quinta-feira, 20 de novembro de 2014

OURO E CINZA


Desconfio que um dos problemas mais frequentemente colocados ao cronista seja a iminente desactualização dos seus textos. A crónica oferece a perspectiva que do mundo tem quem a escreve, sendo raras as ocasiões em que transcende as barreiras do tempo e do espaço do autor para poder fixar-se com a universalidade que a grande obra exige. Ouro e Cinza – Crónicas 2002-2012 (Tinta-da-China, Julho de 2014) colige alguns desses raros momentos, fruto da arte e do engenho de Paulo Varela Gomes (n. 1952). Sendo do seu tempo, estas crónicas nunca a ele se circunscrevem irremediavelmente. Isto porque o autor consegue olhar para o presente sem prescindir do passado e com a humilde sabedoria de deixar ao futuro as suas próprias conclusões. A maioria dos textos provém do jornal Público, mas há deles que foram publicados inicialmente nas revistas Os Meus Livros, Comtextos e Pública. O critério cronológico não ditou a organização. Ainda bem. Os trechos foram antes agrupados em seis grupos que correspondem a outros tantos temas de interesse: Bichos, Com os Olhos, Este País, Indianas, O Campo, O Tempo. A grande vantagem desta opção é evitar uma leitura dispersiva; isto é, concentra os pontos de vista ampliando, desse modo, a panorâmica sobre um tema em concreto. No primeiro conjunto encontramos textos sobre os direitos dos animais, textos de uma militância assumida que não descarta a utopia:
«Às vezes gostaria de andar com uma camioneta muito grande a recolher todas as crianças, cães e outros seres vivos vadios que não sabem falar. Depois levava-os todos para as Maldivas, os Açores ou Madagáscar, que sempre é maior, e deixava-os à solta sem trabalho nem escola, sem horários e sem regras de trânsito, sem donos e sem patrões, para que andassem no mar e nos bosques. Fá-lo-ia apesar de saber que um dia alguma coisa haveria de correr drasticamente mal e Deus teria de correr com eles, recomeçando esta grande chatice toda outra vez» (p. 24).
Sem prescindir dos exemplos que a realidade histórica oferece, Paulo Varela Gomes excede-os, funda parábolas e ironiza, tem a capacidade de com uma linguagem simples e depurada acrescentar sonho à realidade. A alegria de viver e de se estar vivo pode fundar uma ética que não oculte os horrores e a maldade da existência, apelando antes à conservação da beleza, à preservação de uma identidade e dos valores que enformam essa identidade. Apelando, sobretudo, à resistência de um olhar que aceite todas as cores como inerentes ao mundo, um mundo que não é a preto e branco, que não é dicotómico, alicerçado na alteridade, na complexidade, na diversidade. O país aparece perspectivado com polémica e desencanto: os eleitores são estúpidos, devemos querer voltar a ser como os espanhóis, a juventude tornou-se uma das grandes desgraças do país, esqueçam a treta da produtividade e da dívida pública. Descontextualizadas, podem parecer frases frívolas. Mas por detrás delas há a consciência de um outro vazio:
«Não tenho culpa do que é hoje este país e o regime que o representa: militei e votei sempre em partidos que apregoavam querer outro tipo de regime e deixei de militar e de votar quando vi esses partidos tornarem-se tão legitimistas como os outros.
Espero um rebate de consciência política por parte destes políticos, ou o aparecimento de outros. Faço como muitos portugueses: espero por D. Sebastião, desempenho a minha profissão o melhor que posso, e penso em emigrar» (p. 87).
Não admira, portanto, que a maior parte do livro seja ocupada com crónicas onde a Índia aparece em pano de fundo. São notáveis as paisagens traçadas por Paulo Varela Gomes, quer quando se perde na agitação das cidades, quer quando se recolhe nos resquícios de uma antiguidade que o progresso tem vindo a aniquilar. A desconfiança acerca do progresso é, aliás, uma das características mais marcantes destas crónicas, sobretudo quando entendemos por progresso algo oposto à preservação e à conservação dos patrimónios cultural e natural. Julgo que seria um erro tentar medir nestas crónicas os índices de optimismo ou de pessimismo do seu autor. Não se trata disso. O tom nostálgico é transversal, mas a nostalgia tem tanto de optimismo acerca do passado como de pessimismo quanto ao futuro. O aspecto mais tocante de Ouro e Cinza talvez esteja entre o que o tempo consome e o que no tempo perdura, as contradições de uma humanidade que tão bem se reconhece na definição de campo partilhada a páginas 202:
«O campo, para mim, é a revivescência permanente de uma recordação imóvel. Sucede isto porque no campo, por mais que tudo mude, tudo está sempre no princípio, silencioso e quieto. É da ordem das coisas que não haja tempo».

CIDADELAS


Os poemas
são cidadelas para os
lábios

Mais longe as sentinelas
do espaço
e os degraus do oceano
no contorno das pálpebras

Na hora anterior
ao vidro das lágrimas
a mulher ocasionou o parto
das cidades

e as plantas
foram úteros reflexos
de água
gerando no lodo
o vício do ódio
submerso nas palavras

Maria Teresa Horta (n. 1937), in Cidadelas Submersas (1961). Com uma primeira obra publicada em 1960, Espelho Inicial, Maria Teresa Horta (n. 1937) começou por ser associada ao grupo Poesia 61, que se propunha «importar de novo o reconhecimento duma hipótese poética que surgisse preocupada com o poema enquanto objecto verbal, mas sem permitir a recuperação desta hipótese pelas escolas formais então existentes» (Joaquim Manuel Magalhães). No entanto, a poesia da autora de Tatuagem (1961) distanciava-se da dos demais elementos do grupo, entre eles Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e Casimiro de Brito, por nela ser evidente um erotismo desassombrado, que viria a agudizar-se em livros subsequentes, marcado pela «veemência da sua iconoclastia feminista» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes). Ainda que sejam estas as marcas mais reconhecidas da poesia de Maria Teresa Horta, não se pode excluir da mesma a atenção social que livros tais como Cronista não é Recado (1967) ou Mulheres de Abril (1977), já posterior à revolução dos cravos, quiseram sublinhar. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O RESTO É PAISAGEM

Leio no Malomil, de enfiada, uma série de transcrições de entrevistas a escritores. Sou traído pela repetição. As primeiras provêm de uma entrevista a António Lobo Antunes, vou lendo da mais recente para a mais antiga. Às tantas, deixo de verificar a autoria do dislate e a sua proveniência. E no final dou com José Luís Peixoto. Lobo Antunes e Peixoto, um mesmo discurso, um mesmo tom, uma mesma frivolidade. Tudo tão tacanho que seria estúpido querer pertencer a um clube destes. Ah, que bem se está na paisagem deste país.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

VOLTO JÁ

A minha filha Matilde ensinou-me a consultar o Gmail como deve ser. Parece que eu só via os e-mails primários, os que estão alojados na gaveta Primary. Desculpem-me a linguagem tosca, mas não percebo nada do assunto. Fiquei a saber que além dessa gaveta Primary há ainda a gaveta Social e a gaveta Promotions, repletas de mensagens úteis como convites para o LinkedIn o Twitter e congéneres, notícias de inúmeros eventos, lançamentos de livros e de revistas, exposições, festivais, estreias, a cultura ao rubro, mais as campanhas costumeiras com promoções irrecusáveis, vales de desconto, cartões maravilhosos, opções de pagamento apelativas. Descobri também que há gente de quem eu espero há séculos resposta a um “como vai a vida?” que aguarda a minha adesão a redes onde, por certo, a vida lhes corre lindamente. Este mundo é estranho, preciso de uma pausa deste mundo. Volto já.

