segunda-feira, 25 de agosto de 2014

TEMPOS MORTOS



Inclina-se o rosto para o sol, voltam-se as costas ao mundo. É simples, mesmo quando pesam sobre os ombros toneladas de frio negro. Com a merda que somos podemos adubar inúmeras terras. Não restem vidas nem dúvidas nem dívidas, para com os outros apenas o dever de uma certa honestidade: dizer branco quando é azul não tem problema, baralha os neurotransmissores com que as coisas ganham forma; e verde mais amarelo dá um castanho muito belo e invejável. Sentindo alguma ligeira vergonha por dentro do peito se o nó do ressentimento se formar, faz-se assim mesmo de rosto inclinado para o sol e costas voltadas para o mundo. Achamos sempre que merecíamos melhor do que temos porque temo-nos. Mais fundo ou à superfície, medra quase sempre a estima rastejante que chega ao fundo das garrafas cheia de sede. Pelo caminho, campos de girassóis atapetam memórias livres… as memórias estendem-se nos beirais e reclinam a paisagem de angústia com carinho. Das inúmeras terras adubadas colhemos agora o texto, o suco da palavra que talvez escorregasse melhor com açúcar dietético. Enfim, não é para saber bem nem sequer gulosar a saúde. É mesmo para aligeirar os tempos mortos.
 
Beja, 2014.

domingo, 24 de agosto de 2014

BURROCRATAS

Descobri a palavra num poema de Herberto Helder publicado em Servidões (Maio de 2013):

esquivar-se à sintaxe e abusar do mundo,
oh como em pedra trançada ficou dito,
ígnea pedra até ao fim de tudo e mais que tudo isso infundido,
lá onde fresca e unânime a terra que respira:
ferida funda
— e sem nada a ver com tudo,
os burrocratas indizíveis

Na minha ignorância, julguei nova a palavra. Mas redescubro-a num poema de Fabiano Calixto publicado em 2006. Deixo um excerto:

os tijolos vermelhos lodosos
as casas pela metade
andaimes, latas de tinta vazias,
pedras, cimento, cal

enquanto os burrocratas
do pensamento
discutem mais-valia & idolatria
mercancia & democracia
lucracia & poesia
na sala de justiça
dos bem-nascidos
& rebocam sua vaidade & idiotia
na cara da geral,
outra poesia é feita
neste mundo
na universidade desconhecida
na vida sem fim
de quem chegou até aqui
derrubando, aos murros, o muro
moldando o mundo a muque

Entretanto a palavra tornou-se conceito que muita coisa abarca. Burrocratas: definição de um tempo sob o toldo da revolução tecnológica.

POEMA RASURADO


Além da página em branco, há um outro recurso que se vai tornando mais recorrente. O poema rasurado expressa uma intenção distinta do poema vazio. No poema vazio (ou quase) a ausência de palavras induz no leitor sensações contraditórias, ao passo que o poema rasurado é muito mais objectivo quanto à vontade do autor. Neste caso, há como que uma suspensão do conteúdo. Geralmente, apagamos o que não interessa. Talvez queiramos com o poema rasurado mostrar o que não interessa. Veja-se este exemplo encontrado no livro Compositores do Período Barroco (Deriva, 2013), de José Ricardo Nunes:


Optar por não suprimir literalmente o texto acaba por atribuir-lhe um estatuto dúbio, conferindo-lhe uma autonomia e exclusividade que os outros poemas do conjunto não merecem. O poema rasurado é e não é. Repare-se que não se trata de algo que foi deitado para o lixo, mas sim de um texto que se isola do conjunto por haver nele uma especificidade que o ostraciza. Um outro exemplo aparece-nos no livro Equatorial, excelente antologia do poeta brasileiro Fabiano Calixto sobre a qual deixarei um post em breve:


Neste exemplo, o título do poema escapou à rasura. Lido o que se esconde por detrás dos riscos, percebemos existir na atitude um gesto lúdico típico da poesia concreta. Ou seja, transforma-se em expressão o aspecto gráfico. Tanto num caso como no outro devemos ressalvar a coragem dos autores em ultrapassar as fronteiras de um dicção convencional. A pergunta que se impõe é: como ler em voz alta estes textos? Coloco-me a mesma questão sobre as páginas em branco ali partilhadas. Há nestes textos algo que escapa à recitação. Nos poemas em branco escapa a capacidade do leitor para imaginar sobre o branco da página, nos poemas rasurados escapa o efeito da rasura. E o mesmo poderíamos questionar acerca do título de um livro como este de Miguel-Manso, que no interior se explica com poema epigramático deixado ao alto:


EDUARDO WHITE (1963-2014)


Nada reconheço, nada. Os escombros, o ódio arrumado nas gavetas, o tijolo do ciúme nos guarda-fatos, a trepadeira da escuridão, as aves caídas e amarrotadas na sua plumagem, as canções fúnebres, os canos rotos, as portas caídas da demolição.

