Este texto podia ter o título de “vias para a loucura”. Não
seria porém honesto para com o seu propósito. E o seu propósito é organizar
algumas pistas de leitura da poesia de Rui Baião (n. 1953), poeta cuja
capacidade de me inquietar anda a par da sua absoluta discrição. Basta olharmos
para as capas de Rude (Averno, Maio de 2012) e de Insane (Averno, Dezembro de
2014) — título ambíguo, substantivação provável dos adjectivos insaneável e
insano — que logo constatamos essa discrição na ausência do nome do autor. Por
si só, o gesto pouco significará. Talvez permita concluir haver neste poeta uma
preferência pela sombra que o mantém atrás da cortina, indiferente à lotação
que ocupa as preocupações da sociedade recreativa e de espectáculos em que se transformou o
meio literário no decorrer do último século.

As fotografias de Paulo Nozolino sublinham uma colaboração
que não é de agora, destacando-se, nesse domínio, o catálogo da exposição bone
lonely (Steidl, 2011). Refira-se, aliás, que uma das secções de Rude, a
segunda, corresponde, mais coisa, menos coisa, à versão portuguesa dos poemas
incluídos nesse catálogo. Chamo-lhe secções tendo em conta as páginas
totalmente negras que pontuam conjuntos de poemas sem título onde
pressentimos focos distintos, se bem que no seu todo o livro acabe
por resultar num bloco escrito a três tempos. Já Insane escapa
a esta descontinuidade, prescindindo-se, por isso, do índice final. Mas porquê
“vias para a loucura”?
Baião tem mantido desde a primeira hora uma coerência
inquestionável quanto aos pressupostos de uma poesia consciente da
corrosibilidade do tempo, recusando manter-se refém dos discursos de sedução
que tantas vezes contaminam uma produção poética semelhante à publicitária. A sua obra é difícil, mas não é inacessível. Pelo menos não o é
naquele sentido hermético que se protege do leitor esvaziando os versos de
conteúdo. Esta dificuldade advém de uma opção pelo confronto com a realidade a
partir de imagens onde o declínio e a ruína ressumem a solução final. É uma
poesia profundamente marcada pela experiência da morte, na medida em que: «A
experiência da morte é a coisa mais vulgar do inconsciente, precisamente porque
se faz na vida e para a vida em todas as passagens e transformações, em todas
as intensidades como passagens e transformações» (Gilles Deleuze & Félix
Guattari, in O Anti-Édipo).
Também tomando Deleuze e Guattari por princípio, poderíamos
dizer que esta é uma “literatura” que “armadilha a sua encomenda”, colhendo
entre os escombros, os destroços, o entulho, sinais de um tempo histórico
decadente. Talvez ela se aproxime das teses decadentistas que em
tempos se opuseram, em termos teóricos, ao naturalismo. Assim sendo, deveremos
varrer, desde logo, qualquer inclinação nefelibática desta poesia, tal como
aspectos simbolistas que apenas secundariam a sua visceral ligação à terra e ao
corpo enquanto raízes a partir das quais a ruína se processa. Verificamos igualmente que esta ruína não deve ser circunscrita a cenários urbanos. É,
sobretudo, de carácter ontológico, ou seja, inerente à própria condição do ser.
Isto mesmo podemos inferir da figura humana que surge na
supracitada segunda secção de Rude, «um nado morto» (p. 42), «Um homem à beira
/ do fim» (p. 43), «baleado pelas sequelas do tempo» (p. 44), «Um morto /
milhares de mortos / por morrer» (p. 51), sendo que «Cada um é para o que
morre…» (p. 60) e, acrescentemos nós, a morte é o destino de todos. Mais do que na conclusão, a poesia está no dizer, no modo como se projecta a conclusão. Esta
surge de uma posição assumida pelo sujeito poético logo no primeiro poema do
livro, o primeiro da primeira secção:
Rever ao espelho pormenores,
dúvidas duráveis
como tudo num charco.
Vertigem confusa
os convertesse em dois
mascarados de coincidência.
Tudo parece vago neste pequeno poema, mas há nele uma força
de sentido que se impõe tanto a quem já esteja familiarizado com esta poesia
como a quem nela penetre a partir deste livro. Desde logo, devemos reter a
utilização do substantivo espelho — objecto que, em sentido figurado, mais não
faz do que tudo aquilo que é dado à poesia poder fazer: reflectir, reproduzir,
revelar por reflexo. Encontramos por vezes na poesia de Rui Baião evocações
desta relação entre o corpo e o seu reflexo, duplicidade identitária onde um
devolve ao outro a sua verdade. Dois, «Um defronte da morte do outro» (p. 55),
caminham lado a lado nestes poemas. Podemos e devemos imaginar um corpo a
observar-se ao espelho, detectando nos pormenores as pegadas do tempo (rugas,
estrias, sinais, manchas, cabelos brancos, celulite, cicatrizes); podemos
também imaginar um corpo espelhado noutro corpo, por exemplo o corpo do médico
espelhado no paciente ou no defunto (perspectiva anatómica a ter em conta).
Resultado: «dúvidas duráveis / como tudo num charco».
