Estou apaixonado pelo António Zambujo. Dito assim, pode
parecer declaração atravessada. Não é. Apaixonei-me pela voz do António
Zambujo, o tom sossegado que me conforta e, confesso, irrita. Porque eu queria
ter aquele sossego, aquela voz de Beja tão planície de trigo. Aquela planície afagada
pelo vento como ao cabo dos dias aziagos nos afaga esta voz, este modo de
cantar. Zambujo canta como se estivesse a assobiar, resgata o fado da dor tortuosa
onde o meteram e eleva-o à condição superior de estar bem com o mundo mesmo
quando o mundo nos provoca coisas assim dolorosas tais a saudade, a distância,
a ausência. Canta bem, escolhe lindamente o reportório, permitindo que o
popular baile com o erudito sem que nenhum pise os pés ao outro, e tem um modo
de tocar guitarra (ou viola, como preferirem) que embala à primeira nota e nos
mete a dançar à segunda. Este embalo não adormece, leva o corpo a gingar com
paz. É isso, paz. Há uma neblina de paz sobre as canções de António Zambujo, nostalgia
desafectada. Por Meu Cante (2004) tem dez anos! Como é possível só ter dado por
ele agora? Penitencio-me aos pés da Senhora da Nazaré e digo: As minhas redes
lancei com confiança / Colhi só desilusões num mar ruim / Perdi o leme da
esperança / Eu não sei remar assim / Senhora da Nazaré, rogai por mim. Deito-me a ouvir esta obra-prima, lanço novamente as redes ao mar.
sábado, 13 de dezembro de 2014
DOIS LIVROS DE NUNO MOURA
A desfortuna crítica a que tem sido sujeita a poesia de
Nuno Moura (n. 1970) concorda com a suspeição de uma cobardia latente nos recenseadores nobiliárquicos. Seria possível fundamentar uma censura da
linguagem praticada pelo autor de Nova Asmática Portuguesa (Mariposa Azual,
1998; 2ª edição, 2013) ou simplesmente cair na ladainha laudatória e afectiva do
costume, mas ignorá-la denota um incómodo que a singularidade de uma voz desde
sempre diferente das restantes pode provocar mas não justifica. Não justifica,
sobretudo, tão confrangedor silêncio. Dois títulos recentes voltam a
confrontar-nos com esta situação.
Um primeiro conjunto de Letras Para Dance Music (Douda Correria, Maio de 2014) surgiu no n.º 12 da revista Bíblia (2001), quando a Sodilivros ainda existia e os € eram $. De há 13 anos a esta parte, as Letras Para Dance Music cresceram em número, mudaram de forma, largaram pele, transformaram-se como tudo se transforma. São um corpo vivo linguístico cuja compreensão pode alicerçar-se nas experiências fonéticas de Hugo Ball (n. 1886 – m. 1927) quando o Dadaísmo dava os primeiros passos. Poesia fonética, portanto, à qual o autor tem oferecido corpo e voz em diversas circunstâncias performativas. No entanto, a dimensão semântica não está ausente destes pequenos apontamentos onde os aspectos sonoros parecem ser hegemónicos. Não está ausente porque, ainda assim, é possível vislumbrar nos interstícios do som certas imagens cujo sentido remete para uma interrogação sobre a própria resistência do poético: «Vai ao inglês puto / a legibilidade / do poema / irmão / a musika / poery / mexe o t cabrão». Estas imagens de carácter lúdico surgem num contexto em que o hedonismo alcoólico é uma evidência, ao mesmo tempo que o romantismo sucumbe perante a potência de uma vida composta de naufrágios nocturnos e existenciais: «Uma tatuagem / de frida khalo / no baixo ventre / aos treze anos / no baixo ventre / aos vinte e um / no baixo ventre / aos trinta e quatro / e há uma altura / em que todos / nos separamos / de frida khalo». Sirvo-me desta frida como ponte para Carimbos & Tatuagens, Lda. (Debout Sur L’Oeuf, Novembro de 2014). Antes de mais, pode ser uma agradável coincidência que a tatuagem tenha sido desenhada no lugar onde tudo começa: o baixo-ventre. E pode ser também coincidência que tenha sido Frida Khalo a ser desenhada, vítima de um acidente que a atingiu precisamente nessa zona do corpo onde tudo começa e, ao começar, tudo também começa a terminar. Coincidência ou não, parece haver aqui um elo semântico entre a vida e a morte, Eros e Thanatos, que, aliás, a própria sonoridade do nome da artista mexicana sugere. Mas não é apenas o elo entre a vida e a morte, é também entre tudo o que se intromete nesse espaço de tempo que une as duas margens: acidentes, doença, embriaguez, paixões, loucura. Que outra leitura fazer dos carimbos e das tatuagens na poesia de Nuno Moura? O que neles se acrescenta é a sigla cuja definição encontramos no Instituto dos Registos e Notariado. Repare-se como na parte Carimbos a família está em evidência através de evocações sub-reptícias das figuras do pai, tio, avó ou de conceitos genealógicos e dinásticos (ainda que minados pela irrisão e pelo jogo fonético). Nestes carimbos e, por consequência, nas tatuagens, a questão identitária confunde-se com a experiência do caos. O indivíduo é não apenas um apelido, não apenas uma herança, mas a sua própria experiência acidentada, o indivíduo é uma língua revirada do avesso que pode parecer equilibrada quando agenda tarefas — «Ligar ao Jorge Pavão / Seguir o Cavalo Alucinado / Arrumar as claves / Algemado escrever um policial» (p. 12) e ainda «Reeditar o Kim Quebranoz / Escrever o Rei do Drunfundo / para o Manuel a. / Embarcar a ribeira das naus / No paquete / Ler os textos do Ego e da Boa Crítica» (p. 16) — ou quando se debruça sobre o quotidiano e “dá conselhos” — «Vai, corre, és livre» (p. 23) —, mas no final o que fica d’«A vida além é isto / ou ninguém bate palmas / ou alguém bate palmas / ou é uma salva / ou é como o romeno exilado diz / é igual vertigem, manancial ou suicídio» (p. 37). Dito isto, quero aqui confessar algo que julgo nunca ter confessado. Apesar da irrisão, do experimentalismo fonético, dos disfarces, sempre achei na poesia de Nuno Moura uma das expressões mais autênticas da nossa miséria humana. Ele fere e faz doer no imo, porque nos indaga sobre o essencial: a forma como cada um vive ou não livremente a sua vida. A questão fundamental talvez seja mesmo essa, a da liberdade. Questão que em poesia se coloca ao nível do tratamento da língua. Moura, o Nuno, optou por tratá-la livremente, sem constrangimentos gramaticais ou sintácticos. Trata a sua língua como trata (d)a sua vida. É de uma raridade apreciável que, regressando ao início do texto, reforça essa ideia tantas vezes discutida da cobardia endémica dos que pensam a poesia e sobre ela se dão ao trabalho de escrever.
