quarta-feira, 13 de maio de 2015
ANDA AQUI UM POETA ESTRANHO
Os últimos dias foram especialmente difíceis de suportar,
o diário encheu-se de frases que seria incapaz de partilhar aqui. Frases
pesadas como calhaus que os visitantes deste weblog não merecem ler. Sobrou-me
tempo, pouco, para continuar a trabalhar num livro novo. Li na badana de um
livro de Jean Meckert que era no fim de dias de trabalho extenuante que se
dedicava à escrita. Nota biográfica simples, de certa maneira reconfortante.
Também eu me dedico à escrita nos intervalos da precariedade, aproveitando,
tanto quanto posso, para registar ideias vagas que morrerão, muito
provavelmente, onde nasceram, sublinhar livros que vou lendo ou relendo, sacar
vida do que resta para lá das horas de trabalho.
É num poeta que ando a
redescobrir que encontro este verso: «Vida e vida e vida! — a eterna palavra
que não diz nada!» E na primeira estrofe de um outro poema, estes últimos
quatro versos: «é que eu acho a vida uma coisa estranha, / Alheia, uma coisa
que não é minha / E me pede angústia, sonho, sangue, / E até silêncio, silêncio
em carne viva». Ninguém lê hoje António de Navarro (n. 1902 – m. 1980), julgo
mesmo que se contarão pelos dedos os leitores que o conhecem ou dele ouviram
falar. Nem o entusiasmo de Jorge de Sena lhe valeu. Pretendo, por isso, dedicar
algumas notas posteriores a este poeta. Faz parte da Antologia do Esquecimento
resgatar do estômago do olvido as vozes aí digeridas. Por ora, quero apenas
dar conta deste reencontro comigo próprio através de versos publicados na
primeira metade do séc. XX.
Os poetas sempre escreveram muito sobre a vida,
tanto quanto escrevem sobre a morte. A verdade é que a morte eles nunca a
viveram senão em ideia, a morte é uma abstracção que o corpo assimila à passagem do tempo, com a perda, com a observação mais ou menos atenta da ruína,
do abandono, do declínio. Mas a vida não, a vida a gente vive-a mesmo que a
sintamos alheia. Também sinto muitas vezes que a minha vida não é minha, é das
circunstâncias que me determinam. Noutras ocasiões arrogo-me no direito de julgá-la
e digo: puta de vida. Censuro-me por não vivê-la como queria, engulo sapos,
arrependo-me, vou ao encontro da tristeza com as costas pesadas de frustração.
Ter consciência disto talvez me livre de uma estupidez insuportável, não
me livra de um sentimento que António de Navarro exprimiu muito bem num outro
poema. Cito-o na íntegra:
Anda aqui um poeta estranho
a escrever versos com o vento
na lauda duma folha, e com
uma folha nas páginas do vento…
Com o silêncio todavia
escreve a sua melhor poesia
num infinito verso
que rodopia e canta.
É ele também
que faz aquela mãe,
lívida como um círio,
embalar o seu berço
como se fizesse um verso
branquíssimo (…e hermético!)
e transforma a sua fome
em leite e amoroso delírio
poético.
A expressão delírio poético é-me especialmente cara,
escrevi sobre ela num dos meus livros. Livros que vão para lado nenhum e me
levam com eles a caminho desse lugar onde hei-de encontrar tantos outros como
António de Navarro, cientes de que o silêncio é a melhor poesia e todo o ruído
que em torno dela se levanta não passa disso mesmo: ruído. Um ruído que nos distrai
das palavras e remete para o baú das relíquias termos como lauda ou círio, só
para lembrar dois exemplos.
Metal Translúcido (Signo, 1967) é a antologia que
li ontem. Antes dela, este poeta tinha publicado Poemas de África (1941), obra
marcada pela passagem por Moçambique que levou Jorge de Sena a considerar o
autor «um dos poetas mais originais da poesia contemporânea», Ave de Silêncio
(1942), o extenso Poema do Mar (1957), ao qual dedicarei, em breve, outra
atenção, e Águia Doída (1961), retorno aos ambientes africanos. Metal
Translúcido abre com uma Ode à Manhã excepcional, um daqueles poemas que
merecem, sem dúvida, aquele cuidado que costumamos ter com os melhores, mas
que, neste caso, redundou numa incompreensível negligência. Deixo os primeiros
versos, para espanto de quem ainda se espante com estas coisas:
Nas grandes manhãs em que as mulheres penteiam os cabelos
com gestos longínquos e de bailado…
Nas grandes manhãs
em que uma força vulcânica destrói as metafísicas
e a vida se abre em galgos que correm à desfilada…
Nas grandes manhãs
abrindo nos cravos feitos do nosso sangue…
Nas grandes manhãs
de lirismo e profecia em que um calor misterioso
e um leite igual amamentam os recém-nascidos
a cantarem já a luz que rebenta nos seus olhos
cheios de espanto e de certeza,
os galgos trarão a estepe nos olhos ávidos e longínquos…
Rebentará a manhã
nos cornos duma rena, floridos de pássaros…
E a voz ansiosa e tímida,
violenta e suave
dirá à minha alma cousas vagas mas sibilinas…
E eu cantarei
procurando meus gestos, minhas ansiedades,
minhas dúvidas, no ar e na alma dos que vêm cantando…
(…)
António de Navarro, Metal Translúcido – Antologia, Signo,
Gráf. Santa Clara — Vila do Conde, 1967.
