sexta-feira, 13 de março de 2015

ASFIXIA DEMOCRÁTICA

Olho para o recibo de remunerações de Fevereiro. Com um vencimento base de 692,41€, o total dos descontos legais é de 238,64€. Mais 10€ cuja legalidade se chama sobretaxa em sede do IRS. A T.S.U. leva-me 115,64€, o I.R.S. 123€. Como se não bastasse, o estado vai buscar mais dinheiro por todas as vias que encontra. Os municípios são uma delas. Acabei de ser notificado para o pagamento do Imposto Municipal Sobre Imóveis. 167,40€, a pagar em Abril por um apartamento de que sou proprietário. Julgava eu que já o tinha pago na totalidade quando o estado começou a cobrar-me renda por aquilo que é meu. Ontem foi o Imposto Único de Circulação a levar-me 17,81€. Na realidade levou-me mais. Atrasos no pagamento do imposto referente a 2014 foram acrescidos de uma multa de 50€ mais 38,25€ de custas que só mesmo o fisco percebe. Ou seja, ficou-me o IUC em 103,06€. Assim vai a vida do contribuinte num país asfixiado democraticamente.

LISTAS NEGRAS DO MAIS NEGRO QUE PODE HAVER

Não canso de me espantar com os inúmeros crimes de violência doméstica ocorridos no Portugal moderno de Cavaco & Cª. Aparentemente, a geração mais bem formada de sempre no país não conseguiu aprender e interiorizar uma lei natural tão básica como esta: não se bate nos mais fracos. Homem que é homem, atira sobre os mais fortes. Mulher que é mulher, segue o exemplo. E quando me refiro a fortes não estou a pensar em cães como o desafortunado mas já celebérrimo Simba. Se a intenção é descarregar raiva e ódio e frustrações, podem sempre atirar a matar sobre outros alvos. O trabalho está facilitado, comecem pelas lista vip e lista da Swissleaks.

quinta-feira, 12 de março de 2015

AINDA DISPONÍVEL

 
Informações aqui. Para encomendar, mais fácil é impossível: aqui.

quarta-feira, 11 de março de 2015

UM POEMA DE JOHN BERRYMAN

 
A vida, amigos, é um tédio. Não devemos dizer isso.
Afinal, o céu faísca, o grande mar anseia,
nós próprios faiscamos e ansiamos,
e ainda por cima em pequeno a minha mãe dizia-me
(repetidamente) «Confessares-te entediado
significa que não tens
 
Recursos próprios.» Concluo agora não ter
recursos próprios, pois sinto um tédio de morte.
As pessoas entediam-me,
a literatura entedia-me, especialmente a grande literatura,
o Henry entedia-me, com as suas queixas & os seus tendões
tão anquilosados como os de Aquiles,
 
o qual ama as pessoas e a arte valorosa, o que me entedia.
E as plácidas colinas, & o gin dão-me seca
e de alguma forma um cão
levou-se a si & à sua cauda para bem longe
para as montanhas ou o mar ou o céu, deixando-
-me a menear.
 
John Berryman, in 77 Oníricas, tradução e prefácio de Daniel Jonas, Tinta-da-China, Dezembro de 2014, p. 39. The Poetry of John Berryman: aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui. Isto hoje seria impossível. A terceira e a quinta partes são especialmente interessantes.

MULHER ÁRVORE

 
O quintal da casa dos meus pais é acolhedor. Tem um limoeiro carregado de limões com aromas inebriantes, tem uma laranjeira proveitosa com laranjas tão doces e suculentas que parecem impossíveis. Passei por lá há dias e enchi um saco com limões e laranjas, sentei-me a olhar para as roseiras brancas, para as hortênsias, para a magnólia. E enquanto refrescava o corpo com a acidez da limonada, sentei-me a contemplar a vida que floresce na Rua de Santa Bárbara. Num bairro outrora de mineiros, onde o sol nasce para todos ainda que nem todos colham nele o mesmo proveito.
 
 
Agradeço cada um dos teus ramos e cada folha que neles desabrocha e resiste. Por ti o vento passe com leveza, que à tua sombra descansem os filhos desprotegidos. E que neles possas encontrar alento. Se o teu fruto é a morte, de tal morte vidas brotem. Esperança é palavra vã neste quintal onde rego o corpo com limonadas, onde me sento a observar o espertar da Primavera. Do meu testemunho nenhum pólen chegará ao quintal onde te encontras, mas não sou indiferente à tua passagem. Também de existires o langor dos meus braços se envergonha.
 
 
Mas olho a planta desgrenhada de branco contra o fundo de um céu limpo e luminoso, sobre ela cabos eléctricos traçam a página com absoluta inoperância. Os carros estacionados são obsoletos, o gradeamento é uma afronta indesculpável. Plantas destas deviam crescer no deserto, não é juso que medrem rodeadas de invejas mesquinhas. Deviam inspirar o mundo para que na alvura das suas folhas pudessem os homens vislumbrar dias límpidos. Na sombra delas ninguém descansa, a não ser os olhos estupidamente melancólicos do que em cada um de nós há de poesia.  
 