Um primeiro conjunto de Letras Para Dance Music (Douda Correria, Maio de 2014) surgiu no n.º 12 da revista Bíblia (2001), quando a Sodilivros ainda existia e os € eram $. De há 13 anos a esta parte, as Letras Para Dance Music cresceram em número, mudaram de forma, largaram pele, transformaram-se como tudo se transforma. São um corpo vivo linguístico cuja compreensão pode alicerçar-se nas experiências fonéticas de Hugo Ball (n. 1886 – m. 1927) quando o Dadaísmo dava os primeiros passos. Poesia fonética, portanto, à qual o autor tem oferecido corpo e voz em diversas circunstâncias performativas. No entanto, a dimensão semântica não está ausente destes pequenos apontamentos onde os aspectos sonoros parecem ser hegemónicos. Não está ausente porque, ainda assim, é possível vislumbrar nos interstícios do som certas imagens cujo sentido remete para uma interrogação sobre a própria resistência do poético: «Vai ao inglês puto / a legibilidade / do poema / irmão / a musika / poery / mexe o t cabrão». Estas imagens de carácter lúdico surgem num contexto em que o hedonismo alcoólico é uma evidência, ao mesmo tempo que o romantismo sucumbe perante a potência de uma vida composta de naufrágios nocturnos e existenciais: «Uma tatuagem / de frida khalo / no baixo ventre / aos treze anos / no baixo ventre / aos vinte e um / no baixo ventre / aos trinta e quatro / e há uma altura / em que todos / nos separamos / de frida khalo». Sirvo-me desta frida como ponte para Carimbos & Tatuagens, Lda. (Debout Sur L’Oeuf, Novembro de 2014). Antes de mais, pode ser uma agradável coincidência que a tatuagem tenha sido desenhada no lugar onde tudo começa: o baixo-ventre. E pode ser também coincidência que tenha sido Frida Khalo a ser desenhada, vítima de um acidente que a atingiu precisamente nessa zona do corpo onde tudo começa e, ao começar, tudo também começa a terminar. Coincidência ou não, parece haver aqui um elo semântico entre a vida e a morte, Eros e Thanatos, que, aliás, a própria sonoridade do nome da artista mexicana sugere. Mas não é apenas o elo entre a vida e a morte, é também entre tudo o que se intromete nesse espaço de tempo que une as duas margens: acidentes, doença, embriaguez, paixões, loucura. Que outra leitura fazer dos carimbos e das tatuagens na poesia de Nuno Moura? O que neles se acrescenta é a sigla cuja definição encontramos no Instituto dos Registos e Notariado. Repare-se como na parte Carimbos a família está em evidência através de evocações sub-reptícias das figuras do pai, tio, avó ou de conceitos genealógicos e dinásticos (ainda que minados pela irrisão e pelo jogo fonético). Nestes carimbos e, por consequência, nas tatuagens, a questão identitária confunde-se com a experiência do caos. O indivíduo é não apenas um apelido, não apenas uma herança, mas a sua própria experiência acidentada, o indivíduo é uma língua revirada do avesso que pode parecer equilibrada quando agenda tarefas — «Ligar ao Jorge Pavão / Seguir o Cavalo Alucinado / Arrumar as claves / Algemado escrever um policial» (p. 12) e ainda «Reeditar o Kim Quebranoz / Escrever o Rei do Drunfundo / para o Manuel a. / Embarcar a ribeira das naus / No paquete / Ler os textos do Ego e da Boa Crítica» (p. 16) — ou quando se debruça sobre o quotidiano e “dá conselhos” — «Vai, corre, és livre» (p. 23) —, mas no final o que fica d’«A vida além é isto / ou ninguém bate palmas / ou alguém bate palmas / ou é uma salva / ou é como o romeno exilado diz / é igual vertigem, manancial ou suicídio» (p. 37). Dito isto, quero aqui confessar algo que julgo nunca ter confessado. Apesar da irrisão, do experimentalismo fonético, dos disfarces, sempre achei na poesia de Nuno Moura uma das expressões mais autênticas da nossa miséria humana. Ele fere e faz doer no imo, porque nos indaga sobre o essencial: a forma como cada um vive ou não livremente a sua vida. A questão fundamental talvez seja mesmo essa, a da liberdade. Questão que em poesia se coloca ao nível do tratamento da língua. Moura, o Nuno, optou por tratá-la livremente, sem constrangimentos gramaticais ou sintácticos. Trata a sua língua como trata (d)a sua vida. É de uma raridade apreciável que, regressando ao início do texto, reforça essa ideia tantas vezes discutida da cobardia endémica dos que pensam a poesia e sobre ela se dão ao trabalho de escrever.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
JÁ TINHA REPARADO
...no que temos aqui. Aceita-se que os diários de Kafka sejam ficção, porque toda a vida de Kafka é ficção. Aceita-se que a denominada autobiografia de Thomas Bernhard, um dos melhores livros (que são vários num só) publicados entre nós durante 2014, apareça entre a ficção. Mais explicações aqui. Mas que a poesia apareça ali incluída é, no mínimo, uma opção palerma. Enfim, em certos casos será apenas uma espécie de "com a verdade m'enganas". Já agora, quando é que os nossos preguiçosos jornalistas culturais se deixam destas estafadas listas e escolhas de melhores que os benza Deus do ano?