PRÓSTATA
As metáforas do primeiro-ministro sobre a porcaria que tem
andado a fazer entroncam na perfeição com a máxima do seu cão de fila, segundo
a qual “a vida quotidiana das pessoas não está melhor mas o país está muito
melhor”. É uma linha de pensamento que guia estes cossacos de uma União
Europeia mais preocupada com a saúde financeira dos mercados do que com a
qualidade de vida dos seus cidadãos. Repare-se que por qualidade de vida não
entendemos a vida acima das suas possibilidades que os amigos de seus amigos
fazem crer ter sido a da maioria dos cidadãos, quando andaram a fugir aos
impostos e a viver de ajudas de custo em empresas tão transparentes como a famigerada
Tecnoforma. Pois que a vida quotidiana das pessoas não está melhor, eles o
sabem. Mas quais pessoas? Os elogios recentes a Manuel Dias Loureiro, caídos da
boca suja do premiér, provam que a vida de algumas pessoas estará sempre na
maior. O BPN nunca existiu, e esta gente é um exemplo de salubridade que os
porcos a quem o Estado foi sacar cofres cheios deviam seguir como outrora os
séquitos seguiam o príncipe. A linha de pensamento é esta: a doença da crise
tem de ser tratada a todo o custo, independentemente dos pacientes gostarem ou
não do sabor do xarope. A que sabe o xarope deste ex-funcionário da Tecnoforma?
Os danos colaterais do combate à crise são mais crise, uma crise social sem
precedentes na democracia portuguesa, uma sangria estimulada pelo próprio
general, gente que emigrou e que o governo quer agora ver de regresso à custa
de esmolas, famílias completamente desfeitas e arruinadas, o comércio
totalmente entregue aos grandes grupos que com suas promessas nunca cumpridas
levam à falência milhares de empresários, cidades que mais parecem atacadas por
vírus mortais, lojas fechadas, prédios devolutos, uma situação que transformou
o negócio das falências e das insolvências em investimento lucrativo, danos
colaterais que não tiram o sono ao guerreiro porque ele sabe ter à sua beira um
amigo de seu amigo que o ajudará quando for preciso. Há sempre um Dias Loureiro
à esquina, uma Tecnoforma que se inventa para esmifrar dinheiros públicos, esta
gente sabe quais os circuitos do dinheiro, de onde vem, por onde anda e,
sobretudo, sabe para onde vai. Pois que doce ou amargo, o xarope não resolveu
nada. A doença que o cirurgião diz ter curado a toda a hora nos mostra as suas
chagas, bostelas, gangrena, pus, um país ferido da cabeça aos pés, um país que
já nem é país, é um terreno onde vivem pessoas que cantam o hino nacional uma
vez por ano, e mal, porque não sabem a letra, um país de abstencionistas,
desinteressados, gente cansada, saturada, desistente que passa os dias a sonhar
com paraísos perdidos. Este merdas para quem o sabor do xarope não interessa só
merece um tratamento: toque rectal com a pata de um elefante. Afinal, que
importam os meios para se chegar ao fim? O que importa é prevenir a próstata.
sábado, 9 de maio de 2015
O RACISTA
O racista chateia-se quando escuta línguas estrangeiras no seu país. Eu acho que o racista trata pessimamente a língua portuguesa. Links para o racista não faço. É "só mais um" grunho a dar aulas numa universidade. Aulas de racismo e de péssimo português.
EPIFANIAS #9
9
[Mullingar:
num Domingo de Julho:
meio-dia]
Tobin — (a caminhar ruidosamente com
botins e
a bater no chão com a bengala) . .
. . Ó,
não há nada como o casamento para
fazer um tipo assentar. Antes de
ter vindo
aqui para o Examiner eu costumava
andar na bebedeira
e no engate com uns tipos . . . .
Agora tenho um
bom lar e . . . . . vou para casa
à
noite e se quero uma bebida . . .
. . .
bem, posso bebê-la . . . . O meu
conselho para
todos os tipos novos que o podem
sustentar
é: casem jovens.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
FÁTIMA MALDONADO
Quando, em Novembro de 2003, foi publicado o n.º 1 da Telhados
de Vidro, um dos aspectos positivos a assinalar era a recuperação, por assim
dizer, da poesia de Fátima Maldonado (n. 1941) com um conjunto de cinco poemas
entretanto reunidos no volume Vida Extenuada (& etc, Maio de 2008). Entre
este e a reunião da obra poética da autora, revista e acrescentada, tinham
passado dez anos. Um dos inéditos então publicados em Cadeias de Transmissão
(frenesi, Dezembro de 1998), o penúltimo da obra reunida, parte integrante de
um conjunto intitulado O Rumo das Coisas, pode adquirir aos dias de hoje aquela
função que costumamos atribuir aos cartões de visita:
ANTILÍRICA
Desce-se a rua
na esperança de esquecer
o uivo da matilha,
a beleza que resta
acorre-nos às feridas
unguentos depõe
nas zonas infectadas.
Querelas vicentinas,
empregos, sordidez,
«razias» declaram-se,
encostam-se polés
à crispação dos nervos,
a sombra das notícias
atiça expedientes, afirma torniquetes.
Academia das Ciências,
o ferro transplanta
um resto de harmonia,
argolas e lanternas
à sombra de desbastes.
Lisboa das comendas
que reis de papelão
investem nos serventes
elanguesce nos ritmos
com correntes à mó
e vasa no olhar
vai moendo farelo.
Paroquial,
os punhos sob a véstea,
exime-se ao remorso
de ter desamparado
a terra de Timor.
Antes de mais, o título do poema reveste-se de um carácter
programático facilmente reconhecível desde o livro de estreia: Cidades
Indefesas (1980). Nesse livro, Joaquim Manuel Magalhães reconheceu «Uma
tentativa de organizar um discurso confessional, (desligado do lirismo
intimista), que não perca de fito a recusa de ser um mero ofício de
autenticidade: escolhe uma pose onde se busca tão só organizar uma verosímil
sinceridade» (Os Dois Crepúsculos – Sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas,
A Regra do Jogo, 1981, p. 277). Mais do que os pressupostos de sinceridade e de
autenticidade, sempre discutíveis e dificilmente delineáveis, retenho a ideia
de um discurso confessional desligado do lirismo intimista.
