E agora? Pela parte que me toca, podem vir todos os
especialistas do mundo contradizer o que a pele não desmente: Benjamin Sainte
Clementine é um génio. Pode não gravar nem mais uma nota. O que deixou em
At Least For Now (2014) é mais do que suficiente para que o entusiasmo não
esmoreça. Não escreveu Rimbaud tão poucos poemas? Foi a economia inimiga da
perenidade? As onze canções deste disco perdurarão como instantes que penetram
fundo o nervo da universalidade, a espinha dorsal da perfeição. Não exagero se
disser que a comparação com Antony & the Johnsons é como um 18 na pauta de
um aluno com média de 20 valores. Benjamin detém uma voz única, daquelas que
emocionam logo à primeira audição como só as melhores conseguem. Lembro-me de Lhasa
de Sela, não pelo timbre. Por aquela coisa que arrepia e não se explica senão
repousando os olhos sobre a epiderme. Faz-se acompanhar de um piano tocado com delicadeza
e aquele feeling de preto que vem dos blues, uma coisa sanguínea, isto é,
celestial. Não sei se estão a ver: blues, azuis, céu… ou mar. O fundo do mar
onde Cousteau descobriu a melhor das músicas, o silêncio. E a genialidade deste
Sainte está também na forma como trabalha os silêncios, na respiração que
oferece às notas. À medida que o disco discorre, a gente vai ouvindo as referências
que o texto final não encobre: Satie, Nina Simone, Puccini, Nick Drake... Mas ouve-as lá ao fundo, como um som que vem do
passado e readquire força, vida, não é um eco perdendo-se na distância,
é um eco ressuscitando na proximidade. Capaz de citar Churchill logo no
primeiro tema, misturá-lo com George Orwell, cantar como um profeta que traz por companhia o máximo dos mínimos (baixo, percussão, secção de cordas), capaz de nos perturbar com inquietações existenciais, as mais antigas, as essenciais, capaz
de penetrar delírios que apenas julgaríamos possíveis a uma mente perturbada
como a de Scott Walker, oferecer isso a que alguém um dia chamou “soul” a cada
palavra, a cada acorde, porque nestas composições os acordes confundem-se com palavras
a vaguear algures entre Londres e Paris, na penúria entre Londres e Paris, uma
penúria zen, divina, sagrada, a penúria do santo que caminha descalço sobre a
neve e quase nu sob a chuva, vê anjos no caminho, desenha-lhes o mapa como também
Wim Mertens desenhou em muitas das suas melhores composições. Exagero? Ora digam lá se exagero:
segunda-feira, 15 de junho de 2015
sábado, 13 de junho de 2015
DOMINGO
a Carlos Parreira
A distância entre mim e o que me circunda,
sempre a repercutir-se nos meus gestos,
aflige-me e dói-me.
Olho para aquela rua vagamente,
olho em volta de mim neste café longínquo,
e todas as coisas não significam coisa alguma
e toda a gente tem escrita no rosto
quanta traição da vida!
Ah, que não consigo ser fraterno e integrar-me
e ser despreocupado e ignorante
do meu, do nosso drama...
Bem quisera esquecer-me e enlear-me
nas coisas fúteis, ingenuamente vis,
que alimentam o destino desta gente.
Mas olho para mim e sinto-me diferente,
amachucado pela lucidez duma intuição
que todas as tentativas para imiscuir-me
não conseguem mais do que exacerbar.
Consola-me a certeza de que tudo isto é fictício,
e não me custa a renúncia, em troca deste contemplar
calado, discreto mas tumultuoso...
Lá fora há agitação e há bulício.
Paira sobre as coisas a inutilidade,
o frágil, o efémero...
(Chego às vezes a pensar que tudo não seja mais que representação.)
Cansado do espectáculo,
abandono esta mesa de café
e vou passear ilusões impossíveis,
até que a noite venha e eu recolha
à solidão do meu quarto
— mãos vazias e coração intranquilo.
