quarta-feira, 10 de setembro de 2014

PARTIDO SOCIALISTA



O Partido Socialista nunca esteve tão partido. Com um líder sem capacidades de liderança e um candidato a líder impelido por forças invisíveis a agir conforme a consciência, transformou-se numa querela entre totós que teve ontem o seu momento televisivo mais esclarecedor. Agastados com polémicas internas que arrastam o partido pelo lamaçal do descrédito, os dois antónios são a dupla face daquilo a que normalmente se chama debate democrático interno para encobrir o que existe nesse putativo debate de oportunismo e deslealdade. O que podia ter alguma piada não tem piada nenhuma, pois enquanto estes dois e suas respectivas comitivas de tachistas salivantes pelejam por lugares de poder a oposição ao governo esmorece e os problemas do país agravam-se. Noutros tempos, tudo podia ser feito de outra forma. Agora é impossível, tal a mesquinhice e mediocridade estratégica que tomou conta da acção (luta?) partidária. Não é de admirar certa descrença nos partidos e nos políticos, assim como na actividade política tradicionalmente democrática que dá força e elege demagogos profissionais. Já não bastava o nepotismo nesta sociedade oligárquica e corrupta em que vivemos, temos que aturar agora, ainda por cima em directo e com direito a diferidos sucessivos, o triste espectáculo da mediocridade. Nada há de substancial nesta guerra, a não ser a pobreza infinita dos intervenientes, totalmente incapazes de convencer quem quer que seja das suas reais preocupações para com o povo que poderia elegê-los não fosse preferir ficar em casa, abster-se, desligar.

AVÔ, COMO ERA A VIDA NO TEU TEMPO?



Quando a imagem começa a desfazer-se em água somos introduzidos na analepse, separador de tempos que anuncia um recuo cronológico. Usado até à exaustão, este efeito desapareceu dos ecrãs. É, pelo menos, muito mais raro.
Sabíamos do flashback pela sua mágica sugestão, é como se recuar no tempo fosse um mergulho nas águas profundas de um rio qualquer. Nas águas do Hades, talvez. Habituámo-nos a associar o tempo à água, o rio que corre, as águas paradas, o mar revolto das amarguras, o iceberg freudiano nos mares do ser.
Interrupção cronológica no interior da personagem, portal por onde o pensamento penetra os labirintos da memória e aí se perde até de novo ser despertado para a realidade, efeito mágico, talvez, que recupera o passado para dele fazer prova no presente: a imagem que treme em remoinho e se transforma numa aparição mais ou menos lúcida do passado, por vezes acompanhada de vozes distorcidas, esboços de figuras, espectros, é a porta do tempo que atravessamos diariamente.
 Divagações, ensimesmamentos, sonhos, momentos de introspectiva apatia, todos temos. E sempre antes de neles mergulharmos se forma, como que por magia, essa imagem flutuante no pensamento. Porque a memória enturvece a realidade, a realidade insidia a consciência, e entalados entre o que fomos e o que estamos a sentir pensamos quase sempre sob a luz deturpadora dos anseios.
Tenho vários destes momentos ao dia, quando pauso para o cigarro, enquanto bebo mais um café, durante a imperial no final da noite de trabalho. Não porque viva arreigado ao passado, passado que ainda não tenho ou é demasiado curto para o que uma vida carece de experiência. Tenho vários destes momentos ao dia porque me perco, naufrago amiúde nas marés da nostalgia e me questiono: que futuro é este sem passado?
E lembro-me como era bom não me lembrar de nada, sonhar apenas com amigos imaginários (todos os que tive na infância) e vidas virtuais. Lembro-me sem ilusões nem devaneios, lembro-me apenas porque se torna inevitável lembrá-lo. De certo modo, o mundo tecnológico devolve-nos o lado mágico da infância. Assim que ligamos o computador, dá-se o efeito que induz o flashback. Mesmo que circulemos pelas notícias do presente, é no passado que estamos - protegidos da realidade pelo mundo da fantasia.
O virtual não nos desliga da realidade, simplesmente produz sobre ela o tal efeito mágico de a tornar coisa passada. Porque é tudo efémero e hipersónico, superficial e epidérmico no mundo virtual. Mesmo quando da nossa vida já pouco resta de verdadeiro, autêntico, genuíno, mesmo quando da nossa vida já pouco resta que não seja separado pelo efeito mágico do remoinho, mesmo quando tudo se misturou ou fundiu para se confundir e ficamos sem saber se é no abismo ou sobre a terra que tocamos o ar, mesmo quando assim é ficamos sozinhos e à deriva.
Talvez o efeito tenha deixado de ser um separador para se tornar na realidade ela mesma, talvez estejamos todos a viver dentro de um flashback que já não é flashback, é apenas esta realidade espectral e distorcida que obsidia a mente e nos faz pensar nas coisas como se não fossem coisas, no homem como se não fosse homem, na vida como se não fosse vida, ou seja, na vida como se não fosse estar à morte, no homem como se não fosse amestrado instinto, nas coisas como se não fossem ruína, podridão, poeira, cinza, esquecimento, decomposição, morte e floração.
Deixando de haver esta separação, tudo se torna urgência, presente, ausência de projecto porque ausência de passado. E numa ensimesmada navegação reparamos que aos nossos netos teremos apenas para oferecer a entediante história de um homem que passava os dias sentado ao computador, numa infância resgatada pelo sonho virtual. Avô, como era a vida no teu tempo? Era assim, como a tua, nada a acrescentar.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A NAVE DOS LOUCOS


