sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

SEXTA-FEIRA 13

Fica sempre bem lembrar o insigne Professor Herrero numa sexta-feira 13, até porque não falta por aí gente com enormes cagalhões na cabeça. O mais recente tola de penico foi descoberto numa coisa chamada Observador. Mário Amorim Lopes de seu nome não se limita a pensá-lo, tem o desplante de escrevê-lo. Podia fazê-lo, enfim, num diário ou num weblog privado com links para o exterior (vá-se lá perceber a tendência). Amorim Lopes, não satisfeito com a privacidade da sua higiene cerebral, decide disponibilizar ao mundo o seu saber. E, espantem-se, há quem o publique. Aqui.
Não se espantem, hoje em dia publica-se qualquer merda. James Joyce dizia o mesmo no tempo dele. Mas o que afirma a luminária de serviço? Diz, e passo a citar, que anda «a explicar o conceito de custo de oportunidade aos meus alunos de Microeconomia». Entenda-se o efeito da citação, os meus alunos são os dele. E estudam microeconomia. Podia dar-lhes para pior. Nos exemplos é que o professor não é forte. Primeiro:
 
«Um tratamento custa, antes das recentes negociações, cerca de 42 mil euros. Ora, 42 mil euros permitiriam, por exemplo, financiar os seguintes tratamentos ou gastos sociais:
– 14 bypasses coronários
– 140 operações às cataratas
– 6900 refeições em cantinas escolares
– 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário»
 
Bem sei que tortuosos são os caminhos do Senhor, mas por mais que reze nunca hei-de entender onde pretende chegar o microeconomista com esta micrológica. Temo que estejamos no domínio das chamadas gorduras do estado. Trata-se, antes de mais, de rentabilizar os recursos. E isso é ciência exacta. Ou não. Dito de outro modo, a dúvida é: se podemos pagar 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário o que justifica que desperdicemos o mesmo dinheiro num único tratamento de Hepatite C? Já viram “O Resgate do Soldado Ryan”? Isto mais ou menos a mesma coisa, só que no universo da microeconomia ninguém tem nada a aprender com o humanismo da missão.
Como é óbvio, a dúvida do professor pressupõe um argumento. Um argumento parvo, isto é, estúpido, mas pressupõe. E esse argumento é: se com 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário podemos, a título de exemplo, calçar mais de 800 "pés-descalço", então que se quilhem os professores contratados do 2ª (sic) escalão do básico ou secundário. Vamos calçar os "pés-descalço". Tal raciocínio levar-nos-ia longe (porventura a Marte, onde o professor Amorim terá sido concebido debaixo de um calhau vermelho). A miséria é um poço sem fundo, há sempre algo pior do que julgaríamos péssimo. Zenão de Eleia negava a possibilidade do movimento através dos paradoxos da subdivisão. Com os argumentos deste professor seremos capazes de negar a pertinência de qualquer gasto, quanto mais de qualquer investimento. As análises económicas têm este problema, são demasiado analíticas. Embrulham-se tanto na teoria que olvidam a lição mais básica: isto vai ter consequências na vida das pessoas, foda-se. Façam lá as continhas à escassez dos recursos partindo de outras premissas.
Muito haveria a comentar sobre a descarga intestinal do professor Mário Amorim Lopes, mas sejamos poupadinhos nas palavras (não pretendemos viver acima das nossas possibilidades) e saltemos para o remate. Ora tomem lá:
 
Quando financiamos uma peça de Brecht de um qualquer encenador que jura que a cultura deve ser financiada por todos nós, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais uma vida. E sacrificar a vida de uma criança é um preço demasiado elevado a pagar.
 
Pimba! Pum! Zás Trás Pás! Todos sabemos que os comunistas comem criancinhas, faltava revelar que peças de Brecht contribuem para a mortalidade infantil. Contenhamo-nos. Na realidade, o que aqui se subentende é mais simples: para as ortigas com o financiamento da cultura, há criancinhas por salvar. Eh pá, nos meus tempos de filosofia havia aquele dilema kantiano da biblioteca a arder com uma velhinha lá dentro. Salvavam-se as obras-primas ou a velhinha? Num outro contexto, o Gonçalo M. Tavares escreveu sobre algo semelhante recentemente. Sacrificar o pai ou o filho? E a mamã com dois filhos no campo de concentração, qual deve ela sacrificar? No fundo, já não estamos no domínio da microeconomia. Estamos no domínio do dilema moral. Comprar o jornal ou beber um café? Um problema: conheci uma vez um tipo que preferia gastar o pouco dinheiro que tinha em livros a desperdiçá-lo (dizia ele) em bifes. Ele há cada um. Aqui chegados, resta-nos sugerir ao professor Amorim uma receita de São Cipriano: não havendo dinheiro para fragrâncias, aperte-se o nariz à desejada.
O busílis está na pirâmide. Explique lá, estimado professor, o que devemos colocar no topo da pirâmide das nossas preocupações. Podemos dizer, nem um tostão para Brecht enquanto houver uma criancinha com fome. Satisfeita a fome da criancinha, nem um tostão para a fome das criancinhas enquanto houver um sem abrigo. E assim sucessivamente. A paz, o pão, saúde, habitação... e dinheiro público para as maleitas dos bancos. Satisfeitos todos os males, esbanjemos à tripa forra. Terrível, este problema das prioridades. Estava capaz de ir ver uma peça de Brecht para me elucidar, mas ocorreu-me agora que enquanto estive para aqui a desperdiçar tempo com estas vãs palavras pelo menos 150 crianças morreram subnutridas no mundo. Que poderei fazer contra maleita tal? Pensar como um microeconomista talvez não seja solução, até porque os argumentos deste devoram-se a si próprios. São autofágicos (o que é sempre de enaltecer, poupa-se na alimentação). Oram vejam: para quê financiar a peça de Brecht, se temos gente com Hepatite C para tratar? Já podemos trata-los, professor? Está satisfeito? Topam? Se não, pode ser que o Peter Singer dê uma ajuda. Aqui. É uma coisa sobre altruísmo, termo estranho aos manuais de microeconomia.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

#55


Tenho andado entretido com este Moonlight (2015) de Hanni El Khatib. Não sei que pense, não sei que diga. Tratando-se de um álbum de rock, tal desorientação só pode ser abonatória. O nome do homem induz em erro, estamos no território do rock tipo The Black Keys. Portanto, já não apenas puro e duro. Neste caso, a pose reveste-se ainda mais de uma vontade de seduzir que a colocação das vozes e algumas melodias açucaradas comprovam. Mas a verdade é que alguns temas têm um groove irresistível, afastando-se da tirania do riff poderoso e adoptando uma maquilhagem onde a soul e o funk são mais evidentes do que a influência blues. São disto exemplo o tema de abertura, que ofereceu o título ao álbum, ou o último tema, onde um violino e um sintetizador decoram uma guitarra repetitiva e hipnótica em ritmo irresistivelmente dançável. Grande momento. O tema chama-se Two Brothers e merece ser escutado. Hanni el Khatib toca todos os instrumentos à excepção das percussões, havendo convidados de peso e de gerações diversas. Por exemplo, Greg Reeves, conhecido por acompanhar os Crosby, Stills, Nash & Young, empresta o baixo ao tema Chasin (outro dos momentos felizes desta recolha). Já Matt Sweeney toca guitarra em Moonlight. São apenas dois exemplos de colaborações que ajudam a tornar canções como a que se segue numa das boas surpresas do ano:


A FALTA SALIENTE


Obstinadamente invisto contra uma corrente contrária
que obstinada investe contra mim uma musa
de saliente falta. Libertar-me bem queria mas não sei
se o medo se a circunstância se a melancolia
me treme quando só o lance resolvia, me limita
quando a imensidão pedia, me oxida o aço à porfia.
Tudo à volta me comprime a uma mesquinha condição
e O'Neill às vezes não existem teu machado de língua afiada,
tuas ensinadas varinas de sinuosas varizes,
tuas empenadas narinas de empinados narizes,
às vezes O'Neill é só o vazio e as suas raízes.

Obstinadamente busco um país que me maravilhe,
um país das maravilhas. Não esta portugalice do ali borda-se,
gato à janela, lindo postal, calçadas e motivos, velhos desdentes,
sim sim, já agora, num sei, sei lá bem, pois bem, já cá não mora.

Obstinadamente busco um país sem história para contar;
confiar que haverá uma mesa e um lugar
onde se perspectivem coisas depois do dia oblongo e da cidadela
tomada; essa mesa e esse lugar nem sequer meus.

Busco qualquer outra coisa que não esse, isso. Busco

a tépida esfera, a plúmbea fronte ou afundar os dedos
num sôfrego e talvez abster-me na insistência
quando a dúvida fosse um sólido na tua cabeça
e já não houvesse tampões para o horror,
talvez sim então sim talvez abster-me.
Os teus poetas não me valem,
os teus poetas não se lhes dá que eu morra.
E esta pluma é um xamã que arde sem se ver
na mandíbula dorida de apertar a palavra,
inexistente sílaba da oclusão. Se houvesse
uma goteira a preservar da noite o cerrar do livro!
Se houvesse maneira de não morrer!

Insisto obstinada e dementemente busco um país.
Esqueço-me da corrente que acomete, falha a previsão
é um fusível, um grifo alcandorado nos cabos de alta tensão.
Penas pesadas as dos mitómanos: serem investidos
numa sociedade sem grifos
onde galifões beijam com saliva viperina
o lábio rubro do inocente efebo
e lambuzam a mordiscadela posterior
com desvelo clínico e libações ordinárias.
Este é o teu país O'Neill, que destrói as ondas e as praias
e descura feridas individuais de beijos sociais,

o mensageiro do amor que as vagas tala
a trazer-te a proposta disjuntiva sem saída:
se a cana do nariz intacta
então a cana de pesca partida.


Daniel Jonas (n. 1973), in Os Fantasmas Inquilinos (2005). «Esta poesia é uma máquina de integrar citações e de multiplicar referências teóricas, dos actos de fala à analítica kantiana do belo. Nada disso, em si, é prova de grande conseguimento e seria um inócuo exercício se não fosse a dimensão de fantasia barroca e a violência de um ímpeto que faz triunfar o absurdo e a dissonância (...). Afastando-se o mais possível da imagem romântica e de qualquer outro tipo de imagem dotada de um valor expressivo (como Gottfried Benn, Daniel Jonas poderia dizer: «Eu não tenho nenhum sentimento»), aproximando-se, antes, dos processos do pensamento, do sentido e da fantasia, a poesia de Daniel Jonas coloca, à sua maneira e através de outras mediações (eminentemente modernistas, tendendo, às vezes, para a antipoesia), a equação de Mallarmé: «Estritamente imaginativo e abstracto, portanto poético»» (António Guerreiro, Expresso, 24 de Setembro de 2005). «Há na poesia de Daniel Jonas uma resistência explícita a qualquer discurso que a pretenda enclausurar num determinado tempo, ou em quaisquer linhagens literárias. É como se o poeta quisesse deliberadamente trocar as voltas ao leitor, confundi-lo, empurrá-lo para um estado de perplexidade em que o desenho mental que os poemas inscrevem no pensamento está sempre a transformar-se noutra coisa. Este efeito de desorientação nasce do facto de ser muito vasta a gama de registos poéticos em que se declina a sua escrita. Tão depressa se aproxima da volúpia barroca (com rimas, sintaxe antiga, vocabulário raro) como se entrega a exasperações românticas sobre o lugar do sujeito no mundo, ou então a súbitas sínteses de poucos versos, de um minimalismo próximo da perfeição dos haikus. Num instante passamos das referências bíblicas e das citações literárias cifradas para a mais prosaica realidade quotidiana» (José Mário Silva, Expresso, 1 de Fevereiro de 2014). 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