GALINHA DOS OVOS GOLD

 
 
Tão privados têm andado de dignidade, que ao mínimo sintoma os portugueses exultam. A galinha dos ovos gold, chocados na mente irrevogável de Paulo Portas, pôs uma demissão. Miguel Macedo já lá vai, e os comentaristas de lugar cativo logo se apressaram a sublinhar o gesto digno, raro até. O homem não fez mais que a sua obrigação. Digno no cumprimento do dever, como aliás já tinha sido noutras ocasiões. Recordemos:
O ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, recebe todos os meses cerca de 1400 euros por subsídio de alojamento apesar de ter um apartamento seu na área de Lisboa onde reside durante toda a semana.
Isto para não falar de bastonadas em jornalistas em pleno exercício da profissão (alguém se recorda disto?) num país “com muitas cigarras e poucas formigas”. Macedo foi-se, não deixa saudades. É digno de esquecimento até voltar a ser lembrado.
 
 
Imagem respigada aqui.

INGÉNUA CRUELDADE

Acusado de pedofilia, um chefe de escuteiros suicidou-se. Tinha 29 anos. Proliferam fotografias suas nos media, com os rostos desfocados das pessoas à sua volta. O homem matou-se, desconfio que tivesse amigos e família. Deixem-nos em paz.

domingo, 16 de novembro de 2014

SPORTING:


RESPIRAÇÃO ALHEIA



Quando morrer quero o que a morte tiver para me oferecer, sono eterno sobre o musgo, obsidiada casa invertida, uma sombra plana que o vento desenha na circunferência dos olhos. Que a morte me tenha espalhado pela terra, erva daninha a crescer com abandono dentro, a vida nada me diz, tristeza de chão batido onde os passos escutam uma leveza decrépita.



Silêncio eterno, paz eterna, desejo nulo, que anseia o corpo curvado dos dias efémeros? Tronco redemoinhado, inclinada vertente cúspide, linguagem estranha que seduz os sentidos da fala. Quando morrer esta língua viva das árvores, respiração alheia do mundo, sob elas passam fauna e flora como se não passassem, como se fosse indiferente ser e estar, a inconsequência do verbo, nascente.

 
Nascem folhas da terra entre folhas caídas, tapete de vida e morte sobre o qual mijam cães aflitos. São restos de ossadas, as ossadas foram já restos de um corpo. Quando nascemos o sangue agenda a morte, tudo vai no sangue, a saúde e a doença, o tempo, a paixão. Que resta a este chão? De que precisa este chão que não tenha já? Só os homens pretendem casas e por isso começam pelos telhados, abrem janelas no peito e dizem: amor – são falsos, mentem, iludem, conspurcam cada palavra do vento com suas mansas teses. Odeio os homens mais suas casas, consciência emparedada, adiamento, odeio o modo como disfarçam a luz que dança entre os troncos das árvores. Quando morrer há-de a vida trazer-me pela trela da compreensão.

DIXIT

De Belém não veio um murmúrio.
Vasco Pulido Valente
 
Citado aqui.
 
 
Mais palavras para quê?

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

#50


Costumo dizer, e não é brincadeira, que os Tarnation foram das melhores coisas que me aconteceram na década de 1990. Apaixonei-me pela voz de Paula Frazer à primeira, foi aquilo a que podemos chamar amor à primeira audição. A atmosfera western, que desde muito pequeno me fascina, pode ter contribuído para a faísca, mas há algo de absolutamente telúrico na música dos Tarnation e na voz de Frazer que transcende qualquer tentativa de compreensão de uma paixão que foi, sobretudo, um encontro. Gentle Creatures (1995) é apenas o primeiro registo de uma discografia breve mas intensa. Os Tarnation formaram-se em 1992, ano em que fui viver para Lisboa, em que me apaixonei pela minha mulher, ano em que percebi com uma clareza que os dois que trago abertos no rosto jamais esquecerão a distância que afasta a cidade do campo. Gentle Creatures ofereceu-me, por assim dizer, cama no Big O Motel: «Down the road sits the Big O Motel, where people tell lies in their own private cell». Podia ser a descrição de um filme de John Sturges, mas não é. Basta ouvir Tell Me It’s Not So, canção de uma vida, para o perceber. Há no estilo country dos Tarnation uma capacidade de recriar o romantismo das pequenas cidades de província que nos emociona e perturba, por ao mesmo tempo nos sentirmos afastados e ligados a esse tom. Cada acorde, perfeito, transporta-nos para a atmosfera sombria, obscura, nebulosa, de ventos secos e redemoinhos empoeirados, que as primeiras paixões transformam em amores eternos. Por vezes, a voz masculina de Matt Sullivan acrescenta ao conjunto uma dramaticidade que ainda hoje me humedece os olhos. Já viram Johnny Guitar? Gostaram? Ouçam Tarnation. Escutem só aqui.

GATO VADIO, SÁBADO, DIA 15


A propósito deste evento, lembrei-me que durante parte do ano de 2008 o Rui deixou no Insónia algumas leituras iconoclásticas. Ficam os links para as mesmas, com referência aos títulos abordados:
 
"A Estrela dos Amantes", de Philippe Sollers (aqui)
"A Mobilização Infinita", de Peter Sloterdijk (aqui)
"Estórias Domésticas", de Henrique Manuel Bento Fialho (aqui)
"Crimes Exemplares", de Max Aub (aqui)
"Kafka on the Shore", de Haruki Murakami (aqui)
"Breve História do Progresso", de Ronald Wright (aqui)
"Conversas com Manoel de Oliveira", de Antoine de Baecque e Jacques Parsi (aqui)
"O Século XXI - Reflexões sobre o Futuro", de Eric J. Hobsbawn (aqui)
"Contos Fabulosos", de Millôr (aqui)

