sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CONTRIBUTO PARA UMA NOVA TESE SOBRE A TORTURA

Chego através do Provas de Contacto ao texto mais sensaborão e mal escrito de 2014. A deputada constitucionalista pode estar cheia de boas intenções, mas as boas intenções não são, definitivamente, generosas para com a literatura. Este Sair do corpo para entrar nele, presumo que no próprio corpo, só não está ao nível de um Prometo Falhar porque o segundo tem mais caracteres. Diria mesmo que depois dos temores de Assunção Esteves, meritíssima Presidente da Assembleia da República Portuguesa, quanto ao, e passo a citar, “inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivado da crise”, fim de citação, o grande momento do ano de 2014 quanto a tontices proferidas pelas elites do poder político é a hesitação de Isabel Moreira entre o orgasmo e a escrita que, logo a começar, nos deixa banzados com um experimentalismo sintático de cortar o fôlego:

Acordou de manhã no final do ano de 2014. Esticou o corpo e sentiu uma dor.
Recordou no toque a que sabe ter direito essa dor.
Que é coletiva.

Eduquem-se hermeneutas capazes de decifrar, que eu mal me posso conter com o que vem logo a seguir. Uma novíssima tese sobre a condição feminina diz-nos que ser mulher está presente nos “dedos matinais”. Há os dedos vesperais, os dedos nocturnos, os dedos vespertinos, os dedos diurnais, os dedos do meio-dia. Ser mulher está nos dedos matinais:

Sente-se ameaçada porque o seu contrato de trabalho não é renovável automaticamente, mas não se sente ameaçada, na sua vida, por ser mulher, essa condição tão presente nos seus dedos matinais.
Abela, uma rapariga asiática, puxa-lhe os dedos de dentro para fora, recorda-lhe que no mesmo dia daquele prazer solitário, a vida dela vale menos do que a vida do seu irmão e que está em risco de morte por falta de comida.

Estes dedos matinais têm particularidades, são dedos que que se puxam de dentro para fora. Nada de extraordinário se repararmos que em meia dúzia de linhas mal escritas temos já uma síntese do mundo laboral (“contrato de trabalho não é renovável”), da condição feminina (a cena dos dedos) e das assimetrias sociais no mundo (a vida dela vale menos do que a do irmão, alguém está em risco de morte porque tem fome). Ora, para resolver a fome nada melhor do que, lá está, uns marotos dedos matinais:

Acordou de manhã e agora tenta fazer explodir atomicamente estas paisagens, quer tocar-se e vir-se, sem culpas, essa coisa de que já se livrou, essa coisa que a religião faz às crianças, às meninas – “não te toques” – esse abuso de menores, quer apressar o alívio de um orgasmo, mas tem um texto lixado para escrever e puxa os dedos para o umbigo.

Camandro! Realmente, isto de ter textos para escrever quando se tem fome, contractos de trabalho não renováveis, vidas por um fio e desejos por satisfazer... é fodido. Portanto, toca de refrear desejos e meter mãos ao serviço. Os dedos matinais que se recolham ao umbigo e aí se submetam às mãos, porventura aurorais, para a grande tarefa do dia. Nada de masturbação, nada de onanismo, nada de puxar os dedos para zonas tentadoras (a religião não faria melhor do que a consciência). A religião pode dizer não te toques, mas a política fala mais alto: toca-te, mas não agora. Espera um pouco, primeiro…

…escreve, muda, nomes e nomes de mulheres dos dias de hoje, limitadas à sua função reprodutora, assassinadas e violadas em teatros de guerra, sangue pela “honra” dos homens, apedrejadas nos países muçulmanos dominados pelas fações extremistas do islão, subjugadas a um projeto de aniquilamento, de apagamento.

Assunto sério. Ou nem por isso, tal a parvoeira que se segue:

Acordou de manhã e agora faz regressar os dedos aos seus lábios, não quer escrever o texto, quer sentir os seus lábios, interiores e exteriores, o seu clitóris, gozar desta integridade. Mas no deslize dos dedos a humidade parece vir dos olhos, dos olhos das meninas africanas vítimas de excisão e de infibulação, tantas vezes por parte das próprias mães, também elas vítimas do sistema que lhes diz que é assim e porque é assim negam a vida, ou o corpo ou a sexualidade futura a estas crianças.

Não se decide, continua a hesitar entre o texto e a masturbação, a lubrificação vaginal e o fluido lacrimal, anda ali com os dedos matinais entre as pálpebras e o aparelho reprodutor feminino (nota-se uma imperdoável ausência de referências às Glândulas de Bartholin), anda com a cabeça entre a vagina e os problemas do mundo. Devo confessar que o mesmo me sucede todas as manhãs durante a hora do banho, só não tenho vagina. O hiper-realismo da prosa seria, por isso, por isto e por aquilo louvável não fosse o que se segue (os sublinhados são meus e, quase aposto, do João César das Neves):

Acordou de manhã pensando que talvez fosse fácil uma masturbação e partir para o trabalho, mas tinha um texto para escrever, e trabalha porque teve acesso à educação, e retira o indicador de si, o mesmo que dizia as letras por baixo e gritam-lhe no quarto as raparigas sem saúde nem educação, as mulheres para quem ser mãe não é bênção, nem opção, nem escolha, mas um risco. Um risco resultante de uma ação sobre um mero objeto de desejo e de satisfação masculina e proprietária.
É de continuar a tirar o dedo, porque não estamos a falar de um mundo distante, que ainda que o fosse seria vizinho, porque não há sofrimento ao quilómetro; estamos a falar do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país, no nosso universo familiar, onde as mulheres sofrem maus-tratos conjugais, psicológicos e sexuais, estamos a dizer (estou a dizer) que a família é um local de risco para se existir. Mesmo aqui, onde não é o véu que nos esconde nem o casamento forçado que nos força.

Devo esclarecer, antes de mais, que a minha família não é para aqui chamada. Mas uma pergunta impõe-se: como pode alguém masturbar-se com tanta desgraça na cabeça? Segue-se um fastidioso parágrafo sobre questões técnicas, escrito com os dedos dos pés.
Acordar então e fazer dos dedos uma arma simbólica para a explosão de prazer e de direitos que aqui se têm e ali, mesmo ali, o silêncio esconde numa dor que tem de ser coletiva. Porque é coletiva.
Retira o indicador de si, o mesmo que dizia as letras por baixo (trata-se, certamente, de uma liberdade poética esta coisa do indicador dizer letras por baixo), continua a tirar o dedo, faz dos dedos uma arma simbólica para a explosão de prazer… O texto ia bem no seu naturalismo erótico com claras preocupações sociais e políticas, ligeira mas agradável prosa de homenagem a um neo-realismo tardio de inclinação feminista. Resvalou tudo para a javardice quando do indicador passamos para o dedo e deste para o seu plural. Ora, um dedo ainda se aguenta. Agora os dedos todos é uma clara hiperbolização da simbolística revolucionária que hesita entre o orgasmo e a produção de chachadas destas. Tem um mérito esta prosa: de tanto ouvirmos em acordar de manhã apetece-nos adormecer, voltar a dormir e esquecer mais este triste episódio oferecido pela intelligentsia nacional.