Um dos acontecimentos editoriais deste ano é o reaparecimento da obra de Katherine Anne Porter (n. 1890 – m. 1980) nas livrarias portuguesas. A Antígona publicou Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, porventura o mais conhecido dos seus contos, enquanto a Relógio D’Água disponibilizou a colectânea A Torre Inclinada e Outros Contos e resgatou do esquecimento o único, mas genial, romance da autora (outrora editado pela Livros do Brasil). A Nave dos Loucos (Relógio D’Água, Abril de 2014) foi originalmente publicado em 1962, sendo quase de imediato adaptado ao cinema por Stanley Kramer. Ship of Fools surgiu em 1965, com um elenco onde constavam actores de monta tais como Vivien Leigh e Lee Marvin. Apesar de ter consolidado o nome de Porter como uma das grandes prosadoras norte-americanas, os prémios mais relevantes só chegaram em 1966 (Pulitzer e National Book Award) na sequência da publicação de The Collected Stories of Katherine Anne Porter (1965).
Obra de fôlego, ao que consta laborada ao longo de trinta anos, A Nave dos Loucos conta a história de uma viagem entre Vera Cruz, no México, e Bremerhaven, na Alemanha, no ano de 1931, ou seja, à entrada da experiência mais abismal que a Europa conheceu no séc. XX. Porter explica em nota prévia que o título do livro «é a tradução do alemão Das Narrenshiff, alegoria moral de Sebastian Brant (1458?-1521)». Eminentemente alegórico, o romance de Katherine Anne Porter encontra igualmente n’A Parábola dos Cegos de Pieter Bruegel uma representação imagética fidedigna. Dividida em três partes (O Embarque, No Alto-Mar, Os Portos), a narrativa respeita um nexo temporal linear, apesar dos flashbacks que caracterizam certas personagens, mas é agradavelmente caótica na forma como aborda cada um dos intervenientes. O narrador vagueia pelo navio, microcosmo de uma humanidade à deriva, como um fantasma que observa a tripulação e lhe radiografa os anseios, as frustrações, os medos.
No entanto, o individual não importa tanto aqui quanto o colectivo. Ou, pelo menos, o que parece ter mais relevância é o papel desempenhado pelo indivíduo quando colocado entre as forças opressivas do colectivo. A obra está repleta de alusões a conflitos de classe e hierarquias sociais, estereótipos morais e egocentrismos culturais, sugerindo certa desconfiança sobre a vida gregária e suas micro-representações (da família à igreja, desta à política). Em certo sentido, A Nave dos Loucos procura responder a uma dúvida que assolou o mundo do pensamento na ressaca da II Grande Guerra: como foi possível o nazismo? Como foi possível uma fábrica de morte montada com o consentimento, a cumplicidade e a colaboração de milhões de pessoas, cidadãos cultos e informados, instruídos e inteligentes? Como foi possível a barbárie, esta máquina de morte desumana e desumanizadora no centro nevrálgico da civilização ocidental? Ora, estas dúvidas, não podendo ser respondidas de uma forma exacta, podem ser aludidas com uma observação atenta do comportamento humano e das debilidades que tornam cada um de nós uma pobre caricatura do super-homem nietzscheniano.
Obra claramente individualista, A Nave dos Loucos patenteia uma paradoxal desconfiança sobre o indivíduo. Não há uma única personagem que possamos considerar firme e sólida perante o outro, todas vacilam e hesitam quando ameaçadas pelo exterior, em todas elas a intimidade se revela como que claustrofóbica e perturbadora, pois todas elas temem ser censuradas pelo outro tanto quanto não conseguem afirmar-se a si próprias. Gente fraca e indecisa, mas cruel na avaliação dos outros, sobretudo dos desprotegidos. Do médico do navio (alemão) que se apaixona pela condessa decadente e deportada (espanhola), mas não consegue abandonar o seu território formal, ainda que este lhe provoque vários desconfortos, em prol de um amor intenso, ao casal de jovens artistas norte-americanos indecisos e vacilantes tanto no amor como na arte, passando pelas almas perdidas da terceira classe, oitocentas e setenta e seis almas olhadas do convés como se fossem gado, a toda uma tripulação de gente paranóica, histérica, racista, frustrada, com bêbados e putas à mistura, ninguém escapa ao diagnóstico patológico traçado pelo narrador.
A doença que contamina de loucura o navio Vera começa, desde logo, no comandante Thiele, um anti-Ahab sem propósitos heróicos, atacado de mesquinhez e de inveja, vaidoso, exibicionista, mas, afinal, tão fraco quanto os demais quando toca a despir a farda alemã e ser ele próprio. O que há de fascinante nas personagens do romance de Katherine Anne Porter é elas serem personagens de personagens. A autora consegue algo dificilmente concebível, sugerir-nos o ser amarfanhado sob a representação social de cada uma das suas criaturas. E a grande ironia de toda a ostentação de maneiras é saber que esta gente está prestes a pisar um palco que lhes exigirá, no limite das suas forças, uma de duas coisas: afirmarem-se enquanto indivíduos ou subjugarem-se à formalidade colectiva, com todas as consequências nefastas que a história registou. Uma imagem que fica, a imagem patética do marido que ameaça suicidar-se esperando alguma compaixão da mulher:

E, no entanto, ali estava ele, sozinho nessa noite fria, húmida e ventosa do alto-mar, em Setembro, quase a suicidar-se. E ela não mexia um dedo para o salvar! Mais ainda: escarnecera dele, instigara-o com remoques a levar avante o seu propósito! Ah, era o fim! Não podia aguentar mais… E não havia de aguentar! Que loucura a sua, sonhar por um segundo que fosse em deixar o filho, tão inocente e esperançoso, o seu único herdeiro, na orfandade e, pensando bem, tão falto de recursos! A mãe, indiferente a tudo, tornaria decerto a casar, abandonando o filho à mercê de um padrasto como havia abandonado o marido ao mar cruel. Numa nova onda de terror e indignação, mas também com uma nova vontade, deu início à longa e trabalhosa operação de voltar ao camarote, sem nenhum plano definido em mente, mas com uma ideia fixa que parecia arraigada algures nas suas entranhas, a ideia de que era chegada a hora de ajustar certas contas, há muito vencidas, com a víbora que havia aquecido no seu seio durante aqueles calamitosos dez anos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

contagens


primeiro a casa, sempre de alicerces fundos,
sólida, praticável. paredes garridas,
janelas rasgadas, varandas floridas,
telhado em cima de tudo, chaminé. por vezes
fumegante. isto por fora. por dentro
espaço. salas, quartos, cantos, nichos,
sofás, estantes, armários, louça, livros,
almofadas, revistas, bandejas, cartas,
papel. sabonete, alguidares, pratos. quadros,
velas, flores, legumes, pão, chá, café.
vestidos, meias, canetas, lâmpadas, escovas,
copos. um sem-fim de coisas. quando
se muda de casa é que se vê. são pacotes
e mais pacotes, embrulhos, o relógio de
parede protegido por cobertores,
e mesmo assim há-de sempre partir-se
qualquer coisa. para não falar das coisas que
se esmurram. e das que se esbeiçam. e das
que racham. e das que simplesmente se estragam.
e das que se perdem.

a casa está quase sempre numa rua.
a rua tem quase sempre dois passeios,
uma faixa de rodagem e casas dos dois lados.
casas da habitação, escritórios,
consultórios, cafés, mercearias, cinemas,
repartições, colégios. ou então hospitais,
esquadras da polícia, sedes de clubes,
papelarias, quartéis, oficinas de reparações,
pequenas fábricas, drogarias, pensões.
a rua muitas vezes é servida por
transportes públicos. é uma vantagem,
mas é também um inconveniente, por causa
do barulho. os moradores dessas ruas que o
digam: os carros sempre a passar, sempre
a passar, a toda a hora, noite e dia, não,
isto não é vida. antes uma rua sossegada dos
arredores. mas depois é preciso
vir nos transportes públicos. vir e ir.
ir e vir. todos os dias. de inverno ao frio,
de verão ao calor. e apertado como a sardinha.
é o reverso da medalha. não há medalha sem
reverso. e este é o reverso.

a rua fica numa cidade. normalmente fica
numa cidade. a cidade tem ruas, muitas ruas, quelhas,
e depois avenidas, praças, travessas, becos,
escadinhas, calçadas, betesgas, jardins,
parques de estacionamento, miradouros,
museus, um castelo antigo, prisões, fábricas,
armazéns, uma câmara municipal, cemitério,
transportes públicos, bancos de jardim, 
bebedouros, policiais sinaleiros, trânsito,
comércio, indústria e tudo quanto é
necessário para viver. mas a cidade é uma
balbúrdia. ninguém se entende. toda a gente se
acotovela. não há espaço nenhum. nem há
respeito. ninguém se conhece. as pessoas são
de um egoísmo atroz. na aldeia é outra coisa.
é uma vida sã. não há correrias. nem atropelos.
todos se conhecem. e se respeitam.
a menos que alguém saia dos eixos. mas
isso é raro. mais raro que na cidade. a cidade
cheira mal. a aldeia cheira a vacas e a porcos.
mas se isso é cheirar mal?!

a cidade fica num país. o país tem cidades,
vilas, aldeias, rios, regatos, montanhas,
lagos, minerais, vegetais, populações,
linhas de caminho de ferro, minas, produtos
industriais, pecuária, fronteiras,
leis, um exército, um governo, costumes,
e por vezes águas territoriais.
há países grandes e pequenos. mas um
país pequeno pode ser um grande país.
depende do coração dos habitantes e dos
governantes. há países ricos e pobres.
 mas um país pobre pode se rum rico país,
por exemplo para lá passar férias. um
país tem sempre relações amistosas com os
outros países, sem no entanto abdicar da
sua maneira de ser. um país também
tem alma. e a alma é que conta.

o país fica num continente. o continente
tem principalmente conteúdo.

o continente fica no mundo. o mundo
tem continentes, mares, ilhas, desertos,
lagos, montanhas, dois pólos cheios de gelo
e pinguins, uma exuberante flora tropical,
ventos, tufões, trombas de água, tremores
de terra, estações do ano, um satélite com
várias fases, um astro-rei, nuvens, um céu, 
estrelas, cometas, casas, homens, abelhas,
formigas e outros, muitos outros animais,
variados e de hábitos diversos.
mas o homem é o rei dos animais.
e a mulher é naturalmente a rainha.
e os dois, zaz zaz, fazem os príncipes
que querem e não dão satisfações a ninguém.

o mundo fica no universo, também chamado
cosmos. o cosmos tem mundos, muitos mundos,
um nunca mais acabar de mundos, mas é raro
chocarem-se uns com os outros, embora
andem a velocidades astronómicas. é um
mérito da criação. os outros méritos,
em parte já atrás foram enunciados.
os que não foram é porque são desconhecidos.
pelo menos até à data. mas amanhã quem sabe!
o futuro a nós pertence, embora não
esteja nas nossas mãos, ou por outras palavras:
o futuro está nas nossas mãos.
mas a deus pertence.

o universo, esse está também nas mãos de deus
e é quanto basta saber.