CARTA ABERTA À MINISTRA DAS FINANÇAS



Excelentíssima ministra, escrevo-lhe depois de ter sido informado sobre uma sua afirmação. Trata-se de um raciocínio demonstrativo da lógica da batata a que nos habituou o seu Governo. A senhora ministra declarou que a classe média é a mais prejudicada pelo Orçamento de Estado para 2015 porque “ricos temos poucos”. É a chamada verdade de la Palice que custa reconhecer. De facto, se pensarmos que, como recentemente revelava um relatório da Oxfam, metade da riqueza mundial pertence a 1% da população, é natural que não tenhamos muitos ricos. São poucos os ricos no mundo, comparados com os pobres. Mas os poucos ricos são mesmo muito ricos, são infinitamente mais ricos do que a infinitamente maioria dos pobres e muito pobres. A senhora ministra nada terá que ver com estas aritméticas, mas podia pensar que os poucos ricos que temos em Portugal podem ter o seu quê de responsabilidade na existência de tantos pobres. Sabemos que a responsabilidade não é o forte do nosso país, sabemos que os muito ricos que tornaram possíveis todos esses escândalos que vão escoando nos esgotos da banca portuguesa podem continuar a coleccionar os seus Miró e a passar férias na Comporta. Desconhecíamos, porém, a sua capacidade para numa simples frase sintetizar com cruel verdade o problema do país.
Repare, eu sou de origens muito humildes. Os meus pais prosperaram no comércio, pagaram os cursos aos filhos, os filhos vão-se desenrascando. Trabalho há oito anos numa livraria, depois de dez anos a leccionar. Tenho uma licenciatura à qual muito gostaria de acrescentar outros estudos não fossem as despesas correntes que, porque não sou rico, me impedem de continuar a estudar e me obrigam a deslocar-me todos os dias para um shopping onde ganho o pão de cada dia. A vida é assim. Não nasci rico, não sou filho de gente rica, dos poucos que há no país, não sou rico, dificilmente poderei vir a sê-lo. Porquê? Porque não tenho vocação para tal, mas também porque estou forçado pelas circunstâncias a continuar pobre. No tempo em que o meu pai tinha a minha idade era, pelo menos, possível sonhar com essa riqueza que não chega a todos. Ele lutou e amealhou, foi-lhe possível. No meu tempo, que é o tempo da senhora ministra e dos seus poucos ricos, esse sonho foi-nos usurpado, essa ambição foi cerceada pela raiz com impostos, burocracias, taxas e taxinhas que os senhores inventam todos os dias para que, et voilà, os poucos ricos possam continuar a enriquecer e a classe média seja, como a senhora diz, a mais sacrificada com o Orçamento de Estado. Fica-lhe bem reconhecê-lo.
O que talvez a senhora não reconheça, porque está num patamar acima da realidade que a impede de sentir o que a maioria dos cidadãos sente, é que para mim, e falo de mim apenas a título de exemplo, a senhora é rica. A senhora e todos os seus colegas ministros, para mim, eu que não me queixo da falta de nada verdadeiramente essencial, para mim, repare, a senhora e todos os seus colegas ministros, todos os vossos secretários de estado e sub-secretários e técnicos especializados contratados como só os senhores sabem contratar, todos vós sois ricos quando comprados comigo e com a maioria dos cidadãos deste país. A senhora, para nós, está no lote dos poucos ricos que há em Portugal, embora saibamos existir gente muito mais rica que a senhora ministra. É uma questão de escala. Por vezes, confesso, vejo indigentes a brigar por causa das beatas largadas num cinzeiro público e penso: foda-se, de que me queixo eu? Ainda posso comprar os meus cigarros. Serei, para a senhora e para a madame Jonet, um privilegiado. Mas não tanto quanto os privilegiados de que Gustavo Sampaio fala no livro que tem por título a mesma palavra, ou como os facilitadores investigados pelo mesmo autor, ou como os chamados donos de Portugal que deram azo a outro livro assaz esclarecedor.
Pois bem, senhora ministra, é claro que temos poucos ricos. Eu gostaria que tivéssemos mais. Como tantas vezes ouvi há dias, a propósito de um grande prémio no Euromilhões que por sorte tornou rico mais um português, a mim bastavam-me cem mil euros daqueles cento e noventa milhões. Podia voltar a estudar, e sabe-se lá que mais. Podia contribuir para as dores de cabeça da Angela Merkel e ser um português mais culto, palavra cada vez mais distante dessa outra que dizemos riqueza. A senhora é uma rica ministra, tem um rico marido que a defende e protege com ameaças a jornalistas; nós, os pobres, pagamos e calamos ou voltamo-nos uns contra os outros. Os senhores, que estão por cima de nós, sabem destas nossas fraquezas. E por isso podem continuar a dormir descansados enquanto engendram e aplicam orçamentos que nos agridem. Sabem que não teremos reacção, estamos demasiado ocupados com a nossa pobreza. Só os ricos teriam tempo para vos fazer a vida negra. Nesse caso, nem o seu marido lhe valeria. Bem haja,

MANOEL DE BARROS (1916-2014)


Referi-me a Manoel de Barros aqui. Um poema ali.
 Outros serão lembrados.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

UM ANÚNCIO

Anda por aí um anúncio da Vodafone com criancinhas a debaterem-se por uma sobremesa ou objectos tais como uma camisola, um skate, o comando da televisão, a coleira do cão. Reclamam aos berros a presença do pai para a resolução do conflito. São irritantemente betas e mal-educadas, lembram uma personagem de Charlie e a Fábrica de Chocolate. Cenas vulgares, quem tem filhos sabe disso. A verdade é que, falando por mim, raramente sou solicitado para a resolução de conflitos do género. Entre aguentarem uma palestra sobre os méritos da partilha ou verem-se privadas do objecto causador do conflito, as minhas filhas preferem resolver o problema entre elas. No anúncio, a solução encontrada pelo pai é distribuir smartphones, julgo que são smartphones, pelas criancinhas. E lá vão elas sossegadas no banco de trás do carro, cada uma com o seu telemóvel, enquanto a mãe as olha embevecida para depois se voltar para o homem da família e concluir descansada: «boa, pai». É o anúncio mais estúpido que vi nos últimos tempos, e não me refiro ao pormenor sexista da mãe ir no lugar do pendura. Aquele pai, aquele bom pai, é o típico exemplo de um esvaziamento ético que predomina na sociedade actual. Para ele, a partilha não se resolve partilhando. O bom capitalista cede às virtudes do consumo e cala as meninas com um telemóvel para cada uma delas (com tarifário especial, claro, a pensar no conforto das famílias). O bom pai cala as filhas enchendo-lhes a boca com chocolate, por assim dizer. Isto tem as suas vantagens, como é óbvio. Uma delas, talvez a mais visível, é a grande vantagem destes utensílios pós-modernos: evitam conversas estúpidas. Não sabemos é se a estupidez das conversas que se ouvem hoje em dia vem da falta de prática ou das próprias pessoas, cuja permeabilidade a este tipo de soluções é por demais evidente. Entretidas com os telemóveis, podem famílias inteiras crescer em silêncio. Chegará o dia em que sentar-se-ão à mesa e não se recordarão dos nomes uns dos outros. Para quê? Têm o número de telefone, só isso interessa.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

TURISMO DE GUERRA


Diferente de O Livro das Aves (Prémio Daniel Faria 2009, Quasi Edições, Abril de 2009), onde a linguagem se desenvolvia num ambiente simbolista repleto de imagens, alegorias e metáforas de índole mitológica, este Turismo de Guerra (Edições Artefacto, Agosto de 2014) é muito mais contido nessas erupções de sentido promovidas pela subjectividade discursiva. Um dos aspectos desde logo evidentes é o da relação íntima destes poemas com os «lugares de passagem» por eles evocados. A República Checa, que não é de todo estranha à obra de Tiago Patrício (n. 1979), surge como palco de situações ilustradas por componentes identificadores de uma cultura: do vinho da Morávia à arquitectura soviética, passando pelo Mosteiro de Břevnov, pelo Café Slavia ou pel’O relógio socialista de Olomouc (título de um dos mais belos poemas do livro).
No entanto, apesar do pendor descritivo dos poemas, eles penetram os lugares a partir de vivências intimistas. Longe de se constituírem como meros postais, nem sequer nos é possível reduzi-los a retratos transfiguradores da paisagem. Veja-se como no poema Cemitério Judeu se opera uma transposição da experiência para a alusão, sendo que o referido cemitério é não só um dos aspectos físicos da paisagem como já a referência metafísica de algo que se perdeu: «uma vez encontrámos uma rapariga / que nos levou para o último andar de um prédio / onde se podia ver o antigo cemitério judeu / e depois de três dias sem sairmos do quarto / decidimos mudar-nos para casa dela // no dia em que íamos fazer as mudanças / e subíamos a rua em direcção à nossa casa / tu fixaste um homem do outro lado do passeio / que mandou parar um táxi onde entraste com ele // e nós ficámos a ver o carro afastar-se / contigo a desapareceres infinitamente / ao lado daquele homem de uniforme escuro» (p. 39).
Apesar de claramente narrativas, estas estrofes permitem-nos sublinhar dois aspectos marcantes nas três secções do livro (Língua Eslava, Cristal da Boémia, Inverno Eslavo). Primeiro, a predominância da primeira pessoa do plural. Este aspecto é importante por nesta opção ser possível suspeitar um desvio do foco subjectivo do sujeito poético para a problematização da experiência em grupo. Por várias ocasiões Tiago Patrício faz referência à presença de um grupo que, não apagando a presença do sujeito, como que aparenta protegê-lo do isolamento em que se encontra, sobretudo o isolamento provocado pela distância das origens e pela estranheza de uma língua que não é a sua. O problema da língua, aliás, começa por ser sondado logo na primeira secção.
A frequência de uma residência literária na República Checa é, pois, o mote que obriga à adaptação, ao relacionamento, ao encontro de uma força de conjunto que o isolamento intimida. O segundo aspecto marcante é o de um tom aparentemente esquivo ou elíptico que certos poemas inspiram apesar e para lá da sua dimensão explicativa, tal como o erotismo, mais ou menos velado, que alguns versos alcançam com impressionante inteligência sedutora. O poema Cidade Termal seria óptimo exemplo, mas este outro merece-me especial referência por haver nele algo de extraordinário, tanto em termos sintácticos como semânticos, na visão de conjunto:
 
