quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

OUTRO POEMA DE FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

O BUCOLISMO DEIXARÁ DE SER UM CANTO
 
Sempre vivi à beira da paisagem,
pensando-a como ser, vendo-a,
chamando-a para mim, na minha íris.
Reflectida, a paisagem estava
sempre em mim, nos olhos, na boca
com uma história no tempo, hora a hora.
Benigna ou mortal, era ela própria,
era mundo, antigo e breve, terrestre,
leito de homens, para viver pascendo
ou para morrer, como ela mesma era
morta e transformada eternamente.
E acreditei que só, para sempre,
o latejar natural dos astros, do ar,
das águas, da terra, a manteriam
entregada a mim, à minha beira,
tal como estava desde o nascimento.
Mas hoje sei que os homens insanos,
em vez de amarem o corpo da matéria
no olhar e na fragrância das paisagens,
e depredaram, como se apenas
nos quisessem deixar de herança o mundo vivo
dos monstros vindos da nossa antiga pátria, a Grécia.
O grande Minotauro hoje chama-se Chernobyl,
demiurgo que expele um hálito
que gera crias das bestas e dos homens
oposto ao antigo sopro do Génesis; que gera
criaturas como se meramente simulasse
a vida. E a paisagem torna-se aparência,
somente simulacro e armadilha,
e o bucolismo deixará de ser um canto,
pois a flauta cala o seu trilo de esperança.
 
In Cenas Vivas, Relógio d'Água, Abril de 2000, pp. 40-41. Fiama Hasse Pais Brandão faleceu a 19 de Janeiro de 2007.

UM POEMA DE FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

«Com o suor do teu rosto ganharás
o teu pão», escreveram no teu berço.
Dormiste, respiraste e, um dia,
escarneceram do suor do teu rosto.
 
É hoje, quando tu, filho de Europa,
expulso da seara do teu trigo,
em todos os muros vês escrito
que o suor é vão, e o teu rosto negado.
 
In Cenas Vivas, Relógio d'Água, Abril de 2000, p. 16. Fiama Hasse Pais Brandão faleceu a 19 de Janeiro de 2007.

NÃO TEM PIADA

Via Pedro Mexia, o cúmulo da parvoeira está documentado aqui. Ou como diria o Sr. Povo, e com razão, há sempre quem seja mais papista do que o Papa. Já agora, um comuna pode estar de acordo com um católico pessimista. Sublinho isto.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

#53


Falemos de coisas sérias. Nos idos de 1996, quando guitarras combatiam personal computers, algures nas terras de Shakespeare uma seita denominada The Aloof blasfemava zeladores da ordem vigente e respectivas convenções. Sinking (1996) é um álbum poderoso que não perdeu nenhuma vitalidade, escutando-se hoje exactamente com o mesmo espanto que então provocou. É difícil descrever a música dos The Aloof. A voz de Ricky Barrow envia-nos para Horace Andy, cantor de reggae que colaborou frequentemente com os Massive Attack. Daí que se ouça falar de uma inspiração dub quando, raramente, se ouve falar de Sinking. Mas as aproximações, na realidade, ficam-se por aqui. A poesia deste álbum é urbana e intimista, apesar dos apelos à festa, os ritmos não são tão arrastados como os da banda de Robert Del Naja (excepto, talvez, no magnífico Stuck on the shelf), as orquestrações remetem-nos para um universo romântico que não conseguimos dissociar daquele tom nostálgico que caracterizou imensos projectos surgidos no termo do século XX. No entanto, esta nostalgia tem já um pé no futuro. As programações de Jagz Kooner (trabalhou com Rádio 4, Manic Street Preachers, Primal Scream, dEUS…) são de uma contemporaneidade irresistível, apostada no hipnotismo repetitivo e minimalista do techno e em experiências com loops onde é possível reconhecer tanto a influência de um Ennio Morricone como de um Steve Reich. Fica o excelente Wish you were here em versão truncada para televisão, pelo que o ideal seria ouvir o álbum todo do princípio ao fim (em repeat):


DANTE ALIGHIERI

Quando Dante, no vigésimo oitavo canto de O Inferno, descreve o profeta Maomé cortado aos pedacinhos, para a eternidade, por um diabo poderosamente armado, figurando entre os semeadores de discórdia e os sectários, serve-se certamente dos clichés islamófobos da sua época sem lhes acrescentar a menor novidade proveniente da sua própria inspiração - se nos abstrairmos do esquema típico da commedia, o da correspondência entre a arte do sacrilégio e o modo da punição infernal. O discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, em Setembro de 2006, forneceu outro testemunho da islamofobia cristã do início do século XV. Nele citava a frase - ou melhor, o suspiro, do infeliz imperador bizantino Manuel II, o Paleólogo (cuja filha já se encontrava no harém do inimigo que sitiava Bizâncio), segundo a qual o profeta Maomé só acrescentara coisas malvadas e inumanas à revelação cristã. 

Peter Sloterdijk, in A Loucura de Deus - Do combate dos três monoteísmos, trad. Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Relógio d'Água, Janeiro de 2009, p. 42.


(...)

