sexta-feira, 10 de outubro de 2014

POESIA CLANDESTINA


Na próxima terça-feira, dia 14, pelas 21h30m, Margarida Vale de Gato lê e comenta Rui Costa. Há 6 anos, Rui Costa lia e comentava Haruki Murakami: aqui.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

#46


A diva da canção egípcia tem imensos nomes. Chamo-lhe Om Kolthom porque assim a encontrei num bazar do Cairo, embora já tenha visto o nome grafado de modos diversos: Umm Kolthoum, Om Kalthoum, Umm Kulthum… Todos estes nomes querem dizer uma mesma coisa: voz divina. Existiu entre 1904 e 1975, mas vive para lá do tempo.
 

É pouco referida a ocidente, talvez por ser “árabe” e, como por vezes se escuta por aí, os “árabes” nada terem de bom a oferecer ao mundo. Ora, quem assim fala deveria abrir os ouvidos para escutar esta voz que se levanta da terra, ascende aos céus e para lá nos transporta em sua companhia.
 

Ainda por cima, as fotografias revelam uma mulher bonita, capaz de embaraçar os xailes negros do fado mais conservador com uma gargalhada estridente. Percurso típico: nascida pobre, foi o pai que a incitou a recitar o Alcorão. A voz poderosa atraiu atenções, aprendeu a tocar alaúde e fixou-se no Cairo na década de 1920. Ahmed Rami introduziu-a na poesia árabe, escreveu-lhe imensas canções, a fama foi chegando naturalmente, embora pouco influísse no estilo de vida sóbrio. Cantava de lenço na mão, uma das suas imagens de marca. 


A discografia é difícil de determinar, tal a dispersão de registos. Yally Kan Yeshgeek Anieny (You who enjoyed my cries) data de 1949, em plena idade de ouro da sua carreira. Podeis retirar d'aqui uma impressão de como seria assistir ao êxtase. O público reage com aprovação, espanto, enlevo, escutam-se suspiros de profunda admiração, seguem-se as palmas. A voz de Kolthom não é apenas a serpente que dança atraída pela melodia que sai da flauta, ela impõe aos instrumentos o desempenho dos ventos, adeja as dunas do deserto como a sombra do falcão. O que da sua voz nos chega não é apenas oração nem lamento, é a celebração da vida, uma oferenda, a exaltação das forças vitais que reúnem o mundo numa mesma entoação.

WALT & OFÉLIA

No ensaio biográfico que dedicou a Walt Whitman, Eduardo Pitta recordou a recepção de Leaves of Grass em Portugal:

Em 1915 — isto é, com o proverbial atraso de sempre —, Portugal entra no coro. Pela boca de Álvaro de Campos, Pessoa saúda-o num poema torrencial (...). O engenheiro sensacionista não fez a coisa por menos e comparou a obra de Whitman a "Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma." Ofélia Queiroz nunca foi capaz de tanto.

Eduardo Pitta, in Metal Fundente, Edições Quasi, Maio de 2004, pp. 116-117.

QUANDO SOUBE, AO FIM DO DIA


Quando soube, ao fim do dia, que o meu nome tinha sido aplaudido no Capitólio, nem por isso me senti feliz nessa noite,
E mais ainda, quando me embriaguei ou quando se cumpriram os meus planos, não me senti feliz,
Mas no dia em que me levantei bem cedo de perfeita saúde, descansado, a cantar, aspirando o ar amadurecido do Outono,
Quando a ocidente vi a lua cheia empalidecer e desaparecer com a luz da manhã,
Quando vagueei só pela praia, e nu entrei na água, rindo com as águas frias, e vi o Sol nascer,
E quando pensei que o meu querido amigo, o meu amante, vinha a caminho, oh, então senti-me feliz,
Oh, então, o ar que aspirava era mais fresco, e durante todo aquele dia o que comia satisfazia-me mais, e aquele belo dia foi maravilhoso,
E o dia seguinte surgiu com igual alegria, e no outro a seguir, à tarde, chegou o meu amigo,
E naquela noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi o rolar lento e contínuo das águas invadindo as praias,
Ouvi o murmúrio sibilante desse líquido e das areias, como se em murmúrios me felicitassem,
Pois aquele que mais amo dormia junto de mim sob a mesma manta na noite fria,
No silêncio dos raios da Lua de Outono, o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito — e nessa noite fui feliz.
 
 
Walt Whitman, in Folhas de Erva, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Círculo de Leitores, Fevereiro de 2006, p. 114.

TAPETES DE ERVA E FOLHAS CAÍDAS

 
 
Nada entendo do optimismo com que Walt Whitman canta a humanidade, ele que viveu entre a revolução e a secessão, assistiu à comercialização de homens e de mulheres em hasta pública, viu tombar jovens soldados, tratou as feridas do escravo em fuga, foi censurado, cantou o mundo moderno, o Novo Mundo. E ainda que perceba o seu entusiasmo pela democracia, ou pelo menos julgue perceber, coloco-lhe as minhas reservas. Caminho por estrada mais estreita, não censuro tanto quanto procuro compreender, evito o contágio dos vermes que tudo corroem e olho para traz com tanta vontade de aprender como olho para a frente com desconfiança. Não é o progresso que me atemoriza, mas o deslumbramento dos homens, a facilidade com que se adaptam a circunstâncias inóspitas e nelas aprendem rapidamente a respirar como se sempre nelas tivessem existido. O meu carreiro é muito mais estreito, tem a liberdade por horizonte e nas margens igualdade em poder ser desigual, a canção filantrópica da natureza quando a chuva rega os caminhos e os pés se enterram na lama.