MEDIR O PULSO À PALAVRA

comíamos o corpo com as palavras na terra
dizíamos a terra com o corpo na palavra
metíamos as mãos no tempo e a terra no corpo

tirávamos palavras do corpo para a terra
e semeávamos a palavra dada ao corpo
alimentávamos a terra enquanto era tempo
e servíamos de corpo à terra sem palavras

escrevíamos como se enterrássemos um relógio
de corda e aguardássemos que desse frutos
para vender ou trocar por mais tempo juntos

sentimos o corpo programado
para se desligar num tempo médio
na equidistância do corpo ao silêncio

Muito mais refreados em termos rítmicos e imagéticos, os restantes poemas (à excepção de Chave Dicotómica) distanciam-se deste na forma, mas partilham com ele uma ética que a relação aqui estabelecida entre os vocábulos corpo, palavra e terra permite estipular. Turismo de Guerra revela um olhar lúcido, talvez demasiado lúcido, sobre os desígnios da humanidade, não sendo necessariamente candente sobre a situação do homem dito civilizado — «mostram-nos o quarto de um rei / de um monge de uma prostituta famosa / e pensamos na nossa cama inútil» (p. 32) —, deixa no ar a fina ironia do tempo que passa por nós enquanto nós nos ocupamos das coisas banais que, afinal, são exactamente aquelas que asseguram um certo equilíbrio existencial: «fazemos isto em vez de nos matarmos uns aos outros» (p. 26). Há aqui um movimento que não é óbvio daquele que se afasta das raízes para que possa ver-se melhor no encontro com o essencial, sendo que o “eu” aparece permanentemente sufocado pela presença do "nós". No fundo, nunca estamos totalmente isolados. Somos sempre uns entre outros, e essa é a única forma de nos descobrimos.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A LUTA CONTINUA

Li atentamente este post de mvf, com o qual não me identifico minimamente (o post, já que mvf não conheço), e pensei breves instantes sobre o assunto. Primeiro, achei piada ao tom reaccionário que a leitura de um artigo publicado em Avante gerou. Reaccionário porque reduz um programa político e o seu partido a um artigo publicado num jornal. Ao contrário do que mvf insinua, há pluralidade no seio do Partido Comunista Português. As leituras sobre o legado comunista internacional não são unívocas nem estão cristalizadas pela fé num ideal de sociedade. Muito menos podem ser reduzidas a um artigo, sendo que artigos há muitos (embora saibamos que apenas alguns interessam a quem deles pretende fazer leitura interesseira).
A leitura enviusada que mvf faz da história do comunismo enferma dos defeitos que aponta, nomeadamente quando afirma que os comunistas “fecham os olhos e apagam tudo o que se passou”. Enfim, isto é não saber absolutamente nada da história do comunismo. Já aqui tive oportunidade de dizer, e permito-me repetir, que: «Apesar de tudo, reconheça-se, o Partido Comunista foi mais célere a reconhecer o Grande Terror estalinista, pela mão de Nikita Kruschev e o seu famigerado «discurso secreto» (1956), do que a Igreja Católica Apostólica Romana a reconhecer o terror da Inquisição». Trata-se de uma evidência histórica que a muitos convém apagar e esquecer, fechando os olhos e não querendo ver. São como os três macacos quando lhes parece proveitoso para insistirem numa retórica preconceituosa, estereotipada e superficial.
É também hoje sabido como o chamado «discurso secreto» dividiu o partido, como em Portugal, por exemplo, muitos comunistas ditos históricos se foram afastando à medida que o conteúdo desse discurso foi sendo cada vez menos secreto. Já agora, não se tratando de um livro extraordinariamente bem escrito, mas sendo uma história extraordinariamente interessante, tanto para comunistas como para anticomunistas primários, secundários ou terciários, sugiro a leitura do livro Pavel – Um Homem Não se Apaga, de Edmundo Pedro. Mais que não seja pode ajudar a entender a forma como cada comunista lida com a complexidade do comunismo. Sendo que o que eu gostaria mesmo de ver e de ler era um debate sério sobre as questões aludidas no referido artigo. Podiam começar pelo último ponto: 
A chamada «queda do muro de Berlim» foi transformada pelos seus apologistas num símbolo do triunfo definitivo do capitalismo sobre o socialismo. Mas a evolução da situação internacional nos últimos 25 anos não só desmente as teses delirantes sobre o «fim da luta de classes» e sobre a «morte do comunismo», como mostram que o socialismo é mais actual e necessário do que nunca e que os trabalhadores e os povos de todo o mundo resistem e lutam para se libertar das cadeias da exploração e opressão imperialista.
 
Quanto a vítimas e infortúnios, suponho que os perpetrados pelo capitalismo vigente se contem pelos dedos. Tão poucos que nem se vêem. Perdoe-se-me a ironia, fina arma que repudio.

TRATADO SOBRE FILOSOFIA POLÍTICA

Este post aqui:
Héi lá, tanto festejo pela queda do muro, foguetes, vivas às liberdades e ao viver democrático… por gente que escreve sem pestanejar «traves institucionais» «reformas aprofundadas» (ou, «estruturais») «consolidação estratégica» e lambe o traseiro ao primeiro imbecil autoritário que tenha o poder de dar um posto, um lugarzinho, uma crónica semanal… héia cum’caralho tanto democrata a salário mínimo!

domingo, 9 de novembro de 2014

HÁ MUROS E MUROS

Tenho por princípio que todos os muros são maus, embora aceite a utilidade de alguns. Por exemplo, os muros que se erguem à volta das casas particulares são de uma utilidade extrema. Sobretudo para grafitters. Só não entendo que se festeje a queda de um muro, o de Berlim, e se fique impávido perante a edificação do Muro da Cisjordânia. Outro muro que não tem causado tremores é o chamado Muro Americano, um muro duplo, com uma extensão superior a 1100 quilómetros, que separará o México dos Estados Unidos. E depois há os muros da vergonha, e são tantos e tão distintos que seria fastidioso numerá-los. Festeje-se, pois, a queda de um muro enquanto outros são erguidos com a complacência dos festejos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

CRIATIVO E EXCÊNTRICO OU GRUNHO E BURGESSO?



Pelo menos 4.420 pessoas viveram em jardins, estações de metro ou camionagem, paragens de autocarro, estacionamentos, passeios, viadutos, pontes e abrigos de emergência de Portugal em 2013.
(...)
Ministro da Economia diz que por vezes precisa de ser "criativo" e "excêntrico" para passar mensagens importantes.

ARGENTINA


A literatura argentina já teve algum Prémio Nobel? Senhor que se segue: Adolfo Bioy Casares. E Roberto Arlt, está publicado em Portugal?