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
maldição contra quem tem vergonha dos filhos
um filho, a meias entre cabra e galo apaixonados, entrou pelo mar adentro. diz quem viu que batia as patas na água com força, mas tão pouco se embrenhou e já só a crista se via. em terra, por maldade, pôs-se uma galinha a cacarejar de aviso. quando os pais do jovem acorreram ao local, não se via senão uma ondulação estranha que talvez indicasse a barriga cheia do mar. a cabra prostrou-se na areia e emudeceu. o galo fez o mesmo passados uns minutos. depois, o filho voltou sem custo e surpreso, mas os pais nunca recuperaram da vergonha.
valter hugo mãe (n. 1971), in Livro de Maldições ( 2006). Afirmado e popularizado como
romancista, valter hugo mãe foi durante muitos anos uma das figuras mais
acutilantes e controversas da poesia portuguesa. O seu trabalho enquanto editor,
primeiro nas Quasi edições, depois, e mais efemeramente, na Objecto Cardíaco, colheram
ódios e paixões. Em paralelo, uma poesia pulsátil, arraigada à metáfora e repleta
de imagens heterodoxas, numa época em que o discurso poético se aproximou da
narratividade mais ou menos confessional e descritiva, fizeram da
obra coligida em Contabilidade (2010) um exemplo de obstinação estilística. Contra
as muralhas do apontamento irónico e humorístico, da quotidianidade melancólica
e entediada, títulos como a cobrição das filhas (2001) ou pornografia erudita
(2007) propuseram uma linguagem desbragada de sentidos e emoções liquefeitos no
poder sugestivo das imagens e da musicalidade verbal.
domingo, 7 de dezembro de 2014
ENIGMA TAVARES: TESTAR A TESE
Dois livros recentes de Gonçalo M. Tavares (n. 1970)
ajudam-nos a repensar um edifício literário que vem sendo construído desde
Livro da Dança (2001). No final de cada um deles, uma espécie de planta
distribui por várias secções os famigerados cadernos do autor. Os Velhos Também
Querem Viver (Caminho, Outubro de 2014) aparece ao lado de Histórias Falsas na
secção Estudos Clássicos. Esta obsessão com a organização de uma obra mais
caótica do que aparenta é reveladora de uma intenção arquitectónica sobre o
texto, o qual deixa de ser organizado segundo padrões clássicos (romance,
conto, teatro, poesia) para assumir novas designações (O Reino, O Bairro,
Enciclopédia, Investigações…), mais pessoais e enigmáticas, que, na
realidade, aproximam os géneros através de uma teia onde tudo se
interliga. Toda a obra de Gonçalo M. Tavares, na sua diversidade, acaba por estar interligada, não sendo
possível, ou sendo desaconselhável, lê-la de outra forma, interligada por uma
espécie de linha poético-filosófica transversal a todos os géneros,
aproximem-se estes mais da ficção ou da poesia, desta ou da filosofia.
Os Velhos
Também Querem Viver transporta a tragédia clássica para tempo e espaço
modernos, transporte no tempo e deslocação geográfica da tragédia Alceste, de Eurípedes,
com variações formais onde se acrescenta ao texto original os elementos de uma
actualidade meramente paisagística. Podemos dizê-lo assim porque, no essencial, o
conflito humano mantém-se, à volta do homem a paisagem transforma-se mas o que
há nele de verdadeiramente central permanece com uma perenidade assustadora. A
tragédia, dedicada a Hélia Correia, autora de um extraordinário livro de poemas,
intitulado A Terceira Miséria, onde estas questões já se colocavam sob prisma
similar, tem agora por cenário a Sarajevo da década de 1990 em pleno conflito
armado. Admeto é atingido por um sniper, mas pode ser salvo se alguém morrer
por ele. Todos se recusam a trocar a sua vida pela vida de Admeto, excepto a sua mulher. Alceste, a mulher de Admeto, morre
para ele ficar vivo, mas a consciência de Admeto não se conforma com a perda
nem com as razões de seu pai, Feres, ter recusado dar a vida pelo filho. Era um
homem velho, podia ter morrido para que os mais novos continuassem vivos. Feres
defende-se: «Se os novos gostam de viver, os velhos também. E por que razão a vida de
um velho valeria menos do que a vida de alguém que agora começa? (…) Não podes
pensar que um velho é metade de um homem; um velho como eu é pelo menos dois
homens, eu diria, pela experiência, pela sabedoria» (p. 56). O discurso é objectivo,
nada tem de paradoxal, mas coloca à prova a resistência das teses. É esta
dimensão inspectiva o que mais fascina nos textos de Gonçalo M. Tavares, textos
de uma intensidade poética que muita poesia não consegue ter. Algo semelhante se
observa no romance
Uma Menina Está Perdida No Seu Século À Procura do Pai
(Porto Editora, Novembro de 2014).
