terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

MÁSCARAS DE CARNAVAL

 
Geronimo (Mescalero-Chiricahua: Goyaałé [kòjàːɬɛ́] "the one who yawns"; June 1829 – February 17, 1909)
 
 
 
Touro Sentado com "Buffalo Bill" (em dacota: Tatanka Iyotake; na ortografia padrão do dacota: Tȟatȟáŋka Íyotake; em inglês: Sitting Bull; também conhecido como Slon-he ou Slow, "Devagar"; meados de 1831 – 15 de Dezembro de 1890)
 
 

 
 
"Wild Bill" Hickok (May 27, 1837 – August 2, 1876)
 
 
 
Judge Isaac Charles Parker (October 15, 1838 – November 17, 1896)
 
 
General Custer (December 5, 1839 – June 25, 1876)
 
"Buffalo Bill" (February 26, 1846 – January 10, 1917)
 
 
Jesse James (Kearney, 5 de setembro de 1847 – Saint Joseph, Missouri, 3 de abril de 1882)
 
Wyatt Earp (19 de Março de 1848 - 13 de Janeiro de 1929)
 
"Pat" Garrett (June 5, 1850 – February 29, 1908)
 
 
 
"Doc" Holliday (August 14, 1851 – November 8, 1887)
 
Calamity Jane (May 1, 1852 – August 1, 1903)
 
 
Billy the Kid (born William Henry McCarty, Jr. c.1859-1861 – July 14, 1881)
 
"Bob" Ford (December 8, 1861 – June 8, 1892)
 
Kid Curry (born 1865, Dodson, Mo., U.S.—died July 7, 1903, near Parachute, Colo.?)
 
Butch Cassidy (April 13, 1866 – November 7, 1908)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

CISCO

Li recentemente um artigo onde alguns críticos de poesia norte-americanos lamentavam a incapacidade das novas gerações para produzirem obras tão relevantes quanto as que herdámos do passado, apontando a falta de ambição como razão principal para uma suposta decadência da poesia. Verdade seja dita que esta decadência não é de agora, vem sendo anunciada, pelo menos, desde o fim das vanguardas. Perante a sensação, mais ou menos justificável, de que tudo foi dito e feito, restam-nos rasgos de eficácia que reduzem a linguagem poética a exercícios de estilo disseminados em cursos de escrita criativa. Com grande parte da produção poética contemporânea instalada nos meios académicos, torna-se difícil destrinçar o meramente decorativo do essencial. Tal discurso, catastrofista no diagnóstico e, talvez por isso, lacónico na receita, terá a sua razoabilidade, extensível a outras realidades que não apenas a norte-americana. E, já agora, que não apenas a poética. Como o “mercado” (atente-se o leitor às aspas) por cá tem as suas limitações, assumimos como natural a proliferação de propostas, de práticas expressivas, de vozes, de linguagens, tanto quanto damos por adquirido a análise tantas vezes recorrente que assume uma espécie de languidez como motor lírico por excelência. A poesia não importa, assumiram os nossos poetas. Mas importa ir escrevendo e publicando, mesmo que escrevendo como os outros escrevem, mesmo que colocando o poético ao nível do anedótico, o lirismo ao nível da confissão, a reflexão ao nível da narrativa quotidiana, o relevante ao nível do fait divers, porque também a poesia está dentro do mundo e os poetas não são impermeáveis aos apelos da sedução, venha ela pelos atalhos do humor, do sentimento ou da derisão sensacionalista da linguagem. Como por cá ninguém almeja um público, porque o não há, seria talvez natural que as preocupações com o que se vai escrevendo estivessem menos focadas em seduzir do que em oferecer ao leitor a honestidade de um prisma. Com isto quero dizer que, apesar da multiplicação de propostas, raramente somos confrontados com uma voz veiculadora dessa honestidade. Cisco (Mariposa Azual, Dezembro de 2014), de Elisabete Marques (n. ?), é uma boa surpresa que seria injusto passar despercebida, na medida em que ao mesmo tempo que indicia, até pela palavra do título, uma insistência na desafectação da poesia, reclama também para esta uma essencialidade escondida na linguagem depurada e na disposição cuidadosa de cada uma das palavras que compõem o espaço exíguo do poema. Os três conjuntos do livro (A Nódoa na Manga, Porta-Enxerto e Grãos Exemplares) oferecem-nos poemas breves onde a vida na cidade, com suas cenas quotidianas retratadas frame a frame, é reproduzida a partir do isolamento do pormenor, cabendo nos quadros a partilha do tempo e do espaço nos transportes públicos (metro, autocarro, táxi), as «horas em filas burocráticas» (p. 14), memórias desconexas, percepções domésticas não totalmente alheias à condição feminina do sujeito poético: «Infra-fino. Três dentes / de leão em copo de plástico, / para fazer Abril no quarto escuro. Lembrar // a exaltação, o mínimo, é ainda fitar / o negro dos corvos e do fumo junto ao / balanço da ramagem aberta. Minha janela // pretendendo paisagem. A tarde cai lenta / sobre os objectos; livros amarelados / por segunda mão, um dedal, uma agulha» (p. 30). Impossível não notar a presença de Luiza Neto Jorge nesta “exaltação do mínimo”, de resto recorrente na poesia de Elisabete Marques. O último conjunto do livro é especialmente sintomático do olhar microscópico, com suas formigas e migalhas, pormenores e quase nadas ocupando o poema sob uma forma quase aforística: «Crianças bebem o plasma do ecrã. / No intervalo, procuram portátil / consolo, um inédito berlinde» (p. 60). Os tempos modernos não estão arredados desta minuciosidade quase oriental, por assim dizer. Notam-se tanto quando a paisagem o denuncia como quando uma espécie de privação do mundo natural, ou apartamento da natureza, compele o poema ao resgate dos elementos que a possam tornar mais próxima, nem que esses elementos sejam, como sucede logo no primeiro poema, os «frutos com etiqueta» ou o raio de sol que penetra o território doméstico. Há dois poemas (pp. 16 e 35) onde este resgate resulta especialmente feliz. E com eles termino:

GUIAS DE AVES:
Ainda há
lugar para pássaros.

