segunda-feira, 20 de outubro de 2014

[Se não dormimos]


para o Henrique Manuel Bento Fialho

Se não dormimos,
O melhor é abandonarmos as palavras,
As imagens sedutoras, a si próprias;
Cumprir a rotina de nos alimentarmos
Da voz, do sangue, das coisas pequenas
Que chegam trazidas por não sabermos.

Nada será apagado,
Ainda que o tempo obrigue à rectificação.
Continuaremos a correr, apesar
De as ruas nos estarem vedadas,
Cercadas pelo zelo mortal de alguns
Que sossegam de sono quem passa.

Sabemos já que agora é o tempo em que não dormimos,
Agora a falta que se sente de cada vida,
Que escapa ao que da memória se escolhe.
Na presença do tempo há um sorriso
Concedido a esse absoluto
Que nos fascina e que não conhecemos.

O território dos que se deitam para dormir
É o rigor das máquinas, é a altura
Que não acrescenta à delicadeza
Mais do que o frio portátil da vigilância;
É o mundo dos que não falam,
Dos que preferem a lisura do sigilo.

Tudo será dito sem memória nem futuro -
Sujeito à solidão das vagas,
Porque só as pessoas se amam,
Não a corrosão dos sintagmas ou das vírgulas,
Nunca o prestígio, a ilusão da cor do nome
Ou a sucessão de submissões.

É neste instante aqui que saboreamos,
Que permitimos ao corpo a fome e a sede
E as carências todas de justiça
Confronto com o que está próximo,
Movimento de ascender ao reino desconhecido
Mesmo que o não reconheçamos ou desejemos.

E embora seja impossível saber
Quantos e quais os momentos
Em que ultrapassamos a banalidade,
Nunca é sombra o gesto de apagar
O cigarro sabendo que esteve aceso.
Sabendo que antes e depois de agora,
                                                         o sono.


Rui Almeida (n. 1972), in Lábio Cortado (2009). «Estamos perante uma poética que estabelece uma subtil conjugação entre a palavra e o mundo, assumida numa apresentação do poema como produto da linguagem. Rui Miguel Leal de Almeida oferece-nos uma poesia que, como Paul Valéry escreveu, "o poeta consagra-se e consome-se a definir e a construir uma linguagem na linguagem". E ao fazê-lo com evidente qualidade reflexiva e uma sólida austeridade formal, a poesia de Leal de Almeida ganhou uma inegável e singular identidade entre mais de uma centena de concorrentes ao prémio Manuel Alegre. Diria mesmo que o poeta de Lábio Cortado se abeira da poesia como sendo ela um modo "de descoberta, de criação e de alargamento do conhecimento" (Nelson Goodman)» (Paulo Sucena, in posfácio a Lábio Cortado).

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PRIMEIRA HORA DA MANHÃ

Assim parece ter começado o meu dezasseis de Outubro. Sigam os links, primeiro pela primeira hora da manhã (aqui) e depois vejam o filme (aqui).

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

HÁ COISAS ASSIM

Encontro num weblog brasileiro o que não vejo num weblog português, uma referência ao aniversário de Agustina Bessa-Luís: aqui.

APENAS UMA NARRATIVA

Jorge de Sena referiu-se-lhe como «obra-prima do “romance surrealista”», o que, por si só, deveria valer atenção que não tem tido. Apenas Uma Narrativa – Romance foi originalmente publicado em 1942, em plena febre surrealista portuguesa. As aproximações (no tom e no imaginário) ao Protopoema da Serra d’Arga (1949) são evidentes, desde logo por uma referência que aparece à serra d’Arga no capítulo VII — aquele que começa deste modo: «Era evidentemente mentira tudo aquilo que eu contara na minha carta de amor, ou melhor: era tão verdade que ainda não tinha acontecido» (p. 57). Na edição que possuo, a terceira (1ª e única nas Quasi Edições, Março de 2007), José-Augusto França aponta no posfácio a terra, o amor e a solidão enquanto chaves de Apenas uma Narrativa. Carece o leitor de chaves para o que está fechado, e apesar do “discurso onírico”, da lógica sabotada, do absurdo cultivado, esta narrativa não é hermética. Podemos dispensar as chaves. António Pedro (1909-1966), não dispensando espantoso prefácio e espantosa dedicatória, disse que este era um romance porque sim e acrescentou: «há uma lógica do absurdo tão verdadeira, pelo menos, como a lógica racional» (p. 10). Ora, é essa lógica do absurdo que predomina ao longo dos dez curtos capítulos onde encontramos um plantador de mulheres chamado Adão, exércitos de esfomeados, uma Lulu fresquíssima toda coberta de olhos, um bar com quatrocentas colheres à roda de cada homem, um ladrão de meninas coberto de medalhas e outras coisas que tais bem mais reais e verdadeiras do que possamos supor: «Na aldeia as coisas não mudam muito. Os homens lavram e fornicam, as mulheres colhem e parem, as árvores assistem» (p. 50). Não surpreende, porém, a prolixidade imagética, sobretudo num autor que era pintor, sobretudo num surrealista; nem sequer surpreende a orgia de fusões, com os mundos vegetais e minerais transmutando-se e assumindo comportamentos humanos e os seres humanos largando pedaços pelo caminho, os corpos decompondo-se, o todo decompondo-se em partes que ganham vida e energia próprias numa balbúrdia de significados e de sentidos que transcendem medidas, aritméticas, geometrias e transpõem fronteiras, digamos, narrativas. O que assombra de um modo espantoso é a naturalidade do discurso, a clareza de cada palavra, a síntese, a capacidade de contar como quem conta um conto infantil. E a história, plena de aspectos alegóricos, simbólicos, paradigmas, adquire precisamente esse dom de trazer à escrita a cabeça de uma criança ou, se preferirem, a cabeça de um homem enquanto sonha. A dedicatória a Aquilino Ribeiro, que Pedro trata por Mestre, faz pois todo o sentido, e mais sentido faz quando se torna arte poética, manifesto criativo e de vida: «Não há arte moderna nem antiga. Os artistas é que são modernos e antigos com relação ao momento, e os antigos para o seu momento são sempre maus e sempre errados» (p. 14). Extraordinária maneira de enquadrar o que nestas páginas vislumbramos de respiração tradicional, sendo certo que ao imaginário fantasioso das fábulas e das alegorias e dos contos de fantasmas e afins António Pedro terá ido respigar muitas das suas imagens minhotas. E vejam como logo no primeiro capítulo, saltando de linha para linha, podemos detectar a ironia do artista exilado entre os do seu tempo no seu país: «Só a sombra que tinha feito ficou no chão como uma nódoa» (p. 19). Algumas linhas depois: «Cheirava tanto a tristeza que os académicos se acharam comovidos» (p. 19). E desataram, pois claro, a escrever sonetos sobre a sombra que cheirava a tristeza. O humor inquietante, a heterodoxia, as referências sexuais e religiosas, tantas vezes de mãos dadas na escola surrealista, a capacidade para satirizar o presente (o de então como o de agora) com metáforas abertas, livres e vivas, fazem desta narrativa, sem dúvida, uma obra-prima. Reparai só, ó leitores, no tratamento oferecido ao ladrão Ildebrando... e dizei-me se não se mantém fatidicamente actual o retrato: «Do muito andar gastaram-se-lhe os pés e depois as pernas que se transformaram nuns cotinhos. Do muito escorregar pelas chaminés gastou-se-lhe toda a grossura e os braços. As medalhas também o arranhavam muito e acabou por ficar à mercê da caridade pública, ao pé do buraco da árvore, num carrinho que lhe deram as senhoras de caridade. / Estava ali no carrinho como um vaso e fazia boa figura, porque as senhoras de caridade, quando passavam por ele, tinham sempre um regador com que o regavam como se fosse chuva só num sítio. Algumas alçavam a perna e faziam-lhe chichi em cima, o que era bom para o adubo, e tinham também uma tesoura de prata para lhe cortarem os alporques» (p. 44). Apenas uma Narrativa é um pequeno livro excepcional que talvez tenha caído no esquecimento. Digo talvez por nele se reconhecer, afinal, muita da efabulação que hoje por aí se pratica sem dedicatória os mestres (apesar do futuro garantido por críticos [impre]videntes). Que se dantes não se podia apontar o dedo, hoje é tudo às escondidas.