Não posso crer que aqui estive, que abri cartas e cantei e disse versos, não posso perceber que o brilho se desgastou, a vida se deteve como um espólio velho e sem interesse. Não posso crer que ambos tenhamos aqui vivido, ou que eu, ou tu, ou ambos tivéssemos fingido o contrário que é o contrário na nitidez destes testemunhos.

Teremos amado ou combatido, indago-me, teremos vivido ou morrido pelas escamas presentes, pela humidade apodrecida, pelos objectos distorcidos, pelo feno triste em que se tornou a cama. De tudo me dou conta e sem notícias de ti, apenas um vazio com uma máscara irreconhecível, uma trémula e evasiva realidade.

Levanto-me, a custo, e percorro este simulacro de algum Sudão, de alguma Guernica, de qualquer uma Uganda tão evidente ainda hoje, predestinado à fome e à violência, à dor, à barulheira das armas, ao genocídio cínico, ao peso das armas e das catanas, vou entontecido, costeiro a este lugar que agora me repugna veementemente e atravesso os gemidos terminais da morte devagar, devagar para que me não reconheçam.


Eduardo White, in Dos limões amarelos do falo às laranjas vermelhas da vulva, Campo das Letras, Junho de 2008, p. 49. A imagem ao alto foi respigada aqui.

sábado, 23 de agosto de 2014

VULCANO


Há tantas casas abandonadas, leitor.
Ângulos secretos,
Escuros,
Difusos, por onde a luz não encontra ninguém.
E sabes, 
Antes de mais,
As casas são organismos que ardem por dentro
Ou somos nós que as julgamos arder na combustão dos corpos;
Na louça disposta em desalinho;
No lume intenso das mãos que bailavam entre cigarros,
Quando a noite descia na Granja e se sentava à nossa mesa.
Era um projecto simples — queimar retratos,
Genealogias
E outras misérias de quem aposta, em terceira fila, no jogo de perder.

Falhámos e
Talvez por isso, a casa grande da Granja
Arda por diferentes razões
Por motivos que o fogo não entende, não justifica.
Mas denuncia.

Rui Pedro Gonçalves (n. 1973), in Noites na Granja (2006). «Poemas de menor extensão intercalam outros de maior número de versos, demonstrando uma cuidadosa atenção construtiva e uma perspicaz medida dos cambiantes em que autor e possível leitor têm de gerir um acordo.Todos eles, todavia, trazem história: familiar, de espaço vivido, de tempo dilatado no seu decorrer, de emoções calidamente afloradas. Os espaços interiores das casas, o desenlace do corpo onde tudo principia e finda, o lugar humano das histórias de que nasce a sua (...) A delicadeza que atravessa a força imaginística e a pulsão vital que anima estes versos devem obrigar-nos a estar muito atentos» (Joaquim Manuel Magalhães, Expresso, 4 Março 2006).