No interior das casas, eles pousam explicativos
do nada feito de suas asas.

Largam por isso penugem e pigmento
sobre madeiras baratas, e extenuam
a íntima velocidade
que lhes sobe ao bico como um incêndio.


***

CONTE-SE, POR EXEMPLO, O CONTACTO
entre as fibras do músculo e a vibração
 
da tesoura aparando o desalinho dos canteiros.
A sede calada à força de cerveja barata, pode
o homem inventar forma vegetal, e exultar

por crer existir
acordo com a natureza ali confinada.

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS

Odeio quizomba. E kizomba também.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

DAKOTA LIL (1950)

O que tem hoje para nos oferecer um western de série B da década de 1950? Talvez alguns minutos de entretenimento e o fascínio que o passado sempre exerce sobre nós. Meras inclinações retro podem ajudar a responder a uma dúvida deste tipo. Ou então a importância de perceber o que existe de clássico na linguagem cinematográfica, não tão antiga como outras linguagens artísticas. Podemos reclamar para o western o estatuto de mais antigo género cinematográfico, se por cinema quisermos entender a vontade de contar histórias a partir de imagens em movimento. O cinema é muito mais do que isso, mas antes de ser outra coisa qualquer e depois de ter sido ferramenta documental ele foi exactamente isso. E com intuitos puramente comerciais. Ora, a década de 1950 caracteriza-se, neste domínio, por ter sido o ponto mais alto da produção de westerns. The Great Train Robbery (1903) foi a semente de uma atmosfera que dominou as salas norte-americanas na primeira metade do século XX, sendo hoje difícil contabilizar o peso do western na produção cinematográfica de então. Repare-se no caso singular do realizador Lesley Selander (1900-1979), com uma obra infindável, maioritariamente focada nas aventuras do Old West, caída em quase total esquecimento com o passar dos anos. Visitando um sítio como o IMDB, podemos constatar que só no ano de 1950 assinou sete filmes. Todos eles, de uma forma mais ou menos declarada, são “de cowboys”. Dakota Lil/O Buraco na Parede (1950) é um deles, destacando-se pela excelente direcção musical de Dimitri Tiomkin e pela presença de actores míticos como George Montgomery (filho de emigrantes ucranianos, chegou a ser duplo de John Wayne), o canadiano Rod Cameron ou Marie Windsor (na Wikipédia chamam-lhe “rainha dos filmes B”). Há muito de comum entre Dakota Lil e The Great Train Robbery, estando ambos separados por quase cinquenta anos de desenvolvimento de uma linguagem com pressupostos retóricos inscritos desde a primeira hora. O Leitmotiv do assalto ao combóio é um desses elos, se bem que no filme de Selander estejamos, como tantas vezes acontece, no espaço evocativo de factos históricos. O Wilcox Train Robbery fixou-se na historiografia popular norte-americana por várias razões, sendo a mais forte de todas ter ficado ligado ao famigerado gang de Butch Cassidy: The Hole-in-the-Wall Gang.
Está explicado o nome do título português. Se bem que Butch Cassidy (sentado à direita) seja citado no decorrer da narrativa, os principais intervenientes são outros. Entre eles, Kid Curry (na fotografia está de pé, com a mão no ombro de Cassidy), que fazia parte do gang, Tom Horn, outra figura história sobre a qual temos que dizer algo, e uma enigmática, mas fulcral, Dakota Lil. Ainda que tenha estado ligado, enquanto informador, à perseguição do gang em causa, nada indica que a história contada no filme tenha qualquer grau de verisimilhança. À época em que os acontecimentos ocorrem, 1897, Tom Horn estava empenhado na perseguição de ladrões de gado
no Colorado e no Wyoming. É verdade que foi uma espécie de agente especial dos serviços secretos norte-americanos nesses tempos. Depois de, aos 16 anos, ajudar a cavalaria a capturar Geronimo, trabalhou para a Pinkerton Detective Agency como detective. Acabou despedido porque os fora-da-lei que encontrava eram frequentemente executados antes de chegarem a tribunal. Talvez seja exagero, mas há quem aponte a sua morte, por enforcamento, como o ponto final daquilo que hoje conhecemos como Old West. Enquanto aguardava pelo dia da execução, escreveu uma autobiografia intitulada Life of Tom Horn: Government Scout and Interpreter (1904). Apesar de fazer referência a alguns destes dados, Lesley Selander ficciona as personagens históricas. Tom Horn (George Montgomery ) aparece como agente secreto com a missão de apanhar o gang do Wilcox Train Robbery. Para tal, serve-se de Dakota Lil (Marie Windsor ) – cantora de casino ligada ao mundo do crime, especializada em falsificações, instalada algures no México na companhia do pianista Vincent. Lil, típica femme fatale de ombros descobertos e decote avantajado, canta como as sereias à passagem dos navios. É sensual, cativante, atraente, sedutora. Vincent, o pianista que andou por Viena a fazer concertos, é uma das suas vítimas. Horn chegará a Kid Curry (Rod Cameron) através de Dakota Lil, cujos serviços para falsificação das notas roubadas durante o Wilcox Train Robbery são imprescindíveis. O filme é uma sequência frenética de esquemas, truques, tramas, onde os métodos do crime organizado vão sendo enquadrados com admirável congruência. Mas é também, como não podia deixar de ser, a história de uma paixão improvável entre Tom Horn e Dakota Lil. Isto é, entre a lei sem escrúpulos e o crime calculista. E também, já agora, entre a realidade e a ficção. O baixo orçamento não retira brilho nem interesse ao resultado. Mérito de Lesley Selander, nome sobre o qual pesa a fatídica injustiça do esquecimento.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

SEXTA-FEIRA 13

Fica sempre bem lembrar o insigne Professor Herrero numa sexta-feira 13, até porque não falta por aí gente com enormes cagalhões na cabeça. O mais recente tola de penico foi descoberto numa coisa chamada Observador. Mário Amorim Lopes de seu nome não se limita a pensá-lo, tem o desplante de escrevê-lo. Podia fazê-lo, enfim, num diário ou num weblog privado com links para o exterior (vá-se lá perceber a tendência). Amorim Lopes, não satisfeito com a privacidade da sua higiene cerebral, decide disponibilizar ao mundo o seu saber. E, espantem-se, há quem o publique. Aqui.
Não se espantem, hoje em dia publica-se qualquer merda. James Joyce dizia o mesmo no tempo dele. Mas o que afirma a luminária de serviço? Diz, e passo a citar, que anda «a explicar o conceito de custo de oportunidade aos meus alunos de Microeconomia». Entenda-se o efeito da citação, os meus alunos são os dele. E estudam microeconomia. Podia dar-lhes para pior. Nos exemplos é que o professor não é forte. Primeiro:
 
