Outros serão lembrados.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
UM ANÚNCIO
Anda por aí um anúncio da Vodafone
com criancinhas a debaterem-se por uma sobremesa ou objectos tais como uma
camisola, um skate, o comando da televisão, a coleira do cão. Reclamam aos
berros a presença do pai para a resolução do conflito. São irritantemente betas
e mal-educadas, lembram uma personagem de Charlie e a Fábrica de Chocolate. Cenas vulgares, quem tem filhos sabe disso. A verdade é que, falando por mim,
raramente sou solicitado para a resolução de conflitos do género. Entre
aguentarem uma palestra sobre os méritos da partilha ou verem-se privadas do
objecto causador do conflito, as minhas filhas preferem resolver o problema
entre elas. No anúncio, a solução encontrada pelo pai é distribuir smartphones,
julgo que são smartphones, pelas criancinhas. E lá vão elas sossegadas no banco
de trás do carro, cada uma com o seu telemóvel, enquanto a mãe as olha
embevecida para depois se voltar para o homem da família e concluir descansada:
«boa, pai». É o anúncio mais estúpido que vi nos últimos tempos, e não me
refiro ao pormenor sexista da mãe ir no lugar do pendura. Aquele pai, aquele
bom pai, é o típico exemplo de um esvaziamento ético que predomina na sociedade
actual. Para ele, a partilha não se resolve partilhando. O bom capitalista cede
às virtudes do consumo e cala as meninas com um telemóvel para cada uma delas (com tarifário especial, claro, a pensar no conforto das famílias). O bom pai cala
as filhas enchendo-lhes a boca com chocolate, por assim dizer. Isto tem as suas
vantagens, como é óbvio. Uma delas, talvez a mais visível, é a grande vantagem
destes utensílios pós-modernos: evitam conversas estúpidas. Não sabemos é se a
estupidez das conversas que se ouvem hoje em dia vem da falta de prática ou das
próprias pessoas, cuja permeabilidade a este tipo de soluções é por demais
evidente. Entretidas com os telemóveis, podem famílias inteiras crescer em
silêncio. Chegará o dia em que sentar-se-ão à mesa e não se recordarão dos
nomes uns dos outros. Para quê? Têm o número de telefone, só isso interessa.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
TURISMO DE GUERRA
Diferente de O Livro das Aves (Prémio Daniel Faria 2009,
Quasi Edições, Abril de 2009), onde a linguagem se desenvolvia num ambiente simbolista
repleto de imagens, alegorias e metáforas de índole mitológica, este Turismo de
Guerra (Edições Artefacto, Agosto de 2014) é muito mais contido nessas erupções
de sentido promovidas pela subjectividade discursiva. Um dos aspectos desde
logo evidentes é o da relação íntima destes poemas com os «lugares de passagem»
por eles evocados. A República Checa, que não é de todo estranha à obra de Tiago
Patrício (n. 1979), surge como palco de situações ilustradas por componentes
identificadores de uma cultura: do vinho da Morávia à
arquitectura soviética, passando pelo Mosteiro de Břevnov, pelo Café Slavia ou pel’O
relógio socialista de Olomouc (título de um dos mais belos poemas do livro).
No
entanto, apesar do pendor descritivo dos poemas, eles penetram os lugares a
partir de vivências intimistas. Longe de se constituírem como meros
postais, nem sequer nos é possível reduzi-los a retratos transfiguradores da
paisagem. Veja-se como no poema Cemitério Judeu se opera uma transposição da
experiência para a alusão, sendo que o referido cemitério é não só um dos
aspectos físicos da paisagem como já a referência metafísica de algo que se
perdeu: «uma vez encontrámos uma rapariga / que nos levou para o último andar
de um prédio / onde se podia ver o antigo cemitério judeu / e depois de três
dias sem sairmos do quarto / decidimos mudar-nos para casa dela // no dia em
que íamos fazer as mudanças / e subíamos a rua em direcção à nossa casa / tu
fixaste um homem do outro lado do passeio / que mandou parar um táxi onde
entraste com ele // e nós ficámos a ver o carro afastar-se / contigo a
desapareceres infinitamente / ao lado daquele homem de uniforme escuro» (p.
39).
Apesar de claramente narrativas, estas estrofes permitem-nos sublinhar
dois aspectos marcantes nas três secções do livro (Língua Eslava,
Cristal da Boémia, Inverno Eslavo). Primeiro, a predominância da
primeira pessoa do plural. Este aspecto é importante por nesta opção ser
possível suspeitar um desvio do foco subjectivo do sujeito poético para a
problematização da experiência em grupo. Por várias ocasiões Tiago Patrício faz
referência à presença de um grupo que, não apagando a presença do sujeito, como
que aparenta protegê-lo do isolamento em que se encontra, sobretudo o
isolamento provocado pela distância das origens e pela estranheza de uma língua
que não é a sua. O problema da língua, aliás, começa por ser sondado logo na
primeira secção.