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ANIMAIS DOMÉSTICOS 2

*
Brincos, piercings, colares, pulseiras, anéis, tatuagens, a carne maquilhada, a alma subnutrida.
*
Por que é bela a paisagem? Não está tatuada.
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Depilação e dietas, quando a higiene curva para a vaidade.
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Exibe o corpo, procura a alma.
*
Reencontrar na simplicidade da fruta acabada de colher a pele torturada pelo sol.
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Bronzear a pele com protector 100 na inteligência.
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Adora esturrar ao sol, detesta pretos.
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A noite no Verão: época de saldos.
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Tanta gente alegre e apaixonada, tanta gente ébria, tanto rosto desprotegido, tanta indiferença, tanta vontade de partilhar com o mundo a felicidade dos dias, tanto plástico.
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O pior do regresso ao trabalho não é o trabalho, mas antes a confrontação com a realidade.
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A realidade é um sonho, todos temos uma criança dentro de nós, o tempo passa depressa… Banalidades com que disfarçamos o desespero, uma espécie de creme que disfarça as rugas do espírito.
*
Uma rapariga foi violada numa praia de nudistas, um deputado sugere a proibição do naturismo.  Por coerência, esperemos que quando alguém for violado numa escola se sugira a proibição do ensino.
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A psicóloga anuncia uma ideia com o entusiasmo das grandes descobertas: um boletim de saúde mental. Padece de psicologite aguda.
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Perante o caso da bebé que morreu em água a ferver, alguém defende que antes de terem filhos as pessoas deviam ser sujeitas a um teste que determinasse estarem ou não aptas para a parentalidade. Ainda há-de aparecer alguém a propor um teste que determine à nascença se um bebé está ou não apto para a cidadania.
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Há várias formas de regressar ao mundo, a melhor é com o interruptor desligado.
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Não ter tempo para nada pode ser muito vantajoso, embora gere equívocos: há sempre quem julgue que não ter tempo para nada equivale a ter tempo para tudo.
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Olhamos para os livros mais vendidos e percebemos a sociedade em que nos encontramos, sobretudo quando concluímos ser um sucesso comercial o mais ilegível dos livros.
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Como acreditar no povo com um povo destes?
*
Base, rímel, verniz, óleos, gel, lifting, ceras, delineador, eyeliner, sombra para olhos, a alma disfarçada.
*
Sono descansado.
*

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O EMPAREDADO



Já ninguém semeia, lamenta-se o homem no adro da igreja. A sombra plantou-o ali e ali ele cresce para a colheita que todos ceifa. As mondadeiras trabalham agora nos departamentos sombrios das câmaras municipais, o lírio roxo adolesce distante de olhares contemplativos.


 
Do outro lado da margem o gado apascenta livremente, deste lado é um role de dificuldades, decretos, impedimentos. O país teme o estrume das vacas, ao mesmo tempo que se permite enterrar no estrume da política. Somos de uma terra emparedada, continua. E eu escuto-o no intervalo que medeia dois dedos de conversa, um dedo de esperança.



Escuta-se o cante nas ruas desertas, na paisagem estendida para lá dos sonhos, a paisagem transformada que tudo absorve. Varanda do Alqueva, diz o poema. Por vezes, convém entrar no jogo da beleza. Sobrevivemos desta cedência de amarguras que tece lentamente o tapete da paisagem. Tanto céu para um só milhafre, tanto tempo para uma única história.



E o homem prossegue sua história, esquecido do vento que fustiga as pedras do cromeleque. Há quantos anos ali fossilizados os sonhos da humanidade? Assim dispostas, as pedras curvam-nos à terra enquanto oram pelos astros. Indiferentes a fronteiras e ao desemprego dos homens, mantêm-se de pé protegidas pelo espanto.



Ora, aqui chegados, que mais podemos desejar do que adiafas de pão e vinho? Neste pátio, a desoras, os objectos vazios não fazem justiça à gratidão dos elementos. Alguém teve que semear este bem receber, não vem do nada o acolhimento. A simpatia rega-se todos os dias, haja quem a semeie. Podem os garrafões de vidro vazios ser os menires desta nossa pré-história.
Entre Monsaraz e Redondo, Julho de 2014.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

#39


Durante uma partida de futebol, reparo que a música de fundo antes do jogo começar, no intervalo e no fim é de Carlos Paredes. As melodias do guitarrista atingiram uma tal familiaridade com o público português que é hoje possível escutar Verdes Anos onde antes se escutava We Are The Champions. Podemos falar, pois, em capacidade de risco quando alguém se aventura na recriação dessas melodias, mais ainda fazendo uso de um instrumento tão pouco popular e arredado do grande público como é o cravo. Joana Bagulho registou em Acção (2010) dezoito das mais emblemáticas peças de Carlos Paredes. Trata-se de uma transcrição, verbo usado pela intérprete, onde ressalta uma leitura apaixonada capaz de surpreender quando a sonoridade do cravo mais se distancia, pela sua gravidade, dos dedilhados na guitarra. São vários os momentos em que pressentimos uma entrega absoluta ao espírito melancólico e exaltado destas composições, sendo que o barroquismo emprestado a temas como Canção ou Sede desviam essas emoções de uma dimensão exclusivamente popular sem que as mesmas sejam desenraizadas. Neste caso, nem o cravo precisava de descer ao território da guitarra nem esta precisaria de se elevar aos salões do parceiro. Joana Bagulho desconsidera eventuais hierarquias entre os instrumentos. Como que dançam ambos um com o outro, conduzindo o cravo na realidade o que retemos da guitarra na memória. A escutar, esta entrevista na Antena 2.