 
O corpo, sim, o corpo que espreita entre a ramagem e proclama seu silêncio. Julgo compreender essa solidão do viandante que canta um primitivo mundo novo e vê passar por si todas as coisas como um rasto infindável do tempo, e sabe que por cima de si continuarão a transitar astros, ideias, imagens, o eco do tiro disparado pelo caçador, a evocação do índio, a dança do escravo. Que devemos nós a este progresso que retirou dos pescoços e dos pulsos e dos tornozelos os grilhões de ferro, mas prendeu o corpo todo, e no seu todo a alma intumescida, a uma voracidade insuportável que não ama, nem deseja, só condena? Aceito o amor viril por todos os homens, aprenderei a aceitá-lo, e de mão dada com eles também eu caminharei, quando em cada nascimento vislumbrar já não apenas a morte anunciada mas uma vontade indómita de viver. Sobre a terra cai a folha, da terra brotam árvores, nas árvores fazem meus olhos o ninho de semanas inteiras d’espera.

 
Whitman viu a ave migratória, isolou-se no deserto, sabia das índias exploradas e dos búfalos em extinção. Como pôde amar integrando no seu coração norte e sul, branco e negro, tudo aquilo que se opõe em cada grão que floresce? Saberia ele das coisas paradas que transitam? Da pedra que morre? Da água que respira enquanto no seu leito aves e insectos e peixes se devoram uns aos outros? O humanismo do poeta consistiu em caminhar lado a lado, aceitando o tempo de cada coisa, a essência de cada coisa, a contradição no imo de cada coisa, como sendo suas. Disse:
 
Acredito na carne e nos apetites,
Ver, ouvir, sentir são milagres, e cada uma das minhas partes e extremidades são um milagre,
Sou divino por dentro e por fora, e torno sagrado o que quer que toque ou me venha tocar,
O odor destes sovacos é um aroma mais delicado do que uma oração,
Esta cabeça é mais do que igrejas, bíblias e todos os credos.
 
Sacralizado o corpo, o homem sobre todas as coisas, sua capacidade para amar, o amor, a democracia, a liberdade, a amizade, profetizou o poeta como um cristo impresso. Mas o poeta não é Deus, o poeta observa, escuta, contacta, interroga, ama, canta. Tal ave de arribação, o poeta caminha entre os homens e aos homens devolve a sua caminhada.



Por mais que me esforce não consigo entender o amor eterno na glorificação das armas. Percebo o canto de si mesmo no que tem de canto de todos, porque num só estão todos e em todos apenas um. Aceito a beleza da morte tanto quanto aceito a beleza da vida, mas esses hinos metálicos de guerra e sangue, esses hinos fazem-me outro apelo enquanto olho a minha cidade de hoje. Desço à lagoa, caminho, espreito as aves, releio o corpo eléctrico do p(r)o(f)eta. Isolo-me dos cortejos fúnebres que à noite recitam versos, distancio-me das trupes com palhaços e ilusionistas, caminho até tornar silêncio a gritaria dos altifalantes, e já nesse silêncio, isolado, procuro escutar no interior das gotículas o canto das aves, infundo os aromas da terra na página dos olhos, adormeço por instantes «as minhas filhas adâmicas e inexperientes», reencontro-me com a coesão do mundo na terra molhada, nos tapetes de erva e folhas caídas, no pântano onde a ave busca alimento, energia para o voo, de manhã cedendo às tardes bebo as formas perfeitas da natureza e desejo ainda mais silêncio, ainda mais distância, ainda mais isolamento. Porque é quando me isolo que melhor sinto desabrochar o eco da palavra inscrita, e cresço e mingo e derramo-me como quem mergulha de mãos dadas para dentro do vento.

CONTO DE INVERNO


permanecendo no inverno
e mais do que no inverno, no passado
andando um tanto ao acaso
dão connosco pela frente
os bosques da América do Norte

em todo este desenlace
o inverno, como tendo em conta o nosso esforço
não se nos apresenta rigoroso
por aí se vê que a natureza
apesar de bastante fria
continua acessível a um europeu do sul

dir-vos-ei apenas que cheguei era já noite
e dispenso-vos as minudências
as atitudes mais ou menos adivinháveis -
apresentações, questões, pequenas curiosidades
- até porque não as houve em demasia
e avançava já para a esplêndida sensação
proporcionada pela iminência do alce

não querendo carregar nas teclas
das imediações do fantástico
sublinharia porém a luciluzência do acampamento
- sua fogueira - a disposição das personagens
a musicalidade de ralos e de mochos

a noite era imensa entre o arvoredo
como nunca mais o veio a ser
e a lua reflectir-se-ia por certo
em algum charco que eu haveria de ver
uns determinados dias depois

o acampamento era irreal
de tão perfeito em suas premissas
e alguém que se afastasse
ainda que imperceptivelmente
dava a quem o visse
a inexplicável certeza
de toda uma razão de existir

um qualquer arfante perigo encantatório
passeava-se atávico
na escuridão do bosque de coníferas

adormeci ao som das brasas
derretendo a gordura dos ossos do corço
e sonhei com o meu tempo
que estaria, sem que bem me apercebesse
para advir em tempos de máquinas
e de capacidades intelectuais proveitosas

Daniel Maia-Pinto Rodrigues (n. 1960), in O Valete do Sétimo Naipe (1994). «Com altos e baixos, mais notoriamente ou menos notoriamente, este estilo e este ritmo constituem, na poesia do Daniel, uma verdadeira identidade, e atravessam o todo disperso dos seus poemas como uma distinta e pessoalíssima marca. (...) / Sinais exteriores dessa identidade são a desconcertante "naiveté" coloquial (perigosíssima, aliás, pois força frequentemente os limites do literário, confrontando-se com o banal em fintas às vezes de inseguro resultado, como as daqueles jogadores de futebol que costumam ser acusados de "não jogar para a equipa"...); a ciência da palavra subitamente inusitada, da relação tensa do adjectivo e do substantivo, do arcaísmo ou do neologismo de construção; o humor distante e enternecido, a estudada candura, às vezes amável até à perversão; a constante ruptura dos níveis do discurso, a crueza do corriqueiro irrompendo na expressão quando ela parece ir tornar-se eloquente; o uso radical do "cliché" e da literalidade; a espaços, a absoluta ausência de vigilância literária ou a desmesura retórica; uma arte da composição que joga sabiamente com a ingenuidade e a fabricação formal; e, sobretudo, o prazer físico das palavras, do seu sabor, dos seus aromas, uma dicção voluptuosa capaz de se inebriar até ao deslumbramento com certas inesperadas sonoridades e, por outro lado, propensa a súbitas e vertiginosas mudanças de curso, precipitações de sentido, pueris enternecimentos» (Manuel António Pina, posfácio a Malva 62).