«Um tratamento custa, antes das recentes negociações, cerca de 42 mil euros. Ora, 42 mil euros permitiriam, por exemplo, financiar os seguintes tratamentos ou gastos sociais:
– 14 bypasses coronários
– 140 operações às cataratas
– 6900 refeições em cantinas escolares
– 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário»
 
Bem sei que tortuosos são os caminhos do Senhor, mas por mais que reze nunca hei-de entender onde pretende chegar o microeconomista com esta micrológica. Temo que estejamos no domínio das chamadas gorduras do estado. Trata-se, antes de mais, de rentabilizar os recursos. E isso é ciência exacta. Ou não. Dito de outro modo, a dúvida é: se podemos pagar 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário o que justifica que desperdicemos o mesmo dinheiro num único tratamento de Hepatite C? Já viram “O Resgate do Soldado Ryan”? Isto mais ou menos a mesma coisa, só que no universo da microeconomia ninguém tem nada a aprender com o humanismo da missão.
Como é óbvio, a dúvida do professor pressupõe um argumento. Um argumento parvo, isto é, estúpido, mas pressupõe. E esse argumento é: se com 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário podemos, a título de exemplo, calçar mais de 800 "pés-descalço", então que se quilhem os professores contratados do 2ª (sic) escalão do básico ou secundário. Vamos calçar os "pés-descalço". Tal raciocínio levar-nos-ia longe (porventura a Marte, onde o professor Amorim terá sido concebido debaixo de um calhau vermelho). A miséria é um poço sem fundo, há sempre algo pior do que julgaríamos péssimo. Zenão de Eleia negava a possibilidade do movimento através dos paradoxos da subdivisão. Com os argumentos deste professor seremos capazes de negar a pertinência de qualquer gasto, quanto mais de qualquer investimento. As análises económicas têm este problema, são demasiado analíticas. Embrulham-se tanto na teoria que olvidam a lição mais básica: isto vai ter consequências na vida das pessoas, foda-se. Façam lá as continhas à escassez dos recursos partindo de outras premissas.
Muito haveria a comentar sobre a descarga intestinal do professor Mário Amorim Lopes, mas sejamos poupadinhos nas palavras (não pretendemos viver acima das nossas possibilidades) e saltemos para o remate. Ora tomem lá:
 
Quando financiamos uma peça de Brecht de um qualquer encenador que jura que a cultura deve ser financiada por todos nós, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais uma vida. E sacrificar a vida de uma criança é um preço demasiado elevado a pagar.
 
Pimba! Pum! Zás Trás Pás! Todos sabemos que os comunistas comem criancinhas, faltava revelar que peças de Brecht contribuem para a mortalidade infantil. Contenhamo-nos. Na realidade, o que aqui se subentende é mais simples: para as ortigas com o financiamento da cultura, há criancinhas por salvar. Eh pá, nos meus tempos de filosofia havia aquele dilema kantiano da biblioteca a arder com uma velhinha lá dentro. Salvavam-se as obras-primas ou a velhinha? Num outro contexto, o Gonçalo M. Tavares escreveu sobre algo semelhante recentemente. Sacrificar o pai ou o filho? E a mamã com dois filhos no campo de concentração, qual deve ela sacrificar? No fundo, já não estamos no domínio da microeconomia. Estamos no domínio do dilema moral. Comprar o jornal ou beber um café? Um problema: conheci uma vez um tipo que preferia gastar o pouco dinheiro que tinha em livros a desperdiçá-lo (dizia ele) em bifes. Ele há cada um. Aqui chegados, resta-nos sugerir ao professor Amorim uma receita de São Cipriano: não havendo dinheiro para fragrâncias, aperte-se o nariz à desejada.
O busílis está na pirâmide. Explique lá, estimado professor, o que devemos colocar no topo da pirâmide das nossas preocupações. Podemos dizer, nem um tostão para Brecht enquanto houver uma criancinha com fome. Satisfeita a fome da criancinha, nem um tostão para a fome das criancinhas enquanto houver um sem abrigo. E assim sucessivamente. A paz, o pão, saúde, habitação... e dinheiro público para as maleitas dos bancos. Satisfeitos todos os males, esbanjemos à tripa forra. Terrível, este problema das prioridades. Estava capaz de ir ver uma peça de Brecht para me elucidar, mas ocorreu-me agora que enquanto estive para aqui a desperdiçar tempo com estas vãs palavras pelo menos 150 crianças morreram subnutridas no mundo. Que poderei fazer contra maleita tal? Pensar como um microeconomista talvez não seja solução, até porque os argumentos deste devoram-se a si próprios. São autofágicos (o que é sempre de enaltecer, poupa-se na alimentação). Oram vejam: para quê financiar a peça de Brecht, se temos gente com Hepatite C para tratar? Já podemos trata-los, professor? Está satisfeito? Topam? Se não, pode ser que o Peter Singer dê uma ajuda. Aqui. É uma coisa sobre altruísmo, termo estranho aos manuais de microeconomia.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