Nem pipa a que aduela e fundo fuja,
como um que vi, assim se desmedula,
oco do mento até onde se ruja:
entre as pernas a tripa pende e pula;
a fressura se vê e o triste saco
que merda faz daquilo que se engula.
Enquanto tudo nele a olhar estaco,
olhou-me e com as mãos se abriu o peito
dizendo: «Vê como eu me desempaco!
vê como Maomé está desfeito!
À minha frente vai chorando Ali, 
fendido, do toutiço ao mento, o aspeito.
E os outros que tu vês todos aqui,
que hão semeado escândalos e cisma
lá na vida, fendidos vês assi.
Há um diabo que atrás de nós nos crisma
tão cruelmente ao talhe de uma espada,
e nesta resma novamente abisma,
quando voltamos da dolente estrada;
e as chagas voltam a fechar escusas
antes de se enfrentar outra estocada.
Mas tu quem és que as ventas ora cruzas
talvez no escolho a retardar a pena
julgada já a tudo quanto acusas?»
«Nem morte lhe chegou, nem o condena
a culpa», diz meu mestre, «a atormentá-lo;
mas para dar-lhe experiência plena,
a mim, que morto sou, convém levá-lo
pelos baixos do inferno em cada giro: e o
que digo vero é como eu te falo.»
Um cento ou mais, isto de ouvir e o
seu passo de deter no fosso a olhar-me:
no espanto já se esquecem do martírio.
«Pois diz a Frei Dolcin então que se arme,
tu que verás talvez o sol em breve,
se tão cedo não quer acompanhar-me,
de vitualha tal, que ao cerco a neve
ao Novarês vitória assim não dê,
que de outro modo não seria leve.»
Depois que a ir-se levantou um pé,
disse-me esta palavra, e em terra a sola
pousou de novo, e foi-se Maomé.

(...)

Notas:
Ali: genro de Maomé.
Frei Dolcino Tornielli, de Novara, chefe da seita herética dos Apóstolos, ou Irmãos Apostólicos. Queimado vivo em 1307.
O Novarês: o bispo de Novara, que comandou a cruzada.


Dante Alighieri, in A Divina Comédia, trad. Vasco Graça Moura, Bertrand Editora, 2.ª edição, Março de 1996, p. 253.

VACAS SAGRADAS

A detenção de Dieudonné é Charlie? E a proibição do Mein Kampf? E a apreensão e destruição de O Bispo de Beja pelos democratas portugueses? Élsio Menau, que há seis meses respondia no Tribunal de Faro sob acusação de ultraje à bandeira nacional, merece os nossos mais Charlie sentimentos? Onde começa o ultraje e termina a liberdade de expressão? As Pussy Riot são criminosas? E o Marilyn Manson? E a Madonna? Danilo Gentili é racista? O humor pode ser racista? E machista? E sexista? E homofóbico? Existem vacas sagradas?

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

CANTO E LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA


1.

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz

Ei-la resplendente de amor   teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo

Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor


Daniel Filipe (n. 1925 - m. 1964), in A Invenção do Amor e Outros Poemas  (1960). Nascido em Cabo Verde, Ilha da Boavista, mudou-se novo para a metrópole. Jornalista, reuniu algumas das suas crónicas no muito recomendável Discurso Sobre a Cidade (1961). Foi co-director dos cadernos Notícias do Bloqueio - fascículos de poesia publicados no Porto entre 1957 e 1961 -, colaborador da revista Távola Redonda, perseguido pela polícia do antigo regime e, ao que consta, preso e torturado. O primeiro livro, Missiva, data de 1949. Em 1956, a Agência Geral do Ultramar atribuiu-lhe o Prémio Camilo Pessanha pelo livro A Ilha e a Solidão (1957). Ficou conhecido, sobretudo, pelo longo poema A Invenção do Amor. «Bom testemunho de uma emotividade e combatividade revolucionária é, nos anos 60, a [poesia] do malogrado Daniel Filipe» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

