Olho para o recibo de
remunerações de Fevereiro. Com um vencimento base de 692,41€, o total dos
descontos legais é de 238,64€. Mais 10€ cuja legalidade se chama sobretaxa em
sede do IRS. A T.S.U. leva-me 115,64€, o I.R.S. 123€. Como se não bastasse, o
estado vai buscar mais dinheiro por todas as vias que encontra. Os municípios
são uma delas. Acabei de ser notificado para o pagamento do Imposto Municipal
Sobre Imóveis. 167,40€, a pagar em Abril por um apartamento de que sou
proprietário. Julgava eu que já o tinha pago na totalidade quando o estado
começou a cobrar-me renda por aquilo que é meu. Ontem foi o Imposto Único de
Circulação a levar-me 17,81€. Na realidade levou-me mais. Atrasos no pagamento
do imposto referente a 2014 foram acrescidos de uma multa de 50€ mais 38,25€ de
custas que só mesmo o fisco percebe. Ou seja, ficou-me o IUC em 103,06€.
Assim vai a vida do contribuinte num país asfixiado democraticamente.
sexta-feira, 13 de março de 2015
LISTAS NEGRAS DO MAIS NEGRO QUE PODE HAVER
Não canso de me espantar com os inúmeros crimes de
violência doméstica ocorridos no Portugal moderno de Cavaco & Cª.
Aparentemente, a geração mais bem formada de sempre no país não conseguiu
aprender e interiorizar uma lei natural tão básica como esta: não se bate nos
mais fracos. Homem que é homem, atira sobre os mais fortes. Mulher que é
mulher, segue o exemplo. E quando me refiro a fortes não estou a pensar em cães
como o desafortunado mas já celebérrimo Simba. Se a intenção é descarregar
raiva e ódio e frustrações, podem sempre atirar a matar sobre outros alvos. O
trabalho está facilitado, comecem pelas lista vip e lista da Swissleaks.
quinta-feira, 12 de março de 2015
quarta-feira, 11 de março de 2015
UM POEMA DE JOHN BERRYMAN
A vida, amigos, é um tédio. Não devemos dizer isso.
Afinal, o céu faísca, o grande mar anseia,
nós próprios faiscamos e ansiamos,
e ainda por cima em pequeno a minha mãe dizia-me
(repetidamente) «Confessares-te entediado
significa que não tens
Recursos próprios.» Concluo agora não ter
recursos próprios, pois sinto um tédio de morte.
As pessoas entediam-me,
a literatura entedia-me, especialmente a grande literatura,
o Henry entedia-me, com as suas queixas & os seus tendões
tão anquilosados como os de Aquiles,
o qual ama as pessoas e a arte valorosa, o que me entedia.
E as plácidas colinas, & o gin dão-me seca
e de alguma forma um cão
levou-se a si & à sua cauda para bem longe
para as montanhas ou o mar ou o céu, deixando-
-me a menear.
MULHER ÁRVORE
O quintal da casa dos meus pais é acolhedor. Tem um
limoeiro carregado de limões com aromas inebriantes, tem uma laranjeira proveitosa
com laranjas tão doces e suculentas que parecem impossíveis. Passei por lá há
dias e enchi um saco com limões e laranjas, sentei-me a olhar para as roseiras
brancas, para as hortênsias, para a magnólia. E enquanto refrescava o corpo com
a acidez da limonada, sentei-me a contemplar a vida que floresce na Rua de
Santa Bárbara. Num bairro outrora de mineiros, onde o sol nasce para todos
ainda que nem todos colham nele o mesmo proveito.
Agradeço cada um dos teus ramos e cada folha que neles
desabrocha e resiste. Por ti o vento passe com leveza, que à tua sombra descansem
os filhos desprotegidos. E que neles possas encontrar alento. Se o teu fruto é
a morte, de tal morte vidas brotem. Esperança é palavra vã neste quintal onde
rego o corpo com limonadas, onde me sento a observar o espertar da Primavera. Do
meu testemunho nenhum pólen chegará ao quintal onde te encontras, mas não sou
indiferente à tua passagem. Também de existires o langor dos meus braços se
envergonha.
Mas olho a planta desgrenhada de branco contra o fundo de um
céu limpo e luminoso, sobre ela cabos eléctricos traçam a página com absoluta
inoperância. Os carros estacionados são obsoletos, o gradeamento é uma afronta indesculpável.
Plantas destas deviam crescer no deserto, não é juso que medrem rodeadas de
invejas mesquinhas. Deviam inspirar o mundo para que na alvura das suas folhas pudessem
os homens vislumbrar dias límpidos. Na sombra delas ninguém descansa, a não ser
os olhos estupidamente melancólicos do que em cada um de nós há de poesia.
Esta planta é uma mulher, os seus poemas são escritos com
sangue nos camuflados inconfortáveis. Erguem-se bandeiras sobre a ruína, mais
um centímetro de terra estéril conquistada para que nela possam talvez ser
plantadas outras guerras. O que distingue aquele verde simbólico, pano
esvoaçante, da cabeleira branca que perece no quintal dos meus pais? Tudo é efémero,
tudo é transitório. E no trânsito em que tudo se move as estações demarcam a
rotina. Tanto a mulher como a árvore lutam pelos seus frutos, tanto uma como
outra cumprem o seu destino no regaço das estações.
Liberdade e sobrevivência não cabem em tão débeis
cogitações. Palavras que só de pronunciá-las devíamos sentir vergonha.
terça-feira, 10 de março de 2015
PÚSIAS
Faz agora 100 anos que Virginia e
Leonard Woolf tiveram a feliz ideia de fundar uma editora. Em Fevereiro de 1915
informaram-se sobre o custo e funcionamento das prensas, a 23 de Março de 1917
descobriram na Farrington Street uma pequena prensa manual, com todos os
acessórios, ao preço de 20 libras. Assim nasceu, na sala de estar do famoso
casal, a Hogarth Press. A primeira obra foi uma brochura com um conto de
Leonard Woolf e outro de Virginia Woolf, «impressa num papel de tela colorido
com quatro gravuras em madeira de Dora Carrington». A publicação destes
opúsculos estava valorizada pelas horas dispendidas na composição, na
impressão, na encadernação, no tratamento do papel. O relativo sucesso do
“negócio” permitiu-lhes investir numa prensa mais sofisticada, a conhecida
Minerva. Em 1927 editaram quarenta publicações. Werner Waldmann relata o
crescimento nestes termos: «Quanto mais profissional se ia tornando o negócio,
menos os dois editores podiam dedicar-se a todos os detalhes, sobretudo aos artesanais.
