, tudo se torna urgência, presente, ausência de projecto porque ausência de passado. E numa ensimesmada navegação reparamos que aos nossos netos teremos apenas para oferecer a entediante história de um homem que passava os dias sentado ao computador, numa infância resgatada pelo sonho virtual. Avô, como era a vida no teu tempo? Era assim, como a tua, nada a acrescentar.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A NAVE DOS LOUCOS


Um dos acontecimentos editoriais deste ano é o reaparecimento da obra de Katherine Anne Porter (n. 1890 – m. 1980) nas livrarias portuguesas. A Antígona publicou Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, porventura o mais conhecido dos seus contos, enquanto a Relógio D’Água disponibilizou a colectânea A Torre Inclinada e Outros Contos e resgatou do esquecimento o único, mas genial, romance da autora (outrora editado pela Livros do Brasil). A Nave dos Loucos (Relógio D’Água, Abril de 2014) foi originalmente publicado em 1962, sendo quase de imediato adaptado ao cinema por Stanley Kramer. Ship of Fools surgiu em 1965, com um elenco onde constavam actores de monta tais como Vivien Leigh e Lee Marvin. Apesar de ter consolidado o nome de Porter como uma das grandes prosadoras norte-americanas, os prémios mais relevantes só chegaram em 1966 (Pulitzer e National Book Award) na sequência da publicação de The Collected Stories of Katherine Anne Porter (1965).
Obra de fôlego, ao que consta laborada ao longo de trinta anos, A Nave dos Loucos conta a história de uma viagem entre Vera Cruz, no México, e Bremerhaven, na Alemanha, no ano de 1931, ou seja, à entrada da experiência mais abismal que a Europa conheceu no séc. XX. Porter explica em nota prévia que o título do livro «é a tradução do alemão Das Narrenshiff, alegoria moral de Sebastian Brant (1458?-1521)». Eminentemente alegórico, o romance de Katherine Anne Porter encontra igualmente n’A Parábola dos Cegos de Pieter Bruegel uma representação imagética fidedigna. Dividida em três partes (O Embarque, No Alto-Mar, Os Portos), a narrativa respeita um nexo temporal linear, apesar dos flashbacks que caracterizam certas personagens, mas é agradavelmente caótica na forma como aborda cada um dos intervenientes. O narrador vagueia pelo navio, microcosmo de uma humanidade à deriva, como um fantasma que observa a tripulação e lhe radiografa os anseios, as frustrações, os medos.
No entanto, o individual não importa tanto aqui quanto o colectivo. Ou, pelo menos, o que parece ter mais relevância é o papel desempenhado pelo indivíduo quando colocado entre as forças opressivas do colectivo. A obra está repleta de alusões a conflitos de classe e hierarquias sociais, estereótipos morais e egocentrismos culturais, sugerindo certa desconfiança sobre a vida gregária e suas micro-representações (da família à igreja, desta à política). Em certo sentido, A Nave dos Loucos procura responder a uma dúvida que assolou o mundo do pensamento na ressaca da II Grande Guerra: como foi possível o nazismo? Como foi possível uma fábrica de morte montada com o consentimento, a cumplicidade e a colaboração de milhões de pessoas, cidadãos cultos e informados, instruídos e inteligentes? Como foi possível a barbárie, esta máquina de morte desumana e desumanizadora no centro nevrálgico da civilização ocidental? Ora, estas dúvidas, não podendo ser respondidas de uma forma exacta, podem ser aludidas com uma observação atenta do comportamento humano e das debilidades que tornam cada um de nós uma pobre caricatura do super-homem nietzscheniano.
Obra claramente individualista, A Nave dos Loucos patenteia uma paradoxal desconfiança sobre o indivíduo. Não há uma única personagem que possamos considerar firme e sólida perante o outro, todas vacilam e hesitam quando ameaçadas pelo exterior, em todas elas a intimidade se revela como que claustrofóbica e perturbadora, pois todas elas temem ser censuradas pelo outro tanto quanto não conseguem afirmar-se a si próprias. Gente fraca e indecisa, mas cruel na avaliação dos outros, sobretudo dos desprotegidos. Do médico do navio (alemão) que se apaixona pela condessa decadente e deportada (espanhola), mas não consegue abandonar o seu território formal, ainda que este lhe provoque vários desconfortos, em prol de um amor intenso, ao casal de jovens artistas norte-americanos indecisos e vacilantes tanto no amor como na arte, passando pelas almas perdidas da terceira classe, oitocentas e setenta e seis almas olhadas do convés como se fossem gado, a toda uma tripulação de gente paranóica, histérica, racista, frustrada, com bêbados e putas à mistura, ninguém escapa ao diagnóstico patológico traçado pelo narrador.
A doença que contamina de loucura o navio Vera começa, desde logo, no comandante Thiele, um anti-Ahab sem propósitos heróicos, atacado de mesquinhez e de inveja, vaidoso, exibicionista, mas, afinal, tão fraco quanto os demais quando toca a despir a farda alemã e ser ele próprio. O que há de fascinante nas personagens do romance de Katherine Anne Porter é elas serem personagens de personagens. A autora consegue algo dificilmente concebível, sugerir-nos o ser amarfanhado sob a representação social de cada uma das suas criaturas. E a grande ironia de toda a ostentação de maneiras é saber que esta gente está prestes a pisar um palco que lhes exigirá, no limite das suas forças, uma de duas coisas: afirmarem-se enquanto indivíduos ou subjugarem-se à formalidade colectiva, com todas as consequências nefastas que a história registou. Uma imagem que fica, a imagem patética do marido que ameaça suicidar-se esperando alguma compaixão da mulher:

