quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS (1916-2014)


Referi-me a Manoel de Barros aqui. Um poema ali.
 Outros serão lembrados.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

UM ANÚNCIO

Anda por aí um anúncio da Vodafone com criancinhas a debaterem-se por uma sobremesa ou objectos tais como uma camisola, um skate, o comando da televisão, a coleira do cão. Reclamam aos berros a presença do pai para a resolução do conflito. São irritantemente betas e mal-educadas, lembram uma personagem de Charlie e a Fábrica de Chocolate. Cenas vulgares, quem tem filhos sabe disso. A verdade é que, falando por mim, raramente sou solicitado para a resolução de conflitos do género. Entre aguentarem uma palestra sobre os méritos da partilha ou verem-se privadas do objecto causador do conflito, as minhas filhas preferem resolver o problema entre elas. No anúncio, a solução encontrada pelo pai é distribuir smartphones, julgo que são smartphones, pelas criancinhas. E lá vão elas sossegadas no banco de trás do carro, cada uma com o seu telemóvel, enquanto a mãe as olha embevecida para depois se voltar para o homem da família e concluir descansada: «boa, pai». É o anúncio mais estúpido que vi nos últimos tempos, e não me refiro ao pormenor sexista da mãe ir no lugar do pendura. Aquele pai, aquele bom pai, é o típico exemplo de um esvaziamento ético que predomina na sociedade actual. Para ele, a partilha não se resolve partilhando. O bom capitalista cede às virtudes do consumo e cala as meninas com um telemóvel para cada uma delas (com tarifário especial, claro, a pensar no conforto das famílias). O bom pai cala as filhas enchendo-lhes a boca com chocolate, por assim dizer. Isto tem as suas vantagens, como é óbvio. Uma delas, talvez a mais visível, é a grande vantagem destes utensílios pós-modernos: evitam conversas estúpidas. Não sabemos é se a estupidez das conversas que se ouvem hoje em dia vem da falta de prática ou das próprias pessoas, cuja permeabilidade a este tipo de soluções é por demais evidente. Entretidas com os telemóveis, podem famílias inteiras crescer em silêncio. Chegará o dia em que sentar-se-ão à mesa e não se recordarão dos nomes uns dos outros. Para quê? Têm o número de telefone, só isso interessa.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

TURISMO DE GUERRA


Diferente de O Livro das Aves (Prémio Daniel Faria 2009, Quasi Edições, Abril de 2009), onde a linguagem se desenvolvia num ambiente simbolista repleto de imagens, alegorias e metáforas de índole mitológica, este Turismo de Guerra (Edições Artefacto, Agosto de 2014) é muito mais contido nessas erupções de sentido promovidas pela subjectividade discursiva. Um dos aspectos desde logo evidentes é o da relação íntima destes poemas com os «lugares de passagem» por eles evocados. A República Checa, que não é de todo estranha à obra de Tiago Patrício (n. 1979), surge como palco de situações ilustradas por componentes identificadores de uma cultura: do vinho da Morávia à arquitectura soviética, passando pelo Mosteiro de Břevnov, pelo Café Slavia ou pel’O relógio socialista de Olomouc (título de um dos mais belos poemas do livro).
No entanto, apesar do pendor descritivo dos poemas, eles penetram os lugares a partir de vivências intimistas. Longe de se constituírem como meros postais, nem sequer nos é possível reduzi-los a retratos transfiguradores da paisagem. Veja-se como no poema Cemitério Judeu se opera uma transposição da experiência para a alusão, sendo que o referido cemitério é não só um dos aspectos físicos da paisagem como já a referência metafísica de algo que se perdeu: «uma vez encontrámos uma rapariga / que nos levou para o último andar de um prédio / onde se podia ver o antigo cemitério judeu / e depois de três dias sem sairmos do quarto / decidimos mudar-nos para casa dela // no dia em que íamos fazer as mudanças / e subíamos a rua em direcção à nossa casa / tu fixaste um homem do outro lado do passeio / que mandou parar um táxi onde entraste com ele // e nós ficámos a ver o carro afastar-se / contigo a desapareceres infinitamente / ao lado daquele homem de uniforme escuro» (p. 39).
Apesar de claramente narrativas, estas estrofes permitem-nos sublinhar dois aspectos marcantes nas três secções do livro (Língua Eslava, Cristal da Boémia, Inverno Eslavo). Primeiro, a predominância da primeira pessoa do plural. Este aspecto é importante por nesta opção ser possível suspeitar um desvio do foco subjectivo do sujeito poético para a problematização da experiência em grupo. Por várias ocasiões Tiago Patrício faz referência à presença de um grupo que, não apagando a presença do sujeito, como que aparenta protegê-lo do isolamento em que se encontra, sobretudo o isolamento provocado pela distância das origens e pela estranheza de uma língua que não é a sua. O problema da língua, aliás, começa por ser sondado logo na primeira secção.
A frequência de uma residência literária na República Checa é, pois, o mote que obriga à adaptação, ao relacionamento, ao encontro de uma força de conjunto que o isolamento intimida. O segundo aspecto marcante é o de um tom aparentemente esquivo ou elíptico que certos poemas inspiram apesar e para lá da sua dimensão explicativa, tal como o erotismo, mais ou menos velado, que alguns versos alcançam com impressionante inteligência sedutora. O poema Cidade Termal seria óptimo exemplo, mas este outro merece-me especial referência por haver nele algo de extraordinário, tanto em termos sintácticos como semânticos, na visão de conjunto:
 