Neste romance, uma menina com trissomia 21 está perdida no centro de uma cidade
alemã no século XXI (o "seu século"). É encontrada por um homem que a vai ajudar a procurar o pai. A primeira
palavra que nos surge com estrondo é a palavra “deficiente”. A deficiência tem aqui o lugar do contrapoder. Ela opõe-se não só
à normalidade, a uma suposta normalidade, como também à lógica, à ordem, ao Organon
aristotélico que o autor de Uma Viagem à Índia testa recorrentemente e inverte e procura sabotar e experiencia. Marius e Hanna, as personagens centrais do
romance, vão cruzar-se ao longo de quase duzentas páginas com indivíduos cujas características
são objectivamente escolhidas e pensadas para uma inversão valorativa que confronta
o leitor com a loucura (não exclusivamente mental, mas também a partir de
anomalias físicas) das pessoas aparentemente normais e a naturalidade de uma
menina com trissomia 21 que, limitada na sua autonomia e nas suas capacidades
comunicacionais, garante uma certa espontaneidade aos desequilíbrios do
pensamento: «Da janela da carruagem, vimos o fumo preto que saía de uma fábrica. Hanna disse que era bonito. E de um certo ponto de vista era: se olhássemos para a fábrica como simples produtora de fumo. Era provavelmente assim que Hanna a via» (p. 175). Reminiscência das fábricas de morte nazis, esta passagem sublinha de um modo acutilante a relação entre a realidade e o ponto de vista. Sobrevive uma sem o outro? Hanna, a realidade, sobreviveria sem Marius, o ponto de vista? Hanna tem consigo um conjunto de fichas que estabelecem um programa
de aprendizagem para pessoas com deficiência mental. Fascinante, a forma como
Marius se questiona sobre as dificuldades de uma pessoa normal para responder positivamente a algumas daquelas tarefas. A exigência dos
desafios testa a normalidade, daí que o romance se desenvolva na base de
conflitos entre o certo e o incerto, a verdade e a mentira, a lógica
e o caos, a exactidão e a subjectividade, a matemática e o acidente. Mas estas
linhas, que reflectem um pouco do que se vem passando no conjunto da obra de
Gonçalo M. Tavares, não seriam suficientemente cativantes se não fosse
inesgotável a capacidade do autor para imaginar situações onde as mesmas são (re)desenhadas
com espantosa coerência e minuciosidade. A título de exemplo, digamos que
quando uma personagem procura um Hotel num livro de Gonçalo M. Tavares ela não
vai encontrar apenas um sítio onde dormir. Ela vai encontrar um Hotel onde cada
quarto tem o nome de um campo de concentração nazi, um Hotel cuja arquitectura
reproduz a distribuição desses mesmos campos no espaço europeu. Estes elementos
parabólicos, acompanhados de personagens aporéticas e de uma escrita onde a
própria pessoa do narrador se confunde, sem, no entanto, confundir minimamente
o leitor, fazem de cada um destes cadernos estádios de desenvolvimento de uma
poética geral, uma poética com um princípio fundador: testar a tese.
sábado, 6 de dezembro de 2014
A PIOR POBREZA
Causa arrepios o ambiente de ódio e raiva criado em
Portugal, os inquisidores in spe exigindo que sem discussão nem prova se
acendam as fogueiras, alguns meios de informação descendo a um nível de baixeza
que se conhece em ditaduras, mas inaceitável em sociedade democrática e
civilizada.
É símbolo da pior pobreza: a do carácter cívico, do
desdém pela Justiça, do direito que cada cidadão tem de ser considerado
inocente até prova em contrário. Desola notar que uma possibilidade de
regeneração e mudança seja manchada pela atitude soez dos que com o seu ódio
procuram vingança de sabe Deus que frustrações.
Gente dessa nada augura de bom, antes prova como é
delicado o equilíbrio da democracia numa sociedade que de muito longe traz
hábitos de subserviência, insegurança e medo.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
PINHAL DE LEIRIA
Na pequena lagoa da Ervedeira vi quilómetros de vento
rodeados de rosmaninho, os aromas da terra dançavam no ar e meus olhos
mergulhavam num espigueiro longínquo, as aves cantavam e eu não sabia seus
nomes, nenhum barco atracado, nenhum homem, nenhuma mulher chamavam por Deus,
passadiços usados serviam formigas, seu trabalho seria contar uma a uma as folhas
do choupo enquanto eu lia versos de Whitman ao pântano quieto.
Milhares de árvores sangrando um sal pegajoso, pinheiros
escamosos como peixes ancestrais, uma luz muito fina transpondo os rebentos, e
vi toda a infância rodeada de alecrim enquanto aos pulmões chegavam tenras e
doces fragrâncias, meus pais declinados na espera da morte, a família em
delírio com casas no campo, palavras bordejando demorados segundos e uma
eternidade em cada milímetro de vento.
Eu vi, porque não procurei, a neve salgada dos pinheiros, tentado
que fui pelas feridas sanguentas, uma árvore a verter dores e sementes de ócio,
vi brotar do escuro o pinhão d’alegria, espanto e alento para as horas mortas,
andei a esmo entre incêndios dispersos e pressenti nas curvas a inquietação dos
homens que caminham sós no meio da floresta, vi minha mãe sentada a beber do
cântaro e meu pai assobiando como as aves desconhecidas.