Luís Amaro (n. 1923), in Dádiva (1949). «Em traços gerais, digamos que a poética de Amaro se aproxima de alguns autores presencistas, num lirismo muitíssimo subjectivista e não especialmente modernista. Régio influenciou esse registo de confessionalismo umas vezes melancólico e outras quase agónico, mas encontramos também afinidades com a musicalidade minimalista de António Botto ou Saul Dias, com alguma ingenuidade humanista de Sebastião da Gama ou com o queixume musicalmente tecido de António Nobre. O vocabulário e o imaginário de Amaro é muito simples e reincidente: existe "a vida", quase sempre decepcionante e fugaz; a solidão, sofrida em segredo, embora um segredo anunciado em versos; a lassidão face à agitação e futilidade das multidões; a "alma", que é uma forma de ânsia, de vaga religiosidade, de rectidão ética; há a noite, que encerra todas as ilusões; há uma tristeza que às vezes é quase angústia adolescente; há um "caminho" difícil e contrariado nas suas intenções iniciais; há um "sonho", que é a vontade de um voo livre e sem horizontes; há uma aceitação estóica da vida toda, dos instantes todos; há uma camaradagem de acentos vagamente sociais; há uma esperança que nasce da inquietude; e há uma crença na poesia que tudo sustenta» (Pedro Mexia, in DN, 6.ª, 14 de Julho de 2006).
A MORTE DOS DEUSES
A primeira das quatro biografias reunidas na Vida de Paulo
Leminski é dedicada ao poeta negro Cruz e Sousa (1861-1898), filho de escravos
adoptado pelo proprietário de seu pai, um mestre-pedreiro, que contra todas as probabilidades
aprendeu a ler e a escrever. É no entretanto da análise poética levada a cabo
por Leminski, sempre atenta ao detalhe e minuciosa nos aspectos que julgaríamos
menos relevantes, que encontro este argumento fortíssimo contra o meu ateísmo. Fala-se,
refira-se a título de introdução, na capacidade que a cultura negra teve para
resistir a um violento processo de aculturação que, por exemplo, praticamente
exterminou a cultura do índio. Estamos no campo da citação da citação:
«No
jornal, uma entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um
intelectual de esquerda:
— Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o
seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que
temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos
deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança,
vem a morte da música, que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia,
estaremos matando toda a árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não
pode nem deve negar nossas crenças. Porque estaria negando a nós mesmos».
Imagine-se, por arrasto, o que seria da poesia com a morte da música. Esta inquestionável
ligação da produção artística ao culto do sagrado tem uma enorme força, sendo indesmentível
em termos arqueológicos e ressuscitando o velho problema do ovo e da galinha:
primeiro os deuses ou a arte? Eu tendo a acreditar que foi a arte que gerou os
deuses, mas mesmo nesse domínio reconheço não poder escapar ao pântano da fé.
Produtos
da fantasia, por certo, mas vinculados a uma necessidade física, uma
necessidade até de sobrevivência, os deuses, enquanto personagens fictícias do
reinado metafísico, expressam (a palavra é mesmo esta) um modo de olhar para o
mundo, uma perspectiva, um modo de sentir o lugar do homem na vasta geografia
natural, expressam um modo de estar com a Natureza que, nas suas múltiplas
variantes, se resumiu a tentar dominá-la (monoteísmos) ou simplesmente aceitá-la,
venerá-la, procurar com ela um estado de fusão integrador (paganismos).
Daí que
o grande desafio do ateísmo não seja negar os deuses, como quem se ocupa de negar o
que à partida considera inexistente, mas antes empenhar-se em impedir que o deus único das três grandes religiões se imponha pela força a todo e qualquer culto do sagrado que não se reconheça na arquitectura fascista dos preferidos e dos eleitos. No fundo, trata-se de garantir que o motivo para a dança, para a música, para a poesia se mantenha vivo.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
FICHA QUOTIDIANA
Um dente nada é no teu corpo laborioso
mas na semana em que fores ao dentista
esqueces a criação do mundo
Marx Aristóteles e Von Braun.
O terramoto de Lisboa pode ser uma cárie
e a subida ao Evereste
um pé torcido.
Excedemo-nos de frases ideias inventos
sistemas equações galáxias
mas das coisas grandes do resplendor dos mitos
restam ao fim do dia papéis de embrulhos
e a electricidade nas ruas ensonadas.
Pensando bem objectivamente com o ovo da costura
entre os dedos picados
sabes os anos-luz que nos separam da Andrómeda
e ao cabo de vinte séculos descobres
que talvez Cristo seja cósmico ou apenas um berço de palha
mas recomeças invariàvelmente o teu dia às oito
com um bocejo de forçado ignorado
e comes torradas prevendo que ao bater das doze
te darão migas de coentros.
A tua contagem lunar de funcionário
tem por alvo a casa de banho
onde fumas cigarros ilícitos
e mesmo que Frank Borman chegue à Lua
e a tua espécie se extinga dentro de um milhão de anos
não deixarás de seguir pela direita apesar da teimosia dos Ingleses
e de abotoares o sobretudo pensando na gripe asiática.