MERCADO DAS EMOÇÕES

 
Quantas pessoas conheciam em Portugal o Charlie Hebdo? Quantas, das que agora apontam o dedo à blasfémia praticada pelo jornal satírico, já tinham ouvido falar do Charlie Hebdo? Quantas alguma vez terão tido nas mãos um número do Charlie Hebdo? Eu nunca tive. E se o visse nas bancas, não compraria. Nunca na vida me recordo de ter comprado um jornal satírico. Nem sequer sou especial fã de cartunes, também raramente leio banda desenhada. Irrita, porém, deparar com tanta gente dedicada à denúncia e à crítica do malogrado jornal.
Os argumentos são dos mais rebuscados, vão desde a constatação de uma implicação sistemática com o islamismo a acusações de islamofobia, esgaravatam o passado do jornal com acusações de práticas pouco democráticas no seio da redacção, para não falar da banaldiade “estavam a pedi-las”. As pessoas confundem tudo. A qualidade do jornal não interessa para nada neste contexto.
Imaginemos a inversa. Imaginemos que era um jornal de fundamentalistas islâmicos a ser atacado por um grupo de católicos radicais. Imaginemos que Anders Behring Breivik tinha, por absurdo, encontrado uma ilha onde estavam acampados alguns jovens fundamentalistas islâmicos e desatava a disparar sobre tudo e todos. Seria na mesma um acto terrorista bárbaro, indecente, indesculpável, injustificável.
Por mais voltas que se dê a esta questão, não está em causa o que as vítimas fizeram em vida. O que deve merecer o nosso repúdio é que alguém se julgue no direito de acabar com vidas humanas desta forma, seja em Paris, Utøya, Nova Iorque, Chibok, Madrid, Kobani, Londres ou Gaza.
Através de comentários que entretanto me pediram para não publicar, chego também a este texto assinado por António Barahona. É um texto muito bonito, tão bonito que podia ter sido escrito por um qualquer católico ortodoxo. Na Rússia, Putin pensa como Barahona. É por isso que quer proibir propaganda homossexual. Cada qual com os seus deuses, obviamente. Mas é também um texto que satiriza os meus sentimentos mais profundos, não me deixando, contudo, com a mínima vontade de disparar um tiro nas fuças do seu autor.
Assim sendo, a nossa liberdade de expressão termina onde começa o ridículo das religiões. Melhor: podemos expressar-nos livremente excepto para pôr a ridículo a religião. Para a fogueira com o Anticristo de Nietzsche e com o Elogio da Loucura de Erasmo e com a Utopia de Thomas More… A sátira não pode ser aplicada à religião, defende o eminente poeta no alto da sua sabedoria. Pobres de nós, os infiéis e ateus, que a todo o momento somos satirizados pelas religiões.
Há mais de três séculos a arder no Inferno, Gregório de Matos foi um lacaio do diabo. Goethe, à sua maneira, foi outro lacaio do diabo. Ou então estamos todos errados e o alvo destas sátiras não eram as religiões elas mesmas mas o entendimento que delas é feito pelos homens, por certos homens. Por exemplo, por homens como o soldado da paz na imagem ao alto. Satirizam-se padres, bispos, cristos. Satirizam-se, imagine-se, políticos. Satirizam-se homens e mulheres, mas não toquemos nos sentimentos mais íntimos e sagrados de milhões de crentes.
Podemos tocar nos sentimentos mais ou menos íntimos? E se forem sentimentos de milhares de crentes? Podemos satirizar a IURD? E a seita Heaven’s Gate, podemos satirizar? E, já agora, essa religião do povo, esse ópio que dá pelo nome de futebol, podemos satirizar? Ou também aí não devemos tocar nos sentimentos mais íntimos e sagrados dos crentes?
Os indivíduos a quem Barahona chama guerreiros e mártires, esses e os do Boko Haram que andam a raptar crianças e a matar milhares de infiéis, esses e os do ISIS que decapitam os ímpios de Kobani, esses e os que se projectam contra altas torres no centro de Nova Iorque ou se fazem explodir na Tchetchénia, esses e o tal guerreiro da paz na foto ao alto, têm mais direito a rir do que eu? São íntimas as minhas convicções ateias, tão íntimas que vão resistindo como o mais resistente dos materiais a toda a gargalhada sagrada que as anedotas satíricas da Bíblia, do Alcorão, da Torá, do Livro dos Mortos, do Bhagavad-Guitá, dos Upanishads, têm para arremessar contra a minha consciência.
Eu, desgraçado cidadão português de mãos em concha, que em pleno século XXI e depois de um dia de trabalho ainda tenho que aturar a blasfémia de um texto onde a voz do muezzin se assemelha ao riso das hienas no mercado das emoções.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

LITERATURA DO DECOTE

 
São quase sempre norte-americanas e escrevem a metro, geralmente em séries de quatro, cinco ou mais livros a que os leitores chamam invariavelmente trilogias. Os títulos não permitem confusões: Deseja-me, Ama-me, Possui-me, Liberta-me, não necessariamente por esta ordem. Há variantes sofisticadas, do tipo Prazer Ardente, Sedução Intensa, Tentação Perfeita, Desejo Subtil . Títulos de uma subtileza sem par. E. L. James desbravou o terreno para que estas autoras de amores intensos, à maneira delas, pudessem ganhar o seu. Algemas, correntes, lençóis de cetim, saltos altos e lingerie transparente transparecem um imaginário erótico onde às velhas histórias de arrebatamentos para a eternidade se junta agora o gozo do chicote. O sadomasoquismo, na sua versão light, é a modos que uma doce tortura, um pouco como os chocolates são para os obesos. Estes livros vendem para caralho, pardon my French. Não é fenómeno que me inquiete, mas sempre vou perguntando aos meus botões sobre o que leva as pessoas a gastar dinheiro e tempo com estas coisas. O tempo e o dinheiro é delas, claro. E eu não estou em posição de censurar o que quer que seja. Mas interrogo-me. Entretenimento e distracção pastilha elástica podem ser buscados, sei lá, numa revista cor-de-rosa (agora são mais tipo fluorescentes), numa telenovela, na renda de bilros. Suponho que nestes livros se busque algo mais, talvez alimento para o sonho ou fantasias libidinosas. Porventura justificação para pecados íntimos - A vida é mesmo assim, ouço por vezes a uma leitora menos discreta. Será? A minha não é, posso garanti-lo. Nem me sinto especialmente bem por isso. E se calha apanhar sexo entre os livros ele vem por outras travessas, de Ovídio a Charles Bukowski não têm faltado opções. Confesso, porém, que o livro mais erótico que li nos últimos tempos foi o Jóquei da Matilde Campilho. Isto de ter acesso ao perfil dos autores é uma chatice, a gente deixa de ser capaz de ler a Matilde sem ter a sua imagem no pensamento. Depois dá-lhe cinco estrelas e fica com a sensação de dever cumprido. O mesmo dificilmente poderia suceder com as autoras da literatura supracita. Sem querer parecer indelicado, deixo à consideração eventuais juízos estéticos:
 
 
 
P.S.: ouvi isto agora. Retiro o que disse.

NIGÉRIA CONDICIONAL

Baga não é Paris. De lá nada nos chega digno de nota. O número de mortos é incerto. Fala-se em 2000. Por esses mortos não se organizarão marchas. Os líderes da democracia ocidental não têm viagem marcada para a Nigéria, Bibi não irá a Baga chorar as vítimas do fundamentalismo islâmico, Passos Coelho não falará à nação. O massacre de Baga não será esquecido porque não chegou sequer a ser notícia, como notícia foi, em 2011, o ataque do norueguês Anders Behring Breivik à multiculturalidade. Breivik e os irmãos Kouachi são muito parecidos, situam-se em pólos opostos a defender as mesmas coisas. Por exemplo, que ninguém lembre os mortos de Baga. Que ninguém esboce sequer a mínima preocupação com Baga. Que Baga se mantenha incógnita, irreconhecível, inexistente. Para os fundamentalistas do Boko Haram isto é uma alegria, mais um passo a caminho do paraíso das virgens.