MEDIR O PULSO À PALAVRA

comíamos o corpo com as palavras na terra
dizíamos a terra com o corpo na palavra
metíamos as mãos no tempo e a terra no corpo

tirávamos palavras do corpo para a terra
e semeávamos a palavra dada ao corpo
alimentávamos a terra enquanto era tempo
e servíamos de corpo à terra sem palavras

escrevíamos como se enterrássemos um relógio
de corda e aguardássemos que desse frutos
para vender ou trocar por mais tempo juntos

sentimos o corpo programado
para se desligar num tempo médio
na equidistância do corpo ao silêncio

Muito mais refreados em termos rítmicos e imagéticos, os restantes poemas (à excepção de Chave Dicotómica) distanciam-se deste na forma, mas partilham com ele uma ética que a relação aqui estabelecida entre os vocábulos corpo, palavra e terra permite estipular. Turismo de Guerra revela um olhar lúcido, talvez demasiado lúcido, sobre os desígnios da humanidade, não sendo necessariamente candente sobre a situação do homem dito civilizado — «mostram-nos o quarto de um rei / de um monge de uma prostituta famosa / e pensamos na nossa cama inútil» (p. 32) —, deixa no ar a fina ironia do tempo que passa por nós enquanto nós nos ocupamos das coisas banais que, afinal, são exactamente aquelas que asseguram um certo equilíbrio existencial: «fazemos isto em vez de nos matarmos uns aos outros» (p. 26). Há aqui um movimento que não é óbvio daquele que se afasta das raízes para que possa ver-se melhor no encontro com o essencial, sendo que o “eu” aparece permanentemente sufocado pela presença do "nós". No fundo, nunca estamos totalmente isolados. Somos sempre uns entre outros, e essa é a única forma de nos descobrimos.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A LUTA CONTINUA

Li atentamente este post de mvf, com o qual não me identifico minimamente (o post, já que mvf não conheço), e pensei breves instantes sobre o assunto. Primeiro, achei piada ao tom reaccionário que a leitura de um artigo publicado em Avante gerou. Reaccionário porque reduz um programa político e o seu partido a um artigo publicado num jornal. Ao contrário do que mvf insinua, há pluralidade no seio do Partido Comunista Português. As leituras sobre o legado comunista internacional não são unívocas nem estão cristalizadas pela fé num ideal de sociedade. Muito menos podem ser reduzidas a um artigo, sendo que artigos há muitos (embora saibamos que apenas alguns interessam a quem deles pretende fazer leitura interesseira).
A leitura enviusada que mvf faz da história do comunismo enferma dos defeitos que aponta, nomeadamente quando afirma que os comunistas “fecham os olhos e apagam tudo o que se passou”. Enfim, isto é não saber absolutamente nada da história do comunismo. Já aqui tive oportunidade de dizer, e permito-me repetir, que: «Apesar de tudo, reconheça-se, o Partido Comunista foi mais célere a reconhecer o Grande Terror estalinista, pela mão de Nikita Kruschev e o seu famigerado «discurso secreto» (1956), do que a Igreja Católica Apostólica Romana a reconhecer o terror da Inquisição». Trata-se de uma evidência histórica que a muitos convém apagar e esquecer, fechando os olhos e não querendo ver. São como os três macacos quando lhes parece proveitoso para insistirem numa retórica preconceituosa, estereotipada e superficial.
É também hoje sabido como o chamado «discurso secreto» dividiu o partido, como em Portugal, por exemplo, muitos comunistas ditos históricos se foram afastando à medida que o conteúdo desse discurso foi sendo cada vez menos secreto. Já agora, não se tratando de um livro extraordinariamente bem escrito, mas sendo uma história extraordinariamente interessante, tanto para comunistas como para anticomunistas primários, secundários ou terciários, sugiro a leitura do livro Pavel – Um Homem Não se Apaga, de Edmundo Pedro. Mais que não seja pode ajudar a entender a forma como cada comunista lida com a complexidade do comunismo. Sendo que o que eu gostaria mesmo de ver e de ler era um debate sério sobre as questões aludidas no referido artigo. Podiam começar pelo último ponto: 
A chamada «queda do muro de Berlim» foi transformada pelos seus apologistas num símbolo do triunfo definitivo do capitalismo sobre o socialismo. Mas a evolução da situação internacional nos últimos 25 anos não só desmente as teses delirantes sobre o «fim da luta de classes» e sobre a «morte do comunismo», como mostram que o socialismo é mais actual e necessário do que nunca e que os trabalhadores e os povos de todo o mundo resistem e lutam para se libertar das cadeias da exploração e opressão imperialista.
 