RUTH MAIER'S DIARY

Vale a pena conhecer Ruth Maier (n. 1920 – m. 1942), jovem austríaca assassinada pelos nazis em Auschwitz. O poeta norueguês Jan Erik Vold (n. 1939) organizou-lhe os diários num volume intitulado Ruth Maier’s Diary —A Jewish Girl’s Life in Nazi Europe, impressionante testemunho de um talento interrompido do qual nos restam hoje a diarística, alguma correspondência, breves poemas, desenhos e aguarelas. O diário mantido ao longo da vida começou a ser escrito aos 12 anos, vivia Ruth numa casa onde abundavam livros e se respirava cultura. Ludwig Maier, o pai, era doutorado em Filosofia e falava nove línguas. Faleceu de doença em 1933, ou seja, no mesmo ano em que os diários começam a ser escritos. A ligação de Ruth ao pai era fortíssima, manifestando-se num vazio que nenhum outro homem conseguiu preencher. «I have a penchant for older men», escreverá em Janeiro de 1937. Trata-se de uma perda abismal, recordada amiúde nas páginas mais íntimas e por vezes instigadora de uma relação menos pacífica com Irma (a mãe). A avó e a irmã são outros familiares omnipresentes, não sendo esquecidos os tios: Robert, irmão de Ludwig, vivia na Checoslováquia; Oskar, irmão de Irma, era comunista e residia em Moscovo. Apesar da versão truncada a que temos acesso, os diários são reveladores de uma personalidade em formação, inquieta e desassossegada, instável e, como não podia deixar de ser numa rapariga judia sob jugo nazi, profundamente tocada pela dúvida. Organizados em três grandes partes generosamente ilustradas, percorrem a vida da autora em três momentos fundamentais. No primeiro, temos os diários de Viena até à ocupação Alemã (1933-1938). São tempos relativamente agradáveis e típicos de uma adolescente em busca de si mesma, questionando-se sobre a sua sexualidade, talento, inclinações políticas, declarando paixões mais ou menos volúveis, mas denotando também uma extraordinária percepção sobre o seu tempo histórico. Outro aspecto interessante é a recorrência a reflexões sobre o sentido da escrita de um diário: «There are two groups of people that write diaries. The first really are moved to write by an inner spirit. The others in the secret hope that their diary will one day be discovered by an unknown muse and become a sensation as — I don’t know — the classic sentiments of a chaste and modest young girl. Sometimes I’m in the first group, at other times in the second one» (p. 13). Anos depois, a 7 de Abril de 1941, escreverá: «I’m not keeping a diary to put down my ‘reflections’, to immortalise profound ideas. I’m writing in order to resolve my feelings, wich would otherwise get stuck into me and dig into wounds so that they would stay open» (p. 321). Mesmo tendo em conta os padrões da época, não deixa de ser admirável a cultura literária exibida. Leituras de Gorky, Tolstoy, Jack London, B. Traven, Oscar Wilde, Heine, Goethe, Thomas Mann, Schiller, Dostoevsky e Trótski sustentam os pensamentos da casta e modesta rapariga. Herr Professor Herbert Williger, mestre de Latim, também ter-se-á impressionado. A memória do professor Williger acompanhará Ruth Maier enquanto vestígio de um amor falhado, menos por vontade dele do que por resistência dela. «I love him. Like a father.» — confessa a 8 de Abril de 1937. Apontamentos quotidianos, reflexões existenciais sobre a morte e o suicídio, dúvidas identitárias sobre o seu lugar no mundo, sentimentos de empatia pelos “humilhados e ofendidos” e evocações frequentes da figura paterna ocupam a jovem até à ocupação Alemã. O brilho dos primeiros anos esvanece, o nazismo arrasta os judeus num labirinto de questões acerca da natureza humana. O discurso torna-se muito mais denso e a palavra ultraje vulgariza-se. Datam de Outubro de 1938 estes desabafos de uma lucidez premonitória: «We have no weapons and, by God, we cannot defend ourselves. You can send our fathers to Dachau, poison our mothers with gas, and our sons have to crawl across the border like animals!» (p. 97) A consequência imediata será a separação da família. A avó, a mãe e a irmã acabam em Inglaterra, Ruth Maier refugia-se na Noruega. O objectivo era continuar os estudos, mas o estigma de refugiada judia não contribuirá para a mais saudável das integrações. A segunda parte deste volume contempla os primeiros tempos na Noruega a partir de um conjunto de cartas para a família em Inglaterra. Preocupações com a educação e incertezas quanto ao futuro marcam o tom geral da correspondência, embora sejam inúmeras e multicoloridas as descrições dos lugares frequentados, partilhas literárias (Ibsen, Hamsun), avaliações dos noruegueses enquanto povo e do seu papel na Guerra. A relação com a família de acolhimento deteriora-se ao longo dos anos, indo do fascínio e da admiração iniciais ao fastio e à decepção finais. A condição de emigrante impele-a progressivamente para o isolamento e para a solidão. Se ao ter descoberto uma paixão da mãe em 1937 já tinha lamentado a solidão em que vivia, este sentimento intensifica-se agora encerrando Ruth em momentos introspectivos que lhe dificultam tanto as relações humanas quanto lhe ferem a auto-estima: «How I long for company, Dittl. Just a single person I could talk to. Do you not understand that I’m so lonely it’s as if I were living on a fig tree in the jungle?» (p. 183) Os livros serão refúgio firme até à derradeira das horas, mas não podem resolver todos os anseios: «There’s a whole heap of boys in our class. The loveliest array of the most diferente types. But I have no erotic allure. I’m quite certain of that. If I were to go around with my bosom ‘half-exposed’, then maybe men would eye me up, but in my usual dress!... (You ought to know that I’ve a fabulous body: magnificent! I admire myself every evening in front of the mirror.) Yes, so I wanted to tell you that I have no sex appeal at all — I found this out immediately thanks to that intuition which is unique to women» (p. 195).  Refira-se que o “fabulous body” não seria exagero, tendo mesmo servido de modelo, nos últimos meses de vida, a artistas tais como o pintor Aasmund Esval ou o escultor Gustav Vigeland. No entanto, combinações de tédio, repugnância e saudade assaltam-lhe o humor, perturbam-lhe as emoções, levam-na à depressão. Extraordinários sublinhados cómicos pontuam, aqui e acolá, a correspondência. Mas a chegada da guerra e a invasão da Noruega pelos Alemães não podiam senão agravar o desespero. A terceira e última parte do livro contempla os últimos anos, entre 1940 e 1942. A relação com a poetisa Gunvor Hofmo, a quem devemos a sobrevivência do espólio, oscila entre a luminosidade de uma réstia de esperança e a absoluta perdição. Manifestações de ódio aos alemães, apreço pelo povo norueguês, exemplos de um quotidiano cada vez mais tenso, partilham relevância com a questão amorosa: «I’m nineteen years old and still I haven’t had a… lover» (p. 234). Esse espaço vazio será de algum modo ocupado por Gunvor Hofmo, acompanhado porém de persistentes interrogações sobre uma possível condição homossexual. Algures entre o desejo e a pura amizade foi sedimentado este amor, sendo certo que o mesmo nunca varreu por completo a solidão derradeira. Por vezes, uma fortuita troca de palavras com uma prostituta na rua afasta o fantasma. Mas o mesmo perseguirá a já não tão casta jovem como uma sombra: «Gunvor still demands a proper ‘relationship’. I want somebody who will save me from masturbation. C’est tout» (p. 270). Impossível ser mais claro. Momentos de autonomia e pura liberdade livram a existência de se transformar num inferno completo, sendo especialmente alegres e cintilantes os dias passados na companhia de Gunvor. Mais uma vez, a incerteza persiste: «My feelings for her are totally natural. I feel myself connected to her spiritually and mentally. There’s not the slightest hint of a physical desire. But it may be true that I have a need to love and to express this. Gunvor is a most welcome target for this love» (p. 315). As crises que irão pautar a relação enchem as páginas do diário de sonhos e subsequentes análises. Mas o que de mais precioso nos oferecem estas páginas é a perspectiva de uma mulher a quem tudo foi roubado, lançada na mais terrível das solidões, rodeada de ameaças à sua própria existência física, assim como à sua saúde mental, em busca de uma única coisa: uma vida normal, uma casa, um trabalho, alguém a quem amar. Helplessness é palavra que ressoa no final. O desamparo, tanto na vida real como nos sonhos, talvez seja o que de mais tocante este exemplo tem para oferecer ao mundo, o mesmo desamparo que fica subentendido num breve poema em prosa datado de Julho de 1942:

NADA EXISTE


Nada existe a salvo do vazio que treme no meu peito. Ó, as magníficas palavras que me dedicaste, o que é feito delas? A janela que além enfrenta o Verão brilhante, as nuvens inflamadas que se espalham sobre a coroa dourada de uma árvore trémula; senão isto, então que devo eu desejar? Que outra coisa mais alguma vez desejei? E no entanto, ó omnisciente, este vazio — de onde veio ele senão deste Verão a brilhar de dores indizíveis?
 