DIREITOS

 
Queria ver a obra-prima do japonês Tanaka no jogo disputado ontem entre o Braga e o meu Sporting. Não consigo, pelas razões que a imagem ao alto ilustra. A Sport TV marca golos, mas não é na minha baliza. Jamais assinarei um canal que reivindica direitos de autor sobre momentos históricos que deviam ser do domínio público.

domingo, 11 de janeiro de 2015

TERRORISMO E POPULISMO

A ler: aqui. E já agora, acrescente-se-lhe esta epígrafe: aqui. A estupidez, de facto, não tem limites. Mas a hipocrisia também não.

OS NOSSOS HUMORISTAS

Depois de assistir à queda de meio mundo sobre as afirmações de um tal Gustavo Santos, estranhei que o mesmo direito não tivesse sido oferecido a Boaventura de Sousa Santos. Assisti incrédulo ao programa de televisão de que aqui se fala, reproduzindo afirmações ali divulgadas. No mesmo programa estavam também, via Skype, algures no Iraque, Ana Maria Rosa Martins Gomes e, no estúdio, entre outros cujo nome não recordo, a nova coqueluche da igreja portuguesa, o franciscano capuchinho Frei Fernando Ventura. Na realidade, senti-me mal ao assistir a esse programa por ter constatado ser ali apenas coerente a amabilidade e a serenidade do padre. O eminente sociólogo simplesmente reproduziu, com maior sofisticação académica e menos gesticulação, as tontices que já tínhamos escutado ao life coach (seja lá isto o que for). Tem interesse e graça que os nossos humoristas tenham preferido como alvo de chacota um palerma alegre. Talvez não tenham visto o mesmo programa que eu vi, talvez passem mais tempo a ler os posts do Gustavo no Facebook. Eles lá sabem quem lhes merece mais atenção. Também é possível que lhes falte sofisticação intelectual para desmontar os lugares-comuns do sociólogo, sentindo-se muito mais à vontade no território pop do coaching. Enfim, são os nossos humoristas. Andam agora entretidos a discutir quem é mais charlie, como na infância discutiam com os amigos de carteira quem tinha a pilinha maior. Têm todos muito piada, são é pouco inteligentes. Batem forte nos life coach, mas não se metem com sociólogos. Estão mesmo a pedi-las.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

QUAIS OS LIMITES DA CONSCIÊNCIA MORAL?

Acontecimentos como os de Paris nas últimas horas arrastam, inevitavelmente, muitos comentários e opiniões. Isso é positivo, mesmo quando se trata de manifestações estúpidas da controversa liberdade de expressão. Disse ali que não entendo o que se passou como um acto terrorista contra a liberdade de expressão. Para mim, foi um acto de guerra contra a liberdade. O mesmo sucedeu aquando dos atentados em Nova Iorque ou em Atocha, onde, se bem me lembro, não estavam cartunistas e desenhar caricaturas de Maomé. Não vale a pena alimentar ilusões quanto a isto quando nos chegam diariamente notícias, acompanhadas de documentação inquestionável, sobre os métodos hediondos e as acções indefensáveis dos assassinos a cargo do Estado Islâmico. Travam-se agora discussões sobre a liberdade de expressão, partindo de dúvidas sobre os limites do humor e da sátira como se devesse haver limites para o humor e para a sátira. Não há. Havendo, são impossíveis de determinar porque inerentes à consciência individual. Depois há as virgens do certinho e direitinho que vêm com a conversa estafada de que insulto não é humor. Deviam perguntar-se, antes de mais, sobre a natureza do insulto. Talvez percebessem rapidamente estar a mesma dependente da sensibilidade de cada um. E do tempo em que vive. E da sua situação. Concordando ou discordando de conteúdos, importa deixar muito claro que os criminosos não estavam a trabalhar dentro da redacção de um jornal. Há pessoas que não querem perceber isto, assim como não querem perceber que o chamado ISIS (Islamic State in Iraq and Syria) é uma organização terrorista com desígnios que escapam tanto ao povo ocidental como à imensa maioria dos maometanos espalhados pelo mundo. O fundamentalismo não reconhece fronteiras, infiltra-se em vastos territórios como água nas frestas, e pouco tem que ver com experiências do sagrado e sentimentos religiosos. Isto não cabe no relativismo cultural. Normalmente estamos a falar de interesses económicos obscuros, organizações internacionais com ligações inimagináveis, sobre as quais não vale a pena fazer filmes e engendrar teorias conspirativas. Todo esse obscurantismo jamais será aclarado se as forças de poder não estiverem interessadas na aclaração. Eis que chegamos aos senhores de indústrias poderosíssimas como as do armamento, do tráfico de droga, do petróleo. Quem mistura estes acontecimentos com lutas civilizacionais ou simplesmente religiosas é ingénuo, mais ainda se vier com a repetida patranha da boa vida nas democracias ocidentais e da má vida nos estados ditos islâmicos. Basta abrir os olhos para se constatar que são ínfimos os lugares do mundo onde se vive bem. E isso nada tem que ver com religião. Por exemplo, será que na Coreia do Norte se vive bem? Preferias viver na Coreia do Norte ou na Arábia Saudita? Eu preferia viver em Portugal, mas não estou completamente convencido de que em Portugal se viva bem. Diz que no Catar também não se vive mal. A discussão levar-nos-ia demasiado longe, e daqui a pouco teríamos dezenas de temas misturados numa confusão cacofónica onde ninguém se entenderia e de onde nada de relevante se aproveitaria. Normalmente é assim quando um acontecimento nos atinge a todos de uma forma tão transversal. Mas a propósito de liberdade de expressão, gostava de invocar um livro intitulado The Museum of Scandals – Art That Shocked The World, de Éléa Baucheron e Diane Routex. O título diz tudo. A primeira parte do livro chama-se justamente Sacrilege e destaca a relação problemática entre religião e arte. Hei-de regressar a este livro com outro pormenor. Por ora, e porque o tema do momento a isso inspira, quero aqui recordar os célebres caprichos de Goya:
 