 
 
Esta planta é uma mulher, os seus poemas são escritos com sangue nos camuflados inconfortáveis. Erguem-se bandeiras sobre a ruína, mais um centímetro de terra estéril conquistada para que nela possam talvez ser plantadas outras guerras. O que distingue aquele verde simbólico, pano esvoaçante, da cabeleira branca que perece no quintal dos meus pais? Tudo é efémero, tudo é transitório. E no trânsito em que tudo se move as estações demarcam a rotina. Tanto a mulher como a árvore lutam pelos seus frutos, tanto uma como outra cumprem o seu destino no regaço das estações. Liberdade e sobrevivência não cabem em tão débeis cogitações. Palavras que só de pronunciá-las devíamos sentir vergonha.
 

terça-feira, 10 de março de 2015

PÚSIAS

Faz agora 100 anos que Virginia e Leonard Woolf tiveram a feliz ideia de fundar uma editora. Em Fevereiro de 1915 informaram-se sobre o custo e funcionamento das prensas, a 23 de Março de 1917 descobriram na Farrington Street uma pequena prensa manual, com todos os acessórios, ao preço de 20 libras. Assim nasceu, na sala de estar do famoso casal, a Hogarth Press. A primeira obra foi uma brochura com um conto de Leonard Woolf e outro de Virginia Woolf, «impressa num papel de tela colorido com quatro gravuras em madeira de Dora Carrington». A publicação destes opúsculos estava valorizada pelas horas dispendidas na composição, na impressão, na encadernação, no tratamento do papel. O relativo sucesso do “negócio” permitiu-lhes investir numa prensa mais sofisticada, a conhecida Minerva. Em 1927 editaram quarenta publicações. Werner Waldmann relata o crescimento nestes termos: «Quanto mais profissional se ia tornando o negócio, menos os dois editores podiam dedicar-se a todos os detalhes, sobretudo aos artesanais. Mas até 1932 sacrificaram ambos muito tempo com actividades triviais. Estas abrangiam desde a composição, ao prelo, encadernação e mesmo administração: tinham que empacotar e despachar, tratar da correspondência e fazer contas. Também não se escusavam a limpar a tinta dos cilindros da máquina ou a organizar, de vez em quando, o caótico armazém». E acrescenta: «fazer nascer a língua, manualmente, letra a letra, atraía, por exemplo, cada vez mais Virginia». Sublinhemos as horas sacrificadas, roubadas à escrita dos próprios livros e a actividades porventura mais lúdicas, sublinhemos a paixão do labor artesanal que permitia fazer nascer a língua como quem se dedica a um parto. Não brincavam em serviço. Publicaram traduções de autores russos, descobriram T. S. Eliot. Katherine Mansfield, Rilke e Italo Svevo, Gertrude Stein e H. G. Wells, entre tantos outros, constavam no catálogo. Nem terem recusado Sartre, Joyce, Auden ou Saul Bellow lhes manchou o currículo. Essas obras têm hoje um valor inestimável, o qual não se esgota nos autores publicados. Ele reside, sobretudo, na forma como os livros eram feitos. Ora, num tempo em que o livro se tornou objecto de massas e as editoras se desenvolvem quase exclusivamente na base de critérios comerciais, num tempo em que a produção massificada da obra lhe extrai uma certa exclusividade, sepultando-a na vala comum da banalidade, as Edições 50kg de Rui Azevedo Ribeiro são um gesto de resistência, quiçá romântico, que não deve passar despercebido. A recente publicação de Púsias (Fevereiro de 2015), colecção de poemas saídos da pena de Vítor Silva Tavares, torna ainda mais fascinante tal actividade, na medida em que nos coloca perante um objecto declaradamente raro. Na realidade, este folheto dado agora à estampa tem o duplo mérito de insistir no livro também enquanto objecto de colecção e homenagear (em vida) um dos mais marcantes editores que Portugal jamais conheceu. Quem esteja familiarizado com o trabalho editorial de Vítor Silva Tavares nas edições &etc (ou no &etc), não se espantará com a verve do trovador. Não é a primeira vez que o editor se deixa publicar enquanto autor, sendo porém de notar que em muitos textos de badana ou breves apresentações distribuídas por publicações diversas a qualidade da escrita foi sempre deixando o rabo de fora. A belíssima capa de Luís Henriques anuncia o tom jocoso que atravessa estas Púsias. Sarcástico quanto baste, sátiro devedor dos altos signatários da colecção contramargem (de Guerra Junqueiro a António Lobo de Carvalho, de Luciano de Samósata a Camillo Castello Branco, de Charles Fourier a Blaise Cendrars), Silva Tavares restaura e preserva uma herança pícara trespassada por inquietações modernistas com rima tão cáustica quão espirituosa:

Adeus pátria mal amada,
parto pra dentro de mim.
Tu pátria não dás por nada
e eu assim como assim

ainda caibo — e confio
não ficar pior a sós.
Quanto aos egrégios avós
vão  prá puta que os pariu

já agora acompanhados
dos seus netos do futuro.
Cá por mim, pelo seguro,
sequer feitos ilustrados

para semente. Chega
de imposto sucessório:
tu pátria não queres casório
e eu dou-te em troca uma nega.

De candeias às avessas,
cada macaco em seu galho,
ó pátria nem peço meças,
vamos ambos pró galheiro.

Para que algo fique de pé
nesta triste conjuntura
sai esta rima quinté
merece moldura.


Um certo revivalismo dá cor a este extraordinário volume a preto e branco, cores matriciais de uma pátria embalada no berço da nostalgia. Suspende-se o tempo sem preocupações com o futuro que a des-ilusão do passado recusa alimentar. A dúvida que sempre persiste é: pode a desistência ser um acto de resistência? Falamos de púsias, não de poesias. Falamos de um Pessoa que mais do que crachá, iconografia mercantilizada de um país ignorante dos seus poetas, apanha beatas do chão. Ainda sobre a Hogarth Press, sabemos que se transformou numa «das mais renomadas editoras do cenário literário britânico, famosa pelo seu interesse vanguardista, pelas obras líricas, a sua coragem em publicar autores desconhecidos». Enfim, foi em Inglaterra. Foi noutros tempos. Por cá vamos indo.

segunda-feira, 9 de março de 2015

PEQUENA EXPLICAÇÃO ABSOLUTAMENTE


Eu que
apareci acidentalmente vivo
odorizado de flores a uma certa distância
não me importo.
Sei quanto é doloroso
que exista um sol que nasce e morre;
aquela dúvida, às vezes um pouco ridícula,
que surge numa minúscula nuvem
(daquelas nuvens que vieram de motu próprio)
e que fazem saber
que o sol talvez não nasce
talvez não morre
que a única atitude
a única perfeitamente aceitável
sim, isso mesmo é que é certo,
nem vem que me importe
muito a propósito.