Alberto Pimenta (n. 1937). in Corpos Estranhos (1973). «Alberto Pimenta é um dos mais originais e extravagantes poetas que se revelaram nos anos 70. Além de uma experiência provocativa, Homo Sapiens, 1977, a de se expor no Jardim Zoológico numa jaula do sector dos símios, de um libreto para uma acção poética encenado em 1979, Heterofonia, e de um volume de teoria estética (e antiteoria poética), O Silêncio dos Poetas, 1978, publicou um conjunto de obras que constituem um repto eficaz a todas as convenções de seriedade comunicativa, recorrendo a efeitos de distribuição gráfica, de paronomásia, de paródia, de transgressão caligráfica ou ortográfica, de absurdez narrativa ou retórica, de dessacralização radical, de irritante repetição frásica e de insistência nas mais desagradáveis ou inconfessáveis pequenas experiências ou situações do quotidiano (...). Posteriormente, em outros volumes e peças radiofónicas acentua a sua agressividade iconoclasta» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

THAT’LL BE THE DAY


Muito se tem escrito sobre The Searchers/A Desaparcida (1956), de John Ford (n. 1894 – m. 1973), a propósito da reposição num cinema Ideal que promete recuperar clássicos para o ambiente de uma sala de cinema. Sugiro, desde já, a leitura deste texto de João Lopes (um e dois), onde começamos por sublinhar o facto histórico: «A Desaparecida não foi um filme consagrado na altura do seu lançamento, não tendo sequer chegado às nomeações para os Oscars», facto especialmente relevante quando estamos a falar do «realizador mais “oscarizado” de sempre». Mas sublinhe-se também a questão essencial colocada por João Lopes: «até que ponto os espectadores (des)educados a ver filmes ditos de “efeitos especiais” — dominados pela instabilidade arbitrária da imagem e ruídos ensurdecedores — terão olhos e ouvidos, corpo e alma para descobrir a complexidade histórica, dramática e pulsional de um filme como A Desaparecida (1956), de John Ford?» Esta complexidade, que o western disfarçou com argumentos temperados de aventura, pode explicar, em parte, o facto histórico.



A Desaparecida surgiu na segunda metade da década de 1950, suportando a genialidade de um realizador a quem devíamos algumas obras-primas congéneres. Da trilogia da cavalaria a filmes tais como Stagecoach/Cavalgada Heróica (1939) ou My Darling Clementine/A Paixão dos Fortes (1946), são vários os exemplos onde o mais antigo género cinematográfico foi elevado ao estatuto clássico que hoje lhe conferimos. Ford, que trabalhou com alguns dos melhores actores neste domínio (Henry Fonda e John Wayne à cabeça), tornando-os figuras essenciais de um imaginário cultural específico, conquistou igualmente para o Velho Oeste uma paisagem humana que tem nos rochedos e na poeira de Monument Valley o suporte geográfico ideal. Chamado a escrever sobre o filme, Samuel Úria refere-se ainda à «maravilhosa geometria com que Ford filma famílias, as diagonais dos olhares, a câmara que tarda em mover-se porque tarda em precisar, os sentimentos revelados e os encapotados, os comic relieves e os socos no estômago, os diálogos e até o que ficou por dizer» (Ípsilon, 29 de Agosto).


Com o western fordiano regressamos aos tempos bíblicos, aos primórdios de uma civilização dividida entre o sagrado e o profano, tendo pela frente desertos inóspitos ocasionalmente atravessados por rios na margem dos quais a vida floresce. Red River e Rio Bravo (reveja-se Howard Hawks) ou Rio Grande são apenas nomes para linhas que separam universos distintos, metáforas da passagem do tempo e fronteiras naturais entre o mundo selvagem e o mundo civilizado. Também The Searchers tem o seu rio, lugar baptismal onde índios e cowboys (talvez fosse mais exacto chamar-lhes colonos) se dividem, ficando cada qual em sua margem defendendo perspectivas opostas do mundo. Daí a complexidade histórica, dramática e pulsional. Não estamos em território seguro, nada é tão óbvio quanto possa parecer no western. Os intervenientes surgem ambíguos e deixam-nos ambivalentes, porque neles nem o bem nem o mal são objectivos e absolutos.




Escrevi aqui sobre The Searchers, referindo-me à interpretação genuína de Wayne. Humanos, demasiado humanos, os heróis destas epopeias cativam-nos quando lhes vemos as feridas e quando dessas feridas vemos surdir os vícios, os defeitos, as fraquezas que os tornam, afinal, mais vulgares do que julgaríamos possível. A história é simples: um homem regressa a casa, para pouco depois de se reencontrar com a família a perder na sequência de uma emboscada Comanche. Confrontado com a possibilidade de duas sobrinhas terem sobrevivido, parte em busca das raparigas. A indicação inicial do lugar e do tempo em que os factos ocorrem não é displicente. Em 1868, a Guerra de Secessão já tinha terminado (o protagonista é um derrotado dos Estados Confederados da América). No entanto, parte do território nacional, nomeadamente o Texas, vivia sob a ameaça indígena. Muito haveria a dizer sobre estes conflitos, tendo o próprio Ford explorado dignamente esta parte da história do seu país adoptivo (as raízes são irlandesas). Porém, o mais significativo neste filme não são as relações entre o homem branco e os índios. O problema é outro.