E as caricaturas de Honoré Daumier, cujo tom insultuoso para a época o levaram à censura e à prisão:
 

Ou o Hitler religioso de Maurizio Cattelan, condenado por várias organizações judaicas:
 

Enfim, para quem, como eu, acredita que uma das funções da arte é quebrar barreiras, sendo certo que isso nunca se faz sem provocar escândalo e, por consequência, mexer com a consciência das pessoas, custa ouvir o tal discurso de uma liberdade de expressão que seja liberdadezinha. É a liberdade dos vídeos de gatinhos e de cãezinhos amorosos, uma liberdade que, em boa verdade, não expressa nem exprime nada. Dito isto, devo dizer que sempre me insultará muito mais ouvir dizer que com as políticas do actual governo os portugueses podem não estar melhor, mas o país está, do que qualquer caricatura, do que qualquer obra de arte, do que qualquer expressão que não ponha em causa direitos fundamentais. O de viver livremente é um deles.

ISTO NÃO É ISLÃO

 
Timothy McVeigh, condenado pelo atentado de Oklahoma, em 1995, foi um brilhante soldado da Operação Tempestade do Deserto.
 
 
O belga Lu Jouret foi um dos fundadores da Ordem do Templo Solar, tendo levado ao suicídio colectivo 12 membros da seita. Diziam-se de inspiração cristã, tendo Jouret sido membro de grupos neo-nazis.
 
 
Em 1993, no Texas, os seguidores de David Koresh foram cercados. Koresh era líder dos Davidianos, movimento dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O cerco culminou em 76 mortes, entre as quais 20 eram crianças.
 
 
Marshall Applewhite liderou a seita Heaven's Gate até ao dia 26 de Março de 1997, quando se suicidou com mais 38 membros por acreditarem que nesse dia se juntariam a Jesus Cristo na cauda do cometa Hale-Bopp.
 
 
Aum Shinrikyo, ou Aleph, ou Ensinamento da Verdade Suprema. Diz que são budistas, mas andaram a matar pessoas em Tóquio com gás Sarin. Foi em 1995. O Buda de azul chama-se Shoko Asahara.
 
 
A famigerada Peoples Temple, do reverendo James Jones, tinha boas intenções: refundar o paraíso. Jones foi comunista, depois foi activista dos direitos humanos, depois foi cristão sem Bíblia, depois foi a reincarnação de Gandhi, e de Jesus, e de Buda, e de Lenine, também foi ateu e agnóstico. Enfim, foi tudo e mais alguma coisa até organizar um suicídio em massa em Novembro de 1978. Morreram 913 pessoas.
 
Se for necessário, temos mais malucos de reserva para partilha e troca. Nenhum deles era muçulmano. Diz que Hitler também não. Fica um poema:
 
Honram, por ignorância, o mundo
Os homens, nesta desprezível vida;
Por ele se combatem, como cães, que a fundo
Se atiram sobre caça ferida.
Ibn Sara

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

FILOSOFIA POLÍTICA

No Tempo Contado, J. Rentes de Carvalho diz que «em vez de sair à rua aos gritos de "Je suis Charlie", folclore que pouco significa e pouco  adianta, melhor seria perguntar-se cada um o que espera da sociedade em que vive». Proponho-lhe este post de António Araújo. O que espero da sociedade em que vivo? «Aos que querem calar a música e impor-nos o silêncio da barbárie, sufocar a festa e o riso, só temos de dizer uma coisa muito simples. Sem temor nem medo, apenas isto: you can’t stop the music». Pode parecer pobre enquanto filosofia política, mas para mim é um excelente princípio.