A frequência de uma residência literária na República Checa é,
pois, o mote que obriga à adaptação, ao relacionamento, ao encontro de uma
força de conjunto que o isolamento intimida. O segundo aspecto marcante é o de
um tom aparentemente esquivo ou elíptico que certos poemas inspiram apesar e
para lá da sua dimensão explicativa, tal como o erotismo, mais ou menos velado,
que alguns versos alcançam com impressionante inteligência sedutora. O poema
Cidade Termal seria óptimo exemplo, mas este outro merece-me especial
referência por haver nele algo de extraordinário, tanto em termos sintácticos
como semânticos, na visão de conjunto:
MEDIR O PULSO À PALAVRA
comíamos o corpo com as palavras na terra
dizíamos a terra com o corpo na palavra
metíamos as mãos no tempo e a terra no corpo
tirávamos palavras do corpo para a terra
e semeávamos a palavra dada ao corpo
alimentávamos a terra enquanto era tempo
e servíamos de corpo à terra sem palavras
escrevíamos como se enterrássemos um relógio
de corda e aguardássemos que desse frutos
para vender ou trocar por mais tempo juntos
sentimos o corpo programado
para se desligar num tempo médio
na equidistância do corpo ao silêncio
Muito mais refreados em termos rítmicos e imagéticos, os
restantes poemas (à excepção de Chave Dicotómica) distanciam-se deste na forma,
mas partilham com ele uma ética que a relação aqui estabelecida entre os
vocábulos corpo, palavra e terra permite estipular. Turismo de Guerra revela um
olhar lúcido, talvez demasiado lúcido, sobre os desígnios da humanidade, não
sendo necessariamente candente sobre a situação do homem dito civilizado —
«mostram-nos o quarto de um rei / de um monge de uma prostituta famosa / e
pensamos na nossa cama inútil» (p. 32) —, deixa no ar a fina
ironia do tempo que passa por nós enquanto nós nos ocupamos das coisas banais
que, afinal, são exactamente aquelas que asseguram um certo equilíbrio existencial:
«fazemos isto em vez de nos matarmos uns aos outros» (p. 26). Há aqui um
movimento que não é óbvio daquele que se afasta das raízes para que possa
ver-se melhor no encontro com o essencial, sendo que o “eu” aparece permanentemente sufocado pela presença do "nós". No fundo, nunca estamos
totalmente isolados. Somos sempre uns entre outros, e essa é a única forma de nos
descobrimos.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
A LUTA CONTINUA
Li atentamente este post de mvf, com o qual não me
identifico minimamente (o post, já que mvf não conheço), e pensei
breves instantes sobre o assunto. Primeiro, achei piada ao tom reaccionário que
a leitura de um artigo publicado em Avante gerou. Reaccionário porque reduz um
programa político e o seu partido a um artigo publicado num jornal. Ao
contrário do que mvf insinua, há pluralidade no seio do Partido Comunista
Português. As leituras sobre o legado comunista internacional não são unívocas
nem estão cristalizadas pela fé num ideal de sociedade. Muito menos podem ser
reduzidas a um artigo, sendo que artigos há muitos (embora saibamos que apenas
alguns interessam a quem deles pretende fazer leitura interesseira).
A leitura enviusada que mvf faz da história do comunismo enferma dos defeitos que aponta, nomeadamente quando afirma que os comunistas “fecham os olhos e apagam tudo o que se passou”. Enfim, isto é não saber absolutamente nada da história do comunismo. Já aqui tive oportunidade de dizer, e permito-me repetir, que: «Apesar de tudo, reconheça-se, o Partido Comunista foi mais célere a reconhecer o Grande Terror estalinista, pela mão de Nikita Kruschev e o seu famigerado «discurso secreto» (1956), do que a Igreja Católica Apostólica Romana a reconhecer o terror da Inquisição». Trata-se de uma evidência histórica que a muitos convém apagar e esquecer, fechando os olhos e não querendo ver. São como os três macacos quando lhes parece proveitoso para insistirem numa retórica preconceituosa, estereotipada e superficial.
É também hoje sabido como o chamado «discurso secreto» dividiu o partido, como em Portugal, por exemplo, muitos comunistas ditos históricos se foram afastando à medida que o conteúdo desse discurso foi sendo cada vez menos secreto. Já agora, não se tratando de um livro extraordinariamente bem escrito, mas sendo uma história extraordinariamente interessante, tanto para comunistas como para anticomunistas primários, secundários ou terciários, sugiro a leitura do livro Pavel – Um Homem Não se Apaga, de Edmundo Pedro. Mais que não seja pode ajudar a entender a forma como cada comunista lida com a complexidade do comunismo. Sendo que o que eu gostaria mesmo de ver e de ler era um debate sério sobre as questões aludidas no referido artigo. Podiam começar pelo último ponto:
A leitura enviusada que mvf faz da história do comunismo enferma dos defeitos que aponta, nomeadamente quando afirma que os comunistas “fecham os olhos e apagam tudo o que se passou”. Enfim, isto é não saber absolutamente nada da história do comunismo. Já aqui tive oportunidade de dizer, e permito-me repetir, que: «Apesar de tudo, reconheça-se, o Partido Comunista foi mais célere a reconhecer o Grande Terror estalinista, pela mão de Nikita Kruschev e o seu famigerado «discurso secreto» (1956), do que a Igreja Católica Apostólica Romana a reconhecer o terror da Inquisição». Trata-se de uma evidência histórica que a muitos convém apagar e esquecer, fechando os olhos e não querendo ver. São como os três macacos quando lhes parece proveitoso para insistirem numa retórica preconceituosa, estereotipada e superficial.