MANCÚSPIAS, CRONÓPIOS, FAMAS E ESPERANÇAS

Nascido por acaso em Bruxelas, onde o pai se encontrava a trabalhar, Julio Cortázar (1914-1984) pisou terras argentinas já com quatro anos feitos. Cresceu nos subúrbios de Buenos Aires, tendo sido abandonado pelo pai aos seis anos. O desaparecimento súbito da figura paterna encontrará várias explicações, sendo certo que a família sobreviveu à custa do trabalho da mãe, do dinheiro de uma avó e de um fundo de aposentadorias. Conta-se que ao ter conhecimento da morte do pai no interior da Argentina, Cortázar terá demovido a mãe de aceitar a herança a que tinha direito: uma pensão e fazendas. Os estudos permitiram-lhe começar a trabalhar cedo, como professor, nas cidades de Bolívar, Chivilcoy e Mendoza. Trabalhou ainda como editor, tradutor e colaborou no argumento de um filme sobre o qual não reza a história. Os primeiros livros, uma colecção de poemas intitulada Presencía (1938) e o poema dramático Los Reyes (1949), foram publicações humildes de circulação restrita. 1951 será o ano da edição de Bestiário. Coincide com a partida do escritor para Paris, onde se fixará e virá a adquirir cidadania francesa. No Bestiário encontramos aquele que foi o primeiro conto publicado por Cortázar: Casa Ocupada. O episódio da publicação foi descrito por Jorge Luis Borges (1899-1986) e merece ser recordado:

Em mil novecentos e quarenta e tantos, eu era secretário de redacção de uma revista literária [Los anales de Buenos Aires], mais ou menos secreta. Certa tarde, uma tarde como tantas outras, um rapaz muito alto, cujos traços não consigo recuperar, trouxe-me um conto manuscrito. Disse-lhe que voltasse dali a dez dias e que lhe daria o meu parecer. Voltou dali a uma semana. Disse-lhe que o seu conto me agradava e que já tinha sido entregue na tipografia. Pouco depois, Julio Cortázar leu em letras de imprensa «Casa Ocupada» com duas ilustrações a lápis de Norah Borges. Passaram-se os anos e ele confiou-me uma noite, em Paris, que aquela fora a sua primeira publicação. Honra-me ter sido o seu instrumento.


Casa Ocupada é boa introdução ao universo cortazariano, com suas figuras fantasmagóricas povoando as memórias de um espaço e influindo em situações cujos tempos são indetermináveis. Mas os contos de Bestiário introduzem-nos, igualmente, noutras dimensões da obra do autor de Rayuela (1963) que serão posteriormente desenvolvidas até à exaustão. Neles deparamos com seres fantásticos tais como as mancúspias, alucinações produzidas por obsessões inexplicáveis (o jaguar do conto que ofereceu o título ao livro), porventura projecções de conteúdos provenientes do inconsciente. A face surrealista desta obra torna-se evidente, mas não esgota o sentido da mesma. Do mesmo modo, o absurdo não é o aspecto mais determinante nos livros de Cortázar. É inegável a importância do absurdo, o carácter subversivo e inventivo, o humor negro da escola surrealista, mas todos esses elementos parecem conjugar-se sob o tecto de uma interrogação acerca dos limites da linguagem na sua relação com o real.
 Histórias de Cronópios e de Famas (1962), um dos mais populares livros de Cortázar, radicaliza a dimensão absurda das suas histórias. Porém, encontramos nesses relatos que subvertem o quotidiano, sabotam a normalidade, renegam perspectivas unilaterais sobre a vida comum, buscam o caos que se esconde nas sombras da verdade, encontramos nesses relatos uma interrogação sobre o papel da linguagem que se manifesta tanto em experimentações sintácticas, onde o dizer procura adequar-se às surpresas do real, como numa muito objectiva tomada de posição sobre o aspecto labiríntico de uma narrativa (recorde-se que a figura do Minotauro no labirinto é uma das que primeiramente interessa ao escritor). Neste sentido, o texto inicial do famoso Manual de Instruções (uma das quatro partes que compõem as Histórias de Cronópios e de Famas) funciona como uma espécie de “arte narrativa”:


Ter de ganhar o dia-a-dia todos os dias, esbracejar num mundo pegajoso, ter de acordar todas as manhãs num repugnante cubículo, e satisfeito que nem um cão por tudo estar nos seus lugares: a mesmíssima mulher, os sapatos de sempre, o eterno sabor da eterna pasta dentífrica, a mesma tristeza das casas fronteiras, a suja tabuleta com o letreiro HOTEL DE BELGIQUE.
Enfiar a cabeça como um touro vencido pela multidão transparente em cujo centro tomamos o café com leite e folheamos o jornal para saber o que aconteceu num ponto qualquer do globo. Não consentir que o acto delicado de girar o trinco da porta, acto que tudo poderia modificar, se cumpra com a fria eficácia de um reflexo quotidiano. Até logo, querida. Passa bem.
Apertar uma colher na mão e sentir o seu gemido de metal, a sua advertência suspeita. Dói negar uma colher, negar uma porta, negar tudo o que o hábito seduz com suavidade satisfatória. É tão mais simples aceitar a solicitude fácil da colher, usá-la para mexer o café.
E não há nada de mal em que as coisas nos não vejam mudar.
Que ao nosso lado esteja sempre a mesma mulher, o mesmo relógio e que o livro aberto sobre a mesa de cabeceira recomece a andar na bicicleta dos nossos óculos, por que haveria isso de ser mau? Mas há que baixar a cabeça como um touro triste e empurrar para longe o centro do globo de cristal, até outro tão perto de nós, inacessível como o picador tão perto do touro. Forçar os olhos para o que no céu aceita teimosamente o nome de nuvem, sua réplica catalogada na memória. Não penses que o telefone te irá dar o número que procuras. Por que razão to daria? Somente o que já tens preparado e pronto, o triste reflexo da tua esperança, esse macaco que se coça à mesa e treme de frio, chegará aos teus ouvidos. Escavada a cabeça a esse macaco, vai contra as paredes, rebenta-as. Alguém que canta no andar de cima! Nesta casa há um andar de cima, com outras pessoas! Um andar de cima onde vivem pessoas que nem imaginam o andar de baixo, e cá estamos todos na bola de cristal. E se de repente uma traça aparece na ponta de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olha-a, a essa traça que vive na bola de cristal frio, nada está perdido. Ao abrir a porta, ao chegar à escada, saberei que a rua está já ali em baixo; não o molde imposto, não as casas conhecidas, não o hotel em frente: a rua, floresta viva onde cada instante pode invadir-me como uma magnólia, onde as caras começam quando as olho, quando avanço, quando com os cotovelos, pestanas e unhas me atiro minuciosamente contra a massa da bola de cristal, e arrisco a vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal à esquina.

Sendo certo que estes contos emanam por vezes coincidências entre o ambiente arquitectado e os aspectos biográficos conhecidos do autor - «Há anos que trabalho na Unesco e outros organismos internacionais e ainda conservo algum sentido de humor…», diz no conto Possibilidades da Abstracção -, não menos certa é parecerem construídos no interior de uma vertigem sugerida pela relação entre o sujeito que observa e o objecto observado. Permito-me sublinhar do texto supracitado a oposição entre o quotidiano banal e os efeitos surpreendentes obtidos pela recusa dessa banalidade. Sentir o gemido do metal da colher é olhar a colher já de uma outra forma, é apreendê-la de um modo incomum, é aceitar que uma colher não é apenas uma colher nem apenas uma colher cabe num nome, é perspectivar o mundo aceitando na sua lógica interna o caos que nos ameaça, é aceitar uma realidade que escapa à nossa necessidade corrente de formatar, organizar, explicar, compreender, é ver para lá do visível partindo do princípio que aquilo que não vemos, o fruto da imaginação, é inerente ao que sentimos: logo existe com a mesma força do que vemos. Borges dizia ainda:

As personagens da fábula são deliberadamente triviais. Rege-os uma rotina de amores casuais e de discórdias casuais. Movem-se entre coisas triviais: marcas de cigarro, montras, balcões, uísque, farmácias, aeroportos e cais. Resignam-se aos jornais e à rádio. A topografia corresponde a Buenos Aires ou a Paris e podemos acreditar a princípio que se trata de meras crónicas. Pouco a pouco sentimos que não é assim. Muito subtilmente o narrador atraiu-nos para o seu terrível mundo, em que a felicidade é impossível. É um mundo poroso, em que se entretecem os seres; a consciência de um homem pode entrar na de um animal ou a de um animal num homem. Também se joga com a matéria de que somos feitos, o tempo. Nalguns contos fluem e confundem-se duas séries temporais.