Tens o nariz perfeito e para isso adoptaste figurinos de beleza
o teu engenho refundiu a terra e gerou alegorias
e nelas incluíste a Revolução de Maio e as marcas de automóveis
fabricas lacas para o cabelo polvilhadas de metafísica
mas basta um dente para te desfigurar
e lá se vão as teorias.
És belo porque belo te quiseste
belo magnífico feiticeiro
o mundo saiu-te das mãos como uma órbita corrigida
mas se o dente está fora do sítio
ninguém te vê a flora azul dos olhos
ou o bailado do gesto tendo por debaixo
as montanhas que dominas.
A Cassiopeia é longe quando a broca te perfura
ter sono é uma verdade como a fome e o dicionário
e os visons continuam a justificar adultérios.
Neste quotidiano das oito às onze
podes ser tudo ou apenas um dente
que de desfeia.
Fernando Namora (n. 1919 - m. 1989), in Marketing (1969). «O seu terceiro livro de poesia, em 1941, teve a importância histórica de iniciar a colecção Novo Cancioneiro. Durante quase vinte anos, até 1959, a sua actividade confinou-se à ficção, em que granjeou enorme prestígio, através de romances e narrativas que o colocaram na primeira fila do neo-realismo, de que evoluiu ulteriormente para uma mais ampla temática. O longo silêncio poético fez injustamente esquecer quanto sobretudo o livro de 1941 [Terra] contribuíra decisivamente para fixar certas linhas rurais e humanitárias do neo-realismo na poesia, que, nos primeiros livros, estavam ainda muito identificadas com o tom melancólico e sonhador de alguma poesia menor da presença» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). «Fernando Namora, cuja poesia desde 1937 se reuniu em As Frias Madrugadas, 1961, 6.ª edição 1978, e que principiou, em prosa, pela ficção sobre a adolescência em moldes presencistas (...), notabilizou-se pelo que, em refundição, viria a ser o único romance neo-realista da mocidade universitária (Fogo na Noite Escura, 1943, 14.ª edição ref. 1988» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura).
quinta-feira, 11 de junho de 2015
PERSIANAS
A estreia de Miguel-Manso (n. 1979) com os livros Contra a
Manhã Burra (Edição do autor, Maio de 2008) e Quando Escreve Descalça-se (Trama
Livraria, Novembro de 2008), trouxe à poesia portuguesa contemporânea uma
frescura lexical e um desembaraço formal que andavam arredados pela prática
quase invariável de uma discursividade submergida em apontamentos quotidianos,
elucubrações avulsas sobre a passagem do tempo, narrativas nocturnas e uma
retórica elegíaca inconsequente. Notou-se nesses livros uma nostalgia do belo,
uma focalização no pormenor, uma arqueologia da palavra que volumes tais como
Santo Súbito (Edição do autor, Março de 2010), Ensinar o Caminho ao Diabo
(Edição do autor, Março de 2012) e Um Lugar a Menos (Edição do autor, Março de
2012) continuaram sob a sigla genérica de “Os carimbos de Gent”. A história dos
carimbos é conhecida e não vale a pena reproduzi-la, mas talvez não seja
inoportuno relembrar alguns dos textos que dediquei a esses livros aqui, aqui e
aqui.
O peso que hoje recai sobre Persianas (Edições
Tinta-da-China, Abril de 2015) é o peso da expectativa. Embora tenha
publicado, em 2013, uma antologia pela Relógio D’Água, este é o primeiro
original de Miguel-Manso a merecer uma distribuição conforme a mediatização de
que os seus versos foram alvo desde a primeira hora. Trata-se de um livro
extenso, composto por três conjuntos onde se nota a preocupação de organizar os
poemas por núcleos temáticos distintos (ainda que interligados). O primeiro
intitula-se Campéstico, Paisagens e Interiores, o segundo ofereceu o título ao
livro, o terceiro chama-se Da Cegueira dos Pintores. Sublinhe-se, desde já, que
os nomes do primeiro e do terceiro conjuntos foram surripiados a artistas
visuais que uma nota final aponta: Campéstico, Paisagens e Interiores é o
título de uma série de pinturas de Álvaro Lapa, Da Cegueira dos Pintores é um
texto de Júlio Pomar.