Mas até 1932 sacrificaram ambos muito tempo com actividades triviais. Estas
abrangiam desde a composição, ao prelo, encadernação e mesmo administração:
tinham que empacotar e despachar, tratar da correspondência e fazer contas.
Também não se escusavam a limpar a tinta dos cilindros da máquina ou a
organizar, de vez em quando, o caótico armazém». E acrescenta: «fazer nascer a
língua, manualmente, letra a letra, atraía, por exemplo, cada vez mais
Virginia». Sublinhemos as horas sacrificadas, roubadas à escrita dos próprios
livros e a actividades porventura mais lúdicas, sublinhemos a paixão do labor
artesanal que permitia fazer nascer a língua como quem se dedica a um parto.
Não brincavam em serviço. Publicaram traduções de autores russos, descobriram
T. S. Eliot. Katherine Mansfield, Rilke e Italo Svevo, Gertrude Stein e H. G.
Wells, entre tantos outros, constavam no catálogo. Nem terem recusado Sartre,
Joyce, Auden ou Saul Bellow lhes manchou o currículo. Essas obras têm hoje um
valor inestimável, o qual não se esgota nos autores publicados. Ele reside,
sobretudo, na forma como os livros eram feitos. Ora, num tempo em que o livro
se tornou objecto de massas e as editoras se desenvolvem quase exclusivamente
na base de critérios comerciais, num tempo em que a produção massificada da
obra lhe extrai uma certa exclusividade, sepultando-a na vala comum da
banalidade, as Edições 50kg de Rui Azevedo Ribeiro são um gesto de resistência,
quiçá romântico, que não deve passar despercebido. A recente publicação de
Púsias (Fevereiro de 2015), colecção de poemas saídos da pena de Vítor Silva Tavares, torna ainda
mais fascinante tal actividade, na medida em que nos coloca perante um objecto declaradamente
raro. Na realidade, este folheto dado agora à estampa tem o duplo mérito de
insistir no livro também enquanto objecto de colecção e homenagear (em vida) um
dos mais marcantes editores que Portugal jamais conheceu. Quem esteja
familiarizado com o trabalho editorial de Vítor Silva Tavares nas edições
&etc (ou no &etc), não se espantará com a verve do trovador. Não é a
primeira vez que o editor se deixa publicar enquanto autor, sendo porém de
notar que em muitos textos de badana ou breves apresentações distribuídas por
publicações diversas a qualidade da escrita foi sempre deixando o rabo de fora.
A belíssima capa de Luís Henriques anuncia o tom jocoso que atravessa estas
Púsias. Sarcástico quanto baste, sátiro devedor dos altos signatários da
colecção contramargem (de Guerra Junqueiro a António Lobo de Carvalho, de
Luciano de Samósata a Camillo Castello Branco, de Charles Fourier a Blaise
Cendrars), Silva Tavares restaura e preserva uma herança pícara trespassada por
inquietações modernistas com rima tão cáustica quão espirituosa:
Adeus pátria mal amada,
parto pra dentro de mim.
Tu pátria não dás por nada
e eu assim como assim
ainda caibo — e confio
não ficar pior a sós.
Quanto aos egrégios avós
vão prá puta que os pariu
já agora acompanhados
dos seus netos do futuro.
Cá por mim, pelo seguro,
sequer feitos ilustrados
para semente. Chega
de imposto sucessório:
tu pátria não queres casório
e eu dou-te em troca uma nega.
De candeias às avessas,
cada macaco em seu galho,
ó pátria nem peço meças,
vamos ambos pró galheiro.
Para que algo fique de pé
nesta triste conjuntura
sai esta rima quinté
merece moldura.
Um certo revivalismo dá cor a este
extraordinário volume a preto e branco, cores matriciais de uma pátria
embalada no berço da nostalgia. Suspende-se o tempo sem preocupações com
o futuro que a des-ilusão do passado recusa alimentar. A dúvida que sempre
persiste é: pode a desistência ser um acto de resistência? Falamos de púsias, não
de poesias. Falamos de um Pessoa que mais do que crachá, iconografia
mercantilizada de um país ignorante dos seus poetas, apanha beatas do chão. Ainda
sobre a Hogarth Press, sabemos que se transformou numa «das mais renomadas
editoras do cenário literário britânico, famosa pelo seu interesse
vanguardista, pelas obras líricas, a sua coragem em publicar autores desconhecidos».
Enfim, foi em Inglaterra. Foi noutros tempos. Por cá vamos indo.
segunda-feira, 9 de março de 2015
PEQUENA EXPLICAÇÃO ABSOLUTAMENTE
Eu que
apareci acidentalmente vivo
odorizado de flores a uma certa distância
não me importo.
Sei quanto é doloroso
que exista um sol que nasce e morre;
aquela dúvida, às vezes um pouco ridícula,
que surge numa minúscula nuvem
(daquelas nuvens que vieram de motu próprio)
e que fazem saber
que o sol talvez não nasce
talvez não morre
que a única atitude
a única perfeitamente aceitável
sim, isso mesmo é que é certo,
nem vem que me importe
muito a propósito.
Uma espécie de pessoas, um grupo,
(inexactamente um grupo)
de gente não malograda
corre, um tanto desesperadamente,
em busca da planta, a tal.
Tudo pode ser
uma alma emprestada.
Nas varandas vêem-se (por vezes)
os inúteis vasos - aí está qualquer coisa!
Toda a humanidade - que me não importa
(pelo menos muito)
está um poço assim
familiar tão infelizmente,
- algo na varanda é a seteira.
Imensos
etcéteras sobre mundo, alguns vasos,
o aristocrático grupo (inexactamente) sem tempo
nem sequer vamos redimir
mas além dos muros sem porta
aí estão as pombas
(tenho-as no bolso).