É também hoje sabido como o chamado «discurso secreto» dividiu o partido, como em Portugal, por exemplo, muitos comunistas ditos históricos se foram afastando à medida que o conteúdo desse discurso foi sendo cada vez menos secreto. Já agora, não se tratando de um livro extraordinariamente bem escrito, mas sendo uma história extraordinariamente interessante, tanto para comunistas como para anticomunistas primários, secundários ou terciários, sugiro a leitura do livro Pavel – Um Homem Não se Apaga, de Edmundo Pedro. Mais que não seja pode ajudar a entender a forma como cada comunista lida com a complexidade do comunismo. Sendo que o que eu gostaria mesmo de ver e de ler era um debate sério sobre as questões aludidas no referido artigo. Podiam começar pelo último ponto:
A chamada «queda do muro de Berlim» foi transformada
pelos seus apologistas num símbolo do triunfo definitivo do capitalismo sobre o
socialismo. Mas a evolução da situação internacional nos últimos 25 anos não só
desmente as teses delirantes sobre o «fim da luta de classes» e sobre a «morte
do comunismo», como mostram que o socialismo é mais actual e necessário do que
nunca e que os trabalhadores e os povos de todo o mundo resistem e lutam para
se libertar das cadeias da exploração e opressão imperialista.
Quanto a vítimas e infortúnios, suponho que os perpetrados pelo capitalismo vigente se contem pelos dedos. Tão poucos que nem se vêem. Perdoe-se-me a ironia, fina arma que repudio.
TRATADO SOBRE FILOSOFIA POLÍTICA
Héi lá, tanto festejo pela queda do muro, foguetes, vivas
às liberdades e ao viver democrático… por gente que escreve sem pestanejar
«traves institucionais» «reformas aprofundadas» (ou, «estruturais»)
«consolidação estratégica» e lambe o traseiro ao primeiro imbecil autoritário
que tenha o poder de dar um posto, um lugarzinho, uma crónica semanal… héia
cum’caralho tanto democrata a salário mínimo!
domingo, 9 de novembro de 2014
HÁ MUROS E MUROS
Tenho por princípio que todos os muros são maus, embora
aceite a utilidade de alguns. Por exemplo, os muros que se erguem à volta das
casas particulares são de uma utilidade extrema. Sobretudo para grafitters. Só
não entendo que se festeje a queda de um muro, o de Berlim, e se fique impávido
perante a edificação do Muro da Cisjordânia. Outro muro que não tem causado
tremores é o chamado Muro Americano, um muro duplo, com uma extensão superior a
1100 quilómetros, que separará o México dos Estados Unidos. E depois há os
muros da vergonha, e são tantos e tão distintos que seria fastidioso
numerá-los. Festeje-se, pois, a queda de um muro enquanto outros são erguidos
com a complacência dos festejos.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
CRIATIVO E EXCÊNTRICO OU GRUNHO E BURGESSO?
Pelo menos 4.420 pessoas viveram em jardins, estações de
metro ou camionagem, paragens de autocarro, estacionamentos, passeios,
viadutos, pontes e abrigos de emergência de Portugal em 2013.
(...)
Ministro da Economia diz que por vezes precisa de ser
"criativo" e "excêntrico" para passar mensagens
importantes.
ARGENTINA
A literatura argentina já teve algum Prémio Nobel? Senhor que se segue: Adolfo Bioy Casares. E Roberto Arlt, está publicado em Portugal?
MANCÚSPIAS, CRONÓPIOS, FAMAS E ESPERANÇAS
Nascido por acaso em Bruxelas, onde o pai se encontrava a
trabalhar, Julio Cortázar (1914-1984) pisou terras argentinas já com quatro
anos feitos. Cresceu nos subúrbios de Buenos Aires, tendo sido abandonado pelo pai aos
seis anos. O desaparecimento súbito da figura paterna encontrará várias
explicações, sendo certo que a família sobreviveu à custa do trabalho da mãe,
do dinheiro de uma avó e de um fundo de aposentadorias. Conta-se que ao ter
conhecimento da morte do pai no interior da Argentina, Cortázar terá demovido a
mãe de aceitar a herança a que tinha direito: uma pensão e fazendas. Os estudos
permitiram-lhe começar a trabalhar cedo, como professor, nas cidades de
Bolívar, Chivilcoy e Mendoza. Trabalhou ainda como editor, tradutor e colaborou
no argumento de um filme sobre o qual não reza a história. Os primeiros livros,
uma colecção de poemas intitulada Presencía (1938) e o poema dramático Los
Reyes (1949), foram publicações humildes de circulação restrita. 1951 será o
ano da edição de Bestiário. Coincide com a partida do escritor para Paris, onde
se fixará e virá a adquirir cidadania francesa. No Bestiário encontramos aquele
que foi o primeiro conto publicado por Cortázar: Casa Ocupada. O episódio da
publicação foi descrito por Jorge Luis Borges (1899-1986) e merece ser
recordado:
Em mil novecentos e quarenta e tantos, eu era secretário
de redacção de uma revista literária [Los anales de Buenos Aires], mais ou
menos secreta. Certa tarde, uma tarde como tantas outras, um rapaz muito alto,
cujos traços não consigo recuperar, trouxe-me um conto manuscrito. Disse-lhe
que voltasse dali a dez dias e que lhe daria o meu parecer. Voltou dali a uma
semana. Disse-lhe que o seu conto me agradava e que já tinha sido entregue na
tipografia. Pouco depois, Julio Cortázar leu em letras de imprensa «Casa
Ocupada» com duas ilustrações a lápis de Norah Borges. Passaram-se os anos e
ele confiou-me uma noite, em Paris, que aquela fora a sua primeira publicação.