ZEITGEIST


Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
plo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pla madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade. 

Fernando Pinto do Amaral (n. 1960), in Às Cegas (1997). «Entre a prolongada introspecção, de preferência depressiva, e o dobramento subjectivista (mas procurando jogar com uma suposta capacidade da mimesis: a de fazer do poema um bom «condutor», apto a libertar nas palavras o afecto dos objectos e do vivido), somos aqui confrontados com reelaborações de estados de alma e de um vocabulário correspondente. Em relação aos estados de alma, notemos que eles se referem quer a uma esfera psicológica quer ao sentido acústico-musical das tonalidades afectivas; quanto ao vocabulário, veja-se a importância que adquirem palavras como «alma» e «coração» (António Guerreiro, sobre Pena Suspensa, in Expresso, 22 de Janeiro de 2005).

PROJECÇÃO



Entro no largo da Câmara Municipal pela Rua de São Tiago. Avisto-o de costas, estático, como se fosse uma estátua ali colocada. Os longos cabelos brancos caem sobre as costas, manto que o protege das intempéries. Certifico-me de que se trata de quem penso. Dou uma volta ao largo, sento-me do lado oposto ao que se encontra e observo-o. Intento a palavra certa, não vá cortar a boca no arame farpado. Ele não pestaneja, está recostado no banco do largo remodelado. A coluna curvada. Uma barba farta que se mistura com a cabeleira estende-se sobre o peito. Descobrimos-lhe o olhar só quando nos aproximamos. De quando em vez, esboça um cumprimento. Acena com a cabeça, levanta uma mão. Parece calmo. Mas tem nos olhos a cor grisalha dos cabelos, uma paz combalida. Há pouco, as gaivotas sobrevoavam o aterro sanitário em busca de alimento.



Aproximo-me, meto conversa. A poesia gera pontes, mas são todas de ferro velho enferrujado. A palavra certa é a mais simples. O homem dos cabelos brancos mantém o discurso que já lhe ouvira. Uma coerência desarmante. Pressinto-lhe as mazelas de um acidente vascular recente. Explica-me o que os médicos não admitem, que o achaque afinal foi uma projecção. Quando se preparava para descansar da missão que o trouxe à cidade, aconteceu-lhe aquilo. Agora não pode descansar, não pode voltar a ser quem era. Ninguém volta, penso. Mas este homem, tão certo e convencido de ser quem é, entala-me entre os benefícios da loucura e os estragos da normalidade. Não sei se chame liberdade ao seu abandono, não tem o sentido de abnegação da esfinge hindu.  Talvez o seu mundo cresça do avesso, jogo de espelhos onde as horas são preenchidas tentando perceber o que há de real no reflexo. 
Évora, Julho, 2014.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

DOLORES DURAN

Sobre Dolores Duran, um documentário da TV Globo:
1ª parte: aqui; 2ª parte: aqui; 3ª parte: aqui; 4ª parte: aqui; 5ª parte: aqui.

