Há pessoas que são viciadas em listas. Fazem listas de tudo,
listas dos livros que leram, dos filmes que viram, dos discos que ouviram. Ou
do que têm e do que pretendem ter. Outras, mais minuciosas, fazem listas
redondas, geralmente de 10, 50 ou 100 dos melhores livros que leram, dos
melhores filmes que viram, dos melhores concertos a que assistiram. Eu gosto de
listas, mas não sou viciado. As listas ajudam-me a organizar a memória, têm
também uma função selectiva que me parece útil. Raramente respeito os
pressupostos das listas que inicio, como nesta lista dos westerns que deve verantes de morrer. Eram para ser 50, mas dei-lhe continuidade. O trabalho de ter
que escolher apenas 50 tornava a lista cansativa, roubando-lhe a sua principal função: ser um
divertimento. Quando era miúdo acontecia-me o mesmo com as colecções, fazia colecção
de tudo sem fazer colecção de nada. Começava colecções umas por cima das
outras. As listas estão na moda, as listas vip, a lista swissleaks, a lista de
pedófilos… Sobre esta, muito se tem dito de acertado: é um atentado ao estado
de direito, conceito vago na cabeça dos actuais governantes, que
convida à justiça popular. Esta lista de pedófilos faz-me lembrar a estrela que
os nazis colocavam no peito dos judeus, um estigma que diminuía as pessoas
socialmente fazendo delas cidadãos de segunda. Trata-se de uma mentalidade
muito popular que não custa perceber, as massas actuam movidas por emoções, a
razão dos seus comportamentos é ínfima. É difícil ser-se homem em comunidade, a
comunidade transforma-nos em animais que agem por repetição, cópia, em
catadupa. As empresas também fazem as suas listas. Na empresa onde trabalho há
agora uma lista de incumpridores, ideia estapafúrdica por certo germinada na cabeça de
um qualquer professor primário do antigo regime que senta a um canto da sala, com
orelhas de burro, o aluno faltoso. É óbvio que nessa lista de incumpridores só
aparecem as galinhas na base do galinheiro, aquelas que passam a vida a limpar
da testa a merda que os galos e as galinhas do poleiro vão fazendo. Nessas
listas de incumpridores jamais constarão elementos da direcção comercial ou dos
departamentos centrais, porque esses não falham e cumprem escrupulosamente as suas
funções. Nas hierarquias do poder quem manda é sempre perfeito, só falha quem
obedece. Julgava eu que esta mentalidade, muito em voga nos dias que correm,
estava obsoleta. Infelizmente não é assim, continuamos entregues a pessoas cuja
mentalidade social equivale à de um gorila no seio do seu grupo. As
listas de pedófilos resultam disso mesmo, de uma vontade de excluir mais do que
de integrar, de censurar mais do que educar, de punir mais do que de tratar, são
uma marcha-atrás civilizacional que nos há-de levar ao tempo da caça às bruxas.
A dúvida que se impõe é: por que não ir mais longe na obsessão das listas
fazendo listas de cidadãos tóxicos, faltosos, listas de políticos
corruptos que os marcassem para a vida. Espetávamos com um letreiro na testa do actual Primeiro-ministro: mentiu, não pagou impostos, viveu de ajudas de custo. A
actual ministra da justiça, a ministra do caos, a ministra que ainda há pouco
pedia desculpas à nação pelas precipitações reformistas, a ministra que dizia
ter-se acabado o tempo da impunidade, não pode ficar impune a tal ideia. Como já
outros disseram, ao primeiro crime de justiça popular que ocorra na sequência
dessas listas estigmatizantes ela tem que sentar-se no banco dos réus. Sabemos
que isto nunca irá acontecer, porque neste país nunca um político se sentou ou
sentará no banco dos réus por medidas criminosas que tenha implementado. Não só são impunes, como irresponsáveis. São inimputáveis. Também
não admira que assim seja com um tecido social medíocre como o nosso, o qual se
revela estrondosamente nas audiências da televisão, nos tops das livrarias, nos
interesses partilhados em redes sociais, na demissão dos deveres cívicos que os
próprios políticos eleitos pelo povo promovem com os seus esquecimentos e
baixas atitudes.
quarta-feira, 18 de março de 2015
terça-feira, 17 de março de 2015
BEATRIZ HIERRO LOPES
Da geração que começou a mostrar-se através da revista
Criatura (n.º 1, Fevereiro de 2008), Beatriz Hierro Lopes (n. 1985) tem vindo a
destacar-se pela prática não muito frequente entre nós do poema em prosa. Dois livros
consolidam essa tendência: É Quase Noite (Averno, Maio de 2013) e [espartilho]
(Debout Sur l’Oeuf, Janeiro de 2015). São livros com estruturas muito
semelhantes, constituídos por dois conjuntos de poemas em número quase igual.
No livro mais recente, os conjuntos chamam-se partes. Já no primeiro volume,
cada conjunto recebeu um título que de algum modo os autonomiza: Ossos e Olhos.
Mas na realidade parece haver uma continuidade entre eles que torna as divisões
acessórias, sendo mais relevante o tom consistente da escrita e a persistência
de temáticas, regiões de interesse, obsessões lexicais que oferecem à leitura
uma sensação de coerência tanto no estilo como em algo porventura menos
superficial, isto é, o ideário imagético e até filosófico que subjaz à
escrita.
Falamos, portanto, de uma prosa personalizada que teve em É Quase
Noite um excelente cartão de visita. Nos trinta poemas desse livro, repartidos
em partes iguais pelos dois conjuntos, encontramos algo que não é muito frequente: a capacidade de concentrar em poemas principalmente narrativos elementos existenciais
que extravasam o domínio exclusivo da experiência, num diálogo intenso entre
corpo e sombra que a imagem estendida ao longo de contracapa e capa tão bem
ilustra. Parece-me errado tentar circunscrever os poemas de Beatriz Hierro
Lopes a um biografismo preenchido por memórias familiares, experiências mais ou
menos ambíguas de lugares, contactos esporádicos com objectos de família e
ambientes evocadores de uma genealogia omnipresente, até porque esse
biografismo joga-se de um modo muito particular no tabuleiro de questões
ontológicas onde à omnipresença se opõe uma radical ausência, onde à partilha
se opõe a solidão, onde o contacto físico se perde nos interstícios da
reconstituição histórica através de memórias difusas e incertas. Mesmo num
poema como Biografia, o aspecto declarativo da reconstituição biográfica, com
invocações das raízes familiares, esvaece no uso da conjugação condicional:
«Dessem-me mais tempo e teria construído a perfeição» (p. 21).