Honra-me ter sido o seu instrumento.
Casa Ocupada é boa introdução ao universo cortazariano,
com suas figuras fantasmagóricas povoando as memórias de um espaço e influindo
em situações cujos tempos são indetermináveis. Mas os contos de Bestiário
introduzem-nos, igualmente, noutras dimensões da obra do autor de Rayuela
(1963) que serão posteriormente desenvolvidas até à exaustão. Neles deparamos
com seres fantásticos tais como as mancúspias, alucinações produzidas por obsessões
inexplicáveis (o jaguar do conto que ofereceu o título ao livro), porventura
projecções de conteúdos provenientes do inconsciente. A face surrealista desta
obra torna-se evidente, mas não esgota o sentido da mesma. Do mesmo modo, o
absurdo não é o aspecto mais determinante nos livros de Cortázar. É inegável a
importância do absurdo, o carácter subversivo e inventivo, o humor negro da
escola surrealista, mas todos esses elementos parecem conjugar-se sob o tecto
de uma interrogação acerca dos limites da linguagem na sua relação com o real.
Histórias
de Cronópios e de Famas (1962), um dos mais populares livros de Cortázar,
radicaliza a dimensão absurda das suas histórias. Porém, encontramos nesses relatos
que subvertem o quotidiano, sabotam a normalidade, renegam perspectivas
unilaterais sobre a vida comum, buscam o caos que se esconde nas sombras da
verdade, encontramos nesses relatos uma interrogação sobre o papel da linguagem
que se manifesta tanto em experimentações sintácticas, onde o dizer procura
adequar-se às surpresas do real, como numa muito objectiva tomada de posição
sobre o aspecto labiríntico de uma narrativa (recorde-se que a figura do Minotauro no
labirinto é uma das que primeiramente interessa ao escritor). Neste sentido, o texto inicial do famoso Manual de Instruções (uma das quatro partes que compõem as
Histórias de Cronópios e de Famas) funciona como uma espécie de “arte narrativa”:
Ter de ganhar o dia-a-dia todos os dias, esbracejar num
mundo pegajoso, ter de acordar todas as manhãs num repugnante cubículo, e
satisfeito que nem um cão por tudo estar nos seus lugares: a mesmíssima mulher,
os sapatos de sempre, o eterno sabor da eterna pasta dentífrica, a mesma
tristeza das casas fronteiras, a suja tabuleta com o letreiro HOTEL DE
BELGIQUE.
Enfiar a cabeça como um touro vencido pela multidão
transparente em cujo centro tomamos o café com leite e folheamos o jornal para
saber o que aconteceu num ponto qualquer do globo. Não consentir que o acto
delicado de girar o trinco da porta, acto que tudo poderia modificar, se cumpra
com a fria eficácia de um reflexo quotidiano. Até logo, querida. Passa bem.
Apertar uma colher na mão e sentir o seu gemido de metal,
a sua advertência suspeita. Dói negar uma colher, negar uma porta, negar tudo o
que o hábito seduz com suavidade satisfatória. É tão mais simples aceitar a
solicitude fácil da colher, usá-la para mexer o café.
E não há nada de mal em que as coisas nos não vejam
mudar.
Que ao nosso lado esteja sempre a mesma mulher, o mesmo
relógio e que o livro aberto sobre a mesa de cabeceira recomece a andar na
bicicleta dos nossos óculos, por que haveria isso de ser mau? Mas há que baixar
a cabeça como um touro triste e empurrar para longe o centro do globo de
cristal, até outro tão perto de nós, inacessível como o picador tão perto do
touro. Forçar os olhos para o que no céu aceita teimosamente o nome de nuvem,
sua réplica catalogada na memória. Não penses que o telefone te irá dar o
número que procuras. Por que razão to daria? Somente o que já tens preparado e
pronto, o triste reflexo da tua esperança, esse macaco que se coça à mesa e treme
de frio, chegará aos teus ouvidos. Escavada a cabeça a esse macaco, vai contra
as paredes, rebenta-as. Alguém que canta no andar de cima! Nesta casa há um
andar de cima, com outras pessoas! Um andar de cima onde vivem pessoas que nem
imaginam o andar de baixo, e cá estamos todos na bola de cristal. E se de repente
uma traça aparece na ponta de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olha-a,
a essa traça que vive na bola de cristal frio, nada está perdido. Ao abrir a
porta, ao chegar à escada, saberei que a rua está já ali em baixo; não o molde
imposto, não as casas conhecidas, não o hotel em frente: a rua, floresta viva
onde cada instante pode invadir-me como uma magnólia, onde as caras começam
quando as olho, quando avanço, quando com os cotovelos, pestanas e unhas me
atiro minuciosamente contra a massa da bola de cristal, e arrisco a vida
enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal à esquina.