PREVISÕES PARA 2015

Perfume Genius e Édouard Louis serão apresentados um ao outro no espaço de convívio de uma qualquer gala onde se celebrará o melhor da cultura internacional em 2014. No dia seguinte, Louis tomará a iniciativa de enviar um ramo de flores a Genius. Se fosse o Pedro Chagas Freitas, escreveria num bilhetinho algo como “o teu perfume é genial”. Não é, pelo que teremos de nos contentar com uma mensagem simples do tipo jantar às oito na Rua do Trombeta. Felizmente, a Rua do Trombeta é em Lisboa. Poderão apanhar um táxi sem recorrer a seguranças. O jantar correrá lindamente, Genius e Louis apaixonar-se-ão para a vida. O casamento ficará marcado lá para Agosto, com lua de mel em Moscovo oferecida por Vladimir Putin numa iniciativa que os anticomunistas primários designarão de marketing político abaixo de cão. Alheios ao mundo e apaixonadíssimos, Genius e Louis serão felizes para sempre. E terão muitos filhos, primeiro adoptados em campos de refugidos. Posteriormente grelados em barrigas de aluguer norte-coreanas com a colaboração de hackers patrocinados pela Sony Pictures. Joana Amaral Dias será requisitada por 52 canais de televisão portugueses para comentar estes e outros eventos, mas os telespectadores ficarão chocados quando repararem que a conhecida comentadora de futebol, política, sexualidade e horticultura biológica trocou o risco ao meio por uma franja. 2015, ano do fim. Senão do mundo, desta nação com quase mil anos de história. O tempo passa depressa.

sábado, 20 de dezembro de 2014

WEBLOGS

J. Rentes de Carvalho hesitou nos cumprimentos, respigando no mestre Thoreau a ideia de que o cumprimento pode implicar uma qualquer pretensão de superioridade. A inversa também vale, é como a história dos dois que passam um pelo outro e nenhum toma a iniciativa do cumprimento à espera que o outro o faça. Em 2003, quando vim parar ao mundo dos weblogs, o cumprimento praticava-se em repeat. Havia até quem elaborasse uma espécie de best of year awards com direito a prémio e festa de arromba. Nesses tempos, eram frequentes os encontros entre webloggers. Fui a dois, um em Leiria e outro no Porto. Não me arrependi, embora tenha servido de lição para o futuro. Ou seja, nunca mais meti os pés em feiras congéneres. Seja como for, não é por superioridade, ai de mim, que cumprimento os meus camaradas. É por gratidão pelo bom tempo que me proporcionaram ao longo do ano que passou, pelo que fui aprendendo ou desaprendendo, pela partilha. Aqui deixo, pois, sem desprimor para os demais, um cumprimento especial aos resistentes da denominada blogosfera que mais visitei durante o ano prestes a findar. Um termina, outro começa. Grato:
Boquinha d’O (qu'é feito de ti, ó sereia desgrenhada?)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

LAJES

Quantas mentiras esta imagem contabiliza? E quantas mortes na sequência dessas mentiras? Nem uma palavra de repúdio, asco, indignação, tenho lido sobre as revelações acerca dos métodos de tortura levados a cabo pela CIA durante a famigerada guerra contra o terrorismo. Terrorismo, palavra cada vez mais difícil de definir. O que são as personagens nesta imagem senão terroristas? Quanto sofrimento, quanta dor, quanta destruição desnecessários na sequência das suas decisões? Mentiras sobre as quais se perpetraram crimes, crimes dos quais se extraíram milhões, negócios erguidos sobre destroços, sobre corpos de gente que era mesmo gente. Não foi um filme, não foi teatro, não foi banda desenhada. Ainda é. E é real. É a realidade de gente sem pernas, sem braços, sem família, é a realidade da guerra, dos deslocados, dos desalojados, dos expropriados, é a realidade do ódio crescente e em marcha que uma coisa chamada Estado Islâmico agudiza e torna aos olhos de todos nauseante. Porque as cabeças cortadas, os corpos decepados, chocam de imediato. Mas sobre esta imagem há um outro choque, um choque mais profundo, um choque que se esconde e se disfarça como durante séculos andámos a disfarçar escravatura, caça às bruxas, tráfico. Quantos mortos, quanto sofrimento, esta imagem contabiliza?

TERRORISMO DE ESTADO

A ler, aqui:
Nem na Saúde, nem na Educação, nem em nenhum outro sector, não há memória de um Governo que se tenha atrevido a decretar serviços máximos através de uma requisição civil que esvazia completamente o direito à greve (…). O que fez o Governo perder a cabeça foi o seu direito a não deixar a venda da TAP para aquele que lhe suceda. O valor líquido do encaixe para os cofres públicos, como é sabido, resume-se a poucas dezenas de milhão. Não será por aí. Ainda mais proveitos submarinos, então?

NEGÓCIO OPACO

Camarada Van Zeller, o caso dos submarinos foi ao fundo. Dizem que prescreveu, nada a que não estejamos habituados onde taxistas agridem clientes com motivos homofóbicos e são convidados a sair da empresa à qual estavam vinculados. Convidados a sair é um eufemismo generoso num país de malta generosa e porreira. No caso dos submarinos, os noticiários apontam ilegalidades administrativas. Os procuradores que investigaram o caso dizem que o irrevogável Portas excedeu mandato em negócio opaco. Opacidades e excessos que não convidam a sair. Infelizmente, Portas não anda de táxi. Se andasse, podia oferecer a um taxista a glória da nossa hospitalidade. Oito anos para investigar este negócio opaco e ficarmos a saber que as ilegalidades cometidas não configuram necessariamente nenhum tipo de crime. Porquê? Porque, e passo a citar, documentos considerados relevantes não foram localizados. E ficamos nisto:
Quanto ao crime de fraude fiscal imputado aos quatro arguidos do processo, (Miguel Horta e Costa, Luiz Horta e Costa, Pedro Ferreira Neto e Hélder Bataglia) não foi possível seguir com a acusação porque os indícios existentes nos autos decorrem de declarações dos próprios decorrentes da utilização do Regime Excepcional de Regularização Tributária, que exclui  responsabilidades por infracções tributárias. De qualquer forma, mesmo que assim não fosse, a fraude fiscal estaria prescrita desde 2010.
Sobre os 30 milhões de euros pagos pelo consórcio alemão à Escom, uma empresa do grupo Espírito Santo, que se suspeitava terem sido utilizados para pagar “luvas”, os magistrados concluíram que “cerca de  27 milhões de euros ficaram ao que tudo indica na disponibilidade dos arguidos e de membros do Grupo Espírito Santo”. Mas os circuitos financeiros utilizados, envolvendo sociedades sedeadas em paraísos fiscais que não fornecem informação bancária e a celebração de empréstimos que aprovisionaram contas offshore “tiveram desígnios ocultos, que, em face da prova recolhida, não podemos afirmar quais foram”. Lamenta-se a inércia das justiças das Bahamas e da Alemã, que não enviaram os dados solicitados.
Lamentar-se a inércia da justiça das Bahamas é a cereja no topo do bolo deste negócio opaco, investigado durante oito anos para que uma dúzia de galifões possam passar o Natal em casa com saldos abastados à conta do erário público. E, claro, sem terem que recorrer a taxistas marados dos cornos. A imagem ao alto é do Público, jornal especializado na vida que Sócrates levava em Paris.

