sábado, 11 de abril de 2015

DESCOMPASSO

A palavra intercâmbio inspira-me desconfiança, mais quando aplicada a uma putativa troca de experiências entre escritores da mesma língua espalhados pelo mundo. Não percebo como pode um escritor partilhar experiências senão exercendo o seu ofício e colocando-se ele próprio no lugar de leitor. Normalmente, o intercâmbio assume o significado de viagem e a partilha resume-se a almoços e jantares de conversa feita e colóquios para inglês ver. Intercâmbios entre brasileiros e portugueses são um forte aliciante, sobretudo para quem venda livros e esteja interessado em, como se diz, penetrar mercados. Daí serem muito mais frequentes em cidades brasileiras do que, vá lá, entre portugueses e guineenses. Tais intercâmbios fazem-se acompanhar de outro fenómeno, o de elevar à condição de novidade um português abrasileirado. São cada vez mais frequentes os escritores portugueses que abrasileiram os seus textos, sendo isso especialmente visível, e recebido até com patético entusiasmo, no universo da poesia. Não percebo que optem sempre por abrasileirar quando tantas alternativas se abrem no universo da comunidade de países de língua portuguesa. Podiam "acrioular" a língua com ucôkwe, kikongo, kimbundu, umbundu, nganguela, ukwanyama, kriol, emakhuwa, xichangana, elomwe… Só em Moçambique têm para cima de 40 possibilidades, para não falar do tétum de Timor ou do fang desse país irmão que é a Guiné Equatorial. A insistência no "brasilês" é algo mísera e fixada, ainda que se entenda a sua conveniência e eventual fascínio. Seja como for, os verdadeiros intercâmbios escapam a tais assimilações espúrias. Não se exercem tanto no domínio da mera citação, fazendo incluir aqui e acolá termos caídos do saco lúdico ou articulando sintaxes que qualquer emigrante pratica com a mais natural das formas, como se exercem no domínio do conhecimento. E para isso é necessário haver curiosidade pela língua, não basta a postura interesseira do fica bem. É preciso desbravar a língua como quem corta mato numa floresta. Um bom exemplo desse intercâmbio desinteressado e inteligente é-nos oferecido na obra de Ruy Duarte Carvalho (n. 1941 – m. 2010), autor sobre o qual o esquecimento pesará mais cedo do que seria desejável. Razões para tal só a preguiça conhece. A dos leitores é compreensível, mas a dos seus pares, que também deveriam ser leitores, é inaceitável. No entanto, e porque voltei a pegar nele recentemente, recordo aqui um outro exemplo inteligente e nobre de um verdadeiro intercâmbio exercido no domínio de uma mesma língua praticada em países diversos. Recordemos um simples poema do livro Descompasso (Moraes Editores, 1986), de José Blanc de Portugal (n. 1914 – m. 2000):

CONFESSIO QUAM UTILIS
Catecismo do Concílio de Trento

Não me envergonho de passar por ser já carioca
na imagem dos que o não são:
mandrião, apaixonado, amado e traído.
Só não demasiado esfomeado ou duro
me envergonho, sim,
por não ser como eles tão humanos
tão naturalmente impuros
de não ter vindo para cá há uns cem anos
trabalhador, amorudo, querido ou temido.
Me envergonho de não ser como o Manel Cozinheiro
que fazia sambas lindos na Mangueira
português de lei que é sempre brasileiro cidadão do mundo
porque diz sempre mal de todo o mundo
mas entra na roda de samba de uma qualquer esquina.
Me envergonho
de não cantar gritando ao mundo inteiro
como venci a última cegueira
chorando ou rindo o dia inteiro
por amores verdadeiros ou que a gente imagina.
Me envergonho de me não chegar o anel de uns cabelos queridos
não me chegar o que tive ou tenho de carinhos —
Me envergonho não, querida,
de não ter vergonha dos tempos perdidos
que afinal vão salvando a minha vida.
Não me envergonho de dizer que minhas mãos são passarinhos
voando sempre à espera de te encontrar.
Não me envergonho que tu possas mudar
Se, para mim, sempre igual te hei-de achar.
Não me envergonho que me julgues igual a toda a gente
porque hás-de por força sentir que sou diferente
e não me importo que por um momento
seja tão vulgar teu pensamento.
Me envergonho de, por tantas,
igualmente ter rido e chorado.
Não me envergonho de assim ir vivendo e ter vivido:
Mandrião, apaixonado, amado e traído…
Não me envergonho de alegria e dores:
Traição? Só na paixão; o resto são amores.

Sábado, 13 de Dezembro de 1975; 15 h e 33m do tempo local do Rio de Janeiro…

O apontamento final não engana sobre o lugar de contaminação da língua, a qual assume uma plasticidade extraordinária através de simples variações na distribuição de pronome pessoal, advérbio e verbo no início dos versos anafóricos. Livro singularíssimo, Descompasso veleja num Atlântico onde se misturam formas e meios expressivos que aproximam contextos poéticos multiformes. O brasileiro, fortemente marcado pelo concretismo que Blanc de Portugal não enjeita. Antes pelo contrário, integra-o em experiências que transformam as palavras em números, invertendo a lógica do sentido enquanto busca novas significações rítmicas. Por outro lado, o peso modernista e, subsequentemente, a herança surrealista portugueses são igualmente convocados. As 5 Odes Mar-Íntimas lembradas por versos de A. M. Lisboa conjugam com especial alegria esses estádios de desenvolvimento da nossa tradição poética. E depois há poemas como esse com que encerrarei a prosa, poemas que nos ensinam que o verdadeiro intercâmbio entre escritores faz-se não deixando morrer o que de uns há noutros. Lendo, lendo e escrevendo. O resto é espectáculo:

PODER OU QUERER

Será: «querer é poder» ou «poder é querer»?
Até o velho Tobias Barreto escreveu isto
não sei em qual das formas…
Ociosa interrogação? Não me interessa realmente.
O que creio é que podemos tudo o que realmente queremos.
Dos três dons do Espírito Santo — Memória, Entendimento
e Vontade (que ordem admirável em crescendo hierárquico
mas trindade só perfeita quando completa!) —
— vontade o único criador!
Sinto demasiado heteróclita a minha memória;
muitas vezes avaliarei mal o meu entendimento;
a vontade é-me sempre demasiado hesitante por…
falhas de entendimento se não de memória…
Num diálogo escrito há mais de um ano,
a minha interlocutora atingiu nesse ponto a
última verdade quanto às nossas mútuas
claudicações da Vontade, do Querer.
Será que para mim (ou para toda-agente?)
o mais difícil é atrevermo-nos a desvendar
o íntimo do nosso Querer?
Quanto de falso-querer atribuímos
ao que, afinal, é apenas um vago sentir-desejo?
Este inferno de pensar-pensar a que me conduz?
Não sigo no pensar qualquer caminho.
É um pensar-olhar; qualquer coisa como viajar
apenas com os olhos sobre a representação abstracta
de uma região da qual se conhecem apenas alguns pontos
e essa representação, uma carta geográfica, ela mesma esfumada
e ilegível na sua totalidade e que em nada ajuda a perscrutar o pormenor.



José Blanc de Portugal, in Descompasso, Círculo de Poesia – Nova Série, Moraes Editores, Lisboa, 1986.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

DEMOCRACIA

O pior que podia acontecer à democracia em Portugal está a acontecer. Depois do triste espectáculo das autárquicas, tivemos o triste espectáculo das europeias (com consequências já de todo esquecidas). Chega-nos agora, por antecipação, o triste espectáculo das presidenciais. Professor Herrero, está à espera de quê?

CAMINHEMOS SERENOS


Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
                   caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
                   caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
dos que nem com a morte podem vencer-nos
                   caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
                 caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
                  caminhemos serenos.


Papiniano Carlos (n. 1918 - m. 2012), in Caminhemos Serenos (1957). «Integrando-se no movimento neo-realista, a sua poesia representou nele uma expressão mais francamente protestativa e retórica do que a de outros poetas como Mário Dionísio, Cochofel, Carlos de Oliveira ou Manuel da Fonseca. Exclamativa, anafórica, repetitivamente cheia de imagens e metáforas de escola ou, mais exactamente, do estilo de protesto cifrado, que ela for forçada a desenvolver, escapou no entanto à atmosfera de Afonso Duarte, presença e Miguel Torga (que algo pesou no grupo inicialmente coimbrão), e correspondeu aos aspectos de libertarismo apaixonado que o movimento sobretudo assumiu nas suas manifestações portuenses durante os anos 40» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

[Ópera humana...]


Ópera humana...
Onde o cantor é um operário
A construir e a destruir:
Cria ruínas e, a seu lado,
Ergue um castelo ao imaginário,
Erguido no presente com a sombra do passado
E para a luz sombria do futuro.
E, enfim, lá canta a sua música
Feita de carne ou lama,
De pus ou chaga, de sorriso ou lágrima...

O instrumento e o palco
Somos nós
E o pensamento da obra nós julgamos
O nosso pensamento.
Mas ele,
Só ele sabe de cor o seu papel.

...Os ramos
Duma árvore partida
Parecem perguntar ao vento:
Aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!

Pergunto ao pensamento: aonde vou?
Responde, idealizando um novo plano
Topográfico: fica à tua espera;
Diz o silêncio: tu és só o teu inesperado!...

Parecem perguntar: aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!
...Os ramos
Da árvore partida!

António de Navarro (n. 1902 - m. 1980), in Ave de Silêncio (1942). «Entre os poetas mais directamente ligados à presença, mencionemos (...) António de Navarro (...), cujo ritmo e metaforismo, muito livres e cortados de suspensões ou descontinuidades, procuram forçar os limites entre a consciência e a natureza (Poemas de África, 1941; Ave de Silêncio, 1942; Poema do Mar, 1957; Metal Translúcido, antologia, 1968)» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

ELOGIO DAS GREGUERÍAS


A edição data de 1998, mas a etiqueta da FNAC é de 16/04/07. Deve ter sido por essa altura que li as Greguerías, selecção levada a cabo por Jorge Silva Melo (uma das poucas figuras públicas decentes deste país). No prefácio, explica-se que foram sendo publicadas, entre 1910 e 1963, em opúsculos e jornais. Citação sobre citação, diz-se ainda: «nasceu naquele dia de cepticismo e cansaço em que peguei em todos os ingredientes do meu laboratório, frasco a frasco, os misturei, e do seu precipitado, depuração e dissolução, surgiu a greguería». Sublinho, sublinhei: naquele dia de cepticismo e de cansaço. Ramón Gómez de la Serna (n. 1888 – m. 1963) é autor de uma vasta e diversificada obra, a qual conflui à laia de síntese nesta algaraviada onde o aforismo encontra o fragmento, este se cruza com o epigrama e da ménage surgem micronarrativas ou, se preferirem, brevíssimos poemas de uma linha só: «A gaivota rema ao voar». Quando é aforístico soa assim: «A felicidade consiste em ser-se um desgraçado que se sente feliz». Quando é epigramático diz: «Há ventiladores que se sentem bispos e só fazem é dar bênçãos em redor». Pode efabular: «A mosca pousa no que está escrito, lê e parte como se desprezasse o que leu. É o mais exigente crítico literário». Ou pode narrar: «Tinha uma memória tão má que se esqueceu que tinha má memória e começou a lembrar-se de tudo». Por vezes, surgem diálogos: «— Há peixes no sol? / — Há. Fritos». Noutras ocasiões, a poesia impõe-se: «Na gruta boceja a montanha». Mas mesmo fragmentário, revela mais do que muitos tratados: «A vida é dizer-se «adeus» a um espelho». As Greguerías não são apenas um compêndio de ditos espirituosos, de chalaças e de trocadilhos, de brincadeiras com as palavras ao acaso dos humores. Ramón tentou defini-las:

   Mas o que são as Greguerías?
   Frases lapidares? A greguería não sai de debaixo de nenhuma lápide mortuária. Adágios? Refrões? (sic) Nã, nã. Nem uns nem outros: nem adágios, que são demasiado tristes e elegíacos; nem refrões (sic) que são coisa infecciosa.
   Nela não deve haver sentimentalismo rabilargo nem pirismo rabicurto, nem descrição. Longe de serem calinadas ou lugares comuns.
   Têm qualquer coisa de tropo, porque no tropo as palavras podem ser ditas em sentido diferente do natural — mas atenção! não seja o tropo flor de trapo — e em quarto ou quinto apelido leva o de Sinédoque, porque se permite nomear a parte pelo todo, e por sexto ou sétimo apelido o de Metonímia, porque pode nomear uma coisa com o nome de outra.
   São aforismos?
   O aforístico é um género — já se disse — que não encolhe porque a sua brevidade o não permite.
   Não. Também não é aforística a greguería; o aforismo é enfático e opinante. Não sou um aforista.
   Fica-se então pela metáfora?
   O material e o imaterial podem ser objecto de metáfora.
   Todas as palavras e frases morrem na sua origem correcta e literal, e só atingem a glória quando passam a metáforas, porque as metáforas as tornam abstractas e embalsamadas.
   A metáfora multiplica o mundo, não ligando à retórica que proíbe enlaçar as coisas só porque é importante para o fazer —
   Humor + metáfora = greguería.


A fórmula não encerra a natureza híbrida e dúbia dos ditos, nem sempre humorísticos — «As andorinhas bordam no céu dos seus voos o manto que pensam oferecer à Virgem» —, nem sempre metafóricos — ««Idem» é uma palavra de poupança». As greguerías erotizam o pensamento. Não o digo influenciado por aquelas em que o elemento erótico surge explicitamente — «Decote grande: perfume sem tampa». Digo-o no sentido de haver nelas ideias capazes de seduzir pelo tom, pela pose, pelo estilo em que se apresentam. São a dimensão lasciva da linguagem. E essa capacidade é um bem escasso, rareia cada vez mais num mundo de ideias feitas conformado com a banalidade dos dias. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

COMO SE NADA FOSSE

José Alberto Oliveira (n. 1952) contava quarenta anos quando se estreou em livro com Por Alguns Dias (1992). Apesar da colaboração dispersa por publicações colectivas na década de 1980, foi uma estreia algo tardia se compararmos com alguns dos seus contemporâneos. Emanuel Jorge Botelho (n. 1950) publica os Primeiros Poemas em 1978. Manuel Fernando Gonçalves (n. 1951) aparece m 1985. Jorge de Sousa Braga (n. 1957) em 1980. São apenas três exemplos, respigados numa mesma geração, de estreias mais precoces. O facto, em si, não determina nada. Não podemos sequer concluir que a maturação de uma voz garanta coesão ao todo, embora por vezes nos sintamos tentados a supô-lo. A verdade é que uma mesma atenção ao quotidiano, ligada ao passado através de reminiscências nem sempre claras nos seus aspectos biográficos, percorre os poucos livros que este poeta discreto foi publicando na Assírio & Alvim. A biografia oficial não esconde, porém, alguns detalhes: médico cardiologista, nasceu em Souto da Casa, no Fundão. A ligação à província não foi rasurada dos versos, assim como esse pormenor profissional que pesa de modo fulcral no livro mais recente. Tomemos de exemplo o poema que ofereceu o título à recolha:

SEM TÍTULO

Quando percebemos que a vida
é um calafrio na imensa apirexia
que a rodeia — quinze lustros graças
à higiene e à penicilina (e ninguém
assegura tratar-nos a febre)
temos de reconhecer como é grande
a nossa malícia — exigir a cada dia
que outro lhe suceda e agradecer
o mal que nos atinge e a desdita
que nos ampara, acordar sem jeito
e adormecer sem mágoa,
como se nada fosse.