Infinitos etcéteras, bom dia,
por aqui tudo bem, nada de novo,
Dezembro, mil novecentos
e cinquenta e sete. Lisboa, Manuel
de todo o coração.
Manuel de Castro (n. 1934 - m. 1971), in Paralelo W (1958). «A sua poesia é enigmática, hermética, domina-nos primeiro pela intensidade que desarma, como um sismo que nos abala. Visceralmente, como o abraço apertado de um polvo, agasta-nos pela energia, pela violência e pela velocidade com que se desdobram, proliferam e transmigram os campos semânticos, pela revolta que encerra, a veemência, a imagética delirante que multiplica traços de união entre termos que à partida viviam isolados, assim inventando sensações-conceito (...). É uma poesia que transgride regras de pontuação. O significado molda plasticamente o significante, devém corpo de letra. Muitos verbos são indevidamente pronominalizados, tornados reflexos. Não esqueçamos que Manuel de Castro tem um profundo conhecimento da prosódia, que não cessa de manobrar» (Maria da Conceição Caleiro, Ípsilon, 4 de Abril de 2014).
domingo, 8 de março de 2015
CHEIRA A CAMPANHA ELEITORAL
Cheira a Cavaco. Cheira mal.
Podia fazer tudo menos o que fez. Podia manter-se calado, o
que sabe fazer melhor. Podia dizer: não comento, vou ali beber uma cervejinha.
Podia falar das vacas e comer bolo-rei, podia exilar-se nas Selvagens. Mas este
homem não desiste de ser a maior tristeza do Portugal pós-25 de Abril. Mais uma
vez, varreu para debaixo do tapete. Ele próprio há muito vem fazendo campanha
eleitoral, ele tresanda a campanha eleitoral. Se desculpabilizar o infractor
não é fazer campanha por ele, então o que é? Verdade seja dita que estamos
habituados. Foi assim com o BPN, é assim com o BES, foi assim com Relvas, a
Tecnoforma, com a demissão irrevogável de Paulo Portas, com os submarinos, etc,
etc, etc, etc. Cavaco é quem pior cheira neste país desgraçado, há muito que é
assim, há muito.
sábado, 7 de março de 2015
UM POEMA DE MANUEL DE CASTRO
MONOGRAFIA BREVE
Penetro no coração lívido desta cidade
e no seu hálito compacto
cinzento, grave,
neste céu cantante e sólido
como o homem que em mim caminha,
que através de mim caminha
entre vozes de paz, de guerra e de loucura.
No seu hábito monástico quase triste
eis como a cidade desenrola
uma desconexa história sem mãos:
viverás bebendo cerveja,
aprendendo a inclinação da mente
no seu fio oscilante,
e serás surpreendido, de quando em quando,
pelo facto - no seu fio oscilante -
de viveres.
Talvez escrevas um pouco, talvez
encontres sombra na grafia
dos nervos, dos sons, das gotas de chuva
que humedecem os cabelos da terra
e desejes cortar afiada
vagarosamente
palavras
ou o auto-retrato de Philipp Otto Runge.
Hamburgo, Agosto 1963
Manuel de Castro, in Bonsoir, Madame, Alexandria/Língua Morta, pp. 1954-195, Dezembro de 2013.
SHENANDOAH (1965)
Os grandes temas do western correspondem aos grandes
temas da história norte-americana: as aventuras e desventuras dos pioneiros, os
conflitos com os índios durante os períodos de migração para o faroeste, a
Guerra de Secessão, o progresso industrial e o aparecimento de cidades
desenvolvidas, a emergência do crime organizado, a oposição entre o mundo rural
e os centros urbanos, a febre do ouro. É neste contexto sociocultural que
podemos observar a germinação de autênticos heróis, nomeadamente os chefes das
nações índias, o cowboy solitários que transportava o gado por trilhos
inimagináveis, os primeiros figurões da lei e do crime, militares, aventureiros,
empresários sem escrúpulos. Trata-se de um período efervescente cujo interesse
recai, sobretudo, sobre os modos informais de organização social e política
numa nação sem cultura ou, se preferirmos, com uma cultura neófita desabrochando
num confuso ventre identitário: índios, colonizadores de origem europeia, africanos,
povos orientais.
Se a linha férrea aparece como símbolo por excelência do
progresso, o velho cowboy transforma-se num resquício do conservadorismo. São
ambos representações do tempo que nos transportam ora para o passado, ora para
o futuro. O búfalo sagrado dos índios arrasta com o seu desaparecimento uma
espécie de ancestralidade perdida. E, com tal perda, instala-se um vazio de
sagrado que a ambição material busca preencher. Porém, durante a Guerra Civil
Americana outros valores se levantaram. Para se compreender um filme como
Shenandoah/O Vale da Honra (1965) todos estes elementos devem ser ponderados,
sobretudo quando nos é colocado à frente um emblemático James Stewart que já
tínhamos visto nos papéis, mais ou menos cruciais, de político em ascensão (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962) ou cowboy voluntarioso (The Far Country,
1954).
O realizador Andrew V. McLaglen (n. 1920 – m. 2014), que
trabalhou para John Ford como assistente de realização, oferece a James Stewart
um papel de maturidade. A acusação de excessiva convencionalidade é descabida,
bastando para desmontá-la o facto simples de numa família com sete homens e
duas mulheres só um elemento ser ágil no gatilho: a única filha de Charlie
(James Stewart) numa prole de sete. Charlie é um agricultor bem-sucedido,
viúvo, pai de família exemplar, orgulhoso dos filhos e da nora, zeloso dos seus
e da sua propriedade. Quando a guerra lhe bate à porta, mantém-se neutro (posição
tão difícil de sustentar como qualquer outra). Não tem escravos, nunca sentiu
necessidade de os ter, tudo o que tem é fruto do seu trabalho, faz questão de o
sublinhar, e, por isso mesmo, procura manter-se à distância numa guerra que se
aproxima. Resolverá apenas intervir quando o filho mais novo é acidentalmente
capturado e feito prisioneiro pelo exército do norte. Charlie partirá então com
a família em busca do mais novo.