Quanto a vítimas e infortúnios, suponho que os perpetrados pelo capitalismo vigente se contem pelos dedos. Tão poucos que nem se vêem. Perdoe-se-me a ironia, fina arma que repudio.

TRATADO SOBRE FILOSOFIA POLÍTICA

Este post aqui:
Héi lá, tanto festejo pela queda do muro, foguetes, vivas às liberdades e ao viver democrático… por gente que escreve sem pestanejar «traves institucionais» «reformas aprofundadas» (ou, «estruturais») «consolidação estratégica» e lambe o traseiro ao primeiro imbecil autoritário que tenha o poder de dar um posto, um lugarzinho, uma crónica semanal… héia cum’caralho tanto democrata a salário mínimo!

domingo, 9 de novembro de 2014

HÁ MUROS E MUROS

Tenho por princípio que todos os muros são maus, embora aceite a utilidade de alguns. Por exemplo, os muros que se erguem à volta das casas particulares são de uma utilidade extrema. Sobretudo para grafitters. Só não entendo que se festeje a queda de um muro, o de Berlim, e se fique impávido perante a edificação do Muro da Cisjordânia. Outro muro que não tem causado tremores é o chamado Muro Americano, um muro duplo, com uma extensão superior a 1100 quilómetros, que separará o México dos Estados Unidos. E depois há os muros da vergonha, e são tantos e tão distintos que seria fastidioso numerá-los. Festeje-se, pois, a queda de um muro enquanto outros são erguidos com a complacência dos festejos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

CRIATIVO E EXCÊNTRICO OU GRUNHO E BURGESSO?



Pelo menos 4.420 pessoas viveram em jardins, estações de metro ou camionagem, paragens de autocarro, estacionamentos, passeios, viadutos, pontes e abrigos de emergência de Portugal em 2013.
(...)
Ministro da Economia diz que por vezes precisa de ser "criativo" e "excêntrico" para passar mensagens importantes.

ARGENTINA


A literatura argentina já teve algum Prémio Nobel? Senhor que se segue: Adolfo Bioy Casares. E Roberto Arlt, está publicado em Portugal?

MANCÚSPIAS, CRONÓPIOS, FAMAS E ESPERANÇAS

Nascido por acaso em Bruxelas, onde o pai se encontrava a trabalhar, Julio Cortázar (1914-1984) pisou terras argentinas já com quatro anos feitos. Cresceu nos subúrbios de Buenos Aires, tendo sido abandonado pelo pai aos seis anos. O desaparecimento súbito da figura paterna encontrará várias explicações, sendo certo que a família sobreviveu à custa do trabalho da mãe, do dinheiro de uma avó e de um fundo de aposentadorias. Conta-se que ao ter conhecimento da morte do pai no interior da Argentina, Cortázar terá demovido a mãe de aceitar a herança a que tinha direito: uma pensão e fazendas. Os estudos permitiram-lhe começar a trabalhar cedo, como professor, nas cidades de Bolívar, Chivilcoy e Mendoza. Trabalhou ainda como editor, tradutor e colaborou no argumento de um filme sobre o qual não reza a história. Os primeiros livros, uma colecção de poemas intitulada Presencía (1938) e o poema dramático Los Reyes (1949), foram publicações humildes de circulação restrita. 1951 será o ano da edição de Bestiário. Coincide com a partida do escritor para Paris, onde se fixará e virá a adquirir cidadania francesa. No Bestiário encontramos aquele que foi o primeiro conto publicado por Cortázar: Casa Ocupada. O episódio da publicação foi descrito por Jorge Luis Borges (1899-1986) e merece ser recordado:

Em mil novecentos e quarenta e tantos, eu era secretário de redacção de uma revista literária [Los anales de Buenos Aires], mais ou menos secreta. Certa tarde, uma tarde como tantas outras, um rapaz muito alto, cujos traços não consigo recuperar, trouxe-me um conto manuscrito. Disse-lhe que voltasse dali a dez dias e que lhe daria o meu parecer. Voltou dali a uma semana. Disse-lhe que o seu conto me agradava e que já tinha sido entregue na tipografia. Pouco depois, Julio Cortázar leu em letras de imprensa «Casa Ocupada» com duas ilustrações a lápis de Norah Borges. Passaram-se os anos e ele confiou-me uma noite, em Paris, que aquela fora a sua primeira publicação. Honra-me ter sido o seu instrumento.