 
 
The Searchers inspirou filmes que, apesar de notáveis, parecem passar ao lado da problemática identitária que funda a personagem controversa de John Wayne. Percebemos isso, por exemplo, quando observamos Comanche Station/Emboscada Fatal (1960), o último do denominado Ranown Cycle de Bud Boetticher (n. 1916 – m. 2001), com Randolph Scott no papel do homem que procura a mulher raptada por uma tribo Comanche. Negociar com os índios é para a personagem de Scott um pormenor táctico, ao passo que para a personagem de Wayne é uma afronta moral. Repare-se na medonha actualidade do tema, quando hoje voltamos a falar intensamente de raptos, terrorismo e eventuais possibilidades de negociação com as forças do mal. O racismo doentio de Ethan Edwards, personagem consubstanciada por Wayne, nota-se-lhe nos esgares de ódio e raiva, manifesta-se em gestos tão contraproducentes como quando dispara sobre os olhos de um índio morto ou mata búfalos indiscriminadamente para que os índios não tenham o que comer no inverno. Este ódio é levado ao limite quando Wayne decide assassinar a sobrinha sobrevivente por não suportar vê-la aculturada e integrada na tribo que a raptou.
 
 

António Loja Neves descreve assim a personagem: «A personalidade obcecada de Ethan roça o psicótico, especialmente ao confrontar-se, anos volvidos, com o corpo assassinado da [sobrinha] mais velha, o que o obriga a voltar-se para o desesperado destino da recuperação da mais nova» (Atual, 30 de Agosto). Impõe-se, então, a dúvida: o que procura este homem tão certo de si que várias vezes lhe ouvimos a deixa That’ll be the day? O que busca Ethan Edwards? Uma vitória? Vingança? Família? Identidade? Uma pátria? A canção que integra a banda sonora lança algumas pistas, talvez busque a paz de espírito que lhe sossegará coração e alma. Chamamos a esta busca, por vezes, refazer a vida. E tantas vezes ela se refaz sobre os escombros da tragédia. O dia de Ethan chega quando ele finalmente ergue nos braços a sobrinha e a devolve a um lar, o lar no qual Ethan acabará por não entrar. Na realidade, volta-lhe as costas e continua a caminhar. Entre a porta que se abre no início do filme e a porta que se fecha no seu termo assistimos ao mais angustiado combate que pode exercer-se dentro de um homem, um combate onde a identidade estilhaçada procura reconstruir-se juntando cada um dos seus pedaços. Talvez seja isso o que Ethan procura, talvez se procure a si próprio. E, neste sentido, ele personifica toda uma nação em busca de si mesma, dividida por guerras aparentemente inerentes à sua própria condição. Talvez chegue o dia.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

#41


Sinónimo de elegância, as canções de Joni Mitchell partilharam desde sempre a genuinidade folk com a inclinação experimental do jazz. À entrada do séc. XXI, os dois universos equilibraram-se com extraordinária lucidez numa colectânea bastante original. Both Sides Now (2000) é literalmente um romance, uma recolha de canções especificamente escolhidas para contar uma história. As orquestrações algo rígidas e convencionais abraçam a colaboração com estrelas inquestionáveis do jazz tais como Herbie Hancock (piano), Peter Erskine (bateria) ou Wayne Shorter (saxofone). Duas canções de Mitchell (A Case of You, de 1972, e Both Sides Now, de 1967) aparecem revestidas ao lado de standards da primeira metade do séc. XX, sendo curioso notar como a versão romântica da compositora canadiana para canções outrora cativas do êxtase amoroso (repare-se na versão de Comes Love) se torna muito mais trágica e melancólica do que seria expectável face a interpretações anteriores. As nuvens que se atravessam no caminho de Joni Mitchell fazem-nos olhar o mundo sob diversas perspectivas, não aceitando nenhuma delas como absoluta e total. Frente e verso, tal como se apresenta retratada na capa e na contracapa, são apenas lados complementares. Sempre foi assim, na música, na vida, na arte, no amor, e sempre ficamos com a única certeza de nada sabermos. Tentem resistir:


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BASTA!


Todos nós já aprendemos
como se trituram homens

para isso
nos obrigam a ser testemunhas
oculares
do retalhar
curiosamente precioso e exacto
no esquartejamento organizado

encostados à parede esburacada
dos fuzilamentos seriais
que nos querem preparar
esperamos
a bala a chegar lenta
num rigor praticante de eficácia

o carro presidencial a deslizar pela avenida o cão-polícia cão a arreganhar o dente amestrado de metralhadora o banco do comércio a traficar-nos os dedos arrancados e o estilhaço constante do rufo televisivo e a venda supermercado em saldo de eleição da miss-presidente e a pátria que conta com o nosso estrume

lembras-te meu amor
o encontro feroz
que tivemos um dia
numa cama de passagem
rodeada
de portas concentracionárias?

as praias podres fedendo a uniformes com ordem de marcha o mar com o horizonte obstruído por papel de jornal usado nas latrinas e a amputação e a prótese e a condecoração legalmente decretadas

propositadamente
ensinam-nos
o manejar do gatilho
o curso liceal
o uso
do cozido à portuguesa
a lepra
enquanto nos apontam
o buraco da retrete

o papel químico matraqueado na repetição da máquina já experiente o dedo a esmagar-se contra a tecla antecipadamente designada na escrita regulamentar quotidiana e os requerimentos avulsos e a assinatura reconhecida no notário falecido com cancro asmático

o muro
asfixiando as janelas celulares
talvez
apenas na espera paciente
do impacto
dado pela bala

somos testemunhas
visuais
obrigatórias
mas só isso?