A relação estabelecida entre os poemas de Miguel-Manso e o universo
das artes visuais foi sempre de proximidade declarada, podendo mesmo afirmar-se
a existência de uma imagética particularmente visual nos seus versos. São
imagens que decorrem de um ver, mas não apenas de uma postura determinística do
sujeito face ao objecto. No último conjunto deste livro, repleto de referências provenientes das artes plásticas, essa relação é problematizada nos três versos finais do poema
Folha de Sala para Sargy Mann (pintor britânico, quis o acaso, falecido à data
da publicação deste livro): «quem vir por fora estas pinturas é cego de as não
/ ver onde perduram: // diante do que em si é através» (p. 161). O remate, que
aparenta uma blague, deixa-nos, na realidade, perplexos, pois alude a uma
espécie de elo cabalístico entre aquele que contempla e o que é contemplado.
Evito a palavra fusão por nela pressentir há muito uma grande
confusão, sendo talvez mais correcto falar-se de um circuito mediado pelos
sentidos que faz a imagem perdurar na emoção gerada pelo instante. «O enigma
consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível», dizia
Merleau-Ponty, acrescentando que «o espelho aparece porque eu sou
vidente-visível, porque há uma reflexividade do sensível, que ele traduz e
redobra. Através dele, o meu exterior completa-se…» De algum modo este diálogo
reproduz os efeitos do poema face ao leitor, ou seja, o que o leitor recolhe no
instante da leitura é uma visão que coloca o pensamento numa encruzilhada de
sensações e de emoções. Daí que, e ainda com Merleau-Ponty, devamos dizer que
«A arte não é construção, artifício, relação industriosa com um espaço e um
mundo exteriores. É verdadeiramente o «grito inarticulado», de que fala Hermes
Trimegisto, «que parecia a voz da luz»».
Ora, alguns poemas de Miguel-Manso, mais os do terceiro
conjunto, são como que esse «grito inarticulado que parecia a voz da luz». Na
sua aproximação às obras de arte convocadas, eles estoiram para lá das molduras
em dedicatórias a amigos, inúmeras reflexões sobre a escrita — por vezes, em
estreita comparação com a pintura: «a escrita — a pintura — é como apertar uma
vagem / de baunilha // custa e gasta-se» (p. 111) —, apologias do
desprendimento em invocações onde a atitude dos artistas é mais motivo do que
as suas obras (Gauguin sem calças a tocar harmónio, O pijama de Matisse, O
tronco nu de Picasso, A camisola do Miró, Cesariny de roupão ao piano),
anotações biográficas, diversões gráficas, reflexões intimistas, justaposições
identitárias inesperadas (Paris, hôtel de Nice, Turim, Hotel Roma, Paris, hôtel
La Louisiane, Porto Alegre, Hotel Majestic), raras mas contundentes farpas à
actualidade:
PLÂNCTON
para o Luís Pedroso
a moedagem por que tudo se rege
desde o início até ao cabo dos prazos
onde a coruja económica plana sobre
a cegueira do aperto ecuménico
e nos diz que seremos felizes já no terceiro
semestre do corrente
se são anos complicados
até para o gozo dos banqueiros o que será daqueles
que se abancam dia e noite
na desgraça
a salvo disto estão felizmente os poetas
alimentados do éter
e do plâncton
Irónica quanto baste, por vezes inflectindo na direcção de
um humor escarninho, esta poesia não se restringe, porém, a tais efeitos. Num
certo sentido podemos até julgar que os evita, depois de os ter explorado ao
limite suportável em livros anteriores. Noutro sentido, há um elemento
biográfico revelado na nota de badana que marca fortemente os dois primeiros
conjuntos da colectânea: «Viveu em Almeirim e em Lisboa. Hoje mora numa aldeia
do concelho da Sertã». O regresso às origens rurais é uma marca fortíssima
tanto em Campéstico, Paisagens e Interiores como em Persianas, a qual se
manifesta em elementos que podemos resumir a partir da leitura do poema 27, que
me parece central, do primeiro conjunto:
Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.