A terminologia médica, aqui sublinhada pelo uso da palavra apirexia, é frequente nos poemas que compõem os dois conjuntos de Como Se Nada Fosse (Assírio & Alvim, Março de 2015), surgindo enquanto sintoma e diagnóstico de uma doença sem cura. E essa doença é a passagem do tempo, o envelhecimento, a proximidade da morte, doença contra a qual a medicina nada pode. Como Se Nada Fosse é um daqueles livros estigmatizados pela maturidade, livro-balanço no oitavo estádio eriksiano do desenvolvimento. É um livro desequilibrado. Não porque os poemas sejam maus na sua generalidade, mas porque enfermam de uma trivialidade que já pouco tem que ver com a retórica eivada de ironia que pautou alguns dos volumes anteriores. O poema Jogos Olímpicos, por exemplo, seria pertinente se José Ricardo Nunes (n. 1964) não tivesse escrito Versos Olímpicos (Deriva, Março de 2009). Portugal resulta débil quando comparado com o homónimo de Jorge Sousa Braga (n. 1957), para não mencionar a batuta o’neilliana que Oliveira respeita e convoca. O primeiro conjunto de poemas acaba por se perder em conjecturas sobre o sentido da vida que pouco mais têm a sugerir do que sentido nenhum, mesmo quando contaminados pelo «humor linfático» (p. 14) de uma auto-crítica anódina. Apesar da palavra vida ser das que mais se repete, é a morte quem implicitamente se impõe. Torna-se claro que nem tudo o que mais se mostra é o que mais se vê, respondendo-se à tomada de consciência com as mãos nos bolsos e um encolher de ombros. A questão que podemos colocar é se tamanha simplificação da existência justifica o esforço, não só o de nos mantermos vivos como o de, ainda por cima, escrevermos poemas sobre o assunto. O discurso da inutilidade e da transitoriedade pode julgar supérflua a vida, a sabedoria dos livros, a ciência — conferir Dias de 71 —, mas não resolve o paradoxo do esforço nem, por consequência, o enigma da existência. O melhor de Como Se Nada Fosse sobrevém noutras latências:

EVITAR:

a tentação de ser o primeiro,
a não ser que haja batota,
a crença em que ser o último é destino,
ou que, salvo pela campainha,
deveria viver-se em conformidade
com ela; a nostalgia:
as árias do passado tocadas
na mesma sanfona, agora temperada
pelo esquecimento; funâmbulos
com vocação para chorar,
amigos que a tarde desaconselha
ou a conversa desiste; aceitar,
como benévolas as virtudes do Capital;
apostar que a miséria dos pobres
é preferível á opulência
dos ricos e que há maneiras
de remediar; cumprir a marcação
de consultas que garantam
morrer saudável; a piedade,
a contrição, o pecado original;
qualquer ajuntamento que pareça
uma igreja e se tal
for impossível, cantar
na missa; os sinais de trânsito,
a benevolência da polícia, gatos
que se enroscam nas pernas,
a descoberta de livros por ler
na traseira das estantes, a ambição
serôdia de uma carreira de pianista
e da falta que os aplausos
fizeram; cães que rosnam.

A listagem de defeitos é também um inventário de virtudes, ao jeito de wish list enviesada. Mas é neste tom derisório, com inclinação aforística, que a poesia de José Alberto Oliveira mais cativa. Talvez tal aconteça por nestes instantes o mundo em volta do eu aparecer mais do que o próprio eu, evitando-se desse modo aquele lirismo indolente que enfada mesmo quando bem escrito. O olhar sobre o outro, sobre a situação, não deixa de invocar o passado nem enjeita a experiência pessoal, podendo também aí a morte ser um axioma sem corolário (p. 72) e a felicidade um solecismo (p. 67), mas tudo se torna mais estimulante por ser menos perdulário. Talvez o tão buscado sentido da vida esteja nessa denúncia desgovernada do que a torna inoperante, monótona, hostil, desagradável. Quanto ao que sobra, a gente já sabe: é a busca de um consolo impossível de satisfazer. E não são necessários sessenta anos para o concluir. Ou são?

segunda-feira, 6 de abril de 2015

#59



De que falamos quando falamos de romantismo? Talvez de elevados níveis de emotividade que enchem o vazio do sujeito com a imagem do objecto desejado, o outro crescendo dentro de nós como se fosse já parte de nós mesmos. Por isso associamos ao romantismo aquela melancolia delicodoce que consola mais do que agride, embora por vezes a morte se aproxime tragicamente. A melancolia vem de sabermos impossível o eu tornar-se outro, vem da confusão gerada pelo desejo de fusão, vem da paixão encontrar à sua frente um espelho que é ao mesmo tempo muro. E de não conseguir saltar para o outro lado, o lado do reflexo. A viola acústica vagarosa que introduz O (2003), o primeiro álbum do irlandês Damien Rice, assemelha-se a esse indivíduo parado defronte o reflexo anómalo de uma identidade perdida. Se o leitor julgar o discurso complexo, experimente borrar o rosto com o batom preferido da amada, espalhe pelas faces o aroma que traz na memória, passe o lápis pelos olhos e beije-se a si próprio espelhado como se não fosse já esse si próprio onde está fechado como fechadas em si mesmas estão as coisas mais tristes. É fácil colocar Rice entre os melhores do seu tempo, de Andrew Bird a Elliott Smith, ou dizer que quando se lhe junta a voz de Lisa Hannigan em dueto lembra os The Walkabouts sem sistema nervoso country. Seria fácil apontar-lhe a ausência de ângulos mortos quando os arranjos de cordas elevam a retórica descarnada da folk à épica do desalento, sobretudo nesse I Remember que parece pretender descarregar sobre nós, no final da história, a raiva contida ao longo dos oito últimos actos (ou no canto lírico que surge em Eskimo vindo sabe-se lá de que terras frias). A edição de 2004 traz um conjunto de b-sides que acrescenta qualquer coisa, mesmo sendo fácil apontar, dizer, colocar sobre a música de Damien Rice uma compreensão que profana o sentimento. O melhor é ouvi-lo e esquecer tudo o que sobre ele se diga:

AINDA LUBITZ

Subitamente, temos mais “informação” sobre Andreas Lubitz do que sobre muitas pessoas, inclusive da nossa família, que sempre fizeram parte da nossa história pessoal... O mundo televisivo do século XXI é assim. Por um lado, houve um desastre de avião, ao que tudo indica provocado por um homem com graves problemas psíquicos; por outro lado, desde o terrível acontecimento, fomos condenados a viver assombrados pelos infinitos detalhes da vida de Lubitz, promovido à condição de bezerro de ouro do altar televisivo. 