#55


Tenho andado entretido com este Moonlight (2015) de Hanni El Khatib. Não sei que pense, não sei que diga. Tratando-se de um álbum de rock, tal desorientação só pode ser abonatória. O nome do homem induz em erro, estamos no território do rock tipo The Black Keys. Portanto, já não apenas puro e duro. Neste caso, a pose reveste-se ainda mais de uma vontade de seduzir que a colocação das vozes e algumas melodias açucaradas comprovam. Mas a verdade é que alguns temas têm um groove irresistível, afastando-se da tirania do riff poderoso e adoptando uma maquilhagem onde a soul e o funk são mais evidentes do que a influência blues. São disto exemplo o tema de abertura, que ofereceu o título ao álbum, ou o último tema, onde um violino e um sintetizador decoram uma guitarra repetitiva e hipnótica em ritmo irresistivelmente dançável. Grande momento. O tema chama-se Two Brothers e merece ser escutado. Hanni el Khatib toca todos os instrumentos à excepção das percussões, havendo convidados de peso e de gerações diversas. Por exemplo, Greg Reeves, conhecido por acompanhar os Crosby, Stills, Nash & Young, empresta o baixo ao tema Chasin (outro dos momentos felizes desta recolha). Já Matt Sweeney toca guitarra em Moonlight. São apenas dois exemplos de colaborações que ajudam a tornar canções como a que se segue numa das boas surpresas do ano:


A FALTA SALIENTE


Obstinadamente invisto contra uma corrente contrária
que obstinada investe contra mim uma musa
de saliente falta. Libertar-me bem queria mas não sei
se o medo se a circunstância se a melancolia
me treme quando só o lance resolvia, me limita
quando a imensidão pedia, me oxida o aço à porfia.
Tudo à volta me comprime a uma mesquinha condição
e O'Neill às vezes não existem teu machado de língua afiada,
tuas ensinadas varinas de sinuosas varizes,
tuas empenadas narinas de empinados narizes,
às vezes O'Neill é só o vazio e as suas raízes.

Obstinadamente busco um país que me maravilhe,
um país das maravilhas. Não esta portugalice do ali borda-se,
gato à janela, lindo postal, calçadas e motivos, velhos desdentes,
sim sim, já agora, num sei, sei lá bem, pois bem, já cá não mora.

Obstinadamente busco um país sem história para contar;
confiar que haverá uma mesa e um lugar
onde se perspectivem coisas depois do dia oblongo e da cidadela
tomada; essa mesa e esse lugar nem sequer meus.

Busco qualquer outra coisa que não esse, isso. Busco

a tépida esfera, a plúmbea fronte ou afundar os dedos
num sôfrego e talvez abster-me na insistência
quando a dúvida fosse um sólido na tua cabeça
e já não houvesse tampões para o horror,
talvez sim então sim talvez abster-me.
Os teus poetas não me valem,
os teus poetas não se lhes dá que eu morra.
E esta pluma é um xamã que arde sem se ver
na mandíbula dorida de apertar a palavra,
inexistente sílaba da oclusão. Se houvesse
uma goteira a preservar da noite o cerrar do livro!
Se houvesse maneira de não morrer!

Insisto obstinada e dementemente busco um país.
Esqueço-me da corrente que acomete, falha a previsão
é um fusível, um grifo alcandorado nos cabos de alta tensão.
Penas pesadas as dos mitómanos: serem investidos
numa sociedade sem grifos
onde galifões beijam com saliva viperina
o lábio rubro do inocente efebo
e lambuzam a mordiscadela posterior
com desvelo clínico e libações ordinárias.
Este é o teu país O'Neill, que destrói as ondas e as praias
e descura feridas individuais de beijos sociais,

o mensageiro do amor que as vagas tala
a trazer-te a proposta disjuntiva sem saída:
se a cana do nariz intacta
então a cana de pesca partida.


Daniel Jonas (n. 1973), in Os Fantasmas Inquilinos (2005). «Esta poesia é uma máquina de integrar citações e de multiplicar referências teóricas, dos actos de fala à analítica kantiana do belo. Nada disso, em si, é prova de grande conseguimento e seria um inócuo exercício se não fosse a dimensão de fantasia barroca e a violência de um ímpeto que faz triunfar o absurdo e a dissonância (...). Afastando-se o mais possível da imagem romântica e de qualquer outro tipo de imagem dotada de um valor expressivo (como Gottfried Benn, Daniel Jonas poderia dizer: «Eu não tenho nenhum sentimento»), aproximando-se, antes, dos processos do pensamento, do sentido e da fantasia, a poesia de Daniel Jonas coloca, à sua maneira e através de outras mediações (eminentemente modernistas, tendendo, às vezes, para a antipoesia), a equação de Mallarmé: «Estritamente imaginativo e abstracto, portanto poético»» (António Guerreiro, Expresso, 24 de Setembro de 2005). «Há na poesia de Daniel Jonas uma resistência explícita a qualquer discurso que a pretenda enclausurar num determinado tempo, ou em quaisquer linhagens literárias. É como se o poeta quisesse deliberadamente trocar as voltas ao leitor, confundi-lo, empurrá-lo para um estado de perplexidade em que o desenho mental que os poemas inscrevem no pensamento está sempre a transformar-se noutra coisa. Este efeito de desorientação nasce do facto de ser muito vasta a gama de registos poéticos em que se declina a sua escrita. Tão depressa se aproxima da volúpia barroca (com rimas, sintaxe antiga, vocabulário raro) como se entrega a exasperações românticas sobre o lugar do sujeito no mundo, ou então a súbitas sínteses de poucos versos, de um minimalismo próximo da perfeição dos haikus. Num instante passamos das referências bíblicas e das citações literárias cifradas para a mais prosaica realidade quotidiana» (José Mário Silva, Expresso, 1 de Fevereiro de 2014). 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