Sendo certo que estes contos emanam por vezes coincidências
entre o ambiente arquitectado e os aspectos biográficos conhecidos
do autor - «Há anos que trabalho na Unesco e outros organismos internacionais e
ainda conservo algum sentido de humor…», diz no conto Possibilidades da Abstracção
-, não menos certa é parecerem construídos no interior de uma vertigem sugerida
pela relação entre o sujeito que observa e o objecto observado. Permito-me
sublinhar do texto supracitado a oposição entre o quotidiano banal e os efeitos
surpreendentes obtidos pela recusa dessa banalidade. Sentir o gemido do metal
da colher é olhar a colher já de uma outra forma, é apreendê-la de um modo incomum, é aceitar que uma colher não é apenas uma colher nem apenas uma colher cabe num nome, é perspectivar o mundo
aceitando na sua lógica interna o caos que nos ameaça, é aceitar uma realidade
que escapa à nossa necessidade corrente de formatar, organizar, explicar,
compreender, é ver para lá do visível partindo do princípio que aquilo que não
vemos, o fruto da imaginação, é inerente ao que sentimos: logo existe com a
mesma força do que vemos. Borges dizia ainda:
As personagens da fábula são deliberadamente triviais. Rege-os
uma rotina de amores casuais e de discórdias casuais. Movem-se entre coisas
triviais: marcas de cigarro, montras, balcões, uísque, farmácias, aeroportos e
cais. Resignam-se aos jornais e à rádio. A topografia corresponde a Buenos
Aires ou a Paris e podemos acreditar a princípio que se trata de meras
crónicas. Pouco a pouco sentimos que não é assim. Muito subtilmente o narrador
atraiu-nos para o seu terrível mundo, em que a felicidade é impossível. É um
mundo poroso, em que se entretecem os seres; a consciência de um homem pode
entrar na de um animal ou a de um animal num homem. Também se joga com a
matéria de que somos feitos, o tempo. Nalguns contos fluem e confundem-se duas
séries temporais.
Não concordando necessariamente com o juízo moral,
parece-me certa a leitura do processo. No entanto, ao atrair-nos para o seu
mundo o narrador alerta-nos sobre novas possibilidades acerca do nosso próprio
mundo. De facto, não coexistimos em mundos diversos. Partilhamos o mundo da linguagem.
E se o meu mundo é a minha linguagem, ou vice-versa, então, mais uma vez,
estamos na presença de um esforço de reconstrução da realidade que só pode transcender
as convenções do discurso. O fantástico, em Cortázar, não se opõe ao real, ele
é a própria realidade. Assim devemos aceitá-lo se o pretendemos entender. A
colectânea As Armas Secretas (1959), sobre a qual escrevi este texto, é das
primeiras onde as séries temporais se confundem com especial interesse. O conto
Cartas da Mamã é disso extraordinário exemplo. Mas mais do que a confusão de
tempos e de espaços geográficos, o que me parece agora importante sublinhar é o
swing dos textos, o ritmo que as palavras incutem às imagens e que estas percutem nas situações convocadas. Improviso? Talvez, como improvisar é
frasear entre riffs meticulosamente construídos. Note-se como da trivialidade
de que fala Borges a personagem central de As Armas Secretas consegue concluir a
excepcionalidade de tudo e o absurdo que rege as coisas, sonho de desejos obscuros
que pululam na mente e se projectam nas acções de um modo mais ou menos fiscalizado.
Concluamos:
Agora vou pensar em ti, querida, apenas em ti, durante
toda a noite. Vou pensar apenas em ti, é a única forma de me sentir a mim
mesmo, ter-te no centro de mim mesmo como uma árvore, soltar-me, pouco a pouco,
do tronco que me sustém e me guia, pairar à tua volta, com cuidado, sondando o
ar com cada folha (verdes, verdes, eu mesmo e tu mesma, tronco de seiva e
folhas verdes: verdes, verdes), sem me afastar de ti, sem deixar que o outro se
intrometa entre tu e eu, me distraia de ti, me prive nem que seja por um
segundo, que esta noite está a girar até ao amanhecer e que lá, do outro lado,
onde vives e dormes, será outra vez de noite quando chegarmos juntos e
entrarmos em tua casa, quando subirmos os degraus do alpendre, acendermos as
luzes, faremos festas ao teu cão, beberemos café, fitar-nos-emos durante algum
tempo, antes que eu te abrace (ter-te no centro de mim mesmo com o uma árvore)
e te leve até às escadas (mas não há nenhuma bola de vidro) e começamos a
subir, a subir, a porta está fechada, mas tenho a chave no bolso…
A DESCULPA DO ALEIJADO É A MULETA
Já de madrugada, falaram-me da mítica intervenção de
Pires de Lima na Assembleia da República. Fiquei incrédulo, não por depositar
qualquer tipo de esperança num homem que consegue ver um bocadinho do Ronaldo
em cada português (aqui), mas por julgar, na minha ingenuidade, que o tom aparvalhado
do ministro já não espantaria quem quer que fosse.