Se me perguntassem que fazes aqui, a esta hora, neste dia,
debaixo deste frio, diria apenas que escuto o silêncio e que a voz do silêncio
é esta resina, estas aves desconhecidas, estes envios no tapete mágico dos
cheiros, a voz do silêncio é esta solidão que reconforta e purifica, longe das
cidades sem cheiro, distante do estrondo das avenidas, quieto como uma árvore
que balança à passagem do vento e todos os sentidos concentrados no olfacto, no
tacto, na rendição.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
A PALAVRA DO ANO
Leio aqui que foi colocada a votação a palavra do ano. Infelizmente, a palavra inconseguimento não consta na lista das palavras seleccionadas. Mais estranha é a ausência da palavra panteão. Quem pensa nestas coisas ou anda distraído ou tem pouca memória.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
LUZ E MESINHA DE CABECEIRA
Só pedia um cobertor e que deixassem a luz acesa.
Mas tudo se recusa em nome do poder
Do caminho contra o caminho que sonhamos
Percorrer. Mais uma hora de sono
Correspondia a uma carícia, pois a manhã
Logo ficava ocupada com a ourivesaria do emprego
Do que salva tantos do tédio ou do suicídio.
Estava na hora e o trânsito podia em fila.
Chegaram depressa os dias sem sono
Nem emprego nem outra desculpa aceitável
Mas o poder, a liturgia do dever permaneceram.
Para que serve o remédio, o comprimido?
Regressa-se sempre ao que se queria esconder
Com renovada violência. Regressa-se à recusa
Anterior. Sempre com a quimera de um dia
Ser diferente, de a ternura vir com
Data de validade e pronta a servir.
Carlos [Luís] Bessa (n. 1967), in Lançam-se os músculos em brutal oficina - o conhecimento das coisas (2000). «(...) as mais importantes características processuais do autor: uma escrita elíptica, um vigor surpreendente na criação de imagens e no poder sugestivo dos subtítulos e uma extrema atenção a um «real» que escorre pelos dias e pelas páginas com um indisfarçável sabor de recusa» (Manuel de Freitas, Expresso). «Ao contrário de outros poetas, Bessa não afasta totalmente a domesticidade. De facto, nesta poesia o vazio não é sinónimo de niilismo. O vazio é uma constatação lúcida mas não exige uma filosofia (ou uma pose) de existencialismo negro. Bessa nunca deixa de nomear certos aspectos da domesticidade (o casal, os filhos), como uma circunstância que atenua a extrema penúria existencial» (Pedro Mexia, DN). «A vida é a exclusiva matéria da poesia de Carlos Bessa. Não a vida política e socialmente representável, nem a vida que se torna escrita nas biografias. Trata-se, antes, da vida anónima e impessoal, no seu fluir fragmentário e centrífugo, completamente absorvida por mecanismos alienantes. A vida, em suma, que habita a banalidade do quotidiano e expropria o indivíduo de biografia e de experiência» (António Guerreiro, Expresso). «Encontramos o humor, algo disfórico, a ironia, mas mais ambígua, numa intenção de transparência, a pisar o risco às vezes do literal, da banalidade, da pura referencialidade, indecidível. (...) Estilisticamente, o autor mantém, porém em menor grau, tendência para transformar, ou interromper, o enunciado em curso através de construções sintácticas que por vezes surpreendem, são no seu fluxo inesperadas, uma ruptura qualquer, ou uma frase que se deixa à solta, uma ou outra vez a elipse ainda» (Maria da Conceição Caleiro, Público).
SERRA DA ESTRELA
estas curvas alinham escarpas nos meus olhos
pálpebras contornadas pelo branco da neve
pavimentos para o curso das pedras
com fios de água a escorrer pelo granito
e acidentes deslizando no vagar dos carros
enlevados pelo frio de um sossego purificador
sábado, 29 de novembro de 2014
UM BÁRBARO EM CASA
Andou por aí aceso debate subordinado ao tema “vale a
pena ler livros novos?”. Vale. Quem tiver dúvidas, pode começar por aqui: Um
Bárbaro em Casa (Língua Morta, Agosto de 2014), de Frederico Pedreira (n.
1983). Não é livro perfeito (qual é?), não tem a consistência dos clássicos
(nem a tal se propõe, se é que propõe alguma coisa), falta-lhe profundidade
reflexiva (ainda bem). Mas é livro que diverte e inquieta em doses quase
excessivas, no limite da overdose, ao mesmo tempo que tenta equilibrar-se no
traço descontínuo da experiência. Aparentemente, trata-se de um livro de
contos. Sete, para ser preciso. Mas há entre os textos coligidos um elo que nos
permite olhar para Um Bárbaro em Casa como algo mais do que uma colectânea de
contos. Esse elo é, desde logo, a voz persistente do narrador, um sujeito que
por vezes nos parece desequilibrado, noutras circunstâncias autêntico como só
os cínicos puros logram ser, em certas ocasiões tão intragável como inspirador.
O olhar que lança sobre si próprio não é menos crítico ou implacável do que o
olhar que lança sobre os outros e o mundo que o rodeia, bebe muito, usa e abusa
de uma linguagem rude, deixa-nos constantemente na dúvida sobre a mise-en-scène
adoptada para a representação das suas histórias. Têm todas elas nome ou
diminutivo de mulher (Tota, Hanna, Jasmine, Ivanna, Martina, Mel, Filipa),
ocorrem em cidades europeias que parecem corresponder a estádios do desenvolvimento do narrador (Reykjavík, Porto, Lisboa, Londres), transitam da
tenda para a rua, desta para os bares, daqui para os ocasos da noite,
atravessam ocupações medíocres, aventuram-se nas esquinas da embriaguez com
muito sexo frustrado e relações fracassadas. Este bárbaro é, como costuma
dizer-se, um anti-herói, sendo possível vislumbrar nas suas vivências vertiginosas algo de geracional que é a encenação do maldito. Descrevem-se
situações repletas de pormenores abjectos, acções e gestos caricatos, usa-se a
língua como um instrumento cortante para provocar sensações desconfortáveis.