ANTÓNIO PEDRO POR JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA




Mais aqui e aqui e aqui.

ESTÁ.

   Velho comparsa da blogaria, o Lourenço é sempre companhia agradável. Este está bem? provocou-me aquele tipo de gargalhada para dentro que ele não aprecia, o riso do intelectual com boca fechada e olho brilhante. Paciência para ele.
   A minha experiência de sitemeter não é muito diferente, embora os picos de visitas apenas os sinta quando escrevo sobre um livro de um poeta contemporâneo português. Os pesos pesados blogosféricos não se comparam (até porque deixaram de existir, graças a Deus ou ao Facebook ou a outra rede qualquer) e sobre a E. L. James, se bem me lembro, nunca escrevi. “Blogger, se queres atrair visitas escreve sobre poetas contemporâneos portugueses” é uma espécie de slogan para vender o meu produto. São a minha clientela, mais perigosa do que as fanáticas de Gray. Não duvides. E toma lá versos do velho Whitman, que não atrai nem repele (é igual ao litro):
 
Conheces as excelentes alegrias da juventude?
As alegrias dos queridos companheiros, as palavras alegres e os rostos risonhos?
A alegria de um dia feliz e radioso, as alegrias dos jogos em que se respira profundamente?
A alegria da música doce, a alegria do salão de baile iluminado e dos bailarinos?
A alegria de um jantar copioso, e de uma boa orgia e da bebida?