Uma espécie de pessoas, um grupo,
(inexactamente um grupo)
de gente não malograda
corre, um tanto desesperadamente,
em busca da planta, a tal.
Tudo pode ser
uma alma emprestada.

Nas varandas vêem-se (por vezes)
os inúteis vasos - aí está qualquer coisa!
Toda a humanidade - que me não importa
(pelo menos muito)
está um poço assim
familiar tão infelizmente,
- algo na varanda é a seteira.

Imensos
etcéteras sobre mundo, alguns vasos,
o aristocrático grupo (inexactamente) sem tempo
nem sequer vamos redimir
mas além dos muros sem porta
aí estão as pombas
(tenho-as no bolso).

Infinitos etcéteras, bom dia,
por aqui tudo bem, nada de novo,
Dezembro, mil novecentos
e cinquenta e sete. Lisboa, Manuel
de todo o coração. 

Manuel de Castro (n. 1934 - m. 1971), in Paralelo W (1958). «A sua poesia é enigmática, hermética, domina-nos primeiro pela intensidade que desarma, como um sismo que nos abala. Visceralmente, como o abraço apertado de um polvo, agasta-nos pela energia, pela violência e pela velocidade com que se desdobram, proliferam e transmigram os campos semânticos, pela revolta que encerra, a veemência, a imagética delirante que multiplica traços de união entre termos que à partida viviam isolados, assim inventando sensações-conceito (...). É uma poesia que transgride regras de pontuação. O significado molda plasticamente o significante, devém corpo de letra. Muitos verbos são indevidamente pronominalizados, tornados reflexos. Não esqueçamos que Manuel de Castro tem um profundo conhecimento da prosódia, que não cessa de manobrar» (Maria da Conceição Caleiro, Ípsilon, 4 de Abril de 2014).

ACEITAR?

Henrique Fialho deseja segui-lo.

domingo, 8 de março de 2015

CHEIRA A CAMPANHA ELEITORAL

 
Cheira a Cavaco. Cheira mal.
 
Podia fazer tudo menos o que fez. Podia manter-se calado, o que sabe fazer melhor. Podia dizer: não comento, vou ali beber uma cervejinha. Podia falar das vacas e comer bolo-rei, podia exilar-se nas Selvagens. Mas este homem não desiste de ser a maior tristeza do Portugal pós-25 de Abril. Mais uma vez, varreu para debaixo do tapete. Ele próprio há muito vem fazendo campanha eleitoral, ele tresanda a campanha eleitoral. Se desculpabilizar o infractor não é fazer campanha por ele, então o que é? Verdade seja dita que estamos habituados. Foi assim com o BPN, é assim com o BES, foi assim com Relvas, a Tecnoforma, com a demissão irrevogável de Paulo Portas, com os submarinos, etc, etc, etc, etc. Cavaco é quem pior cheira neste país desgraçado, há muito que é assim, há muito.


sábado, 7 de março de 2015

UM POEMA DE MANUEL DE CASTRO

 
MONOGRAFIA BREVE
 
Penetro no coração lívido desta cidade
e no seu hálito compacto
cinzento, grave,
neste céu cantante e sólido
como o homem que em mim caminha,
que através de mim caminha
entre vozes de paz, de guerra e de loucura.
 
No seu hábito monástico quase triste
eis como a cidade desenrola
uma desconexa história sem mãos:
 
viverás bebendo cerveja,
aprendendo a inclinação da mente
no seu fio oscilante,
e serás surpreendido, de quando em quando,
pelo facto - no seu fio oscilante -
de viveres.
Talvez escrevas um pouco, talvez
encontres sombra na grafia
dos nervos, dos sons, das gotas de chuva
que humedecem os cabelos da terra
e desejes cortar afiada
vagarosamente
palavras
ou o auto-retrato de Philipp Otto Runge.
 
Hamburgo, Agosto 1963
 
 
Manuel de Castro, in Bonsoir, Madame, Alexandria/Língua Morta, pp. 1954-195, Dezembro de 2013.

SHENANDOAH (1965)