E, no entanto, ali estava ele, sozinho nessa noite fria, húmida e ventosa do alto-mar, em Setembro, quase a suicidar-se. E ela não mexia um dedo para o salvar! Mais ainda: escarnecera dele, instigara-o com remoques a levar avante o seu propósito! Ah, era o fim! Não podia aguentar mais… E não havia de aguentar! Que loucura a sua, sonhar por um segundo que fosse em deixar o filho, tão inocente e esperançoso, o seu único herdeiro, na orfandade e, pensando bem, tão falto de recursos! A mãe, indiferente a tudo, tornaria decerto a casar, abandonando o filho à mercê de um padrasto como havia abandonado o marido ao mar cruel. Numa nova onda de terror e indignação, mas também com uma nova vontade, deu início à longa e trabalhosa operação de voltar ao camarote, sem nenhum plano definido em mente, mas com uma ideia fixa que parecia arraigada algures nas suas entranhas, a ideia de que era chegada a hora de ajustar certas contas, há muito vencidas, com a víbora que havia aquecido no seu seio durante aqueles calamitosos dez anos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

contagens


primeiro a casa, sempre de alicerces fundos,
sólida, praticável. paredes garridas,
janelas rasgadas, varandas floridas,
telhado em cima de tudo, chaminé. por vezes
fumegante. isto por fora. por dentro
espaço. salas, quartos, cantos, nichos,
sofás, estantes, armários, louça, livros,
almofadas, revistas, bandejas, cartas,
papel. sabonete, alguidares, pratos. quadros,
velas, flores, legumes, pão, chá, café.
vestidos, meias, canetas, lâmpadas, escovas,
copos. um sem-fim de coisas. quando
se muda de casa é que se vê. são pacotes
e mais pacotes, embrulhos, o relógio de
parede protegido por cobertores,
e mesmo assim há-de sempre partir-se
qualquer coisa. para não falar das coisas que
se esmurram. e das que se esbeiçam. e das
que racham. e das que simplesmente se estragam.
e das que se perdem.

a casa está quase sempre numa rua.
a rua tem quase sempre dois passeios,
uma faixa de rodagem e casas dos dois lados.
casas da habitação, escritórios,
consultórios, cafés, mercearias, cinemas,
repartições, colégios. ou então hospitais,
esquadras da polícia, sedes de clubes,
papelarias, quartéis, oficinas de reparações,
pequenas fábricas, drogarias, pensões.
a rua muitas vezes é servida por
transportes públicos. é uma vantagem,
mas é também um inconveniente, por causa
do barulho. os moradores dessas ruas que o
digam: os carros sempre a passar, sempre
a passar, a toda a hora, noite e dia, não,
isto não é vida. antes uma rua sossegada dos
arredores. mas depois é preciso
vir nos transportes públicos. vir e ir.
ir e vir. todos os dias. de inverno ao frio,
de verão ao calor. e apertado como a sardinha.
é o reverso da medalha. não há medalha sem
reverso. e este é o reverso.