NOZOLINO & BAIÃO

Não é de agora a colaboração do poeta Rui Baião (n. 1953) com o fotógrafo Paulo Nozolino (n. 1955). Temos notícia dela no livro Nuez (frenesi, 2003) e, posteriormente, no catálogo da exposição bone lonely (Steidl, 2011), com um conjunto de poemas, assinados por Baião, traduzidos para língua inglesa por Yara Frateschi Vieira e Eric Mitchell Sabinson. Há, neste caso, uma sintonia entre as duas linguagens que torna natural o encontro. Quis o acaso que apenas recentemente tivesse acesso ao catálogo da exposição levada a cabo na Galeria Quadrado Azul em 2009, tornando-se-me possível intercalar esta leitura com a da mais recente recolha poética do autor de Nuez.
Rui Baião, recorde-se, foi um dos organizadores, com Paulo da Costa Domingos e Al Berto, da mais relevante antologia de poesia portuguesa vinda a lume na década de 1980: Sião (frenesi, 1987). De resto, a actividade deste poeta, muito mais discreto, reservado e conciso que os seus dois colaboradores na organização de Sião, está intimamente ligada ao surgimento da editora frenesi. A publicação de Quiasma (frenesi, 1982) marcou a estreia, tendo sido quase sempre com essa chancela que os livros de Rui Baião vieram a lume. Excepções mais recentes confirmam a regra, ampliando as possibilidades de contacto com uma poesia nem sempre de fácil acesso.  Asco (Debout Sur l’Oeuf, Novembro de 2014) colige poemas atravessados por uma «luz suja» (p. 28) que facilmente identificamos nas fotografias de Paulo Nozolino. 
Ao folhearmos o catálogo de bone lonely deparamo-nos com a estrutura óssea de uma paisagem decadente, composta por destroços, lixo, objectos afectivos deixados ao abandono, espaços domésticos deteriorados, numa espécie de congelamento lúgubre do tempo e da história. As figuras iconográficas que surgem a espaços levam-nos a pensar no mundo como numa morgue onde perduram congelados, tais cadáveres, os intervenientes da mudança e da revolução. Esta foi ultrapassada pelo tempo, deixando atrás de si um rasto de trapos velhos e de bairros fantasmagóricos. Um nu feminino surge isolado e a imagem da mulher que pega ao colo uma criança apenas acentua a presença dos afectos como resquício envolto em papel de parede deteriorado. Os versos de Rui Baião, sem se interligarem deliberadamente com estas imagens, ecoam a noite negra da extinção, afirmam-se como peças transviadas de um puzzle construído sobre cinzas. Palavras como aflição, angústia, fel, lama, nada, atingem-nos como facadas do tempo, medindo o pulso à morte num pântano de devastação e de ruína.
Voltamos a contactar com esta experiência do tempo, porventura mais ontológico, no livro Asco, título, aliás, que me parece igualmente programático quanto a uma certa forma de perspectivar a actualidade. Atentemo-nos ao poema da página 23:

Correria

Ruído luzeiro e vezeiro
é lágrima de rapaz sem
desculpa o nome Da morte
num lençol apetece dizer
até quando a faca aí busque
o céu ao cio O meu
amigo no teu silêncio
Um cão a ladrar ao longe
Fazia de conta Corria
o sangue Corria o ano
de mil nove e oitenta
e quatro Corre a correr
o já catorze E ninguém
usa o que é sonhar
Elíptica e enigmática, esta poesia ergue-se das cinzas do tempo e vai largando fragmentos de história que desafiam a leitura num registo estético onde a intenção perturbadora se sobrepõe a preocupações prosódicas ou a qualquer discurso de sedução. Os trinta anos aludidos no corpo do poema demarcam um intervalo que regista o declínio da utopia (sonho), fazendo-o com o recurso ao poder imagético de imagens como a do cão a ladrar ao longe ou ao uso de vocábulos contrastantes tais como ruído e silêncio. De um ao outro, percebe-se o negro da noite, o rastreio de uma precariedade humana cujo destino é a morte mas cuja fatalidade não tem (ou tinha) de ser o negrume das desilusões, «a ruína de fabrico próprio» (p. 29). Ora, é esta «doença / roída de ruíres» (últimas palavras do livro) que Asco expõe intensamente, tédio e repulsa que as fotografias de Paulo Nozolino manifestam tal os versos de Rui Baião derramam.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

UM POEMA DE MARGARIDA VALE DE GATO

Balada do Guarda-Livros da Penha de França

 

Isto são versos datados.
De gancho, engajados, démodés.
Isto é um poema de época.
É uma letra de intervenção do tempo
em que uma biblioteca tinha um palácio.
Tínhamos mapas antigos. Tínhamos
cartazes de anúncios, tínhamos capas de peles
de animais, tínhamos livros de vestir
bonecas e tínhamos volumes pequeninos,
com 100 anos para lá de velhos,
havia no palácio pessoas que estudavam os livros
e não eram os reis, havia pessoas
que tratavam dos livros e não eram os aios. 

Os livros podem sempre estragar-se
com a humidade e mais catástrofes.
Os bichos comem os livros com certa
facilidade, fazem carreiros
dentro do miolo, são do tamanho de uma unha,
se fossem maiores comiam um livro ao dia.
E conforme os livros eles vão ficar sujos.
Temos de evitar. Com mau tempo os livros
estragam-se e empolam, os livros como
a comida não podem ficar ao Sol.  

De repente, um despacho, ninguém pergunta.
De um dia para o outro uma alínea
e tropeça o palácio debaixo dos sapatos
de pelica da presidente da junta
que logo tratou de se descalçar.
Pôs-se à vontade e ligou ao património
para mandar vir obras. — E os livros?
indagaram as pessoas dos computadores
que chamam os livros pelos elevadores.
— Os livros fazem, claro, parte das obras.
proferiu a senhora vereadora, que dormitara
ao consultar a comissão na hora do chá.
Arranjamos-lhes uma cave aconchegada.
— E a humidade?
— A humidade é o menos — precaveu a assessora
da divisão da direção — fazemos-lhes um terraço
para enxugarem ao relento.
— E os leitores?
— Evidentemente — triunfou o relator
admirando o relatório — aqui está o leitor
tipo de perfil. Aqui têm a planta
da auditório polivalente.

A coleção de História de velino é que ficou deslocada.
A cidade atual dispensa Tito Lívio.
Não se pode tomar chá nem café perto dos livros,
os livros só servem para o passado
e para o imaginário. Não há impacto
societal entre livros e funcionários. 

O guarda-livros, assim retiradas as espécies
das estantes, assim dos arquivos as fichas, assim
escolhidas para lixo as pouco queridas,
levantando nos aros as pregas do nariz, medita:
Pode haver uma praga que justifica pôr uma pastilha
para dar cabo dos bichos ou ser juiz de mim.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

CRÍTICA 4.0

 
Pedro Chagas Freitas (n. Guimarães; 1979) gere com muita competência as expectativas de quem o segue. A sua destreza na construção de um discurso encontra paralelo em Paulo Portas na política, ou Gustavo Santos na auto-ajuda.
 
Escreve Mário Rufino, licenciado em Língua e Cultura Portuguesa. Palavras para quê?