CESÁRIO VERDE
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
cercado de hábitos
e de conteúdos que nada e que tanto
predizem
cascalho que o íntimo da casa
importa para o malquerido usufruto
porcelanas que reluzem a cada almoço
aquém e além persianas
coisas
que multiplicam até ao sufoco
e pior que coisas a qualidade que têm
que lhes pomos
escrevo nomeando tudo
e tudo transcende o nome que tem
tudo alarga de inominável
brilho
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua alcatroada
o mesmo alvor mas filtrado têm
os matizes domiciliados as translucidezes
de que me sirvo para inteirar
o esqueleto confuso destes versos
triste — e clemente — quem neles pousa
agora o olhar
Num livro repleto de epígrafes (Álvaro Lapa, Bíblia,
Catarina Barros, Daniel Faria, Herberto Helder, João Barrento, João Vário, José
Tolentino Mendonça, Leonard Cohen, Omar Khayyām, Rumi…), esta de Cesário Verde
é sintomática de uma relação aberta com a tradição. Provenientes do poema Num
Bairro Moderno, estes versos de «Cesário, o poeta-pintor («pinto quadros por
letras, por sinais»)», segundo Maria Ema Tarracha Ferreira, são
exemplificativos de um modo de cantar as rotinas citadinas ao qual Miguel-Manso
irá contrapor a luz do campo, não sem ironia ter sabotado Cesário cá mais para
o fim. No original, lemos «A larga rua macadamizada» onde agora está «A larga
rua alcatroada». Esta transformação da paisagem não denuncia apenas o efeito do
tempo sobre as coisas, pelo menos não tanto quanto a actualiza. As ruas
macadamizadas de agora são outras, perduram enquanto tradição onde a
contemporaneidade opera transfigurações mais ou menos radicais.
Logo nos primeiros versos deste poema encontramos, de igual
modo, uma alusão a Fernando Pessoa e ao conhecidíssimo poema O Quinto Império.
São também inúmeras as alusões que atravessam Persianas: Flannery O’Connor,
Zbigniew Herbert, Annemarie Schwarzenbach, Pedro Homem de Melo, Manuel
Bandeira, Mário de Sá-Carneiro, Arvo Pärt, Rosa Ramalho, Morandi, Seurat, Van
Gogh, só para dar uma ideia da manta de retalhos… Mas o Quinto Império de
Miguel-Manso é de índole doméstica, não acusa ambições messiânicas,
concentra-se nas ruas da aldeia do concelho da Sertã para onde o poeta se mudou
e nas outras, as da infância, que vêm de quando em vez à memória e transcendem
a aleatoriedade caótica das lembranças para se inscreverem no texto já com flutuações
que não apenas as das reminiscências acidentais. É o império dos campos, do céu
aberto, do sossego, da paz, do silêncio, da luz que atravessa os dias e da
noite que cai sobre as horas, é o Império daquele que sente e pensa e escreve e
retrata os dias, é o Império das palavras, que o poeta resgata obsessivamente e
faz reviver em renovados contextos de sentido e de significado.
Há porém uma dimensão saturante nestes textos que importa
apontar. Refiro-me a um recorrente, insistente, permanente questionamento sobre
a escrita, a natureza da poesia, as capacidades do poema, uma insistência que
de algum modo defrauda e contradiz a desimportância da poesia que Miguel-Manso
sublinha a páginas 103. Mais irritante ainda quando estes tormentos são
reforçados pela pose do poeta que se dirige ao leitor: «perdoe o sensato leitor
eu insistir / ali e aqui no gracejo fácil» (p. 44), «uma pausa ó único leitor
// que na desordem em que está / a tua vida e a minha veio meter-se de novo /
este livro antigo» (p. 60), «(o leitor não precisará de encher um edredão?)»
(p. 84), «leitor pondo / à laia de São Tomé o dedo nesta ferida» (p. 93), ou,
na sua versão derradeira, o último poema do livro:
O GORILA INVISÍVEL
leitor — lépido multiplicador
de esquecimentos — que porventura examinaste
o dom e a mácula destes versos
brancos
terás visto o gorila?
Trata-se de um impulso que talvez pudesse ser refreado,
senão mesmo evitado, sob pena de afectar desnecessariamente a tal relação
estabelecida entre o sujeito e a obra que no início referíamos. As figuras,
isto é, os poemas, que o leitor observa/contempla não são meios de comunicação
onde o objecto possa impor-se ao sujeito, pelo menos segundo os pressupostos
que as persianas permitem antever quando abertas pela leitura. Forçar esta
relação significa adulterá-la. Que o poeta não pense e não se preocupe com o leitor é tudo
quanto dele esperamos.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
MITOS URBANOS
Relvas pede desculpas ao "Público" mas repudia
denúncia de ameaças ou pressões
PS, PCP e Bloco de Esquerda querem a demissão de Rui Machete
a propósito do pedido de desculpas a Angola
Marques Mendes afirma que Gaspar devia "pedir desculpa"
Vitor Gaspar pede desculpa por ter faltado a três audições
Passos Coelho pede desculpa por medidas de austeridade
Miguel Macedo exige desculpas de associaçao da GNR
Crato pede desculpa aos professores e aceita demissão de
director-geral
Citius. Ministra pede desculpa pelos "transtornos"
EPIFANIAS #12
12
[Dublin:
na casa dos Sheehy, Belvedere
Place]
O’Reilly — (com uma seriedade
crescente). . . . Agora
é
a minha vez, creio. . . . . (absolutamente
sério).