a rua fica numa cidade. normalmente fica
numa cidade. a cidade tem ruas, muitas ruas, quelhas,
e depois avenidas, praças, travessas, becos,
escadinhas, calçadas, betesgas, jardins,
parques de estacionamento, miradouros,
museus, um castelo antigo, prisões, fábricas,
armazéns, uma câmara municipal, cemitério,
transportes públicos, bancos de jardim, 
bebedouros, policiais sinaleiros, trânsito,
comércio, indústria e tudo quanto é
necessário para viver. mas a cidade é uma
balbúrdia. ninguém se entende. toda a gente se
acotovela. não há espaço nenhum. nem há
respeito. ninguém se conhece. as pessoas são
de um egoísmo atroz. na aldeia é outra coisa.
é uma vida sã. não há correrias. nem atropelos.
todos se conhecem. e se respeitam.
a menos que alguém saia dos eixos. mas
isso é raro. mais raro que na cidade. a cidade
cheira mal. a aldeia cheira a vacas e a porcos.
mas se isso é cheirar mal?!

a cidade fica num país. o país tem cidades,
vilas, aldeias, rios, regatos, montanhas,
lagos, minerais, vegetais, populações,
linhas de caminho de ferro, minas, produtos
industriais, pecuária, fronteiras,
leis, um exército, um governo, costumes,
e por vezes águas territoriais.
há países grandes e pequenos. mas um
país pequeno pode ser um grande país.
depende do coração dos habitantes e dos
governantes. há países ricos e pobres.
 mas um país pobre pode se rum rico país,
por exemplo para lá passar férias. um
país tem sempre relações amistosas com os
outros países, sem no entanto abdicar da
sua maneira de ser. um país também
tem alma. e a alma é que conta.

o país fica num continente. o continente
tem principalmente conteúdo.

o continente fica no mundo. o mundo
tem continentes, mares, ilhas, desertos,
lagos, montanhas, dois pólos cheios de gelo
e pinguins, uma exuberante flora tropical,
ventos, tufões, trombas de água, tremores
de terra, estações do ano, um satélite com
várias fases, um astro-rei, nuvens, um céu, 
estrelas, cometas, casas, homens, abelhas,
formigas e outros, muitos outros animais,
variados e de hábitos diversos.
mas o homem é o rei dos animais.
e a mulher é naturalmente a rainha.
e os dois, zaz zaz, fazem os príncipes
que querem e não dão satisfações a ninguém.

o mundo fica no universo, também chamado
cosmos. o cosmos tem mundos, muitos mundos,
um nunca mais acabar de mundos, mas é raro
chocarem-se uns com os outros, embora
andem a velocidades astronómicas. é um
mérito da criação. os outros méritos,
em parte já atrás foram enunciados.
os que não foram é porque são desconhecidos.
pelo menos até à data. mas amanhã quem sabe!
o futuro a nós pertence, embora não
esteja nas nossas mãos, ou por outras palavras:
o futuro está nas nossas mãos.
mas a deus pertence.

o universo, esse está também nas mãos de deus
e é quanto basta saber.

Alberto Pimenta (n. 1937). in Corpos Estranhos (1973). «Alberto Pimenta é um dos mais originais e extravagantes poetas que se revelaram nos anos 70. Além de uma experiência provocativa, Homo Sapiens, 1977, a de se expor no Jardim Zoológico numa jaula do sector dos símios, de um libreto para uma acção poética encenado em 1979, Heterofonia, e de um volume de teoria estética (e antiteoria poética), O Silêncio dos Poetas, 1978, publicou um conjunto de obras que constituem um repto eficaz a todas as convenções de seriedade comunicativa, recorrendo a efeitos de distribuição gráfica, de paronomásia, de paródia, de transgressão caligráfica ou ortográfica, de absurdez narrativa ou retórica, de dessacralização radical, de irritante repetição frásica e de insistência nas mais desagradáveis ou inconfessáveis pequenas experiências ou situações do quotidiano (...). Posteriormente, em outros volumes e peças radiofónicas acentua a sua agressividade iconoclasta» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