ENCRUZILHADAS MORTAIS

Palavras trocadas na caixa de comentários deste post reenviaram-me para O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Sem delongas, deixo alguns sublinhados (edição Assírio & Alvim, tradução de Joana Moraes Varela e Manuel Carrilho):
 
Isto funciona por toda a parte: umas vezes sem parar, outras descontinuamente. Isto respira, isto aquece, isto come. Isto caga, isto fode. Mas que asneira ter dito o isto. O que há por toda a parte são mas é máquinas, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com as suas ligações e conexões. (p. 7)
 
O desejo faz constantemente a ligação de fluxos contínuos e de objectos parciais essencialmente fragmentários e fragmentados. O desejo faz correr, corre e corta. «Amo tudo o que corre, mesmo o fluxo menstrual que arrasta os ovos não fecundados», diz Miller no seu cântico do desejo. Bolsa das águas e cálculo dos rins; fluxo de cabelo, fluxo de saliva, fluxo de esperma, de merda ou de mijo, que são produzidos por objectos parciais, sempre cortados por outros objectos parciais que, por sua vez, produzem outros fluxos, que são ainda re-cortados por outros objectos parciais. Qualquer «objecto» supõe a continuidade de um fluxo, e qualquer fluxo a fragmentação de um objecto. Não há dúvida que cada máquina-órgão interpreta o mundo inteiro a partir do seu próprio fluxo, a partir da energia que dela flui: o olho interpreta tudo em termos de ver - o falar, o ouvir, o cagar, o foder... Mas há sempre uma conexão que se estabelece com outra máquina, numa transversal onde a primeira corta o fluxo da outra ou «vê» o seu fluxo cortado. (p. 11)
 
A sociedade constrói o seu próprio delírio ao registar o processo de produção mas não é um delírio da consciência, ou antes, a falsa consciência é a consciência verdadeira de um falso movimento, percepção verdadeira de um movimento objectivo aparente, percepção verdadeira do movimento que se produz na superfície do registo. O capital é, de facto, o corpo sem órgãos do capitalista, ou antes, do ser capitalista. Enquanto tal, o capital é não só a substância fluida e petrificada do dinheiro, mas vai também dar à esterilidade do dinheiro a forma com que este produz dinheiro. (p. 15)
 
Como diz Reich, o que surpreende não é que uns roubem e outros façam greve, mas que os explorados e os esfomeados não estejam permanentemente em greve; porque é que há homens que suportam há tanto tempo a exploração, a humilhação, a escravatura, e que chegam ao ponto de as querer não só para os outros, mas também para si próprios? Nunca Reich mostrou ser um tão grande pensador como quando se recusa a invocar o desconhecimento ou a ilusão das massas ao explicar o fascismo, e exige uma explicação pelo desejo, em termos de desejo: não, as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo num certo momento, em determinadas circunstâncias, e é isto que é necessário explicar, essa perversão do desejo gregário. (p. 33)
 
Os termos do Édipo não formam um triângulo, porque estão espalhados por todos os cantos do campo social, a mãe ao colo do professor, o pai ao lado do coronel. O fantasma de grupo está ligado, maquinado, ao socius. Ser enrabado pelo socius, desejar ser enrabado pelo socius, não deriva nem do pai nem da mãe, embora o pai e a mãe desempenhem um papel secundário como agentes subalternos de transmissão ou de execução. (p. 64)
 
Não é uma metáfora dizer que Hitler entesava os fascistas. Não é uma metáfora dizer que uma operação bancária ou da bolsa, um título, um cupão, uma nota de crédito, dão tesão, além dos banqueiros, a muita gente. E o dinheiro germinador, o dinheiro que produz dinheiro? Há «complexos» económico-sociais que também são verdadeiros complexos do inconsciente, e que são capazes de comunicar uma certa volúpia a toda a sua hierarquia (o complexo militar industrial). E a ideologia, o Édipo e o phallus não são para aqui chamados, porque eles em vez de estarem no princípio, dependem de tudo isto. O que há são fluxos, stocks, cortes e flutuações de fluxos; o desejo está sempre onde quer que haja algo a fluir e a correr, arrastando não só sujeitos interessados, mas também sujeitos embriagados ou adormecidos, para encruzilhadas mortais. (p. 109)
 
 
Para já, fico-me por aqui fazendo minhas (tomaria) as palavras da parelha Deleuze-Guattari. Desenvolverei assim que possa.

DESEJOS PARA 2015

Sou humilde nos meus votos, embora reconheça uma certa utopia nas vontades professadas. Deixo para os outros os mundos perfeitos, saúde e alegria, paz no mundo, o fim da guerra, deixo para os outros o paraíso. Eu só queria que os meus clientes deixassem de me perguntar se podem "desfolhar os livros". Detesto ter que lhes dizer que não, sobretudo em alguns casos. Mas a gerência, até ver, só autoriza "folhear livros".

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

sala de leitura baixa

 
tirou da mala os dicionários de grego deixou
na estante uma flor de palha cor-de-laranja
que a irmã lhe tinha dado
mais seis imagens de w. b. yeats de perfil
uma fotografia tirada no ribatejo em 1976:
homens embarbelados em varandas
para a passagem de um bezerro desgarrado
a que mais tarde se juntaria
a prometida peça do xadrez de lewis
(o peão judicioso munido de escudo
e semblante solene de lémure apreensivo)
 
quando lhe ia falar disso apanhou-se a dizer
não fthonos mas coisa triste com
rabo e cornos de cinza
à maneira dos ibéricos, dos portugueses
acrescentando que não seria a isso
que ia sucumbir porque começara por notar
que por duração é sempre possível
iludir e enrolar aquele peso
em manuais vulgarmente designado
por "sentimento trágico"
 
de uma destas salas poderás
observar a perfeita arquitectura do anjo
posto no telhado não à maneira dos gatos
antes elevando-se acima dos edifícios
por sobre as janelas ocre
 
enquadrado no rigor do seu cinzento
também ele está seguro do seu trompete
mas encontra-se impossibilitado
de qualquer hipótese de música
 
e porque ele não pia tu podes
descer à câmara da lower reading room
com uma mão estilhaçada envolta em gesso
deposta como um objecto que tens de carregar
 
e registar em protesto
que pararás de te debater
e de fazer barulho como é teu costume
 
rendendo-te temporariamente à evidência da falta
da caneta certa para escrever isto
ou de querer uma língua que seja a que sobre
ou de sequer sermos alguma vez
redutíveis à escolha prudente
de uma mais apropriada fala
 
 

Tatiana Faia (n. 1986), in Teatro de Rua (2013). A estreia em 2011 com Lugano (Artefacto) sublinhou um trabalho poético que vinha sendo desenvolvido em publicações colectivas, trabalho esse alicerçado em estudos clássicos com natural influência sobre esta poesia. As referências são múltiplas e variadas, dos gregos aos romanos, destes à tradição judaica, mas não vedam a intromissão de elementos contemporâneos, por vezes até populares, como uma canção de Chet Baker ou a inscrição numa linguagem puramente coloquial. No entanto, a erudição pesa invariavelmente sobre versos mais interessados na exterioridade, ou na relação do eu com o exterior, do que na exploração dos sentimentos íntimos e na expressão lírica dessa interioridade. Este é, até ver, talvez o aspecto mais singular da poesia de Tatiana Faia, a insistência no que parece distante e afastado do eu, uma espécie de fuga obstinada do lirismo onde a figura do sujeito poético é quase sempre um outro na posição de objecto observável.