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

COCÓ

Fosse o PS governo, e os opinantes de direita teriam exigido as demissões dos ministros da educação e da justiça. E não descansariam enquanto os ministros não se demitissem ou fossem demitidos ou acabassem remodelados… Como o PSD é governo, os opinantes de esquerda (ou coisa que se pareça) exigem as demissões dos ministros da educação e da justiça. E não descansarão enquanto os ministros não se demitirem ou forem demitidos ou acabarem remodelados… Já os opinantes de esquerda exigem há muito eleições antecipadas, a incompetência destes ministros e respectivos pedidos de desculpas (coisas que acontecem, disse a outra) é só o exemplo que acresce à prova de um governo incompetente, perverso, criminoso, imoral, aldrabão. Se é que me faço entender.

CRISTINA



 
 
Há que fazer um esforço e ler isto até ao fim.

O FIM DE UM WEBLOG

Em tempos, o fim de um weblog gerava ondas de comiseração. Entre o encómio e a bonacheirice de um "até sempre" que nunca existiu, porque nestas coisas a proximidade ilude-se pela frequência, o autor hesitava, ponderava, tais e tantos eram os pedidos que não partisse, as angústias do silêncio, as desesperadas ameaças de eterna solidão. O espectáculo do fecho retomava o espectáculo da partida, com os navios afastando-se e a tripulação acenando para quem ficava em terra também a acenar. De adeus definitivos nem a morte sabe, pelo que, por vezes, muitas vezes, tantas e tão enfadonhas vezes, o escriba desactivado ressuscitava, voltava a activar a pena com a alma insuflada d’elogio, retomava a actividade para gáudio dos desesperados e alegria do próprio. Nisto tudo há vaidade, sempre houve, e uma mais ou menos recalcada necessidade afectiva (?) sentimental (?). Não é coisa que se deva levar a mal, até por ser humana.
Agora, a indiferença contaminou este circo de afectos. O weblog fecha e nós deixamos de bater à porta. Finis Coronat Opus, anuncia o escritor J. Rentes de Carvalho lá no Tempo Contado. Tem(-me) feito companhia, sentirei falta até me habituar à mesma. Os últimos textos que deixa são reveladores do que ofereceu aos leitores anos a fio e com admirável regularidade. O que eu mais gosto naqueles textos é o acérrimo combate ao estereótipo, um desprezo pelas ideias feitas que não recusa, porém, a pertinência do lugar-comum. Veja-se, por exemplo, como as assimetrias sociais são enquadradas pelos números da ostentação: este tem tantos carros, aquele colecciona ferraris, o outro faz do luxo modo e meio de vida. Mas essas assimetrias não valem por si só, e se alguma coisa dizem sobre o que é ser humano pouco revelam sobre o que é ser humano em sociedade. Por isso, o autor remata com a cereja no topo do bolo (passe a expressão): o jovem amigo holandês que emigrou para o Mumbai e aí singrou, sem deixar de se impressionar com a miséria local. Cita-se:
«Uma coisa sinceramente o aflige quando vai para o trabalho: os pobres que, deitados no passeio, lhe dificultam a entrada no prédio. O que ele acabava de descobrir, e no mail me queria contar, era que os infelizes que dormem no passeio não o fazem de graça, têm de pagar umas quantas rupias ao manager do passeio, em geral um ou outro que nessa rua tem loja.»
O leitor lê e interroga-se sobre os mesquinhos donos do passeio, tende a esquecer-se do fausto da meia dúzia supracitada, mas não esquece, estabelece pontes, a miséria humana, de facto, é transversal, a do espírito, não a material, é essa miséria espiritual que não tem classes, a coisa “mais bem” distribuída do mundo, Descartes pretendia o bom senso, saiu-lhe a miséria espiritual.
O post seguinte faz do mesmo, mas com outra história. Lavar roupa suja é o tema, ou assim parece. O tema é a essência humana, chamo-lhe isto no sentido de aroma, fragância de mau cheiro. Novamente o espírito mesquinho, triste e cansativamente previsível do social:
«O que é que de facto mudou na nossa sociedade? O escândalo do casal em questão, os escândalos anteriores e futuros, os que nos contam e os que ignoramos, não nos virão em linha directa, mas herdámo-los dos antepassados, que quando vieram ricos da Índia imitaram Nero, ferrando de prata as suas mulas; andaram depois dois séculos de mão estendida esmolando aqui e ali; voltaram às ferraduras de prata quando lhes chegou o ouro do Brasil. Seguiram-se outros dois séculos de penúria e vergonha, até que nos aproximaram a teta que o senhor Mário Soares aconselhou a chuparmos ao máximo. Os que estão perto dela de novo ferram de prata as suas mulas, ou o moderno equivalente. Os outros terão de esperar vez. Onde está a novidade? Qual é a surpresa?»
O retrato impiedoso de uma sociedade em particular, impiedoso ou simplesmente lúcido, tem efeito similar quando o tema se estende à humanidade em geral, um efeito maiêutico, de “abre-olhos”. Oferece-nos elementos para uma reflexão desencantada, como, aliás, se quer toda a reflexão. Agradar ao leitor? Pois sim, tanto quanto agrada tudo o que enriquece (o espírito, claro, para que não fique do tamanho do espírito dos donos do passeio).