Este é, aliás,
um dos aspectos mais marcantes desta poesia. Já o remate do primeiro poema o
havia anunciado: «E eu usaria um colar de ossos de finas asas, onde se
gravassem os poemas de que mais gosto, se achasse que isso serviria para mudar
a minha sorte de velório» (p. 10). Logo a seguir: «Abraçá-las-ia a todas se,
assim, encontrasse mais silêncio do que o dos gatos que nelas se escondem» (p. 11). Ou
ainda: «pudesse eu, seria judia» (p. 25). O mesmo tipo de artifício iremos
reencontrar no livro publicado pela DSO, nomeadamente no poema [salvação]:
«Dessem-me amoras, mirtilos e framboesas e, com todas elas esmagadas nas minhas
mãos, tingiria as paredes do quarto com o corpo» (p. 44). Ora, esta recorrência
à conjugação condicional reforça no texto a preponderância do que ficou por
acontecer, do que não chegou a verificar-se por falta de condições. Fosse outro o mundo, seria outra esta poesia. Fosse outra a história, seria outro o texto.
Digamos que sobre estas condições pesam tanto a ausência como os sonhos
impossíveis que Beatriz Hierro Lopes não herdou da mãe (Cf. Os Sonhos
Possíveis), pesa, sobretudo, a raiz que, se não determina, pelo menos
condiciona fortemente o curso das águas.
Os pássaros mortos evocados no poema
inicial de É Quase Noite, na sua relação metafórica e metonímica com a poesia e
com a liberdade, estabelecem uma ambiguidade que resgata estas prosas do
biografismo e do confessionalismo para um campo de encenações muito mais
complexas. Página 9: «Desconfio dos pássaros por só os encontrar mortos» (p. 9).
Página 46: «Gatos e cães não são de confiança. Só os pássaros». No poema
[antecomeço], do volume intitulado [espartilho]: «Não acredito em cães» (p. 10).
Que pensar destas relações de confiança e desconfiança com o reino animal? Desde
logo, uma clara inquietação quanto aos sujeitos de confiança. O reino doméstico
é, claramente, o mais desacreditado. Mas, mais que isso, vislumbramos aqui o
indício de uma construção sobre a realidade que faz do poema [palco] um dos
mais inadvertidamente confessionais que a autora gerou até à data: «A minha
boca é o palco. (…) Sou teatro. Corpo cenário, tão fácil que sirvo a qualquer
homem e mulher que se conforte na minha voz» (p. 26). A assunção da
artificialidade, acompanhada do enovelado biográfico, eleva estes poemas a um nível
de complexidade que mina toda e qualquer interpretação literal.
À pergunta quem
sou subjacente no primeiro livro, sobrepõe-se no segundo a dúvida sobre o que
se é. E à pergunta o que sou oferece-nos a autora várias respostas, nenhuma
delas passível de interpretações literais: «Sou só rapariga, de pernas
estendidas, pés cruzados, buscando a prova definitiva de que é nas paredes que
se guardam os medos» (p. 12), «Sou estéril de silêncios» (p. 17), «Sou teatro»
(p. 26), «Sou, sem dúvida, a mais promissora montra que conheço, e nem por isso
se incendeiam os cabelos para testar o meu elevado perigo de combustão» (p. 33),
«Sou vadia e o mesmo é dizer que nasci do fundo do mar onde naufrágios sepultam
o progresso de outras vontades» (p. 39). Porventura menos narrativo do que o
anterior, [espartilho] é uma intensa especulação ontológica onde a dúvida surge
paradoxalmente formulada em tom declarativo. Isto assim é por nos ser dado a
entender que as definições partem de um campo onde a realidade surge
configurada pela escrita, ela própria um espartilho que a linguagem poética
tanto pode apertar como desapertar. Com um discurso centrado no eu, o texto
abre caminho para a alteridade. A identidade feminina implícita, desde logo, na
escolha do título é agora recolocada no centro do corpo. Já não estamos, como
no livro anterior, tão acorrentados à raiz familiar como estamos ao próprio corpo,
filtro de todas as experiências, dimensão derradeira do ser aberto ao mundo.
A
linguagem utilizada herda da fenomenologia a capacidade de pensar a
interioridade na sua relação com o mundo exterior, sendo especialmente poéticos
os momentos de (con)fusão em que o corpo se metamorfoseia com o espaço
circundante: «Tenho paredes frias no interior do peito e uma mão que evita tocá-las»
(p. 24). Surgem, por vezes, sinais de uma sexualidade espartilhada — «O sexo e
a falta que nele há de sexo» (p. 22) —, imagens de uma violência recatada que
colocam a morte no centro da vida e a ausência e o abandono no centro da existência:
«Para quê espelhos, se o teu relógio sem ponteiros de mostrador estilhaçado te
mapeia a trágica encruzilhada das veias?» (p. 36).
Mas na segunda parte do livro
o que mais sobressai é a irrupção da água enquanto elemento fulcral. Ora, a água
está presente no imaginário universal como fonte de vida, o ser humano é
essencialmente água, o corpo humano é essencialmente água, é o berço onde o ser
germina. Nestes poemas de Beatriz Hierro Lopes a água é algo mais, é também,
por assim dizer, o leito dos náufragos. E é onde o corpo jovem mergulha para, lá
permanecendo, se parecer com a figura engelhada da morte. A água é o tempo
a passar pelo corpo, enrugando-o, encolhendo-o, iludindo-o quando nela se vê o
rosto espelhado para logo o afogar. O poema [corpo] (p. 41) surge, neste
contexto, como outro momento bastante revelador desta poesia cujo maior mérito
é estar dentro de si própria e afirmar-se, coerentemente, mais pela busca de sentido do que pela imposição do mesmo: «Deixado entre os lençóis, o meu corpo, para além do nome, é
o de um criminoso que encontra na condenação espaço suficiente para se pensar»
(p. 41).
segunda-feira, 16 de março de 2015
SUFOCAÇÃO
Como não acredito em grupos ou gerações literárias, normalmente manobras tacanhas para que os outros reparem no que excepcionalmente apenas reparariam, como só me preocupo com obras que para mim valham individualmente por si mesmas e a outras se justaponham para formar o valor de uma tradição de inovações, os escritores amontoados em redor uns dos outros causam-me uma certa sufocação.
Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre, Editorial Presença, Abril de 1999, p. 222.
sexta-feira, 13 de março de 2015
DOIS LIVROS DE POEMAS
Personalidade perturbada e perturbante, não é por acaso
que o poeta Robert Lowell (n. 1917 – m. 1977) surge mencionado nas badanas dos
livros Última Semana, de Hugo Williams (n. 1942), e 77 Oníricas
(Tinta-da-China, Novembro de 2014), de John Berryman (n. 1914 – m. 1972).
Apesar das diferenças evidentes, as vozes poéticas de Hugo Williams e John
Berryman convergem no sentido do biografismo praticado por Lowell. A influência
exercida pelo autor de Land of Unlikeness (1944) durante a década de 1960,
então o mais conhecido e celebrado dos poetas norte-americanos, reflecte-se
tanto no britânico Hugo Williams, estreado em 1965 com Symptoms of Loss: Poems,
como nas dream songs de Berryman, cujo primeiro capítulo foi, precisamente, as
77 Dream Songs (1964) agora extraordinariamente mudadas para português por
Daniel Jonas. Uma mesma fonte, por assim dizer, produz resultados bastante
diversos. Comecemos pela antologia de Williams seleccionada e traduzida por
Pedro Mexia. São praticamente cinquenta anos de produção poética revistos numa
recolha onde salta à vista a solidez do universo doméstico, investido amiúde por
imagens sucintas arguciosamente ocultadoras do sentido. Parecendo simples, estes
poemas onde a família, mormente a figura paterna, está omnipresente retratam instantes
biográficos sem sobre eles exercerem análises críticas. Daí que aparentem uma
frieza despojadora de sentimento e emotividade, embora nem sempre assim seja. O
primeiro poema do livro, a título de exemplo, refere-se a uma chave cujo
realismo nos transporta súbita e inesperadamente para uma experiência confessional
de índole psicanalítica: «Pressiono a minha unha / contra a extremidade dentada
e percebo / a necessidade de entender em Braille / a minha antítese, ou aquilo
que me / humilha» (p. 7). Filho dos actores Hugh Williams e Margaret Vyner, o
poeta encena em muitos dos seus poemas memórias familiares. Ler este livro é,
em parte, como folhear um álbum de fotografias legendadas por versos que
rematam talvez uma tentativa de autoconhecimento através da compreensão das
origens. Lamentos, detalhes nostálgicos, simples apontamentos afectuosos,
conferem ao presente uma espessura transitória povoada de vazios e de fantasmas:
ÚLTIMA SEMANA
Ele nunca tirava a maquilhagem
nos últimos anos, «poupa-se tempo»,
Leichner 5 e 9 para cenas de interior,
uns toques de vermelho no canto dos olhos.
«Uma palavra de elogio para o Velho Cocheiro»,
escreveu a Plays and Players.
«Só está em cena nos últimos cinco minutos,
todo molhado, pobre homem,
mas torna toda aquela história fantástica
muito verídica e patética…»
Ele lia isto alto, para si mesmo,
para se lembrar de quem era.
A namorada tinha metade da idade dele,
e pensava que ele era o protagonista.
Ele julgava que ela era virgem.
«Eu sou como o elefante sem tromba do Kipling»,
disse-me ele certa vez, «insaciável de curiosidade».
Depois despejava um balde de água cabeça abaixo
e entrava em palco aos gritos
que a sua amante se tinha afogado.
Gostava de saber para onde foi ele,
porque se esqueceu da caixa de maquilhagem
e do cabide com um monograma
que a gerência lhe ofereceu.
Radicalmente distinta é a linguagem praticada por John Berryman,
tingida de uma expressividade delirante e lunática, copiada das
ruas mas ceifada por elipses que aproximam alguns poemas de um hermetismo quase
indecifrável. “Obra contínua”, as oníricas de Berryman conheceram neste
primeiro acto uma invejável aclamação. O livro está organizado em três secções
com cerca de 26 poemas compostos por mais ou menos dezoito versos livres,
embora frequentemente pautados por rimas internas mais facilmente detectáveis
na versão original. Tratando-se de uma edição bilingue, o confronto pode e deve
ser feito. Sem desprimor para a excelente e dificílima tradução, há elementos rítmicos
e musicais que se perdem na transposição para português. A inclusão de
personagens nos poemas mina a confessionalidade, sendo vasta a discussão acerca
da identidade do papel principal conferido a um tal Henry. Os humores desta
figura atravessam todo o livro. Logo no primeiro poema, Henry amua, alguns
versos depois anda mono, cisma, excita-se, surge momentaneamente feliz,
espanta-se a si mesmo, tem amigos, mulher e filhos: «O Henry deu-lhe uns
calores, fornicou, sentiu-se mal, sobreviveu» (p. 147). Noutras ocasiões, o
sujeito poético censura-o, critica-o, caracteriza-o, chama-lhe nomes. Por vezes
vêm à tona considerações pessoais, morais, políticas, literárias, gostos e
desgostos, diálogos cifrados, ódios de estimação: «Rilke era um idiota» (p.
17), «Ethan Allen era um homem com uma missão» (p. 23), «Kierkegaard queria uma
sociedade que se recusasse a ler jornais, / e isso não era, amigos, a sua pior
ideia» (p. 121). Quem é este Henry? No prefácio, Daniel Jonas coloca-o nestes
termos: «Personagem anómala, defectiva, uma aberração de laivos kafkianos, representando
um certo imobilismo, quando não uma resistência à acção, opondo à leitura dos
seus actos e motivações um vidro propositadamente difuso e multiplicador, Henry
desdobra-se, além do mais, numa tripartição de pessoas, em eu, tu e ele,
mimetizando desse modo quer o número de estrofes quer uma trindade esquizóide»
(p. 7). Mais fácil será ver nesta personagem um alter ego do autor, conquanto
este alter ego subsista ao estilhaçar da identidade que os poemas sugerem.