SAÚDE

 
 
Bem sei que o detido da 44 é mais amoroso, uma espécie de gatinho para sacar likes no Facebook. E que as férias do Marcelo nas mansões da dinastia Salgado dão óptimas capas. Julgo até saber que os equívocos de Costa com o século dos descobrimentos podem entusiasmar hordas em fúria. Sobre a vitória do Benfica no Porto nem se fala, é tema para o resto do ano. Mas perante o relatório agora divulgado (parcialmente, porque a matéria sensível mantém-se em sigilo) sobre as purgas praticadas pelos timoneiros da democracia no mundo, cabe fazer esta humilde pergunta: para quando o julgamento deste criminoso de guerra e de todos os seus ingénuos colaboradores? Já agora, se lhe tiver escapado o dito relatório (é natural, ele há tanta matéria de interesse superior para encher páginas de jornais e horas de noticiários) pode espreitar aqui a síntese.

domingo, 14 de dezembro de 2014

BOOM

Numa breve passagem por Coimbra, com a Alma Sem Cura do Jorge Aguiar Oliveira por objecto, vasculhei as estantes do Miguel de Carvalho em busca de esmeraldas perdidas. Regressei a casa com um saco de plástico carregado de tesouros. Folheadas as obras, detém-se-me o espanto num volume intitulado Bone Lonely (Steidl, 2011) com fotografias de Paulo Nozolino e poemas de Rui Baião. Magnífico objecto sobre o qual talvez ainda venha a partilhar uma ou duas ideias. Por ora, pretendo apenas partilhar outro espanto. A constatação de uma abundância sobre a qual talvez já fosse merecida uma análise sociológico-literária. Refiro-me à profusão de poetisas vindas a lume nos últimos anos. Assim de súbito, e por certo com lapsos de memória sobre os quais responderá a ressaca, surgem-me nomes tais como Ana Salomé (n. 1982), Beatriz Hierro Lopes (n. 1985), Cláudia R. Sampaio (n. 1981), Catarina Nunes de Almeida (n. 1982), Filipa Leal (n. 1979), Golgona Anghel (n. 1979), Inês Dias (n. ?), Inês Fonseca Santos (n. 1979), Joana Serrado (n. 1979), Júlia de Carvalho Hansen (n. 1984), Margarida Vale de Gato (n. 1973), Margarida Ferra (n. 1977), Marta Chaves (n. ?), Matilde Campilho (n. 1982), Patrícia Baltazar (n. 1977), Rosalina Marshall (n. 1976), Renata Correia Botelho (n. 1977), Raquel Nobre Guerra (n. 1979), Sara M. Felício (n. 1984), Susana Araújo (n. ?), Tatiana Faia (n. 1986). Como em tudo na vida, mais tarde ou mais cedo seremos obrigados a separar o trigo do joio. É impossível à memória, por maior que seja a sua generosidade, conservar tamanha colheita no celeiro da literatura. A dificuldade será acompanhar toda esta constelação com distanciamento crítico, tentar entender o que há de verdadeiramente poético em cada uma das obras desenvolvidas. Impressiona a vitalidade, sobretudo quando olhamos para a história da literatura portuguesa e o desequilíbrio entre poetas e poetisas é aflitivo. Razões culturais e sociológicas explicarão esse desequilíbrio, como agora explicarão um aparente reequilíbrio. Não podemos é deixar de sublinhar o boom, por vezes acompanhado de incompreensível sobreexposição mediática com consequências nefastas para uma promoção sóbria e honesta da poesia.

sábado, 13 de dezembro de 2014

#52


Estou apaixonado pelo António Zambujo. Dito assim, pode parecer declaração atravessada. Não é. Apaixonei-me pela voz do António Zambujo, o tom sossegado que me conforta e, confesso, irrita. Porque eu queria ter aquele sossego, aquela voz de Beja tão planície de trigo. Aquela planície afagada pelo vento como ao cabo dos dias aziagos nos afaga esta voz, este modo de cantar. Zambujo canta como se estivesse a assobiar, resgata o fado da dor tortuosa onde o meteram e eleva-o à condição superior de estar bem com o mundo mesmo quando o mundo nos provoca coisas assim dolorosas tais a saudade, a distância, a ausência. Canta bem, escolhe lindamente o reportório, permitindo que o popular baile com o erudito sem que nenhum pise os pés ao outro, e tem um modo de tocar guitarra (ou viola, como preferirem) que embala à primeira nota e nos mete a dançar à segunda. Este embalo não adormece, leva o corpo a gingar com paz. É isso, paz. Há uma neblina de paz sobre as canções de António Zambujo, nostalgia desafectada. Por Meu Cante (2004) tem dez anos! Como é possível só ter dado por ele agora? Penitencio-me aos pés da Senhora da Nazaré e digo: As minhas redes lancei com confiança / Colhi só desilusões num mar ruim / Perdi o leme da esperança / Eu não sei remar assim / Senhora da Nazaré, rogai por mim. Deito-me a ouvir esta obra-prima, lanço novamente as redes ao mar.