É o terceiro a pedir
desculpa, depois de Crato e da ministra anti-impunidade. Isto permite-nos
estabelecer um padrão, este governo é o das desculpas de mau pagador. Mas enquanto
o ministro, que parecia possuído por doses industriais de uma qualquer droga,
garantia que tinha eliminado muitas taxinhas (sic), voltava à carga com
metáforas sobre Ronaldo (é fixação), enquanto ironizava com profecias sobre
António Costa num tom de adolescente estupidamente arrogante, enquanto tecia
piadas de mau gosto sobre um ex-ministro, ele próprio outro fenómeno de
aparvalhamento das instituições públicas, enquanto confundia a Catherine
Deneuve com o Michael Phelps, enquanto exibia um ar histriónico completamente
inapropriado, enquanto tudo isto e muito mais que outros se encarregarão por
certo de esmiuçar ao pormenor, enquanto este ministro ministrava… mais 25
empresas fechavam no país.
É este número que os sorrisos e as piadas do
palhaço não fazem esquecer: mais de 25 empresas fecham por dia em Portugal. O
palhaço pode ir ao circo fazer o seu número, mas fora da tenda a vida continua.
As pequenas empresas continuam a fechar, as multinacionais vão prosperando à
conta de acordos fiscais secretos, dois milhões de pessoas em Portugal estão em
risco de pobreza. A alegria do ministro, infelizmente, não é contagiante,
apenas inflama a revolta conformista e inerte que a maioria dos portugueses
expressa na popular expressão: são todos a mesma merda. O resto reflecte-se nas
urnas com os níveis de abstenção que nos orgulham, nas urnas e nas ruas de
Bruxelas.
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
MULHERES
Título do Público: cadeias têm quase 500 presos a cumprir
pena por violência doméstica. Vem no Diário de Notícias: Facebook e a Apple
estão a oferecer às funcionárias a possibilidade de congelarem os seus óvulos,
incluída no seguro de saúde. O objectivo é atrair e manter as mulheres
talentosas na empresa. E também no Público: portugueses usam mais as redes
sociais do que a média europeia. Presumo que muitos dos utilizadores sejam mulheres,
algumas feministas. Não há nenhuma relação entre estas notícias, a não ser o
facto de todas elas poderem ajudar a compreender um pouco melhor o mundo em que
vivemos. Já agora, o maior sucesso de não-ficção em Portugal neste momento é um
livro sobre maquilhagem. A discussão sobre o piropo continua, oferecendo a
oportunidade às colunistas do costume de se confessarem vítimas de “assédio
sexual de rua”. Nunca pratiquei a arte do piropo, não gosto de redes sociais,
felizmente não conheço casos de violência doméstica na família mais próxima e o
tema social da maquilhagem não me interessa minimamente. Devo ser uma espécie
de cronópio.
O AMOR SAGRADO E O AMOR PROFANO
Esta detestável pintura representa um velório nas margens do Jordão. Raras vezes pôde a estupidez de um pintor aludir com maior baixeza à esperança do Mundo num Messias que brilha pela ausência; ausente do quadro que o mundo é, brilha horrivelmente no obsceno bocejo do sarcófago de mármore, enquanto o anjo encarregado de proclamar a ressurreição da sua carne patibular espera impávido que os desígnios se cumpram.
Julio Cortázar, in Histórias de Cronópios e de Famas, 2.ª edição, Editorial Estampa, Fevereiro de 1999.
O JOVEM BRUNO
O jovem Bruno, que ‘inda há dias se assanhava com críticas
ao seu, só seu, de mais ninguém Sporting, veio agora para o Facetruques chamar
preguiçosos aos funcionários do seu, só seu, de mais ninguém Sporting. Indignos
de vestir a camisola que ele, só ele, mais ninguém ama, adora, venera, os
trastes deram ontem a resposta que o “presedente” não merecia. O jovem Bruno
merecia ter ficado sozinho, só ele, mais ninguém senão ele com o seu Sporting.
Ontem indignos, hoje o quê? Que terá escrito o jovem Bruno na sua página?
Estará alguém curioso? Não faria melhor se seguisse os seus próprios conselhos
quando o assunto são maus funcionários?
terça-feira, 4 de novembro de 2014
#49
Dizer que ao terceiro álbum, este Ladies and gentlemen we
are floating in space (1997), os Spiritualized almejaram um lugar na história
da música vale o que vale. Pouco, se pensarmos noutros registos igualmente
empolgantes que a mesma história tem vindo a consumir nas chamas do
esquecimento. A verdade é que a banda de Jason Pierce (aka J Spaceman) e John
Coxon legou-nos um momento absolutamente irresistível de encontro entre várias
expressões musicais, do rock, na sua raiz mais bluesy (nunca a harmónica foi tão bem aproveitada na década de 1990), ao gospel, do gospel ao
jazz, do jazz à música erudita, com orquestrações épicas, coros cuja
espiritualidade faz implodir a própria noção de espírito, secções de sopros
desvairadas, guitarras em transe, evocações purificadoras que transformam a
música em pura medicina. O design de capa não é ingénuo. Este álbum, na
articulação que opera entre instantes introspectivos e exercícios de
relaxamento, com texturas meditativas cativantes e circunstâncias de
expansividade sónica próxima do psicadelismo mais alucinado, produz efeitos terapêuticos
comprovados. A dimensão sinfónica das composições transcende, porém, o
truque hipnotizante da repetição exaustiva, arriscando tudo em alternâncias rítmicas
que tanto permitem levitar sobre campos geometricamente perfeitos como
desbravar os terrenos de uma confusa selva de paixões. Adrenalina e comoção:
SAUDADES DO QUE NÃO FUI
Para Manuel de Freitas
Saudades da boémia que não sei:
O excesso de bebida. O charro.