PAIS

Pais que se comportam como adolescentes, adolescentes que se comportam como crianças, crianças que parecem gente adulta. Não é gralha nem lapso, os pais preocupam-me. Lido com eles diariamente e, por estes dias, pela mais estimulante das razões: manuais escolares. Uma contrariedade, como já ouvi dizer. Não é dinheiro que se gaste com agrado, é dinheiro que se gasta por obrigação. Muitos nem consideram o dispêndio investimento, é dinheiro deitado fora porque: os miúdos não querem a escola, a escola não quer os miúdos. A tragicomédia educativa no país parece dar razão aos pais, mas os pais não têm razão alguma. Pelo menos muitos daqueles com quem lido, os que parecem ter-se demitido de serem pais. Demitiram-se de ser pais quando esperam da escola o papel que é deles: educar. Colocam nos professores o papel que é deles: transmitir valores. Nem sequer servem de exemplo, nem sequer se preocupam em dar exemplo. Os pais generalizam-se para simplificar, nem todos serão como estes pais. Mas vamos passar algodão em rama sobre a chaga? Há cada vez mais pais que não são pais, são uma espécie, como dizê-lo, de fonte de rendimento até à autonomia. Não passam tempo com os filhos, e muitos consideram-no uma bênção. Não falam com os filhos senão para responder a solicitações, as materiais. Os pais dão trocos para o fim de semana, compram roupa, dão guarida, levam com os manuais na cabeça, vão de casa para o trabalho e vêm do trabalho para casa cheios de angústias e de traumas e de frustrações porque, foda-se, tiveram o azar ou cometeram a imprudência de serem pais. Só não se dizem arrependidos porque Deus pode ouvi-los e no Inferno há vaga. Os pais que não querem ser pais são uma praga impossível de desparasitar, não há escola para eles, não há escola para a escola que também é feita de pais, só há escola para os alunos e alguns, quando calha, são pais precoces e ficam cheios de medo e pensam na vida e temem pelo futuro deles e dos filhos e até pelo futuro dos pais. Esta gente complica a existência, julga-se eterna, desconfio, não terá espelhos para ver o tempo passar pelo corpo e as faculdades que o vento usurpa. Fazem análises, radiografam o esqueleto, testes, exames, vão ao médico, consultam psicólogos, pediatras, metem-se na psicanálise, vão à missa, confessam-se, pagam a bruxas, astrólogos, quiromantes, retiram o diabo do corpo aos energúmenos que têm lá em casa e aos que têm dentro de si próprios. Alguns, se pudessem, faziam como outrora fizeram certas que não lembro quais tribos: matavam os filhos à nascença. Porque querem ser pais os pais? Para terem uma coisa fofinha lá em casa? Mas a coisa fofinha chora, esperneia, caga-se, mija, vomita, tem febre, precisa de cuidados e de tempo e de atenção e, ai o inferno, reivindica porque reivindicará direitos e nesses direitos começam, claro, as obrigações dos pais: falar, comunicar, valorar, educar. E amar? Há pais que não amam, há pais que não foram amados quando eram filhos, mas sobretudo há pais que não sabem amar. Amam dando, dão contrariados, é como se amassem contrariados, e andam revoltados com o preço dos manuais, com os resultados da selecção, com a economia, já nem lêem nem vêem televisão, excepto se for a bola, um filme erótico, porrada, telenovela a espaços, preferem conversa no café do bairro, conversa rápida, ocupação certeira, caça, putas, pesca, cartas. Andam à toa e pela toa trazem os filhos, que crescem e se tornam homens e se fazem pais num país onde cada vez mais os pais se parecem com os filhos e os filhos com órfãos. Pelo que se vê nas notícias é assim. Onde andam os pais dos miúdos? Onde andam os pais desses miúdos que se divertem a atirar carros de compras para o Mondego? Ou não serão miúdos? Ou terão pais? Onde andam os pais dos praxados e dos praxantes que estupidificam tudo com a sua simples presença? Virão nos manuais, estes pais? Não puxam orelhas, prática bárbara, não recriminam, hábito ultrapassado, reforçam positivamente de acordo com as práticas em vigor, não tradicionalizam, modernizam, andam nos psicólogos, nos psiquiatras, fazem psicanálise, perdem-se na estante de puericultura a ler e a comprar livros que ensinam… a amar os filhos. Isto é tudo inacreditável, a realidade é inacreditável, os livros sobre educação são inacreditáveis, a pedagogia é inacreditável, o inacreditável parece estar a funcionar muito bem, é cada vez mais real, um sucesso de vendas.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

PESSOA PEDRO CESARINY

Embora o sumário não o indique, o mais recente número da revista LER oferece dois interessantes artigos sobre poesia. A páginas 72, Hugo Pinto Santos traça um panorama da poesia britânica contemporânea repleto de referências e de citações. Depois da Antologia da Poesia Britânica Contemporânea (Livros Horizonte, Junho de 1982), prefaciada, organizada e traduzida por Manuel de Seabra, não me ocorre uma visita a terras de Sua Majestade tão proveitosa para os leitores portugueses (eventualmente interessados). Mais para o fim, João Luís Barreto Guimarães (JLBG) ensaia uma leitura de Todas as Palavras — Poesia Reunida (Assírio & Alvim, 2012). Ainda que não me inspire quaisquer reparos a leitura feita sobre a poesia de Manuel António Pina, o mesmo não posso deixar de fazer relativamente a uma consideração genérica que abre o artigo. Afirma JLBG que «uma das poucas características que diferencia ficcionistas dos poetas é o facto de aqueles escreverem vários livros ao longo da vida enquanto os poetas escrevem apenas um». A ideia de que a obra de um poeta é a reunião da sua poesia deixa-nos de atalaia, vindo-nos logo à memória vários poetas cuja reunião da produção levada a cabo ao longo da vida seria ineficaz e até atentatória dos princípios que estiveram na criação da mesma. Porque não pretendo alongar-me, recordo apenas dois dos nossos maiores poetas do séc. XX: Fernando Pessoa e Mário Cesariny. E se recordo estes é porque pretendo referir-me a um outro, bastante esquecido e ignorado, que serve de ponte entre ambos: António Pedro (1909-1966). 
   É verdade que em 1936 António Pedro reuniu num só volume parte considerável da sua produção precedente, mas Primeiro Volume. Canções e Outros Poemas / 1927-1935 marca um ponto de viragem entre o que foi e o que será. A inflexão parece de tal modo radical que deixa aos críticos da desigualdade, quase sempre conformados com o tédio da igualdade, pretexto bastante para desconsiderar o poeta e a obra. Ora, a pluralidade e a diferença são, precisamente, as características fundamentais desses três grandes poetas (António Pedro estabelecendo uma espécie de ponte entre o modernismo de Orpheu e o surrealismo tardio português, embora ele o tenha introduzido por cá antes do mesmo se consubstanciar na fundação do malogrado Grupo Surrealista de Lisboa em 1947). O que diferencia ficcionistas destes poetas, destes grandes poetas, não é o facto destes terem escrito apenas um livro (escreveram vários e assaz díspares, sendo que Pessoa publicou apenas um e nem é o seu melhor). Cesariny, se bem sei, sempre recusou as reuniões que tanto agradam a académicos e aos ansiosos do cânone (deviam tomar ansiolíticos). Vale pelos poemas, cada um deles isoladamente e todos em relação com tudo e com todos. Já a António Pedro, que escreveu livros de poesia, narrativa e drama, bastariam três ou quatro poemas devidamente divulgados e estudados para que o seu nome fosse resgatado do esquecimento (será ostracismo? será ignorância? Será revanchismo?). 
   Releiam Proto-Poema da Serra d’Arga, Invocação para um poema marítimo, Os sete poemas do tédio estéril, Para servir de final ou Justificação duma reincidência circunstancial e poderão reencontrar-se com o que de melhor a poesia portuguesa da primeira metade do séc. XX tem para nos oferecer. Já deixei aqui um, deixo agora outro:

PARA SERVIR DE FINAL

Para servir de final bastava um ponto final
Se tivesse havido coragem:
Acabar com esta ilusão das palavras que já não servem,
Deixar morrer a poesia de morte natural;

Para servir de final também bastava o conforto da vida
Se a vida soubesse dar conforto
De forma a que nem apetecesse
Este a gente deixar-se à mercê do que nos mói
A ansiedade e os ouvidos;

Para servir de final — isso é que era um final! —
Chegavam umas poucas de pás de terra,
E o refastelar dos bichos,
Ali, a roerem consolados
Nesta pele podre e sensível…

E, no entanto, ainda apetece um post-scriptum,
Apetece ainda este gosto desarrazoado
De estar a falar com pessoa nenhuma
Que mais não seja para gritar
— A Poesia morreu! Morra a Poesia!
Coma a terra os poetas deste mundo!