Tema recorrente nos
relatos do Velho Oeste, a busca de desaparecidos, os desencontros, as
separações, é filmado por McLaglen com cativante ritmo narrativo. Há momentos
de suspense e pausas emocionais em doses equilibradas. Mas o que mais se eleva
em Shenandoah é o valor da família, o tal outro valor que a guerra civil
exaltou de forma radical. Escusado será dizer que a união familiar nunca posta
em causa neste filme, apesar de ligeiras divergências entre o pai e um dos
filhos, serve de contraponto à desunião da família norte-americana durante a
guerra. É precisamente essa desunião a causa das tragédias, da tristeza e da maldade
que a história configura. Nesse sentido, podemos dizer que a transfiguração do bem
processada ao longo do filme se faz em contraposição ao mal. O final feliz é ilusório,
na medida em que não pode ser isolado de uma história onde um dos filhos foi
brutalmente assassinado, outro foi morto por acidente e a nora violada até à
morte.
Aí temos um western intenso sem pistoleiros nem sheriffs implacáveis,
sem índios selvagens nem cowboys solitários, mas com uma família simples a tentar
manter-se unida e serena entre o caos que a rodeia. Sem tomar partido na
guerra, Charlie é uma das suas vítimas — aquilo a que hoje os especialistas
chamam dano colateral. O seu heroísmo não vem do coldre que não usa, vem de
saber amar depois de ter gostado, de ter gostado muito. E de tudo fazer para
preservar esse amor. Vem da sua determinação.
ATRASOS MENTAIS
…o direito de alguém a sair de casa prevaleceu sobre os
direitos de propriedade e a estupidez egoísta de vizinhos e da insensibilidade
de um juiz de primeira instância…
A história de um país simplificada aqui. O povo completo será aquele que tiver reunido no seu
máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos
faltam as qualidades.
sexta-feira, 6 de março de 2015
A CRÓNICA DE JOAQUIM VIEIRA NA ANTENA 1
«Portugal conheceu nos últimos dias um Pedro Passos
Coelho diferente daquele a que se habituara nos últimos quatro anos. Já não é o
Passos Coelho do rigor, da intransigência, dos princípios inflexíveis, da
disciplina sem exceção, da execução de um programa custe o que custar, da
ultrapassagem da troika, do imperioso empobrecimento da população, do abandono
da zona de conforto, da exigência fiscal, da cobrança coerciva de impostos, do
agravamento das multas aos prevaricadores, da perseguição aos incumpridores e
aos distraídos.
Agora temos o Passos Coelho que não é perfeito, que foge à observância das suas obrigações para com o Estado, que se esqueceu de pagar ou julgou que era facultativo, que nisso foi reincidente sem contrição, que vai a correr liquidar dívidas antigas só devido à ameaça da sua divulgação pública, que acha tudo isso normal e não censurável, o Passos Coelho um pouco videirinho, sem carreira profissional digna de nota fora da política, a gerir uma empresa para receber fundos europeus pagando uma formação inexistente, a viver de expedientes para compor um orçamento confortável, que recebeu um vencimento disfarçado em despesas de representação, ao mesmo tempo que se declarava deputado exclusivo para garantir o subsídio do erário público.
Por estranho que pareça, é o mesmo Pedro Passos Coelho, dr. Jeckyll e mr. Hyde, que ora é uma coisa, ora é outra, sem que os portugueses percebam onde está a sua verdadeira personalidade. Diz-se que a política não deve ser feita com base em julgamentos morais, mas que dizer quando o maior de todos os moralistas é afinal o mesmo que anos a fio fugiu aos deveres cujo cumprimento a todos exige?
Passos Coelho fez do acatamento das obrigações fiscais um dos pilares da sua política enquanto primeiro-ministro, mas agora vem explicar aos portugueses que não há mal nenhum em não pagar ao Estado e só o fazer quando, eventualmente, se for apanhado.
De um passado obscuro, emergiu o dr. Jeckyll que parece querer matar o Mr. Hyde. Nenhum deles merece governar, porque os Portugueses não merecem um governante assim.»
Agora temos o Passos Coelho que não é perfeito, que foge à observância das suas obrigações para com o Estado, que se esqueceu de pagar ou julgou que era facultativo, que nisso foi reincidente sem contrição, que vai a correr liquidar dívidas antigas só devido à ameaça da sua divulgação pública, que acha tudo isso normal e não censurável, o Passos Coelho um pouco videirinho, sem carreira profissional digna de nota fora da política, a gerir uma empresa para receber fundos europeus pagando uma formação inexistente, a viver de expedientes para compor um orçamento confortável, que recebeu um vencimento disfarçado em despesas de representação, ao mesmo tempo que se declarava deputado exclusivo para garantir o subsídio do erário público.
Por estranho que pareça, é o mesmo Pedro Passos Coelho, dr. Jeckyll e mr. Hyde, que ora é uma coisa, ora é outra, sem que os portugueses percebam onde está a sua verdadeira personalidade. Diz-se que a política não deve ser feita com base em julgamentos morais, mas que dizer quando o maior de todos os moralistas é afinal o mesmo que anos a fio fugiu aos deveres cujo cumprimento a todos exige?
Passos Coelho fez do acatamento das obrigações fiscais um dos pilares da sua política enquanto primeiro-ministro, mas agora vem explicar aos portugueses que não há mal nenhum em não pagar ao Estado e só o fazer quando, eventualmente, se for apanhado.
De um passado obscuro, emergiu o dr. Jeckyll que parece querer matar o Mr. Hyde. Nenhum deles merece governar, porque os Portugueses não merecem um governante assim.»
quinta-feira, 5 de março de 2015
TRÍPTICOS DA NUDEZ #6
A vocação literária deste espaço não podia ser
indiferente à nudez dos escritores, os quais se despem segundo variadíssimos critérios.
Em sentido figurado, encontramos nudez onde menos a esperaríamos. Por exemplo,
nas confissões de Jean-Jacques Rousseau (que não irei citar sob pena de me
julgarem presunçoso). Se a opção pela literalidade for assumida desde logo,
nenhum escritor foi mais prolixo em nus do que o poeta norte-americano Allen
Ginsberg. Podemos contemplá-lo em postura decalcada de Robinson Crusoe ou,
porventura num estilo mais ousado, abraçado ao amor de uma vida. A fotografia
com Peter Orlovsky gerou polémica, sobretudo quando o autor de Howl pretendeu torná-la
capa de livro.