DOIS LIVROS DE NUNO MOURA

A desfortuna crítica a que tem sido sujeita a poesia de Nuno Moura (n. 1970) concorda com a suspeição de uma cobardia latente nos recenseadores nobiliárquicos. Seria possível fundamentar uma censura da linguagem praticada pelo autor de Nova Asmática Portuguesa (Mariposa Azual, 1998; 2ª edição, 2013) ou simplesmente cair na ladainha laudatória e afectiva do costume, mas ignorá-la denota um incómodo que a singularidade de uma voz desde sempre diferente das restantes pode provocar mas não justifica. Não justifica, sobretudo, tão confrangedor silêncio. Dois títulos recentes voltam a confrontar-nos com esta situação.
Um primeiro conjunto de Letras Para Dance Music (Douda Correria, Maio de 2014) surgiu no n.º 12 da revista Bíblia (2001), quando a Sodilivros ainda existia e os € eram $. De há 13 anos a esta parte, as Letras Para Dance Music cresceram em número, mudaram de forma, largaram pele, transformaram-se como tudo se transforma. São um corpo vivo linguístico cuja compreensão pode alicerçar-se nas experiências fonéticas de Hugo Ball (n. 1886 – m. 1927) quando o Dadaísmo dava os primeiros passos. Poesia fonética, portanto, à qual o autor tem oferecido corpo e voz em diversas circunstâncias performativas. No entanto, a dimensão semântica não está ausente destes pequenos apontamentos onde os aspectos sonoros parecem ser hegemónicos. Não está ausente porque, ainda assim, é possível vislumbrar nos interstícios do som certas imagens cujo sentido remete para uma interrogação sobre a própria resistência do poético: «Vai ao inglês puto / a legibilidade / do poema / irmão / a musika / poery / mexe o t cabrão». Estas imagens de carácter lúdico surgem num contexto em que o hedonismo alcoólico é uma evidência, ao mesmo tempo que o romantismo sucumbe perante a potência de uma vida composta de naufrágios nocturnos e existenciais: «Uma tatuagem / de frida khalo / no baixo ventre / aos treze anos / no baixo ventre / aos vinte e um / no baixo ventre / aos trinta e quatro / e há uma altura / em que todos / nos separamos / de frida khalo». Sirvo-me desta frida como ponte para Carimbos & Tatuagens, Lda. (Debout Sur L’Oeuf, Novembro de 2014). Antes de mais, pode ser uma agradável coincidência que a tatuagem tenha sido desenhada no lugar onde tudo começa: o baixo-ventre. E pode ser também coincidência que tenha sido Frida Khalo a ser desenhada, vítima de um acidente que a atingiu precisamente nessa zona do corpo onde tudo começa e, ao começar, tudo também começa a terminar. Coincidência ou não, parece haver aqui um elo semântico entre a vida e a morte, Eros e Thanatos, que, aliás, a própria sonoridade do nome da artista mexicana sugere.
Mas não é apenas o elo entre a vida e a morte, é também entre tudo o que se intromete nesse espaço de tempo que une as duas margens: acidentes, doença, embriaguez, paixões, loucura. Que outra leitura fazer dos carimbos e das tatuagens na poesia de Nuno Moura? O que neles se acrescenta é a sigla cuja definição encontramos no Instituto dos Registos e Notariado. Repare-se como na parte Carimbos a família está em evidência através de evocações sub-reptícias das figuras do pai, tio, avó ou de conceitos genealógicos e dinásticos (ainda que minados pela irrisão e pelo jogo fonético). Nestes carimbos e, por consequência, nas tatuagens, a questão identitária confunde-se com a experiência do caos. O indivíduo é não apenas um apelido, não apenas uma herança, mas a sua própria experiência acidentada, o indivíduo é uma língua revirada do avesso que pode parecer equilibrada quando agenda tarefas — «Ligar ao Jorge Pavão / Seguir o Cavalo Alucinado / Arrumar as claves / Algemado escrever um policial» (p. 12) e ainda «Reeditar o Kim Quebranoz / Escrever o Rei do Drunfundo / para o Manuel a. / Embarcar a ribeira das naus / No paquete / Ler os textos do Ego e da Boa Crítica» (p. 16) — ou quando se debruça sobre o quotidiano e “dá conselhos” — «Vai, corre, és livre» (p. 23) —, mas no final o que fica d’«A vida além é isto / ou ninguém bate palmas / ou alguém bate palmas / ou é uma salva / ou é como o romeno exilado diz / é igual vertigem, manancial ou suicídio» (p. 37). Dito isto, quero aqui confessar algo que julgo nunca ter confessado. Apesar da irrisão, do experimentalismo fonético, dos disfarces, sempre achei na poesia de Nuno Moura uma das expressões mais autênticas da nossa miséria humana. Ele fere e faz doer no imo, porque nos indaga sobre o essencial: a forma como cada um vive ou não livremente a sua vida. A questão fundamental talvez seja mesmo essa, a da liberdade. Questão que em poesia se coloca ao nível do tratamento da língua. Moura, o Nuno, optou por tratá-la livremente, sem constrangimentos gramaticais ou sintácticos. Trata a sua língua como trata (d)a sua vida. É de uma raridade apreciável que, regressando ao início do texto, reforça essa ideia tantas vezes discutida da cobardia endémica dos que pensam a poesia e sobre ela se dão ao trabalho de escrever.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

JÁ TINHA REPARADO

...no que temos aqui. Aceita-se que os diários de Kafka sejam ficção, porque toda a vida de Kafka é ficção. Aceita-se que a denominada autobiografia de Thomas Bernhard, um dos melhores livros (que são vários num só) publicados entre nós durante 2014, apareça entre a ficção. Mais explicações aqui. Mas que a poesia apareça ali incluída é, no mínimo, uma opção palerma. Enfim, em certos casos será apenas uma espécie de "com a verdade m'enganas". Já agora, quando é que os nossos preguiçosos jornalistas culturais se deixam destas estafadas listas e escolhas de melhores que os benza Deus do ano?

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

LÁ ESTAREI

(clique na imagem para ver melhor)

maldição contra quem tem vergonha dos filhos


um filho, a meias entre cabra e galo apaixonados, entrou pelo mar adentro. diz quem viu que batia as patas na água com força, mas tão pouco se embrenhou e já só a crista se via. em terra, por maldade, pôs-se uma galinha a cacarejar de aviso. quando os pais do jovem acorreram ao local, não se via senão uma ondulação estranha que talvez indicasse a barriga cheia do mar. a cabra prostrou-se na areia e emudeceu. o galo fez o mesmo passados uns minutos. depois, o filho voltou sem custo e surpreso, mas os pais nunca recuperaram da vergonha.

valter hugo mãe (n. 1971), in Livro de Maldições ( 2006). Afirmado e popularizado como romancista, valter hugo mãe foi durante muitos anos uma das figuras mais acutilantes e controversas da poesia portuguesa. O seu trabalho enquanto editor, primeiro nas Quasi edições, depois, e mais efemeramente, na Objecto Cardíaco, colheram ódios e paixões. Em paralelo, uma poesia pulsátil, arraigada à metáfora e repleta de imagens heterodoxas, numa época em que o discurso poético se aproximou da narratividade mais ou menos confessional e descritiva, fizeram da obra coligida em Contabilidade (2010) um exemplo de obstinação estilística. Contra as muralhas do apontamento irónico e humorístico, da quotidianidade melancólica e entediada, títulos como a cobrição das filhas (2001) ou pornografia erudita (2007) propuseram uma linguagem desbragada de sentidos e emoções liquefeitos no poder sugestivo das imagens e da musicalidade verbal.   