o avião jardineiro a regar napalm para que os homens não cresçam tão depressa no metro superlotado a orelha amputada a aumentar a colecção de selos do armador de petroleiros o futebol na cabeça da criança que não rebola bem porque tem nariz

e o aparelho ortopédico um dois esquerdo direito chega atrasado ao emprego vai ter que fazer horas extraordinárias

foram rigorosas
as nossas noites de amor
obsessivamente tensas
e solitárias
lâmina cortante
na memória
recordas-te menina?

os autocarros atulhados ida-e-volta os passos os cabelos enormes ipiando entre a maconha e o amanhecer as pequenas grades envelhecidas e os pães poeirentos sem certificado de pureza e as certidões de honestidade capitalista dentro do estômago com garantia oficial

martelados criteriosamente
na cabeça
depois
entre os olhos e o sexo
preparam-nos para a matança
com o dedo nosso
no gatilho deles
testemunhas somos
das mortes gloriosas em vómito
de heróis com óbito convincente
encostados ainda
à parede esburacada
na espera da bala
demorada
testemunhamos

o cortejo nupcial da filha do almirante com jeito pró negócio o navio pirata carregado de recrutas analfabetos da vida a prancha estreita entre a jaula e o governo o sono obrigatório da pílula própria para o aborto e o cartão da identidade única e o respeito ao clero pois sim e a pia baptismal entupida.

amor
o teu sorriso
e o teu corpo
o teu sexo
como reencontro
proposto pelo tempo
a realidade carcerária
de nós dois
nunca te esqueças

o ministério inteiro com diarreia gasosa purulenta o trust multinacional a jogar gulosamente à cabra-cega a fruta apodrecendo no cais de guindastes esquartejados e a cantora de ópera premiada na tourada-bufa e o carro de esqueletos perfilados a caminho do congresso AS MÃES AGRADECIDAS e a família a família a família petrificada em sentido

e o balão de oxigénio direita volver continência ao presidente não vai chegar a tempo

testemunhas
oculares
somos
mas só isso?
matadores
atentos
à espera


Mário-Henrique Leiria (n. 1922 - m. 1980), in Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro (1978). «Entre as mais tardias mas qualificadas repercussões do surrealismo, salientaremos as da obra de Mário-Henrique Leiria, ligado ao grupo dissidente de 1949 mas ausente do país por muitos anos (Contos do Gin-Tonic, 1973; Novos Contos do Gin-Tonic, 1978)» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes). Parcas linhas para tamanho poeta. Contos que são poemas, poemas que são contos, os textos de Mário-Henrique inscrevem-se numa linha de pensamento libertário onde vislumbramos sobressaltos sociais numa consciência criativa que não podia passar indiferente ao ambiente sórdido da sua época. Um ambiente que, apesar das transformações do tempo, teima em repetir-se na actualidade no que tem de politicamente sujo, culturalmente medíocre, religiosamente hipócrita. Sem afastar o riso, o lúdico, ou mesmo a anedota do seu universo, logra sátiras incisivas onde a realidade se fixa a partir da nuvem absurda que estende sobre o mundo e a vida colectiva. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

REFLEXO



As pessoas espantam-se que existam portugueses no exército radical do Estado Islâmico, as pessoas espantam-se com o problema demográfico português, as pessoas espantam-se que o Big Brother seja um sucesso, as pessoas espantam-se que Prometo Falhar seja o livro mais vendido, as pessoas espantam-se com as salas de cinema vazias, as pessoas espantam-se com a decadência do comércio tradicional, as pessoas espantam-se com prédios ao abandono, as pessoas espantam-se com o aumento do desemprego, as pessoas espantam-se com a emigração, as pessoas espantam-se com a colecção de carros do director do colégio, as pessoas espantam-se com a propagação do ébola, as pessoas espantam-se com o colapso do sistema bancário, as pessoas espantam-se com os incêndios florestais, as pessoas espantam-se com a violência nas praxes, as pessoas espantam-se com as touradas, as pessoas espantam-se com pais que matam os filhos, as pessoas espantam-se com filhos que matam os pais, as pessoas espantam-se com crianças abandonadas, as pessoas espantam-se com o Correio da Manhã, as pessoas espantam-se com as falhas no Sistema Nacional de Saúde, as pessoas espantam-se com os planos de Putin, as pessoas espantam-se com a ausência de planos da EU, as pessoas espantam-se com baldes de água gelada, as pessoas espantam-se com a amortização da dívida, as pessoas espantam-se com o insucesso da selecção nacional de futebol profissional, as pessoas espantam-se com a crise no Partido Socialista, as pessoas espantam-se com a instabilidade do clima, com as pessoas espantam-se com o reiterado sucesso da corrupção, as pessoas espantam-se com o combate à fraude fiscal, as pessoas espantam-se com as perseguições do Estado, as pessoas espantam-se com os protestos dos professores, as pessoas espantam-se com o roubo de fotografias íntimas de celebridades, as pessoas espantam-se com violações da privacidade, as pessoas espantam-se com o estilo no regresso às aulas, as pessoas espantam-se com a quantidade de sábios a opinar na imprensa nacional, as pessoas espantam-se com os esclarecimentos do Presidente da República, as pessoas espantam-se com os suicídios na France Telecom, as pessoas espantam-se com o domínio de Angola, as pessoas espantam-se com o tráfico de diamantes, as pessoas espantam-se com os métodos dos cartéis de droga sul-americanos, as pessoas espantam-se com os negócios da China, as pessoas espantam-se com as performances de Milo Moiré, as pessoas espantam-se com o número de dietas disponíveis, as pessoas espantam-se com o sucesso da auto-ajuda, as pessoas espantam-se com a ascensão do espiritismo, as pessoas espantam-se com a qualidade das séries norte-americanas, as pessoas espantam-se com o fim do cinema português, as pessoas espantam-se com cartazes de música pimba em festas populares, as pessoas espantam-se com romances pseudo-pornográficos,  as pessoas espantam-se com cartas abertas, abaixo assinados, correntes e petições, as pessoas só não se espantam consigo próprias, de tão habituadas que estão aos seus defeitos, vícios e crimes.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