Tudo isto, como é óbvio, pode ser montado como um lego, adquirindo especial
interesse quando no texto se intrometem as dúvidas do narrador sobre o seu
próprio discurso: «Saí do bar a correr e depois de alguns quilómetros fui
sentar-me numas rochas que ficavam perto da crispação nebulosa do mar.
Nebulosa? Ah, poeta romântico, escritor maldito… Não permitas que te fintem,
não deixes escapar o teu livro negro pela cueca. Um dia destes um varredor to
apanha e bota no lixo» (p. 23) Um outro exemplo: «O seu avô morreu. Eu
arrastava estas palavras pelo corredor, sem encontrar uma saída plausível (não
é arroto metafísico), arrastava-as com a indiferença de quem se habitua aos
poucos a um porta-chaves tenebroso que lhe foi oferecido» (p. 102) Como
interpretar esta denúncia recorrente das artimanhas do texto senão pressupondo
uma segurança, uma consciência de si, que permite ao autor detectar e evitar o
sentimentalismo sensacionalista e o “arroto metafísico”? São sinais de uma
firmeza na prosa que é raro encontrar, mais ainda num autor tão jovem. Sinais que
não devem, porém, distrair-nos de algo substancial que extravasa a
aparência formal da narrativa. Estando todos os contos marcados por relações
ambivalentes entre o narrador e as mulheres que se lhe atravessam pelo caminho,
ou aquelas contra as quais ele embate como que por acidente e desastrosa condução
(autores como Fante e Bukowski ecoam a espaços), o autor não se furta à emoção,
sendo por vezes dilacerante o modo como essa emoção irrompe do caos sensitivo.
Nem tudo é pele nestes contos, embora tudo se exerça à flor da pele. A morte do
avô no conto Martina é um desses momentos, capaz de negar «a tristeza de
bate-chapas da escrita» (p. 95) deslocando-nos da notícia melancólica para o frenesim
da vida nocturna na 24 de Julho. Outro momento altamente emotivo é-nos oferecido
no último conto, estádio derradeiro de uma espécie de queda na realidade,
quando o narrador se vê na contingência de tomar nos braços a “educação” de uma
criança órfã de mãe toxicodependente: «não deixes que o amor te escangalhe o
voo, as mulheres jogam em planos ínfimos para nos foderem a vida, cheira-lhes
só o perfume e afasta-te, a tua mãe morreu e eu estou aqui contigo» (p. 153).
Palavras nada convencionais, de uma dureza só possível em quem exibe
na testa as cicatrizes de várias cabeçadas dadas na parede. Digo na parede para
não dizer muro de lamentações, pois nenhum lamento ressoa nestes contos. Antes
pelo contrário, são textos afirmativos de situações porventura lamentáveis mas
que não inspiram lamentos. Momentos de aprendizagem no traço descontínuo da
experiência.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
MEU BOM PAÍS
Alentejo, meu amor, só me dás alegrias. Agradeço-te do fundo do coração. Agora e sempre, todos os dias, caminhemos mão na mão.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
#51
Um dos momentos interessantes do rock português na década
de 1990 ocorreu a Oeste. Os Tina and The Top Ten, de João Paulo Feliciano,
foram a banda porventura mais emblemática desse “movimento” fundado algures
entre Lisboa e Caldas da Rainha. Os Red Beans, os Orange, mais tarde
concentrados no projecto individual Gomo, e os Loopooloo foram outros intervenientes
a ter em conta. Já na ressaca dessas digressões alternativas, que, na
realidade, deviam parte da sua criatividade a uma leitura pessoal
e consistente do que chegava cá através de bandas internacionalmente conhecidas
tais como Sonic Youth ou Stereolab, os UBU editaram este Mostly Words Sometimes
Numbers (gravado entre Junho de 2000 e Dezembro de 2001). Podia ser um álbum de
rock trivial, não fosse o facto de nos oferecer uma síntese peculiar desses
tempos em que ao espírito “do it yourself” se colava uma vontade de
experimentar sonoridades com guitarras distorcidas ao serviço de uma (sub)urbanidade
empenhada na diferença. Instrumentais (ou quase) como W.T.C., Lost in a Garage
e Mixed Rain encostam-se às paredes dos edifícios devolutos do post-rock, deixando-nos
na esperança de que a qualquer momento tudo desmorone. Mas não. Quando a
voz adquire forma, convence-nos pela afeição e volta a fazer-nos sentir impúberes,
voluntariosos, obstinados. A faixa escondida é genial, porventura das coisas
mais bonitas que alguma vez se gravaram por estas bandas.
O QUE É FEITO?
Anáfora para Fátima Campos Ferreira.
O que é feito do polícia branco que matou um jovem preto?
O que é feito da Ucrânia?
O que é feito das Pussy Riot?
O que é feito da Palestina?
O que é feito do Estado Islâmico?
O que é feito da legionela?
O que é feito da Paula Teixeira da Cruz e do Citius?
O que é feito do ébola?
O que é feito do Nuno Crato e dos erros na colocação de
professores?
O que é feito da Serra Leoa?
O que é feito dos Vistos Gold?
O que é feito dos submarinos?
O que é feito do Papa?
O que é feito das vítimas de violência doméstica?
O que é feito do desemprego?
O que é feito do Orçamento de Estado para 2015?
O que é feito das pensões vitalícias?
O que é feito do padre de Canelas e dos acólitos que o
agridem?
O que é feito dos cartéis de droga no México?
O que é feito do Carlos do Carmo?
O que é feito dos reclusos em fuga?