Os grandes temas do western correspondem aos grandes temas da história norte-americana: as aventuras e desventuras dos pioneiros, os conflitos com os índios durante os períodos de migração para o faroeste, a Guerra de Secessão, o progresso industrial e o aparecimento de cidades desenvolvidas, a emergência do crime organizado, a oposição entre o mundo rural e os centros urbanos, a febre do ouro. É neste contexto sociocultural que podemos observar a germinação de autênticos heróis, nomeadamente os chefes das nações índias, o cowboy solitários que transportava o gado por trilhos inimagináveis, os primeiros figurões da lei e do crime, militares, aventureiros, empresários sem escrúpulos. Trata-se de um período efervescente cujo interesse recai, sobretudo, sobre os modos informais de organização social e política numa nação sem cultura ou, se preferirmos, com uma cultura neófita desabrochando num confuso ventre identitário: índios, colonizadores de origem europeia, africanos, povos orientais.
Se a linha férrea aparece como símbolo por excelência do progresso, o velho cowboy transforma-se num resquício do conservadorismo. São ambos representações do tempo que nos transportam ora para o passado, ora para o futuro. O búfalo sagrado dos índios arrasta com o seu desaparecimento uma espécie de ancestralidade perdida. E, com tal perda, instala-se um vazio de sagrado que a ambição material busca preencher. Porém, durante a Guerra Civil Americana outros valores se levantaram. Para se compreender um filme como Shenandoah/O Vale da Honra (1965) todos estes elementos devem ser ponderados, sobretudo quando nos é colocado à frente um emblemático James Stewart que já tínhamos visto nos papéis, mais ou menos cruciais, de político em ascensão (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962) ou cowboy voluntarioso (The Far Country, 1954).
O realizador Andrew V. McLaglen (n. 1920 – m. 2014), que trabalhou para John Ford como assistente de realização, oferece a James Stewart um papel de maturidade. A acusação de excessiva convencionalidade é descabida, bastando para desmontá-la o facto simples de numa família com sete homens e duas mulheres só um elemento ser ágil no gatilho: a única filha de Charlie (James Stewart) numa prole de sete. Charlie é um agricultor bem-sucedido, viúvo, pai de família exemplar, orgulhoso dos filhos e da nora, zeloso dos seus e da sua propriedade. Quando a guerra lhe bate à porta, mantém-se neutro (posição tão difícil de sustentar como qualquer outra). Não tem escravos, nunca sentiu necessidade de os ter, tudo o que tem é fruto do seu trabalho, faz questão de o sublinhar, e, por isso mesmo, procura manter-se à distância numa guerra que se aproxima. Resolverá apenas intervir quando o filho mais novo é acidentalmente capturado e feito prisioneiro pelo exército do norte. Charlie partirá então com a família em busca do mais novo.
Tema recorrente nos relatos do Velho Oeste, a busca de desaparecidos, os desencontros, as separações, é filmado por McLaglen com cativante ritmo narrativo. Há momentos de suspense e pausas emocionais em doses equilibradas. Mas o que mais se eleva em Shenandoah é o valor da família, o tal outro valor que a guerra civil exaltou de forma radical. Escusado será dizer que a união familiar nunca posta em causa neste filme, apesar de ligeiras divergências entre o pai e um dos filhos, serve de contraponto à desunião da família norte-americana durante a guerra. É precisamente essa desunião a causa das tragédias, da tristeza e da maldade que a história configura. Nesse sentido, podemos dizer que a transfiguração do bem processada ao longo do filme se faz em contraposição ao mal. O final feliz é ilusório, na medida em que não pode ser isolado de uma história onde um dos filhos foi brutalmente assassinado, outro foi morto por acidente e a nora violada até à morte.
Aí temos um western intenso sem pistoleiros nem sheriffs implacáveis, sem índios selvagens nem cowboys solitários, mas com uma família simples a tentar manter-se unida e serena entre o caos que a rodeia. Sem tomar partido na guerra, Charlie é uma das suas vítimas — aquilo a que hoje os especialistas chamam dano colateral. O seu heroísmo não vem do coldre que não usa, vem de saber amar depois de ter gostado, de ter gostado muito. E de tudo fazer para preservar esse amor. Vem da sua determinação.

ATRASOS MENTAIS

o direito de alguém a sair de casa prevaleceu sobre os direitos de propriedade e a estupidez egoísta de vizinhos e da insensibilidade de um juiz de primeira instância
A história de um país simplificada aqui. O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.

sexta-feira, 6 de março de 2015

A CRÓNICA DE JOAQUIM VIEIRA NA ANTENA 1

«Portugal conheceu nos últimos dias um Pedro Passos Coelho diferente daquele a que se habituara nos últimos quatro anos. Já não é o Passos Coelho do rigor, da intransigência, dos princípios inflexíveis, da disciplina sem exceção, da execução de um programa custe o que custar, da ultrapassagem da troika, do imperioso empobrecimento da população, do abandono da zona de conforto, da exigência fiscal, da cobrança coerciva de impostos, do agravamento das multas aos prevaricadores, da perseguição aos incumpridores e aos distraídos.

Agora temos o Passos Coelho que não é perfeito, que foge à observância das suas obrigações para com o Estado, que se esqueceu de pagar ou julgou que era facultativo, que nisso foi reincidente sem contrição, que vai a correr liquidar dívidas antigas só devido à ameaça da sua divulgação pública, que acha tudo isso normal e não censurável, o Passos Coelho um pouco videirinho, sem carreira profissional digna de nota fora da política, a gerir uma empresa para receber fundos europeus pagando uma formação inexistente, a viver de expedientes para compor um orçamento confortável, que recebeu um vencimento disfarçado em despesas de representação, ao mesmo tempo que se declarava deputado exclusivo para garantir o subsídio do erário público.

Por estranho que pareça, é o mesmo Pedro Passos Coelho, dr. Jeckyll e mr. Hyde, que ora é uma coisa, ora é outra, sem que os portugueses percebam onde está a sua verdadeira personalidade. Diz-se que a política não deve ser feita com base em julgamentos morais, mas que dizer quando o maior de todos os moralistas é afinal o mesmo que anos a fio fugiu aos deveres cujo cumprimento a todos exige?

Passos Coelho fez do acatamento das obrigações fiscais um dos pilares da sua política enquanto primeiro-ministro, mas agora vem explicar aos portugueses que não há mal nenhum em não pagar ao Estado e só o fazer quando, eventualmente, se for apanhado.

De um passado obscuro, emergiu o dr. Jeckyll que parece querer matar o Mr. Hyde. Nenhum deles merece governar, porque os Portugueses não merecem um governante assim.»
 
Nota: agradecimentos ao Eduardo Pitta pela citação, indo ao encontro do que eu tinha sugerido aqui.

quinta-feira, 5 de março de 2015

TRÍPTICOS DA NUDEZ #6

A vocação literária deste espaço não podia ser indiferente à nudez dos escritores, os quais se despem segundo variadíssimos critérios. Em sentido figurado, encontramos nudez onde menos a esperaríamos. Por exemplo, nas confissões de Jean-Jacques Rousseau (que não irei citar sob pena de me julgarem presunçoso). Se a opção pela literalidade for assumida desde logo, nenhum escritor foi mais prolixo em nus do que o poeta norte-americano Allen Ginsberg. Podemos contemplá-lo em postura decalcada de Robinson Crusoe ou, porventura num estilo mais ousado, abraçado ao amor de uma vida. A fotografia com Peter Orlovsky gerou polémica, sobretudo quando o autor de Howl pretendeu torná-la capa de livro.
 
Não tanta, porém, quanto a polémica gerada pelas imagens póstumas de Simone de Beauvoir em ambiente doméstico e íntimo. O traseiro surpreendente de Simone perturbou os mais fervorosos racionalistas, não sendo de todo descartável a hipótese de certos zeladores da alvura divina terem lançado a compostura às couves enquanto redescobriam o onanismo pelos olhos. As feministas não gostaram, talvez devessem mandar currículos para o Blogger.
 