Sobre um lodo de sangue os homens-lobos resolveram
Andar aos rebanhos, como os cordeiros;
Fecharam-se-me todas as portas
E ninguém cabe pela minha;
Apagou-se a luz de Deus
E a esperança, com ela, arrefeceu-me no sémen;
Sei que hei-de acabar, como as pedras, em incómodo
E me hão-de as mulheres limpar dos olhos com água bórica;
Por ser cedo, ou ser tarde,
Já nem me lembro dos meus vinte anos
— Deixei morrer a fé, e não chegou a resignação;
Sumiu-se o bicho harmonioso
Que assoprava esquecimento aos meus ouvidos
E, até as minhas mãos
Se recusam, às bolhas, a uma harmonia concisa;
Das estrelas que semeei nasceram só gritos estéreis;
Os monstros que acariciei riram-se da minha angústia
E tomaram-me nas manápulas para que fosse um deles
E só me falta deixar que o fogo acabe tudo…

Lá virá! Lá virão línguas ou pétalas ardendo
Sobre o vento que me desgrenha os nervos e os cabelos
Consumir-se no espectáculo
Dum grande incêndio final!...

                                                 (Resta-me cultivar esta mentira
                                                  Como uma planta de vaso capaz de algumas folhas
                                                 (Antes de ir para o esterco.)

Moledo, Julho de 1949.



António Pedro, in Antologia Poética, edição de Fernando Matos Oliveira, Angelus Novus, 1998, pp. 77-78.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

POESIA CLANDESTINA


Na próxima terça-feira, dia 14, pelas 21h30m, Margarida Vale de Gato lê e comenta Rui Costa. Há 6 anos, Rui Costa lia e comentava Haruki Murakami: aqui.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

WALT & OFÉLIA

No ensaio biográfico que dedicou a Walt Whitman, Eduardo Pitta recordou a recepção de Leaves of Grass em Portugal:

Em 1915 — isto é, com o proverbial atraso de sempre —, Portugal entra no coro. Pela boca de Álvaro de Campos, Pessoa saúda-o num poema torrencial (...). O engenheiro sensacionista não fez a coisa por menos e comparou a obra de Whitman a "Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma." Ofélia Queiroz nunca foi capaz de tanto.

Eduardo Pitta, in Metal Fundente, Edições Quasi, Maio de 2004, pp. 116-117.

QUANDO SOUBE, AO FIM DO DIA


Quando soube, ao fim do dia, que o meu nome tinha sido aplaudido no Capitólio, nem por isso me senti feliz nessa noite,
E mais ainda, quando me embriaguei ou quando se cumpriram os meus planos, não me senti feliz,
Mas no dia em que me levantei bem cedo de perfeita saúde, descansado, a cantar, aspirando o ar amadurecido do Outono,
Quando a ocidente vi a lua cheia empalidecer e desaparecer com a luz da manhã,
Quando vagueei só pela praia, e nu entrei na água, rindo com as águas frias, e vi o Sol nascer,
E quando pensei que o meu querido amigo, o meu amante, vinha a caminho, oh, então senti-me feliz,
Oh, então, o ar que aspirava era mais fresco, e durante todo aquele dia o que comia satisfazia-me mais, e aquele belo dia foi maravilhoso,
E o dia seguinte surgiu com igual alegria, e no outro a seguir, à tarde, chegou o meu amigo,
E naquela noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi o rolar lento e contínuo das águas invadindo as praias,
Ouvi o murmúrio sibilante desse líquido e das areias, como se em murmúrios me felicitassem,
Pois aquele que mais amo dormia junto de mim sob a mesma manta na noite fria,
No silêncio dos raios da Lua de Outono, o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito — e nessa noite fui feliz.
 
 
Walt Whitman, in Folhas de Erva, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Círculo de Leitores, Fevereiro de 2006, p. 114.

CONTO DE INVERNO


permanecendo no inverno
e mais do que no inverno, no passado
andando um tanto ao acaso
dão connosco pela frente
os bosques da América do Norte

em todo este desenlace
o inverno, como tendo em conta o nosso esforço
não se nos apresenta rigoroso
por aí se vê que a natureza
apesar de bastante fria
continua acessível a um europeu do sul

dir-vos-ei apenas que cheguei era já noite
e dispenso-vos as minudências
as atitudes mais ou menos adivinháveis -
apresentações, questões, pequenas curiosidades
- até porque não as houve em demasia
e avançava já para a esplêndida sensação
proporcionada pela iminência do alce

não querendo carregar nas teclas
das imediações do fantástico
sublinharia porém a luciluzência do acampamento
- sua fogueira - a disposição das personagens
a musicalidade de ralos e de mochos

a noite era imensa entre o arvoredo
como nunca mais o veio a ser
e a lua reflectir-se-ia por certo
em algum charco que eu haveria de ver
uns determinados dias depois

o acampamento era irreal
de tão perfeito em suas premissas
e alguém que se afastasse
ainda que imperceptivelmente
dava a quem o visse
a inexplicável certeza
de toda uma razão de existir

um qualquer arfante perigo encantatório
passeava-se atávico
na escuridão do bosque de coníferas

adormeci ao som das brasas
derretendo a gordura dos ossos do corço
e sonhei com o meu tempo
que estaria, sem que bem me apercebesse
para advir em tempos de máquinas
e de capacidades intelectuais proveitosas