 
P.S.: um complemento precioso, vindo de quem me fez chegar este magnífico testemunho: aqui.

LINGUAGEM CIFRADA

Camarada Van Zeller, dois casos de linguagem cifrada agitam o país. Não é de agora, dir-me-á. Tem razão. Quem escuta conversa alheia corre o risco de deparar com fruta onde, em boa verdade, havia puta. É assim a língua nos meandros da máfia. Robalos à mesa serão sempre bom pitéu. Agora, vêm os especialistas das escutas ao camarada Paulo Portas esclarecer que onde se ouviu Canalis e Canals, dizia-se, afinal, canal. E onde se ouviu aquilo ter-se-á dito a Kiel, que é uma bela terra onde, de facto, existe um canal. Provavelmente é lá que vive o benfeitor Jacinto Leite Capelo Rego, depositante em tempos de somas avultadas nas contas do CDS. Já lá vão o quê? Dez anos?! Há hábitos que nunca se perdem, meu Deus. Toda a comédia aqui. Também o ex-primeiro-Ministro Sócrates tem sido vítima de deficiências auditivas, embora neste caso os esclarecimentos não sejam tão contundentes. Ora repare, camarada, como de uma linguagem decifrada passamos para uma linguagem repleta de cifras. Valham-nos os Turing do Ministério Público, sem os quais não poderíamos perceber patavina das conversas mantidas entre os génios do crime. Ficamos então a saber que quando Sócrates falava de fotocópias estava, na realidade dos procuradores, a referir-se a dinheiro. Também Paulo Portas, em tempos, teve relações de proximidade com o universo das fotocopiadoras, mas isso agora não interessa. Eram outros tempos e a criptoanálise ainda não tinha chegado à procuradoria. Toda a tragédia acolá. Já agora, e com base em estudos científicos das mais conceituadas universidades, quero aqui revelar a enormíssima probabilidade de as escutas a Sócrates e a Portas e a demais congéneres correrem o risco de serem todas elas inviáveis por os indivíduos escutados serem eles próprios cifras de si mesmos. Não sei se me fiz entender. Não tendo feito, deixem-me pelo menos deixar bem claro que se alguma vez eu vier a ser alvo de escutas sempre que me ouvirem dizer “chupa-mos” estou, na realidade, a querer dizer “chupem-mos”. É que só costumo falar com uma pessoa de cada vez ao telefone, desconhecendo se estarei a ser ouvido por várias. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DOIS LIVROS DE DANIEL JONAS

O episódio da baleia narrado no Livro de Jonas tem sido, ao longo dos tempos, objecto de várias exegeses, sendo certo que entre ter ido parar ao estômago do peixe e ter regressado à terra o profeta experienciou uma espécie de morte cujo significado alegórico será o da misericórdia divina. Talvez por afinidades homónimas, o poeta Daniel Jonas (n. 1973) serve-se do mesmo episódio em momentos diversos da sua obra. Meio ano separa as edições de Passageiro Frequente (Língua Morta, Outubro de 2013) e Nó - sonetos (Assírio & Alvim, Abril de 2014), recolhas distintas na forma mas próximas no conteúdo. No poema Spleen, do primeiro livro, a baleia surge enquanto resquício da imemoriabilidade: «Cemitério de todos os sóis / o mar, cinza / onde habita o beemote do tempo, / a grande baleia do oblívio / sob socalcos de aço, / na chapa recurva, / sucata de toda a metáfora. // Porquê dizê-lo? / Cansaço de o dizer… // O mar é uma maçada» (p. 43). Já no segundo livro, a baleia surge logo no primeiro verso enquanto evocação explícita do episódio bíblico: «Do ventre da baleia ergui meu grito: / Senhor!» (p. 9) , cujo subtítulo demarca o conjunto pela forma clássica dos poemas, não deixa de ser, contudo, um livro tão moderno quanto Passageiro Frequente o é. Não obstante, para sermos justos temos que afastar os parâmetros de clássico e de moderno desta poesia. A sua principal marca é, precisamente, a de uma intercepção dos tempos e das épocas através da prática de um lirismo consciente da história, assimilador do que toma por herança tanto a nível formal como a nível temático. A linguagem rica, eivada por vezes de um barroquismo extenuante, integra termos estrangeiros, locuções latinas, resgata para a contemporaneidade uma pontuação caída em desuso, com exclamações e reticências a rodos, numa densidade lexical que poderia soar enfatuada não fosse a extraordinária capacidade do autor para desfazer mitos com tiradas humorísticas, jogos de palavras, trocadilhos. Tomando os sonetos de como exemplo, veja-se o último verso da página 19: «Soneto, és um logro. Argh… Estás velho!» Remate irónico, até porque nada de velho há nestes sonetos erguidos a partir de um bestiário formado por caracóis, furões, ratazanas: «Ó pária dos postais, que te reparem / Os meus olhos é porque os vergam malas / E rasos de água andam, rente às valas. / De tanta água admira flor não darem…» (p. 50) O inusitado da fauna contrasta com a aparente seriedade de um discurso assente em referências bíblicas e clássicas, seriedade esta minada pela ligeireza de reflexões mais ou menos jocosas: «A vida… bem, tem dias… gosto dela… / Mas ela não é nada nem é grande. / Às vezes ela é tudo, às vezes nada. / Enfim… não há senão sem haver bela» (p. 12). Mesmo quando os temas são pesarosos, Daniel Jonas exibe um excepcional domínio prosódico no embalo do qual a linguagem oferece à forma clássica um tom verdadeiramente hodierno:

Pensar, pra quê? Que pensem outros. Raro
O pássaro que faz do céu seu ramo.
Eu quero pensar muito é nos que eu amo
Antes que a morte aponte a mim seu faro.
Pensar: que desperdício, que inocência!
Pensar que por pensar virá Atena…
Pensar é sonho, ordenha de éter, pena
Sovada no badminton da ciência.
Que deixarei de mim, um pensamento?
E este meu papel qual tumba fria
Parece querer beber a elegia,
Treinar aqui, qual pedra, o meu lamento…
Ó ópio, Ó óleo, Ó ócio deste ofício!
Pensar que toda a arte é artifício!