 
 
Por cá, o feminismo esboça outros semblantes. Justiça lhe seja feita, Clara Pinto Correia não foi de modas nem de costas. Deixou-se fotografar no momento do orgasmo - entre outros -, provocando efeitos contraditórios. Confesso que não sendo especialmente sensível à estética Poltergeist, a ideia de me ver espelhado no instante da ejaculação desgrenha-me. Há um mérito qualquer neste trabalho que ainda não consegui descobrir, mas dou de barato a ignorância.  O close-up não favorece a personagem.
 
Mais discreto, salvo seja, o bardo valter hugo mãe não enjeitou o ridículo ao fazer-se capa. Felizmente, não está a descabelar o palhaço nem a atingir o ponto alto na tensão do drama. Infelizmente, a fotografia é toda uma encenação infeliz de coisa nenhuma. Papel de parede estragado, tectos húmidos, as divisões de uma casa abandonada, uma porta ou algo parecido fora do lugar, e um homem nu a coçar as costas com óculos pendurados nas orelhas. É escusado perguntarmo-nos sobre o que faz ali porque não faz nada, ao contrário do que sucede nas imagens arriba: o primeiro pesca, os segundos abraçam-se, a terceira arranja-se, a quarta vem-se, este posa para a fotografia.   
 
 
P.S.: bem sei que não é um tríptico. As minhas desculpas pelo entusiasmo.


SÓ A VERGONHA SE DEMITE NESTE ANTRO DE PULHAS

Quando conjugadas, certas notícias exacerbam a pornografia do mundo em que vivemos. De regresso a casa, com o auto-rádio sintonizado na Antena 1, escuto a excelente crónica de Joaquim Vieira sobre as dívidas do Primeiro-ministro à Segurança Social. Quem disponibiliza essa crónica? Seria óptimo, tão perfeita me pareceu a síntese. Chego a casa e dão-me conta disto: fisco penhora alimentos doados para ajudar carenciados do Porto. Sem entender o sentido de tais notícias num país que é o meu, faço pausa para levar o cão à rua, vazar o lixo, fumar um cigarro. E penso como podiam ser límpidos os fins de tarde se fôssemos todos ignorantes.
Quando o Primeiro-ministro andou a faltar às suas obrigações, eu armei-me em esperto e mantive-me informado. Se tivesse sido ignorante talvez fosse mais feliz. Mas não, quis cumprir, informei-me, fui parvo. Os ignorantes são sempre os mais espertos, até chegam a Primeiro-ministro com currículos medíocres. Não precisam sequer de trabalhar, basta-lhes fazer o frete das juventudes partidárias onde se aprende a dizer com convicção sou um cidadãos honesto. Não obstante, por mais que o digam jamais será por dizê-lo que estas almas se tornarão, de facto, honestas. E Passos há muito demonstrou que o não é. Viveu de ajudas de custo quando outros – eu, por exemplo – tiveram que fazer pela vida para suportar os custos de não terem ajudas. Pior que eu, que sempre pude contar com uma família estável e unida, gente só e completamente desamparada, uns mais sérios, outros menos, uns mais exigentes, outros nem por isso, uns mais cumpridores, outros nem tanto, uns mais informados, outros mais ignorantes. Todos a fazer pela vida sem ajudas de custo.
Comecei a trabalhar e a descontar em 1997. Entre 2000 e 2008, tive que me desenrascar no labiríntico mundo das cadernetas de recibos. Quando o primeiro-ministro do meu país não pagava, aguardando que o Estado o incomodasse ou esperando talvez que o tempo liquidasse as dívidas, eu fui parvo, fui néscio, fui totó, fui imbecil. Ou seja, informei-me. E paguei, paguei sempre. Sei quanto me custou pagar. Era dinheirinho que me fazia falta, sobretudo quando chegavam aquelas alturas dos subsídios de férias e de Natal, ou coisa que o valha, e eu não via nada porque os recibos verdes não davam nem dão direito a nada. Às vezes esquecia-me de pagar, atrasava-me. Uma vez por um dia. Logo me recriminava, sobretudo quando chegavam as cartas para pagar multas e juros de mora porque me tinha atrasado... nem que fosse um só dia.
Que estupidez a minha. Se eu soubesse que podia pensar que era facultativo e esperar que prescrevesse. Mas que porra, a mim os directores gerais disto e daquilo sempre ameaçaram com penhoras. Eu, trabalhador independente a cumprir horários num colégio privado e em centros de formação profissional. Por vezes deslocava-me à Segurança Social para pagar, depois passei a fazê-lo por MB (quando dentro do prazo). Recordo-me que a determinada altura o montante que descontava aumentou exponencialmente. O Primeiro-ministro não se deve recordar, pois ele não pagava. Ele estava convencido de que era tudo facultativo.
Só quando chegou ao governo ocorreu à aventesma que era preciso pagar, lembrou-se com tal clareza que pôs todos a pagar taxas e sobretaxas e mais isto e aquilo e aqueloutro, por ser dever nacional contribuir para que ele passe por bom aluno no colégio alemão. Não satisfeito, aumentou impostos, usurpou direitos. Vivíamos acima das nossas possibilidades, embora, ao contrário dele, sempre tivéssemos pago as nossas dívidas. Pedro Passos Coelho é o nome deste patego que nos governa. Não se esqueçam do nome nem do rosto, ele há-de ser estudado nas escolas se o Crato continuar no ministério da tutela. Tais são as vantagens de se ser ignorante no mundo idealizado por estes pulhas.

quarta-feira, 4 de março de 2015

VOO RASANTE: RUI COSTA


DIÁLOGO

Não acredites: as pessoas que te falam em diálogo
querem o teu mal. Dizem que a compreensão deve
ser "cultivada" - e esperam bem sentados que te estateles ao comprido
na frente de uma esplanadazinha com vista para o tédio.