Não
tanta, porém, quanto a polémica gerada pelas imagens póstumas de Simone de
Beauvoir em ambiente doméstico e íntimo. O traseiro surpreendente de Simone perturbou
os mais fervorosos racionalistas, não sendo de todo descartável a hipótese de certos
zeladores da alvura divina terem lançado a compostura às couves enquanto redescobriam
o onanismo pelos olhos. As feministas não gostaram, talvez devessem mandar currículos
para o Blogger.
Por cá, o feminismo esboça outros semblantes. Justiça lhe
seja feita, Clara Pinto Correia não foi de modas nem de costas. Deixou-se fotografar
no momento do orgasmo - entre outros -, provocando efeitos contraditórios.
Confesso que não sendo especialmente sensível à estética Poltergeist, a ideia
de me ver espelhado no instante da ejaculação desgrenha-me. Há um mérito
qualquer neste trabalho que ainda não consegui descobrir, mas dou de barato
a ignorância. O close-up não favorece a personagem.
Mais discreto, salvo seja, o bardo valter hugo mãe não
enjeitou o ridículo ao fazer-se capa. Felizmente, não está a descabelar o
palhaço nem a atingir o ponto alto na tensão do drama. Infelizmente, a
fotografia é toda uma encenação infeliz de coisa nenhuma. Papel de parede estragado,
tectos húmidos, as divisões de uma casa abandonada, uma porta ou algo parecido
fora do lugar, e um homem nu a coçar as costas com óculos pendurados nas
orelhas. É escusado perguntarmo-nos sobre o que faz ali porque não faz nada, ao
contrário do que sucede nas imagens arriba: o primeiro pesca, os segundos
abraçam-se, a terceira arranja-se, a quarta vem-se, este posa para a fotografia.
P.S.: bem sei que não é um tríptico. As minhas desculpas
pelo entusiasmo.
SÓ A VERGONHA SE DEMITE NESTE ANTRO DE PULHAS
Quando conjugadas, certas notícias exacerbam a
pornografia do mundo em que vivemos. De regresso a casa, com o auto-rádio sintonizado
na Antena 1, escuto a excelente crónica de Joaquim Vieira sobre as dívidas do
Primeiro-ministro à Segurança Social. Quem disponibiliza essa crónica? Seria
óptimo, tão perfeita me pareceu a síntese. Chego a casa e dão-me conta
disto: fisco penhora alimentos doados para ajudar carenciados do Porto. Sem entender
o sentido de tais notícias num país que é o meu, faço pausa para levar o cão à
rua, vazar o lixo, fumar um cigarro. E penso como podiam ser límpidos os fins de
tarde se fôssemos todos ignorantes.
Quando o Primeiro-ministro andou a faltar
às suas obrigações, eu armei-me em esperto e mantive-me informado. Se tivesse
sido ignorante talvez fosse mais feliz. Mas não, quis cumprir, informei-me, fui
parvo. Os ignorantes são sempre os mais espertos, até chegam a Primeiro-ministro
com currículos medíocres. Não precisam sequer de trabalhar, basta-lhes fazer o
frete das juventudes partidárias onde se aprende a dizer com convicção sou um cidadãos honesto. Não obstante, por mais que o digam jamais será por dizê-lo
que estas almas se tornarão, de facto, honestas. E Passos há muito demonstrou que o não é.
Viveu de ajudas de custo quando outros – eu, por exemplo – tiveram que fazer
pela vida para suportar os custos de não terem ajudas. Pior que eu, que sempre
pude contar com uma família estável e unida, gente só e completamente
desamparada, uns mais sérios, outros menos, uns mais exigentes, outros nem por
isso, uns mais cumpridores, outros nem tanto, uns mais informados, outros mais
ignorantes. Todos a fazer pela vida sem ajudas de custo.
Comecei a
trabalhar e a descontar em 1997. Entre 2000 e 2008, tive que me desenrascar no
labiríntico mundo das cadernetas de recibos. Quando o primeiro-ministro do meu
país não pagava, aguardando que o Estado o incomodasse ou esperando talvez que
o tempo liquidasse as dívidas, eu fui parvo, fui néscio, fui totó, fui imbecil.
Ou seja, informei-me. E paguei, paguei sempre. Sei quanto me custou pagar. Era
dinheirinho que me fazia falta, sobretudo quando chegavam aquelas alturas
dos subsídios de férias e de Natal, ou coisa que o valha, e eu não via nada
porque os recibos verdes não davam nem dão direito a nada. Às vezes esquecia-me de
pagar, atrasava-me. Uma vez por um dia. Logo me recriminava, sobretudo quando chegavam
as cartas para pagar multas e juros de mora porque me tinha atrasado... nem que fosse um só dia.
Que estupidez a minha. Se eu
soubesse que podia pensar que era facultativo e esperar que prescrevesse. Mas
que porra, a mim os directores gerais disto e daquilo sempre ameaçaram com
penhoras. Eu, trabalhador independente a cumprir horários num colégio privado e
em centros de formação profissional. Por vezes deslocava-me à Segurança Social
para pagar, depois passei a fazê-lo por MB (quando dentro do prazo). Recordo-me
que a determinada altura o montante que descontava aumentou exponencialmente. O
Primeiro-ministro não se deve recordar, pois ele não pagava. Ele estava
convencido de que era tudo facultativo.
Só quando chegou ao governo ocorreu à aventesma que era preciso pagar, lembrou-se com tal clareza que pôs todos a pagar taxas e sobretaxas e mais isto e aquilo e
aqueloutro, por ser dever nacional contribuir para que ele passe por bom aluno
no colégio alemão. Não satisfeito, aumentou impostos, usurpou direitos. Vivíamos acima das nossas possibilidades, embora, ao contrário dele, sempre tivéssemos pago as nossas dívidas. Pedro Passos Coelho é o nome deste patego que nos governa.