Se este soneto não é dos poemas mais modernos e actuais que a língua portuguesa conheceu nos últimos anos, então não sei o que possa ser. Moderna quando parece clássica, clássica quando parece moderna, a poesia de Jonas é de uma transversalidade formal impressionante. Podemos argumentar que, no limite, se trata de experimentação e trabalho de linguagem (como se toda a poesia o não fosse). Mas não é apenas isso. Não se observa aqui o vazio reflexivo que é possível apontar à maioria da poesia deste tempo que é o nosso. Não estamos na exclusividade do carácter lúdico que a poesia também aceita e os cursos de escrita criativa se encarregam de disseminar. Muitos dos poemas de Passageiro Frequente tendem, inclusive, a direccionar-se para uma interiorização de tipo pessoano que interpela o leitor. São disso exemplo poemas maiores tais como Imitação de Vida, Praia Pensada ou Olhando Para Trás, Ele Considera e Lamenta, mas também versos como estes do poema Autocarro: «Ah, autocarro, tudo é sensação, / até tu que não passas de símbolo de ti // e tu passares um simulacro, / que és espectro de ti mesmo, / e parares dares a volta ao mundo // pois tudo é princípio e fim / e volta sem passagem» (p. 16). Evocações de cidades como Londres e Paris misturam-se nestes poemas com uma flora que nos envia para lugares do pensamento, num percurso onde o lirismo sai frequentemente velado pelas subtilezas da ironia. Este passageiro que frequenta as “cicatrizes sociais” do seu tempo interroga-se sobre o ofício da escrita, coloca-se no centro das suas próprias reflexões sem se apartar das circunstâncias. Amiúde confessa: «Eu penso sobre mim e sou tão triste» (p. 8). Ou: «Oh, ónibus desta vida aziaga / que lenta é a minha tristeza!» (p. 15) Ou ainda: «Não sei se imitou a areia / as dunas do mar / se o mar / as ondas da areia // mas eu estou triste…» (p. 42) Também num dos sonetos dirá: «Ando sem gosto, amargo, sem esperança… / E agora estou tão só, oh, ando triste» (p. 40). A manifestação dos estados de alma, sobretudo da tristeza, faz-se acompanhar do tédio e do cansaço, da consciência do Tempo enquanto ditador que subjuga a vida às suas vontades, repetindo, desse modo, os grandes temas da poesia universal (amor, morte, tempo…) sem resvalar na banalidade. No fundo, é disto que se trata:

ESTOU PARADO

Estou parado
tentando não causar dano
com nenhuma das minhas acções.

Quando parado
sei que há menos possibilidades
de alguma coisa acontecer.

Por isso estou parado
revolvendo os olhos e a cor
como um cavalo-marinho

levitando

como o camaleão
que a própria espera altera
e reveste de cor reagente.

Não me mexerei
até que a inquietude de outros
envie Hermes a minha casa.

TAMPÃO

Finalmente percebi uma conversa escutada há dias entre duas leitoras de “As Cinquenta Sombras de Grey”. Ao desagrado manifestado pela censura da cena do tampão, uma das leitoras dizia com o mais cândido dos ares:
— Não percebo porquê. Eu já fiz amor com um tampão.

MÚSICA PARA OS OUVIDOS DO MINISTRO

Desde que abandonei a profissão docente, tenho-me abstido de comentar a escola, o ensino, os professores, as chibatadas do Ministério. Apesar de ter duas filhas em idade escolar, de estar vinculado à escola por necessidade e, vá lá, por obrigação, prefiro manter distância. Sei o suficiente da estupidez humana para evitar acusações torpes para as quais não teria a mínima paciência. Ainda assim, não posso evitar, ao ler este post em tom Calimero, de constatar a languidez dos protestos. Não me lembro de um ministro da Educação que tenha sido do agrado dos professores, mas recordo a entretanto condenada Maria de Lurdes Rodrigues como uma espécie de alvo a abater desde tenra idade. A classe docente odiava-a. A mulher era o diabo em saias! Quando se falou de Crato para a posição, foram muitos e insuspeitos os uivos de esperança. Que pelo menos estava dentro da coisa, que pelo menos sabia, que merecia, como se diz, o benefício da dúvida. Crato, o teórico. Crato, o comentador omnipresente. Crato, a figura simpática que gerava empatia junto da corporação. Pois eu não me lembro de um ministro da Educação mais danoso, incompetente, com mais provas dadas no extermínio da escola pública. Não me recordo de tanta confusão, desprezo, falta de respeito e desconsideração pelos professores. O tempo das grandes manifestações já foi, agora oferecem-se concertos. Olhem, eu se tivesse por lá teria parado. E certamente bateria palmas. À música, claro.

A NÓDOA NO MAIS FINO PANO

Irrita em tão bom livro ver o verbo espoletar tão vulgarmente empregue:
 
(...)
Algumas criaturas são despoletadas
como molas à sua passagem;
(...)
 
Ou
 
(...)
que despoletasse
sonolenta mina.
 
 
Despoletar é outra coisa, caro Daniel, é exactamente o contrário. Despoletar é anular, espoletar é provocar. Já agora, uma entrada no Ciberdúvidas sobre a confusão: aqui.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

DEBILITAS NERVOSA

REENCONTRO
Alguma vez pensaste como será
O nosso reencontro?
Se o sol brilhará
Ou se a chuva baterá
Contra o vidro da janela?
Aparecerás subitamente
Numa esquina,
Como um sonho caindo no meu vazio?
Ou irei esperar-te
Contando ansiosamente as horas no relógio
Até apareceres?
Tu.
Ter-te-á a vida mudado,
Tornando-te estranha?
Iremos saudar-nos rapidamente
Com um sorriso resignado, partindo logo à pressa?
Ou será como era dantes?
Poema datado de 2 de Fevereiro de 1941, escrito em Lillestrøm antes do internamento no Ullevål Hospital. In Ruth Maier's Diary - A Jewish Girl's Life In Nazi Europe, edited by Jan Erik Vold, Vintage Books, 2010, pp. 273-274. Versão de HMBF. Na fotografia ao alto vemos Gunvor Hofmo e Ruth Maier.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

THE PLAINSMAN (1936)

De regresso aos westerns, reparo quão injusta é a ausência de Cecil B. DeMille (1881-1959) nesta lista. Apesar de ter ficado na história do cinema pelas recriações bíblicas, DeMille foi desde o início da sua carreira devoto do mais antigo dos géneros cinematográficos. Ainda no tempo do mudo, o primeiro dos seus filmes creditados é um western: The Squaw Man/O Exilado (1914). O mesmo filme será readaptado em 1918 e 1931. Mas a obra-prima do autor de The Ten Commandments no género é The Plainsman/Uma Aventura de Buffalo Bill (1936). O título português não faz justiça à verdadeira estrela da companhia, a lenda Wild Bill Hickok (homem livre das vastas planícies selvagens, conhecedor dos dialectos índios e dos seus costumes). De seu verdadeiro nome James Butler Hickok (1837-1876), Wild Bill ficou conhecido não apenas pela longa cabeleira, imagem de marca que o aspecto limpo de Gary Cooper está longe de honrar, mas pela pontaria afinada ao serviço da União. Foi amigo de William Cody, conhecido por Buffalo Bill, interpretado por James Ellison neste filme, e amante de Calamity Jane, famosa batedora que fez frente aos índios em diversas ocasiões. Jean Arthur é uma Calamity Jane muito mais elegante e feminina, assim como muito menos calamitosa do que as fotografias da época permitem supor. Como não podia deixar de ser, estas lendas do Velho Oeste aparecem no cinema expurgadas de quaisquer rugosidades humanas. São os conquistadores do Oeste Selvagem, líderes de uma missão incutida por Abraham Lincoln após a Guerra Civil e antes de ser assassinado. Também o malogrado General Custer surge representado pelo actor John Miljan.