(Afasta de ti esse cálice!)
Eles querem o teu sangue mas depois não sabem o que fazer com ele,
não fazem nada com ele,
não o bebem, não o vendem, não o poluem com o teu
olhar desvairado ante o corpo aberto dela, do seu nexo tão
carente de ti.

Que a planta tem que ser regada para crescer, ah por favor -
não compres asas novas para a eterna toupeira.
A coisa verde estende as mãos para alcançar a água -
e depois cresce para o sol, incha,
porque ela usa-o e é usada por ele, e usar e ser usado é que é
o meu desejo cheio, a amizade toda e - foi assim connosco mas já não é -
a essência do amor (essa magra celulite que tu deves alcançar pelo diálogo
na demonstração diária do respeito mútuo e sabiamente partilhado!)

Ainda pensas que te darei uma definição do amor? Dou-te apenas o que não pode ser aceite:
o meu ser luminoso e irascível
- e nenhum deus invoco ou minimizo.

Faz o que quiseres, ou o que puderes, com o que eu te dou.
É para isso, é por isso que (o café está bom)
(e) eu gosto de ti.


Rui Costa
in Voo Rasante - Antologia de Poesia Contemporânea, coordenação de Helena Vieira, Mariposa Azual, Lisboa, Fevereiro de 2015, p. 162.

#57



Tenho para mim que as melhores homenagens são quase sempre involuntárias. Dou um exemplo. Possuo dois álbuns de homenagem a Serge Gainsbourg com versões pelos mais conceituados nomes da chamada música alternativa, para não falar do extraordinário Intoxicated Man (1995) de Mick Harvey (revestimento anglófono para as canções do compositor francês). Ainda assim, The Facts of Life (2001), dos Black Box Recorder, é, sem o pretender, uma das melhores formas de homenagear o espírito de Gainsbourg. Este trio londrino, composto por dois músicos conhecidos pelo trabalho desenvolvido nos The Auteurs e nos The Jesus and Mary Chain, acompanhados por uma vocalista que mais do que cantar sussurra-nos ao ouvido quadros domésticos sob luxuriantes melodias, não necessitava sequer de um tema intitulado French Rock’n’Roll para evocar a inspiração do autor de Initials B.B. Logo ao primeiro tema, The Art of Driving, a histórica colaboração de Gainsbourg com Jane Birkin é uma sombra indisfarçável sob a qual se desloca a metáfora instrutória. A arte de conduzir é aqui a busca de um equilíbrio entre o par que dança o erotismo cínico encenado por David Cronenberg no filme Crash (1996). Maquilhadas por melopeias elegantes, as letras destes temas são como carros de guerra a atravessar a costa da Normandia. Estranho e belo, ironia das ironias:


VOO RASANTE


Voo Rasante - Antologia de Poesia Contemporânea
Coordenação de Helena Vieira
Mariposa Azual
Lisboa, Fevereiro de 2015


Livraria, O Desprezo de Irene, pp. 53-56.

terça-feira, 3 de março de 2015

TRÍPTICOS DA NUDEZ #5

Ao contrário do que possa supor-se, a nudez como forma de protesto tem origens ancestrais. Não foram as brasas do FEMEN que lhe deram consistência sociopolítica. Na imagem ao alto, por exemplo, dispensaram-se slogans sobre as estrias, punhos ao alto, berreiro de megafone erguido. Também não consta que os intervenientes tenham frequentado ginásios ou praticado dietas light. É tudo simples e natural como as criaturas de Deus devem ser (digo eu). Olhamos para estes Filhos da Liberdade e perguntamo-nos se não deviam ser assim todos os protestos, se não seria muito mais autêntico ser-se Charlie de pirilau ao leu do que envergando as fardas da hipocrisia oficial. Olhem para uns e para outros e digam-me a quem confiariam os filhos:
 

Pois bem, por causa de alguns como estes sofreram outros como aqueles. A história conta-se em trinta e seis imperdíveis minutos aqui, mas também pode ser resumida em meia dúzia de linhas. Aqueles dois homens e aquelas duas mulheres em pelota eram doukhobors, uma espécie de seita religiosa, embora prefira chamar-lhes comunidade espiritual, com origem na Rússia czarista. Na página da Wikipédia faz-se remontar as suas origens ao séc. XVI, embora pouco exista de consistente quanto a isso. Certa é a filiação cristã, a oposição a toda a iconografia mais ou menos ortodoxa, a rejeição de qualquer intromissão estatal na sua forma de vida. São, por assim dizer, anarquistas de inspiração cristã. Ou seja, são uns bacanos.  
 
No final do séc. XIX, início do séc. XX, terão começado a abandonar a Rússia na direcção do Canadá. Resistindo a todas as formas de assimilação cultural, estabeleceram-se como uma espécie de aberração social. Por outro lado, são o que de mais humano faz sentido entre a natureza selvagem. Por não querem as suas crianças “institucionalizadas” pelo ensino oficial, sofreram a hostilidade do governo canadiano mormente a partir da década de 1950. Conflitos sociais emergiram, desintegrando a comunidade em facções distintas. Ainda assim, o ritual da nudez conservou-se em todas elas quer como celebração da união do homem, enquanto criatura divina, com a natureza, quer como forma de protesto. Agrada-me especialmente a imagem seguinte, ritual de renovação que consiste em queimar os esforços do passado  como quem sacrifica a saturação. Quem aprecie astrologia compreenderá o quão "escorpiónica" é tal imagem:
 