. . . Quem é o seu poeta
favorito?
(uma
pausa)
Hanna Sheehy — . . . . . . .Alemão?
O’Reilly —. . . . . . Sim.
(um silêncio)
Hanna Sheehy — . . Penso que. . .
. .Goethe. . . . .
terça-feira, 9 de junho de 2015
UM POEMA DE ANTÓNIO PEDRO
Ao Guilherme de Faria
e ao Manuel de Castro
XI
Será breve?
Será longa?
Breve ou longa, será longa
Para Além,
Minha vida
Consumida
Só por só,
Neste viver
Sem querer
Mais nada que querer bem.
...E os outros passam...
— Se passam,
Que tem?
Antes bem só,
Do que estar inda mais só,
Com todos e sem ninguém!
António Pedro, in Primeiro
Volume - Canções e Outros Poemas / 1927-1935, XI poema do conjunto Distância (1928), Edições
Revelação, Lisboa, 1936, p. 47.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
TEORIA
A obra de arte é um espectáculo onde agem diferentemente o artista e o público. O que é passado do primeiro deve poder ser sempre o presente do segundo. Isto exige, além duma verdade emocional sem entraves, uma expressão sensível controlada.
Não há criação artística independente da forma. Esta deve ser para o conteúdo ó «único» veículo de comunicação, quere dizer: a obra de arte deve ser intraduzível por outros meios que não sejam aqueles de que se serviu o artista.
A arte não é um ideal humano. Afirmá-lo é desconhecer a realidade dolorosa da sua exigente humanidade. Também não é uma atitude preconcebida. Também não é um divertimento estético. Também não é um afinamento do vulgar. Também não é uma vulgarização do sublime. Não é também uma sublimação do humano. Sublime ou humana ou vulgar ou elegante, ela é apenas um estado de espírito particular que se caracteriza por um desejo «imperioso» de exteriorização objectivada.
Só a obra de arte interessa. Por ela, o caso individual, particular do artista, se transforma num caso social. Êsse o mistério que a sagra. O «estado de arte» não pode interessar senão pelos seus resultados na realização da «obra».
Não há cinco artes. A arte é uma palavra sem plural. A sua objectivação pode servir-se de todos os meios encontráveis. O que diferencia essencialmente as suas formas de expressão é a «atitude» do artista.
Poesia quere dizer: ritual exaltação sensível. Música quere dizer: ritual exaltação rítmica. Dança quere dizer: ritual exaltação corporal. Pintura quere dizer: ritual exaltação analítica. Escultura quere dizer: ritual exaltação formal. De resto, tudo isto não tem senão uma importância particular. «A arte é um rito mágico essencialmente humano, tocado de exaltação».
António Pedro, in Primeiro Volume - Canções e Outros Poemas / 1927-1935, Edições Revelação, Lisboa, 1936, pp. 21-24.
UM POEMA DE RUI COSTA
J.
Na bicicleta tão pequena tu eras grande
de mais. Saltando muros, levantando a
roda, até os meus tios vinham ver-te
às voltas no terreiro de asas nas rodas
e jeito tão azul. Mas um dia
ganhei-te na corrida. Tu sorriste,
deste-me piratas e eu nunca soube bem porquê.
Mas não foi por causa disso que morreste.
Um dia de manhã os teus pés parados sem saber.
Morreste nesse dia e eu nem sequer
chorei. Não é preciso, amigo.
Chegaste primeiro desta vez. És o maior:
A morte é uma bicicleta, tenho
a certeza disso.