Lincoln, Custer, Wild Bill Hickok, Buffalo Bill e Calamity Jane compõem a cartada desta aposta onde se joga a conquista do Oeste, então perturbada e dificultada pela guerrilha dos índios que se opunham às leis brancas e ao progresso que deixava atrás de si o rastro sangrento do extermínio de búfalos (a alcunha de William Cody não é fruto do acaso) e a destruição da natureza. Portanto, também aqui estamos entre figuras bíblicas. Neste caso, os protagonistas do desenvolvimento de uma nação tal como hoje a conhecemos. A diferença está em que destes protagonistas temos a certeza de uma existência factual, deles chegam-nos fotografias e relatos mais ou menos credíveis. Sobre eles se construíram histórias e ficções, pese a dimensão mitológica a que nenhuma historiografia popular está imune.  Cecil B. DeMille não lhes retira essa aura, antes a reforça exaltando o heroísmo das acções levadas a cabo, a justeza das decisões, a coragem e o sacrifício em nome de valores que eram os da figura tutelar de Lincoln. DeMille embeleza os seus heróis, obedecendo aos códigos cinematográficos de uma indústria em ascensão. O filme acrescenta, porém, às aventuras e desventuras das figuras retratadas uma raríssima, à época e ainda hoje, menção ao poder pantanoso do negócio de armas. Desviando-se dos factos negros da História, o realizador não deixa de aludi-los. A cena em que os industriais de armamento debatem o que fazer com as armas que o fim da Guerra tornou inúteis, optando por vendê-las ilegalmente às nações índias, pode não ser fiel aos factos, mas é hoje de uma irónica pertinência. No fundo, por detrás dos grandes gestos destes heróis medra a inconspícua indústria do armamento. Com os seus ardis, artimanhas e total ausência de escrúpulos, o negócio é uma espécie de agente duplo ao serviço da sua egoísta prosperidade. Não importa quem detenha as armas, conquanto sejam apetecidas e pagas. Em 1937, tais questões não colocavam a quem visse o filme de Cecil B. DeMille. Talvez as pessoas estivessem mais interessadas em alimentar os mitos nacionais que engrandeciam a América face a uma Europa em erupção. Hoje o pormenor não pode escapar, até porque a verdadeira aventura de Buffalo Bill já não é caçar búfalos, matar índios ou capturar o seu amigo Wild Bill Hickok. A aventura é perceber porque estão impedidas as pessoas de viver sossegadamente num mundo pacífico, um mundo que deixe de ser a mesa de jogo onde a batota custa vidas humanas e enriquece quem não sabe disparar senão pelas costas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

REPULSIVO

Só não nos espantamos com o que vimos aqui porque temos memória de quão repulsiva é a personagem. Basta avivar com simples gestos aqui aludidos. Ao que sei, Pedro Passos Coelho tem a mulher doente com cancro. Não lhe desejo mal algum. E espero, honestamente, que o homem Coelho não tenha para com a sua mulher a mesma mentalidade que tem para com os portugueses que governa.



P.S.: «Nalguns sítios da nossa sociedade gerámos, alimentámos, engordámos, trouxemos à luz do dia gente má, muito má, que mandou e manda em nós, instilando arrogância, desprezo pelos mais fracos, insensibilidade face à miséria, gente que olha os gregos como se fossem untermenschen. Do alto do seu conforto, sim porque o conforto distingue-os da ralé, eles andam a passear-se nestes dias com uma enorme espinha na garganta, mais do tamanho de uma trave do que de uma espinha, e não gostam». JPP, o intelectual da social-democracia que gerou o actual Primeiro-Ministro português, aqui.
 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

THE IMITATION GAME (2014)

 
Ao misturar três tempos, ligados pela biografia do matemático Alan Turing, o realizador norueguês Morten Tyldum corria o risco de nos oferecer uma narrativa intrincada. Risco superado. O problema está em que, sendo biográfico, o filme acaba por se perder num statement algo sentimentalista, e pouco convincente, sobre a questão homossexual. Turing foi um matemático exímio e invulgar, o típico génio da turma, introvertido, anti-social, alvo daquilo a que hoje chamamos bullying. Pelo menos, é-nos assim apresentado enquanto adolescente. Depois de um trabalho fundamental na descodificação dos códigos nazis, com a construção de uma máquina que, dizem os especialistas, esteve na origem dos actuais computadores, Turing caiu em desgraça quando se tornou pública a sua homossexualidade. À época, era crime. Sujeito a tratamento hormonal, com consequências nefastas para a saúde, física e mental, Turing acabou por se matar. Se não se matou (o facto é polémico), matou-o a sociedade. A mesma para quem trabalhou arduamente salvando milhões de vidas. A sociedade livre da europa anti-nazi. Praticamente todo o filme passa ao lado desta questão, levando-nos a ela no remate e fazendo dela o momento mais alto de um filme repleto de picos emocionais. A vida desta personagem fascinante acaba por ser contada com demasiada formalidade, obedecendo a tipificações onde o feitio difícil do homem resulta numa pobre caricatura das contradições que o atormentavam. Pessoa? Máquina? Herói? Criminoso? Duas interpretações muito boas salvam o filme do fracasso: Benedict Cumberbatch (tem uma breve aparição em 12 Years a Slave) no papel principal e Keira Knightley (Anna Karenina) no papel de Joan Clarke, a mulher que Turing pediu em casamento para não perder o privilégio de trabalhar com uma inteligência à sua altura. Preconceitos machistas e homofóbicos são o centro das atenções num filme onde o mais importante parece estar sempre a passar-nos ao lado, a forma como o "mundo livre" trata os seus verdadeiros heróis. Resta a esperança de que César das Neves e Marinho e Pinto vejam o filme, de preferência na companhia das respectivas famílias.

30 ANOS

Faz hoje 30 anos, o JL publicava uma entrevista de Miguel Serras Pereira a Sophia de Mello Breyner Andresen. Um excerto, retirado d'aqui: «o português é uma das línguas mais faladas no mundo, mas está a começar a ser uma língua destruída em Portugal, pela forma como se fala, sobretudo nos meios de comunicação social, a rádio e a televisão». Pode ser que o português do Cristiano Ronaldo venha a servir de modelo, tal é a reverência. Não vejo outra forma. É que há dias, só a título de exemplo, pediram-me conselho sobre um livro para oferecer a um professor de português que, e passo a citar, «não gosta de ler». Professor de português que não gosta de ler?, questionei pasmado. É mais filmes, foi a resposta que recebi. A cliente acabou por levar o Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, sob o argumento de que talvez pudesse estimulá-lo para a leitura das personagens analisadas por Bruno Vieira Amaral. A propósito, o aniversariante ia comemorar 50 anos.