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A PENSAR SOBRE O ASSUNTO



Outros méritos não tivesse, Luiz Pacheco teria, pelo menos, o de enquadrar com crueza justificada um tempo que foi o seu (e que, de certa maneira, ainda é nosso). O país fascista, dos caciques e das cotadas, o país do arrivismo cultural e da calacice, esse país que durante 40 anos trouxe todo um povo a dormir sobre a mentira, é denunciado nos textos de Pacheco sem panos quentes nem pensos rápidos. As feridas aparecem apenas tratadas com a ironia e o lado caricatural do sátiro, capaz de confissões abjectas e de lamentos ternurentos. De vez em quando regresso a Luiz Pacheco, talvez na ilusão de que não me esquecendo de como foi posso melhor lembrar-me de como é. No segundo volume de Textos de Guerrilha, prosa intitulada Os Malefícios (e o grotesco) da Censura, dedicada a Os Segredos da Censura, livro de César Príncipe, oferecem-se exemplos vários do «espírito miudinho e mesquinho, francamente idiota», que então reinava. Eis alguns espantosos exemplos de censura que tornavam Portugal um paraíso onde nada havia e pouco acontecia:
 
5/1/67. «Primeiro turista de 1967 — não dizer que é operário.»
 
31/3/67. «Achado um feto embrulhado em papéis, em Algés. Eliminar que os rapazes andavam a jogar a bola com ele. Coronel Pinheiro.»
 
30/4/67. «Pampilhosa. Actos de loucura de um sargento do Exército. Não dizer que é sargento do Exército. Senhora de Vila Maior, S. Pedro do Sul, morreu ao tomar conhecimento de que o filho embarcava para o Ultramar. Não falar em Ultramar. Coronel Saraiva.»
 
24/9/67. «Funeral do capitão Augusto Casimiro. Não referir o facto de não ter havido viatura militar disponível para o transporte do caixão. Pode ser noticiado o casamento dum soldado alemão na Base de Beja com uma portuguesa — mas sem especulações.»
 
30/7/68. «Em Soutelo uma rapariga suicidou-.se depois do namorado ter seguido para Angola, mobilizado. Não falar na ida para Angola. Tenente Teixeira.»
 
20/8/68. «Transferência dos moradores do Bairro Xangai. Não usar a expressão «bairro de lata» por causa dos estrangeiros. Coronel Saraiva.»
 
28/8/68. «Presos dois gatunos em Lisboa. Não dizer que os roubados eram turistas. Capitão Correia de Barros.»
 
29/8/68. «Ciganos vendiam chá por whisky. Não dizer que os polícias andavam vestidos de fato-macaco. Dr. Ornelas.»
 
25/10/68. «Telegrama 140, da Reuter. Não aludir, no título, ao Partido Comunista Português, pois é coisa que não existe. Major Tártaro.»
 
28/4/69. «Fotografia do Prof. Salazar com o Cardeal Cerejeira, em que ele está um bocadinho descomposto. Não se deve publicar. Coronel Roma Torres.»
 
12/12/69. «Aumento do preço do corte de cabelo. — CORTAR. Coronel Saraiva.»
 
29/1/70. «As montras dos estabelecimentos de Coimbra estão às escuras — CORTAR. Capitão Correia de Barros.»
 
26/4/70. «Queima das Fitas do Porto. Espectáculo no Teatro Sá da Bandeira com baladas — CORTAR o nome do abade Fanhais. Mas, para não se notar o CORTE, é melhor CORTAR os nomes de todos os intervenientes. Não pôr em título a palavra aborto. Coronel Saraiva.»
 
22/6/70. «Lata de tinta vermelha atirada contra Heath — CORTADA a gravura e a legenda. Penafiel: um jornal tinha um título: «O bispo do Porto destacou a vantagem de nos voltarmos para a Europa.» Só pode ser assim: «O bispo do Porto em Penafiel.» No texto é CORTADO tudo o que seja política, visto que um bispo não tem de falar em política. Coronel Garcia da Silva.»
 
23/7/70. «Sismo em Sines — CORTAR. Dr. Ornelas.»
 
2/8/70. «Quanto ao pedido de não publicação da notícia do desastre e morte do filho do almirante Henrique Jorge, na estrada de Santo Amaro — pedido do secretário de Estado da Informação e Turismo — ainda hoje não se pode falar do desastre. Sindicato Nacional de Metalúrgicos, que discordam de uma homologação feita pelo governo e que mandaram telegramas. Coisas assim — NADA. O caso de Beja, de dois cavalheiros que se suicidaram. Eram homossexuais. Não se pode dizer que pediram, nas cartas que deixaram, que os sepultassem lado a lado nem que veneno tomaram. Coronel Saraiva.»
 
18/9/70. «Descarrilamento em Chaves — NADA. Tenente Teixeira.»
 
1/10/70. «Foi fundado o Sindicato dos Técnicos de Desenho. Não dizer que tal fundação havia sido pedida há mais de 30 anos. Capitão Correia de Barros.»
 
2/10/70. «Assembleia Geral do Círculo de Cultura Teatral — MANDAR. Lisboa quer MUITO CUIDADO com as coisas do TEATRO. Coronel Saraiva.»
 
30/10/70. «Não dizer, em título, que Nixon saltou da janela em pijama. Coronel Garcia da Silva.»
 
20/12/70. «Gravura do actor Rogério Paulo na TV cubana. Não pode ser publicada. Coronel Garcia da Silva.»
 
21/1/71. «No Supremo Tribunal de Justiça foi julgado o recurso de um chefe de posto de Angola que bateu num preto e o preto veio a falecer. Foi julgado e condenado — CORTE TOTAL. Coronel Saraiva.»
 
1/4/71. «Gravura da casa de Salazar, dando a perceber que está a cair — CORTAR gravura e legenda. Não é verdade. Talvez ande em obras. Tenente Teixeira.»
 