De facto, nas três sequências de Cidades Indefesas
encontramos de imediato um antilirismo que tem na forma de cantar o ser amado
algo de insólito e violento. A referência irónica a Camões no primeiro poema não
está desprovida de uma intenção belicosa: «Passámos ao Camões / onde ao virar
da esquina / um moço atravessado / caíra de uma bala. / Tinha, quando sentiu /
um líquido a escorrer, / um buraco vermelho / da forma dos Lusíadas» (Cadeias
de Transmissão, p. 11). Este «buraco vermelho da forma dos Lusíadas» resume o
confronto com uma tradição que a poesia de Fátima Maldonado incita, franqueando
o tom de epopeias apologéticas com poemas incisivos onde tanto o passado histórico
como o presente surgem configurados de um modo extremamente crítico. Mas, mais
do que isso, remetem para um acto de terrorismo poético que terá por alvo a
figura do amado. Este deixará de ser cantado enquanto príncipe dos desejos
ardentes, mago de um erotismo envolto em sonho, prazer e ilusão, para ser
reduzido à figura de macho com tiques burgessos incapaz de compreender o corpo
feminino:
(…)
O gozo que me deu fumar o teu charuto
mandar-te para o ar no fumo que espalhei
sobre um frasco de mel
foi quase tão intenso como o que me circula
quando uma língua bífida, certeira no seu salto,
me desfere a picada no clítoris que negas
(…)
(Cadeias de Transmissão, p. 19).
E, alguns versos depois:
(…)
Que pena que me dá que não possas chegar
ao balcão da taberna
e se viesse um copo roxo de vinho tinto
como a túnica velha do Senhor dos Passos
do mármore lhe pegasses,
engolindo-o bebesses
a nata que se coalha num sexo de mulher
(…)
(Cadeias de Transmissão, p. 20)
Aquilo a que vulgarmente chamamos lírica amorosa encontra
nestes poemas um campo minado, sendo reduzidos a destroços os preconceitos
dessa mesma lírica (agora antilírica) com a narração de (des)encontros eróticos onde
o sexo visita uma espécie de morte lenta em cenário urbano, tingida de
«escombros da memória», «cultura em decadência» e «nascentes de ruínas». O amor
talvez não seja um equívoco, mas o erotismo que se lhe oferece em falsete com
poemas rendilhados, sobretudo numa tradição desequilibradamente masculina, é um
logro que a autora desconcerta.
Partindo ainda do poema supracitado, repare-se na forma como
o primeiro verso — «Desce-se a rua» — nos convoca para os espaços por excelência
destes versos. A rua é o cenário privilegiado de uma poética que os
organizadores da antologia Sião (Al Berto, Paulo da Costa Domingos, Rui Baião, frenesi,
Fevereiro de 1987) apresentaram nos termos seguintes: «A haver alguma espécie
de legitimidade na comparação de Fátima Maldonado a Cesário, ela seria um
luciferino ajuste de contas com este deus da urbe». Este ajuste de contas, a
que anteriormente chamei confronto com a tradição (não só literária), esbarra
amiúde em descrições de cenários arreigados à actualidade, presenciados e
experimentados num regime de observação directa, aos quais se acrescenta uma
leitura impiedosa da nossa história (os “alicerces” do livro Os Presságios,
1983). O cenário lisboeta — «Lisboa das comendas» — é, deste modo, uma
plataforma de onde se parte para uma digressão pelos lugares d'abandono. À desamparada
terra de Timor evocada no poema Antilírica podemos juntar as ilhas de Cabo Verde,
Goa, Macau, um certo mundo rural negligenciado por um progresso agressor que,
mais do que avançar, usurpa horizontes, inúmeras referências onde vislumbramos
personagens saídas de um universo ficcionado a par de factos históricos e seus
eminentes figurões.
Não obstante, entre a rua e o corpo físico de quem a
percorre há uma ligação directa que se evidencia a todo o momento. A dimensão
política destes poemas, acusada por Manuel de Freitas em recensão a Vida
Extenuada, exerce-se num campo de batalha que não tem por fim rebater
contrastes. Antes pelo contrário, resiste ao tom acusatório de um tempo desgastado
e saturado com a denúncia da perda impressa pela transformação (da rua e do
corpo). Isso mesmo encontraremos, de um modo muito evidente, nos Cinco Poemas
Anti-Cee do livro Selo Selvagem (1985), com a vila de Sagres transformada num berço de «obesas criaturas» em regime turístico ou no Fundo de Desemprego. O mesmo poderíamos dizer dos já
aludidos cinco poemas inicialmente aparecidos no n.º 1 da revista Telhados de
Vidro, onde «perdidas na casa / sobravam nas teias / aranhas rendidas / a
sonhos catárticos» (Vida Extenuada, p. 9).
Esta noção de miséria que pretexta uma poética
paradoxalmente riquíssima em termos lexicais (Joaquim Manuel Magalhães, em Rima
Pobre, Presença, 1999, sublinha «um matagal de palavras recuperadas aos mundos
submersos da língua»), desvia-se igualmente daquele tipo de enaltecimento da
cultura clássica que o legado romântico deixou e muitos dos nossos poetas
acolheram. Em sentido adverso, as incursões pelo universo mitológico desconstroem
heróis com perspectivas agudas de uma humana, demasiado humana, descompostura. O
envelhecimento retratado em Vida Extenuada mostra como o corpo é uma extensão
do cenário onde este opera a sua metamorfose. O erotismo desabrigado do livro
inicial descamba n’A velhice de Maria Stuart: «a teus pés a vil clemência / de
Isabel tua prima Isabel / tal como tu agora desdentada / tal como tu agora sem
cabelo / duas mulheres sem paz / o pus tão podre a lepra nunca gasta» (p. 12)… Ou,
como podemos ler na Antilírica, «encostam-se polés / à crispação dos nervos». Toda a poesia
de Fátima Maldonado está marcada, desde o início, por esta crispação, versos
torturados pela passagem do tempo e pelo que durante essa passagem os olhos
capturam e o corpo sofre.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
RUMO
Questionam-me na caixa de comentários deste post sobre
qual o rumo que me faz confusão. Podia tentar desenvolver um diagnóstico e
articulá-lo com meia dúzia de ideias sobre o tema, mas prefiro inventariar
alguns exemplos observados nos últimos dias:
1. ontem passei por São Martinho do Porto para beber um café. Sentei-me a ler um livro, sublinhando o que me interessava, registando alguns apontamentos num bloco para o efeito. Escrevia à mão. Escrever à mão é um gesto cada vez mais obsoleto. A caligrafia há-de transformar-se numa espécie em vias de extinção, perda sobre a qual é difícil prever consequências. Além de mim, estavam no café um grupo de pessoas à conversa e uma família de estrangeiros. Não pude deixar de reparar na família: o pai tinha um laptop sobre os joelhos, a mãe entretinha-se com o tablet sobre a mesa, o filho olhava enfadado para o monitor do seu portátil, aberto sobre a mesa, com as mãos fechadas contra as bochechas e auscultadores enfiados nos ouvidos. É um cenário cada vez mais frequente, famílias sentadas à mesa sem palavras para trocar. Outrora, as televisões preenchiam o espaço vazio. Ainda se partilhava um mesmo programa. Agora, a ideia de partilha esgota-se numa distribuição equitativa dos gadgets. Não teço juízos, limito-me a constatar factos. Mas deixo no ar uma questão: independentemente do que cada um dos elementos daquela família estava a fazer no seu reinado tecnológico privado, o que têm aqueles instrumentos para oferecer ao futuro que nos faltava no passado?