O que é feito das viagens a Cuba para curar cataratas?
O que é feito do BES?
O que é feito do salário mínimo?
O que é feito de Manuel Baltazar e dos acólitos que o
aplaudiram?
O que é feito de Dias Loureiro e Miguel Relvas?
O que é feito da dívida na Madeira?
O que é feito de Alberto João Jardim?
O que é feito da imigração ilegal?
O que é feito da Europa?
O que é feito da independência da Catalunha?
O que é feito da Guiné Equatorial?
O que é feito da justiça em Timor?
O que é feito da verdade?
O que é feito da mentira?
O que é feito de mim e de ti e de nós?
O que é feito das energias renováveis?
O que é feito do fim do mundo?
O que é feito da política ambiental e da sustentabilidade?
O que é feito da Maddie?
O que é feito de Fidel?
O que é feito de Abu Ghraib?
O que é feito de Guantánamo?
O que é feito de Snowden e de Assange e da WikiLeaks?
O que é feito da National Security Agency?
O que é feito da palavra passe?
O que é feito do meu amigo Omar?
O que é feito do tráfico de órgãos?
O que é feito do sono?
O que é feito do cansaço?
Não sei. Devia dizer: acordem caralho! Mas só me apetece
dormir.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
ÓDIOVISUAL
uma vez fui à merda
voluntariamente
o que não é bem o mesmo
que me terem lá mandado
fui à boleia por uma autoestrada
que me liga o mero músculo à alma
para que nada me subisse à cabeça
antes de passar pela sensibilidade
só peguei no cosmos na pasta de dentes
num frasco com o cordão umbilical
para ter sempre à mão as raízes
pousei o coração como uma mochila aberta
nunca um dedo espetado foi tão revolucionário
acabei por ir de carroça e burro
mas atravessei meio mundo
pelo caminho fui violado por um jovem polícia
num desses países onde se esquecem de nós para sempre
fui lava pratos num desses países onde já não há gente
para comer seja o que for ou morrer à fome
fui sopeira iluminada numa casa de passe
de um desses países onde ninguém fode
fui jardineiro de um cemitério importante
onde só vai parar quem já nem morre
mas também me apareceu um anjo ao cair da noite
um sábio disse que o meu amor era inocente e forte
um profeta falou da minha vida como se falasse da morte
quando cheguei à merda estavam todos à minha espera
acabei por não entrar achei que não valia a pena
o que não é bem a mesma coisa que o porteiro da merda
me ter impedido de entrar ou fazer concluir à força
que eu já conhecia aquela merda de algum lado.
Joaquim Castro Caldas (n. 1956 – m. 2008), in Convém Avisar
os Ingleses (2002). Estreado no alvoroço do 25 de Abril de 1974, Joaquim Castro
Caldos publicou uma dezena de livros de poesia ao longo da vida. Nascido em Lisboa,
vagueou durante seis anos pela Europa. Veio a fixar-se no Porto, cidade onde se
tornou figura central na dinamização da cena poética com a organização das
noites de poesia do Pinguim Café. Com
uma escola que remonta às tertúlias organizadas por José Carlos Ary dos Santos,
a poesia de Castro Caldas radicaliza as dimensões lúdica e provocatória do
poema. Iconoclasta, heterodoxo, libertário, o discurso desta poesia
desenvolve-se a partir de uma visão desencantada do mundo e das suas instituições,
reagindo de um modo visceral à normatividade e a todo e qualquer engajamento
político. Encontramos nestes poemas de inclinação satírica uma postura
corrosiva que escolhe como alvos predilectos as forças de ordem nos diferentes
estádios da organização social. Entre os estilhaços das paredes partidas
podemos encontrar, porém, momentos de esperança, afecto e extrema humanidade, o
que aconteceu, de resto, num dos seus derradeiros poemas: «ainda há gente boa,
de cabeça deslumbrada, o coração em cima da mesa como uma pistola descarregada,
a contar a última aventura sem medo que lh’a levem» (in Mágoa das Pedras).
E AGORA, JOSÉ?
A bomba noticiosa do passado fim-de-semana originou três
correntes de comentário. Primeiro, a politicamente correta. Esta corrente materializa-se,
no contexto da política oficial, com a lacónica expressão «à política o que é
da política, à justiça o que é da justiça». Todos os partidos políticos sem
excepção a adoptaram, não tendo sido integralmente respeitados pelos seus
representantes. A expressão é lacónica por esquecer a interligação entre a
actividade política (legislar) e a actividade judicial (fazer aplicar a
legislação). Muitas vezes ouvimos queixas sobre leis feitas à medida de quem
as produziu, numa cadeia de interesses que favorece poderosos e apenas
é capaz de julgar indefesos. Ouvimos falar também dos “entraves à
investigação” que uma legislação dúbia coloca. Não são de agora os lamentos. No
canto IX de Os Lusíadas, Camões não omitiu o problema: «Vê que aqueles que
devem à pobreza / Amor divino, e ao povo caridade, / Amam somente mandos e
riqueza, / Simulando justiça e integridade; / Da feia tirania e de aspereza /
Fazem direito e vã severidade; / Leis em favor do Rei se estabelecem, / As em
favor do povo só perecem».
Esta desigualdade leva-nos à segunda corrente de
opinião, patenteada ontem de forma magistral no Trio de Ataque protagonizado
por José Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares e Clara Ferreira Alves.