Outra leitura possível, proposta inclusivamente no poema 76, justamente
intitulado A Confissão de Henry, é a de neste nome - o mais feio de todos para Berryman - poder ser representado com
embriagante desvario a implosão do Eu numa poesia impermeável ao
sentimentalismo lírico. Não nos podemos esquecer que estes poemas transportam-nos
para uma dimensão onírica, mergulham-nos nesses lugares obscuros da consciência
(inconsciente?) onde tudo se confunde e ganha formas estranhas, campo de
batalha do ego a confrontar-se com os seus próprios receios, desejos, medos,
frustrações e tormentos. Ligadas à realidade por elos referenciais, estas
canções vêm do sonho, vêm de um outro universo que não aquele onde o realismo
alicerça os seus castelos de beleza. Trata-se, por isso, de uma evocação
eminentemente literária com intenções estéticas precisas. Mais do que política
ou focada na contemporaneidade norte-americana, como alguém o disse, esta
poesia é altamente psicológica, estando também nesse aspecto num cumprimento de
onda similar ao que encontrámos em Hugo Williams:
74
O Henry odeia o mundo. O que o mundo ao Henry
fez é impensável.
Sem sentir dor,
apunhalou o braço e escreveu uma carta
a explicar a sua péssima experiência
neste mundo.
O velho amarelo, numa túnica
poderia ter feito a diferença, «estas beldades plebeias»,
e chartreuse poderiam ser decisivos
«Quioto, Toledo,
Varanasi — as cidades santas —
e a Cantabrígia da luz difusa não compensam
o, bom, o horror do desamor,
nem a sul de Paris de carro na primavera
para Siena e daí…»
Chamando o Henry à razão, o sombrio Henry
latiu às coisas.
As vivas desilusões dos homens
e as viciosas e adoráveis criancinhas
e as infelizes mulheres, o Henry dominava, o Henry
que provava todos os pedaços secretos da vida.
ASFIXIA DEMOCRÁTICA
Olho para o recibo de
remunerações de Fevereiro. Com um vencimento base de 692,41€, o total dos
descontos legais é de 238,64€. Mais 10€ cuja legalidade se chama sobretaxa em
sede do IRS. A T.S.U. leva-me 115,64€, o I.R.S. 123€. Como se não bastasse, o
estado vai buscar mais dinheiro por todas as vias que encontra. Os municípios
são uma delas. Acabei de ser notificado para o pagamento do Imposto Municipal
Sobre Imóveis. 167,40€, a pagar em Abril por um apartamento de que sou
proprietário. Julgava eu que já o tinha pago na totalidade quando o estado
começou a cobrar-me renda por aquilo que é meu. Ontem foi o Imposto Único de
Circulação a levar-me 17,81€. Na realidade levou-me mais. Atrasos no pagamento
do imposto referente a 2014 foram acrescidos de uma multa de 50€ mais 38,25€ de
custas que só mesmo o fisco percebe. Ou seja, ficou-me o IUC em 103,06€.
Assim vai a vida do contribuinte num país asfixiado democraticamente.
LISTAS NEGRAS DO MAIS NEGRO QUE PODE HAVER
Não canso de me espantar com os inúmeros crimes de
violência doméstica ocorridos no Portugal moderno de Cavaco & Cª.
Aparentemente, a geração mais bem formada de sempre no país não conseguiu
aprender e interiorizar uma lei natural tão básica como esta: não se bate nos
mais fracos. Homem que é homem, atira sobre os mais fortes. Mulher que é
mulher, segue o exemplo. E quando me refiro a fortes não estou a pensar em cães
como o desafortunado mas já celebérrimo Simba. Se a intenção é descarregar
raiva e ódio e frustrações, podem sempre atirar a matar sobre outros alvos. O
trabalho está facilitado, comecem pelas lista vip e lista da Swissleaks.
quinta-feira, 12 de março de 2015
quarta-feira, 11 de março de 2015
UM POEMA DE JOHN BERRYMAN
A vida, amigos, é um tédio. Não devemos dizer isso.
Afinal, o céu faísca, o grande mar anseia,
nós próprios faiscamos e ansiamos,
e ainda por cima em pequeno a minha mãe dizia-me
(repetidamente) «Confessares-te entediado
significa que não tens
Recursos próprios.» Concluo agora não ter
recursos próprios, pois sinto um tédio de morte.
As pessoas entediam-me,
a literatura entedia-me, especialmente a grande literatura,
o Henry entedia-me, com as suas queixas & os seus tendões
tão anquilosados como os de Aquiles,
o qual ama as pessoas e a arte valorosa, o que me entedia.
E as plácidas colinas, & o gin dão-me seca
e de alguma forma um cão
levou-se a si & à sua cauda para bem longe
para as montanhas ou o mar ou o céu, deixando-
-me a menear.
MULHER ÁRVORE
O quintal da casa dos meus pais é acolhedor. Tem um
limoeiro carregado de limões com aromas inebriantes, tem uma laranjeira proveitosa
com laranjas tão doces e suculentas que parecem impossíveis. Passei por lá há
dias e enchi um saco com limões e laranjas, sentei-me a olhar para as roseiras
brancas, para as hortênsias, para a magnólia. E enquanto refrescava o corpo com
a acidez da limonada, sentei-me a contemplar a vida que floresce na Rua de
Santa Bárbara. Num bairro outrora de mineiros, onde o sol nasce para todos
ainda que nem todos colham nele o mesmo proveito.
Agradeço cada um dos teus ramos e cada folha que neles
desabrocha e resiste. Por ti o vento passe com leveza, que à tua sombra descansem
os filhos desprotegidos. E que neles possas encontrar alento. Se o teu fruto é
a morte, de tal morte vidas brotem. Esperança é palavra vã neste quintal onde
rego o corpo com limonadas, onde me sento a observar o espertar da Primavera. Do
meu testemunho nenhum pólen chegará ao quintal onde te encontras, mas não sou
indiferente à tua passagem. Também de existires o langor dos meus braços se
envergonha.
Mas olho a planta desgrenhada de branco contra o fundo de um
céu limpo e luminoso, sobre ela cabos eléctricos traçam a página com absoluta
inoperância. Os carros estacionados são obsoletos, o gradeamento é uma afronta indesculpável.
Plantas destas deviam crescer no deserto, não é juso que medrem rodeadas de
invejas mesquinhas. Deviam inspirar o mundo para que na alvura das suas folhas pudessem
os homens vislumbrar dias límpidos. Na sombra delas ninguém descansa, a não ser
os olhos estupidamente melancólicos do que em cada um de nós há de poesia.
Esta planta é uma mulher, os seus poemas são escritos com
sangue nos camuflados inconfortáveis. Erguem-se bandeiras sobre a ruína, mais
um centímetro de terra estéril conquistada para que nela possam talvez ser
plantadas outras guerras. O que distingue aquele verde simbólico, pano
esvoaçante, da cabeleira branca que perece no quintal dos meus pais? Tudo é efémero,
tudo é transitório. E no trânsito em que tudo se move as estações demarcam a
rotina. Tanto a mulher como a árvore lutam pelos seus frutos, tanto uma como
outra cumprem o seu destino no regaço das estações.