segunda-feira, 2 de março de 2015

ADEUS


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade (n. 1923 - m. 2005), in Os Amantes Sem Dinheiro (1950). «Na linha dos homens da geração castelhana de 27, particularmente de Cernuda, cujo transbordamento metafórico diligentemente evitou; fugido aos maneirismos vanguardistas que atingiram os escritores portugueses europeus do nosso pós-guerra; empenhado numa densidade ideológica nunca imediata e, por isso, mais vasta do que essa com que dos neo-realistas, salvo Soeiro Pereira Gomes, quiseram impor-nos por espelho a anti-ordem de Santa Comba antes de se tornarem rentáveis mercenários do ideológico - Eugénio de Andrade confirma a nossa poesia nesse espaço absurdo de se ruma das de alto significado do mundo contemporâneo e por ele quase completamente desconhecido. (...) A sua poesia foi excessivamente referida como solar. A ênfase das leituras que tentaram abordá-la na qualidade despojada (e contudo artificiosa) da sua linguagem levou a insistir-se no seu desejo de luminosidade como conseguimento de plenitude. Esqueceu-se, desse modo, quanto essa claridade era, por vezes, mais desejo que conseguimento. Quanto a plenitude do corpo era aí cantada como desafio à real repressão sobre o corpo. Quanto a luz era um ofício de busca no centro de uma labiríntica realidade de trevas. O equilíbrio irrompe como demanda, a plenitude cresce como peregrinação vinda dos abismos, o azul dos seus versos é da mesma cor do cianeto (a cor mais terrível do azul)» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos).

TRÍPTICOS DA NUDEZ #4

Maria, não te queixes. Aí tens não um, mas cinco esculturais nus masculinos. É verdade que o plano traseiro e as bolinhas no ar indiciam a pior das suspeições, mas desengana-te: não estamos no domínio exclusivo da homogamia. 


A representação da nudez na sétima arte conheceu um dos momentos mais altos no Kultur-Film alemão Wege zu Kraft und Schönheit/Caminho da Força e da Beleza (1925) – ou simplesmente Força e Beleza -, objecto de exaltação cultural que contou com Leni Riefenstahl no elenco.  Pode ser visto aqui. Sadoul referiu-se-lhe como «filme de grandes meios, dedicado ao louvor da cultura física e do nudismo, com encenação a imitar o estilo antigo». Raramente o mudo terá sido tão grandiloquente, com seus ginastas de músculo harmonizado pela perspectiva da lente:


O culto do corpo conhecerá nesta obra uma obsessão mais que estética, política. Num certo sentido, ele é a estética elevada à política. Se o romantismo havia reivindicado a cristandade, mormente pela voz de Novalis, a República de Weimar ansiou pela helenização de uma pátria onde corpo e natureza se equilibrassem sobre o fio das sombras. Os alemães surgem aqui representados em poses hercúleas e posturas heróicas. Bem sabemos que tal desejo e ambição encalhou nas pretensões de um minorca austríaco com bigode ridículo, sobrando-nos agora uma chanceler sensaborona que nem o colorido dos decotes generosos consegue salvar: 


É a História, minha amiga. Sempre a cair....

DÚVIDA





Por que é que as minhas dívidas nunca prescrevem? Por que é que a cartinha chega sempre com a respectiva multa mais juros de mora?

INDUBITAVELMENTE COELHO

 
Recupero este post, com imagem ao alto, depois de escutar Paulo Rangel, o da asfixia democrática, a lamentar a falta de credibilidade do discurso de António Costa (que, diga-se de passagem, não afirmou que Portugal estava melhor, mas sim diferente).
 
Primeiro não havia alternativa, depois ficámos a saber que andávamos a viver acima das nossas possibilidades, agora estamos melhor do que estávamos em 2011. Que seria de nós sem as criaturas que fixam a realidade? Publicam nos jornais, peroram nas televisões, opinam nas rádios, passam a vida a ler-se uns aos outros e a comentarem dívidas soberanas, défices e orçamentos como se tivessem lido, estudado, investigado, perscrutado todos os relatórios sobre o estado da nação (da nossa e, por vezes, dos outros), todos os estudos e todas as estatísticas, todas as análises. São tão industriosas, essas criaturas, são tão conhecedoras e sábias que se torna frustrante ouvi-las e vê-las nas televisões, nos jornais, nas rádios. Deviam estar nos ministérios, deviam estar nas administrações das empresas, deviam estar onde se decide. Talvez não estejam porque aí lhes faltaria tempo para ler, estudar, investigar, perscrutar, analisar. Teriam que decidir. E decidir implica consequências sobre vidas terceiras. Muitas dessas que os escutam opinar, perorar, troçar e ficam sem compreender por que não há alternativa, por que andámos a viver acima das nossas possibilidades ou por que estamos melhor do que estávamos em 2011. Justificam-se com dados e números, estatísticas e relatórios, nada que reduza as filas no IEFP, nada que conforte o desempregado ou console o precário. Número de portugueses com salário mínimo triplica desde início da crise, diz o título da notícia. Para os números, para os relatórios, talvez se trate de uma boa notícia, uma notícia que permitirá ao político profissional afirmar que os portugueses podem não estar melhor, mas o país está. E o Zeinal Bava também. Quem ouça e opine encontrará a lógica e a razão de tais conclusões onde lhe aprouver. Não a encontrará no prato vazio do indigente, nas depressões e nos suicídios que as medidas de austeridade fomentaram, não a encontrará, por certo, nas malas de cartão dos portugueses que abandonaram Portugal desde 2011 deixando-nos nas mãos um país onde são mais os que partem do que os que nascem, não a encontrará nas contas bancárias de uma classe trabalhadora mal paga e asfixiada com taxas e impostos. O país está melhor, os portugueses é que não. Estão, na generalidade, mais tristes, mais magros, mais pobres, mais desprotegidos, mais desamparados, menos saudáveis, menos cultos, menos felizes. Mas o país há-de estar melhor, talvez o país dos néscios, dos sonsos e dos ignorantes (entre os quais se encontra o primeiro-Ministro Coelho). Porque as pessoas estão como as cidades onde residem, com os seus centros históricos desleixados, repletos de espaços comerciais encerrados, enquanto ao largo as catedrais do consumo a que chamam eufemisticamente shoppings vão contribuindo para as estatísticas: número de portugueses com salário mínimo triplica desde início da crise. Tudo isto se dá e acontece debaixo do nariz de quem perora, quase invariavelmente sem fundamentos racionais, tão-somente levado por paixões particulares e clubismo político. Estamos melhor do que em 2011? Claro que estamos, basta olhar para o recibo de vencimentos com as suas sobretaxas e taxas e descontos. Mais vendidos, mais frouxos, mais entretidos com as audições do BES. Perguntem ao Zeinal Bava se não estamos melhor. Com sorte ele dirá qualquer coisa.
 