Daniel Maia-Pinto Rodrigues (n. 1960), in O Valete do Sétimo Naipe (1994). «Com altos e baixos, mais notoriamente ou menos notoriamente, este estilo e este ritmo constituem, na poesia do Daniel, uma verdadeira identidade, e atravessam o todo disperso dos seus poemas como uma distinta e pessoalíssima marca. (...) / Sinais exteriores dessa identidade são a desconcertante "naiveté" coloquial (perigosíssima, aliás, pois força frequentemente os limites do literário, confrontando-se com o banal em fintas às vezes de inseguro resultado, como as daqueles jogadores de futebol que costumam ser acusados de "não jogar para a equipa"...); a ciência da palavra subitamente inusitada, da relação tensa do adjectivo e do substantivo, do arcaísmo ou do neologismo de construção; o humor distante e enternecido, a estudada candura, às vezes amável até à perversão; a constante ruptura dos níveis do discurso, a crueza do corriqueiro irrompendo na expressão quando ela parece ir tornar-se eloquente; o uso radical do "cliché" e da literalidade; a espaços, a absoluta ausência de vigilância literária ou a desmesura retórica; uma arte da composição que joga sabiamente com a ingenuidade e a fabricação formal; e, sobretudo, o prazer físico das palavras, do seu sabor, dos seus aromas, uma dicção voluptuosa capaz de se inebriar até ao deslumbramento com certas inesperadas sonoridades e, por outro lado, propensa a súbitas e vertiginosas mudanças de curso, precipitações de sentido, pueris enternecimentos» (Manuel António Pina, posfácio a Malva 62).

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

COCÓ

Fosse o PS governo, e os opinantes de direita teriam exigido as demissões dos ministros da educação e da justiça. E não descansariam enquanto os ministros não se demitissem ou fossem demitidos ou acabassem remodelados… Como o PSD é governo, os opinantes de esquerda (ou coisa que se pareça) exigem as demissões dos ministros da educação e da justiça. E não descansarão enquanto os ministros não se demitirem ou forem demitidos ou acabarem remodelados… Já os opinantes de esquerda exigem há muito eleições antecipadas, a incompetência destes ministros e respectivos pedidos de desculpas (coisas que acontecem, disse a outra) é só o exemplo que acresce à prova de um governo incompetente, perverso, criminoso, imoral, aldrabão. Se é que me faço entender.

CRISTINA



 
 
Há que fazer um esforço e ler isto até ao fim.

O FIM DE UM WEBLOG

Em tempos, o fim de um weblog gerava ondas de comiseração. Entre o encómio e a bonacheirice de um "até sempre" que nunca existiu, porque nestas coisas a proximidade ilude-se pela frequência, o autor hesitava, ponderava, tais e tantos eram os pedidos que não partisse, as angústias do silêncio, as desesperadas ameaças de eterna solidão. O espectáculo do fecho retomava o espectáculo da partida, com os navios afastando-se e a tripulação acenando para quem ficava em terra também a acenar. De adeus definitivos nem a morte sabe, pelo que, por vezes, muitas vezes, tantas e tão enfadonhas vezes, o escriba desactivado ressuscitava, voltava a activar a pena com a alma insuflada d’elogio, retomava a actividade para gáudio dos desesperados e alegria do próprio. Nisto tudo há vaidade, sempre houve, e uma mais ou menos recalcada necessidade afectiva (?) sentimental (?). Não é coisa que se deva levar a mal, até por ser humana.
Agora, a indiferença contaminou este circo de afectos. O weblog fecha e nós deixamos de bater à porta. Finis Coronat Opus, anuncia o escritor J. Rentes de Carvalho lá no Tempo Contado. Tem(-me) feito companhia, sentirei falta até me habituar à mesma. Os últimos textos que deixa são reveladores do que ofereceu aos leitores anos a fio e com admirável regularidade. O que eu mais gosto naqueles textos é o acérrimo combate ao estereótipo, um desprezo pelas ideias feitas que não recusa, porém, a pertinência do lugar-comum. Veja-se, por exemplo, como as assimetrias sociais são enquadradas pelos números da ostentação: este tem tantos carros, aquele colecciona ferraris, o outro faz do luxo modo e meio de vida. Mas essas assimetrias não valem por si só, e se alguma coisa dizem sobre o que é ser humano pouco revelam sobre o que é ser humano em sociedade. Por isso, o autor remata com a cereja no topo do bolo (passe a expressão): o jovem amigo holandês que emigrou para o Mumbai e aí singrou, sem deixar de se impressionar com a miséria local. Cita-se:
«Uma coisa sinceramente o aflige quando vai para o trabalho: os pobres que, deitados no passeio, lhe dificultam a entrada no prédio. O que ele acabava de descobrir, e no mail me queria contar, era que os infelizes que dormem no passeio não o fazem de graça, têm de pagar umas quantas rupias ao manager do passeio, em geral um ou outro que nessa rua tem loja.»
O leitor lê e interroga-se sobre os mesquinhos donos do passeio, tende a esquecer-se do fausto da meia dúzia supracitada, mas não esquece, estabelece pontes, a miséria humana, de facto, é transversal, a do espírito, não a material, é essa miséria espiritual que não tem classes, a coisa “mais bem” distribuída do mundo, Descartes pretendia o bom senso, saiu-lhe a miséria espiritual.
O post seguinte faz do mesmo, mas com outra história. Lavar roupa suja é o tema, ou assim parece. O tema é a essência humana, chamo-lhe isto no sentido de aroma, fragância de mau cheiro. Novamente o espírito mesquinho, triste e cansativamente previsível do social:
«O que é que de facto mudou na nossa sociedade? O escândalo do casal em questão, os escândalos anteriores e futuros, os que nos contam e os que ignoramos, não nos virão em linha directa, mas herdámo-los dos antepassados, que quando vieram ricos da Índia imitaram Nero, ferrando de prata as suas mulas; andaram depois dois séculos de mão estendida esmolando aqui e ali; voltaram às ferraduras de prata quando lhes chegou o ouro do Brasil. Seguiram-se outros dois séculos de penúria e vergonha, até que nos aproximaram a teta que o senhor Mário Soares aconselhou a chuparmos ao máximo. Os que estão perto dela de novo ferram de prata as suas mulas, ou o moderno equivalente. Os outros terão de esperar vez. Onde está a novidade? Qual é a surpresa?»
O retrato impiedoso de uma sociedade em particular, impiedoso ou simplesmente lúcido, tem efeito similar quando o tema se estende à humanidade em geral, um efeito maiêutico, de “abre-olhos”. Oferece-nos elementos para uma reflexão desencantada, como, aliás, se quer toda a reflexão. Agradar ao leitor? Pois sim, tanto quanto agrada tudo o que enriquece (o espírito, claro, para que não fique do tamanho do espírito dos donos do passeio).