Casa Ocupada é boa introdução ao universo cortazariano, com suas figuras fantasmagóricas povoando as memórias de um espaço e influindo em situações cujos tempos são indetermináveis. Mas os contos de Bestiário introduzem-nos, igualmente, noutras dimensões da obra do autor de Rayuela (1963) que serão posteriormente desenvolvidas até à exaustão. Neles deparamos com seres fantásticos tais como as mancúspias, alucinações produzidas por obsessões inexplicáveis (o jaguar do conto que ofereceu o título ao livro), porventura projecções de conteúdos provenientes do inconsciente. A face surrealista desta obra torna-se evidente, mas não esgota o sentido da mesma. Do mesmo modo, o absurdo não é o aspecto mais determinante nos livros de Cortázar. É inegável a importância do absurdo, o carácter subversivo e inventivo, o humor negro da escola surrealista, mas todos esses elementos parecem conjugar-se sob o tecto de uma interrogação acerca dos limites da linguagem na sua relação com o real.
 Histórias de Cronópios e de Famas (1962), um dos mais populares livros de Cortázar, radicaliza a dimensão absurda das suas histórias. Porém, encontramos nesses relatos que subvertem o quotidiano, sabotam a normalidade, renegam perspectivas unilaterais sobre a vida comum, buscam o caos que se esconde nas sombras da verdade, encontramos nesses relatos uma interrogação sobre o papel da linguagem que se manifesta tanto em experimentações sintácticas, onde o dizer procura adequar-se às surpresas do real, como numa muito objectiva tomada de posição sobre o aspecto labiríntico de uma narrativa (recorde-se que a figura do Minotauro no labirinto é uma das que primeiramente interessa ao escritor). Neste sentido, o texto inicial do famoso Manual de Instruções (uma das quatro partes que compõem as Histórias de Cronópios e de Famas) funciona como uma espécie de “arte narrativa”:


Ter de ganhar o dia-a-dia todos os dias, esbracejar num mundo pegajoso, ter de acordar todas as manhãs num repugnante cubículo, e satisfeito que nem um cão por tudo estar nos seus lugares: a mesmíssima mulher, os sapatos de sempre, o eterno sabor da eterna pasta dentífrica, a mesma tristeza das casas fronteiras, a suja tabuleta com o letreiro HOTEL DE BELGIQUE.
Enfiar a cabeça como um touro vencido pela multidão transparente em cujo centro tomamos o café com leite e folheamos o jornal para saber o que aconteceu num ponto qualquer do globo. Não consentir que o acto delicado de girar o trinco da porta, acto que tudo poderia modificar, se cumpra com a fria eficácia de um reflexo quotidiano. Até logo, querida. Passa bem.
Apertar uma colher na mão e sentir o seu gemido de metal, a sua advertência suspeita. Dói negar uma colher, negar uma porta, negar tudo o que o hábito seduz com suavidade satisfatória. É tão mais simples aceitar a solicitude fácil da colher, usá-la para mexer o café.
E não há nada de mal em que as coisas nos não vejam mudar.
Que ao nosso lado esteja sempre a mesma mulher, o mesmo relógio e que o livro aberto sobre a mesa de cabeceira recomece a andar na bicicleta dos nossos óculos, por que haveria isso de ser mau? Mas há que baixar a cabeça como um touro triste e empurrar para longe o centro do globo de cristal, até outro tão perto de nós, inacessível como o picador tão perto do touro. Forçar os olhos para o que no céu aceita teimosamente o nome de nuvem, sua réplica catalogada na memória. Não penses que o telefone te irá dar o número que procuras. Por que razão to daria? Somente o que já tens preparado e pronto, o triste reflexo da tua esperança, esse macaco que se coça à mesa e treme de frio, chegará aos teus ouvidos. Escavada a cabeça a esse macaco, vai contra as paredes, rebenta-as. Alguém que canta no andar de cima! Nesta casa há um andar de cima, com outras pessoas! Um andar de cima onde vivem pessoas que nem imaginam o andar de baixo, e cá estamos todos na bola de cristal. E se de repente uma traça aparece na ponta de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olha-a, a essa traça que vive na bola de cristal frio, nada está perdido. Ao abrir a porta, ao chegar à escada, saberei que a rua está já ali em baixo; não o molde imposto, não as casas conhecidas, não o hotel em frente: a rua, floresta viva onde cada instante pode invadir-me como uma magnólia, onde as caras começam quando as olho, quando avanço, quando com os cotovelos, pestanas e unhas me atiro minuciosamente contra a massa da bola de cristal, e arrisco a vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal à esquina.