Nota: com um agradecimento à Cláudia Souto pela partilha da imagem.
domingo, 7 de junho de 2015
UM POEMA DE MIGUEL-MANSO
sobre poesia
duas coisas: é menos importante
do que se crê
e devia ter ainda menos leitores
havemos de voltar todos de Pasárgada
símios de parecida frouxidão
Miguel-Manso, in Persianas, Edições Tinta-da-China, Abril de 2015, p. 103. Nota: não gosto deste poema, talvez venha a explicar(-me) porquê em futuras elucubrações.
quinta-feira, 4 de junho de 2015
LÓGICAS MENTAIS
Ligaduras em volta dos pés na China; alongamento do pescoço com anéis no povo padaung; limagem de dentes, furos no nariz, nas orelhas ou nos lábios nas tribos da Amazónia; escarificações e tatuagens polinésias; esmagamento da caixa craniana no Peru, tudo isso procede do mesmo pensamento mágico que está na origem da excisão e infibulação africanas ou da circuncisão judaica e muçulmana. Marcação do corpo por razões religiosas, sofrimentos rituais no sentido de conquistar a sua integração na comunidade, práticas tribais destinadas a atrair sobre si a bênção dos deuses, as razões não faltam - para não falar das hipóteses psicanalíticas.
Porquê sorrir da cavilhagem da glande na Oceânia, da castração dos skopzi russos - uma seita em ofício entre o século XVIII e os anos 20 do século XX... -, da subincisão australiana - pénis fendido do meato até ao escroto, a todo o comprimento?... As lógicas mentais, os pressupostos ontológicos, as doses de pensamento mágico são exactamente os mesmos. A não ser que consideremos bárbaro o que não é do nosso uso - já dizia Montaigne... -, como aceitar e legitimar as nossas mutilações ao mesmo tempo que recusamos as do vizinho?
Michel Onfray, in Tratado de Ateologia, trad. Francisco Oliveira, Edições ASA, pp. 103-104.
OBRIGADO
Não está em causa gostar ou não gostar do actual presidente,
o do “ânus onde temos duas nádegas que se enfrentam e dizem: ‘Estou aqui e sou
melhor do que tu’”. Não está sequer em causa o “vento mal cheiroso ou trampa”
que estas transferências patrocinadas por negócios obscuros possibilitam. Está
em causa a falta de ética de Jorge Jesus e a esperteza saloia de Bruno de
Carvalho. Pela parte que me toca, agradeço a Marco Silva desejando-lhe um
futuro cheio de sucessos. Mesmo que seja no Benfica.
BEND OF THE RIVER (1952)
Já tenho referido a importância do argumentista Borden
Chase (n. 1900 – m. 1971) na edificação daquilo a que podemos chamar o mito do
homem americano, alicerçado numa cultura popular que encontrou no western um dos seus
pilares fundamentais. Filmes como Red River (1948), de Howard Hawks (n. 1896 –
m. 1977), este Bend of The River (1952) e The Far Country (1954), de Anthony
Mann (n. 1906 – m. 1967), ou mesmo Vera Cruz (1954), de Robert Aldrich (n. 1918
– m. 1983), e Backlash (1956), de John Sturges (n. 1910 – m. 1992), são
excelentes exemplos de uma obra onde a moral cristã sobressai entre os
escombros de uma humanidade assaltada pelo vício. Com a vontade iluminada pelo bem,
os heróis de Borden Chase são figuras bíblicas em território norte-americano,
esse paraíso corrompido pelo pecado a renascer perpetuamente pelas mãos perseverantes
e determinadas de indivíduos corajosos, de sentimentos nobres, capazes de
distinguir o bem do mal como uma maçã podre de uma saudável.
A metáfora da maçã
surge em Bend of The River/Jornada de Heróis enquanto leitmotiv de uma história onde
a fé nos homens se alimenta do livre arbítrio ao qual se entrega o destino das
almas, tornando assim a consciência do pecado e a vontade de mudar o princípio
de um perdão que é, para o bem e para o mal, a lei absoluta da moral cristã. Não
importa o que foste no passado, conquanto as tuas decisões no presente
reflictam o que pretendes ser no futuro. As personagens interpretadas por James
Stewart e Arthur Kennedy são, deste modo, uma espécie de Caim e de Abel que se
confrontam por neles existir uma vontade de mudança com intensidades diversas.
Arthur Kennedy é Emerson Cole, o salteador do Kansas que Glyn McLyntock (James
Stewart) salva da forca por mero acaso. Foi Deus que os juntou nesta jornada a
caminho das terras banhadas pelo Columbia River, onde um grupo de agricultores
pretende instalar-se para levar uma vida sã sob os auspícios do Senhor. Fogem
do pecado que contaminou as terras do Missouri, guiados por um ex-salteador que
esconde o seu passado em busca da confiança desta gente entre a qual pretende
refazer a vida e viver o futuro.
O que temos aqui em causa é o problema da natureza humana, da singularidade dos homens e da sua inconstância. Nascerá um homem com o destino marcado?