2. tenho um cunhado que é fervoroso adepto da disponibilidade que a Internet oferece. Só vê vantagens, a ponto de se ter tornado fastidioso discutir o que quer que seja com ele. Porquê? Porque havendo uma dúvida, a Internet responde. É como se a verdade absoluta dos factos estivesse no enquadramento que a informação on-line lhes oferece. Esqueçam a relatividade das perspectivas, a ambiguidade dos fenómenos, a dimensão paradoxal e ambivalente das leituras humanas. Tudo isso foi superado pela verdade dos factos, tal qual números numa página Excel. Como há muito me habituei às mentiras da realidade, discordo destas perspectivas unilaterais dos factos. Passo por cima do assunto. Sucede que há tempos discutíamos acerca das vantagens de descarregar livros disponibilizados gratuitamente em sítios diversos na maravilhosa e vasta biblioteca dos cibernautas. Como sou antiquado, e faço questão de continuar a sê-lo, não realizo esse tipo de downloads. Não gosto de ler no tablet, tenho os meus hábitos de leitor dos quais não prescindo. Aliás, o simples facto de não ter que carregar a bateria de um livro para poder lê-lo convence-me sobre as vantagens da velha tecnologia em papel. Seja como for, tudo isto é discutível. O que já não me parece tão discutível é essa ideia feita de que a Internet disponibiliza tudo. É falso. Tentem encontrar on-line muitos dos livros sobre os quais vou escrevendo e obterão um resultado decepcionante. Volto a deixar outra questão: ao contrário de alargar mundos, não estaremos a encolhê-los partindo do princípio de que o mundo cabe todo dentro da Internet?
3. nos últimos dois dias vi dois episódios da Violeta. Quis perceber o que vêem as minhas filhas na Violeta. Não consegui, mas sei o que vi. As personagens têm vozinhas irritantes, sobretudo as femininas, que parecem saídas de desenhos animados de mau gosto; não há ninguém que se comporte um pouco acima da imbecilidade; toda a gente se veste de um modo extremamente colorido e primaveril; o esforço e o trabalho, o espírito de sacrifício dos artistas, são ali substituídos por um facilitismo milagroso; não existe no argumento um mínimo vínculo à realidade, é tudo ilusão e fantasia; os adultos aparecem completamente infantilizados; é como se tudo caísse do céu sem intervenção divina. Enfim, não gostei da Violeta. Mas as minhas filhas gostam e eu quis perceber porquê. Faço o mesmo esforço quando observo a minha mulher a ver a Anatomia de Grey no tablet. Nada tenho contra a Anatomia de Grey (de resto, nunca vi sequer um episódio) nem contra a Violeta… Mas tenho alguma coisa contra os processos de estupidificação das massas.
3.1. A minha mulher
descarrega imensos filmes da net. Diz que lhe dá jeito, para passar o tempo nas
viagens entre Caldas e Lisboa. Em contrapartida, vamos cada vez menos ao
cinema. Quando viemos morar para aqui, alugávamos filmes no clube de vídeo.
Agora, raramente, alugamos no MEO. A selecção de filmes disponibilizados é
francamente má e muito limitada ao blockbuster. Pastilhas elásticas gourmet. Ir ao
cinema tornou-se um luxo. As boas salas, as salas onde podemos escapar à
irritante mandibulação de pipocas, escasseiam e ficam distantes. Tenho pena,
pois sou daqueles para quem ver um filme no grande ecrã não é o mesmo que o ver
numa televisão ou no monitor de um computador. Recentemente, durante uma sessão
do ciclo Rossellini senti arrepios na espinha que, mais do que pelo filme, foram
provocados pela situação em si: os “movimentos no escuro” que nenhuma porra de
nenhuma televisão oferece, seja a velha Jocel cá de casa ou o plasma de topo de
gama. Há também a dimensão social. Nessa sessão do ciclo Rossellini, deu-se o
acaso de ter encontrado no cinema um amigo que ia ver o mesmo filme. Foi
agradável, até pela raridade, ficar breves minutos depois do filme a trocar
impressões sobre o que tínhamos acabado de ver. E sem que nada o previsse,
acabámos numa livraria que tinha aberto nas imediações do cinema. Uma última
pergunta: estes acasos seriam possíveis se eu tivesse ficado em casa a ver o
filme?
Dito isto, e muito mais haverá a dizer, permito-me
concluir que julgo cada vez mais o teatro um espaço de resistência à tirania
tecnológica. Até ver, ainda não conseguimos descarregar actores de nenhuma base
de dados que nos ofereça o caos libertador dos acasos e da imprevisibilidade, esse
lado contingencial da vida que lhe oferece um gosto e uma humanidade que as
tecnologias vão usurpando com os seus programas e as suas programações
infalíveis e exactos.