Não se esqueçam do nome nem do rosto, ele há-de ser estudado nas escolas
se o Crato continuar no ministério da tutela. Tais são as vantagens de se ser
ignorante no mundo idealizado por estes pulhas.
quarta-feira, 4 de março de 2015
VOO RASANTE: RUI COSTA
DIÁLOGO
Não acredites: as pessoas que te falam em diálogo
querem o teu mal. Dizem que a compreensão deve
ser "cultivada" - e esperam bem sentados que te estateles ao comprido
na frente de uma esplanadazinha com vista para o tédio.
(Afasta de ti esse cálice!)
Eles querem o teu sangue mas depois não sabem o que fazer com ele,
não fazem nada com ele,
não o bebem, não o vendem, não o poluem com o teu
olhar desvairado ante o corpo aberto dela, do seu nexo tão
carente de ti.
Que a planta tem que ser regada para crescer, ah por favor -
não compres asas novas para a eterna toupeira.
A coisa verde estende as mãos para alcançar a água -
e depois cresce para o sol, incha,
porque ela usa-o e é usada por ele, e usar e ser usado é que é
o meu desejo cheio, a amizade toda e - foi assim connosco mas já não é -
a essência do amor (essa magra celulite que tu deves alcançar pelo diálogo
na demonstração diária do respeito mútuo e sabiamente partilhado!)
Ainda pensas que te darei uma definição do amor? Dou-te apenas o que não pode ser aceite:
o meu ser luminoso e irascível
- e nenhum deus invoco ou minimizo.
Faz o que quiseres, ou o que puderes, com o que eu te dou.
É para isso, é por isso que (o café está bom)
(e) eu gosto de ti.
Rui Costa
in Voo Rasante - Antologia de Poesia Contemporânea, coordenação de Helena Vieira, Mariposa Azual, Lisboa, Fevereiro de 2015, p. 162.
#57
Tenho para mim que as melhores homenagens são quase sempre
involuntárias. Dou um exemplo. Possuo dois álbuns de homenagem a Serge
Gainsbourg com versões pelos mais conceituados nomes da chamada música
alternativa, para não falar do extraordinário Intoxicated Man (1995) de Mick
Harvey (revestimento anglófono para as canções do compositor francês). Ainda
assim, The Facts of Life (2001), dos Black Box Recorder, é, sem o pretender, uma
das melhores formas de homenagear o espírito de Gainsbourg. Este trio londrino,
composto por dois músicos conhecidos pelo trabalho desenvolvido nos The Auteurs
e nos The Jesus and Mary Chain, acompanhados por uma vocalista que mais do que
cantar sussurra-nos ao ouvido quadros domésticos sob luxuriantes melodias, não
necessitava sequer de um tema intitulado French Rock’n’Roll para evocar a
inspiração do autor de Initials B.B. Logo ao primeiro tema, The Art of Driving,
a histórica colaboração de Gainsbourg com Jane Birkin é uma sombra indisfarçável
sob a qual se desloca a metáfora instrutória. A arte de conduzir é aqui a busca
de um equilíbrio entre o par que dança o erotismo cínico encenado por David Cronenberg no filme Crash (1996). Maquilhadas por melopeias elegantes, as letras destes
temas são como carros de guerra a atravessar a costa da Normandia. Estranho
e belo, ironia das ironias:
VOO RASANTE
Voo Rasante - Antologia de Poesia Contemporânea
Coordenação de Helena Vieira
Mariposa Azual
Lisboa, Fevereiro de 2015
Livraria, O Desprezo de Irene, pp. 53-56.
terça-feira, 3 de março de 2015
TRÍPTICOS DA NUDEZ #5
Ao contrário do que possa supor-se, a nudez como forma de
protesto tem origens ancestrais. Não foram as brasas do FEMEN que lhe deram
consistência sociopolítica. Na imagem ao alto, por exemplo, dispensaram-se
slogans sobre as estrias, punhos ao alto, berreiro de megafone erguido. Também
não consta que os intervenientes tenham frequentado ginásios ou praticado dietas
light. É tudo simples e natural como as criaturas de Deus devem ser (digo eu). Olhamos para estes
Filhos da Liberdade e perguntamo-nos se não deviam ser assim todos os
protestos, se não seria muito mais autêntico ser-se Charlie de pirilau ao leu
do que envergando as fardas da hipocrisia oficial. Olhem para uns e para outros
e digam-me a quem confiariam os filhos:
Pois bem, por causa de alguns como estes sofreram outros
como aqueles. A história conta-se em trinta e seis imperdíveis minutos aqui,
mas também pode ser resumida em meia dúzia de linhas. Aqueles dois homens e
aquelas duas mulheres em pelota eram doukhobors, uma espécie de seita
religiosa, embora prefira chamar-lhes comunidade espiritual, com origem na
Rússia czarista. Na página da Wikipédia faz-se remontar as suas origens ao séc.
XVI, embora pouco exista de consistente quanto a isso. Certa é a filiação
cristã, a oposição a toda a iconografia mais ou menos ortodoxa, a rejeição de
qualquer intromissão estatal na sua forma de vida. São, por assim dizer, anarquistas
de inspiração cristã. Ou seja, são uns bacanos.
No final do séc. XIX, início do séc. XX, terão começado a
abandonar a Rússia na direcção do Canadá. Resistindo a todas as formas de
assimilação cultural, estabeleceram-se como uma espécie de aberração social.
Por outro lado, são o que de mais humano faz sentido entre a natureza selvagem.