6/6/72. «O editor de Afrodite, que há tempos apresentou um livro metido numa banheira, vai agora fazer uma conferência muda e itinerante numa camioneta. Toda a palhaçada se pode noticiar. Mas nãos e pode falar em textos inéditos de Manuel João Gomes, do bispo do Porto, do padre Felicidade Alves e do Dr. Fernando Luso Soares. Coronel Saraiva.»
 
12/8/72. «No Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa rusga policial, foram presos 24 indivíduos — vadios, prostitutas e homossexuais. Pode falar-se nos vadios e nas prostitutas, mas não nos homossexuais. Tenente Teixeira.»

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

CORPO SANTO


Hão-de ser sempre misteriosas as razões que lançam no esquecimento poetas extraordinários, oferecendo a outros a glória da reedição, da recolha, da tese, da perpetuidade (tanto quanto possível na redoma exígua dos leitores interessados). O século XX português já tem os seus ícones, chamem-se eles Pessoa (primeira metade) ou Herberto (segunda metade). Outros há que vão resistindo à custa de esforços vários. Sophia e Sena, Eugénio, Ruy Belo, Cesariny, O’Neill. O problema não está em estes serem lembrados, está em outros, igualmente singulares e desafiantes, serem esquecidos. Ruy Cinatti (1915-1986) é, na minha modesta opinião, um dos poetas portugueses do século XX mais incompreensível e estupidamente ignorados, pelo que a publicação de Corpo Santo (Averno, Julho de 2014) constitui, por si só, um dos momentos altos do ano corrente no que a edição de poesia diz respeito.
Podemos distrair os leitores com traquitanas, com máquinas promocionais, com anúncios estrondosos de novidade onde apenas se vislumbra jogo de anca, mas não podemos, não devemos, ser cúmplices para com a mexeriquice que ameaça deixar na penumbra um poeta deste calibre. Mais estranho se torna o esquecimento quando Cinatti tinha tudo para ser um entre os maiores, desde uma biografia rica a uma obra que lhe fez justiça — com os devidos encómios críticos de gente credível, de Ruy Belo a Joaquim Manuel Magalhães. Sobre a vida, mais que não fosse seria expectável que interessasse o seu incorrigível nomadismo. Até por ser raro entre nós. Se Camões se aventurou em altos mares e Pessoa foi um nómada intelectual por excelência, não muitos terão saído de onde sempre estiveram, dentro de si próprios, ao “encontro inesperado do diverso”.
O primeiro livro, Nós Não Somos Deste Mundo, saiu em 1941 (dedicado a Hermínia Cinatti, mãe com raízes toscanas, falecida quando o poeta tinha apenas dois anos). Nascido em Londres, estudou em Oxford, partiu para Timor, foi metereologista, contrabandista, andou por Goa, Norte de África, Paquistão, para vir “apodrecer” em Lisboa já no final da década de 1960. Manhã Imensa (Março de 1984) foi o último livro publicado em vida, sendo nele notável uma vivência espiritual próxima de certa militância poética de tipo pasoliniana: «Comunismo — cristianismo: oposição. O poeta opta pelo cristianismo e envolve nesta opção o próprio comunismo, não sem ter deixado de apelar subtilmente pela ajuda de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro» (Manhã Submersa, Assírio & Alvim, 2.ª edição, Abril de 1997). Não nos espanta, pois, a Homenagem a Pasolini incluída em Corpo Santo: «Ó Pasolini, tu mexeste-me de verdade e eu deixo ficar tudo escrito. / Teu o meu Amor por Jesus Cristo!» (p. 78)
Em nenhum outro autor como Pasolini a conjugação do cristianismo com o comunismo foi levada tão a sério, sendo certo que, como dizia Jean Duflot, «o único partido que Pasolini escolheu foi o da ressacralização do homem, do homem cá de baixo, nascido da natureza e da mãe, e cuja assunção pode e deve dispensar toda a revelação» (in As Últimas Palavras de um Ímpio, Distri Editora, 1985). O mesmo processo de ressacralização parece operar-se na poesia de Ruy Cinatti, sendo por isso muito pertinente a escolha do título para esta “antologia de poemas volantes”. Escusada era a explicação de Manuel de Freitas sobre o título quando é ao próprio poeta que vamos buscar esse entendimento, nomeadamente em versos de Depoimento«Em cada baiuca em que entrares aí é a Casa de Deus… / mesmo que só lá estejam miseráveis publicanos como eu… / e então… que festa grande… festa redonda… o Mundo… encimado pela Cruz e na Mão de Jesus… o Magnífico… / a dar esmola aos pobres pelas mãos de um pecador…» (p. 37) — e nesse magnífico poema da página 52:

FADO

A minha atracção pelos marginais
acorda-se com o meu signo, o dos ambíguos maravilhosos Peixes.
Um aprofunda-se, outro, à superfície
das águas pestaneja
meio adormecido e sonhador…
e sendo o amor ubíquo eu sigo os dois
conforme a total necessidade e as demais
oscilações contrárias no coração dos homens,
não esquecendo a atracção que os marginais por mim não escondem…