NÃO SOU UM ROBÔ
Em visita a weblog amigo tive de provar que não era um robô seleccionando pratos de sushi. Conste que não passei no teste. Sugiro que copiem o exemplo para entrevistas de emprego, tipo candidaturas a cargos públicos. Entretanto voltei ao mesmo weblog e pediram-me para acertar nos vinhos:
Diz que não falhei um. :-)
terça-feira, 5 de maio de 2015
EPIFANIAS #8
8
Nuvens carregadas cobriram o céu. Um cão grande está reclinado onde três
estradas se cruzam, ante uma praia pantanosa. De quando em vez ergue o focinho e solta um uivo prolongado e pesaroso. As pessoas param para o observar e
seguem caminho; algumas permanecem, cativadas, porventura, por aquela
lamentação onde parecem escutar a expressão dos seus próprios lamentos, que
outrora tiveram uma voz singular entretanto perdida, serva de dias
laboriosos. A chuva começa a cair.
WHISPERING SMITH (1949)
Ainda antes de ter garantido um lugar na história do cinema
pelo desempenho no popular Shane (1953), Alan Ladd conseguiu afirmar-se como
actor noutros filmes do género. A sua presença em Whispering Smith/A Vida Por
Um Fio (1949) não passa despercebida, ainda que ao realizador Leslie Fenton (n.
1902 – m. 1978) pouco mais tenha sido reservado do que um lugar secundaríssimo
no corredor da fama. Todavia, Fenton, que nos primeiros anos de carreira fora
actor, sabia oferecer aos seus pares papéis marcantes. Whispering Smith releva
essa característica com um elenco nada desprezível, onde aparecem Donald Crisp
— oscarizado pelo trabalho memorável em How Green Was My Valley/O Vale Era
Verde (1941) —, o enérgico Robert Preston — nomeado para um Oscar pela aparição
no musical Victor Victoria (1982), se bem que mais conhecido pelas presenças em
The Last Frontier/Os Bravos Não Voltam Costas (1955), de Anthony Mann, ou How
the West Was Won/A Conquista do Oeste (1962) —, e a belíssima Brenda Marshall, uma
filipina de nome completo Ardis Ankerson Gaines que tem neste filme uma das
suas derradeiras aparições no grande ecrã. Merecia melhor sorte:
Os talentos de Ladd, Preston, Marshall e Crisp formam um
quadrado dentro do qual se desenrola uma acção de contornos trágicos cujas fragilidades que Fenton foram superadas apostando-se tudo no desempenho dos actores. Disto são
testemunho inúmeros enquadramentos que isolam as suas personagens procurando
fazer sobressair gestos, movimentos, posturas, esgares, onde a narrativa
adquire uma expressividade que transcende o plano da acção. Whispering Smith
envia-nos para o território clássico dos assaltos a comboios, mas sem aquele
tipo de sequências que sobrevive da improbabilidade dos feitos. Reconheça-se
que nos momentos em que o imaginário circense poderia fazer valer audiências, Leslie
Fenton protege os actores de quedas e de arranhões preenchendo o cenário com planos
relâmpago onde se sugerem descarrilamentos, travagens bruscas, explosões. Não é,
pois, um objecto de excessivos efeitos especiais. O interesse recai antes sobre
a história, algo que pode ser pouco para cinema mas de algum modo desvia este
western das tácticas mais banais de entretenimento. Ou seja, há nesta obra uma encenação da emotividade que atrai o olhar e foca a atenção nos
sentimentos permutados entre as personagens. Alan Ladd é Whispering Smith,
competente e implacável zelador ao serviço da companhia ferroviária. No
decorrer de uma perseguição, volta a cruzar-se com o seu amigo de infância Murray
Sinclair (Robert Preston). Sinclair tem como função limpar a ferrovia sempre
que há um "acidente". Casou com Marian (Brenda Marshall), por quem Smith
reserva uma antiga e oculta paixão. Donald Crisp interpreta o papel de Barney
Rebstock, dono de um rancho que, na realidade, é uma máquina de lavar dinheiro
proveniente de assaltos aos comboios. Circunstâncias diversas levam a que
Rebstock alicie Sinclair para a sua coutada, deixando Smith na delicada situação
de ter que confrontar um amigo de infância. Sem ser profundo na abordagem da
questão moral, Leslie Fenton consegue emocionar-nos com algumas sequências que
opõem o ciúme à amizade, esta ao dever, o dever à paixão. No final, Smith diz
que jogou com as cartas que lhe foram dadas por Sinclair. Não tinha outras. Mas
será mesmo assim? Pode ou deve a máquina das obrigações profissionais
sobrepor-se ao valor da amizade? É uma questão pertinente, para a qual jamais
teremos resposta. O que Whispering Smith nos mostra é que as relações de
amizade não se regem por leis puramente racionais, revelando-se frágeis e débeis
quando iluminadas pela lógica. Alan Ladd encarna um herói que não é pacífico,
um herói que de certa forma pressagia o Henry Fonda de Once Upon a Time in the West.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
EPIFANIAS #7
7
Hora de partir — o pequeno-almoço está pronto. Direi outra oração…..
Tenho fome; porém gostaria de ficar nesta calma capela onde a missa foi rezada
tão sossegadamente. Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura e esperança
nossa! Amanhã e todos os dias por vir espero trazer-te alguma virtude como
oferta pois sei que ficarás satisfeita comigo se assim for. Agora, adeus até
ver….. Ó, que Sol tão brilhante na avenida e Ó, o brilho do Sol no meu coração!
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
STREAMING
Não sei o que é, não quero saber. Também nunca “saquei da
net” música, filmes, livros. Os que tenho, compro-os. Pago por eles o que
posso, quanto posso, quando posso. Não podendo, não adquiro, não compro. Faz-me
muita confusão este rumo. Se bem sei, o desenvolvimento das novas tecnologias
tinha na sua origem a possibilidade de o homem vir a gerir o seu tempo de um
modo diferente. Os resultados estão à vista: mais desemprego, sobrecarga
laboral, impérios a crescer à custa de uma compressão inqualificável do trabalho, de todo o trabalho, incluindo o trabalho criativo.