Por não querem as suas crianças “institucionalizadas” pelo ensino
oficial, sofreram a hostilidade do governo canadiano mormente a partir da década
de 1950. Conflitos sociais emergiram, desintegrando a comunidade em facções
distintas. Ainda assim, o ritual da nudez conservou-se em todas elas quer como
celebração da união do homem, enquanto criatura divina, com a natureza, quer
como forma de protesto. Agrada-me especialmente a imagem seguinte, ritual de renovação que consiste em queimar os esforços do passado como quem sacrifica a saturação. Quem aprecie astrologia compreenderá o quão "escorpiónica" é tal imagem:
segunda-feira, 2 de março de 2015
ADEUS
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade (n. 1923 - m. 2005), in Os Amantes Sem Dinheiro (1950). «Na linha dos homens da geração castelhana de 27, particularmente de Cernuda, cujo transbordamento metafórico diligentemente evitou; fugido aos maneirismos vanguardistas que atingiram os escritores portugueses europeus do nosso pós-guerra; empenhado numa densidade ideológica nunca imediata e, por isso, mais vasta do que essa com que dos neo-realistas, salvo Soeiro Pereira Gomes, quiseram impor-nos por espelho a anti-ordem de Santa Comba antes de se tornarem rentáveis mercenários do ideológico - Eugénio de Andrade confirma a nossa poesia nesse espaço absurdo de se ruma das de alto significado do mundo contemporâneo e por ele quase completamente desconhecido. (...) A sua poesia foi excessivamente referida como solar. A ênfase das leituras que tentaram abordá-la na qualidade despojada (e contudo artificiosa) da sua linguagem levou a insistir-se no seu desejo de luminosidade como conseguimento de plenitude. Esqueceu-se, desse modo, quanto essa claridade era, por vezes, mais desejo que conseguimento. Quanto a plenitude do corpo era aí cantada como desafio à real repressão sobre o corpo. Quanto a luz era um ofício de busca no centro de uma labiríntica realidade de trevas. O equilíbrio irrompe como demanda, a plenitude cresce como peregrinação vinda dos abismos, o azul dos seus versos é da mesma cor do cianeto (a cor mais terrível do azul)» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos).
TRÍPTICOS DA NUDEZ #4
Maria, não te queixes. Aí tens não um, mas cinco esculturais
nus masculinos. É verdade que o plano traseiro e as bolinhas no ar indiciam a
pior das suspeições, mas desengana-te: não estamos no domínio exclusivo da homogamia.
A representação da nudez na sétima arte conheceu um dos
momentos mais altos no Kultur-Film alemão Wege zu Kraft und Schönheit/Caminho
da Força e da Beleza (1925) – ou simplesmente Força e Beleza -, objecto de
exaltação cultural que contou com Leni Riefenstahl no elenco. Pode ser visto aqui. Sadoul referiu-se-lhe
como «filme de grandes meios, dedicado ao louvor da cultura física e do
nudismo, com encenação a imitar o estilo antigo». Raramente o mudo terá sido tão
grandiloquente, com seus ginastas de músculo harmonizado pela perspectiva da lente:
O culto do corpo conhecerá nesta obra uma obsessão mais que
estética, política. Num certo sentido, ele é a estética elevada à política. Se
o romantismo havia reivindicado a cristandade, mormente pela voz de Novalis, a
República de Weimar ansiou pela helenização de uma pátria onde corpo e natureza
se equilibrassem sobre o fio das sombras. Os alemães surgem aqui representados
em poses hercúleas e posturas heróicas. Bem sabemos que tal desejo e ambição
encalhou nas pretensões de um minorca austríaco com bigode ridículo, sobrando-nos
agora uma chanceler sensaborona que nem o colorido dos decotes generosos
consegue salvar:
É a História, minha amiga. Sempre a cair....
DÚVIDA
Por que é que as minhas dívidas nunca prescrevem? Por que é que a cartinha chega sempre com a respectiva multa mais juros de mora?
INDUBITAVELMENTE COELHO
Recupero este post, com imagem ao alto, depois de escutar Paulo Rangel, o da asfixia democrática, a lamentar a falta de credibilidade do discurso de António Costa (que, diga-se de passagem, não afirmou que Portugal estava melhor, mas sim diferente).
Primeiro não havia alternativa, depois ficámos a saber
que andávamos a viver acima das nossas possibilidades, agora estamos melhor do
que estávamos em 2011. Que seria de nós sem as criaturas que fixam a realidade?
Publicam nos jornais, peroram nas televisões, opinam nas rádios, passam a vida
a ler-se uns aos outros e a comentarem dívidas soberanas, défices e orçamentos
como se tivessem lido, estudado, investigado, perscrutado todos os relatórios
sobre o estado da nação (da nossa e, por vezes, dos outros), todos os estudos e todas as estatísticas,
todas as análises. São tão industriosas, essas criaturas, são tão conhecedoras
e sábias que se torna frustrante ouvi-las e vê-las nas televisões, nos
jornais, nas rádios. Deviam estar nos ministérios, deviam estar nas
administrações das empresas, deviam estar onde se decide. Talvez não estejam
porque aí lhes faltaria tempo para ler, estudar, investigar, perscrutar,
analisar. Teriam que decidir. E decidir implica consequências sobre vidas
terceiras. Muitas dessas que os escutam opinar, perorar, troçar e ficam sem
compreender por que não há alternativa, por que andámos a viver acima das
nossas possibilidades ou por que estamos melhor do que estávamos em 2011. Justificam-se
com dados e números, estatísticas e relatórios, nada que reduza as filas no
IEFP, nada que conforte o desempregado ou console o precário. Número de
portugueses com salário mínimo triplica desde início da crise, diz o título da
notícia. Para os números, para os relatórios, talvez se trate de uma boa
notícia, uma notícia que permitirá ao político profissional afirmar que os portugueses
podem não estar melhor, mas o país está. E o Zeinal Bava também. Quem ouça e opine encontrará a lógica
e a razão de tais conclusões onde lhe aprouver. Não a encontrará no
prato vazio do indigente, nas depressões e nos suicídios que as medidas de
austeridade fomentaram, não a encontrará, por certo, nas malas de cartão dos
portugueses que abandonaram Portugal desde 2011 deixando-nos nas mãos um país
onde são mais os que partem do que os que nascem, não a encontrará nas contas bancárias de uma classe trabalhadora mal paga e asfixiada com taxas e impostos. O país está melhor, os
portugueses é que não. Estão, na generalidade, mais tristes, mais magros, mais pobres, mais desprotegidos, mais desamparados, menos saudáveis, menos cultos, menos felizes.
Mas o país há-de estar melhor, talvez o país dos néscios, dos sonsos e dos ignorantes (entre os quais se encontra o primeiro-Ministro Coelho). Porque as pessoas estão como as cidades onde residem, com os seus centros históricos desleixados, repletos de
espaços comerciais encerrados, enquanto ao largo as catedrais do
consumo a que chamam eufemisticamente shoppings vão contribuindo para as estatísticas: número de portugueses com salário mínimo triplica desde início da
crise. Tudo isto se dá e acontece debaixo do nariz de quem perora, quase
invariavelmente sem fundamentos racionais, tão-somente levado por paixões
particulares e clubismo político. Estamos melhor do que em 2011? Claro que
estamos, basta olhar para o recibo de vencimentos com as suas sobretaxas e taxas e descontos. Mais vendidos, mais frouxos, mais entretidos com as audições do BES.