UBI SUNT



A opção por uma expressão latina para título de um livro oferece ao objecto uma certa solenidade. Não é caso único no conjunto da obra de Manuel de Freitas (n. 1972), desta feita devidamente inventariada ao longo de cinco páginas posteriores ao índice. Perturbadora, porém, esta opção no menos solene dos poetas portugueses contemporâneos, assim como impressionante a produtividade de um autor estreado apenas há catorze anos mas que conta já com cerca de quatro dezenas de títulos publicados em nome individual. Ubi Sunt (Averno, Junho de 2014) é aquilo que anuncia: um livro evocativo de pessoas e de lugares ausentes. Sendo a morte, na sua íntima relação com a pesada mecânica do tempo, um tema recorrente nesta obra, ela aparece agora directamente associada à perda. O volume é dedicado à memória de Maria de Lourdes de Almeida Pereira de Freitas, embora diversos dos textos que preenchem as três partes (Hic, Et Nunc, Et Semper) sejam objecto de dedicatórias a personalidades facilmente identificáveis (geralmente escritores que se presumem do círculo de amizades do autor). Esta vertente intimista é fortalecida pela omnipresença da companheira de Manuel de Freitas ao longo dos três conjuntos, convocada múltiplas vezes a partir de referências mais ou menos directas. Trata-se de um registo pessoalíssimo que, curiosamente, parece pretender anunciar um certo distanciamento. Desde sempre encontramos também nesta poesia evocações da infância, dos lugares onde a mesma se concretizou, assim como daqueles por onde se foi perdendo. A poesia de Manuel de Freitas apela a uma viagem no tempo, com recuos onde a memória vai encontrar os elementos que explicam a tristeza, a melancolia e a nostalgia enquanto sentimentos fundadores de uma poética marcada pela saudade nesse sentido muito próprio que a poesia portuguesa lhe confere (mas que nada tem que ver com cultos messiânicos ou bandeiras identitárias). «O maior andarilho e boémio / da minha aldeia» (p. 12), «um grande bêbedo / e um fumador diligente» (p. 13) não são meros recursos literários, conectam o poema a lugares e tempos povoados por figuras de uma memória que aqui se constitui enquanto imaginário possível da experiência de vida sobre a qual o texto se constrói. Os poemas em prosa, em maior número, desenvolvem este processo com especial acidez, chamando a atenção para sítios onde o poeta conheceu os melhores e os piores espíritos da sua geração, ou se atira aos «evangelistas da eternidade» (p. 17) depois de uma consulta médica, ou lamenta ter-se esquecido dos nomes de praticamente todos os professores de Português. A constatação da decadência propulsionada pela passagem do tempo — «o desgaste do tempo» (p. 41) — resulta numa nostalgia desapiedada, sem concessões líricas nem encantamentos fugazes. O ambiente cultural e social do país encontram nesta poesia um retrato desencantado, centrado, é certo, na expressão de um Eu que se afasta do que agride mas admite aproximar-se pela linha afectiva: «a amizade é uma ponte incalculável» (p. 38). Sem pretender parecer nostálgico ou ser confessional, Manuel de Freitas acaba por ser ambas as coisas: «Com ou sem talento, fui ou sou tudo o que vagamente desejei: poeta, crítico, editor, barman, livreiro e tradutor. De um modo quase sempre bastante heterodoxo, é certo. E tive amigos, conheci de perto o amor. Também houve falsos amigos, traições, os piores enganos» (p. 46). A literalidade do discurso, que por vezes insinua uma enervante autocomiseração, agita a leitura. Não é usual, mas, por isso mesmo, recentra na autenticidade da voz a sua maior força. Dúvidas sobre a utilidade da poesia («aproximar pessoas» e «diluir falsas fronteiras» na p. 35, «serve para nos sentirmos um pouco mais tristes, solitários e deslocados» na p. 54), o desconsolo das dores intoleráveis (o tédio dos dias, a perda…), indícios de uma saturação aparentemente fatal, são instantes que denunciam uma poética feita de despedidas, uma poética exclusivamente ligada à existência (que é, para todos os efeitos, uma despedida constante). O poema que, quanto a mim, melhor sintetiza tudo isto é este:



FIM DE CASO

Foi num dos muitos táxis que me conduziram à ausência da minha mãe, cada vez mais óbvia, que ouvi «Fim de Caso». O nome de Dolores Duran era-me totalmente desconhecido, mas logo fiquei preso àquela gravidade simples, em sentido musical. Nem só de Bach e de Billie se pode viver, embora por vezes apeteça. Cheguei a casa e apenas me interessava saber que gravações havia dessa mulher que viveu 29 anos e decidiu dormir até morrer. Compreendo-a muito bem.

*

A quase integral chegou no dia seguinte à cremação da minha mãe (obrigado, Inês). Dolores impressiona, sobretudo, pela sua convincente mudança de persona, o tom canalha nas canções francesas ou nos temas nordestinos, a sensualidade dos boleros, a inesquecível versão de «My Funny Valentine» (que Ella Fitzgerald terá considerado a melhor que já ouvira). E devemos-lhe, além de «Fim de Caso», composições como «A Noite do Meu Bem». «Quero a alegria de um barco voltando» é dos melhores versos que conheço. Corrijam-me, se estiver errado.