Não concordando necessariamente com o juízo moral, parece-me certa a leitura do processo. No entanto, ao atrair-nos para o seu mundo o narrador alerta-nos sobre novas possibilidades acerca do nosso próprio mundo. De facto, não coexistimos em mundos diversos. Partilhamos o mundo da linguagem. E se o meu mundo é a minha linguagem, ou vice-versa, então, mais uma vez, estamos na presença de um esforço de reconstrução da realidade que só pode transcender as convenções do discurso. O fantástico, em Cortázar, não se opõe ao real, ele é a própria realidade. Assim devemos aceitá-lo se o pretendemos entender. A colectânea As Armas Secretas (1959), sobre a qual escrevi este texto, é das primeiras onde as séries temporais se confundem com especial interesse. O conto Cartas da Mamã é disso extraordinário exemplo. Mas mais do que a confusão de tempos e de espaços geográficos, o que me parece agora importante sublinhar é o swing dos textos, o ritmo que as palavras incutem às imagens e que estas percutem nas situações convocadas. Improviso? Talvez, como improvisar é frasear entre riffs meticulosamente construídos. Note-se como da trivialidade de que fala Borges a personagem central de As Armas Secretas consegue concluir a excepcionalidade de tudo e o absurdo que rege as coisas, sonho de desejos obscuros que pululam na mente e se projectam nas acções de um modo mais ou menos fiscalizado. Concluamos:

Agora vou pensar em ti, querida, apenas em ti, durante toda a noite. Vou pensar apenas em ti, é a única forma de me sentir a mim mesmo, ter-te no centro de mim mesmo como uma árvore, soltar-me, pouco a pouco, do tronco que me sustém e me guia, pairar à tua volta, com cuidado, sondando o ar com cada folha (verdes, verdes, eu mesmo e tu mesma, tronco de seiva e folhas verdes: verdes, verdes), sem me afastar de ti, sem deixar que o outro se intrometa entre tu e eu, me distraia de ti, me prive nem que seja por um segundo, que esta noite está a girar até ao amanhecer e que lá, do outro lado, onde vives e dormes, será outra vez de noite quando chegarmos juntos e entrarmos em tua casa, quando subirmos os degraus do alpendre, acendermos as luzes, faremos festas ao teu cão, beberemos café, fitar-nos-emos durante algum tempo, antes que eu te abrace (ter-te no centro de mim mesmo com o uma árvore) e te leve até às escadas (mas não há nenhuma bola de vidro) e começamos a subir, a subir, a porta está fechada, mas tenho a chave no bolso…

A DESCULPA DO ALEIJADO É A MULETA

Já de madrugada, falaram-me da mítica intervenção de Pires de Lima na Assembleia da República. Fiquei incrédulo, não por depositar qualquer tipo de esperança num homem que consegue ver um bocadinho do Ronaldo em cada português (aqui), mas por julgar, na minha ingenuidade, que o tom aparvalhado do ministro já não espantaria quem quer que fosse.
É o terceiro a pedir desculpa, depois de Crato e da ministra anti-impunidade. Isto permite-nos estabelecer um padrão, este governo é o das desculpas de mau pagador. Mas enquanto o ministro, que parecia possuído por doses industriais de uma qualquer droga, garantia que tinha eliminado muitas taxinhas (sic), voltava à carga com metáforas sobre Ronaldo (é fixação), enquanto ironizava com profecias sobre António Costa num tom de adolescente estupidamente arrogante, enquanto tecia piadas de mau gosto sobre um ex-ministro, ele próprio outro fenómeno de aparvalhamento das instituições públicas, enquanto confundia a Catherine Deneuve com o Michael Phelps, enquanto exibia um ar histriónico completamente inapropriado, enquanto tudo isto e muito mais que outros se encarregarão por certo de esmiuçar ao pormenor, enquanto este ministro ministrava… mais 25 empresas fechavam no país.
É este número que os sorrisos e as piadas do palhaço não fazem esquecer: mais de 25 empresas fecham por dia em Portugal. O palhaço pode ir ao circo fazer o seu número, mas fora da tenda a vida continua. As pequenas empresas continuam a fechar, as multinacionais vão prosperando à conta de acordos fiscais secretos, dois milhões de pessoas em Portugal estão em risco de pobreza. A alegria do ministro, infelizmente, não é contagiante, apenas inflama a revolta conformista e inerte que a maioria dos portugueses expressa na popular expressão: são todos a mesma merda. O resto reflecte-se nas urnas com os níveis de abstenção que nos orgulham, nas urnas e nas ruas de Bruxelas.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Será que as nuvens se queimam quando se aproximam do sol?
Beatriz, 8 anos.

MULHERES

Título do Público: cadeias têm quase 500 presos a cumprir pena por violência doméstica. Vem no Diário de Notícias: Facebook e a Apple estão a oferecer às funcionárias a possibilidade de congelarem os seus óvulos, incluída no seguro de saúde. O objectivo é atrair e manter as mulheres talentosas na empresa. E também no Público: portugueses usam mais as redes sociais do que a média europeia. Presumo que muitos dos utilizadores sejam mulheres, algumas feministas. Não há nenhuma relação entre estas notícias, a não ser o facto de todas elas poderem ajudar a compreender um pouco melhor o mundo em que vivemos. Já agora, o maior sucesso de não-ficção em Portugal neste momento é um livro sobre maquilhagem. A discussão sobre o piropo continua, oferecendo a oportunidade às colunistas do costume de se confessarem vítimas de “assédio sexual de rua”. Nunca pratiquei a arte do piropo, não gosto de redes sociais, felizmente não conheço casos de violência doméstica na família mais próxima e o tema social da maquilhagem não me interessa minimamente. Devo ser uma espécie de cronópio.

O AMOR SAGRADO E O AMOR PROFANO


Esta detestável pintura representa um velório nas margens do Jordão. Raras vezes pôde a estupidez de um pintor aludir com maior baixeza à esperança do Mundo num Messias que brilha pela ausência; ausente do quadro que o mundo é, brilha horrivelmente no obsceno bocejo do sarcófago de mármore, enquanto o anjo encarregado de proclamar a ressurreição da sua carne patibular espera impávido que os desígnios se cumpram.
 
Julio Cortázar, in Histórias de Cronópios e de Famas, 2.ª edição, Editorial Estampa, Fevereiro de 1999.

O JOVEM BRUNO

O jovem Bruno, que ‘inda há dias se assanhava com críticas ao seu, só seu, de mais ninguém Sporting, veio agora para o Facetruques chamar preguiçosos aos funcionários do seu, só seu, de mais ninguém Sporting. Indignos de vestir a camisola que ele, só ele, mais ninguém ama, adora, venera, os trastes deram ontem a resposta que o “presedente” não merecia. O jovem Bruno merecia ter ficado sozinho, só ele, mais ninguém senão ele com o seu Sporting. Ontem indignos, hoje o quê? Que terá escrito o jovem Bruno na sua página? Estará alguém curioso? Não faria melhor se seguisse os seus próprios conselhos quando o assunto são maus funcionários?

terça-feira, 4 de novembro de 2014

SOBRE PERTURBAÇÕES INFANTIS

Aqui.