2012


Tenho por hábito guardar revistas e suplementos com balanços de fim de ano. Calhou hoje folhear uma de 2012. A páginas tantas, esta imagem:

A legenda diz:
Não se via tanta gente na rua desde o 1.º de Maio de 1974. Um milhão de portugueses resolveram surpreender a classe política e provaram que, quando querem, estão disponíveis para protestarem. De forma espontânea, pacífica e apartidária. Nem antes nem depois, nada houve igual a esse dia.


Tudo isto pode ser comentado sob vários pontos de vista. Não pretendo alongar-me, mas discordo veementemente da conclusão. Todos os dias eu vejo isto, algo que se repete há anos. Basta passar os olhos pelo Facebook da minha mulher e espreitar o que se publica, fotografias de gatinhos amorosos, frases feitas do Paulo Coelho, gente querida como coelhos da Páscoa a pousar para a fotografia em estado selfie made beauty ou coisa que o valha. Um país de amorosos. Só que inconsequentes. Foi bonito? Foi. Mudou alguma coisa? Digam-me vocês. 

domingo, 5 de abril de 2015

DIGO


Digo-o: não se escreve com medo. Devia perguntar-se aos poetas a quem lêem eles os seus versos, antes de os publicarem. Todos passam por essa corda de segurança. O poema de hoje lembra-me um Tempos Modernos, em que os poetas são operários como as poetas são aplicadas donas de casa. Opto pela androginia de género. Gosto de poetas que lêem versos às mães: as mães sentadas de televisor apagado, ouvindo-os, a coragem dos filhos e o pudor das mães, que sorriem como, de manhã, ao levantarem-lhes os lençóis manchados. Nisso ainda são delas, as ejaculações privadas que obrigam a lavar à mão cuecas em água quente e lixívia. Fariam o mesmo com os poemas; e eu, que pouco entendo de poesia, adoraria ler um poema esterilizado por cuidados maternos. As mulheres são diferentes, nenhuma mostraria os seus poemas ao pai. As intimidades das filhas são segredos pregados às costas paternas, quadros fixados numa parede móvel onde confortavelmente se deixam embalar sem que, por isso, os pais o saibam. Todos são paredes de casa expostas ao sol; voltados para fora, são tão fáceis de amar. Não há poeta que não seja filha de seu pai; nisso são equivalentes a eles, filhos de sua mãe.
   E talvez o problema operacional do verso seja esse: a falta de óleo na engrenagem que tritura a familiaridade. Todos deveriam ser pródigos, abandonar o conforto materno e evitar o mijo ou o sémen que manche páginas de livros. Poesia Kleenex é a melhor definição que me ocorre, ao pensar poeticamente na poesia contemporânea; e choca-me que ninguém se tenha lembrado ainda de imprimir versos do Pessoa em guardanapos de papel; ou Camões, que também serviria às saladas de entrada. Já vi xícaras de café com Álvaro de Campos e acho que Agustina, em curtas frases, faria brilharete em qualquer serviço de chá Vista Alegre. Para os kleenexes propriamente ditos, de uso vário, como se poderá mirar à margem da estrada, aconselharia alguma da poesia de 61 que, apenas por oito anos, não foi pródiga na sua auto-enunciação. Agora que a Renova imita a Alchimie du Verbe na produção das mais enigmáticas cores aliadas ao bom gosto genital de cada um, nada há a temer.


Beatriz Hierro Lopes (n.1985), in É Quase Noite (2013). «A escrita de Beatriz Hierro Lopes (1985) nasce a partir do exercício permanente da memória e da consciência aguda da perda. A infância e os seus territórios adquirem o valor do tempo e do lugar onde o mundo se concretizou. A relação com o presente, a efemeridade e a vanidade dos dias que não possuem um espesso lastro de história emocional, conduz a um violento olhar, entre a ironia sarcástica e a elegia de um tempo perdido. O presente adquire, desta forma, uma configuração de antecâmara do que perece, da mortalidade como última redenção. Não há concessões quando a autora procura as marcas possíveis de alteridade que resgatem o quotidiano da morte. É neste rasgão, aberto entre a memória e o presente, que a autora vai encontrando (agarrando) todos os pequenos sinais de salvação numa espécie de caçada, armada com um olhar eminentemente poético: uma conquista travada entre a gargalhada quase infantil e a lucidez da resignação; uma arqueologia íntima transformada em história do mundo» (copiado de aqui).

sábado, 4 de abril de 2015

99 CORRUÍRAS NANICAS


O corruíra é um pássaro muito popular nas Américas, presença frequente nos contos de Dalton Trevisan. Tal como a broinha de fubá mimoso, surge obsessivamente entre páginas que nos oferecem uma panorâmica de Curitiba a partir de gente comum. Um dos aspectos que mais me agrada no universo desenhado por Trevisan é a quase ausência de intelectuais, escritores, artistas, nos seus contos, inclinando-se a prosa para o quotidiano de gente socialmente fragilizada mas com vidas e experiências excepcionais. Seu João, Zé Pelintra, Pomba Gira, Preto Velho, Julinha, Rosinha, Gracinda, Pestana, são parte integrante de um espaço onde ocorrem amiúde crimes passionais, desentendidos domésticos, situações caricatas e picarescas, mas também momentos de profunda consternação e uma atenção social muito particular: a de quem se afasta para ver melhor. Prostitutas, malandros, maridos traídos, mulheres caídas em desgraça, velhos, inválidos, anões, pobres, crianças, loucos, órfãos, gente aparentemente frágil e debilitada, sobreviventes, reflectem a existência humana na sua dimensão mais corrente. Nanica é uma coisa pequena, certo. Mas é também o nome de uma espécie de banana que, ao contrário do que o nome indica, não tem nada de pequena. Assim as sínteses de Trevisan, alimento para a alma temperado de ironia, humor negro, olhar microscópico. Como qualquer síntese, são pequenas apenas em aparência. Para lá chegar é preciso muita insónia:

22

O velho em agonia, no último gemido para a filha:
— Lá no caixão…
— Sim, paizinho.
— …não deixe essa aí me beijar.

26

A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos.

42

Como dormir se, para os mil olhos da insônia, você tem só duas pálpebras?

82

O velho:
— Acordo às três da manhã. Daí começo a brigar.
— Com quem?
— Com a minha cabeça.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

quinta-feira, 2 de abril de 2015

MANOEL DE OLIVEIRA (1908-2015)


Sobre Aniki-Bóbó (aqui), sobre Non ou a Vã Glória de Mandar (aqui), sobre A Divina Comédia (aqui), sobre O Dia do Desespero (aqui), sobre A Caixa (aqui), sobre O Convento (aqui), sobre efemérides (aqui). E houve esta Callema, onde citei o mestre num texto intitulado Recuperar Ema.

SAUDAÇÃO A ÁLVARO DE CAMPOS


Portugal-Prometido, dezassete de Abril de dois mil e doze...
Eiaaaaa-a-a-a-a-a-a-a-a!

Desde aqui de Portugal emagrecido, deste Deus murado
neste corpo presente, eu te saúdo, Álvaro, eu te saúdo irmão
de todos os sonhos descampados da alma, eu de preto
eu de cotovelos nas coisas por dentro, eu desmoronando
junto a ti no que sinto, vindo silêncio na emoção de todas as línguas
de mãos dadas, Walt Álvaro, nós bebericando cariocas de limão
em cada homem, descendo como subindo do Príncipe
ao Calhariz os três provando do mesmo sal numa atmosfera cosmopolita
de todos os Portos, de todas as Eras porque ah não há coisa melhor
que o sinal de abertura de uma estância balneária, e o juízo a correr livre
musculando tenras na areia as fés, e o resultado disso:
umas férias grandes como um dia vivo na tua alma!

Eh uma Granada interior!
Eh um tapete à saída da Igreja!
Eh um rei menino movendo-se além do trono!

E nós rezando pelos candeeiros apagados —
pelo sentido engarrafado da água, pelo sossego de lago dos jardins
pela exaustão das governantas, das criadas, dos seus cansaços relvados
nos dias brancos das grandes praças vistas só do parapeito
para baixo, e um templo andarilho nos movimentos mínimos
da consciência adolescente por intensidade.
Eu tu e ele reais em todos os Terreiros do Paço.
Profetas de todos os desastres num dos mundos de verdade.
Em todos os brilhos de cavalo ao sol.
Em todos os fechos que abotoassem o cheiro por dentro a Palácios.
Ó inflamação desta coragem ameaçada de ser sim
nestas mãos que crescem de antiguidade no futuro de ti!
Ó amor descalço na minha perplexidade, matrimónio por cima
das formas servindo transporte às sonhadas!
Amor na presença do sim beija-me como um beijo da tua boca.
Tempera-me de embriaguez deusa por autorização de mosteiro.
Deixa-me por fora como o amor num estado de olhos.
Esposa ardendo abundâncias, amor secreto nesta enorme brincadeira
de velho com menina precoce e bailarina.
Foge por mim correndo como seta sem arqueiro
e que isso seja uma prece de fim de mundo, deste
que outro começa batendo as portas desta majestade
sem magistério, neste dia que tem o modo do teu regresso
e tudo comece a ruir por fundamento conforme destinado
cruzeiros, rosários, tudo no 720 para o Calvário!

Eia paliativos do Jardim das Delícias com uma grade ao meio para ser fechada!
Eia tudo às escuras tudo repleto nada impedido nada ninguém!
Nessun dorma nessun dorma tu pure o principessa renascida paúl
das grandes óperas: expresso-Nazaré, expresso-Miami, piscina privada
para o condenado contigo também naquele jardim ali!
Blüte nur! Blüte nur com três janelas ao meio e tu relento
sem ninguém saber de nada!
Eia tudo absurdo! Tudo subitamente escorbuto, em dieta de vitamina C de
civilidade!
E o testamento ao colo do Csar lido em voz alta: "se fazem favor
ponham os pobres em marcha, e num foguetão grande
os biógrafos de cloaca dos anjos como se os anjos fossem de andar!"
E os filhos de escravos libertos Horácios, Dantes, Miltons, Joyces oblíquos
por lhes beberem o recheio irrompendo berbequim!
E as Conferências do Casino epistémicas brutais enganando-se alguma coisa
até aqui!
Enganaram-se mas a tempo de um tempo que visse a salvo a pala do Camões
a ser leiloada e de cetim!
Eia contemplativos contra padres, urinóis destapados para os teologais chatos!
Eia as razões para as viagens fora daqui, as razões de todas as viagens
para as faculdades sem Universidades!
Ó zelosos circuncisos escândalos-luto da sifilítica modernidade!
O Evangelho é rei: estamos espiritualmente atapetados!
Não há imposto à verdade está tudo desencarnado!
Abram alas ansas parteiras para o meu amor anárquico, quero sair
em pêlo de lontra pelos mausoléus com os vossos bizantinos sentados!
Casar-me desta musa libertária por higiene traduzida para o inglês
alto génio convertido em felino argot!
Venini ecclesia veterem porta tudo namorando com o que não importa!
Venta Silurum onde ninguém mora...