domingo, 7 de dezembro de 2014

ENIGMA TAVARES: TESTAR A TESE


Dois livros recentes de Gonçalo M. Tavares (n. 1970) ajudam-nos a repensar um edifício literário que vem sendo construído desde Livro da Dança (2001). No final de cada um deles, uma espécie de planta distribui por várias secções os famigerados cadernos do autor. Os Velhos Também Querem Viver (Caminho, Outubro de 2014) aparece ao lado de Histórias Falsas na secção Estudos Clássicos. Esta obsessão com a organização de uma obra mais caótica do que aparenta é reveladora de uma intenção arquitectónica sobre o texto, o qual deixa de ser organizado segundo padrões clássicos (romance, conto, teatro, poesia) para assumir novas designações (O Reino, O Bairro, Enciclopédia, Investigações…), mais pessoais e enigmáticas, que, na realidade, aproximam os géneros através de uma teia onde tudo se interliga. Toda a obra de Gonçalo M. Tavares, na sua diversidade, acaba por estar interligada, não sendo possível, ou sendo desaconselhável, lê-la de outra forma, interligada por uma espécie de linha poético-filosófica transversal a todos os géneros, aproximem-se estes mais da ficção ou da poesia, desta ou da filosofia.
Os Velhos Também Querem Viver transporta a tragédia clássica para tempo e espaço modernos, transporte no tempo e deslocação geográfica da tragédia Alceste, de Eurípedes, com variações formais onde se acrescenta ao texto original os elementos de uma actualidade meramente paisagística. Podemos dizê-lo assim porque, no essencial, o conflito humano mantém-se, à volta do homem a paisagem transforma-se mas o que há nele de verdadeiramente central permanece com uma perenidade assustadora. A tragédia, dedicada a Hélia Correia, autora de um extraordinário livro de poemas, intitulado A Terceira Miséria, onde estas questões já se colocavam sob prisma similar, tem agora por cenário a Sarajevo da década de 1990 em pleno conflito armado. Admeto é atingido por um sniper, mas pode ser salvo se alguém morrer por ele. Todos se recusam a trocar a sua vida pela vida de Admeto, excepto a sua mulher. Alceste, a mulher de Admeto, morre para ele ficar vivo, mas a consciência de Admeto não se conforma com a perda nem com as razões de seu pai, Feres, ter recusado dar a vida pelo filho. Era um homem velho, podia ter morrido para que os mais novos continuassem vivos. Feres defende-se: «Se os novos gostam de viver, os velhos também. E por que razão a vida de um velho valeria menos do que a vida de alguém que agora começa? (…) Não podes pensar que um velho é metade de um homem; um velho como eu é pelo menos dois homens, eu diria, pela experiência, pela sabedoria» (p. 56). O discurso é objectivo, nada tem de paradoxal, mas coloca à prova a resistência das teses. É esta dimensão inspectiva o que mais fascina nos textos de Gonçalo M. Tavares, textos de uma intensidade poética que muita poesia não consegue ter. Algo semelhante se observa no romance
Uma Menina Está Perdida No Seu Século À Procura do Pai (Porto Editora, Novembro de 2014). Neste romance, uma menina com trissomia 21 está perdida no centro de uma cidade alemã no século XXI (o "seu século"). É encontrada por um homem que a vai ajudar a procurar o pai. A primeira palavra que nos surge com estrondo é a palavra “deficiente”. A deficiência tem  aqui o lugar do contrapoder. Ela opõe-se não só à normalidade, a uma suposta normalidade, como também à lógica, à ordem, ao Organon aristotélico que o autor de Uma Viagem à Índia testa recorrentemente e inverte e procura sabotar e experiencia. Marius e Hanna, as personagens centrais do romance, vão cruzar-se ao longo de quase duzentas páginas com indivíduos cujas características são objectivamente escolhidas e pensadas para uma inversão valorativa que confronta o leitor com a loucura (não exclusivamente mental, mas também a partir de anomalias físicas) das pessoas aparentemente normais e a naturalidade de uma menina com trissomia 21 que, limitada na sua autonomia e nas suas capacidades comunicacionais, garante uma certa espontaneidade aos desequilíbrios do pensamento: «Da janela da carruagem, vimos o fumo preto que saía de uma fábrica. Hanna disse que era bonito. E de um certo ponto de vista era: se olhássemos para a fábrica como simples produtora de fumo. Era provavelmente assim que Hanna a via» (p. 175). Reminiscência das fábricas de morte nazis, esta passagem sublinha de um modo acutilante a relação entre a realidade e o ponto de vista. Sobrevive uma sem o outro? Hanna, a realidade, sobreviveria sem Marius, o ponto de vista? Hanna tem consigo um conjunto de fichas que estabelecem um programa de aprendizagem para pessoas com deficiência mental. Fascinante, a forma como Marius se questiona sobre as dificuldades de uma pessoa normal para responder positivamente a algumas daquelas tarefas. A exigência dos desafios testa a normalidade, daí que o romance se desenvolva na base de conflitos entre o certo e o incerto, a verdade e a mentira, a lógica e o caos, a exactidão e a subjectividade, a matemática e o acidente. Mas estas linhas, que reflectem um pouco do que se vem passando no conjunto da obra de Gonçalo M. Tavares, não seriam suficientemente cativantes se não fosse inesgotável a capacidade do autor para imaginar situações onde as mesmas são (re)desenhadas com espantosa coerência e minuciosidade. A título de exemplo, digamos que quando uma personagem procura um Hotel num livro de Gonçalo M. Tavares ela não vai encontrar apenas um sítio onde dormir. Ela vai encontrar um Hotel onde cada quarto tem o nome de um campo de concentração nazi, um Hotel cuja arquitectura reproduz a distribuição desses mesmos campos no espaço europeu. Estes elementos parabólicos, acompanhados de personagens aporéticas e de uma escrita onde a própria pessoa do narrador se confunde, sem, no entanto, confundir minimamente o leitor, fazem de cada um destes cadernos estádios de desenvolvimento de uma poética geral, uma poética com um princípio fundador: testar a tese.

sábado, 6 de dezembro de 2014

SERVIÇO PÚBLICO?

Presta-se aqui: uma entrevista a Eduarda Chiote. Agradecido.

A PIOR POBREZA

Causa arrepios o ambiente de ódio e raiva criado em Portugal, os inquisidores in spe exigindo que sem discussão nem prova se acendam as fogueiras, alguns meios de informação descendo a um nível de baixeza que se conhece em ditaduras, mas inaceitável em sociedade democrática e civilizada.
É símbolo da pior pobreza: a do carácter cívico, do desdém pela Justiça, do direito que cada cidadão tem de ser considerado inocente até prova em contrário. Desola notar que uma possibilidade de regeneração e mudança seja manchada pela atitude soez dos que com o seu ódio procuram vingança de sabe Deus que frustrações.
Gente dessa nada augura de bom, antes prova como é delicado o equilíbrio da democracia numa sociedade que de muito longe traz hábitos de subserviência, insegurança e medo.
José Rentes de Carvalho, aqui.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

PINHAL DE LEIRIA

 
Na pequena lagoa da Ervedeira vi quilómetros de vento rodeados de rosmaninho, os aromas da terra dançavam no ar e meus olhos mergulhavam num espigueiro longínquo, as aves cantavam e eu não sabia seus nomes, nenhum barco atracado, nenhum homem, nenhuma mulher chamavam por Deus, passadiços usados serviam formigas, seu trabalho seria contar uma a uma as folhas do choupo enquanto eu lia versos de Whitman ao pântano quieto.

 
Milhares de árvores sangrando um sal pegajoso, pinheiros escamosos como peixes ancestrais, uma luz muito fina transpondo os rebentos, e vi toda a infância rodeada de alecrim enquanto aos pulmões chegavam tenras e doces fragrâncias, meus pais declinados na espera da morte, a família em delírio com casas no campo, palavras bordejando demorados segundos e uma eternidade em cada milímetro de vento.

 
Eu vi, porque não procurei, a neve salgada dos pinheiros, tentado que fui pelas feridas sanguentas, uma árvore a verter dores e sementes de ócio, vi brotar do escuro o pinhão d’alegria, espanto e alento para as horas mortas, andei a esmo entre incêndios dispersos e pressenti nas curvas a inquietação dos homens que caminham sós no meio da floresta, vi minha mãe sentada a beber do cântaro e meu pai assobiando como as aves desconhecidas.


Se me perguntassem que fazes aqui, a esta hora, neste dia, debaixo deste frio, diria apenas que escuto o silêncio e que a voz do silêncio é esta resina, estas aves desconhecidas, estes envios no tapete mágico dos cheiros, a voz do silêncio é esta solidão que reconforta e purifica, longe das cidades sem cheiro, distante do estrondo das avenidas, quieto como uma árvore que balança à passagem do vento e todos os sentidos concentrados no olfacto, no tacto, na rendição.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A PALAVRA DO ANO

Leio aqui que foi colocada a votação a palavra do ano. Infelizmente, a palavra inconseguimento não consta na lista das palavras seleccionadas. Mais estranha é a ausência da palavra panteão. Quem pensa nestas coisas ou anda distraído ou tem pouca memória.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

LUZ E MESINHA DE CABECEIRA


Só pedia um cobertor e que deixassem a luz acesa.
Mas tudo se recusa em nome do poder
Do caminho contra o caminho que sonhamos
Percorrer. Mais uma hora de sono
Correspondia a uma carícia, pois a manhã
Logo ficava ocupada com a ourivesaria do emprego
Do que salva tantos do tédio ou do suicídio.
Estava na hora e o trânsito podia em fila.
Chegaram depressa os dias sem sono
Nem emprego nem outra desculpa aceitável
Mas o poder, a liturgia do dever permaneceram.
Para que serve o remédio, o comprimido?
Regressa-se sempre ao que se queria esconder
Com renovada violência. Regressa-se à recusa
Anterior. Sempre com a quimera de um dia
Ser diferente, de a ternura vir com
Data de validade e pronta a servir.