12.3.77
 
Convém esclarecer a origem dos poemas coligidos, de forma e temática diversas, embora singularmente homogéneos no tom com que perspectivam a realidade: «Ruy Cinatti distribuiu, nas décadas de 70 e 80, centenas de poemas policopiados. (…) Os poemas policopiados em folhas volantes que Ruy Cinatti tantas vezes fez circular pelos bares do Cais do Sodré ou pelos cafés do Chiado chegaram também, naturalmente, a vários amigos seus. E daí resultou, em 1981, uma antologia anónima mas consentida pelo autor: 56 Poemas (Lisboa, A Regra do Jogo)» (Manuel de Freitas, Nota Introdutória, pp. 5-6). Na realidade, os 56 Poemas, reeditados pela Relógio D’Água em 1992, foram agrupados por João Miguel Fernandes Jorge. Tanto nessa como nesta antologia encontramos alguns dos melhores momentos que a poesia de Cinatti conheceu, quer quando adopta formas tradicionais, quer quando liberta o verso de métricas rígidas. A actualidade política, olhada com desencanto, é satirizada com um discurso tão verrinoso quão descrente das estruturas do poder. Mas o que mais impressiona é a preponderância dos símbolos numa poesia aparentemente circunstancial, num diálogo persistente com a tradição e com a cultura que questiona o presente e o deflagra com situações onde fica claro o definhamento dos homens. Dos homens ou da espiritualidade. Por vezes, estes poemas interpelam-nos acerca da perda do assombro e da ausência de espiritualidade. São uma espécie de lamento místico mas com os pés na terra, essa é a sua maior força.  Ou então são a súplica do nómada atracado, comovente apelo, inigualável dor:

ANTI-ODE MARÍTIMA

À memória de Álvaro de Campos

Ó barcas de velas altas, ó horizontes,
carreiras de navegação para todos os portos!
Ó brumas matutinas quando a escuna
se espuma sobre baixios perigosos!
Ó ilhas, edénicas fortunas
de aventureiros fortes, audaciosos!
Ouçam o meu apelo, ó sirenes que ecoam
nos meus ouvidos os mais fundos avisos!
Eu sou o que não sou, sendo improviso
como um cego ao subir passeios,
mas possuo, ó fumo dos navios,
da minha condição, visão informe!
Ouvide a minha súplica, atendei-me,
levai-me convosco à aventura!
Que eu ouça o grito das gaivotas
e o marulho nocturno: vagas múltiplas!
Meu coração tropeça. Tenho frio
e calor d’encontro a vós, senhores
dos mares, dos poentes espantosos:
derrame de luzes e de vozes!...
Sou tão vosso como dos navios
aos altos mastros içadas as adriças
dos sonhos que vos habitam dia e noite,
com sereias, polvos, cachalotes!
Tenho de mim certezas, apenas falta
vosso convite alegre, insinuante
meneio de cabeça, olhos distantes,
mas tão junto a mim como um afago!
Ide, parti, levai minh’alma
já que o corpo espera, espera, espera!...

30.6.83

Ruy Cinatti, in Corpo Santo, org. Manuel de Freitas, Averno, Julho de 2014.

NATUREZAS-MORTAS SOCIAIS


Dia 4 de Outubro inaugura a exposição de pintura «Naturezas-Mortas Sociais» na Galeria Cossoul em Lisboa (Av. D. Carlos I, nº 61, 1º andar - Lisboa) às 18h-21h. É da minha amiga Maria João Lopes Fernandes, outrora co-autora do weblog Insónia. Lá estarei.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

#45


Uma superbanda pode ser uma banda com muitos elementos ou um projecto com elementos provenientes de várias bandas marcantes. Os The New Pornographers, com este nome respigado entre o humor e a mera provocação, são mais a primeira do que a segunda versão de superbanda. No entanto, entre os seus membros encontramos nomes relevantes da chamada pop independente tais como Neko Case ou os Destroyer. Formados em meados da década de 1990, estrearam-se com o álbum Mass Romantic (2000). Onde há muita gente é natural haver instabilidade, pelo que os primeiros três registos revelaram a busca de uma identidade que Challengers (2007) acabou por consolidar. O quarto álbum ofereceu-nos uma dúzia de canções melodicamente depuradas, com arranjos geralmente divertidos e orquestrações refrescantes. A. C. Newman, principal compositor de serviço, brinda-nos com retratos irónicos e multicoloridos da vida quotidiana. Os The New Pornographers distanciam-se, em todas as linhas, do discurso neo-depressivo e decadentista, elegíaco e tantas vezes enfadonho de muitos artistas congéneres. Mesmo quando abordam temas românticos e até religiosos, conseguem fazê-lo sob uma perspectiva heterodoxa e agradavelmente cínica:


impossível confissão (para Mário de Sá-Carneiro


a incontinência dum dia assim: estuporado
de azul, quase dado de tão distante.
a alma ao rubro descobre-se nesse fósforo incendiado,
longe do corpo porque na visão.

sofro de transparências, saudoso das baças
obtusas imagens em que o gelo se confundia com o fogo.
sou-me habitação alheia, hóstil, como um eucalipto
erecto ao sol, por mera solenidade do alibi.

o rio passa mas na imagem sei perpétuo
o erro que me impede de partir.
será vocação o sol refulgente
nas asas metálicas do estorninho?

a casa encosta-se ao ouvido, na ribeira
as pedras líquidas onde o coração revolto
se camufla. no musgo cauterizado pelo verão
aí nasci.

não senti por nenhum corpo o que senti.
é difícil precisar a qual dos ramos pertence
o zéfiro. mas o escândalo dum cavalo crepitando
sob a chuva, não renego.

só desvelar me importa, não julgar o que vejo;
pode sobrar o restante que não me interessa: não existe,
mesmo que mais verdadeiro. até a morte nos seus indícios
se ludibriar, como a neve nos dias de maio.

António Cabrita (n. 1959), in O Milagre das Tribos (1982). «(...) muito mais importante do que o uso da matéria histórica e política é a imagem heróica do poeta-vate, exigindo uma retórica e uma pose à altura da sua grandeza. Como é fácil perceber, isto tem os seus riscos, e não são pequenos: o risco da ênfase, da hipérbole, do artifício. Mas temos de reconhecer que estes poemas, sempre pensados como uma operação de risco, ganham força exactamente na medida em que se confrontam com provas difíceis. E mesmo quando as suas fantasias barrocas e a sua exuberência metafórica (...) nos suscitam algumas reservas, eles seguem na direcção desse «fundo impróprio» (...), que não é propriamente um objectivo que se alcance com gestos cautelosos e elegante compostura. Certo é que a poesia de António Cabrita é em tudo contrária a uma nova austeridade que encontramos em muitos poetas recentes. Nela, as metáforas são o próprio órgão do pensamento e, por isso, ficam às vezes submetidas a um exercício rebuscado» (António Guerreiro, Expresso, 6 de Dezembro de 2003).