...

Mas hei-a Capela Sistina e o metropolitano até Belém!
Eia as grandes capitais das cidades dos mortos das árvores permanentes!
E tudo jogando fumando nos bares às nove e meia da noite!
E os afogados de sentinela nos inconcebíveis de Porto Salvo: nenhum!
E uma soma de peitos arredondando assobiando como aves de pedra!
E o céu fundo e grave existindo para ser fitado: a sério!
E os soutiens espirituais como anjos pendurados, e em pinheiros de Natal!
E ligas de cinta ligas de ouropel pingando manchadas porque sim!
Antes as confissões em jejum dos dias primeiros que este bordel!
Antes casamentos desarrumados e baptizados ao léu que homens de fato!
E as repartições marteladas com as minhas mãos titulares de liberdade!
E todos os selos em envelopes lambidos desde Santa Bárbara!
E todos os não enviados porque haviam de ser desviados!

Eia celebrando! Eia literando esta algariça de enxergões críticos deitados
numa ideia melhor amiga de si!
Eia loreleis de popeline dando de corpo no iate do Príncipe Abdulaziz
que é o 4º maior do mundo!
E cabernet sauvignon numa taça de acetato para o rei de Jerusalém
que há-de chorar se não tiver ninguém!
E o Bispo de vermelho e sapatos num bairro de lata sem jardim!
Deixem passar que ele quer vomitar um drama bíblico por cidade!
E os eclesiásticos prelados contar-lhes os botões: trinta-e-três!
E o casamento cigano e o Pentecostes na televisão ligada e uma colher no arroz
com a Arrábida por cenáculo!
E os grandes rios os grandes Portos e o Golfo sarónico do rei nele afogado
porque se afogou nele de facto!
E as Salomés de Bizâncio dançando com Sigrdrifa e Göll featuring Santo
Encomendado!
E uma notícia amorosa no levo giro da roda mas ah pisada no próprio reflexo
com o peso do carro!
Poraaaa! Isto imensamente isto!
E a poesia nisto! A poesia isto, os pais nos aniversários das filhas mas
crucificados no pátio!
Eh todos unidos de tardes que não ocuparão metros por ser isto estatura
de um velório sem fausto!

E os cunhados e as vizinhas abanando-se em mini terraços de cozinha
onde cheira a cozinhados!
E tibornas de milho para o exercício oral de chamar galinhas no plural e na
boca!
Hei-a-a-a-a-a venham todos pintados grande Canyon filigrânico
nesta metafísica de sitiados!
Aaah aah e ah! Tudo segurando cintando existindo por conceito, tribunal
de satoris lucefécit para cada Cabo!
Tudo um sonho sensual à distância de um velho morrendo sem visitas.
Tudo procurando por recompensa e nada se procurando em ninguém.
Tudo adjectivando nos arredores da alma que supõe uma outra gravidade.
Tudo misto, tudo ajeitado, nada substanciado, nada ninguém morrendo por
nada.
Gehena Golgotha beijando na cruz o confiscado.

...

Ah feitores de volumetria de vocês, pressupostos de vós mesmos
Zoroastros chinelinhos, por obséquio poupem-me da esquerda para a direita
dos vossos autos guindados que eu também tenho sangue a ferver.
Dêem-me raça ou calem os movimentadores!
Aríete hidráulico entre mim e vocês ultra privados!
Cilindro metafísico por argumento de obra sem lava-pés!

...

Namoradores iscariotes de abas: trinta siclos de prata pela vossa coisa sentada
que um beijo vosso morre idoso!
E a religião que é dança para o vosso Deus que está morto!
E o nosso que é ócio mas nunca foi bronco!
E o panteão nojo!
E o portão faustoso!
E o diabo depressa!

Isso! Irromper pandeireta, irromper turbina, zurzir pelos vossos ouvidos
rígidos
e moucos, que tudo está mais voando que esta desonra de baixeza!

...

Eu te saúdo negro capitel de tonelagem física dos teus navios piratas...
Investida marítima de ti por mim dentro, irmão dos sálios de um só rei
ideado!
Quero o que não for nascido, o meu reino pelo desconhecido.

Uma cidade sem leis naturais para ir ao pão nesta cidade.
Uma coisa sucedendo à noite da constituição.
Tu de colher eu de xizato pela molhada Santiago à eucarese da fraternidade.
E que duas coisas entre mim se apertem com braços de todos os tempos não
gozados.
Os mortos levantando-se dos vivos e o silêncio nesses estados que são Deus
numa chuva de Graça onde há-de chover.
Tudo a caminho, tudo joelhos, tudo de Cristo e queixo na mão, na mãe, no
filho, no seminarista entesado, e isto actuando em mim nos trezentos pecados.
Quero as grandes impossibilidades! Pregá-las como polaroids ao chão
mijar-lhes para cima, xixi de mais de dois dias!
Arrancar Budas como borbotelhos das lanas del reys deste mundo!
Fazer o horóscopo de Cristo para ver se ele morre no fim!
Grande cena sem adjectivos...!
Execrar tudo até ao Espírito Santo!
Apiedar-me de Adão directamente por Deus e afundar-lhe a doutrina
que a revelação tem bicho desde a maçã!
Esconder Evas virgens às escondidas onde moram os enjoos de parto!
Viver por dentro a curiosidade como guizo, e o ror físico enfunar ao ventre
até que pela porta entre o primogénito da criação!
E será isto passar para cá a vida como quem funde com cuidado
enfiando-lhe depois um tampão!
E cravos vermelhos numa bacia do Ganges por um serão marial!
Por alianças e declarações de amor: um megalito tumular que nos engate em
5ª para estes abaciais ventos de fim!