THAT’LL BE THE DAY


Muito se tem escrito sobre The Searchers/A Desaparcida (1956), de John Ford (n. 1894 – m. 1973), a propósito da reposição num cinema Ideal que promete recuperar clássicos para o ambiente de uma sala de cinema. Sugiro, desde já, a leitura deste texto de João Lopes (um e dois), onde começamos por sublinhar o facto histórico: «A Desaparecida não foi um filme consagrado na altura do seu lançamento, não tendo sequer chegado às nomeações para os Oscars», facto especialmente relevante quando estamos a falar do «realizador mais “oscarizado” de sempre». Mas sublinhe-se também a questão essencial colocada por João Lopes: «até que ponto os espectadores (des)educados a ver filmes ditos de “efeitos especiais” — dominados pela instabilidade arbitrária da imagem e ruídos ensurdecedores — terão olhos e ouvidos, corpo e alma para descobrir a complexidade histórica, dramática e pulsional de um filme como A Desaparecida (1956), de John Ford?» Esta complexidade, que o western disfarçou com argumentos temperados de aventura, pode explicar, em parte, o facto histórico.



A Desaparecida surgiu na segunda metade da década de 1950, suportando a genialidade de um realizador a quem devíamos algumas obras-primas congéneres. Da trilogia da cavalaria a filmes tais como Stagecoach/Cavalgada Heróica (1939) ou My Darling Clementine/A Paixão dos Fortes (1946), são vários os exemplos onde o mais antigo género cinematográfico foi elevado ao estatuto clássico que hoje lhe conferimos. Ford, que trabalhou com alguns dos melhores actores neste domínio (Henry Fonda e John Wayne à cabeça), tornando-os figuras essenciais de um imaginário cultural específico, conquistou igualmente para o Velho Oeste uma paisagem humana que tem nos rochedos e na poeira de Monument Valley o suporte geográfico ideal. Chamado a escrever sobre o filme, Samuel Úria refere-se ainda à «maravilhosa geometria com que Ford filma famílias, as diagonais dos olhares, a câmara que tarda em mover-se porque tarda em precisar, os sentimentos revelados e os encapotados, os comic relieves e os socos no estômago, os diálogos e até o que ficou por dizer» (Ípsilon, 29 de Agosto).


Com o western fordiano regressamos aos tempos bíblicos, aos primórdios de uma civilização dividida entre o sagrado e o profano, tendo pela frente desertos inóspitos ocasionalmente atravessados por rios na margem dos quais a vida floresce. Red River e Rio Bravo (reveja-se Howard Hawks) ou Rio Grande são apenas nomes para linhas que separam universos distintos, metáforas da passagem do tempo e fronteiras naturais entre o mundo selvagem e o mundo civilizado. Também The Searchers tem o seu rio, lugar baptismal onde índios e cowboys (talvez fosse mais exacto chamar-lhes colonos) se dividem, ficando cada qual em sua margem defendendo perspectivas opostas do mundo. Daí a complexidade histórica, dramática e pulsional. Não estamos em território seguro, nada é tão óbvio quanto possa parecer no western. Os intervenientes surgem ambíguos e deixam-nos ambivalentes, porque neles nem o bem nem o mal são objectivos e absolutos.




Escrevi aqui sobre The Searchers, referindo-me à interpretação genuína de Wayne. Humanos, demasiado humanos, os heróis destas epopeias cativam-nos quando lhes vemos as feridas e quando dessas feridas vemos surdir os vícios, os defeitos, as fraquezas que os tornam, afinal, mais vulgares do que julgaríamos possível. A história é simples: um homem regressa a casa, para pouco depois de se reencontrar com a família a perder na sequência de uma emboscada Comanche. Confrontado com a possibilidade de duas sobrinhas terem sobrevivido, parte em busca das raparigas. A indicação inicial do lugar e do tempo em que os factos ocorrem não é displicente. Em 1868, a Guerra de Secessão já tinha terminado (o protagonista é um derrotado dos Estados Confederados da América). No entanto, parte do território nacional, nomeadamente o Texas, vivia sob a ameaça indígena. Muito haveria a dizer sobre estes conflitos, tendo o próprio Ford explorado dignamente esta parte da história do seu país adoptivo (as raízes são irlandesas). Porém, o mais significativo neste filme não são as relações entre o homem branco e os índios. O problema é outro.