Sendo certo que estes contos emanam por vezes coincidências entre o ambiente arquitectado e os aspectos biográficos conhecidos do autor - «Há anos que trabalho na Unesco e outros organismos internacionais e ainda conservo algum sentido de humor…», diz no conto Possibilidades da Abstracção -, não menos certa é parecerem construídos no interior de uma vertigem sugerida pela relação entre o sujeito que observa e o objecto observado. Permito-me sublinhar do texto supracitado a oposição entre o quotidiano banal e os efeitos surpreendentes obtidos pela recusa dessa banalidade. Sentir o gemido do metal da colher é olhar a colher já de uma outra forma, é apreendê-la de um modo incomum, é aceitar que uma colher não é apenas uma colher nem apenas uma colher cabe num nome, é perspectivar o mundo aceitando na sua lógica interna o caos que nos ameaça, é aceitar uma realidade que escapa à nossa necessidade corrente de formatar, organizar, explicar, compreender, é ver para lá do visível partindo do princípio que aquilo que não vemos, o fruto da imaginação, é inerente ao que sentimos: logo existe com a mesma força do que vemos. Borges dizia ainda:

As personagens da fábula são deliberadamente triviais. Rege-os uma rotina de amores casuais e de discórdias casuais. Movem-se entre coisas triviais: marcas de cigarro, montras, balcões, uísque, farmácias, aeroportos e cais. Resignam-se aos jornais e à rádio. A topografia corresponde a Buenos Aires ou a Paris e podemos acreditar a princípio que se trata de meras crónicas. Pouco a pouco sentimos que não é assim. Muito subtilmente o narrador atraiu-nos para o seu terrível mundo, em que a felicidade é impossível. É um mundo poroso, em que se entretecem os seres; a consciência de um homem pode entrar na de um animal ou a de um animal num homem. Também se joga com a matéria de que somos feitos, o tempo. Nalguns contos fluem e confundem-se duas séries temporais.

Não concordando necessariamente com o juízo moral, parece-me certa a leitura do processo. No entanto, ao atrair-nos para o seu mundo o narrador alerta-nos sobre novas possibilidades acerca do nosso próprio mundo. De facto, não coexistimos em mundos diversos. Partilhamos o mundo da linguagem. E se o meu mundo é a minha linguagem, ou vice-versa, então, mais uma vez, estamos na presença de um esforço de reconstrução da realidade que só pode transcender as convenções do discurso. O fantástico, em Cortázar, não se opõe ao real, ele é a própria realidade. Assim devemos aceitá-lo se o pretendemos entender. A colectânea As Armas Secretas (1959), sobre a qual escrevi este texto, é das primeiras onde as séries temporais se confundem com especial interesse. O conto Cartas da Mamã é disso extraordinário exemplo. Mas mais do que a confusão de tempos e de espaços geográficos, o que me parece agora importante sublinhar é o swing dos textos, o ritmo que as palavras incutem às imagens e que estas percutem nas situações convocadas. Improviso? Talvez, como improvisar é frasear entre riffs meticulosamente construídos. Note-se como da trivialidade de que fala Borges a personagem central de As Armas Secretas consegue concluir a excepcionalidade de tudo e o absurdo que rege as coisas, sonho de desejos obscuros que pululam na mente e se projectam nas acções de um modo mais ou menos fiscalizado. Concluamos:

Agora vou pensar em ti, querida, apenas em ti, durante toda a noite. Vou pensar apenas em ti, é a única forma de me sentir a mim mesmo, ter-te no centro de mim mesmo como uma árvore, soltar-me, pouco a pouco, do tronco que me sustém e me guia, pairar à tua volta, com cuidado, sondando o ar com cada folha (verdes, verdes, eu mesmo e tu mesma, tronco de seiva e folhas verdes: verdes, verdes), sem me afastar de ti, sem deixar que o outro se intrometa entre tu e eu, me distraia de ti, me prive nem que seja por um segundo, que esta noite está a girar até ao amanhecer e que lá, do outro lado, onde vives e dormes, será outra vez de noite quando chegarmos juntos e entrarmos em tua casa, quando subirmos os degraus do alpendre, acendermos as luzes, faremos festas ao teu cão, beberemos café, fitar-nos-emos durante algum tempo, antes que eu te abrace (ter-te no centro de mim mesmo com o uma árvore) e te leve até às escadas (mas não há nenhuma bola de vidro) e começamos a subir, a subir, a porta está fechada, mas tenho a chave no bolso…

A DESCULPA DO ALEIJADO É A MULETA

Já de madrugada, falaram-me da mítica intervenção de Pires de Lima na Assembleia da República. Fiquei incrédulo, não por depositar qualquer tipo de esperança num homem que consegue ver um bocadinho do Ronaldo em cada português (aqui), mas por julgar, na minha ingenuidade, que o tom aparvalhado do ministro já não espantaria quem quer que fosse.
É o terceiro a pedir desculpa, depois de Crato e da ministra anti-impunidade. Isto permite-nos estabelecer um padrão, este governo é o das desculpas de mau pagador. Mas enquanto o ministro, que parecia possuído por doses industriais de uma qualquer droga, garantia que tinha eliminado muitas taxinhas (sic), voltava à carga com metáforas sobre Ronaldo (é fixação), enquanto ironizava com profecias sobre António Costa num tom de adolescente estupidamente arrogante, enquanto tecia piadas de mau gosto sobre um ex-ministro, ele próprio outro fenómeno de aparvalhamento das instituições públicas, enquanto confundia a Catherine Deneuve com o Michael Phelps, enquanto exibia um ar histriónico completamente inapropriado, enquanto tudo isto e muito mais que outros se encarregarão por certo de esmiuçar ao pormenor, enquanto este ministro ministrava… mais 25 empresas fechavam no país.
É este número que os sorrisos e as piadas do palhaço não fazem esquecer: mais de 25 empresas fecham por dia em Portugal. O palhaço pode ir ao circo fazer o seu número, mas fora da tenda a vida continua. As pequenas empresas continuam a fechar, as multinacionais vão prosperando à conta de acordos fiscais secretos, dois milhões de pessoas em Portugal estão em risco de pobreza. A alegria do ministro, infelizmente, não é contagiante, apenas inflama a revolta conformista e inerte que a maioria dos portugueses expressa na popular expressão: são todos a mesma merda. O resto reflecte-se nas urnas com os níveis de abstenção que nos orgulham, nas urnas e nas ruas de Bruxelas.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Será que as nuvens se queimam quando se aproximam do sol?
Beatriz, 8 anos.