#49


Dizer que ao terceiro álbum, este Ladies and gentlemen we are floating in space (1997), os Spiritualized almejaram um lugar na história da música vale o que vale. Pouco, se pensarmos noutros registos igualmente empolgantes que a mesma história tem vindo a consumir nas chamas do esquecimento. A verdade é que a banda de Jason Pierce (aka J Spaceman) e John Coxon legou-nos um momento absolutamente irresistível de encontro entre várias expressões musicais, do rock, na sua raiz mais bluesy (nunca a harmónica foi tão bem aproveitada na década de 1990), ao gospel, do gospel ao jazz, do jazz à música erudita, com orquestrações épicas, coros cuja espiritualidade faz implodir a própria noção de espírito, secções de sopros desvairadas, guitarras em transe, evocações purificadoras que transformam a música em pura medicina. O design de capa não é ingénuo. Este álbum, na articulação que opera entre instantes introspectivos e exercícios de relaxamento, com texturas meditativas cativantes e circunstâncias de expansividade sónica próxima do psicadelismo mais alucinado, produz efeitos terapêuticos comprovados. A dimensão sinfónica das composições transcende, porém, o truque hipnotizante da repetição exaustiva, arriscando tudo em alternâncias rítmicas que tanto permitem levitar sobre campos geometricamente perfeitos como desbravar os terrenos de uma confusa selva de paixões. Adrenalina e comoção:


SAUDADES DO QUE NÃO FUI


Para Manuel de Freitas

Saudades da boémia que não sei:
O excesso de bebida. O charro.
(Eu sempre fui respeitador da lei,
Mas de barro.)

Saudades do balcão com a amizade
E o copo de cerveja.
(À noite, despe-se a cidade:
Único corpo nu que me deseja.)

Saudades do carinho
No ombro, na coxa, no cabelo.
(A mão da morte entorna o vinho
À sede de bebê-lo.)

Saudades desse alguém
Que não sei onde mora.
(E não sei de onde vem
Quando demora.)

Saudades do amor
Que nunca foi o meu.
(E de que sou acusador
E réu.)

Saudades da exigir ao velho
A vertigem da fuga.
(Mas não se pode destruir, no espelho,
A ruga.)

(2004)

António Manuel Couto Viana (n. 1923 - m. 2010), in Restos de Quase Nada e Outras Poesias (2006). «Na primeira das publicações não periódicas de poesia dos anos 50, Távola Redonda, 20 números 1950-54 (...), podem distinguir-se duas formas de reacção contra a tendência de realismo social. / Uma dessas formas estéticas é a de um verismo céptico, quase cínico por vezes, e de qualquer modo propenso aos matizes nauseados, sartrianos ou camusianos, do existencialismo. António Manuel Couto Viana (...) preludia essa forma de sensibilidade, desde O Avestruz Lírico, 1948, com uma recusa algo envergonhada do «social», um enorme pudor de afirmar qualquer ternura ou sentimento intenso, com a sua obsessiva consciência do vazio e cansaço de menino amimado de «papas e carinho», depois bom rapaz das amizades de café. É um «soluço de fim de raça», em ritmos estróficos muitas vezes tradicionais e sensivelmente rimados, que, para se manterem «castos», procuram ser breves, mas são ainda mais discursivos que imagistas (...)» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa) «Atravessa estes poemas o trauma do fim absoluto de um Portugal mais vasto do que o das fronteiras europeias em que Couto Viana acreditou, por que lutou, em cuja derrota se sentiu perder. A este modo ideológico de ver as chamadas marcas, presenças, glórias portuguesas, a visitação de algum lugar onde elas se manifestam desencadeia a nostalgia da contemplação do vazio e, quem sabe, da inutilidade do sentimento político que fora desejado como condutor de uma colectividade. / Vazio; mas também plenitude. Pelo que de persistente sinal, ainda que sem um visível projecto de continuidade na história sem ser a do imaginário, pode ainda erguer noutro sonho além do sonho» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre).

UM PROCESSO MUITO PODEROSO DE CAPTAÇÃO

Estas situações poéticas são, sem dúvida, bastante intensificadoras de apelo sentimental porque, em última instância, ao contemplarem o presente das mudanças e o passado das permanências, instituem na linguagem dos versos um processo muito poderoso de captação: aquilo que desde os latinos ficou designado pelo motivo do Ubi sunt: a nomeação dos que desapareceram ou daquilo que se destruiu, a memoriante retomada de momentos maiores e exemplares. Num certo sentido, toda a vocação realista da escrita é uma manifestação ou uma preparação para o motivo do Ubi sunt. Que, ao enfatizar a transitoriedade da vida, a fragilidade e a relatividade da beleza, a degenerescência da própria época em relação a um qualquer passado mais glorioso ou como tal pretendido, não pode deixar de criar um tenso e intenso efeito de pathos. Assim funcionam estes momentos cimeiros de relações que são quaisquer poemas conseguidos sobre a ligação com um outro, que é sempre uma relação a morrer. E de tanto mais pathos quando se trata da relação de uma cultura (ainda que aparentemente sentida apenas por um indivíduo), com outra cultura. E em estado final.

Joaquim Manuel Magalhães sobre António Manuel Couto Viana, in Rima Pobre - poesia portuguesa de agora, Editorial Presença, Abril de 1999, p. 92.

domingo, 2 de novembro de 2014

SUICIDAS - antologia de escritores suicidas portugueses

Assumindo como ponto de partida Os Portugueses, um povo suicida (1911), um entre muitos textos que Miguel de Unamuno (1864-1936) dedicou aos amigos portugueses, Pablo Javier Pérez López (1983) corre o risco desnecessário de generalizar sobre um povo inteiro a partir de uma leitura subjectiva e demasiado curta para o fim a que se propõe. Basta atentarmo-nos à dimensão de Suicidas – Antologia de Escritores Suicidas Portugueses (Ática, Outubro de 2014) para percebermos haver aqui um claro exagero, sendo seis os antologiados (podiam ser mais, é certo) e, um deles, heterónimo entre tantos que se não mataram saídos da cabeça de Fernando Pessoa (1888-1935). Temos ainda o problema de saber quão justa poderá ser a generalização quando nem sequer os visados resumem a cultura ou sequer a extensão da literatura portuguesas. A Camilo Castelo Branco (1825-1890) podíamos opor Eça de Queirós (1845-1900), a Antero de Quental (1842-1891) podíamos opor Teixeira de Pascoaes (1877-1952), a Manuel Laranjeira (1877-1912) nada se opõe, é caso isolado, mas para Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) temos o amigo Pessoa e a Florbela Espanca (1894-1930) oporíamos de bom grado Judith Teixeira (1880-1959). Uns mataram-se, por razões lá deles, outros permaneceram vivos, outros embebedaram-se, outros exilaram-se, outros aburguesaram-se, outros enlouqueceram, outros levaram as vidas que levaram e nada temos que ver com isso. Importam as obras e saber se entre elas algo de comum emerge. É neste sentido que devemos desmontar, desde logo, o lugar-comum pronunciado por Valter Hugo Mãe no prefácio: «gosto dos escritores suicidas. Gosto do modo como tiveram a coragem para tudo» (p. 10). Estas declarações de gosto, tantas vezes ouvidas, caem no erro de tomar a floresta pela árvore. Há escritores suicidas de várias formas, tamanhos e géneros, sendo que poucos têm que ver uns com os outros. Quando dizemos gosto de escritores suicidas devemos ter em atenção que tanto Emilio Salgari (1862-1911) como Yukio Mishima (1925-1970) cometeram haraquiri (seppuku), não sendo fácil encontrar entre as obras de ambos os mínimos pontos comuns como fácil será encontrar o que neles há de humano e que os liga a todos os outros seres que escrevem. «Ter coragem para tudo» denota já uma leitura abusiva sobre as razões da (não)vida. Olhemos para os autores incluídos nesta antologia. Camilo Castelo Branco não teve coragem para viver cego, matou-se com 65 anos (boa idade para a época) e deixou escrito: «Não é costume nosso matarmo-nos quando o aborrecimento da vida nos enjoa. Em país algum seria maior a estatística dos suicídios do que em Portugal, se o tédio nos vencesse» (p.32). Portugal, um povo suicida? Em sentido literal? Que dizer dos austríacos (ver aqui)? Também Florbela estava doente quando resolveu antecipar a morte, e Mário de Sá-Carneiro confessou em três despedidas as razões “mesquinhas” da sua decisão: «Podia ser feliz mais tempo, tudo me ocorre, psicologicamente, às maravilhas: mas não tenho dinheiro» (p. 98). Já Antero, em carta a Oliveira Martins, foi sucinto: «A doença, dum modo ou de outro, é o meu estado normal» (p. 62). Doença e falta de dinheiro não fundamentam o “lado dramático” de um povo, que ainda que tenha feito do fado (e há tantos e tão diversos e nem todos são tristes) a sua canção nacional também tem o vira e o corridinho e o fandango. A leitura exagerada de Unamuno, que López infelizmente não desmonta, vem mais uma vez exibir as perspectivas hiperbólicas de «um povo triste», de «um povo de suicidas», de um povo desesperado, desgraçado, decadente, cansado, pessimista, melancólico, desiludido, deprimido, «essencialmente sentimental», padecendo de um «tédio moral» fatalista, sobre o qual pesa, como diria Laranjeira, «a herança trágica, secular, duma ignorância podre e duma corrupção criminosa». Tudo isto terá o seu quê de verdade, mas torna-se estupidamente parcial quando ouvimos cantar o galo de Barcelos ou aprendemos a conviver com o priapismo das Caldas. O que há de mais patético nestas leituras é precisamente o chavão da «dimensão trágica do povo português» que o antologiador sublinha, reduzindo à tristeza, ao pessimismo, ao desespero, à melancolia toda uma cultura que não se esgota em meia dúzia de autores. Eis que nos encontramos na ratoeira do sensacionalismo filosófico. Da mesma forma, parecem-nos erradas as generalizações exercidas sobre as putativas almas espanhola (quixotesca) e portuguesa (saudosista). São perspectivas redutoras que não só não encerram a realidade como lhe usurpam a complexidade paradoxal que está na génese de todas as culturas. O que se pretende, pois, com uma antologia destas? Reafirmar chavões sobre os portugueses? Não me parece ser possível estabelecer padrões a partir de tão frágeis alicerces. No estudo que encerra a antologia, Pablo Javier Pérez López afirma que: «A ausência, a morte vivida e a vida não vivível culminam no existir português» (p. 146). Tal asseveração carece de fundamento que cinco autores e um heterónimo não oferecem, sendo certo que a mesma valeria igualmente, fosse nossa intenção abordá-la pelos mesmos pressupostos, para o existir francês, anglo-saxónico, russo ou argentino… Que valor têm estas afirmações quando confrontadas com as vidas de Camões ou de Bocage? Pode alguém "viver mais" do que viveram esses dois portugueses?