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A PENSAR SOBRE O ASSUNTO



Outros méritos não tivesse, Luiz Pacheco teria, pelo menos, o de enquadrar com crueza justificada um tempo que foi o seu (e que, de certa maneira, ainda é nosso). O país fascista, dos caciques e das cotadas, o país do arrivismo cultural e da calacice, esse país que durante 40 anos trouxe todo um povo a dormir sobre a mentira, é denunciado nos textos de Pacheco sem panos quentes nem pensos rápidos. As feridas aparecem apenas tratadas com a ironia e o lado caricatural do sátiro, capaz de confissões abjectas e de lamentos ternurentos. De vez em quando regresso a Luiz Pacheco, talvez na ilusão de que não me esquecendo de como foi posso melhor lembrar-me de como é. No segundo volume de Textos de Guerrilha, prosa intitulada Os Malefícios (e o grotesco) da Censura, dedicada a Os Segredos da Censura, livro de César Príncipe, oferecem-se exemplos vários do «espírito miudinho e mesquinho, francamente idiota», que então reinava. Eis alguns espantosos exemplos de censura que tornavam Portugal um paraíso onde nada havia e pouco acontecia:
 
5/1/67. «Primeiro turista de 1967 — não dizer que é operário.»
 
31/3/67. «Achado um feto embrulhado em papéis, em Algés. Eliminar que os rapazes andavam a jogar a bola com ele. Coronel Pinheiro.»
 
30/4/67. «Pampilhosa. Actos de loucura de um sargento do Exército. Não dizer que é sargento do Exército. Senhora de Vila Maior, S. Pedro do Sul, morreu ao tomar conhecimento de que o filho embarcava para o Ultramar. Não falar em Ultramar. Coronel Saraiva.»
 
24/9/67. «Funeral do capitão Augusto Casimiro. Não referir o facto de não ter havido viatura militar disponível para o transporte do caixão. Pode ser noticiado o casamento dum soldado alemão na Base de Beja com uma portuguesa — mas sem especulações.»
 
30/7/68. «Em Soutelo uma rapariga suicidou-.se depois do namorado ter seguido para Angola, mobilizado. Não falar na ida para Angola. Tenente Teixeira.»
 
20/8/68. «Transferência dos moradores do Bairro Xangai. Não usar a expressão «bairro de lata» por causa dos estrangeiros. Coronel Saraiva.»
 
28/8/68. «Presos dois gatunos em Lisboa. Não dizer que os roubados eram turistas. Capitão Correia de Barros.»
 
29/8/68. «Ciganos vendiam chá por whisky. Não dizer que os polícias andavam vestidos de fato-macaco. Dr. Ornelas.»
 
25/10/68. «Telegrama 140, da Reuter. Não aludir, no título, ao Partido Comunista Português, pois é coisa que não existe. Major Tártaro.»
 
28/4/69. «Fotografia do Prof. Salazar com o Cardeal Cerejeira, em que ele está um bocadinho descomposto. Não se deve publicar. Coronel Roma Torres.»
 
12/12/69. «Aumento do preço do corte de cabelo. — CORTAR. Coronel Saraiva.»
 
29/1/70. «As montras dos estabelecimentos de Coimbra estão às escuras — CORTAR. Capitão Correia de Barros.»
 
26/4/70. «Queima das Fitas do Porto. Espectáculo no Teatro Sá da Bandeira com baladas — CORTAR o nome do abade Fanhais. Mas, para não se notar o CORTE, é melhor CORTAR os nomes de todos os intervenientes. Não pôr em título a palavra aborto. Coronel Saraiva.»
 
22/6/70. «Lata de tinta vermelha atirada contra Heath — CORTADA a gravura e a legenda. Penafiel: um jornal tinha um título: «O bispo do Porto destacou a vantagem de nos voltarmos para a Europa.» Só pode ser assim: «O bispo do Porto em Penafiel.» No texto é CORTADO tudo o que seja política, visto que um bispo não tem de falar em política. Coronel Garcia da Silva.»
 
23/7/70. «Sismo em Sines — CORTAR. Dr. Ornelas.»
 
2/8/70. «Quanto ao pedido de não publicação da notícia do desastre e morte do filho do almirante Henrique Jorge, na estrada de Santo Amaro — pedido do secretário de Estado da Informação e Turismo — ainda hoje não se pode falar do desastre. Sindicato Nacional de Metalúrgicos, que discordam de uma homologação feita pelo governo e que mandaram telegramas. Coisas assim — NADA. O caso de Beja, de dois cavalheiros que se suicidaram. Eram homossexuais. Não se pode dizer que pediram, nas cartas que deixaram, que os sepultassem lado a lado nem que veneno tomaram. Coronel Saraiva.»
 
18/9/70. «Descarrilamento em Chaves — NADA. Tenente Teixeira.»
 
1/10/70. «Foi fundado o Sindicato dos Técnicos de Desenho. Não dizer que tal fundação havia sido pedida há mais de 30 anos. Capitão Correia de Barros.»
 
