Fica sempre bem lembrar o insigne Professor Herrero numa
sexta-feira 13, até porque não falta por aí gente com enormes cagalhões na cabeça. O
mais recente tola de penico foi descoberto numa coisa chamada Observador.
Mário Amorim Lopes de seu nome não se limita a pensá-lo, tem o desplante de
escrevê-lo. Podia fazê-lo, enfim, num diário ou num weblog privado com
links para o exterior (vá-se lá perceber a tendência). Amorim Lopes, não
satisfeito com a privacidade da sua higiene cerebral, decide disponibilizar ao
mundo o seu saber. E, espantem-se, há quem o publique. Aqui.
Não se espantem, hoje em dia publica-se qualquer merda. James Joyce dizia o mesmo no tempo dele. Mas o que afirma a luminária de serviço? Diz, e passo a citar, que anda «a explicar o conceito de custo de oportunidade aos meus alunos de Microeconomia». Entenda-se o efeito da citação, os meus alunos são os dele. E estudam microeconomia. Podia dar-lhes para pior. Nos exemplos é que o professor não é forte. Primeiro:
Não se espantem, hoje em dia publica-se qualquer merda. James Joyce dizia o mesmo no tempo dele. Mas o que afirma a luminária de serviço? Diz, e passo a citar, que anda «a explicar o conceito de custo de oportunidade aos meus alunos de Microeconomia». Entenda-se o efeito da citação, os meus alunos são os dele. E estudam microeconomia. Podia dar-lhes para pior. Nos exemplos é que o professor não é forte. Primeiro:
«Um tratamento custa, antes das recentes negociações,
cerca de 42 mil euros. Ora, 42 mil euros permitiriam, por exemplo, financiar os
seguintes tratamentos ou gastos sociais:
– 14 bypasses coronários
– 140 operações às cataratas
– 6900 refeições em cantinas escolares
– 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário»
– 140 operações às cataratas
– 6900 refeições em cantinas escolares
– 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário»
Bem sei que tortuosos são os caminhos do Senhor, mas por mais que reze nunca hei-de entender onde pretende chegar o microeconomista com esta micrológica. Temo que estejamos no
domínio das chamadas gorduras do estado. Trata-se, antes de mais, de rentabilizar
os recursos. E isso é ciência exacta. Ou não. Dito de outro modo, a dúvida é: se podemos pagar 2 salários anuais
de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário o que
justifica que desperdicemos o mesmo dinheiro num único tratamento de Hepatite
C? Já viram “O Resgate do Soldado Ryan”? Isto mais ou menos a mesma coisa, só que
no universo da microeconomia ninguém tem nada a aprender com o humanismo da missão.
Como é óbvio, a dúvida do professor pressupõe um argumento. Um argumento parvo, isto é, estúpido, mas pressupõe. E esse argumento é: se com 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário podemos, a título de exemplo, calçar mais de 800 "pés-descalço", então que se quilhem os professores contratados do 2ª (sic) escalão do básico ou secundário. Vamos calçar os "pés-descalço". Tal raciocínio levar-nos-ia longe (porventura a Marte, onde o professor Amorim terá sido concebido debaixo de um calhau vermelho). A miséria é um poço sem fundo, há sempre algo pior do que julgaríamos péssimo. Zenão de Eleia negava a possibilidade do movimento através dos paradoxos da subdivisão. Com os argumentos deste professor seremos capazes de negar a pertinência de qualquer gasto, quanto mais de qualquer investimento. As análises económicas têm este problema, são demasiado analíticas. Embrulham-se tanto na teoria que olvidam a lição mais básica: isto vai ter consequências na vida das pessoas, foda-se. Façam lá as continhas à escassez dos recursos partindo de outras premissas.
Muito haveria a comentar sobre a descarga intestinal do professor Mário Amorim Lopes, mas sejamos poupadinhos nas palavras (não pretendemos viver acima das nossas possibilidades) e saltemos para o remate. Ora tomem lá:
Como é óbvio, a dúvida do professor pressupõe um argumento. Um argumento parvo, isto é, estúpido, mas pressupõe. E esse argumento é: se com 2 salários anuais de um professor contratado do 2ª escalão do básico ou secundário podemos, a título de exemplo, calçar mais de 800 "pés-descalço", então que se quilhem os professores contratados do 2ª (sic) escalão do básico ou secundário. Vamos calçar os "pés-descalço". Tal raciocínio levar-nos-ia longe (porventura a Marte, onde o professor Amorim terá sido concebido debaixo de um calhau vermelho). A miséria é um poço sem fundo, há sempre algo pior do que julgaríamos péssimo. Zenão de Eleia negava a possibilidade do movimento através dos paradoxos da subdivisão. Com os argumentos deste professor seremos capazes de negar a pertinência de qualquer gasto, quanto mais de qualquer investimento. As análises económicas têm este problema, são demasiado analíticas. Embrulham-se tanto na teoria que olvidam a lição mais básica: isto vai ter consequências na vida das pessoas, foda-se. Façam lá as continhas à escassez dos recursos partindo de outras premissas.