CABU, WOLINSKI, CHARB, HONORÉ, TIGNOUS

Aí está a primeira tragédia do ano: o jornal satírico francês Charlie Hebdo foi alvo de um atentado, tendo sido assassinadas 12 pessoas. Entre as vítimas, contam-se oito jornalistas. Cartunistas famosos como Cabu e Wolinski morreram no campo de honra, ao lado dos camaradas Charb, Honoré, Tignous. Diz quem sabe que eram referências da sátira contemporânea. Os fanáticos que levaram a cabo o atentado gritaram por Allah. Ninguém os percebe, excepto, talvez, palermas como o da ilustração ao lado. Recuso-me a fazer caso do que diz o guru da superficialidade, mas não posso deixar de sublinhar o quanta falta faz um fortificante cerebral a gente que pensa como ele e manifesta apreço por tão desprezíveis considerações. Gostos e partilhas demonstram o quanto ainda há a fazer neste mundo livre que é o nosso em prol da liberdade. O que ontem atacaram em Paris não foi sequer a liberdade de expressão, sempre discutível e polémica e paradoxal. O que ontem foi atacado foi a liberdade. Ponto final. Todos caem hoje em cima do pobre Gustavo, um palerma visível. Alguns caem também em cima da incontinente Ana Gomes, que muito histericamente bufou logo pela manhã a teoria de que as políticas de austeridade alimentam o terrorismo. É possível. Mas se hoje os descomedidos são os bobos da festa, amanhã serão novamente estrelas da opinião pop. Assim vamos vivendo sem nos darmos conta de como atentamos também nós contra os fundamentos da liberdade, porque esta não existe nem no sangradouro da barbárie nem nos charcos da indiferença. É uma semente que os desenhos radicais do Charlie Hebdo regavam, como toda a criação, mais ou menos ofensiva, mais ou menos insultuosa, mais ou menos libertária. Nesses oásis devemos repousar, desses jardins devemos cuidar, se quisermos uma sociedade menos árida do que aquela que o extremismo reivindica em nome de deuses que só os seus fiéis zeladores compreendem. Obrigado, meu deus, por me teres feito ateu. Eu, que não só apenas acreditaria num deus que dançasse como jamais aceitarei num deus que não ria. Sobretudo que não ria de si próprio, a mais sábia e sagrada, assim me parece, das composturas. Nada há de minimamente respeitável no que defendem os extremistas do autodenominado Estado Islâmico, assim como nada havia de respeitável na Santa Inquisição, assim como nunca houve nada de respeitável na escravatura, assim como nada há de respeitável no nazismo. Por isso combatemos acerrimamente esses mundos ausentes de valores humanistas, por isso desprezamos e desrespeitamos esses universos humanos sem valor. Nenhum valor digno de nota existe nesses mundos, nada há aí que mereça respeito ou consideração, nada há aí que mereça o mínimo cuidado, a mínima cautela, porque aí não há cultura, há barbárie, há decapitações de pessoas livres, há a decapitação da liberdade. Pouco disto tem que ver com o Islão, sendo também vítimas deste fanatismo religioso todos os muçulmanos para quem o amor é a mais sagrada das palavras. Nenhum cartoon, por mais violento que seja, desrespeita o seu alvo, nunca tanto quanto esse alvo se desrespeita a si próprio se julgar que as soluções para os problemas do mundo passam por andar de rosto tapado a assassinar brutalmente criaturas humanas. Charb, Honoré, Tignous, Cabu, Wolinski andavam de rosto descoberto e tinham as mãos sujas de tinta, não as tinham sujas de sangue humano. Seria injusto transformá-los numa caricatura do mundo livre, pois estão hoje para nós como para o Renascimento estiveram todos os intelectuais torturados, assassinados, condenados à morte pela Santa Madre Igreja. Que uma qualquer concepção de Deus se esconda por detrás destes ódios humanos não me é indiferente, ainda que julgue não estar tanto o problema na ideia de Deus como está na ideia que algumas bestas humanas fazem d’Ele.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015


[DEITEI AGORA MESMO]

 
Deitei agora mesmo o açúcar no cinzeiro
Caiu-me a cinza no café
Onde pensei azul vejo vermelho
E a linha como tonta alheia e brusca se desprende
e furta à intenção da mão que a traça
 
O que o dia todo desenhei
eu próprio olho espantado e espantado não sei
em verdade o que é
 
Rigoroso analista que nos outros tudo entende
que se passa?
 
 
 
Mário Dionísio (n. 1916 - m. 1993), in Memória dum Pintor Desconhecido (1965). «Entre os poetas editados pelo Novo Cancioneiro, Mário Dionísio, também mais ligado aos agrupamentos lisboetas, atinge em Riso Dissonante (1950) os melhores momentos de uma aliança entre as vibrações líricas e combativas, entre o desespero e a esperança, o senso do irrecuperável e o do futuro a criar, vencendo o esquematismo dos livros anteriores (...)» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «Se a sua ficção e os seus poemas não possuem o mesmo significado que deve hoje reconhecer-se à sua actividade crítica, não menos aqueles últimos marcaram, dentro do neo-realismo, uma posição muitas vezes encarada com injustiça por demasiado próxima dos mestres franceses (...)» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). «O Novo Cancioneiro reuniu, nos anos 40 (em plena II Guerra Mundial) um conjunto de jovens inspirados pelos princípios do neo-realismo: aliavam uma poesia com marcadas preocupações sociais a uma atitude política de oposição ao salazarismo. Na colecção couberam títulos tão diferentes (e desiguais) como Terra, de Fernando Namora, Poemas, de Mário Dionísio, Sol de Agosto, de João José Cochofel, Aviso à Navegação, de Joaquim Namorado, Os poemas de Álvaro Feijó, Planície, de Manuel da Fonseca, Turismo, de Carlos de Oliveira, Passagem de Nível, de Sidónio Muralha, Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro e Voz que Escuta, de Políbio Gomes dos Santos. Apesar da matriz neo-realista, as diferenças significativas entre os autores fizeram com que o Novo Cancioneiro não tenha sido um movimento literário, ao contrário dos grupos criados em redor das revistas Orpheu (Pessoa, Sá Carneiro, Almada) ou Presença (José Régio, Miguel Torga, João Gaspar Simões). Por isso, muitos críticos e historiadores consideram que o Novo Cancioneiro falhou como grupo, apesar de nele se terem revelado grandes poetas (e depois prosadores) como Carlos de Oliveira ou Manuel da Fonseca)» (aqui).
 

MITOS

Através do umblogsobrekleist chego aqui, aqui e aqui. É difícil combater o mito de que a troika chegou a Portugal porque não tínhamos dinheiro para pagar salários e pensões, defendido ad nauseam por gente popular e populista do tipo Medina Carreira, José Gomes Ferreira ou Camilo Lourenço. São indivíduos com uma presença mediática permanente, pelo que me parece urgente começar por clarificar esta questão: «o dinheiro emprestado pela troika a Portugal não foi para pagar salários e pensões, mas para pagar a credores». A quem têm servido os sacrifícios impostos aos portugueses? A quem tem servido esta sangria?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

CRIANÇAS

 
Dia e noite
as notícias estão chegando
telegráficas e sensacionais
dos confins do mundo.
 