RUTH MAIER'S DIARY

Vale a pena conhecer Ruth Maier (n. 1920 – m. 1942), jovem austríaca assassinada pelos nazis em Auschwitz. O poeta norueguês Jan Erik Vold (n. 1939) organizou-lhe os diários num volume intitulado Ruth Maier’s Diary —A Jewish Girl’s Life in Nazi Europe, impressionante testemunho de um talento interrompido do qual nos restam hoje a diarística, alguma correspondência, breves poemas, desenhos e aguarelas. O diário mantido ao longo da vida começou a ser escrito aos 12 anos, vivia Ruth numa casa onde abundavam livros e se respirava cultura. Ludwig Maier, o pai, era doutorado em Filosofia e falava nove línguas. Faleceu de doença em 1933, ou seja, no mesmo ano em que os diários começam a ser escritos. A ligação de Ruth ao pai era fortíssima, manifestando-se num vazio que nenhum outro homem conseguiu preencher. «I have a penchant for older men», escreverá em Janeiro de 1937. Trata-se de uma perda abismal, recordada amiúde nas páginas mais íntimas e por vezes instigadora de uma relação menos pacífica com Irma (a mãe). A avó e a irmã são outros familiares omnipresentes, não sendo esquecidos os tios: Robert, irmão de Ludwig, vivia na Checoslováquia; Oskar, irmão de Irma, era comunista e residia em Moscovo. Apesar da versão truncada a que temos acesso, os diários são reveladores de uma personalidade em formação, inquieta e desassossegada, instável e, como não podia deixar de ser numa rapariga judia sob jugo nazi, profundamente tocada pela dúvida. Organizados em três grandes partes generosamente ilustradas, percorrem a vida da autora em três momentos fundamentais. No primeiro, temos os diários de Viena até à ocupação Alemã (1933-1938). São tempos relativamente agradáveis e típicos de uma adolescente em busca de si mesma, questionando-se sobre a sua sexualidade, talento, inclinações políticas, declarando paixões mais ou menos volúveis, mas denotando também uma extraordinária percepção sobre o seu tempo histórico. Outro aspecto interessante é a recorrência a reflexões sobre o sentido da escrita de um diário: «There are two groups of people that write diaries. The first really are moved to write by an inner spirit. The others in the secret hope that their diary will one day be discovered by an unknown muse and become a sensation as — I don’t know — the classic sentiments of a chaste and modest young girl. Sometimes I’m in the first group, at other times in the second one» (p. 13). Anos depois, a 7 de Abril de 1941, escreverá: «I’m not keeping a diary to put down my ‘reflections’, to immortalise profound ideas. I’m writing in order to resolve my feelings, wich would otherwise get stuck into me and dig into wounds so that they would stay open» (p. 321). Mesmo tendo em conta os padrões da época, não deixa de ser admirável a cultura literária exibida. Leituras de Gorky, Tolstoy, Jack London, B. Traven, Oscar Wilde, Heine, Goethe, Thomas Mann, Schiller, Dostoevsky e Trótski sustentam os pensamentos da casta e modesta rapariga. Herr Professor Herbert Williger, mestre de Latim, também ter-se-á impressionado. A memória do professor Williger acompanhará Ruth Maier enquanto vestígio de um amor falhado, menos por vontade dele do que por resistência dela. «I love him. Like a father.» — confessa a 8 de Abril de 1937. Apontamentos quotidianos, reflexões existenciais sobre a morte e o suicídio, dúvidas identitárias sobre o seu lugar no mundo, sentimentos de empatia pelos “humilhados e ofendidos” e evocações frequentes da figura paterna ocupam a jovem até à ocupação Alemã. O brilho dos primeiros anos esvanece, o nazismo arrasta os judeus num labirinto de questões acerca da natureza humana. O discurso torna-se muito mais denso e a palavra ultraje vulgariza-se. Datam de Outubro de 1938 estes desabafos de uma lucidez premonitória: «We have no weapons and, by God, we cannot defend ourselves. You can send our fathers to Dachau, poison our mothers with gas, and our sons have to crawl across the border like animals!» (p. 97) A consequência imediata será a separação da família. A avó, a mãe e a irmã acabam em Inglaterra, Ruth Maier refugia-se na Noruega. O objectivo era continuar os estudos, mas o estigma de refugiada judia não contribuirá para a mais saudável das integrações. A segunda parte deste volume contempla os primeiros tempos na Noruega a partir de um conjunto de cartas para a família em Inglaterra. Preocupações com a educação e incertezas quanto ao futuro marcam o tom geral da correspondência, embora sejam inúmeras e multicoloridas as descrições dos lugares frequentados, partilhas literárias (Ibsen, Hamsun), avaliações dos noruegueses enquanto povo e do seu papel na Guerra. A relação com a família de acolhimento deteriora-se ao longo dos anos, indo do fascínio e da admiração iniciais ao fastio e à decepção finais. A condição de emigrante impele-a progressivamente para o isolamento e para a solidão. Se ao ter descoberto uma paixão da mãe em 1937 já tinha lamentado a solidão em que vivia, este sentimento intensifica-se agora encerrando Ruth em momentos introspectivos que lhe dificultam tanto as relações humanas quanto lhe ferem a auto-estima: «How I long for company, Dittl. Just a single person I could talk to. Do you not understand that I’m so lonely it’s as if I were living on a fig tree in the jungle?» (p. 183) Os livros serão refúgio firme até à derradeira das horas, mas não podem resolver todos os anseios: «There’s a whole heap of boys in our class. The loveliest array of the most diferente types. But I have no erotic allure. I’m quite certain of that. If I were to go around with my bosom ‘half-exposed’, then maybe men would eye me up, but in my usual dress!... (You ought to know that I’ve a fabulous body: magnificent! I admire myself every evening in front of the mirror.) Yes, so I wanted to tell you that I have no sex appeal at all — I found this out immediately thanks to that intuition which is unique to women» (p. 195).  Refira-se que o “fabulous body” não seria exagero, tendo mesmo servido de modelo, nos últimos meses de vida, a artistas tais como o pintor Aasmund Esval ou o escultor Gustav Vigeland. No entanto, combinações de tédio, repugnância e saudade assaltam-lhe o humor, perturbam-lhe as emoções, levam-na à depressão. Extraordinários sublinhados cómicos pontuam, aqui e acolá, a correspondência. Mas a chegada da guerra e a invasão da Noruega pelos Alemães não podiam senão agravar o desespero. A terceira e última parte do livro contempla os últimos anos, entre 1940 e 1942. A relação com a poetisa Gunvor Hofmo, a quem devemos a sobrevivência do espólio, oscila entre a luminosidade de uma réstia de esperança e a absoluta perdição. Manifestações de ódio aos alemães, apreço pelo povo norueguês, exemplos de um quotidiano cada vez mais tenso, partilham relevância com a questão amorosa: «I’m nineteen years old and still I haven’t had a… lover» (p. 234). Esse espaço vazio será de algum modo ocupado por Gunvor Hofmo, acompanhado porém de persistentes interrogações sobre uma possível condição homossexual. Algures entre o desejo e a pura amizade foi sedimentado este amor, sendo certo que o mesmo nunca varreu por completo a solidão derradeira. Por vezes, uma fortuita troca de palavras com uma prostituta na rua afasta o fantasma. Mas o mesmo perseguirá a já não tão casta jovem como uma sombra: «Gunvor still demands a proper ‘relationship’. I want somebody who will save me from masturbation. C’est tout» (p. 270). Impossível ser mais claro. Momentos de autonomia e pura liberdade livram a existência de se transformar num inferno completo, sendo especialmente alegres e cintilantes os dias passados na companhia de Gunvor. Mais uma vez, a incerteza persiste: «My feelings for her are totally natural. I feel myself connected to her spiritually and mentally. There’s not the slightest hint of a physical desire. But it may be true that I have a need to love and to express this. Gunvor is a most welcome target for this love» (p. 315). As crises que irão pautar a relação enchem as páginas do diário de sonhos e subsequentes análises. Mas o que de mais precioso nos oferecem estas páginas é a perspectiva de uma mulher a quem tudo foi roubado, lançada na mais terrível das solidões, rodeada de ameaças à sua própria existência física, assim como à sua saúde mental, em busca de uma única coisa: uma vida normal, uma casa, um trabalho, alguém a quem amar. Helplessness é palavra que ressoa no final. O desamparo, tanto na vida real como nos sonhos, talvez seja o que de mais tocante este exemplo tem para oferecer ao mundo, o mesmo desamparo que fica subentendido num breve poema em prosa datado de Julho de 1942:

NADA EXISTE


Nada existe a salvo do vazio que treme no meu peito. Ó, as magníficas palavras que me dedicaste, o que é feito delas? A janela que além enfrenta o Verão brilhante, as nuvens inflamadas que se espalham sobre a coroa dourada de uma árvore trémula; senão isto, então que devo eu desejar? Que outra coisa mais alguma vez desejei? E no entanto, ó omnisciente, este vazio — de onde veio ele senão deste Verão a brilhar de dores indizíveis?
 
 
P.S.: um complemento precioso, vindo de quem me fez chegar este magnífico testemunho: aqui.

LINGUAGEM CIFRADA

Camarada Van Zeller, dois casos de linguagem cifrada agitam o país. Não é de agora, dir-me-á. Tem razão. Quem escuta conversa alheia corre o risco de deparar com fruta onde, em boa verdade, havia puta. É assim a língua nos meandros da máfia. Robalos à mesa serão sempre bom pitéu. Agora, vêm os especialistas das escutas ao camarada Paulo Portas esclarecer que onde se ouviu Canalis e Canals, dizia-se, afinal, canal. E onde se ouviu aquilo ter-se-á dito a Kiel, que é uma bela terra onde, de facto, existe um canal. Provavelmente é lá que vive o benfeitor Jacinto Leite Capelo Rego, depositante em tempos de somas avultadas nas contas do CDS. Já lá vão o quê? Dez anos?! Há hábitos que nunca se perdem, meu Deus. Toda a comédia aqui. Também o ex-primeiro-Ministro Sócrates tem sido vítima de deficiências auditivas, embora neste caso os esclarecimentos não sejam tão contundentes. Ora repare, camarada, como de uma linguagem decifrada passamos para uma linguagem repleta de cifras. Valham-nos os Turing do Ministério Público, sem os quais não poderíamos perceber patavina das conversas mantidas entre os génios do crime. Ficamos então a saber que quando Sócrates falava de fotocópias estava, na realidade dos procuradores, a referir-se a dinheiro. Também Paulo Portas, em tempos, teve relações de proximidade com o universo das fotocopiadoras, mas isso agora não interessa. Eram outros tempos e a criptoanálise ainda não tinha chegado à procuradoria. Toda a tragédia acolá. Já agora, e com base em estudos científicos das mais conceituadas universidades, quero aqui revelar a enormíssima probabilidade de as escutas a Sócrates e a Portas e a demais congéneres correrem o risco de serem todas elas inviáveis por os indivíduos escutados serem eles próprios cifras de si mesmos. Não sei se me fiz entender. Não tendo feito, deixem-me pelo menos deixar bem claro que se alguma vez eu vier a ser alvo de escutas sempre que me ouvirem dizer “chupa-mos” estou, na realidade, a querer dizer “chupem-mos”. É que só costumo falar com uma pessoa de cada vez ao telefone, desconhecendo se estarei a ser ouvido por várias. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DOIS LIVROS DE DANIEL JONAS

O episódio da baleia narrado no Livro de Jonas tem sido, ao longo dos tempos, objecto de várias exegeses, sendo certo que entre ter ido parar ao estômago do peixe e ter regressado à terra o profeta experienciou uma espécie de morte cujo significado alegórico será o da misericórdia divina. Talvez por afinidades homónimas, o poeta Daniel Jonas (n. 1973) serve-se do mesmo episódio em momentos diversos da sua obra. Meio ano separa as edições de Passageiro Frequente (Língua Morta, Outubro de 2013) e Nó - sonetos (Assírio & Alvim, Abril de 2014), recolhas distintas na forma mas próximas no conteúdo. No poema Spleen, do primeiro livro, a baleia surge enquanto resquício da imemoriabilidade: «Cemitério de todos os sóis / o mar, cinza / onde habita o beemote do tempo, / a grande baleia do oblívio / sob socalcos de aço, / na chapa recurva, / sucata de toda a metáfora. // Porquê dizê-lo? / Cansaço de o dizer… // O mar é uma maçada» (p. 43). Já no segundo livro, a baleia surge logo no primeiro verso enquanto evocação explícita do episódio bíblico: «Do ventre da baleia ergui meu grito: / Senhor!» (p. 9) , cujo subtítulo demarca o conjunto pela forma clássica dos poemas, não deixa de ser, contudo, um livro tão moderno quanto Passageiro Frequente o é. Não obstante, para sermos justos temos que afastar os parâmetros de clássico e de moderno desta poesia. A sua principal marca é, precisamente, a de uma intercepção dos tempos e das épocas através da prática de um lirismo consciente da história, assimilador do que toma por herança tanto a nível formal como a nível temático. A linguagem rica, eivada por vezes de um barroquismo extenuante, integra termos estrangeiros, locuções latinas, resgata para a contemporaneidade uma pontuação caída em desuso, com exclamações e reticências a rodos, numa densidade lexical que poderia soar enfatuada não fosse a extraordinária capacidade do autor para desfazer mitos com tiradas humorísticas, jogos de palavras, trocadilhos. Tomando os sonetos de como exemplo, veja-se o último verso da página 19: «Soneto, és um logro. Argh… Estás velho!» Remate irónico, até porque nada de velho há nestes sonetos erguidos a partir de um bestiário formado por caracóis, furões, ratazanas: «Ó pária dos postais, que te reparem / Os meus olhos é porque os vergam malas / E rasos de água andam, rente às valas. / De tanta água admira flor não darem…» (p. 50) O inusitado da fauna contrasta com a aparente seriedade de um discurso assente em referências bíblicas e clássicas, seriedade esta minada pela ligeireza de reflexões mais ou menos jocosas: «A vida… bem, tem dias… gosto dela… / Mas ela não é nada nem é grande. / Às vezes ela é tudo, às vezes nada. / Enfim… não há senão sem haver bela» (p. 12). Mesmo quando os temas são pesarosos, Daniel Jonas exibe um excepcional domínio prosódico no embalo do qual a linguagem oferece à forma clássica um tom verdadeiramente hodierno:

Pensar, pra quê? Que pensem outros. Raro
O pássaro que faz do céu seu ramo.
Eu quero pensar muito é nos que eu amo
Antes que a morte aponte a mim seu faro.
Pensar: que desperdício, que inocência!
Pensar que por pensar virá Atena…
Pensar é sonho, ordenha de éter, pena
Sovada no badminton da ciência.
Que deixarei de mim, um pensamento?
E este meu papel qual tumba fria
Parece querer beber a elegia,
Treinar aqui, qual pedra, o meu lamento…
Ó ópio, Ó óleo, Ó ócio deste ofício!
Pensar que toda a arte é artifício!

Se este soneto não é dos poemas mais modernos e actuais que a língua portuguesa conheceu nos últimos anos, então não sei o que possa ser. Moderna quando parece clássica, clássica quando parece moderna, a poesia de Jonas é de uma transversalidade formal impressionante. Podemos argumentar que, no limite, se trata de experimentação e trabalho de linguagem (como se toda a poesia o não fosse). Mas não é apenas isso. Não se observa aqui o vazio reflexivo que é possível apontar à maioria da poesia deste tempo que é o nosso. Não estamos na exclusividade do carácter lúdico que a poesia também aceita e os cursos de escrita criativa se encarregam de disseminar. Muitos dos poemas de Passageiro Frequente tendem, inclusive, a direccionar-se para uma interiorização de tipo pessoano que interpela o leitor. São disso exemplo poemas maiores tais como Imitação de Vida, Praia Pensada ou Olhando Para Trás, Ele Considera e Lamenta, mas também versos como estes do poema Autocarro: «Ah, autocarro, tudo é sensação, / até tu que não passas de símbolo de ti // e tu passares um simulacro, / que és espectro de ti mesmo, / e parares dares a volta ao mundo // pois tudo é princípio e fim / e volta sem passagem» (p. 16). Evocações de cidades como Londres e Paris misturam-se nestes poemas com uma flora que nos envia para lugares do pensamento, num percurso onde o lirismo sai frequentemente velado pelas subtilezas da ironia. Este passageiro que frequenta as “cicatrizes sociais” do seu tempo interroga-se sobre o ofício da escrita, coloca-se no centro das suas próprias reflexões sem se apartar das circunstâncias. Amiúde confessa: «Eu penso sobre mim e sou tão triste» (p. 8). Ou: «Oh, ónibus desta vida aziaga / que lenta é a minha tristeza!» (p. 15) Ou ainda: «Não sei se imitou a areia / as dunas do mar / se o mar / as ondas da areia // mas eu estou triste…» (p. 42) Também num dos sonetos dirá: «Ando sem gosto, amargo, sem esperança… / E agora estou tão só, oh, ando triste» (p. 40). A manifestação dos estados de alma, sobretudo da tristeza, faz-se acompanhar do tédio e do cansaço, da consciência do Tempo enquanto ditador que subjuga a vida às suas vontades, repetindo, desse modo, os grandes temas da poesia universal (amor, morte, tempo…) sem resvalar na banalidade. No fundo, é disto que se trata:

ESTOU PARADO

Estou parado
tentando não causar dano
com nenhuma das minhas acções.

Quando parado
sei que há menos possibilidades
de alguma coisa acontecer.

Por isso estou parado
revolvendo os olhos e a cor
como um cavalo-marinho

levitando

como o camaleão
que a própria espera altera
e reveste de cor reagente.

Não me mexerei
até que a inquietude de outros
envie Hermes a minha casa.

TAMPÃO

Finalmente percebi uma conversa escutada há dias entre duas leitoras de “As Cinquenta Sombras de Grey”. Ao desagrado manifestado pela censura da cena do tampão, uma das leitoras dizia com o mais cândido dos ares:
— Não percebo porquê. Eu já fiz amor com um tampão.

MÚSICA PARA OS OUVIDOS DO MINISTRO

Desde que abandonei a profissão docente, tenho-me abstido de comentar a escola, o ensino, os professores, as chibatadas do Ministério. Apesar de ter duas filhas em idade escolar, de estar vinculado à escola por necessidade e, vá lá, por obrigação, prefiro manter distância. Sei o suficiente da estupidez humana para evitar acusações torpes para as quais não teria a mínima paciência. Ainda assim, não posso evitar, ao ler este post em tom Calimero, de constatar a languidez dos protestos. Não me lembro de um ministro da Educação que tenha sido do agrado dos professores, mas recordo a entretanto condenada Maria de Lurdes Rodrigues como uma espécie de alvo a abater desde tenra idade. A classe docente odiava-a. A mulher era o diabo em saias! Quando se falou de Crato para a posição, foram muitos e insuspeitos os uivos de esperança. Que pelo menos estava dentro da coisa, que pelo menos sabia, que merecia, como se diz, o benefício da dúvida. Crato, o teórico. Crato, o comentador omnipresente. Crato, a figura simpática que gerava empatia junto da corporação. Pois eu não me lembro de um ministro da Educação mais danoso, incompetente, com mais provas dadas no extermínio da escola pública. Não me recordo de tanta confusão, desprezo, falta de respeito e desconsideração pelos professores. O tempo das grandes manifestações já foi, agora oferecem-se concertos. Olhem, eu se tivesse por lá teria parado. E certamente bateria palmas. À música, claro.