Pode a natureza humana ser educada? O pecador tem salvação? Emerson Cole é a
maçã podre sem cura nem tratamento, incapaz de resistir às tentações do ouro e
das suas febres fatais. É o pistoleiro que não hesita na hora de disparar,
advertindo os companheiros de que o perdão mata. Por isso ele atira a matar
quando outros atiram a dissuadir. Errático, inconstante, prefere qualquer
recompensa material a um humilde agradecimento. Glyn McLyntock é a
outra face da mesma moeda. Também ele foi pistoleiro, as marcas da corda no
pescoço são cicatrizes que pretende esquecer. Quando interrogado sobre
aquilo de que foge, responde fugir de si próprio. É um homem em busca de uma
nova vida, quer reconstruir-se e por isso resiste, em nome disso retrai-se,
também por isso hesita, mas sem nunca vacilar na sua determinação como um
toxicodependente totalmente empenhado em recuperar-se. Aproxima-se dos
colonos e serve-lhes de guia, quer provar a si próprio e, por
consequência, aos outros que não é como uma maçã podre, que é um homem e que os
homens podem mudar, podem controlar a sua natureza, podem resistir, podem
escolher a via do bem depois de terem crescido na via do mal.
A encruzilhada onde os
dois se cruzam é a encruzilhada da ética cristã, filmada por Anthony Mann com
um respeito que não põe em causa os preceitos algo reaccionários de Borden
Chase mas que de algum modo os problematiza. McLyntock terá de matar Cole
depois de lhe ter salvo a vida, para que os colonos sobrevivam um grupo de
mineiros irá provavelmente morrer à fome e ao frio. Porquê optar por uns em
detrimento de outros? Porque uns plantam árvores e os outros garimpam? Talvez a
resposta esteja em Julie Adams, a bela Laura Baile, filha do líder dos colonos,
Jeremy Baile (Jay C. Flippen), quando convalescendo de uma seta espetada no
ombro escuta a música que vem das ruas e diz, com ar pesaroso, que por vezes
dançar enleva mais o espírito do que o sossego. É este o dilema das almas
desassossegadas: incapazes de se adaptarem ao entediante sossego do lar, ficam
à distância a escutar o rufar dos tambores com a vontade reprimida no
coração. McLyntock não foi mais forte apenas por estar do lado certo. Foi mais forte porque não reprimiu a sua vontade na hora de escolher.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
DOIS POEMAS COM MANETAS
Chove e há
Turistas musculados de t-shirt
A saírem aos pares
De monumentos nacionais.
Há também
Gente autóctone que trabalha
Ali perto
E passa depois do almoço.
Todos felizes da vida
Por serem humanos;
Até o maneta,
Que atrapalha o trânsito
Com obscenidades
Por não ter nada a perder.
(e esse mais do que os outros)
Rui Almeida, in Leis da Separação, Medula, Setembro de
2013.
***
vê-se daqui
um edifício alto batido pelo Sol
um edifício alto batido pelo Sol
a única árvore da rua
a macieira inacessível naquele vazio
entre casas
depois do muro
o recreio de uma escola onde
já se sabe
nada de bom se ensinará
uma loja falida
uma padaria encerrada
a florista de plástico
e na drogaria do maneta uma mão
lava a mesma
vejo-me reflectido no vidro
diáfano defectível:
chegou o tempo dos fantasmas
Miguel-Manso, in Persianas, Tinta-da-China, Abril de
2015.
MATÉRIA DE SUPORTES
Para os que ainda duvidam das extravagâncias possíveis das religiões em matéria de suportes, reenviamos para a dança da urina nos Zunis do Novo México, para a confecção de amuletos a partir dos excrementos do Grande Lama no Tibete, para a bosta e urina de vaca nas abluções de purificação dos hindus, para o culto de Estérculo, Crépito e Cloacina nos Romanos - respectivamente divindades do esterco, do peido e dos esgotos -, para as oferendas de esterco oferecidas a Siva, a Vénus assíria, para Suchiquecal, que consome os seus excrementos, a deusa mexicana e mãe dos deuses, para a prescrição divina que manda utilizar as matérias fecais humanas para cozer os alimentos no livro de Exequiel e outras vias impenetráveis ou maneiras singulares de travar uma relação com o divino e o sagrado...
Michel Onfray, in Tratado de Ateologia, trad. Francisco Oliveira, Edições ASA, Setembro de 2007, p. 34.
terça-feira, 2 de junho de 2015
domingo, 31 de maio de 2015
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