Carlos [Luís] Bessa (n. 1967), in Lançam-se os músculos em brutal oficina  - o conhecimento das coisas (2000). «(...) as mais importantes características processuais do autor: uma escrita elíptica, um vigor surpreendente na criação de imagens e no poder sugestivo dos subtítulos e uma extrema atenção a um «real» que escorre pelos dias e pelas páginas com um indisfarçável sabor de recusa» (Manuel de Freitas, Expresso). «Ao contrário de outros poetas, Bessa não afasta totalmente a domesticidade. De facto, nesta poesia o vazio não é sinónimo de niilismo. O vazio é uma constatação lúcida mas não exige uma filosofia (ou uma pose) de existencialismo negro. Bessa nunca deixa de nomear certos aspectos da domesticidade (o casal, os filhos), como uma circunstância que atenua a extrema penúria existencial» (Pedro Mexia, DN). «A vida é a exclusiva matéria da poesia de Carlos Bessa. Não a vida política e socialmente representável, nem a vida que se torna escrita nas biografias. Trata-se, antes, da vida anónima e impessoal, no seu fluir fragmentário e centrífugo, completamente absorvida por mecanismos alienantes. A vida, em suma, que habita a banalidade do quotidiano e expropria o indivíduo de biografia e de experiência» (António Guerreiro, Expresso). «Encontramos o humor, algo disfórico, a ironia, mas mais ambígua, numa intenção de transparência, a pisar o risco às vezes do literal, da banalidade, da pura referencialidade, indecidível. (...) Estilisticamente, o autor mantém, porém em menor grau, tendência para transformar, ou interromper, o enunciado em curso através de construções sintácticas que por vezes surpreendem, são no seu fluxo inesperadas, uma ruptura qualquer, ou uma frase que se deixa à solta, uma ou outra vez a elipse ainda» (Maria da Conceição Caleiro, Público). 

SERRA DA ESTRELA

estas curvas alinham escarpas nos meus olhos
pálpebras contornadas pelo branco da neve
 
pavimentos para o curso das pedras
com fios de água a escorrer pelo granito
 
e acidentes deslizando no vagar dos carros
enlevados pelo frio de um sossego purificador

sábado, 29 de novembro de 2014

UM BÁRBARO EM CASA


Andou por aí aceso debate subordinado ao tema “vale a pena ler livros novos?”. Vale. Quem tiver dúvidas, pode começar por aqui: Um Bárbaro em Casa (Língua Morta, Agosto de 2014), de Frederico Pedreira (n. 1983). Não é livro perfeito (qual é?), não tem a consistência dos clássicos (nem a tal se propõe, se é que propõe alguma coisa), falta-lhe profundidade reflexiva (ainda bem). Mas é livro que diverte e inquieta em doses quase excessivas, no limite da overdose, ao mesmo tempo que tenta equilibrar-se no traço descontínuo da experiência. Aparentemente, trata-se de um livro de contos. Sete, para ser preciso. Mas há entre os textos coligidos um elo que nos permite olhar para Um Bárbaro em Casa como algo mais do que uma colectânea de contos. Esse elo é, desde logo, a voz persistente do narrador, um sujeito que por vezes nos parece desequilibrado, noutras circunstâncias autêntico como só os cínicos puros logram ser, em certas ocasiões tão intragável como inspirador. O olhar que lança sobre si próprio não é menos crítico ou implacável do que o olhar que lança sobre os outros e o mundo que o rodeia, bebe muito, usa e abusa de uma linguagem rude, deixa-nos constantemente na dúvida sobre a mise-en-scène adoptada para a representação das suas histórias. Têm todas elas nome ou diminutivo de mulher (Tota, Hanna, Jasmine, Ivanna, Martina, Mel, Filipa), ocorrem em cidades europeias que parecem corresponder a estádios do desenvolvimento do narrador (Reykjavík, Porto, Lisboa, Londres), transitam da tenda para a rua, desta para os bares, daqui para os ocasos da noite, atravessam ocupações medíocres, aventuram-se nas esquinas da embriaguez com muito sexo frustrado e relações fracassadas. Este bárbaro é, como costuma dizer-se, um anti-herói, sendo possível vislumbrar nas suas vivências vertiginosas algo de geracional que é a encenação do maldito. Descrevem-se situações repletas de pormenores abjectos, acções e gestos caricatos, usa-se a língua como um instrumento cortante para provocar sensações desconfortáveis. Tudo isto, como é óbvio, pode ser montado como um lego, adquirindo especial interesse quando no texto se intrometem as dúvidas do narrador sobre o seu próprio discurso: «Saí do bar a correr e depois de alguns quilómetros fui sentar-me numas rochas que ficavam perto da crispação nebulosa do mar. Nebulosa? Ah, poeta romântico, escritor maldito… Não permitas que te fintem, não deixes escapar o teu livro negro pela cueca. Um dia destes um varredor to apanha e bota no lixo» (p. 23) Um outro exemplo: «O seu avô morreu. Eu arrastava estas palavras pelo corredor, sem encontrar uma saída plausível (não é arroto metafísico), arrastava-as com a indiferença de quem se habitua aos poucos a um porta-chaves tenebroso que lhe foi oferecido» (p. 102) Como interpretar esta denúncia recorrente das artimanhas do texto senão pressupondo uma segurança, uma consciência de si, que permite ao autor detectar e evitar o sentimentalismo sensacionalista e o “arroto metafísico”? São sinais de uma firmeza na prosa que é raro encontrar, mais ainda num autor tão jovem. Sinais que não devem, porém, distrair-nos de algo substancial que extravasa a aparência formal da narrativa. Estando todos os contos marcados por relações ambivalentes entre o narrador e as mulheres que se lhe atravessam pelo caminho, ou aquelas contra as quais ele embate como que por acidente e desastrosa condução (autores como Fante e Bukowski ecoam a espaços), o autor não se furta à emoção, sendo por vezes dilacerante o modo como essa emoção irrompe do caos sensitivo. Nem tudo é pele nestes contos, embora tudo se exerça à flor da pele. A morte do avô no conto Martina é um desses momentos, capaz de negar «a tristeza de bate-chapas da escrita» (p. 95) deslocando-nos da notícia melancólica para o frenesim da vida nocturna na 24 de Julho. Outro momento altamente emotivo é-nos oferecido no último conto, estádio derradeiro de uma espécie de queda na realidade, quando o narrador se vê na contingência de tomar nos braços a “educação” de uma criança órfã de mãe toxicodependente: «não deixes que o amor te escangalhe o voo, as mulheres jogam em planos ínfimos para nos foderem a vida, cheira-lhes só o perfume e afasta-te, a tua mãe morreu e eu estou aqui contigo» (p. 153). Palavras nada convencionais, de uma dureza só possível em quem exibe na testa as cicatrizes de várias cabeçadas dadas na parede. Digo na parede para não dizer muro de lamentações, pois nenhum lamento ressoa nestes contos. Antes pelo contrário, são textos afirmativos de situações porventura lamentáveis mas que não inspiram lamentos. Momentos de aprendizagem no traço descontínuo da experiência.