Liberdade e sobrevivência não cabem em tão débeis
cogitações. Palavras que só de pronunciá-las devíamos sentir vergonha.
terça-feira, 10 de março de 2015
PÚSIAS
Faz agora 100 anos que Virginia e
Leonard Woolf tiveram a feliz ideia de fundar uma editora. Em Fevereiro de 1915
informaram-se sobre o custo e funcionamento das prensas, a 23 de Março de 1917
descobriram na Farrington Street uma pequena prensa manual, com todos os
acessórios, ao preço de 20 libras. Assim nasceu, na sala de estar do famoso
casal, a Hogarth Press. A primeira obra foi uma brochura com um conto de
Leonard Woolf e outro de Virginia Woolf, «impressa num papel de tela colorido
com quatro gravuras em madeira de Dora Carrington». A publicação destes
opúsculos estava valorizada pelas horas dispendidas na composição, na
impressão, na encadernação, no tratamento do papel. O relativo sucesso do
“negócio” permitiu-lhes investir numa prensa mais sofisticada, a conhecida
Minerva. Em 1927 editaram quarenta publicações. Werner Waldmann relata o
crescimento nestes termos: «Quanto mais profissional se ia tornando o negócio,
menos os dois editores podiam dedicar-se a todos os detalhes, sobretudo aos artesanais.
Mas até 1932 sacrificaram ambos muito tempo com actividades triviais. Estas
abrangiam desde a composição, ao prelo, encadernação e mesmo administração:
tinham que empacotar e despachar, tratar da correspondência e fazer contas.
Também não se escusavam a limpar a tinta dos cilindros da máquina ou a
organizar, de vez em quando, o caótico armazém». E acrescenta: «fazer nascer a
língua, manualmente, letra a letra, atraía, por exemplo, cada vez mais
Virginia». Sublinhemos as horas sacrificadas, roubadas à escrita dos próprios
livros e a actividades porventura mais lúdicas, sublinhemos a paixão do labor
artesanal que permitia fazer nascer a língua como quem se dedica a um parto.
Não brincavam em serviço. Publicaram traduções de autores russos, descobriram
T. S. Eliot. Katherine Mansfield, Rilke e Italo Svevo, Gertrude Stein e H. G.
Wells, entre tantos outros, constavam no catálogo. Nem terem recusado Sartre,
Joyce, Auden ou Saul Bellow lhes manchou o currículo. Essas obras têm hoje um
valor inestimável, o qual não se esgota nos autores publicados. Ele reside,
sobretudo, na forma como os livros eram feitos. Ora, num tempo em que o livro
se tornou objecto de massas e as editoras se desenvolvem quase exclusivamente
na base de critérios comerciais, num tempo em que a produção massificada da
obra lhe extrai uma certa exclusividade, sepultando-a na vala comum da
banalidade, as Edições 50kg de Rui Azevedo Ribeiro são um gesto de resistência,
quiçá romântico, que não deve passar despercebido. A recente publicação de
Púsias (Fevereiro de 2015), colecção de poemas saídos da pena de Vítor Silva Tavares, torna ainda
mais fascinante tal actividade, na medida em que nos coloca perante um objecto declaradamente
raro. Na realidade, este folheto dado agora à estampa tem o duplo mérito de
insistir no livro também enquanto objecto de colecção e homenagear (em vida) um
dos mais marcantes editores que Portugal jamais conheceu. Quem esteja
familiarizado com o trabalho editorial de Vítor Silva Tavares nas edições
&etc (ou no &etc), não se espantará com a verve do trovador. Não é a
primeira vez que o editor se deixa publicar enquanto autor, sendo porém de
notar que em muitos textos de badana ou breves apresentações distribuídas por
publicações diversas a qualidade da escrita foi sempre deixando o rabo de fora.
A belíssima capa de Luís Henriques anuncia o tom jocoso que atravessa estas
Púsias. Sarcástico quanto baste, sátiro devedor dos altos signatários da
colecção contramargem (de Guerra Junqueiro a António Lobo de Carvalho, de
Luciano de Samósata a Camillo Castello Branco, de Charles Fourier a Blaise
Cendrars), Silva Tavares restaura e preserva uma herança pícara trespassada por
inquietações modernistas com rima tão cáustica quão espirituosa:
Adeus pátria mal amada,
parto pra dentro de mim.
Tu pátria não dás por nada
e eu assim como assim
ainda caibo — e confio
não ficar pior a sós.
Quanto aos egrégios avós
vão prá puta que os pariu
já agora acompanhados
dos seus netos do futuro.
Cá por mim, pelo seguro,
sequer feitos ilustrados
para semente. Chega
de imposto sucessório:
tu pátria não queres casório
e eu dou-te em troca uma nega.
De candeias às avessas,
cada macaco em seu galho,
ó pátria nem peço meças,
vamos ambos pró galheiro.
Para que algo fique de pé
nesta triste conjuntura
sai esta rima quinté
merece moldura.
Um certo revivalismo dá cor a este
extraordinário volume a preto e branco, cores matriciais de uma pátria
embalada no berço da nostalgia. Suspende-se o tempo sem preocupações com
o futuro que a des-ilusão do passado recusa alimentar. A dúvida que sempre
persiste é: pode a desistência ser um acto de resistência? Falamos de púsias, não
de poesias. Falamos de um Pessoa que mais do que crachá, iconografia
mercantilizada de um país ignorante dos seus poetas, apanha beatas do chão. Ainda
sobre a Hogarth Press, sabemos que se transformou numa «das mais renomadas
editoras do cenário literário britânico, famosa pelo seu interesse
vanguardista, pelas obras líricas, a sua coragem em publicar autores desconhecidos».
Enfim, foi em Inglaterra. Foi noutros tempos. Por cá vamos indo.
segunda-feira, 9 de março de 2015
PEQUENA EXPLICAÇÃO ABSOLUTAMENTE
Eu que
apareci acidentalmente vivo
odorizado de flores a uma certa distância
não me importo.
Sei quanto é doloroso
que exista um sol que nasce e morre;
aquela dúvida, às vezes um pouco ridícula,
que surge numa minúscula nuvem
(daquelas nuvens que vieram de motu próprio)
e que fazem saber
que o sol talvez não nasce
talvez não morre
que a única atitude
a única perfeitamente aceitável
sim, isso mesmo é que é certo,
nem vem que me importe
muito a propósito.