2/10/70. «Assembleia Geral do Círculo de Cultura Teatral — MANDAR. Lisboa quer MUITO CUIDADO com as coisas do TEATRO. Coronel Saraiva.»
 
30/10/70. «Não dizer, em título, que Nixon saltou da janela em pijama. Coronel Garcia da Silva.»
 
20/12/70. «Gravura do actor Rogério Paulo na TV cubana. Não pode ser publicada. Coronel Garcia da Silva.»
 
21/1/71. «No Supremo Tribunal de Justiça foi julgado o recurso de um chefe de posto de Angola que bateu num preto e o preto veio a falecer. Foi julgado e condenado — CORTE TOTAL. Coronel Saraiva.»
 
1/4/71. «Gravura da casa de Salazar, dando a perceber que está a cair — CORTAR gravura e legenda. Não é verdade. Talvez ande em obras. Tenente Teixeira.»
 
6/6/72. «O editor de Afrodite, que há tempos apresentou um livro metido numa banheira, vai agora fazer uma conferência muda e itinerante numa camioneta. Toda a palhaçada se pode noticiar. Mas nãos e pode falar em textos inéditos de Manuel João Gomes, do bispo do Porto, do padre Felicidade Alves e do Dr. Fernando Luso Soares. Coronel Saraiva.»
 
12/8/72. «No Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa rusga policial, foram presos 24 indivíduos — vadios, prostitutas e homossexuais. Pode falar-se nos vadios e nas prostitutas, mas não nos homossexuais. Tenente Teixeira.»

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

CORPO SANTO


Hão-de ser sempre misteriosas as razões que lançam no esquecimento poetas extraordinários, oferecendo a outros a glória da reedição, da recolha, da tese, da perpetuidade (tanto quanto possível na redoma exígua dos leitores interessados). O século XX português já tem os seus ícones, chamem-se eles Pessoa (primeira metade) ou Herberto (segunda metade). Outros há que vão resistindo à custa de esforços vários. Sophia e Sena, Eugénio, Ruy Belo, Cesariny, O’Neill. O problema não está em estes serem lembrados, está em outros, igualmente singulares e desafiantes, serem esquecidos. Ruy Cinatti (1915-1986) é, na minha modesta opinião, um dos poetas portugueses do século XX mais incompreensível e estupidamente ignorados, pelo que a publicação de Corpo Santo (Averno, Julho de 2014) constitui, por si só, um dos momentos altos do ano corrente no que a edição de poesia diz respeito.
Podemos distrair os leitores com traquitanas, com máquinas promocionais, com anúncios estrondosos de novidade onde apenas se vislumbra jogo de anca, mas não podemos, não devemos, ser cúmplices para com a mexeriquice que ameaça deixar na penumbra um poeta deste calibre. Mais estranho se torna o esquecimento quando Cinatti tinha tudo para ser um entre os maiores, desde uma biografia rica a uma obra que lhe fez justiça — com os devidos encómios críticos de gente credível, de Ruy Belo a Joaquim Manuel Magalhães. Sobre a vida, mais que não fosse seria expectável que interessasse o seu incorrigível nomadismo. Até por ser raro entre nós. Se Camões se aventurou em altos mares e Pessoa foi um nómada intelectual por excelência, não muitos terão saído de onde sempre estiveram, dentro de si próprios, ao “encontro inesperado do diverso”.
O primeiro livro, Nós Não Somos Deste Mundo, saiu em 1941 (dedicado a Hermínia Cinatti, mãe com raízes toscanas, falecida quando o poeta tinha apenas dois anos). Nascido em Londres, estudou em Oxford, partiu para Timor, foi metereologista, contrabandista, andou por Goa, Norte de África, Paquistão, para vir “apodrecer” em Lisboa já no final da década de 1960. Manhã Imensa (Março de 1984) foi o último livro publicado em vida, sendo nele notável uma vivência espiritual próxima de certa militância poética de tipo pasoliniana: «Comunismo — cristianismo: oposição. O poeta opta pelo cristianismo e envolve nesta opção o próprio comunismo, não sem ter deixado de apelar subtilmente pela ajuda de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro» (Manhã Submersa, Assírio & Alvim, 2.ª edição, Abril de 1997). Não nos espanta, pois, a Homenagem a Pasolini incluída em Corpo Santo: «Ó Pasolini, tu mexeste-me de verdade e eu deixo ficar tudo escrito. / Teu o meu Amor por Jesus Cristo!» (p. 78)
Em nenhum outro autor como Pasolini a conjugação do cristianismo com o comunismo foi levada tão a sério, sendo certo que, como dizia Jean Duflot, «o único partido que Pasolini escolheu foi o da ressacralização do homem, do homem cá de baixo, nascido da natureza e da mãe, e cuja assunção pode e deve dispensar toda a revelação» (in As Últimas Palavras de um Ímpio, Distri Editora, 1985). O mesmo processo de ressacralização parece operar-se na poesia de Ruy Cinatti, sendo por isso muito pertinente a escolha do título para esta “antologia de poemas volantes”. Escusada era a explicação de Manuel de Freitas sobre o título quando é ao próprio poeta que vamos buscar esse entendimento, nomeadamente em versos de Depoimento«Em cada baiuca em que entrares aí é a Casa de Deus… / mesmo que só lá estejam miseráveis publicanos como eu… / e então… que festa grande… festa redonda… o Mundo… encimado pela Cruz e na Mão de Jesus… o Magnífico… / a dar esmola aos pobres pelas mãos de um pecador…» (p. 37) — e nesse magnífico poema da página 52:

FADO

A minha atracção pelos marginais
acorda-se com o meu signo, o dos ambíguos maravilhosos Peixes.
Um aprofunda-se, outro, à superfície
das águas pestaneja
meio adormecido e sonhador…
e sendo o amor ubíquo eu sigo os dois
conforme a total necessidade e as demais
oscilações contrárias no coração dos homens,
não esquecendo a atracção que os marginais por mim não escondem…