sábado, 1 de novembro de 2014

PROFISSÃO POETA

...empregou-se no comércio, tendo sido propagandista de produtos farmacêuticos, profissão curiosamente comum a alguns poetas.
Jorge de Sena, sobre Luís Veiga Leitão.

ESCOLA DE ARTISTAS

Ontem, enquanto comia uma bifana e bebia uma imperial num café das imediações, fiquei dividido entre o jogo do Benfica, que passava na televisão, e o Correio da Manhã, numa mesa ao lado. Peguei no jornal e li as notícias de primeira página. Parece que um actor qualquer apanhou uma bebedeira, uns putos fotografaram e o jornal deu a notícia. Explicava-se que o actor já tinha pedido desculpa pelo sucedido e até teria marcado um tratamento de desintoxicação (?). Não sei o que é pior, se a notícia se a forma como os visados reagem. Eu, se fosse para clínicas de cada vez que apanho uma bebedeira passava a vida num colete-de-forças. Desintoxicação? Só se for do Correio da Manhã e do jornalismo pífio que representa. Deixem lá o rapaz embebedar-se e pôr a casa à venda e drogar-se e ir às putas, é humano e pode fazer-lhe bem. Diz que tem sido boa escola para artistas.


p.s.: numa das fotografias, o "alcoólatra" aparecia a beber uma cerveja de litro e meio. Ridículo.p.p.s.: isto deu-me uma ideia, vender ao Correio da Manhã fotografias do mesmo género com uma amiga famosa que eu cá sei. Vou propor-lhe o negócio.

VENCIDO PELA PARVOEIRA

Como se não bastasse o Carnaval, temos que aturar agora o Halloween. No Carnaval copiámos os brasileiros. A cópia fica ridícula, com sambistas em terras de vira a exibir fio dental à chuva. É uma espécie de Carnaval dentro do Carnaval, uma fantochada deprimente e sem sentido. Haver quem goste não me espanta, muitas pessoas parecem gostar do Correio da Manhã, da Casa dos Segredos e porcarias afins. Uma sociedade infantilizada também se constata nestas opções das massas, tendo depois por efeito um clima degradante onde quem pensa é estranho, onde quem crítica é invejoso, onde quem se preocupa é parvo. Sabem as pessoas queixar-se de políticos corruptos, maus árbitros, juízes lentos, polícias inoperantes, hospitais inumanos, sabem queixar-se da falta de civismo que, como sabemos, só não corrompe quem se queixa. E queixam-se dos filhos, são tão infantis! De onde pensam que isto vem? De onde pensam que vem? Enquanto não pensam, resolvem mascarar-se de bruxas e de mortos vivos e de fantasmas e d'outras palermices importadas dos states. Mais uma vez, imitam tradições alheias, metem na gaveta as suas próprias tradições, não perdem uma oportunidade para infantilizar. As lojas de adereços agradecem, o comércio agradece, o consumo também. Quem não agradece é o pão-por-deus, ritual esquecido e perdido entre bairros construídos em altura onde os pais temem que os filhos andem de sacola na mão a bater de porta em porta. É uma vergonha pedir, numa sociedade rica e abastada como a nossa é uma vergonha pedir. Pedir é mendigar, é ser pobre, é não ter sido capaz, é ter falhado. As pessoas de sucesso não pedem, mascaram-se. Por isso se mascaram os miúdos de esqueletos e de Monster High e d'outras merdas afins. Tem sido difícil mostrar cá em casa, sobretudo à mais pequena, a deslocação desta fantasia que nada tem de ingénua. É uma doença, é uma doença que se manifesta na confusão de valores com um único objectivo: ser tudo cada vez mais igual, ser tudo cada vez menos singular, ser tudo cada vez mais padronizado, fardado, apatetado, mascarado. Esta opção pela importação da idiotice tem consequências, algumas já estão à vista: faltam romãs na fruteira.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ACRE E DURA CARNE


Pátria onde nasci   Desespera
vê-la tão seca na matriz
Acre e dura carne (austera)
no coração do meu país

Flor de saibro  O rosto mole
vem da névoa cega e fria
Rastros do carro do sol
carregando o corpo do dia

Ondas de pedra — a fúria nos arcos
da voz: Morda   aguente   e fique!
E os pinhais — cascos de barcos
que navegaram a pique

Mentira o Fado que se toca:
Na pedra mais pedra   mais secreta
abre-se e rasga-se uma boca
onde um pássaro canta e dejecta

Lá   a cabra   o vento   o poeta
naturais de alma e corpo ao léu
trazem nos ventres o demo
e à flor dos cornos o céu


Luís Veiga Leitão (n. 1915 - m. 1987), in Ciclo de Pedras (1964). «Entre os poetas que nos anos 50 se tornaram conhecidos pela opção do realismo social popular e pela combatividade democrática nenhum se manteve mais firme do que Luís Veiga Leitão (...). Caracteriza-se pela recuperação de uma certa ingenuidade directa, muito afectiva, sob uma pretensão de dureza rochosa, numa poesia de resistência ou em textos de testemunho e sonho» (A. J. Sariava, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

COMICHÃO

Pode estar um calor incomum para fins de Outubro, princípio de Novembro; as melgas podem andar assanhadas, deixando-me o corpo todo mordido numa aflitiva comichão; pode o clima, o país, o mundo andar do avesso. Nada me parece mais inusitado e despropositado do que o Halloween num país de sebastiões.