     — Sobre destroços de casas e de árvores
     crianças chinesas boiando à deriva
     na corrente do rio Amarelo transbordado!
 
    — Poliomielite grassando
     nas províncias argentinas!
 
     — Socorro tratamento urgente
     para o menino das montanhas dos Abruzos
     perdendo a vista pouco a pouco!
 
     — Agasalhos abrigos alimentos
     para as crianças húngaras foragidas
     do esmagamento e das labaredas soviéticas!
 
Dia e noite
as agências dos jornais estão telegrafando
a rádio espalhando o alarme.
 
Organização Mundial da Saúde
Cruz Vermelha
Cáritas
Exército de Salvação
estão providenciando
estão salvando as crianças.
 
Quermesses
rifas
leilões
tômbolas
a favor das crianças
     chinesas
     argentinas
     italianas
     húngaras
sob o patrocínio de damas importantes
louvadas depois nas revistas ilustradas
com fotografias em ectacrome evidenciando
colares e cruzes
fulgindo nos decotes.
 
Há também as crianças pobres
do povo das nossas Ilhas
mas é um caso apenas
sem importância nenhuma
e ninguém sabe
ninguém dá por isso.
 
Temos também aqui
crianças sem roupa
sem lar e sem pão
crianças tuberculosas
     sifilíticas
     aleijadas
     paralíticas
     cegas
     leprosas
sem remédios
sem escolas
sem brinquedos
levando cargas à cabeça
por caminhos longos e ásperos
que o rastro do povo deixou marcados
na terra endurecida e no basalto
dos descampados e dos montes
ignoradas crianças
dos bairros promíscuos
dos cais e das praias
da gafaria do Barbasco
crianças nuas rurais
     (ficam olhando dos areais para o mar
     e nas minúsculas manchas ao largo
     sabem distinguir um por um
     os botes familiares).
 
Temos também as crianças
pobres das Ilhas
mas é um caso apenas
sem importância nenhuma
gota de água caída
no oceano vasto das crianças
     chinesas
     argentinas
     italianas
     húngaras
 
Ninguém sabe
ninguém dá por isso
a rádio não fala
os jornais não dizem
ninguém telegrafa.
 
Jorge Barbosa (n. 1902 - m. 1971), in Claridade, n.º 8, 1958. Natural da cidade da Praia, quando Cabo Verde era colónia portuguesa, Jorge Barbosa estreou-se em 1935 com o livro Arquipélago. Foi um dos membros mais importantes do movimento Claridade, reunido em torno da revista literária e cultural com o mesmo nome. O primeiro número de Claridade data de 1936, tendo sido responsáveis pela publicação os escritores Manuel Lopes, Baltasar Lopes da Silva e Jorge Barbosa (ver aqui). Segundo Jorge de Sena, o grupo veio a ser «uma das primeiras manifestações vitoriosas de uma atenção à realidade social que o «neo-realismo» preconizaria, é certo que com outros pressupostos. A poesia de Jorge Barbosa, menos culturalmente activa do que a obra de Baltasar Lopes, é todavia a de um lírico simples, que evoluiu para um verismo comovido, através do qual fixou, com invulgar contenção de tom e directa expressão desataviada, a tragédia humana das populações cabo-verdianas».

SALTOS MORTAIS NO MEIO DA RUA

A certa altura, no meio das entrevistas que deu agora, disse uma coisa que me surpreendeu. Que foi, a certa altura da sua vida...
Posso só interromper? Eu queria que esta fosse a última e depois não houvesse mais entrevistas na minha vida. Em Portugal. Porque não faz sentido. As pessoas têm direito aos livros, mas aquilo que eu digo são banalidades.
Isso é diferente, um bocadinho, das apresentações. Já disse que não deve haver sessões de lançamento de livros, apresentações...
Sim, nunca mais fiz...
Mas há pessoas que querem falar consigo, ouvi-lo falar.
As pessoas têm direitos aos livros, não têm o direito a nós. Nós somos sempre uma desilusão. As pessoas esperam de nós coisas bestiais, que a gente diga coisas muito inteligentes. A maior parte das vezes não diz. Uma vez, um homem encontrou a Sarah Bernhardt na rua, reconheceu-a e perguntou: «Ah, Vossa Excelência é a Sarah Bernhardt?» Resposta: «Vou ser esta noite.» Quando nos pedem que digamos coisas inteligentes é como pedir a um acrobata para dar saltos mortais no meio da rua.
Ou que estejam sempre a falar dos seus livros. E que estejam sempre a falar de livros. Esta ideia de que os escritores só falam de livros é um bocadinho cansativa, também.
Com o Zé [Cardoso Pires], nunca falávamos de livros. Às vezes, falávamos de outras pessoas, do género «gosto, não gosto». Não passávamos daqui. Por exemplo, ele não gostava do Scott Fitzgerald. Pronto. Dizia que não gostava e pronto, não andávamos muito mais do que isso. Eu gostava do Hemingway, mas eu não tenho, de maneira nenhuma, a paixão que ele tinha.
E gostava de Mailer.
O [Norman] Mailer é uma personagem extraordinária. Estive um semana em Gotemburgo com o Mailer e com o [Günter] Grass. Tinha um humor, aquele homem... O Mailer era engraçadíssimo e tinha um sentido de humor lixado. Eles não percebiam francês e o Mailer não falava francês, mas só discursava em francês. Um francês inventado por ele que ninguém percebia, e ficava tudo ali quieto, durante um quarto de hora, enquanto ele discursava, e no fim aplaudiam. E ele piscava o olho para nós. Piscava o olho para nós e continuava. E os discursos eram todos assim, num francês que não existia, e depois vinha nos jornais suecos que ele tinha feito um discurso interessantíssimo sobre literatura. Ele não sabia dizer uma frase em francês.
 