PROSAICA


Se um dia vier a ser
- Tudo é bem possível,
Ou, melhor, o que é provável
Muito mais do que possível,
Entendamo-nos noèticamente - 
Se um dia vier a ser - ia dizendo -
A besta apropriada para ter assento
Em um (ou mais) Conselhos de Administração,
Faço o propósito solene de assinar 
Toda e qualquer lista de subscrição
Mesmo que caridosamente apenas
Político-literárias, de candidaturas...

O intuito óbvio podia ser;
Mas não é:
Quererei mostrar apenas que, por cá,
Ser uma besta é menos que insultuoso:
Taxonomiza apenas, cientìficamente,
O que ainda não é só mineral,
O calhau, do qual e aliás,
Se aproxima insensìvelmente.

(Que possua real vida ou não
É objecto de outra dissertação
Mas, para a besta, que isso seja vida
É a consabida incerta sensação.)


José Blanc de Portugal (n. 1914 - m. 2000), in Odes Pedestres (1965). «José Blanc de Portugal surge em 1940 na poesia portuguesa. É um dos poetas de maior relevo entre os que no nosso meio lançaram os Cadernos de Poesia, publicação que vinha superar e reparar o esteticismo da Presença e retomar uma linha original inovadora, perdida com os homens do Orpheu» (Ruy Belo). «Também ensaísta e crítico musical, cuja poesia intencionalmente pedestre se entrecruza com uma larga informação cultural muito originalmente meditada e versificada em termos de consciência religiosa» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes). «A sua poesia, que é a de um espírito dramàticamente católico e de uma vastíssima cultura em todos os campos do conhecimento, caracteriza-se por uma dignidade de tom, uma severidade austera da expressão, um fôlego contido, os quais, do fundo de uma humildade angustiada, através de um humor quase negro ou de uma ternura discretíssima, repercutem, como em raros outros poetas contemporâneos, uma áspera consciência trágica das contradições do mundo moderno» (Jorge de Sena). 

EQUATORIAL


Depois do africano João Vário (n. 1937 – m. 2007), Fabiano Calixto (n. 1973) é o segundo autor lusófono na colecção de poesia da editora Tinta-da-China. O efeito surpresa mantém-se. Calixto vem juntar-se a um conjunto de poetas brasileiros contemporâneos com quem os leitores de poesia portugueses estão relativamente familiarizados. Entre eles, podemos destacar Carlito Azevedo (n. 1961), com livros publicados na Cotovia, Claudio Daniel (n. 1962), que organizou para o público português uma curiosa Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio (Exodus, 2008), ou Ricardo Domeneck (n. 1977) e Angélica de Freitas (n. 1973), com quem Fabiano Calixto partilha a edição da revista de poesia Modo de Usar & Co. Equatorial (Tinta-da-China, Abril de 2014) reúne poemas de meia dúzia de livros, publicados entre 1998 e 2013, reveladores de uma voz segura e arrebatadora. A opção por uma distribuição não cronológica salienta a versatilidade desta poesia, tão capaz de se alongar em retratos urbanos como eficaz na contenção (e contensão) contemplativa das poéticas orientais. Aliás, o primeiro poema desta recolha é explícito quanto a intenções estilísticas — «EU QUERIA fazer um poema / à maneira clássica chinesa» (p. 9) —, pese embora o tom abatido que se intromete pelo meio: «mas ao rés-do-chão / tudo são cinzas / como no amor // & depois da chuva / o asfalto torna-se um espelho / de lágrimas / dos solitários da cidade» (idem). Muitos poemas do livro caracterizam-se por este vínculo à paisagem urbana, sopesando a solidão daquele que se afasta tanto para observar como para se proteger das angústias e das agruras da vida moderna. Um posfácio de Dirceu Villa chama a atenção para «uma escrita vertiginosa e brutal, um liquidificador de referências trazidas todas a um campo de combate contra uma realidade igualmente vertiginosa e brutal» (p. 141). Estas referências, recolhidas mormente na cultura popular (o volume é dedicado aos Ramones, banda punk norte-americana), misturam-se com a experiência da rua, aproximações literárias afectivas, inventários pessoais, evocações eróticas e amorosas, num gozo lúdico da linguagem tão devedor da tradição concreta brasileira como de certo lirismo de índole irónica e satírica. Há poemas absolutamente geniais, tais como Oratório ou Iracema (bem diferentes na forma), onde o concreto e o imaginário se articulam na criação de imagens sedutoras e poderosas. Esta é, talvez, a capacidade mais apreciável de Fabiano Calixto, ou seja, a de jogar com todos os recursos fonológicos e sintáticos disponíveis, fazendo uso de aliterações e de elipses, de anáforas e de hipérbatos, na construção de metáforas cujo efeito não é meramente decorativo, pois o poeta jamais enjeita o conteúdo em prol da mera diversão. Tome-se de exemplo a primeira estrofe do magnífico poema De Santo André ao Campo Limpo: O Brasil: «esta manhã está linda / sob este sol que desliza / sobre os capôs dos carros / a quentura alastra por todo o ar / a imundície desta cidade / (e depois de passar por três, / quatro, cinco mundos diferentes / no estômago carcinomatoso da mesma cidade, / uma pergunta põe sal no café: / que tipo de futuro tem um país como este?)» (p. 28). Há uma dimensão política nesta poesia que não pode ser negligenciada, ainda que a mesma não se inscreva em combates específicos. Neste sentido, pode até concluir-se ser a poesia política de uma geração desencantada com os formatos da actividade democrática vigente: «em tempo de eleição / vomitar tornou-se uma higiene» (p. 30). Por outro lado, esta dimensão política não se sobrepõe à experiência individual e lírica do mundo. A resistência pode ser do indivíduo para consigo mesmo numa arena onde a maior ameaça é a consciência do real e do mundo. Vislumbramos isso mesmo no segmento 5n do poema sequencial De Mãos Dadas no Fim do Mundo: «há a chuva guardada sobre a cidade / - no mais é espera e ofício - / há o itinerário (repetido) dentro do ônibus / coisas para parecer coisas / tosses mau hálito / existência conjugada // muitas vezes o olhar tem peso / o vazio num dobre de cor / não sinto nada e, às vezes, / acho que isso é amor» (p. 49). Poesia quotidiana, por certo, mas naquele sentido que Alexandre O'Neill (n. 1924 – m. 1986) lhe conferia. Isto é, poesia que parte do senso comum, sem preconceitos nem estereótipos de universalidade, mas que, por isso mesmo, alcança a ciência dos dias em rasgos e em observações capazes de transcender os dias para se instalar no tempo onde manda a eternidade. Fique um poema para reflectirmos sobre o assunto:

TEORIA DA POESIA

jamais deixaste de estar
aqui — pensei quando
folheava o livro que
nos levou àquela
adega onde
flutuava
um hálito vínico
por todo o ambiente e
lembrei-me de
Roberto Bolaño buscando
desesperadamente
no meio do caos e da beleza
um orelhão para que pudesse
falar com sua amada
quando tudo existe com mais sabor
e tudo o que lemos
de projeto lírico mais anárquico
nos leva não ao que é jaz
mas ao mais do mais
da atenção à tensão que
nos acorda de
um pesadelo e
com os punhos cerrados
os dentes trincando
levanto em meio à tempestade e
troco o casco do barco
no meio do oceano
se imaginássemos araras azuis
ou elefantes brancos
pesaria sobre nosso crânio
menos tradição?
necessito apenas de ar e
saliva (a minha misturada à tua)
o canto raivoso dos anjos
faz referência a qual parte
impossível do teu corpo?
tudo é perda
não adianta nada
para que continues diva
dádiva ávida da vida
tento organizá-la
na ausência insuportável
de sentido em estar aqui,
nesta alegria esfolada
- então, cai o pano:
lemos o livro?

Fabiano Calixto, in Equatorial, Tinta-da-china, Abril de 2014, pp. 94-95. (Nota: porque aqui o efeito não é o mesmo, chamo a atenção para as palavras que no poema acima não estão em itálico. Lidas de seguida, formam a seguinte questão: «quando o livro que lemos não nos acorda com os punhos sobre nosso crânio para que lemos o livro?»)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ENCHER CHOURIÇOS

Eis uma expressão que usamos num sentido exactamente contrário àquele que lhe deveria ser atribuído, pois é com extremo cuidado que se enchem os bons chouriços. Infelizmente, o exemplo seguido em tempos de fast food não é o de quem se preocupa com a qualidade final do produto. Arrastados na corrente do facilitismo, os media brindam os clientes eventuais com a delícia do desleixo. Numa revista, leio por alto um questionário de resposta rápida. Pérolas que se apanham m meia dúzia de caracteres:
 
Filme a destacar
“O Lado Selvagem”, de Sean Pean.
 
Não sei quem será o Sean Pean, mas presumo que morra de inveja do Sean Penn.
 
Uma música ou banda
A banda sonora do documentário “À Procura de Sugar Man”, do músico Sixto Rodrigues.
 
Talvez o Acordo Ortográfico obrigue ao aportuguesamento dos apelidos. Seja como for, o homem chama-se Rodríguez. É mexicano.
 
Uma pessoa conhecida com quem gostava de jantar
O realizador Mike Lee.
 
Confesso a minha ignorância, desconheço. Será que a senhora gostava de jantar com Mike Leigh? Ou será que se referia a Spike Lee? Enfim, o que interessa com quem a senhora gostava de jantar? É para encher chouriços.

domingo, 31 de agosto de 2014

SOBRE "ESTAÇÃO 2012"











O sujeito poético não se deixa iludir pelos "cartazes fluorescentes das utopias", não exige nem procura um mundo perfeito, apenas um que seja "menos mau", um "mundo assim-assim". Dirigindo-se a um vago 'tu', lança em jeito de desafio: "Escreve um livro que denuncie o lixo / reciclado do mundo em que vives". Mas é ele próprio a atirar-se, com garbo, a essa missão. Ao contrário dos poetas amansados que escrevem "sobre amores-perfeitos" ou "como quem lê uma pauta", ele suja as mãos e os olhos, enquanto espreita a realidade através de "janelas negras". Desencantados, os versos enchem-se de imagens cortantes, deflagrações, violências, mas também de devaneios, de ensimesmamentos e dos golpes de luz do amor.

José Mário Silva
Expresso
30 de agosto de 2014
ATUAL