12.3.77
 
Convém esclarecer a origem dos poemas coligidos, de forma e temática diversas, embora singularmente homogéneos no tom com que perspectivam a realidade: «Ruy Cinatti distribuiu, nas décadas de 70 e 80, centenas de poemas policopiados. (…) Os poemas policopiados em folhas volantes que Ruy Cinatti tantas vezes fez circular pelos bares do Cais do Sodré ou pelos cafés do Chiado chegaram também, naturalmente, a vários amigos seus. E daí resultou, em 1981, uma antologia anónima mas consentida pelo autor: 56 Poemas (Lisboa, A Regra do Jogo)» (Manuel de Freitas, Nota Introdutória, pp. 5-6). Na realidade, os 56 Poemas, reeditados pela Relógio D’Água em 1992, foram agrupados por João Miguel Fernandes Jorge. Tanto nessa como nesta antologia encontramos alguns dos melhores momentos que a poesia de Cinatti conheceu, quer quando adopta formas tradicionais, quer quando liberta o verso de métricas rígidas. A actualidade política, olhada com desencanto, é satirizada com um discurso tão verrinoso quão descrente das estruturas do poder. Mas o que mais impressiona é a preponderância dos símbolos numa poesia aparentemente circunstancial, num diálogo persistente com a tradição e com a cultura que questiona o presente e o deflagra com situações onde fica claro o definhamento dos homens. Dos homens ou da espiritualidade. Por vezes, estes poemas interpelam-nos acerca da perda do assombro e da ausência de espiritualidade. São uma espécie de lamento místico mas com os pés na terra, essa é a sua maior força.  Ou então são a súplica do nómada atracado, comovente apelo, inigualável dor:

ANTI-ODE MARÍTIMA

À memória de Álvaro de Campos

Ó barcas de velas altas, ó horizontes,
carreiras de navegação para todos os portos!
Ó brumas matutinas quando a escuna
se espuma sobre baixios perigosos!
Ó ilhas, edénicas fortunas
de aventureiros fortes, audaciosos!
Ouçam o meu apelo, ó sirenes que ecoam
nos meus ouvidos os mais fundos avisos!
Eu sou o que não sou, sendo improviso
como um cego ao subir passeios,
mas possuo, ó fumo dos navios,
da minha condição, visão informe!
Ouvide a minha súplica, atendei-me,
levai-me convosco à aventura!
Que eu ouça o grito das gaivotas
e o marulho nocturno: vagas múltiplas!
Meu coração tropeça. Tenho frio
e calor d’encontro a vós, senhores
dos mares, dos poentes espantosos:
derrame de luzes e de vozes!...
Sou tão vosso como dos navios
aos altos mastros içadas as adriças
dos sonhos que vos habitam dia e noite,
com sereias, polvos, cachalotes!
Tenho de mim certezas, apenas falta
vosso convite alegre, insinuante
meneio de cabeça, olhos distantes,
mas tão junto a mim como um afago!
Ide, parti, levai minh’alma
já que o corpo espera, espera, espera!...

30.6.83

Ruy Cinatti, in Corpo Santo, org. Manuel de Freitas, Averno, Julho de 2014.

NATUREZAS-MORTAS SOCIAIS


Dia 4 de Outubro inaugura a exposição de pintura «Naturezas-Mortas Sociais» na Galeria Cossoul em Lisboa (Av. D. Carlos I, nº 61, 1º andar - Lisboa) às 18h-21h. É da minha amiga Maria João Lopes Fernandes, outrora co-autora do weblog Insónia. Lá estarei.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

impossível confissão (para Mário de Sá-Carneiro


a incontinência dum dia assim: estuporado
de azul, quase dado de tão distante.
a alma ao rubro descobre-se nesse fósforo incendiado,
longe do corpo porque na visão.

sofro de transparências, saudoso das baças
obtusas imagens em que o gelo se confundia com o fogo.
sou-me habitação alheia, hóstil, como um eucalipto
erecto ao sol, por mera solenidade do alibi.

o rio passa mas na imagem sei perpétuo
o erro que me impede de partir.
será vocação o sol refulgente
nas asas metálicas do estorninho?

a casa encosta-se ao ouvido, na ribeira
as pedras líquidas onde o coração revolto
se camufla. no musgo cauterizado pelo verão
aí nasci.

não senti por nenhum corpo o que senti.
é difícil precisar a qual dos ramos pertence
o zéfiro. mas o escândalo dum cavalo crepitando
sob a chuva, não renego.

só desvelar me importa, não julgar o que vejo;
pode sobrar o restante que não me interessa: não existe,
mesmo que mais verdadeiro. até a morte nos seus indícios
se ludibriar, como a neve nos dias de maio.

António Cabrita (n. 1959), in O Milagre das Tribos (1982). «(...) muito mais importante do que o uso da matéria histórica e política é a imagem heróica do poeta-vate, exigindo uma retórica e uma pose à altura da sua grandeza. Como é fácil perceber, isto tem os seus riscos, e não são pequenos: o risco da ênfase, da hipérbole, do artifício. Mas temos de reconhecer que estes poemas, sempre pensados como uma operação de risco, ganham força exactamente na medida em que se confrontam com provas difíceis. E mesmo quando as suas fantasias barrocas e a sua exuberência metafórica (...) nos suscitam algumas reservas, eles seguem na direcção desse «fundo impróprio» (...), que não é propriamente um objectivo que se alcance com gestos cautelosos e elegante compostura. Certo é que a poesia de António Cabrita é em tudo contrária a uma nova austeridade que encontramos em muitos poetas recentes. Nela, as metáforas são o próprio órgão do pensamento e, por isso, ficam às vezes submetidas a um exercício rebuscado» (António Guerreiro, Expresso, 6 de Dezembro de 2003).

IDEIAS PARA O BANHO

(...) tomávamos duche,
ensaboava delicadamente o éneo membro
e fazia força com o ventre tentando insuflar ar na uretra
para fazer bolas de sabão (...)

António Cabrita, in O Milagre das Tribos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, colecção Plural, Julho de 1982, p. 54.