MULHERES

Título do Público: cadeias têm quase 500 presos a cumprir pena por violência doméstica. Vem no Diário de Notícias: Facebook e a Apple estão a oferecer às funcionárias a possibilidade de congelarem os seus óvulos, incluída no seguro de saúde. O objectivo é atrair e manter as mulheres talentosas na empresa. E também no Público: portugueses usam mais as redes sociais do que a média europeia. Presumo que muitos dos utilizadores sejam mulheres, algumas feministas. Não há nenhuma relação entre estas notícias, a não ser o facto de todas elas poderem ajudar a compreender um pouco melhor o mundo em que vivemos. Já agora, o maior sucesso de não-ficção em Portugal neste momento é um livro sobre maquilhagem. A discussão sobre o piropo continua, oferecendo a oportunidade às colunistas do costume de se confessarem vítimas de “assédio sexual de rua”. Nunca pratiquei a arte do piropo, não gosto de redes sociais, felizmente não conheço casos de violência doméstica na família mais próxima e o tema social da maquilhagem não me interessa minimamente. Devo ser uma espécie de cronópio.

O AMOR SAGRADO E O AMOR PROFANO


Esta detestável pintura representa um velório nas margens do Jordão. Raras vezes pôde a estupidez de um pintor aludir com maior baixeza à esperança do Mundo num Messias que brilha pela ausência; ausente do quadro que o mundo é, brilha horrivelmente no obsceno bocejo do sarcófago de mármore, enquanto o anjo encarregado de proclamar a ressurreição da sua carne patibular espera impávido que os desígnios se cumpram.
 
Julio Cortázar, in Histórias de Cronópios e de Famas, 2.ª edição, Editorial Estampa, Fevereiro de 1999.

O JOVEM BRUNO

O jovem Bruno, que ‘inda há dias se assanhava com críticas ao seu, só seu, de mais ninguém Sporting, veio agora para o Facetruques chamar preguiçosos aos funcionários do seu, só seu, de mais ninguém Sporting. Indignos de vestir a camisola que ele, só ele, mais ninguém ama, adora, venera, os trastes deram ontem a resposta que o “presedente” não merecia. O jovem Bruno merecia ter ficado sozinho, só ele, mais ninguém senão ele com o seu Sporting. Ontem indignos, hoje o quê? Que terá escrito o jovem Bruno na sua página? Estará alguém curioso? Não faria melhor se seguisse os seus próprios conselhos quando o assunto são maus funcionários?

terça-feira, 4 de novembro de 2014

SOBRE PERTURBAÇÕES INFANTIS

Aqui.

#49


Dizer que ao terceiro álbum, este Ladies and gentlemen we are floating in space (1997), os Spiritualized almejaram um lugar na história da música vale o que vale. Pouco, se pensarmos noutros registos igualmente empolgantes que a mesma história tem vindo a consumir nas chamas do esquecimento. A verdade é que a banda de Jason Pierce (aka J Spaceman) e John Coxon legou-nos um momento absolutamente irresistível de encontro entre várias expressões musicais, do rock, na sua raiz mais bluesy (nunca a harmónica foi tão bem aproveitada na década de 1990), ao gospel, do gospel ao jazz, do jazz à música erudita, com orquestrações épicas, coros cuja espiritualidade faz implodir a própria noção de espírito, secções de sopros desvairadas, guitarras em transe, evocações purificadoras que transformam a música em pura medicina. O design de capa não é ingénuo. Este álbum, na articulação que opera entre instantes introspectivos e exercícios de relaxamento, com texturas meditativas cativantes e circunstâncias de expansividade sónica próxima do psicadelismo mais alucinado, produz efeitos terapêuticos comprovados. A dimensão sinfónica das composições transcende, porém, o truque hipnotizante da repetição exaustiva, arriscando tudo em alternâncias rítmicas que tanto permitem levitar sobre campos geometricamente perfeitos como desbravar os terrenos de uma confusa selva de paixões. Adrenalina e comoção:


SAUDADES DO QUE NÃO FUI


Para Manuel de Freitas

Saudades da boémia que não sei:
O excesso de bebida. O charro.
(Eu sempre fui respeitador da lei,
Mas de barro.)