Manuel de Freitas, in Ubi Sunt, Averno, Junho de 2014, p. 60.

ANIMAIS DOMÉSTICOS

*
As pessoas não prestam para nada, querem sol para se porem à sombra.
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Não há melhor protector solar do que o tecto de casa.
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É difícil confiar em quem não sai de casa sem besuntar o corpo com meia dúzia de cremes.
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Triste existência: andar de um lado para o outro a queixar-se dos parolos.
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Plantar, semear, pescar, caçar, colher, são actividades protectoras dos animais.
*
Posso ser ignorante, mas ninguém me tira da cabeça que a vida é isto.
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Trabalhar não me angustia, o que me angustia é ter que voltar ao trabalho.
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Nunca digas que sofres de insónias quando roncas como um porco.
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Há inúmeras vantagens em dormir acordado, sendo que todas podem resumir-se à enormíssima vantagem de não teres que acordar.
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Quando te questionarem sobre a que praia ir, responde sempre: à que tiver menos gente.
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Entre a rua e o hotel de cinco estrelas há a tenda. A virtude está no meio.
*
O flâneur passeia pela cidade a sua rústica melancolia.
*
O rústico passeia pelo campo a sua desassossegada inquietação.
*
De onde quer que venhas, vens sempre com a triste constatação de que te trazes de onde quer que foste. O ideal seria podermos deixar-nos algures como quem mete um saco no lixo.
*
O rapaz está zangado com todos excepto consigo próprio. São compreensíveis as expectativas de que venha a zangar-se também consigo próprio quando descobrir que, afinal, não é senão um entre muitos entre os quais também ele está. Lê-se nos livros, mas aprende-se com o tempo. Isto se a cultura literária não toldar a sabedoria.
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Por mais que caminhe não sai da cepa torta.
*
Patinar nos sonhos, derrapar na vida. Melhor mergulhar na lama. E tomar banho de seguida.
*
Ontem estava feliz, hoje estou nostálgico. A nostalgia não nega a felicidade, nem mesmo a tristeza (esta opõe-se à alegria). Só a felicidade pode negar-se a si mesma. A infelicidade impede a nostalgia. A infelicidade é triste. Só porque impede a nostalgia.
*
Sonhei que os pais morreram com uma sensação criminosa de liberdade. Jamais nos perdoaremos por sermos humanos.
*
A canção diz «a minha vida foi-me feita». Ser punk é isto, não querer entender nem sequer aceitar que em última instância somos nós quem fazemos o outro e não o outro quem nos faz a nós.
*
Vítimas da sociedade? Só conheço os animais domésticos.
*

domingo, 17 de agosto de 2014

SILÊNCIOS QUE FALAM

À angústia da página em branco, alguns autores vão contrapondo a inspiração do branco da página. Processa-se, nesta arte, uma inversão dos papéis. Algo que poderia ser interpretado como falta de estro, acaba por sugerir o poder do vazio - deixando assim ao leitor a missão de encontrar palavras onde porventura não farão falta alguma. Lembro-me do Poema Branco de Rui Costa, incluído no premiado, mas ignominiosamente inacessível, A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (2005):


Outro exemplo, num poeta que se presta bastante a este tipo de experiências metalinguísticas, surge-nos com o poema A parte pelo todo, de João Luís Barreto Guimarães, que ofereceu o título a todo um conjunto compreensivelmente mais palavroso:


Mas não se julgue que estamos num território exclusivo da poesia. Recentemente, Bruno Vieira Amaral almejou um dos mais intensos graus da expressividade narrativa com a seguinte página no seu romance de estreia As Primeiras Coisas:


Talvez a nota de rodapé fosse escusada, encargo que deixo aos críticos profissionais. O que me interessa nestes três exemplos, e mais poderiam ser dados, é a capacidade que cada um dos autores teve de superar com engenho e risco uma limitação expressiva. Poderão chamar-lhe truque ou falta de originalidade, poderão acusar os autores de nada terem a dizer e de se acomodarem por detrás de um vazio experimental que nem sequer é inovador. Por mim, o que estas páginas praticamente em branco acrescentam, no contexto específico em que aparecem, é uma enorme capacidade de síntese que muito nos agradaria verificar na maioria dos autores mas que, para mal dos nossos pecados, nem todos estão dispostos a trabalhar.