...

Ah, mas o Almada é que percebeu tudo: é preciso ser satânico para ser tudo!
O Homem Branco a Grande Escarlate Kirios Hieron Abbadon Pleroma
Pneuma Agathós Tetragrammaton Bodhi Apollyon e Deus com os símbolos
que caiam aqui!

POR ISSO TUDO!

Irar!
Partir!
Emboscar!
Demolir!


Molhar o bico no sangue pelo escrúpulo da virilidade que a métrica está toda
errada!
Invadir em fogo aceso em enxurrada este psiquismo esgotado!
Por um banquete de impérios a celebrar-se por dedos e a arder-me na testa!
Um refrigério, uma saleta em anfiteatro para este ardor entre guerras, se faz
favor!
E já agora a vinda do salvador numa bandeja ao pequeno-almoço, servida com
mel
mas declinada em latim!

...

Namorar à distância com a forma perfeita de tudo: eis tudo!
Namorar nu à vista das coisas, entrar-lhes, destapá-las subir-lhes pelos pés
das camas, aos destelhados mais que tudo substantivando!
Ah poder sonhar-me a sós com a idade de domar tigres e leões!
E ter um ralo especial como bueiro para onde escoasse como cimento
esta grande obscenidade!
E Deus na unidade dos queimados do Esfinge Gorda!
E o leviatânico reverso exortando os fiéis com sucesso!
E as garrafas bebidas e o Pai Nosso Também!
E tudo acima a transcender e o transcendente ámen!
E as semanas santas como bolos frescos em montras triplamente iluminadas!
E a dormição da Virgem como restos de hóstia na minha língua:
um pão branco sem miolo e na côdea inteira a alma grega da festa!

...

E os doidos de Cristo?
E as rixas do Camões?
E o Senhor Roubado e os mosaicos da Santa Senhorinha?
E o banco do Antero?
E o ermo do Nobre?
E as orações do Guerra?
E a boca do Pascoaes?
E os urinóis de Henoch?
E as grandes mãos do Almada?
E a mística do Maria Lisboa?
E o meio-dia da Dalila?
E o matadouro do Luís Miguel Nava?
E o rosto sob a água do Daniel?
E o Ruy Belo na freguesia portuguesa do Cacém?
E tu Herberto tu?
E o corpo da Adília?
E a minha avó consolidada na pneumonia?
E tu Pessoa ou verdade, diálogo interno abrindo as comportas!
E o teu melhor amigo suicidado por ser gordo e não agradar à outra!
E a outra que por vizinhos teve os Ichabods da poesia por certo!
E nós na presença de tanta perfeição engordando a morte!
E tu! Tu lâmpada de sal himalaísta que foste o último a morrer mas morreste
afinal.

...

E a puta que parisse acontecendo-lhe em vez disso morrer.

...

E ir, ir sem préstito de multidão nem alma na frontaria, ir do mesmo modo despida como primavera finda em buganvílias até ao fim da estação, esgotar os planos físicos desta Verónica travestida, ir com as sensações surradas num aperto de gelo até ti poeta que desenrolas mistérios como mantas ao frio desta grande neomortalidade!

...

Ao grande naufrágio das formas por correspondência!
À grande noite do espírito destinada a ser real!

Ao poeta Oriente neste Ocidente mandado que é Portugal, etc.



Raquel Nobre Guerra (n. 1979), in Groto Sato (mais duas marchinhas) (2013). «Folheia-se este livro e dá-se imediatamente pela grande ductilidade formal que ele revela. A imagem gráfica das páginas oscila, ondeia, entre o poema monolinear (e mesmo univocabular) e o derrame triunfal por várias páginas, entre o infinitamente pequeno (o de um saber epigramático - curiosamente mais próprio de poetas em fim de vida -, não sentencioso, mas feito da constatação fulminante que abre mundos) e, na outra ponta, o infinitamente grande de poemas que ecoam Almada e Campo. É grande a diversidade de respirações, ritmos, fôlegos. Há poemas breves que poderiam transformar-se numa linha de sentido claro, e novelos densos de uma imagética e de um léxico deliberadamente estranhos, estranhantes, que  retardam a leitura e obrigam a ler com o dicionário ao lado. E há as remissões e os reenvios secretos, próprios da poesia que se assume como parte de uma tradição e convoca o que tem à volta e à mão - iniciais de nomes, citações, dedicatórias, epígrafes, latim e grego e outras línguas: pequenas mas frequentes marcas que criam efeitos de estranhamento que transformam esta poesia tão visceral, logo a partir do título, em poesia culta, erudita, não por acaso, não para épater, mas porque assim o quer e provavelmente tem de ser» (João Barrento, in Pela Porta das Traseiras, posfácio a Groto Sato).

quarta-feira, 1 de abril de 2015

CORRIGIR JOSÉ RENTES DE CARVALHO

José Rentes de Carvalho equivoca-se ao julgar o Botequim a próxima referência omnipresente nos elogios fúnebres do mundo literário. São tempos (ultra)passados. A próxima referência será o Facebook.