Uma espécie de pessoas, um grupo,
(inexactamente um grupo)
de gente não malograda
corre, um tanto desesperadamente,
em busca da planta, a tal.
Tudo pode ser
uma alma emprestada.
Nas varandas vêem-se (por vezes)
os inúteis vasos - aí está qualquer coisa!
Toda a humanidade - que me não importa
(pelo menos muito)
está um poço assim
familiar tão infelizmente,
- algo na varanda é a seteira.
Imensos
etcéteras sobre mundo, alguns vasos,
o aristocrático grupo (inexactamente) sem tempo
nem sequer vamos redimir
mas além dos muros sem porta
aí estão as pombas
(tenho-as no bolso).
Infinitos etcéteras, bom dia,
por aqui tudo bem, nada de novo,
Dezembro, mil novecentos
e cinquenta e sete. Lisboa, Manuel
de todo o coração.
Manuel de Castro (n. 1934 - m. 1971), in Paralelo W (1958). «A sua poesia é enigmática, hermética, domina-nos primeiro pela intensidade que desarma, como um sismo que nos abala. Visceralmente, como o abraço apertado de um polvo, agasta-nos pela energia, pela violência e pela velocidade com que se desdobram, proliferam e transmigram os campos semânticos, pela revolta que encerra, a veemência, a imagética delirante que multiplica traços de união entre termos que à partida viviam isolados, assim inventando sensações-conceito (...). É uma poesia que transgride regras de pontuação. O significado molda plasticamente o significante, devém corpo de letra. Muitos verbos são indevidamente pronominalizados, tornados reflexos. Não esqueçamos que Manuel de Castro tem um profundo conhecimento da prosódia, que não cessa de manobrar» (Maria da Conceição Caleiro, Ípsilon, 4 de Abril de 2014).
domingo, 8 de março de 2015
CHEIRA A CAMPANHA ELEITORAL
Cheira a Cavaco. Cheira mal.
Podia fazer tudo menos o que fez. Podia manter-se calado, o
que sabe fazer melhor. Podia dizer: não comento, vou ali beber uma cervejinha.
Podia falar das vacas e comer bolo-rei, podia exilar-se nas Selvagens. Mas este
homem não desiste de ser a maior tristeza do Portugal pós-25 de Abril. Mais uma
vez, varreu para debaixo do tapete. Ele próprio há muito vem fazendo campanha
eleitoral, ele tresanda a campanha eleitoral. Se desculpabilizar o infractor
não é fazer campanha por ele, então o que é? Verdade seja dita que estamos
habituados. Foi assim com o BPN, é assim com o BES, foi assim com Relvas, a
Tecnoforma, com a demissão irrevogável de Paulo Portas, com os submarinos, etc,
etc, etc, etc. Cavaco é quem pior cheira neste país desgraçado, há muito que é
assim, há muito.
sábado, 7 de março de 2015
UM POEMA DE MANUEL DE CASTRO
MONOGRAFIA BREVE
Penetro no coração lívido desta cidade
e no seu hálito compacto
cinzento, grave,
neste céu cantante e sólido
como o homem que em mim caminha,
que através de mim caminha
entre vozes de paz, de guerra e de loucura.
No seu hábito monástico quase triste
eis como a cidade desenrola
uma desconexa história sem mãos:
viverás bebendo cerveja,
aprendendo a inclinação da mente
no seu fio oscilante,
e serás surpreendido, de quando em quando,
pelo facto - no seu fio oscilante -
de viveres.
Talvez escrevas um pouco, talvez
encontres sombra na grafia
dos nervos, dos sons, das gotas de chuva
que humedecem os cabelos da terra
e desejes cortar afiada
vagarosamente
palavras
ou o auto-retrato de Philipp Otto Runge.
Hamburgo, Agosto 1963
Manuel de Castro, in Bonsoir, Madame, Alexandria/Língua Morta, pp. 1954-195, Dezembro de 2013.
SHENANDOAH (1965)
Os grandes temas do western correspondem aos grandes
temas da história norte-americana: as aventuras e desventuras dos pioneiros, os
conflitos com os índios durante os períodos de migração para o faroeste, a
Guerra de Secessão, o progresso industrial e o aparecimento de cidades
desenvolvidas, a emergência do crime organizado, a oposição entre o mundo rural
e os centros urbanos, a febre do ouro. É neste contexto sociocultural que
podemos observar a germinação de autênticos heróis, nomeadamente os chefes das
nações índias, o cowboy solitários que transportava o gado por trilhos
inimagináveis, os primeiros figurões da lei e do crime, militares, aventureiros,
empresários sem escrúpulos. Trata-se de um período efervescente cujo interesse
recai, sobretudo, sobre os modos informais de organização social e política
numa nação sem cultura ou, se preferirmos, com uma cultura neófita desabrochando
num confuso ventre identitário: índios, colonizadores de origem europeia, africanos,
povos orientais.
Se a linha férrea aparece como símbolo por excelência do
progresso, o velho cowboy transforma-se num resquício do conservadorismo. São
ambos representações do tempo que nos transportam ora para o passado, ora para
o futuro. O búfalo sagrado dos índios arrasta com o seu desaparecimento uma
espécie de ancestralidade perdida. E, com tal perda, instala-se um vazio de
sagrado que a ambição material busca preencher. Porém, durante a Guerra Civil
Americana outros valores se levantaram. Para se compreender um filme como
Shenandoah/O Vale da Honra (1965) todos estes elementos devem ser ponderados,
sobretudo quando nos é colocado à frente um emblemático James Stewart que já
tínhamos visto nos papéis, mais ou menos cruciais, de político em ascensão (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962) ou cowboy voluntarioso (The Far Country,
1954).
O realizador Andrew V. McLaglen (n. 1920 – m. 2014), que
trabalhou para John Ford como assistente de realização, oferece a James Stewart
um papel de maturidade. A acusação de excessiva convencionalidade é descabida,
bastando para desmontá-la o facto simples de numa família com sete homens e
duas mulheres só um elemento ser ágil no gatilho: a única filha de Charlie
(James Stewart) numa prole de sete. Charlie é um agricultor bem-sucedido,
viúvo, pai de família exemplar, orgulhoso dos filhos e da nora, zeloso dos seus
e da sua propriedade. Quando a guerra lhe bate à porta, mantém-se neutro (posição
tão difícil de sustentar como qualquer outra). Não tem escravos, nunca sentiu
necessidade de os ter, tudo o que tem é fruto do seu trabalho, faz questão de o
sublinhar, e, por isso mesmo, procura manter-se à distância numa guerra que se
aproxima. Resolverá apenas intervir quando o filho mais novo é acidentalmente
capturado e feito prisioneiro pelo exército do norte. Charlie partirá então com
a família em busca do mais novo.