HAMMAM COM LETRAS

Num passeio por Évora, subo a Rua 5 de Outubro. Precisava de comprar cola e fui informado, por uma comerciante local encalhada entre a revolta e o conformismo, que era provável que os chineses vendessem o que eu precisava porque as lojas dos chineses vendem tudo indiscriminadamente. Estava certa na descrição. Já com a cola no bolso, deixo os chineses, subo uns metros na 5 de Outubro e deparo-me com uma montra de livros expostos, por assim dizer, indiscriminadamente. Entrei. Do lado esquerdo, dois bancos baixos suportavam pequenos montes de livros. Um deles, totalmente preenchido com edições do autor Carlos Mota de Oliveira. No outro, livros da Eucleia, Casa do Sul, Licorne. Ao centro, colocados em caixas aparentemente expostas de um modo informal, reparei em livros da Averno, Mariposa Azual, Douda Correria, Pianola, &etc… É a secção da “literatura de alterne”, alguém me disse com um sorriso contagiante. Adquiri dois livros. Não digo que comprei porque o ambiente não se presta a compras. Algo diferente se presta naquele espaço, onde não ouvi falar em cartões, em promoções, em campanhas, nas trafulhices comerciais que nos poluem os dias. E a venda acrescentada surge naturalmente, quando a conversa se estende pelos livros sem compromisso nem ansiedade. Trouxe dois. Um deles é o que ilustra a prosa, com a capa a remeter para os saudosos Cadernos de Poesia. Os Poetas Adoram Massagens, a livraria Fonte de Letras é um Hammam bastante recomendável. Longa vida a espaços destes de onde saímos com a respiração mais leve. Resta o poema:

OS POETAS ADORAM MASSAGENS

Os poetas adoram massagens
ficam de papo para o ar
ficam a ver passar os navios
ficam à mercê de Deus
ficam em paz
e o resto da Obra
fica por fazer.
Também eu hoje
me fico por aqui
com a “Massagem”
do Fernando Pessoa.



Carlos Mota de Oliveira, in Os Poetas Adoram Massagens, Edição do autor, s/d, p. 16. 

sábado, 16 de agosto de 2014

POEMA


Eu não sabia então —
nem sei se mesmo hoje saberei —
que a poesia era para isto
falar das coisas miseráveis
— a memória do que é miúdo, o que é rasteiro —
o sono escombros que o mar devolve à terra.

Ou então lembrar meu Pai
suas mãos secas tisnadas do sol
sua vasta alma camponesa rosto de terra
coração de menino olhos ingénuos
um chapéu protegendo-lhe a cabeça
caminhando entre folhas de videira
suavemente falando aos que trabalhavam na colheita se acercassem de um outro campo mais acima
para colher sob sol braseiro
uvas que eu ia devorando
até do sumo doce fartar minha boca.

Ou lembrar meu avô
que conduzia mal
levando o carro pelo meio da estrada de província
a buzinar longamente em cada curva
afugentando galinhas ovelhas
crianças ranhosas
filhas do álcool.

Lembrá-lo agora como quem evoca um sabor cheiro da infância
não chegando para me humedecer os olhos
(não sou especialmente dado à comoção)
leva-me a um outro tempo:
um tempo de girassóis e de pão farto e doce
a encher-me a boca miúda
momentos coincidentes com o agora:
a guerra na Palestina as eleições em França
a notícia de um óbito no jornal do dia
a graça do pivô a fechar outro telejornal
ou tão-somente essa presença intensa
teu perfil recortado no ecrã dos meus olhos.

Tudo acontecendo ao mesmo tempo numa linha horizontal
em simultâneo como se de fora
como se fosse um outro
desconhecendo sempre
o lugar exacto a que pertenço.