 
 
The Searchers inspirou filmes que, apesar de notáveis, parecem passar ao lado da problemática identitária que funda a personagem controversa de John Wayne. Percebemos isso, por exemplo, quando observamos Comanche Station/Emboscada Fatal (1960), o último do denominado Ranown Cycle de Bud Boetticher (n. 1916 – m. 2001), com Randolph Scott no papel do homem que procura a mulher raptada por uma tribo Comanche. Negociar com os índios é para a personagem de Scott um pormenor táctico, ao passo que para a personagem de Wayne é uma afronta moral. Repare-se na medonha actualidade do tema, quando hoje voltamos a falar intensamente de raptos, terrorismo e eventuais possibilidades de negociação com as forças do mal. O racismo doentio de Ethan Edwards, personagem consubstanciada por Wayne, nota-se-lhe nos esgares de ódio e raiva, manifesta-se em gestos tão contraproducentes como quando dispara sobre os olhos de um índio morto ou mata búfalos indiscriminadamente para que os índios não tenham o que comer no inverno. Este ódio é levado ao limite quando Wayne decide assassinar a sobrinha sobrevivente por não suportar vê-la aculturada e integrada na tribo que a raptou.
 
 

António Loja Neves descreve assim a personagem: «A personalidade obcecada de Ethan roça o psicótico, especialmente ao confrontar-se, anos volvidos, com o corpo assassinado da [sobrinha] mais velha, o que o obriga a voltar-se para o desesperado destino da recuperação da mais nova» (Atual, 30 de Agosto). Impõe-se, então, a dúvida: o que procura este homem tão certo de si que várias vezes lhe ouvimos a deixa That’ll be the day? O que busca Ethan Edwards? Uma vitória? Vingança? Família? Identidade? Uma pátria? A canção que integra a banda sonora lança algumas pistas, talvez busque a paz de espírito que lhe sossegará coração e alma. Chamamos a esta busca, por vezes, refazer a vida. E tantas vezes ela se refaz sobre os escombros da tragédia. O dia de Ethan chega quando ele finalmente ergue nos braços a sobrinha e a devolve a um lar, o lar no qual Ethan acabará por não entrar. Na realidade, volta-lhe as costas e continua a caminhar. Entre a porta que se abre no início do filme e a porta que se fecha no seu termo assistimos ao mais angustiado combate que pode exercer-se dentro de um homem, um combate onde a identidade estilhaçada procura reconstruir-se juntando cada um dos seus pedaços. Talvez seja isso o que Ethan procura, talvez se procure a si próprio. E, neste sentido, ele personifica toda uma nação em busca de si mesma, dividida por guerras aparentemente inerentes à sua própria condição. Talvez chegue o dia.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

#41


Sinónimo de elegância, as canções de Joni Mitchell partilharam desde sempre a genuinidade folk com a inclinação experimental do jazz. À entrada do séc. XXI, os dois universos equilibraram-se com extraordinária lucidez numa colectânea bastante original. Both Sides Now (2000) é literalmente um romance, uma recolha de canções especificamente escolhidas para contar uma história. As orquestrações algo rígidas e convencionais abraçam a colaboração com estrelas inquestionáveis do jazz tais como Herbie Hancock (piano), Peter Erskine (bateria) ou Wayne Shorter (saxofone). Duas canções de Mitchell (A Case of You, de 1972, e Both Sides Now, de 1967) aparecem revestidas ao lado de standards da primeira metade do séc. XX, sendo curioso notar como a versão romântica da compositora canadiana para canções outrora cativas do êxtase amoroso (repare-se na versão de Comes Love) se torna muito mais trágica e melancólica do que seria expectável face a interpretações anteriores. As nuvens que se atravessam no caminho de Joni Mitchell fazem-nos olhar o mundo sob diversas perspectivas, não aceitando nenhuma delas como absoluta e total. Frente e verso, tal como se apresenta retratada na capa e na contracapa, são apenas lados complementares. Sempre foi assim, na música, na vida, na arte, no amor, e sempre ficamos com a única certeza de nada sabermos. Tentem resistir:


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BASTA!