 
António Lobo Antunes, em entrevista a Francisco José Viegas, revista LER, n.º 136, Dezembro de 2014.

sábado, 3 de janeiro de 2015

UM SAPATO PARA MUDAR O MUNDO

Em Dezembro de 2008, o jornalista iraquiano Muntadhar al-Zaidi arremessou os sapatos que trazia calçados contra o então presidente norte-americano George W. Bush. Em Janeiro do ano seguinte, Rui Costa publicou cinco textos no Insónia sob o título genérico Um Sapato Para Mudar o Mundo. Deixo aqui os links para esses posts:
 
A cada um o seu muro portátil. Um muro sólido como uma utopia, auto-suficiente como uma má metáfora. O anjo da guarda que merecemos e nos ausculta as ideias sem precisarmos de abrir a boca. É óbvio, havemos de ter o paraíso. Havemos de ter um paraíso para cada um.

Estou neste preciso momento a abandonar o país e seria bom que todos seguissem o meu exemplo. Foi bom nascer neste arrebol.

Não votar, mais do que um direito, é um dever cívico.

Podemos responder à directora da DREN: “as hortaliças 11023 são aves não gostam comer magalhães de que, por isso senhor dos suspensórios pagamento ser feito a.”

Vejamos: A Administração Regional de Saúde do Alentejo pagou 97.560 euros a João Severo por:

- 1 armário persiana;
- 2 mesas de computador;
- 3 cadeiras c/rodízios, braços e costas altas

sábado, 27 de dezembro de 2014

O POST MAIS DEPRIMENTE DO ANO

É este da Helena, no Coriscos. E a culpa não é dela. Exemplos:
 
"A questão de me encarar como o quarto elemento da 'troika' é simplesmente insultuosa. Recuso esse papel. O meu papel é o oposto. A 'troika' estava sentada do outro lado da mesa."
Vítor Gaspar, ex-ministro das Finanças

Público, 17-02-2014

 
"A vida das pessoas não está melhor, mas a vida do país está muito melhor."
Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD
JN, 20-02-2014

 
"Depois do programa de ajustamento, é preciso um programa sério de fisioterapia que desenvolva o músculo."
António Costa, presidente da Câmara de Lisboa
08-03-2014

 
"Eu rezo com palavras de Sophia."
Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, nas cerimónias de trasladação dos restos mortais da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen para o Panteão Nacional
02-06-2014

 
"Estou em choque, confesso, e a sensação que me fica é que a sentença não é sobre as acusações, não é sobre o que estava em causa. Eu acho que a sentença tem muito a ver com a minha circunstância [ter sido ministro do PS]."
Armando Vara, após a condenação a cinco anos de prisão efetiva no âmbito do processo "Face Oculta"
05-09-2014

 
"A argumentação usada pelo Ministério Público na acusação, bem como pelo tribunal durante o julgamento, revelam a existência de preconceitos sobre os políticos, em particular sobre os políticos que exerceram ou exercem cargos governativos."
Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação, após ter sido condenada a uma pena suspensa por prevaricação de titular de cargo público
15-09-2014

 
"Peço desculpa em nome do Ministério da Justiça pelos transtornos [resultantes dos problemas detetados na plataforma informática Citius]. (...) A responsabilidade política assumo-a integralmente."
Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça
17-09-2014


"Peço desculpa aos pais, aos professores e ao país."
Nuno Crato, ministro da Educação, sobre os problemas com a colocação de professores
18-09-2014

 
"Não tenho presente todas as responsabilidades que desempenhei há 15 anos, 17 e 18. É-me difícil estar a detalhar circunstâncias que não me estão, nesta altura, claras, nem mesmo nas supostas denuncias que terão sido feitas."
Passos Coelho, sobre alegados pagamentos que recebeu da Tecnoforma há 15 anos
19-09-2014

 
"Guardo as cópias do IRS de todos os anos. Dá jeito para evitar problemas."
Ângelo Correia, antigo patrão de Passos Coelho na Fomentinvest
Diário de Notícias, 25-09-2014


"Se cada vez que alguém aparecer a fazer insinuações, eu tiver de fazer (como qualquer um dos senhores deputados) o 'striptease' das contas bancárias, para deleite dos leitores de jornais, isso não faço."
Passos Coelho
26-09-2014

 
"Uma política orçamental inteligente é aquela que apoia o emprego e o crescimento, ao mesmo tempo que traz a dívida pública para níveis mais seguros [e que] valoriza o investimento público eficiente e facilita as reformas estruturais."
Vítor Gaspar, presidente do Departamento de Assuntos Orçamentais do FMI
08-10-2014

 
"Eu não menti em nenhum dos momentos em que falei neste parlamento."
Maria Luís Albuquerque
19-11-2014

 
"Em nome do bom senso, os proponentes [PSD e PS] da proposta 524-C [fim da suspensão das subvenções vitalícias a antigos políticos] pedem para que seja retirada."
Couto dos Santos, deputado do PSD
21-11-2014

 
"Só deixa de ser livre quem perde a dignidade. Sinto-me mais livre do que nunca."
José Sócrates
Expresso, 29-11-2014