Perguntem ao Zeinal Bava se não estamos melhor. Com sorte ele dirá qualquer
coisa.
P.S.: dito de outra forma, pelo Tiago Mota Saraiva: aqui.
domingo, 1 de março de 2015
DÉCIMA OITAVA CASA
Ser feliz é uma responsabilidade social, como bem o sabem
todas as pessoas que mantêm padrões mínimos de generosidade. Noutros tempos
também eu me revoltei contra os cânones instituídos e declarei-me livre do
espartilho da felicidade como meta obrigatória e padrão mínimo de inferência de
uma normalidade pacificadora. Mas depois compreendi que o direito à
infelicidade é conquista que não justifica a convocatória de um exército.
Apresentei-me nas fileiras do escrutínio das almas com uma bandeira branca e optei
por ser feliz apenas para que me deixassem em paz.
Aqui.
RIVER OF NO RETURN (1954)
O advento da televisão forçou o cinema a transformar-se,
tal como a fotografia já o tinha feito à pintura. A diferença está em que o
cinema, enquanto arte, contava uma história muito mais curta. As décadas de
1940 e 1950 foram fulcrais, nomeadamente em países onde a indústria
cinematográfica estava estabelecida com uma pujança incomparável. A caça às
bruxas na Hollywood do pós-guerra condicionou, igualmente, as formas de
produção e o tipo de filmes que se faziam. Os vermelhos mereciam o mesmo
tratamento que durante décadas fora dado aos indígenas, era preciso estereotipá-los,
fazer deles assassinos, terroristas, papões. Géneros populares como o western
ganharam imenso com esta politização da sétima arte, podendo desenvolver-se
numa direcção menos superficial do que o mero entretenimento das massas exigia.
Não admira, portanto, que filmes como High Noon (1952), de Fred Zinnemann, Shane
(1953), o melhor de George Stevens, Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray, Apache
(1954), de Robert Aldrich, ou variadíssimas incursões de Anthony Mann — The Furies
(1950), The Far Country (1954), The Tin Star (1957) —, tenham ficado para a
história do cinema universal como exemplos superiores de uma época dourada.
Outro realizador que se deu lindamente no género, com um único filme, foi o
austríaco Otto Preminger (n. 1905 – m. 1986), exilado nos Estados Unidos da
América desde 1935. River of No Return/Rio Sem Regresso (1954) não é apenas “um
inteligente e bem sucedido «western»”, como referiu o crítico e historiador
Georges Sadoul, particularmente hostil à máquina hollywoodesca (repare-se,
porém, na exaltação das inovações técnicas aludidas no trailer). É, antes de
mais, uma monumental recriação da metáfora bíblica do rio redentor, o rio de
Ezequiel onde os homens se lavam dos pecados e matam a sede. Um homem, uma
mulher e uma criança experimentarão as águas deste rio agitado que atravessa o
paraíso fotografado por Eadweard Muybridge, «incrível colecção de cataratas,
rochedos, desfiladeiros, lagos, vales, precipícios e montanhas, o Éden inóspito
da América» (Pedro Mexia). Ele chama-se Matt (Robert Mitchum), procura o filho após
uma temporada na prisão. Foi condenado pelo assassínio de um homem pelas
costas. O filho, que desconhece o passado do pai, é Mark (pequeno Tommy Rettig, celebrizado pela série televisiva
Lassie). Matt e Mark, tal como nos evangelhos. Não é por força da interpretação
que a temática religiosa aparece aqui referida. Várias cenas nos indicam este
caminho. Na realidade, é o pai Matt que explica ao filho Mark a origem do seu
nome. Tal como nos evangelhos. O primeiro plano do filme é de um
homem a derrubar uma árvore à machadada. Podemos supor tratar-se da árvore do
conhecimento no paraíso perdido onde as almas se desencontraram. Logo de
seguida, esse mesmo homem chega a um acampamento de garimpo e cruza-se com um
padre. Apanha do chão um exemplar da Bíblia que o padre deixara cair ao saltar
do seu cavalo. O padre refere-se ao acampamento como Sodoma e Gomorra,
sentenciando que, apesar de ter ali vindo parar como missionário junto dos
indígenas, o homem branco iria necessitar muito mais da sua missão
evangelizadora. E quase logo de seguida damos com Eva, de vestido vermelho, a
cantar One Silver Dollar no saloon improvisado. Não exactamente Eva, mas Kay. Divina
Marilyn Monroe, de viola apoiada sobre a coxa cintilante. Um tratado acerca do
erotismo podia ser escrito tendo por exemplo apenas os planos que Preminger
oferece a Marilyn Monroe. Marilyn a mudar de roupa, Marilyn com duas rachas
enormes num vestido verde, flectindo as pernas enquanto dança agarrada a um
varão, rodeada de garimpeiros siderados, Marilyn a descer um rio completamente
encharcada, a resistir à investida de Robert Mitchum, a ser massajada, Marilyn
maternal, sedutora, frágil e sonhadora, apaixonada. O encontro entre estes
dois, com o pequeno Mark pelo meio, após a descida acidentada do rio e do
confronto com as suas margens sobressaltadas — índios em fúria, uma pantera
esfomeada e dois garimpeiros desesperados são alguns dos desafios —,
é das coisas mais bonitas que alguma vez se filmaram. A cenas tantas, Kay pede
desculpa a Matt. Magoaste-me e eu quis magoar-te, confessa. Matt responde-lhe:
bem, normalmente é assim que funciona. Responde-lhe com esta simplicidade enquanto
lhe massaja as pernas regeladas. Pára e ficam ambos a olhar um para o outro,
nós olhamos para os dois e percebemos a situação: normalmente é assim que
funciona. Olho por olho, dente por dente. Normalmente é assim, mas não tem que
ser. E o rio sem regresso é esse lugar onde podemos limpar-nos do passado e
seguir, como queria o poeta, sem destino traçado.
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