Todos nós já aprendemos
como se trituram homens

para isso
nos obrigam a ser testemunhas
oculares
do retalhar
curiosamente precioso e exacto
no esquartejamento organizado

encostados à parede esburacada
dos fuzilamentos seriais
que nos querem preparar
esperamos
a bala a chegar lenta
num rigor praticante de eficácia

o carro presidencial a deslizar pela avenida o cão-polícia cão a arreganhar o dente amestrado de metralhadora o banco do comércio a traficar-nos os dedos arrancados e o estilhaço constante do rufo televisivo e a venda supermercado em saldo de eleição da miss-presidente e a pátria que conta com o nosso estrume

lembras-te meu amor
o encontro feroz
que tivemos um dia
numa cama de passagem
rodeada
de portas concentracionárias?

as praias podres fedendo a uniformes com ordem de marcha o mar com o horizonte obstruído por papel de jornal usado nas latrinas e a amputação e a prótese e a condecoração legalmente decretadas

propositadamente
ensinam-nos
o manejar do gatilho
o curso liceal
o uso
do cozido à portuguesa
a lepra
enquanto nos apontam
o buraco da retrete

o papel químico matraqueado na repetição da máquina já experiente o dedo a esmagar-se contra a tecla antecipadamente designada na escrita regulamentar quotidiana e os requerimentos avulsos e a assinatura reconhecida no notário falecido com cancro asmático

o muro
asfixiando as janelas celulares
talvez
apenas na espera paciente
do impacto
dado pela bala

somos testemunhas
visuais
obrigatórias
mas só isso?

o avião jardineiro a regar napalm para que os homens não cresçam tão depressa no metro superlotado a orelha amputada a aumentar a colecção de selos do armador de petroleiros o futebol na cabeça da criança que não rebola bem porque tem nariz

e o aparelho ortopédico um dois esquerdo direito chega atrasado ao emprego vai ter que fazer horas extraordinárias

foram rigorosas
as nossas noites de amor
obsessivamente tensas
e solitárias
lâmina cortante
na memória
recordas-te menina?

os autocarros atulhados ida-e-volta os passos os cabelos enormes ipiando entre a maconha e o amanhecer as pequenas grades envelhecidas e os pães poeirentos sem certificado de pureza e as certidões de honestidade capitalista dentro do estômago com garantia oficial

martelados criteriosamente
na cabeça
depois
entre os olhos e o sexo
preparam-nos para a matança
com o dedo nosso
no gatilho deles
testemunhas somos
das mortes gloriosas em vómito
de heróis com óbito convincente
encostados ainda
à parede esburacada
na espera da bala
demorada
testemunhamos

o cortejo nupcial da filha do almirante com jeito pró negócio o navio pirata carregado de recrutas analfabetos da vida a prancha estreita entre a jaula e o governo o sono obrigatório da pílula própria para o aborto e o cartão da identidade única e o respeito ao clero pois sim e a pia baptismal entupida.

amor
o teu sorriso
e o teu corpo
o teu sexo
como reencontro
proposto pelo tempo
a realidade carcerária
de nós dois
nunca te esqueças

o ministério inteiro com diarreia gasosa purulenta o trust multinacional a jogar gulosamente à cabra-cega a fruta apodrecendo no cais de guindastes esquartejados e a cantora de ópera premiada na tourada-bufa e o carro de esqueletos perfilados a caminho do congresso AS MÃES AGRADECIDAS e a família a família a família petrificada em sentido

e o balão de oxigénio direita volver continência ao presidente não vai chegar a tempo

testemunhas
oculares
somos
mas só isso?
matadores
atentos
à espera


Mário-Henrique Leiria (n. 1922 - m. 1980), in Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro (1978). «Entre as mais tardias mas qualificadas repercussões do surrealismo, salientaremos as da obra de Mário-Henrique Leiria, ligado ao grupo dissidente de 1949 mas ausente do país por muitos anos (Contos do Gin-Tonic, 1973; Novos Contos do Gin-Tonic, 1978)» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes). Parcas linhas para tamanho poeta. Contos que são poemas, poemas que são contos, os textos de Mário-Henrique inscrevem-se numa linha de pensamento libertário onde vislumbramos sobressaltos sociais numa consciência criativa que não podia passar indiferente ao ambiente sórdido da sua época. Um ambiente que, apesar das transformações do tempo, teima em repetir-se na actualidade no que tem de politicamente sujo, culturalmente medíocre, religiosamente hipócrita. Sem afastar o riso, o lúdico, ou mesmo a anedota do seu universo, logra sátiras incisivas onde a realidade se fixa a partir da nuvem absurda que estende sobre o mundo e a vida colectiva.