(Eu sempre fui respeitador da lei,
Mas de barro.)
Saudades do balcão com a amizade
E o copo de cerveja.
(À noite, despe-se a cidade:
Único corpo nu que me deseja.)
Saudades do carinho
No ombro, na coxa, no cabelo.
(A mão da morte entorna o vinho
À sede de bebê-lo.)
Saudades desse alguém
Que não sei onde mora.
(E não sei de onde vem
Quando demora.)
Saudades do amor
Que nunca foi o meu.
(E de que sou acusador
E réu.)
Saudades da exigir ao velho
A vertigem da fuga.
(Mas não se pode destruir, no espelho,
A ruga.)
(2004)
António Manuel Couto Viana (n. 1923 - m. 2010), in Restos de Quase Nada e Outras Poesias (2006). «Na primeira das publicações não periódicas de poesia dos anos 50, Távola Redonda, 20 números 1950-54 (...), podem distinguir-se duas formas de reacção contra a tendência de realismo social. / Uma dessas formas estéticas é a de um verismo céptico, quase cínico por vezes, e de qualquer modo propenso aos matizes nauseados, sartrianos ou camusianos, do existencialismo. António Manuel Couto Viana (...) preludia essa forma de sensibilidade, desde O Avestruz Lírico, 1948, com uma recusa algo envergonhada do «social», um enorme pudor de afirmar qualquer ternura ou sentimento intenso, com a sua obsessiva consciência do vazio e cansaço de menino amimado de «papas e carinho», depois bom rapaz das amizades de café. É um «soluço de fim de raça», em ritmos estróficos muitas vezes tradicionais e sensivelmente rimados, que, para se manterem «castos», procuram ser breves, mas são ainda mais discursivos que imagistas (...)» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa) «Atravessa estes poemas o trauma do fim absoluto de um Portugal mais vasto do que o das fronteiras europeias em que Couto Viana acreditou, por que lutou, em cuja derrota se sentiu perder. A este modo ideológico de ver as chamadas marcas, presenças, glórias portuguesas, a visitação de algum lugar onde elas se manifestam desencadeia a nostalgia da contemplação do vazio e, quem sabe, da inutilidade do sentimento político que fora desejado como condutor de uma colectividade. / Vazio; mas também plenitude. Pelo que de persistente sinal, ainda que sem um visível projecto de continuidade na história sem ser a do imaginário, pode ainda erguer noutro sonho além do sonho» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre).
UM PROCESSO MUITO PODEROSO DE CAPTAÇÃO
Estas situações poéticas são, sem dúvida, bastante intensificadoras de apelo sentimental porque, em última instância, ao contemplarem o presente das mudanças e o passado das permanências, instituem na linguagem dos versos um processo muito poderoso de captação: aquilo que desde os latinos ficou designado pelo motivo do Ubi sunt: a nomeação dos que desapareceram ou daquilo que se destruiu, a memoriante retomada de momentos maiores e exemplares. Num certo sentido, toda a vocação realista da escrita é uma manifestação ou uma preparação para o motivo do Ubi sunt. Que, ao enfatizar a transitoriedade da vida, a fragilidade e a relatividade da beleza, a degenerescência da própria época em relação a um qualquer passado mais glorioso ou como tal pretendido, não pode deixar de criar um tenso e intenso efeito de pathos. Assim funcionam estes momentos cimeiros de relações que são quaisquer poemas conseguidos sobre a ligação com um outro, que é sempre uma relação a morrer. E de tanto mais pathos quando se trata da relação de uma cultura (ainda que aparentemente sentida apenas por um indivíduo), com outra cultura. E em estado final.
Joaquim Manuel Magalhães sobre António Manuel Couto Viana, in Rima Pobre - poesia portuguesa de agora, Editorial Presença, Abril de 1999, p. 92.