Bernardo Pinto de Almeida (n. 1954), in Hotel Spleen (2003). «Partindo de um certo surrealismo (movimento a que, no seu romantismo tardio, Bernardo Pinto de Almeida está profundamente ligado), o lado datado de uma escrita foi-se lentamente apagando para dar lugar a uma poesia liberta de espartilhos doutrinais, que se pode ler sem pressupostos acentuados. Hoje, encontramos um poeta que vai além dos temas tradicionais (não se trata apenas do amor, da morte, da infância, do quotidiano) e que cria uma temática que tem o imenso mérito de não ser designável por qualquer palavra conhecida, sem no entanto convocar os deuses para preencher esse vazio. (…) Anotemos alguns traços essenciais: o uso das maiúsculas, mas a mesma palavra pode surgir com maiúsculas ou com minúsculas; a capacidade da repetição das palavras promovendo uma música própria: o uso metafísico das maiúsculas; o sentido intensificado das interrogações; o sentido do pormenor concreto, a capacidade de mudar de patamar (daí a utilização do travessão)» (Eduardo Prado Coelho, Público, 1 de Abril de 2006). «Estamos perante uma poesia da voz, onde há uma dimensão declamatória e, quase sempre, o endereço a um “tu”, seja o da invocação lírica, seja o da poesia como diálogo. (…) Esta poesia não renega o pathos romântico e a sua inspiração nocturna, com os seus motivos recorrentes da luz e das trevas. Ela vai, aliás, mais longe: aproxima-se de um panteísmo místico, fusional, até um estado de apoteose que Baudelaire identificou com o universo lírico. Nalguns momentos, ela permite-nos convocar o conceito rilkiano de “Weltinnenraum”, de espaço interior do mundo onde se abole a distinção entre sujeito e objecto. Estamos nos antípodas de uma poesia referencial» (António Guerreiro, Expresso, 18 de Março de 2006).  

DÓRIS GRAÇA-DIAS (1963-2014)


Há pessoas sobre cujo desaparecimento se abate um silêncio incomodativo. Este ano vão dois, e por isso o incómodo faz-se sentir ao quadrado. É possível que me tenha escapado a referência breve, mas nada desculpa que Jorge Fallorca tenha desaparecido sem que tenha sido oferecido aos leitores a oportunidade de saberem quem foi e o que deixou feito. Sucede algo semelhante, entretanto, com Dóris Graça Dias, que em tempos gerou vagas enormes de indignação por causa de uma acusação de censura (relembrei-me disto). Censurados em vida e na morte, certos autores parecem impor-se pela sua excepcional capacidade de incomodar. Não precisam de muito, basta-lhes escrever ou calarem-se para sempre. Os órgãos de comunicação social não têm que ser enciclopédias de obituários, mas pelo menos à hora da morte podiam exercitar alguma pedagogia. A imagem ao alto foi respigada aqui

ROBIN WILLIAMS (1951-2014)


E um dia, o homem que rasgava sorrisos resolveu cortar os pulsos. Pôs termo à vida de várias formas, mas ficará para sempre como Popeye (1980) — uma das minhas primeiras visitas, se não a primeira, a uma sala de cinema —, o DJ de Good Morning, Vietnam (1987), o professor de Dead Poets Society (1989), o psicólogo de Good Will Hunting (1997)… Há dias, revi Jacob the Liar (1999) e comovi-me (um filme que nos comove tem que ter algo de bom). Mrs. Doubtfire (1993) ofereceu-lhe um desempenho extraordinário. Mas nisto era praticamente imbatível.

SOBRE "CALL CENTER"



No universo de H.M.B.F., o espelho que reflete a sociedade partiu-se em mil estilhaços, e é sobre essas arestas de vidro que as personagens caminham, cortando-se e sangrando, mais impulsionadas pelo espanto do que pela revolta, seguindo ainda assim em frente, através do negrume. As incongruências da vida gregária (na família, no bairro, no país) e a entropia social geram uma energia turva que explode através de situações absurdas.

José Mário Silva, in Expresso, 2 de Agosto de 2014, ATUAL.

PEDRO COSTA


…algo está mal num país que tem personalidades de excepção como Pedro Costa a marcar presença em lugares emblemáticos como Locarno, ao mesmo tempo que o espectador comum — a quem nunca falaram de Pedro Costa, Locarno e tantas outras coisas... — é todos os dias bombardeado pela indigência narrativa dos nossos horários nobres…
João Lopes, aqui.

Em tempos, escrevi sobre um filme de Pedro Costa (aqui). E não foi por acaso que, instigado a sugerir, me lembrei de Cem Mil Cigarros (aqui). Parabéns Pedro Costa.

A QUATRO MÃOS


A Quatro Mãos
Edição de manuel a. domingos
(fora do circuito comercial)
Julho de 2014


O meu amor por ti é igual ao teu amor por mim.
O resto, batatas fritas!
Ruy Cinatti