A NÓDOA NO MAIS FINO PANO

Irrita em tão bom livro ver o verbo espoletar tão vulgarmente empregue:
 
(...)
Algumas criaturas são despoletadas
como molas à sua passagem;
(...)
 
Ou
 
(...)
que despoletasse
sonolenta mina.
 
 
Despoletar é outra coisa, caro Daniel, é exactamente o contrário. Despoletar é anular, espoletar é provocar. Já agora, uma entrada no Ciberdúvidas sobre a confusão: aqui.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

DEBILITAS NERVOSA

REENCONTRO
Alguma vez pensaste como será
O nosso reencontro?
Se o sol brilhará
Ou se a chuva baterá
Contra o vidro da janela?
Aparecerás subitamente
Numa esquina,
Como um sonho caindo no meu vazio?
Ou irei esperar-te
Contando ansiosamente as horas no relógio
Até apareceres?
Tu.
Ter-te-á a vida mudado,
Tornando-te estranha?
Iremos saudar-nos rapidamente
Com um sorriso resignado, partindo logo à pressa?
Ou será como era dantes?
Poema datado de 2 de Fevereiro de 1941, escrito em Lillestrøm antes do internamento no Ullevål Hospital. In Ruth Maier's Diary - A Jewish Girl's Life In Nazi Europe, edited by Jan Erik Vold, Vintage Books, 2010, pp. 273-274. Versão de HMBF. Na fotografia ao alto vemos Gunvor Hofmo e Ruth Maier.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

THE PLAINSMAN (1936)

De regresso aos westerns, reparo quão injusta é a ausência de Cecil B. DeMille (1881-1959) nesta lista. Apesar de ter ficado na história do cinema pelas recriações bíblicas, DeMille foi desde o início da sua carreira devoto do mais antigo dos géneros cinematográficos. Ainda no tempo do mudo, o primeiro dos seus filmes creditados é um western: The Squaw Man/O Exilado (1914). O mesmo filme será readaptado em 1918 e 1931. Mas a obra-prima do autor de The Ten Commandments no género é The Plainsman/Uma Aventura de Buffalo Bill (1936). O título português não faz justiça à verdadeira estrela da companhia, a lenda Wild Bill Hickok (homem livre das vastas planícies selvagens, conhecedor dos dialectos índios e dos seus costumes). De seu verdadeiro nome James Butler Hickok (1837-1876), Wild Bill ficou conhecido não apenas pela longa cabeleira, imagem de marca que o aspecto limpo de Gary Cooper está longe de honrar, mas pela pontaria afinada ao serviço da União. Foi amigo de William Cody, conhecido por Buffalo Bill, interpretado por James Ellison neste filme, e amante de Calamity Jane, famosa batedora que fez frente aos índios em diversas ocasiões. Jean Arthur é uma Calamity Jane muito mais elegante e feminina, assim como muito menos calamitosa do que as fotografias da época permitem supor. Como não podia deixar de ser, estas lendas do Velho Oeste aparecem no cinema expurgadas de quaisquer rugosidades humanas. São os conquistadores do Oeste Selvagem, líderes de uma missão incutida por Abraham Lincoln após a Guerra Civil e antes de ser assassinado. Também o malogrado General Custer surge representado pelo actor John Miljan.


Lincoln, Custer, Wild Bill Hickok, Buffalo Bill e Calamity Jane compõem a cartada desta aposta onde se joga a conquista do Oeste, então perturbada e dificultada pela guerrilha dos índios que se opunham às leis brancas e ao progresso que deixava atrás de si o rastro sangrento do extermínio de búfalos (a alcunha de William Cody não é fruto do acaso) e a destruição da natureza. Portanto, também aqui estamos entre figuras bíblicas. Neste caso, os protagonistas do desenvolvimento de uma nação tal como hoje a conhecemos. A diferença está em que destes protagonistas temos a certeza de uma existência factual, deles chegam-nos fotografias e relatos mais ou menos credíveis. Sobre eles se construíram histórias e ficções, pese a dimensão mitológica a que nenhuma historiografia popular está imune.  Cecil B. DeMille não lhes retira essa aura, antes a reforça exaltando o heroísmo das acções levadas a cabo, a justeza das decisões, a coragem e o sacrifício em nome de valores que eram os da figura tutelar de Lincoln. DeMille embeleza os seus heróis, obedecendo aos códigos cinematográficos de uma indústria em ascensão. O filme acrescenta, porém, às aventuras e desventuras das figuras retratadas uma raríssima, à época e ainda hoje, menção ao poder pantanoso do negócio de armas. Desviando-se dos factos negros da História, o realizador não deixa de aludi-los. A cena em que os industriais de armamento debatem o que fazer com as armas que o fim da Guerra tornou inúteis, optando por vendê-las ilegalmente às nações índias, pode não ser fiel aos factos, mas é hoje de uma irónica pertinência. No fundo, por detrás dos grandes gestos destes heróis medra a inconspícua indústria do armamento. Com os seus ardis, artimanhas e total ausência de escrúpulos, o negócio é uma espécie de agente duplo ao serviço da sua egoísta prosperidade. Não importa quem detenha as armas, conquanto sejam apetecidas e pagas. Em 1937, tais questões não colocavam a quem visse o filme de Cecil B. DeMille. Talvez as pessoas estivessem mais interessadas em alimentar os mitos nacionais que engrandeciam a América face a uma Europa em erupção. Hoje o pormenor não pode escapar, até porque a verdadeira aventura de Buffalo Bill já não é caçar búfalos, matar índios ou capturar o seu amigo Wild Bill Hickok. A aventura é perceber porque estão impedidas as pessoas de viver sossegadamente num mundo pacífico, um mundo que deixe de ser a mesa de jogo onde a batota custa vidas humanas e enriquece quem não sabe disparar senão pelas costas.