IDEIAS PARA O BANHO

(...) tomávamos duche,
ensaboava delicadamente o éneo membro
e fazia força com o ventre tentando insuflar ar na uretra
para fazer bolas de sabão (...)

António Cabrita, in O Milagre das Tribos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, colecção Plural, Julho de 1982, p. 54. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

INICIAÇÃO


A tarde aglomera-se entre quatro paredes
há duas portas e mais duas janelas
e as folhas aguçadas por repentes de brisa
passam lá fora por cima dos telhados.

A vontade tenaz imersa no desejo
de conhecer o mais que nos impede
a condição de sermos minoria
empurra-nos as costas
segura-nos à liça.

Dispõe-se o corpo
conhece-se por dentro
e sente-se a mucosa,
o torpor da glândula
rumoreja na vala.

A cara surge ao perto
a interdita forma desfaz a compostura
e o pânico apodera-se da garganta cerrada.
É fácil agarrar a experiência
recuar o letargo que nos mantém inertes?

À crua luz do desejo citado
a prostituta despe-se.

Na luz que irradia do fecundo icebergue
ténue perpassa a fria radiante
ríspida sensação do cheiro forte da laca
inclina a cabeça da hora.

No estéril quadrilátero
incapaz por uns tempos de mostrar mais
do que esgarçados restos
ouvem-se frases descer na ampulheta.

Nas dunas a infâmia acomete
uma nuvem de pó obriga-me ao segredo
da pupila na pálpebra.
O amor desfaz na cabeleira
a trama que imagina factos não confirmados.

A presença da mãe paralisa o contorno
o desejo não efectua a partenogénese,
a maré não avança
jungida na barreira dos traços paralelos
que vedam a decrépita face
à jovem discrepância da torrente incontida.

A inundação represa nos abrigos
esmorece nos charcos em que se continua.
O desejo é mercúrio
a escorrer no termómetro.
A febre desta tarde arrefece em sezões
que me deixam nas plamas um nevoeiro ruim.

Fátima Maldonado (n. 1941), in Os Presságios (1983). «O primeiro sinal de amplitude recolhido neste poeta (dos que mais admiro) é lexical. No campo dos nomes, dos adjectivos, dos verbos, um matagal de palavras recuperadas aos mundos submersos da língua triunfa como selva pujante. Palavras comuns surgem a par de descobertas profundas que parecem emergir de diccionários secretos, onde a alma retira do pó esquecidos tecidos de letras. Os poemas parecem tornar-se anjos da guarda das almas de vocábulos que, de repente, esvoaçam perante nós, de braço dado com outros vocábulos mais banais que nada se surpreendem com a inesperada companhia. (...) É um dos olhares mais seguros e mais desapiedados da actual poesia portuguesa. (...) A opulência verbal esconde o mais conciso sarcasmo e a mais conceptista das descrenças. Contempla ruínas do centro do incêndio da beleza que persegue com o único talismã que resta a alguns afortunados da derrota, a poesia. (...) Custa ler esta poesia se não se lhe apanha o seu âmago de dor, cercado de prazeres tecidos na sensualidade da língua. Pois não são as medidas mais convencionais que a conduzem, antes esse prazer verso a verso inventado, entregue aos ritmos de uma exterioridade que não está muito interessado no convénio da habitualidade» (Joaquim Manuel Magalhães, Rima Pobre).