A democratização do acesso à cultura é, pois, um mito. Antes de ter tempo ou
dinheiro, verifica-se que só acede à cultura quem tem cultura. É uma
redundância que mantém a informação, o saber, o conhecimento, a arte, fechada
num círculo restrito - à custa da estupidificação das massas, entretidas com o
circo que sempre as distraiu.
domingo, 3 de maio de 2015
EPIFANIAS #6
6
Um pequeno terreno de densas ervas daninhas e cardos vivos com formas
confusas, meio homem, meio cabras. Movem-se de cá para lá arrastando as suas
grandes caudas, agressivamente. Têm rostos ligeiramente barbados, ogivais e
cinzentos como borrachas. Um secreto e singular pecado condu-los, mantendo-os,
como que por reacção, em constante malevolência. Um aperta sobre o corpo um
casaco de flanela rasgado; outro queixa-se monocordicamente enquanto a sua
barba se agarra às densas ervas daninhas. Movem-se à minha volta,
enclausurando-me, com aquele velho pecado a afiar-lhes os olhos até à
crueldade, silvando pelos terrenos em círculos indolentes, atirando os seus
terríveis rostos para cima. Socorro!
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
sábado, 2 de maio de 2015
EPIFANIAS #5
5
Último andar da antiga casa com janelas escuras: luz de fogo no quarto
estreito: anoitece lá fora. Uma velha afadiga-se a fazer chá; fala do que
mudou, as suas excentricidades, e o que o padre e o médico disseram….. Escuto-a
à distância. Passo pelas brasas, divago pelos caminhos da aventura……Credo! O
que é aquilo à soleira da porta?..... Um crânio — um macaco; uma criatura
desenhada deste lado do fogo, das vozes: uma estranha criatura.
— És tu Mary Ellen? —
— Não, Eliza, é o Jim —
— Ó…… Ó, boa noite, Jim —
— Precisa d’alguma coisa, Eliza? —
— Pensava que era a Mary Ellen….. Pensava que tu
eras a
Mary Ellen, Jim —
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
DOIS LIVROS DE RUI BAIÃO
Este texto podia ter o título de “vias para a loucura”. Não
seria porém honesto para com o seu propósito. E o seu propósito é organizar
algumas pistas de leitura da poesia de Rui Baião (n. 1953), poeta cuja
capacidade de me inquietar anda a par da sua absoluta discrição. Basta olharmos
para as capas de Rude (Averno, Maio de 2012) e de Insane (Averno, Dezembro de
2014) — título ambíguo, substantivação provável dos adjectivos insaneável e
insano — que logo constatamos essa discrição na ausência do nome do autor. Por
si só, o gesto pouco significará. Talvez permita concluir haver neste poeta uma
preferência pela sombra que o mantém atrás da cortina, indiferente à lotação
que ocupa as preocupações da sociedade recreativa e de espectáculos em que se transformou o
meio literário no decorrer do último século.
As fotografias de Paulo Nozolino sublinham uma colaboração
que não é de agora, destacando-se, nesse domínio, o catálogo da exposição bone
lonely (Steidl, 2011). Refira-se, aliás, que uma das secções de Rude, a
segunda, corresponde, mais coisa, menos coisa, à versão portuguesa dos poemas
incluídos nesse catálogo. Chamo-lhe secções tendo em conta as páginas
totalmente negras que pontuam conjuntos de poemas sem título onde
pressentimos focos distintos, se bem que no seu todo o livro acabe
por resultar num bloco escrito a três tempos. Já Insane escapa
a esta descontinuidade, prescindindo-se, por isso, do índice final. Mas porquê
“vias para a loucura”?
Baião tem mantido desde a primeira hora uma coerência
inquestionável quanto aos pressupostos de uma poesia consciente da
corrosibilidade do tempo, recusando manter-se refém dos discursos de sedução
que tantas vezes contaminam uma produção poética semelhante à publicitária. A sua obra é difícil, mas não é inacessível. Pelo menos não o é
naquele sentido hermético que se protege do leitor esvaziando os versos de
conteúdo. Esta dificuldade advém de uma opção pelo confronto com a realidade a
partir de imagens onde o declínio e a ruína ressumem a solução final. É uma
poesia profundamente marcada pela experiência da morte, na medida em que: «A
experiência da morte é a coisa mais vulgar do inconsciente, precisamente porque
se faz na vida e para a vida em todas as passagens e transformações, em todas
as intensidades como passagens e transformações» (Gilles Deleuze & Félix
Guattari, in O Anti-Édipo).
Também tomando Deleuze e Guattari por princípio, poderíamos
dizer que esta é uma “literatura” que “armadilha a sua encomenda”, colhendo
entre os escombros, os destroços, o entulho, sinais de um tempo histórico
decadente. Talvez ela se aproxime das teses decadentistas que em
tempos se opuseram, em termos teóricos, ao naturalismo. Assim sendo, deveremos
varrer, desde logo, qualquer inclinação nefelibática desta poesia, tal como
aspectos simbolistas que apenas secundariam a sua visceral ligação à terra e ao
corpo enquanto raízes a partir das quais a ruína se processa. Verificamos igualmente que esta ruína não deve ser circunscrita a cenários urbanos. É,
sobretudo, de carácter ontológico, ou seja, inerente à própria condição do ser.
Isto mesmo podemos inferir da figura humana que surge na
supracitada segunda secção de Rude, «um nado morto» (p. 42), «Um homem à beira
/ do fim» (p. 43), «baleado pelas sequelas do tempo» (p. 44), «Um morto /
milhares de mortos / por morrer» (p. 51), sendo que «Cada um é para o que
morre…» (p. 60) e, acrescentemos nós, a morte é o destino de todos. Mais do que na conclusão, a poesia está no dizer, no modo como se projecta a conclusão. Esta
surge de uma posição assumida pelo sujeito poético logo no primeiro poema do
livro, o primeiro da primeira secção:
Rever ao espelho pormenores,
dúvidas duráveis
como tudo num charco.
Vertigem confusa
os convertesse em dois
mascarados de coincidência.