Simplificando: nada na lei, dizem, justifica o tratamento dado ao
ex-primeiro-ministro, com detenção à saída da manga do avião, três noites nos
calabouços da PSP e consequente prisão preventiva na cadeia de Évora. Uns dizem
tratar-se de pura humilhação, outros falam de espectacularização da justiça,
ouros mencionam ainda a desproporcionalidade das medidas adoptadas em
comparação com casos similares. Há quem sugira vingança contra Sócrates, há quem
refira exibicionismo justicialista. O argumento utilizado para a prisão
preventiva é o de garantir que não haja perturbação da investigação, tendo
Pacheco Pereira sublinhado a existência desse risco tratando-se Sócrates de uma
pessoa poderosa com ligações e conhecimentos que podiam favorecê-lo. Enquanto
cidadão olho para isto com perplexidade. Parece-me que todas as pessoas têm
direito a defender-se daquilo que são acusadas até estar provada a culpa. É à
justiça que cabe provar a culpa de Sócrates, não é a Sócrates que cabe provar a
sua inocência. Perante uma acusação tão grave, deve ser-lhe concedida oportunidade
para se defender por todos os meios disponíveis (o que, aliás, é diferente de preparar uma defesa, como se viu em casos como o de Carlos Cruz). Prendê-lo
preventivamente não só me parece excessivo como, de facto, se assemelha a uma
condenação sem prova.
Há muito que Sócrates foi condenado pela opinião pública,
a qual se divide entre uma reverência incondicional e um ódio irracional à
personagem. Eu, que nunca votei no político, e sempre suspeitei haver nele uma grande
dose de trafulhice, sinto-me hoje incomodado com o tratamento. Paulo de Morais,
mosqueteiro da denúncia contra a corrupção, a quem devemos uma análise corajosa
sobre a mais grave consequência de um país que há muito negligencia o mais importante
dos seus pilares, a educação (e nesta incluo cultura), afirma um pressentimento
de que algo está a mudar. Desconfio que este pressentimento se fundamente nas
condenações de Armando Vara, Maria de Lurdes Rodrigues, José Oliveira e Costa,
Isaltino Morais, assim como no espoletar dos casos BES e Vistos Gold, com
inúmeras detenções e vários interrogatórios. Depois de tantos anos em que os actores
do poder podre prosseguiam com o teatro da impunidade, parece que finalmente
temos alguma agitação. Pelo menos nas plateias ela existe, mas isso não deve
excitar-nos a ponto de esquecermos o essencial: justiça não é vingança, toda a
gente tem direitos.
Mas estará mesmo algo a mudar? A justiça não pode sobrepor-se a direitos básicos e
fundamentais, sob pena de resvalarmos para o justicialismo que caracteriza a
terceira corrente de opinião das acima aludidas. O justicialismo chateia-me porque
me faz lembrar linchamentos públicos. Nos westerns o problema foi sobejamente
retratado. A conclusão a retirar é sempre a mesma: os linchamentos públicos
raramente fazem mais justiça do que vítimas. The Ox-Bow Incident/Consciências Mortas (1943) é um filme primoroso que convém rever. Ao escutar a satisfação
das pessoas perante os últimos acontecimentos, ao constatar o regozijo perante
condenações prévias, nada mais me vem à cabeça senão a imagem distorcida,
salivante e lunática daquele que assiste ao enforcamento em plena praça
pública. Evoluímos o suficiente para acabarmos com esses espectáculos, mas o
sentimento deplorável que lhes garantia lotação esgotada mantém-se dentro de nós. Revela o pior que há em nós. E isso é
triste, leva-nos a crer que entre o tempo de Camões e o nosso pouco mudou. Podem os poetas continuar a morrer na miséria.
XADREZ DOS PIÕES
Os investigadores suspeitam que o antigo líder socialista
terá usado Carlos Santos Silva como pião para traficar influências.
Felícia Cabrita, aqui.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
PRAIA DA VIEIRA
Julgo entender o pescador sentado na berma do rio, no
paredão, no areal da praia, aguardando pacientemente que o peixe morda o isco. Não
o faz por fome nem precisão, nem por desporto ou necessidade. Espera como eu
espero que o sol caia por detrás do horizonte, por vezes espera que ele nasça
nas costas de quem espera. Julgo entendê-lo quando o observo na sua solidão,
descansadamente sentado no pedregulho onde apaga o cigarro que inda agora
acendeu. Como ele ofereço os olhos ao vento, atento-me à tremura das águas, sondo
as luas e as sombras, fico assim horas a fio parado à beira rio e lanço a cana
a quilómetros de distância de mim próprio.
Levanto voo com as gaivotas, perco-me em arroubos de
imaginação, evoco as distâncias que me separam do tempo de todos quantos se
aventuraram para lá do chão que piso. Tivesse coragem, seria como eles. Mas eu
sou mais como o peixe enclausurado num aquário de águas tépidas, mordi o isco
da inércia. Mesmo quando me sacodem arroubos de fantasia e actuo para lá das
minhas forças é com desencanto que o faço, pois atrás de mim vou sempre eu
próprio e se me cansa o mundo mais de me cansar dele me canso. Estão atracadas
as barcas da aventura nunca experimentada, o mais que me permito é caminhar em
praias desertas e sentir no rosto a espera do homem que pesca.
Talvez não esteja a ser justo para comigo mesmo. É certo
que por vezes arrisco em falso um pé no lodo, caminho entre pântanos como
porventura cristo terá caminhado sobre as águas. Todos nós temos para contar
pelo menos uma grande aventura na vida, e se a ela resumimos o gozo de viver é
porque pelo menos num certo instante valeu a pena ter existido. Tantas são as
ocasiões em que a desgraça podia ter-se abatido sobre nós que fazer desta
espera uma desgraça seria sumamente ridículo. Esta espera é apenas mais um dia
que passa, nenhum tédio nela se avista, apenas a leveza de uma intempérie
anunciada e o cuidado posto na escolha de um abrigo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