 
P.S.: dito de outra forma, pelo Tiago Mota Saraiva: aqui.

domingo, 1 de março de 2015

DÉCIMA OITAVA CASA

Ser feliz é uma responsabilidade social, como bem o sabem todas as pessoas que mantêm padrões mínimos de generosidade. Noutros tempos também eu me revoltei contra os cânones instituídos e declarei-me livre do espartilho da felicidade como meta obrigatória e padrão mínimo de inferência de uma normalidade pacificadora. Mas depois compreendi que o direito à infelicidade é conquista que não justifica a convocatória de um exército. Apresentei-me nas fileiras do escrutínio das almas com uma bandeira branca e optei por ser feliz apenas para que me deixassem em paz.
 

RIVER OF NO RETURN (1954)


O advento da televisão forçou o cinema a transformar-se, tal como a fotografia já o tinha feito à pintura. A diferença está em que o cinema, enquanto arte, contava uma história muito mais curta. As décadas de 1940 e 1950 foram fulcrais, nomeadamente em países onde a indústria cinematográfica estava estabelecida com uma pujança incomparável. A caça às bruxas na Hollywood do pós-guerra condicionou, igualmente, as formas de produção e o tipo de filmes que se faziam. Os vermelhos mereciam o mesmo tratamento que durante décadas fora dado aos indígenas, era preciso estereotipá-los, fazer deles assassinos, terroristas, papões. Géneros populares como o western ganharam imenso com esta politização da sétima arte, podendo desenvolver-se numa direcção menos superficial do que o mero entretenimento das massas exigia. Não admira, portanto, que filmes como High Noon (1952), de Fred Zinnemann, Shane (1953), o melhor de George Stevens, Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray, Apache (1954), de Robert Aldrich, ou variadíssimas incursões de Anthony Mann — The Furies (1950), The Far Country (1954), The Tin Star (1957) —, tenham ficado para a história do cinema universal como exemplos superiores de uma época dourada. Outro realizador que se deu lindamente no género, com um único filme, foi o austríaco Otto Preminger (n. 1905 – m. 1986), exilado nos Estados Unidos da América desde 1935. River of No Return/Rio Sem Regresso (1954) não é apenas “um inteligente e bem sucedido «western»”, como referiu o crítico e historiador Georges Sadoul, particularmente hostil à máquina hollywoodesca (repare-se, porém, na exaltação das inovações técnicas aludidas no trailer). É, antes de mais, uma monumental recriação da metáfora bíblica do rio redentor, o rio de Ezequiel onde os homens se lavam dos pecados e matam a sede. Um homem, uma mulher e uma criança experimentarão as águas deste rio agitado que atravessa o paraíso fotografado por Eadweard Muybridge, «incrível colecção de cataratas, rochedos, desfiladeiros, lagos, vales, precipícios e montanhas, o Éden inóspito da América» (Pedro Mexia). Ele chama-se Matt (Robert Mitchum), procura o filho após uma temporada na prisão. Foi condenado pelo assassínio de um homem pelas costas. O filho, que desconhece o passado do pai, é Mark (pequeno Tommy Rettig, celebrizado pela série televisiva Lassie). Matt e Mark, tal como nos evangelhos. Não é por força da interpretação que a temática religiosa aparece aqui referida. Várias cenas nos indicam este caminho. Na realidade, é o pai Matt que explica ao filho Mark a origem do seu nome. Tal como nos evangelhos. O primeiro plano do filme é de um homem a derrubar uma árvore à machadada. Podemos supor tratar-se da árvore do conhecimento no paraíso perdido onde as almas se desencontraram. Logo de seguida, esse mesmo homem chega a um acampamento de garimpo e cruza-se com um padre. Apanha do chão um exemplar da Bíblia que o padre deixara cair ao saltar do seu cavalo. O padre refere-se ao acampamento como Sodoma e Gomorra, sentenciando que, apesar de ter ali vindo parar como missionário junto dos indígenas, o homem branco iria necessitar muito mais da sua missão evangelizadora. E quase logo de seguida damos com Eva, de vestido vermelho, a cantar One Silver Dollar no saloon improvisado. Não exactamente Eva, mas Kay. Divina Marilyn Monroe, de viola apoiada sobre a coxa cintilante. Um tratado acerca do erotismo podia ser escrito tendo por exemplo apenas os planos que Preminger oferece a Marilyn Monroe. Marilyn a mudar de roupa, Marilyn com duas rachas enormes num vestido verde, flectindo as pernas enquanto dança agarrada a um varão, rodeada de garimpeiros siderados, Marilyn a descer um rio completamente encharcada, a resistir à investida de Robert Mitchum, a ser massajada, Marilyn maternal, sedutora, frágil e sonhadora, apaixonada. O encontro entre estes dois, com o pequeno Mark pelo meio, após a descida acidentada do rio e do confronto com as suas margens sobressaltadas — índios em fúria, uma pantera esfomeada e dois garimpeiros desesperados são alguns dos desafios —, é das coisas mais bonitas que alguma vez se filmaram. A cenas tantas, Kay pede desculpa a Matt. Magoaste-me e eu quis magoar-te, confessa. Matt responde-lhe: bem, normalmente é assim que funciona. Responde-lhe com esta simplicidade enquanto lhe massaja as pernas regeladas. Pára e ficam ambos a olhar um para o outro, nós olhamos para os dois e percebemos a situação: normalmente é assim que funciona. Olho por olho, dente por dente. Normalmente é assim, mas não tem que ser. E o rio sem regresso é esse lugar onde podemos limpar-nos do passado e seguir, como queria o poeta, sem destino traçado.