Muito haveria a comentar sobre a descarga intestinal do professor Mário Amorim Lopes, mas sejamos poupadinhos nas palavras (não pretendemos viver acima das nossas possibilidades) e saltemos para o remate. Ora tomem lá:
Quando financiamos uma peça de Brecht de um qualquer
encenador que jura que a cultura deve ser financiada por todos nós, podemos
estar a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa
salvar mais uma vida. E sacrificar a vida de uma criança é um preço demasiado
elevado a pagar.
Pimba! Pum! Zás Trás Pás! Todos sabemos que os
comunistas comem criancinhas, faltava revelar que peças de Brecht contribuem para a mortalidade infantil.
Contenhamo-nos. Na realidade, o que aqui se subentende é mais simples: para as ortigas
com o financiamento da cultura, há criancinhas por salvar. Eh pá, nos meus
tempos de filosofia havia aquele dilema kantiano da biblioteca a arder com uma
velhinha lá dentro. Salvavam-se as obras-primas ou a velhinha? Num outro
contexto, o Gonçalo M. Tavares escreveu sobre algo semelhante recentemente. Sacrificar
o pai ou o filho? E a mamã com dois filhos no campo de concentração, qual deve
ela sacrificar? No fundo, já não estamos no domínio da microeconomia. Estamos
no domínio do dilema moral. Comprar o jornal ou beber um café? Um problema: conheci uma vez um tipo que preferia gastar o pouco dinheiro que tinha em livros a desperdiçá-lo (dizia ele) em bifes. Ele há cada um. Aqui chegados, resta-nos sugerir ao professor
Amorim uma receita de São Cipriano: não havendo dinheiro para fragrâncias,
aperte-se o nariz à desejada.
O busílis está na pirâmide. Explique lá, estimado professor, o que devemos colocar no topo da pirâmide das nossas preocupações. Podemos dizer, nem um tostão para Brecht enquanto houver uma criancinha com fome. Satisfeita a fome da criancinha, nem um tostão para a fome das criancinhas enquanto houver um sem abrigo. E assim sucessivamente. A paz, o pão, saúde, habitação... e dinheiro público para as maleitas dos bancos. Satisfeitos todos os males, esbanjemos à tripa forra. Terrível, este problema das prioridades. Estava capaz de ir ver uma peça de Brecht para me elucidar, mas ocorreu-me agora que enquanto estive para aqui a desperdiçar tempo com estas vãs palavras pelo menos 150 crianças morreram subnutridas no mundo. Que poderei fazer contra maleita tal? Pensar como um microeconomista talvez não seja solução, até porque os argumentos deste devoram-se a si próprios. São autofágicos (o que é sempre de enaltecer, poupa-se na alimentação). Oram vejam: para quê financiar a peça de Brecht, se temos gente com Hepatite C para tratar? Já podemos trata-los, professor? Está satisfeito? Topam? Se não, pode ser que o Peter Singer dê uma ajuda. Aqui. É uma coisa sobre altruísmo, termo estranho aos manuais de microeconomia.
O busílis está na pirâmide. Explique lá, estimado professor, o que devemos colocar no topo da pirâmide das nossas preocupações. Podemos dizer, nem um tostão para Brecht enquanto houver uma criancinha com fome. Satisfeita a fome da criancinha, nem um tostão para a fome das criancinhas enquanto houver um sem abrigo. E assim sucessivamente. A paz, o pão, saúde, habitação... e dinheiro público para as maleitas dos bancos. Satisfeitos todos os males, esbanjemos à tripa forra. Terrível, este problema das prioridades. Estava capaz de ir ver uma peça de Brecht para me elucidar, mas ocorreu-me agora que enquanto estive para aqui a desperdiçar tempo com estas vãs palavras pelo menos 150 crianças morreram subnutridas no mundo. Que poderei fazer contra maleita tal? Pensar como um microeconomista talvez não seja solução, até porque os argumentos deste devoram-se a si próprios. São autofágicos (o que é sempre de enaltecer, poupa-se na alimentação). Oram vejam: para quê financiar a peça de Brecht, se temos gente com Hepatite C para tratar? Já podemos trata-los, professor? Está satisfeito? Topam? Se não, pode ser que o Peter Singer dê uma ajuda. Aqui. É uma coisa sobre altruísmo, termo estranho aos manuais de microeconomia.