Saudades do balcão com a amizade
E o copo de cerveja.
(À noite, despe-se a cidade:
Único corpo nu que me deseja.)

Saudades do carinho
No ombro, na coxa, no cabelo.
(A mão da morte entorna o vinho
À sede de bebê-lo.)

Saudades desse alguém
Que não sei onde mora.
(E não sei de onde vem
Quando demora.)

Saudades do amor
Que nunca foi o meu.
(E de que sou acusador
E réu.)

Saudades da exigir ao velho
A vertigem da fuga.
(Mas não se pode destruir, no espelho,
A ruga.)

(2004)

António Manuel Couto Viana (n. 1923 - m. 2010), in Restos de Quase Nada e Outras Poesias (2006). «Na primeira das publicações não periódicas de poesia dos anos 50, Távola Redonda, 20 números 1950-54 (...), podem distinguir-se duas formas de reacção contra a tendência de realismo social. / Uma dessas formas estéticas é a de um verismo céptico, quase cínico por vezes, e de qualquer modo propenso aos matizes nauseados, sartrianos ou camusianos, do existencialismo. António Manuel Couto Viana (...) preludia essa forma de sensibilidade, desde O Avestruz Lírico, 1948, com uma recusa algo envergonhada do «social», um enorme pudor de afirmar qualquer ternura ou sentimento intenso, com a sua obsessiva consciência do vazio e cansaço de menino amimado de «papas e carinho», depois bom rapaz das amizades de café. É um «soluço de fim de raça», em ritmos estróficos muitas vezes tradicionais e sensivelmente rimados, que, para se manterem «castos», procuram ser breves, mas são ainda mais discursivos que imagistas (...)» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa) «Atravessa estes poemas o trauma do fim absoluto de um Portugal mais vasto do que o das fronteiras europeias em que Couto Viana acreditou, por que lutou, em cuja derrota se sentiu perder. A este modo ideológico de ver as chamadas marcas, presenças, glórias portuguesas, a visitação de algum lugar onde elas se manifestam desencadeia a nostalgia da contemplação do vazio e, quem sabe, da inutilidade do sentimento político que fora desejado como condutor de uma colectividade. / Vazio; mas também plenitude. Pelo que de persistente sinal, ainda que sem um visível projecto de continuidade na história sem ser a do imaginário, pode ainda erguer noutro sonho além do sonho» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre).

UM PROCESSO MUITO PODEROSO DE CAPTAÇÃO

Estas situações poéticas são, sem dúvida, bastante intensificadoras de apelo sentimental porque, em última instância, ao contemplarem o presente das mudanças e o passado das permanências, instituem na linguagem dos versos um processo muito poderoso de captação: aquilo que desde os latinos ficou designado pelo motivo do Ubi sunt: a nomeação dos que desapareceram ou daquilo que se destruiu, a memoriante retomada de momentos maiores e exemplares. Num certo sentido, toda a vocação realista da escrita é uma manifestação ou uma preparação para o motivo do Ubi sunt. Que, ao enfatizar a transitoriedade da vida, a fragilidade e a relatividade da beleza, a degenerescência da própria época em relação a um qualquer passado mais glorioso ou como tal pretendido, não pode deixar de criar um tenso e intenso efeito de pathos. Assim funcionam estes momentos cimeiros de relações que são quaisquer poemas conseguidos sobre a ligação com um outro, que é sempre uma relação a morrer. E de tanto mais pathos quando se trata da relação de uma cultura (ainda que aparentemente sentida apenas por um indivíduo), com outra cultura. E em estado final.

Joaquim Manuel Magalhães sobre António Manuel Couto Viana, in Rima Pobre - poesia portuguesa de agora, Editorial Presença, Abril de 1999, p. 92.