SPAM

Perguntam-me o que penso das eleições na Grécia. Perguntam-me quem gostava eu de ver como candidato à Presidência da República. Perguntam-me qual o meu jogador preferido do Sporting. Fazem-me perguntas destas, mas da cabeça não me saem as perguntas da Laís e da Pietra: «Amigo, não está satisfeito com o tamanho?» «Amigo, o que você faria com 10cm a mais?»

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

GREAT LOVE

 
 
Of course Herr Strøm isn't a 'Great Love'. Although I don't know what you understand by 'Great Love'. Look, I think that everybody one likes a great love. I'm no enthusiast of ordering things by rank: great - greater - greatest love, small - smaller - smallest love. I'd like to try to explain this to you. If I like somebody in the sense of 'love', I like him in a particular, unique way that I cannot compare to anything else. I like Herr Strøm in a very particular way and Williger in a completely different one. So if I like somebody then I just like them. And now I realise that, on account of this 'theory', jealousy is simply impossible.
 
Ruth Maier, numa carta à irmã Judith Maier, datada de 25 de Maio de 1939, in Ruth Maier's Diary - A Jewish Girl's Life In Nazi Europe, edited by Jan Erik Vold, Vintage Books, 2010,  p. 149.

ESPERANÇA

 
Passos Coelho é um lírico falhado. Devemos guardar as maiores reservas quanto a artistas frustrados. O gabinete do ministro das Finanças grego respondeu à provocação do "conto de crianças" com a palavra esperança, uma palavra que o lírico falhado não pode compreender. É até provável que a despreze, insistindo num ministro da Educação com provas mais que dadas na destruição do ensino público, numa ministra da Justiça sitiada pela própria arrogância, num ministro da Saúde obsessivamente tecnocrático, num ministro dos Negócios Estrangeiros patético, num vice-primeiro-ministro errático... and so on. É claro que com políticos desta coelheira não podemos esperar senão uma bênção papal, fodem tudo mas não produzem nada. São estéreis. Esperança é, definitivamente, conceito para o qual se estão nas tintas.
 
 
P.S.: Pedro Góis Nogueira disponibiliza aqui cinco contos para crianças na coelheira do Passos.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

FOGO E ENXOFRE

É quase certo que o próximo Carnaval será fértil em foliões mascarados de Maomé e alegorias do socratismo enjaulado, mas houvesse justiça neste mundo João César das Neves seria o rei de todas as marchas. Uma breve visita ao arquivo opinativo deste leitor compulsivo da Suma Teológica tem os seus riscos, podemos morrer de riso ou sufocados pelo vómito. A crónica de 28 de Janeiro começa assim: «A imprensa parece inebriada com a homossexualidade. Este fascínio ressurgiu agora nas discussões sobre adopção por casais do mesmo sexo: a generalidade dos jornalistas assumiu implicitamente apenas uma possibilidade válida, desprezando as alternativas como obscurantismo, numa promoção aberta da sodomia». A palavra sodomia, provavelmente tão rara nas páginas dos nossos jornais como a palavra gonorreia, denota por si mesma todo um programa intelectual. João César das Neves está convencido que o cu é o fim último da homossexualidade, relegando ele próprio para o obscurantismo todas as alternativas a algo que, muito provavelmente, não cabe na sua cabeça. Isto é, a possibilidade de amor entre duas pessoas do mesmo sexo não ser uma perversão. Sejam homens ou mulheres. É óbvio que a crítica à imprensa explícita na afirmação, ou seja, a de “promover abertamente a sodomia” (promovê-la no regime fechado da Igreja Católica Apostólica Romana seria, talvez, mais saudável), traz água no bico. Essa água fica inteligível quando saltamos para a crónica de 21 de Janeiro e lemos: «A civilização está em risco. O perigo vem menos do terrorismo do que da raiva que provoca». Não queremos ler o resto, embora admitamos toda uma cadeia reflexológica tipicamente heideggeriana que nos levaria de lugar nenhum a nada. Tramado é que no cantinho superior direito da mesma página corra a seguinte notícia: “Estado Islâmico anuncia em vídeo que queimou vivo o piloto jordano”. Contenho a raiva, não vá desmoronar-se por completo a civilização que César das Neves decreta em risco. Apoiando-se numa lógica singular, o prestigiado economista julga que o problema não está na causa. Está no efeito. O problema não é tanto haver tipos que queimam outros ou decapitam ou apedrejam até à morte. Na realidade, isso em si nem é bem um problema. Serão, enfim, maus exemplos. O problema é a gente enraivecer-se com a existência dessas crianças que seguem os maus exemplos. Ora vejam lá se não topam o elo lógico entre esta tipificação silogística e a problemática sexual anteriormente aludida. Para César das Neves, a violência doméstica não é em si um problema. O problema é a gente enraivecer-se com ela. Haver pedófilos na igreja não é um problema, o problema é as criancinhas abusadas chatearem-se com isso. A imprensa inebriar-se com a sexualidade é um problema, a nossa raiva é um problema. O problema são as paixões. É este medievalismo intelectual que leva o economista da alma a preocupar-se com a promoção aberta da sodomia, não vá alguém meter-lhe no cu o dedo anelar das famílias desencarreiradas.

SEGUNDO PLANO


Tudo em segundo plano,
pudesse ficar
um poema no adro como
se alguém varresse as folhas
para um canto
e o vento voltasse a soprar
e dispusesse tudo da mesma forma,
o orgânico e o inorgânico,
inertes, imateriais,
visíveis e invisíveis,
coisas reais, imaginadas,
a dupla fieira de cedros e pessoas
que aguardam à porta pela saída
e despejam sacos de arroz, denso
como depósito no fundo de garrafas.

De longe assistem a tudo,
ansiando por maior folga para os pés,
defendendo o traje e a recordação.
Ainda não voam os papéis do registo
até aos ladrilhos das casas de banho
que cheiram a suor e a urina.
Pudessem ficar em segundo plano.
Estivessem no âmago do acontecimento,
onde a luz do sol bate na pedra
e devora a construção,
mas ao mesmo tempo vagueassem
pelas redondezas, laterais,
como se as sombras fossem independentes
das opacas matérias que lhes correspondem.

Alguém surge para anunciar
mais um pequeno atraso,
previsto desde sempre, e todos dissociam
arroz na mão, arroz lançado,
o tempo que há-de vir oscila na memória
e dá razão aos distraídos e aos retardatários.

Pudesse ficar tudo por dentro
de uma imagem, alheio, em segundo plano.
Se eu desse os parabéns correctamente
poderia por trás aplaudir, incentivar,
ou teria espaço para uns insultos
caso a pequena actuação corresse mal. 