Tudo parece vago neste pequeno poema, mas há nele uma força
de sentido que se impõe tanto a quem já esteja familiarizado com esta poesia
como a quem nela penetre a partir deste livro. Desde logo, devemos reter a
utilização do substantivo espelho — objecto que, em sentido figurado, mais não
faz do que tudo aquilo que é dado à poesia poder fazer: reflectir, reproduzir,
revelar por reflexo. Encontramos por vezes na poesia de Rui Baião evocações
desta relação entre o corpo e o seu reflexo, duplicidade identitária onde um
devolve ao outro a sua verdade. Dois, «Um defronte da morte do outro» (p. 55),
caminham lado a lado nestes poemas. Podemos e devemos imaginar um corpo a
observar-se ao espelho, detectando nos pormenores as pegadas do tempo (rugas,
estrias, sinais, manchas, cabelos brancos, celulite, cicatrizes); podemos
também imaginar um corpo espelhado noutro corpo, por exemplo o corpo do médico
espelhado no paciente ou no defunto (perspectiva anatómica a ter em conta).
Resultado: «dúvidas duráveis / como tudo num charco».
Mais do que as dúvidas, sempre comuns e inevitáveis,
sublinho a palavra charco. É exemplificativa de um complexo lexical pesado
(sinónimo figurado de rude), violento, de digestão difícil, composto por
vocábulos com conotações negativas, lúgubres, mas fortemente sugestivas: bílis,
ruído, asco, estilhaço, raiva, devastação, escombros, danação, miséria, entre
tantos outros que é escusado referir. Aquilo que encontramos nestes dois livros
é, pois, um percurso que nunca se desviou da sua rota, percurso modelado por
uma anti-discursividade fortemente visual, mais ligada às artes plásticas
(pintura e fotografia) do que à música. Digo isto por sentir na poesia de Rui
Baião uma superação da ideia preconceituosa segundo a qual a poesia se reduz a
composições musicais de um único instrumento (a língua) e múltiplas notas (as
palavras). Neste caso, a música é outra.
Os poemas curtos de qualquer um dois livros, fragmentários
na sua essência, exprimem através de diversas transgressões sintáxicas uma
prosódia descompassada que denota uma de duas realidades (ou as duas juntas):
despreocupação formal, intensificação de uma saturação conceptual que se está
nas tintas para a convencionalidade dos ritmos. Por vezes anafóricos, quase
sempre arrítmicos, os poemas de Rude e de Insane colocam-se acima das normas, nem
sequer as desafiam, instituem a sua própria gramática sem qualquer tipo de
apreensão com o estatuto do leitor. Tomemos de exemplo, pela sua
sugestibilidade, este poema de Insane:
Tempos idos nada excluem
e a pouca certeza cansa. Cansa
a pobreza das alíneas à volta da idade,
e a vista não alcança.
Cansam as esferas e o céu, o pagão
nas pedras, a cinza num delírio, a terra
toda. Uma mina pegada cansa
a sombra debaixo do alpendre. Cansa
o trabalho, o usufruto, o verdadeiro cansaço. Cansa
quem cante o degelo nos desertos, o arvoredo
esvaído ao que aqui venha esporrar-se. Cansa
a caveira no lixo, a ilusão, o fim perante. Cansa
a distância no que é estar perto. Cansa
a erva da morte. Maré da sorte,
o nada sem vergonha aí ao debrum.
Cansa o verme na figueira. Cansa
a noite sem assento. Cansa
a carne de palhaço, cansa
a tanta sede sem assunto.
O voo sem para onde ir
é a falta de ar.
É o típico exemplo de um poema desviante, consciente das
suas anomalias, as quais se repetem ao longo da obra como curvas e contracurvas
nas tais vias para a loucura. Porque o discurso que aqui vamos encontrar é
precisamente o discurso irregular do louco, repleto de inversões, cacofonias forçadas
— «em cova d’ir, ia» (Insane, p. 31) —, aliterações — «pura e dura, fura»
(idem, p. 7) — rimas internas — «A seringa pelas costas, / os insucessos
fatais. A medalhinha a dar sorte / a tantos presépios fiscais» (idem, p. 70) —
anadiploses (poema supradito)… Os sublinhados são meus. A própria mancha que muitos dos poemas formam
na página, de um primeiro verso mais longo a um verso univocabular (ou perto), com aquele
aspecto geral de escadaria invertida, remete para uma imagem de queda que
reproduz visualmente o recheio mais concreto dos dois volumes.
Há entre a última secção de Rude e os poemas de Insane uma
contiguidade que não passa despercebida. São poemas que se aproximam da
actualidade com uma veemência expressionista similar à que podemos encontrar,
por exemplo, num poeta como Heiner Müller. Não estou a engendrar comparações,
estou apenas a referir uma familiaridade que me ocorreu durante a leitura. Tal
como em Müller vislumbramos uma erupção dos recalcamentos da sociedade
burguesa, nomeadamente o “recalcamento da morte” (vide posfácio de João
Barrento a O Anjo do Desespero), também na poesia de Rui Baião se processa esta
explosão da moral e dos costumes burgueses (algo que, diga-se de passagem,
estigmatizou precisamente toda a arte decadentista em geral).
À questão sobre a possibilidade da poesia depois dos campos
de concentração nazis, Baião responde com um inventário de alusões que nos
obriga a ponderar o mundo e as suas circunstâncias após esse marco
histórico. E a verdade é que depois da Segunda Guerra Mundial já tivemos as
vítimas da Guerra Fria, do Vietname, do Kosovo, do Ruanda, do terrorismo
religioso nas mais diversificadas formas, temos a Palestina, o tráfico na
América do Sul, um mediterrâneo transformado em campo de concentração e o mundo
inteiro sob a ameaça dos medievos fanáticos do ISIS. Um continuum de tragédias, fatalidades e misérias do qual a poesia, enquanto reflexo do mundo, não pode alhear-se, sob pena de ser falsa, inautêntica, caricata. Estas circunstâncias contribuem para um curriculum vitae do mal que acelera o
processo de degeneração do mundo:
Onde houver um cume aceso, as fauces velhas ou a fatídica
prerrogativa dos cadáveres adjuntos. Onde se revele
a matriz branca do desdém, essas coisas assim
assim… Onde a hora torce o rabo se quiser ser
besta para sempre, ora aí está:
A poesia dos novos padres, de um vagamente
Monsenhor, tal e tal abismo junto ao adro, é só ver
ilustres de perfil, passadeiras vermelhas, capelas
com tecto de abrir, fraude às avenidas novas,
orçamento onde um muro viesse arriscar
a oportunidade e o feno da nação, silos onde
crostas fossem o sal e o joio da má vontade,
bancarrota que alicie a intentona, a ignição
ateada a altares de surpresas no estuário.