domingo, 2 de novembro de 2014
SUICIDAS - antologia de escritores suicidas portugueses
Assumindo como ponto de partida Os Portugueses, um povo suicida (1911), um entre muitos textos que Miguel de Unamuno (1864-1936)
dedicou aos amigos portugueses, Pablo Javier Pérez López (1983) corre o risco
desnecessário de generalizar sobre um povo inteiro a partir de uma leitura subjectiva
e demasiado curta para o fim a que se propõe. Basta atentarmo-nos à dimensão de
Suicidas – Antologia de Escritores Suicidas Portugueses (Ática, Outubro de
2014) para percebermos haver aqui um claro exagero, sendo seis os antologiados
(podiam ser mais, é certo) e, um deles, heterónimo entre tantos que se não
mataram saídos da cabeça de Fernando Pessoa (1888-1935). Temos ainda o problema
de saber quão justa poderá ser a generalização quando nem sequer os visados
resumem a cultura ou sequer a extensão da literatura portuguesas. A Camilo Castelo
Branco (1825-1890) podíamos opor Eça de Queirós (1845-1900), a Antero de
Quental (1842-1891) podíamos opor Teixeira de Pascoaes (1877-1952), a Manuel
Laranjeira (1877-1912) nada se opõe, é caso isolado, mas para Mário de Sá-Carneiro
(1890-1916) temos o amigo Pessoa e a Florbela Espanca (1894-1930) oporíamos de
bom grado Judith Teixeira (1880-1959). Uns mataram-se, por razões lá deles,
outros permaneceram vivos, outros embebedaram-se, outros exilaram-se, outros
aburguesaram-se, outros enlouqueceram, outros levaram as vidas que levaram e nada temos que ver com
isso. Importam as obras e saber se entre elas algo de comum emerge. É neste
sentido que devemos desmontar, desde logo, o lugar-comum pronunciado por Valter
Hugo Mãe no prefácio: «gosto dos escritores suicidas. Gosto do modo como
tiveram a coragem para tudo» (p. 10). Estas declarações de gosto, tantas vezes
ouvidas, caem no erro de tomar a floresta pela árvore. Há escritores suicidas de
várias formas, tamanhos e géneros, sendo que poucos têm que ver uns com os
outros. Quando dizemos gosto de escritores suicidas devemos ter em atenção que tanto
Emilio Salgari (1862-1911) como Yukio Mishima (1925-1970) cometeram haraquiri
(seppuku), não sendo fácil encontrar entre as obras de ambos os mínimos pontos
comuns como fácil será encontrar o que neles há de humano e que os liga a todos os
outros seres que escrevem. «Ter coragem para tudo» denota já uma leitura abusiva
sobre as razões da (não)vida. Olhemos para os autores incluídos nesta
antologia. Camilo Castelo Branco não teve coragem para viver cego, matou-se com
65 anos (boa idade para a época) e deixou escrito: «Não é costume nosso matarmo-nos
quando o aborrecimento da vida nos enjoa. Em país algum seria maior a estatística
dos suicídios do que em Portugal, se o tédio nos vencesse» (p.32). Portugal, um
povo suicida? Em sentido literal? Que dizer dos austríacos (ver aqui)? Também
Florbela estava doente quando resolveu antecipar a morte, e Mário de Sá-Carneiro
confessou em três despedidas as razões “mesquinhas” da sua decisão: «Podia ser
feliz mais tempo, tudo me ocorre, psicologicamente, às maravilhas: mas não
tenho dinheiro» (p. 98). Já Antero, em carta a Oliveira Martins, foi sucinto:
«A doença, dum modo ou de outro, é o meu estado normal» (p. 62). Doença e falta
de dinheiro não fundamentam o “lado dramático” de um povo, que ainda que tenha
feito do fado (e há tantos e tão diversos e nem todos são tristes) a sua canção
nacional também tem o vira e o corridinho e o fandango. A leitura exagerada de
Unamuno, que López infelizmente não desmonta, vem mais uma vez exibir as
perspectivas hiperbólicas de «um povo triste», de «um povo de suicidas», de um povo
desesperado, desgraçado, decadente, cansado, pessimista, melancólico, desiludido,
deprimido, «essencialmente sentimental», padecendo de um «tédio moral»
fatalista, sobre o qual pesa, como diria Laranjeira, «a herança trágica,
secular, duma ignorância podre e duma corrupção criminosa». Tudo isto terá o
seu quê de verdade, mas torna-se estupidamente parcial quando ouvimos cantar o
galo de Barcelos ou aprendemos a conviver com o priapismo das Caldas. O que há
de mais patético nestas leituras é precisamente o chavão da «dimensão trágica
do povo português» que o antologiador sublinha, reduzindo à tristeza, ao
pessimismo, ao desespero, à melancolia toda uma cultura que não se esgota em
meia dúzia de autores. Eis que nos encontramos na ratoeira do sensacionalismo filosófico. Da mesma forma, parecem-nos erradas as generalizações
exercidas sobre as putativas almas espanhola (quixotesca) e portuguesa
(saudosista). São perspectivas redutoras que não só não encerram a realidade
como lhe usurpam a complexidade paradoxal que está na génese de todas as culturas.
O que se pretende, pois, com uma antologia destas? Reafirmar chavões sobre os
portugueses? Não me parece ser possível estabelecer padrões a partir de tão frágeis
alicerces. No estudo que encerra a antologia, Pablo Javier Pérez López afirma
que: «A ausência, a morte vivida e a vida não vivível culminam no existir
português» (p. 146). Tal asseveração carece de fundamento que cinco autores e
um heterónimo não oferecem, sendo certo que a mesma valeria igualmente, fosse
nossa intenção abordá-la pelos mesmos pressupostos, para o existir francês,
anglo-saxónico, russo ou argentino… Que valor têm estas afirmações quando confrontadas com as vidas de Camões ou de Bocage? Pode alguém "viver mais" do que viveram esses dois portugueses?
sábado, 1 de novembro de 2014
PROFISSÃO POETA
...empregou-se no comércio, tendo sido propagandista de produtos farmacêuticos, profissão curiosamente comum a alguns poetas.
Jorge de Sena, sobre Luís Veiga Leitão.
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