Tema recorrente nos
relatos do Velho Oeste, a busca de desaparecidos, os desencontros, as
separações, é filmado por McLaglen com cativante ritmo narrativo. Há momentos
de suspense e pausas emocionais em doses equilibradas. Mas o que mais se eleva
em Shenandoah é o valor da família, o tal outro valor que a guerra civil
exaltou de forma radical. Escusado será dizer que a união familiar nunca posta
em causa neste filme, apesar de ligeiras divergências entre o pai e um dos
filhos, serve de contraponto à desunião da família norte-americana durante a
guerra. É precisamente essa desunião a causa das tragédias, da tristeza e da maldade
que a história configura. Nesse sentido, podemos dizer que a transfiguração do bem
processada ao longo do filme se faz em contraposição ao mal. O final feliz é ilusório,
na medida em que não pode ser isolado de uma história onde um dos filhos foi
brutalmente assassinado, outro foi morto por acidente e a nora violada até à
morte.
Aí temos um western intenso sem pistoleiros nem sheriffs implacáveis,
sem índios selvagens nem cowboys solitários, mas com uma família simples a tentar
manter-se unida e serena entre o caos que a rodeia. Sem tomar partido na
guerra, Charlie é uma das suas vítimas — aquilo a que hoje os especialistas
chamam dano colateral. O seu heroísmo não vem do coldre que não usa, vem de
saber amar depois de ter gostado, de ter gostado muito. E de tudo fazer para
preservar esse amor. Vem da sua determinação.
ATRASOS MENTAIS
…o direito de alguém a sair de casa prevaleceu sobre os
direitos de propriedade e a estupidez egoísta de vizinhos e da insensibilidade
de um juiz de primeira instância…
A história de um país simplificada aqui. O povo completo será aquele que tiver reunido no seu
máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos
faltam as qualidades.
sexta-feira, 6 de março de 2015
A CRÓNICA DE JOAQUIM VIEIRA NA ANTENA 1
«Portugal conheceu nos últimos dias um Pedro Passos
Coelho diferente daquele a que se habituara nos últimos quatro anos. Já não é o
Passos Coelho do rigor, da intransigência, dos princípios inflexíveis, da
disciplina sem exceção, da execução de um programa custe o que custar, da
ultrapassagem da troika, do imperioso empobrecimento da população, do abandono
da zona de conforto, da exigência fiscal, da cobrança coerciva de impostos, do
agravamento das multas aos prevaricadores, da perseguição aos incumpridores e
aos distraídos.
Agora temos o Passos Coelho que não é perfeito, que foge à observância das suas obrigações para com o Estado, que se esqueceu de pagar ou julgou que era facultativo, que nisso foi reincidente sem contrição, que vai a correr liquidar dívidas antigas só devido à ameaça da sua divulgação pública, que acha tudo isso normal e não censurável, o Passos Coelho um pouco videirinho, sem carreira profissional digna de nota fora da política, a gerir uma empresa para receber fundos europeus pagando uma formação inexistente, a viver de expedientes para compor um orçamento confortável, que recebeu um vencimento disfarçado em despesas de representação, ao mesmo tempo que se declarava deputado exclusivo para garantir o subsídio do erário público.
Por estranho que pareça, é o mesmo Pedro Passos Coelho, dr. Jeckyll e mr. Hyde, que ora é uma coisa, ora é outra, sem que os portugueses percebam onde está a sua verdadeira personalidade. Diz-se que a política não deve ser feita com base em julgamentos morais, mas que dizer quando o maior de todos os moralistas é afinal o mesmo que anos a fio fugiu aos deveres cujo cumprimento a todos exige?
Passos Coelho fez do acatamento das obrigações fiscais um dos pilares da sua política enquanto primeiro-ministro, mas agora vem explicar aos portugueses que não há mal nenhum em não pagar ao Estado e só o fazer quando, eventualmente, se for apanhado.
De um passado obscuro, emergiu o dr. Jeckyll que parece querer matar o Mr. Hyde. Nenhum deles merece governar, porque os Portugueses não merecem um governante assim.»
Agora temos o Passos Coelho que não é perfeito, que foge à observância das suas obrigações para com o Estado, que se esqueceu de pagar ou julgou que era facultativo, que nisso foi reincidente sem contrição, que vai a correr liquidar dívidas antigas só devido à ameaça da sua divulgação pública, que acha tudo isso normal e não censurável, o Passos Coelho um pouco videirinho, sem carreira profissional digna de nota fora da política, a gerir uma empresa para receber fundos europeus pagando uma formação inexistente, a viver de expedientes para compor um orçamento confortável, que recebeu um vencimento disfarçado em despesas de representação, ao mesmo tempo que se declarava deputado exclusivo para garantir o subsídio do erário público.
Por estranho que pareça, é o mesmo Pedro Passos Coelho, dr. Jeckyll e mr. Hyde, que ora é uma coisa, ora é outra, sem que os portugueses percebam onde está a sua verdadeira personalidade. Diz-se que a política não deve ser feita com base em julgamentos morais, mas que dizer quando o maior de todos os moralistas é afinal o mesmo que anos a fio fugiu aos deveres cujo cumprimento a todos exige?
Passos Coelho fez do acatamento das obrigações fiscais um dos pilares da sua política enquanto primeiro-ministro, mas agora vem explicar aos portugueses que não há mal nenhum em não pagar ao Estado e só o fazer quando, eventualmente, se for apanhado.
De um passado obscuro, emergiu o dr. Jeckyll que parece querer matar o Mr. Hyde. Nenhum deles merece governar, porque os Portugueses não merecem um governante assim.»
quinta-feira, 5 de março de 2015
TRÍPTICOS DA NUDEZ #6
A vocação literária deste espaço não podia ser
indiferente à nudez dos escritores, os quais se despem segundo variadíssimos critérios.