As coisas ficam em segundo plano,
atrás duma cortina, paradas.
A água não fractura o rosto
do rapaz retorcido por um mal congénito.
A cotovia não se atravessa entre nós e o céu
e quem se mantiver atento vê o céu
através das asas e do movimento,
pois a gravidade perde primazia e força de lei.
Vence quem dispuser do melhor exemplo. 

Não vou eu, em segundo plano,
cumprimentar o tio desengomado
que se protege do sol
e troca os nomes como um vulgar poeta.

E quando me abeiro da mão mole,
multiplicada pela distância, o eco
das vozes torna mesmo difícil saber
a que pergunta é devida resposta.
Quando afasto insectos
e a presença que nos ameaça
se torna por fim refém da transparência,
livre do comando de voz mais obscura
que não sou capaz de repelir,
fecho os olhos, inteiramente
em segundo plano, e deixo-me cair
na voragem que adultera
o tempo e as fotografias.

Nunca sentiste, ao pegares num cinzeiro,
que repetes um gesto? E quando o levantas,
espreitando para dentro dos teus pulmões
fumadores, vês as coisas de facto
como dizes que são? Deixaste há muito de ser
moderno, demasiadamente moderno,
e desenrolas o papel higiénico das ficções
com absoluto terror do deserto?

Desdobras imagens tecidas por luminosos fios,
unidos àquela consciência que dissolve
numa treva os convidados
quando se debruçam para o bolo de noiva
ou escolhem carnes frias
ou provam os doces em segmentos.
Deixaste que a vida te enganasse?

Pudesse ter dimensão, dignidade
de exemplo e caber na moldura
que alguém arrasta atrás,
um semelhante, um igual.
Em segundo plano. Juntam-se
automóveis, pessoas vão saindo,
iminente a chegada da noiva -
o tempo não defrauda as expectativas.

O Convento de Cristo sobrepõe-se à pedra
amontoada. Confirma-se um rosto.
Já os Templários descem a cavalo
quando alguém fecha uma janela.

José Ricardo Nunes (n. 1964), in Apócrifo (2007). Autor de algumas narrativas curtas (Alfabeto Adiado, Confissões) e ensaísta com obra publicada no domínio da crítica de poesia, José Ricardo Nunes é um poeta onde a contenção discursiva surge primeiramente como marca de uma dialéctica entre a experiência do real e a vontade de superar essa experiência com incisões imagéticas invulgares. Contaminados pelo quotidiano e por memórias diversas, os seus poemas raramente se circunscrevem às circunstâncias que os motivam. Evoluem quase invariavelmente no sentido de um mundo onde a linguagem está consciente da sua infidelidade ao real. Deste modo, a sua poesia está intimamente ligada ao corpo. Mas está ligada ao corpo na medida em que é neste que os dados da experiência são filtrados pela linguagem, a qual nos transporta amiúde para situações onde da treva, da dor, da perda, da monotonia, surde uma emotividade que já não é meramente cerebral e literária. É a emotividade que reclama para o poema o estatuto de coisa orgânica, coisa essa que sabemos jamais poder ser um poema embora desse horizonte não pretenda o poeta perder a vista.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

#54


Ser surpreendido é, por exemplo, deslocar-me a Rio Maior para ouvir uma tal de Tracy Vandal e regressar recompensado por uns tais de Inmyths (descubram-nos a partir d'aqui que vale bem a pena). Projecto com raízes locais, têm um CD de produção caseira que merece ser escutado. 100 Holloways (2014) reúne treze composições, uma das quais instrumental, alicerçadas no conceito redutor de alt-folk. Na realidade, estamos a falar de canções bem escritas, simples, geralmente em toada melancólica, com ritmos lentos e letras desencantadas. Ao vivo, apresentaram-se em duo. Apenas duas guitarras, uma eléctrica e outra acústica, e a voz bem colocada de Hugo Almeida. No álbum, juntam-se às guitarras um sintetizador, baixo e bateria. Canções muito boas, tais como Laymen ou This Song I Wrote só têm a ganhar com a versão despida. Libertam-se de preocupações com o discurso melódico e ganham na dureza dos fraseados simples. São inúmeras as evocações e as comparações que podem ser feitas, e esse talvez seja o ponto mais fraco deste projecto. Estamos sempre a ouvir outras bandas naquilo que nos está a ser apresentado em primeira-mão. Ainda assim, os Inmyths só têm que se orgulhar das boas canções que apresentaram até agora. A minha preferida do álbum é Pain Love:


DÚVIDA NÃO METÓDICA


Estou hoje certinha como tabuada:
sem desmultiplicações nem nada de extra.
Somos dedos, janelas (um mais um, cinco
mais cinco): 10 janelas, 2 dedos
- e uma dúvida instala-se curtinha,
nervosos cotovelos à janela

Resisto-lhe ao cinismo, à ambiguidade
(quero-me hoje tão certa como tabuada).
E somo novamente, multiplico,
e divido uma vez, dez vezes, cem,
rasgo mentais papéis, mas já não sei
se os dedos são os dez que atrás somei,
se são os dois os múltiplos dos cinco

Em desespero clínico, subtraio
(e eu que me queria hoje como tabuada!),
volto a rever as contas, agigantam-se
zeros, noves fora por fora, prova dos
nove ou zero, ou oito, ou o que for,
mas que dê certo

Ouço-lhe já o riso despegado, os
cotovelos, cínicas janelas,
e em assombro demente verifico
que trouxe vinte irmãs ou quarente consigo,
ou talvez dezanove ou trinta e nove,
mas já não sei contar:

só sei da multidão emoldurada
e uma lua por trás. Plácida
e certa


Ana Luísa Amaral (n. 1956), in Coisas de Partir (2001). «Quando o tempo e a distância recompuserem os nexos cronológicos e temáticos que constituem o que é a geração de 1980 (a meu ver, os nascidos entre 1951 e 1960, ainda marcados pela centralidade do discurso literário na linguagem, e tendo nesse centro a poesia), a poesia personalíssima e dialogante de Ana Luísa Amaral ocupará lugar de destaque nesse período. De facto, integrada na geração onde se incluem Adília Lopes (n. 1960), Isabel de Sá (n. 1951), Amadeu Baptista (n. 1953) ou Jorge de Sousa Braga (n. 1957) - sem esquecer um muito esquecido Alexandre Vargas (n. 1953) -, distingue-se pelo tom serenamente trágico no diálogo com a memória. Acontecimentos, revisitações, recordações regressadas em tom de aparição concretizam-se numa espécie de anagnórise (reconhecimento) trágico mas assumidamente sereno, num encontro com uma parte de si mesma, simultaneamente revelação e compreensão. (...) Poesia que dialoga com gerações anteriores da poesia portugues (Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner), mas que se ancora na poesia anglo-saxónica pela sua contenção. E que, também, revisita lugares paralelos da lírica feminina portuguesa» (Pedro Sena-Lino, Público, 27 Maio 2006).