domingo, 2 de novembro de 2014

SUICIDAS - antologia de escritores suicidas portugueses

Assumindo como ponto de partida Os Portugueses, um povo suicida (1911), um entre muitos textos que Miguel de Unamuno (1864-1936) dedicou aos amigos portugueses, Pablo Javier Pérez López (1983) corre o risco desnecessário de generalizar sobre um povo inteiro a partir de uma leitura subjectiva e demasiado curta para o fim a que se propõe. Basta atentarmo-nos à dimensão de Suicidas – Antologia de Escritores Suicidas Portugueses (Ática, Outubro de 2014) para percebermos haver aqui um claro exagero, sendo seis os antologiados (podiam ser mais, é certo) e, um deles, heterónimo entre tantos que se não mataram saídos da cabeça de Fernando Pessoa (1888-1935). Temos ainda o problema de saber quão justa poderá ser a generalização quando nem sequer os visados resumem a cultura ou sequer a extensão da literatura portuguesas. A Camilo Castelo Branco (1825-1890) podíamos opor Eça de Queirós (1845-1900), a Antero de Quental (1842-1891) podíamos opor Teixeira de Pascoaes (1877-1952), a Manuel Laranjeira (1877-1912) nada se opõe, é caso isolado, mas para Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) temos o amigo Pessoa e a Florbela Espanca (1894-1930) oporíamos de bom grado Judith Teixeira (1880-1959). Uns mataram-se, por razões lá deles, outros permaneceram vivos, outros embebedaram-se, outros exilaram-se, outros aburguesaram-se, outros enlouqueceram, outros levaram as vidas que levaram e nada temos que ver com isso. Importam as obras e saber se entre elas algo de comum emerge. É neste sentido que devemos desmontar, desde logo, o lugar-comum pronunciado por Valter Hugo Mãe no prefácio: «gosto dos escritores suicidas. Gosto do modo como tiveram a coragem para tudo» (p. 10). Estas declarações de gosto, tantas vezes ouvidas, caem no erro de tomar a floresta pela árvore. Há escritores suicidas de várias formas, tamanhos e géneros, sendo que poucos têm que ver uns com os outros. Quando dizemos gosto de escritores suicidas devemos ter em atenção que tanto Emilio Salgari (1862-1911) como Yukio Mishima (1925-1970) cometeram haraquiri (seppuku), não sendo fácil encontrar entre as obras de ambos os mínimos pontos comuns como fácil será encontrar o que neles há de humano e que os liga a todos os outros seres que escrevem. «Ter coragem para tudo» denota já uma leitura abusiva sobre as razões da (não)vida. Olhemos para os autores incluídos nesta antologia. Camilo Castelo Branco não teve coragem para viver cego, matou-se com 65 anos (boa idade para a época) e deixou escrito: «Não é costume nosso matarmo-nos quando o aborrecimento da vida nos enjoa. Em país algum seria maior a estatística dos suicídios do que em Portugal, se o tédio nos vencesse» (p.32). Portugal, um povo suicida? Em sentido literal? Que dizer dos austríacos (ver aqui)? Também Florbela estava doente quando resolveu antecipar a morte, e Mário de Sá-Carneiro confessou em três despedidas as razões “mesquinhas” da sua decisão: «Podia ser feliz mais tempo, tudo me ocorre, psicologicamente, às maravilhas: mas não tenho dinheiro» (p. 98). Já Antero, em carta a Oliveira Martins, foi sucinto: «A doença, dum modo ou de outro, é o meu estado normal» (p. 62). Doença e falta de dinheiro não fundamentam o “lado dramático” de um povo, que ainda que tenha feito do fado (e há tantos e tão diversos e nem todos são tristes) a sua canção nacional também tem o vira e o corridinho e o fandango. A leitura exagerada de Unamuno, que López infelizmente não desmonta, vem mais uma vez exibir as perspectivas hiperbólicas de «um povo triste», de «um povo de suicidas», de um povo desesperado, desgraçado, decadente, cansado, pessimista, melancólico, desiludido, deprimido, «essencialmente sentimental», padecendo de um «tédio moral» fatalista, sobre o qual pesa, como diria Laranjeira, «a herança trágica, secular, duma ignorância podre e duma corrupção criminosa». Tudo isto terá o seu quê de verdade, mas torna-se estupidamente parcial quando ouvimos cantar o galo de Barcelos ou aprendemos a conviver com o priapismo das Caldas. O que há de mais patético nestas leituras é precisamente o chavão da «dimensão trágica do povo português» que o antologiador sublinha, reduzindo à tristeza, ao pessimismo, ao desespero, à melancolia toda uma cultura que não se esgota em meia dúzia de autores. Eis que nos encontramos na ratoeira do sensacionalismo filosófico. Da mesma forma, parecem-nos erradas as generalizações exercidas sobre as putativas almas espanhola (quixotesca) e portuguesa (saudosista). São perspectivas redutoras que não só não encerram a realidade como lhe usurpam a complexidade paradoxal que está na génese de todas as culturas. O que se pretende, pois, com uma antologia destas? Reafirmar chavões sobre os portugueses? Não me parece ser possível estabelecer padrões a partir de tão frágeis alicerces. No estudo que encerra a antologia, Pablo Javier Pérez López afirma que: «A ausência, a morte vivida e a vida não vivível culminam no existir português» (p. 146). Tal asseveração carece de fundamento que cinco autores e um heterónimo não oferecem, sendo certo que a mesma valeria igualmente, fosse nossa intenção abordá-la pelos mesmos pressupostos, para o existir francês, anglo-saxónico, russo ou argentino… Que valor têm estas afirmações quando confrontadas com as vidas de Camões ou de Bocage? Pode alguém "viver mais" do que viveram esses dois portugueses?

sábado, 1 de novembro de 2014

PROFISSÃO POETA

...empregou-se no comércio, tendo sido propagandista de produtos farmacêuticos, profissão curiosamente comum a alguns poetas.
Jorge de Sena, sobre Luís Veiga Leitão.