Em sentido figurado, encontramos nudez onde menos a esperaríamos. Por exemplo,
nas confissões de Jean-Jacques Rousseau (que não irei citar sob pena de me
julgarem presunçoso). Se a opção pela literalidade for assumida desde logo,
nenhum escritor foi mais prolixo em nus do que o poeta norte-americano Allen
Ginsberg. Podemos contemplá-lo em postura decalcada de Robinson Crusoe ou,
porventura num estilo mais ousado, abraçado ao amor de uma vida. A fotografia
com Peter Orlovsky gerou polémica, sobretudo quando o autor de Howl pretendeu torná-la
capa de livro.
Não
tanta, porém, quanto a polémica gerada pelas imagens póstumas de Simone de
Beauvoir em ambiente doméstico e íntimo. O traseiro surpreendente de Simone perturbou
os mais fervorosos racionalistas, não sendo de todo descartável a hipótese de certos
zeladores da alvura divina terem lançado a compostura às couves enquanto redescobriam
o onanismo pelos olhos. As feministas não gostaram, talvez devessem mandar currículos
para o Blogger.
Por cá, o feminismo esboça outros semblantes. Justiça lhe
seja feita, Clara Pinto Correia não foi de modas nem de costas. Deixou-se fotografar
no momento do orgasmo - entre outros -, provocando efeitos contraditórios.
Confesso que não sendo especialmente sensível à estética Poltergeist, a ideia
de me ver espelhado no instante da ejaculação desgrenha-me. Há um mérito
qualquer neste trabalho que ainda não consegui descobrir, mas dou de barato
a ignorância. O close-up não favorece a personagem.
Mais discreto, salvo seja, o bardo valter hugo mãe não
enjeitou o ridículo ao fazer-se capa. Felizmente, não está a descabelar o
palhaço nem a atingir o ponto alto na tensão do drama. Infelizmente, a
fotografia é toda uma encenação infeliz de coisa nenhuma. Papel de parede estragado,
tectos húmidos, as divisões de uma casa abandonada, uma porta ou algo parecido
fora do lugar, e um homem nu a coçar as costas com óculos pendurados nas
orelhas. É escusado perguntarmo-nos sobre o que faz ali porque não faz nada, ao
contrário do que sucede nas imagens arriba: o primeiro pesca, os segundos
abraçam-se, a terceira arranja-se, a quarta vem-se, este posa para a fotografia.
P.S.: bem sei que não é um tríptico. As minhas desculpas
pelo entusiasmo.
SÓ A VERGONHA SE DEMITE NESTE ANTRO DE PULHAS
Quando conjugadas, certas notícias exacerbam a
pornografia do mundo em que vivemos. De regresso a casa, com o auto-rádio sintonizado
na Antena 1, escuto a excelente crónica de Joaquim Vieira sobre as dívidas do
Primeiro-ministro à Segurança Social. Quem disponibiliza essa crónica? Seria
óptimo, tão perfeita me pareceu a síntese. Chego a casa e dão-me conta
disto: fisco penhora alimentos doados para ajudar carenciados do Porto. Sem entender
o sentido de tais notícias num país que é o meu, faço pausa para levar o cão à
rua, vazar o lixo, fumar um cigarro. E penso como podiam ser límpidos os fins de
tarde se fôssemos todos ignorantes.
Quando o Primeiro-ministro andou a faltar
às suas obrigações, eu armei-me em esperto e mantive-me informado. Se tivesse
sido ignorante talvez fosse mais feliz. Mas não, quis cumprir, informei-me, fui
parvo. Os ignorantes são sempre os mais espertos, até chegam a Primeiro-ministro
com currículos medíocres. Não precisam sequer de trabalhar, basta-lhes fazer o
frete das juventudes partidárias onde se aprende a dizer com convicção sou um cidadãos honesto. Não obstante, por mais que o digam jamais será por dizê-lo
que estas almas se tornarão, de facto, honestas. E Passos há muito demonstrou que o não é.
Viveu de ajudas de custo quando outros – eu, por exemplo – tiveram que fazer
pela vida para suportar os custos de não terem ajudas. Pior que eu, que sempre
pude contar com uma família estável e unida, gente só e completamente
desamparada, uns mais sérios, outros menos, uns mais exigentes, outros nem por
isso, uns mais cumpridores, outros nem tanto, uns mais informados, outros mais
ignorantes. Todos a fazer pela vida sem ajudas de custo.
Comecei a
trabalhar e a descontar em 1997. Entre 2000 e 2008, tive que me desenrascar no
labiríntico mundo das cadernetas de recibos. Quando o primeiro-ministro do meu
país não pagava, aguardando que o Estado o incomodasse ou esperando talvez que
o tempo liquidasse as dívidas, eu fui parvo, fui néscio, fui totó, fui imbecil.
Ou seja, informei-me. E paguei, paguei sempre. Sei quanto me custou pagar. Era
dinheirinho que me fazia falta, sobretudo quando chegavam aquelas alturas
dos subsídios de férias e de Natal, ou coisa que o valha, e eu não via nada
porque os recibos verdes não davam nem dão direito a nada. Às vezes esquecia-me de
pagar, atrasava-me. Uma vez por um dia. Logo me recriminava, sobretudo quando chegavam
as cartas para pagar multas e juros de mora porque me tinha atrasado... nem que fosse um só dia.
Que estupidez a minha. Se eu
soubesse que podia pensar que era facultativo e esperar que prescrevesse. Mas
que porra, a mim os directores gerais disto e daquilo sempre ameaçaram com
penhoras. Eu, trabalhador independente a cumprir horários num colégio privado e
em centros de formação profissional. Por vezes deslocava-me à Segurança Social
para pagar, depois passei a fazê-lo por MB (quando dentro do prazo). Recordo-me
que a determinada altura o montante que descontava aumentou exponencialmente. O
Primeiro-ministro não se deve recordar, pois ele não pagava. Ele estava
convencido de que era tudo facultativo.
Só quando chegou ao governo ocorreu à aventesma que era preciso pagar, lembrou-se com tal clareza que pôs todos a pagar taxas e sobretaxas e mais isto e aquilo e
aqueloutro, por ser dever nacional contribuir para que ele passe por bom aluno
no colégio alemão. Não satisfeito, aumentou impostos, usurpou direitos. Vivíamos acima das nossas possibilidades, embora, ao contrário dele, sempre tivéssemos pago as nossas dívidas. Pedro Passos Coelho é o nome deste patego que nos governa.
Não se esqueçam do nome nem do rosto, ele há-de ser estudado nas escolas
se o Crato continuar no ministério da tutela. Tais são as vantagens de se ser
ignorante no mundo idealizado por estes pulhas.
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