Sacristias, sucatas, hortas da minha rua,
saguão aonde ali fosse bater a cauda
do vento. Baldios, arrecadações, garagens
das traseiras aonde ali fossem colmatar
a cabeça, a sombra a andar à roda
de uma vara, ao meio do dia.
Este poema, um dos primeiros da última secção de Rude, é
revelador de uma atitude de distanciamento da poesia de sacristia,
recentrando o discurso nos males da terra, na natureza corruptível do corpo, na
recusa de uma teologia barata que responde aos anseios das pessoas despistando-as
dos factos históricos. Inscreve-se nos domínios da arte que esventra a
realidade ao encontro dos motivos que geram a superfície dos factos, não
procura seduzir através da ironia nem da ligeireza do discurso, não se disfarça
com metáforas anódinas sobre o bem que é estar vivo à hora da morte, com a cabeça projectada em futuros paradisíacos. Esta não é
uma poética assente na retórica, mais ou menos patológica, dos discursos de
sedução. Há nela um desprendimento, um desinteresse publicitário, que a torna
especial enquanto reflexo da face mais rude da vida. A tal via para a loucura a
que muito provavelmente ninguém escapa(rá).
EPIFANIAS #4
4
[Dublin: na Praça Mountjoy]
Joyce — (conclui) … São quarenta mil libras.
Tia Lillie — (sorri) — Louvado seja Deus!.... Eu
também era assim……
… Quando era jovem tinha a certeza de que casaria com um
lorde… ou alguém do género…
Joyce — (pensa) — Será possível que esteja a comparar-se
comigo?
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
QUATRO MADRUGADAS
1
É este o momento primeiro,
a luz que surge por detrás
das colinas, asas de pardal
desenhando espirais, pedras
antigas e musgo nos valados,
a geada queimando até aos ossos.
2
O oriente nasce da escuridão,
vermelho. As árvores, ainda
sem flores, sabem-no.
3
É agora. O clarão do sol a romper as
nuvens perfeitas, geométricas. A noite
rendeu-se. A noite depôs as armas:
silêncio e sombras. As aves hesitam.
E então o vento cresce, a terra acorda.
4
Também o mundo começou assim:
a luz abrindo caminhos através das
trevas. Mas o dia é finito, ainda mal
ergueu a sua claridade e já se apaga.
José Mário Silva (n. 1972), in Nuvens & Labirintos (2001). «Entre o extremo de um lirismo geralmente carregado de
emoções e sentimentos que transparecem em cada poema, e um outro pólo
representado por uma escrita pretensamente pura, branca ou isenta, que no
limite procuraria neutralizar a imperfeição humana, surgem por vezes poetas
discretos, serenos, cujo mérito parece ser o de nos falarem de um mundo que
sabemos ser o nosso mundo, mas vivido e observado através de um ângulo
diferente, que de uma forma quase imperceptível consegue destacar-se e marcar a
sua singularidade. (…) Como se manifesta, então, essa qualidade?... Desde logo,
por uma notável consciência da economia de cada poema, dos seus limites e da
sua adequação a cada um dos momentos, figuras ou situações que pretende evocar;
depois, por uma capacidade descritiva que, fornecendo-nos os elementos
necessários à compreensão dos textos e dos seus sentidos, sabe que em poesia
também não vale a pena explicar demasiado as coisas e deixa quase sempre pairar
um discreto halo de mistério, uma porta entreaberta que cada leitor, se quiser,
poderá transpor sem dificuldade (mas sem ser empurrado para aí); e, finalmente,
por uma subtil contenção expressiva, que resiste aos efeitos retóricos mais
fáceis e prefere seduzir-nos mediante processos de ligeira desfocagem da
realidade» (Fernando Pinto do Amaral, Público, 2001)
EPIFANIAS #3
3
As crianças que ficaram até mais tarde estão a arrumar as coisas para
irem para casa pois a festa terminou. É a última carruagem. Os descarnados
cavalos castanhos sabem-no e abanam as campainhas à noite escura, em admonição.
O guia fala com o guarda-freio; acenam frequentemente com a cabeça à luz
esverdeada da candeia. Não há ninguém por perto. Parecemos ouvi-los, eu no
degrau superior e ela no inferior. Ela sobe várias vezes ao meu degrau e volta
a descer, enquanto falamos, e por vezes fica ao meu lado, esquecendo-se de
descer, e depois desce…. Deixe estar; deixe estar… Por ora não realça as suas
pequenas vaidades — o belo vestido e o cinto e as longas meias pretas — por ora
(sabedoria infantil) parece-nos que este final irá saber-nos melhor do que
qualquer outro pelo qual nos tenhamos esforçado.
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
ACORDAR ASSIM
Quando estaciona o seu automóvel frente ao nº 80 da Rua Dr.
Roberto Frias, indo perpetrar mais uma aulita na Faculdade de Economia da capital
do trabalho, o Professor Cosme Vieira manifesta-se como encarnação ambulante do
aniquilamento do Homem propriamente dito, um sintoma do desvanecimento
contemporâneo da oposição entre Sujeito e Objecto. Neste «epílogo» dos tempos,
Cosme exprime a «negatividade humana», ou seja, o momento em que os homens
voltam a ser animais. O docente portuense devolve-nos à animalidade grotesca,
primordial. E a Faculdade de Economia do Porto, por sua vez, é o espaço em
que se desenrola este fim hegeliano da História, razão pela qual bem
merece ser ampliada em 6000 metros quadrados a nascente (na modalidade
olímpica «metade para salas, metade para gabinetes»).
O Malomil arrisca transformar-se numa extensa caderneta dos
cromos da nação. Não deixem de conhecer este iniludível exemplar do nosso
tecido académico. Sempre a subir. Tanto, tanto, que quando dermos por nós não
haverá fundo que ampare a queda.
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