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

AS ARMAS SECRETAS


O centenário de Julio Cortázar (n. 1914 – m. 1984) tem sido celebrado em Portugal com a publicação de algumas das suas obras emblemáticas, entre as quais Final del juego/Final do Jogo (1956/2014), este Las Armas Secretas/As Armas Secretas (1959/2014) e Queremos tanto a Glenda/Gostamos tanto da Glenda (1980/2014). Devemos o feito à editora Cavalo de Ferro, que do mesmo autor já havia publicado a obra-prima Rayuela/O Jogo do Mundo (1963/2008), La vuelta al día en ochenta mundos/A Volta ao Dia em 80 Mundos (1967/2009) e Papéis Inesperados (2010). A um conto de As Armas Secretas foi o realizador Michelangelo Antonioni buscar inspiração para o filme Blow-Up/História de Um Fotógrafo (1966). Sobre o filme, escreveu Pedro Mexia que se inspirava vagamente num conto de Cortázar. Acrescentando, porém, o comentário crítico de Peter Brunette: «Blow-Up não nega a existência de um sentido mas suspeita que o «sentido» é uma construção social» (Cinemateca, Tinta-da-China, Dezembro de 2013). Ora, quem leia As Armas Secretas aperceber-se-á de quão eufemístico é o “vagamente” de Mexia. 
É verdade que o filme não reproduz a estrutura do conto em que se baseou, nem seria de esperar que o fizesse. Mas a sua essência foi captada e transfigurada à luz de uma linguagem diversa. De resto, o problema do “sentido” é uma das marcas fundamentais na obra de Cortázar (podemos até afirmar que se trata da questão mais presente na prosa sul-americana). Cortázar, que apesar de ter nascido na Bélgica e de ter passado grande parte da sua vida em Paris, nunca se desfez das raízes argentinas. Tal como Jorge Luis Borges, cultivou sobretudo o conto. E é de contos que estamos a falar quando nos referimos à colectânea As Armas Secretas, cinco contos de extensão diversa mas percorridos por esse problema do sentido que traduz uma extraordinária capacidade de questionar o real e a sua relação com a linguagem. 
Tomemos de exemplo as extraordinárias primeiras linhas do tal conto que inspirou Antonioni, As babas do diabo: «Nunca se saberá qual a melhor forma de narrar isto, se na primeira ou na segunda pessoa, usando a terceira pessoa do plural ou inventando, continuamente, formas que não servem para nada. Se se pudesse dizer: eu viram nascer a lua; ou: nós dói-me o fundo dos olhos; e, acima de tudo: tu a mulher loira eram as nuvens que continuam a correr perante os meus teus seus nossos vossos seus rostos. Que diabo» (p. 53). Torna-se claro ser o problema do sentido, entendido aqui como capacidade de transcrever ou representar a realidade fazendo uso de uma linguagem que não a traia, o cerne da situação mencionada. O mesmo valerá por cada um dos contos coligidos nesta recolha. Inevitável pensar em Wittgenstein, nos esforços colocados numa investigação sobre os fundamentos da matemática, da lógica e, por consequência, da relação que o pensamento estabelece com a realidade e na forma como a organiza em linguagens cujos limites a tornam frequentemente paradoxal e até ambígua. 
Especialmente revelador é o extraordinário conto O perseguidor, sobre um músico de jazz e a forma como um crítico, seu amigo, o olha, percepciona, interpreta e biografa. Johnny, o músico, de algum modo encaixa no estereótipo do jazzman alucinado, perturbado pelo consumo de drogas, alheio às convenções, distanciado de uma percepção metódica do tempo e do espaço. Johnny é música e improvisação em estado bruto, naquele estado em que uma linguagem dita factual se vê circunscrita pela abstracção do sujeito: «Depois de amanhã é o dia a seguir ao de amanhã e amanhã é muito depois de hoje» (p. 71). Ou, mais adiante: «Como se pode pensar um quarto de hora num minuto e meio?» (p. 80) O problema do crítico e biógrafo de Johnny reside em tornar compreensível perante o público esta desconstrução da realidade operada por um sujeito cujos “padrões” de organização do mundo não jogam com os padrões da maioria. Daí a conclusão: «Johnny não se movimenta num mundo de abstracções como nós; por isso a sua música, essa admirável música que ouvi esta noite, não tem nada de abstracto. Mas só ele pode contar o que colheu enquanto tocava e, provavelmente, já estará noutra, perdendo-se numa nova conjectura ou numa nova suspeita» (p. 92). Isto é, como pode alguém cuja função é tornar compreensível uma realidade ser fiel à mesma quando esta escapa à limitada capacidade humana de a interpretar, organizar, reproduzir? 
Johnny podia ser Charlie Parker ou John Coltrane ou qualquer outro desses músicos extraordinários que eram incapazes de tocar duas vezes seguidas, da mesma maneira, o mesmo solo. As suas realidades eram uma abstracção permanente do real. A questão que aqui se coloca é, pois, sobre as possibilidades de interpretação da realidade, questão essa que nos transporta para os territórios onde a normalidade e a loucura embatem com estrondo e provocam mais ou menos estragos. Quando transposto para o espaço lógico, o mundo factual perde grande parte da sua dimensão realista. Toda a arte resulta desta relação problemática, sendo por isso legítimo considerar que os contos de Julio Cortázar problematizam a sua própria natureza e nos impelem a pensar os limites da linguagem e a capacidade de estruturar a realidade em formas onde a lógica do falso e do verdadeiro não determine o gozo da transfiguração. A fotografia, enquanto representação supostamente fidedigna da realidade, é talvez a forma de arte que mais radicaliza esta discussão. Mas sobre isso já Michelangelo Antonioni disse o que havia a dizer.

UM POEMA

Este, do José Carlos Barros, que de algum modo sintetiza o que há muito venho dizendo. Perdoe-me o autor a presunção, que a interprete como humilde identificação para com o tom, a forma, o conteúdo do poema.

CÁ SE FAZEM, CÁ SE PAGAM



Com um PS ajuizado, este governo há muito tinha caído. Mas do PS podemos esperar tanto juízo quanto podemos esperar das garantias de Passos. Enrolados em tricas (endógenas e exógenas), os homens do poder brincam com o país à beira mar plantado. Será possível assistir ao espectáculo sem sentir um nojo profundo? E vamos manter tudo na mesma confiando nos Tós?
 
Post-scriptum:
Um dia, Passos Coelho inventou este termo a propósito de qualquer coisa: malabarice. Não explicou, mas esta filha do malabarismo e da malandrice, que não existe ainda nos dicionários (pelo menos no Aurélio), foi uma magnífica contribuição para a literatura nacional, que só posso saudar.
Malabarice é o que estamos a viver hoje.
Malabarice é o secretário-geral do Parlamento apresentar informações falsas para proteger o seu correligionário, quando tem obrigação de prestar informações verdadeiras.
Malabarice é Passos Coelho fingir que abdicou de 10% a título de exclusividade quando recebia 15% por ser vice-presidente da bancada, o que o impedia de receber os malabaristas 10%.
Malabarice é receber um subsídio de reintegração quando já se tem um trabalho pago e se continua a ocupar o mesmo posto no mesmo trabalho pago.
Malabarice era uma empresa que pedia por intermédio de um amigo (Miguel Relvas) um financiamento de 1,2 milhões para formar 1063 técnicos para 9 aeródromos, dos quais só 3 estavam abertos e tinham dez trabalhadores.
Malabarice foi agora a explicação de Passos Coelho para o dinheiro que recebeu da Tecnoforma enquanto declarava exclusividade no Parlamento.
Malabarice é dizer que não recebeu qualquer remuneração certa e jogar com palavras, quando se fazia pagar em despesas de representação, que na época era a forma legal de não pagar imposto.
Malabarice é não dizer quanto recebeu nessas despesas de representação.
Malabarice é viver com subterfúgios para não pagar impostos e depois impor um colossal aumento de impostos aos trabalhadores e reformados.
Malabarice é dizer a todos os outros que vivem acima das suas possibilidades e usar todas as suas próprias possibilidades para não pagar os seus impostos.
 
Francisco Louçã, aqui.