Mais do que as dúvidas, sempre comuns e inevitáveis,
sublinho a palavra charco. É exemplificativa de um complexo lexical pesado
(sinónimo figurado de rude), violento, de digestão difícil, composto por
vocábulos com conotações negativas, lúgubres, mas fortemente sugestivas: bílis,
ruído, asco, estilhaço, raiva, devastação, escombros, danação, miséria, entre
tantos outros que é escusado referir. Aquilo que encontramos nestes dois livros
é, pois, um percurso que nunca se desviou da sua rota, percurso modelado por
uma anti-discursividade fortemente visual, mais ligada às artes plásticas
(pintura e fotografia) do que à música. Digo isto por sentir na poesia de Rui
Baião uma superação da ideia preconceituosa segundo a qual a poesia se reduz a
composições musicais de um único instrumento (a língua) e múltiplas notas (as
palavras). Neste caso, a música é outra.
Os poemas curtos de qualquer um dois livros, fragmentários
na sua essência, exprimem através de diversas transgressões sintáxicas uma
prosódia descompassada que denota uma de duas realidades (ou as duas juntas):
despreocupação formal, intensificação de uma saturação conceptual que se está
nas tintas para a convencionalidade dos ritmos. Por vezes anafóricos, quase
sempre arrítmicos, os poemas de Rude e de Insane colocam-se acima das normas, nem
sequer as desafiam, instituem a sua própria gramática sem qualquer tipo de
apreensão com o estatuto do leitor. Tomemos de exemplo, pela sua
sugestibilidade, este poema de Insane:
Tempos idos nada excluem
e a pouca certeza cansa. Cansa
a pobreza das alíneas à volta da idade,
e a vista não alcança.
Cansam as esferas e o céu, o pagão
nas pedras, a cinza num delírio, a terra
toda. Uma mina pegada cansa
a sombra debaixo do alpendre. Cansa
o trabalho, o usufruto, o verdadeiro cansaço. Cansa
quem cante o degelo nos desertos, o arvoredo
esvaído ao que aqui venha esporrar-se. Cansa
a caveira no lixo, a ilusão, o fim perante. Cansa
a distância no que é estar perto. Cansa
a erva da morte. Maré da sorte,
o nada sem vergonha aí ao debrum.
Cansa o verme na figueira. Cansa
a noite sem assento. Cansa
a carne de palhaço, cansa
a tanta sede sem assunto.
O voo sem para onde ir
é a falta de ar.
É o típico exemplo de um poema desviante, consciente das
suas anomalias, as quais se repetem ao longo da obra como curvas e contracurvas
nas tais vias para a loucura. Porque o discurso que aqui vamos encontrar é
precisamente o discurso irregular do louco, repleto de inversões, cacofonias forçadas
— «em cova d’ir, ia» (Insane, p. 31) —, aliterações — «pura e dura, fura»
(idem, p. 7) — rimas internas — «A seringa pelas costas, / os insucessos
fatais. A medalhinha a dar sorte / a tantos presépios fiscais» (idem, p. 70) —
anadiploses (poema supradito)… Os sublinhados são meus. A própria mancha que muitos dos poemas formam
na página, de um primeiro verso mais longo a um verso univocabular (ou perto), com aquele
aspecto geral de escadaria invertida, remete para uma imagem de queda que
reproduz visualmente o recheio mais concreto dos dois volumes.
Há entre a última secção de Rude e os poemas de Insane uma
contiguidade que não passa despercebida. São poemas que se aproximam da
actualidade com uma veemência expressionista similar à que podemos encontrar,
por exemplo, num poeta como Heiner Müller. Não estou a engendrar comparações,
estou apenas a referir uma familiaridade que me ocorreu durante a leitura. Tal
como em Müller vislumbramos uma erupção dos recalcamentos da sociedade
burguesa, nomeadamente o “recalcamento da morte” (vide posfácio de João
Barrento a O Anjo do Desespero), também na poesia de Rui Baião se processa esta
explosão da moral e dos costumes burgueses (algo que, diga-se de passagem,
estigmatizou precisamente toda a arte decadentista em geral).
À questão sobre a possibilidade da poesia depois dos campos
de concentração nazis, Baião responde com um inventário de alusões que nos
obriga a ponderar o mundo e as suas circunstâncias após esse marco
histórico. E a verdade é que depois da Segunda Guerra Mundial já tivemos as
vítimas da Guerra Fria, do Vietname, do Kosovo, do Ruanda, do terrorismo
religioso nas mais diversificadas formas, temos a Palestina, o tráfico na
América do Sul, um mediterrâneo transformado em campo de concentração e o mundo
inteiro sob a ameaça dos medievos fanáticos do ISIS. Um continuum de tragédias, fatalidades e misérias do qual a poesia, enquanto reflexo do mundo, não pode alhear-se, sob pena de ser falsa, inautêntica, caricata. Estas circunstâncias contribuem para um curriculum vitae do mal que acelera o
processo de degeneração do mundo:
Onde houver um cume aceso, as fauces velhas ou a fatídica
prerrogativa dos cadáveres adjuntos. Onde se revele
a matriz branca do desdém, essas coisas assim
assim… Onde a hora torce o rabo se quiser ser
besta para sempre, ora aí está:
A poesia dos novos padres, de um vagamente
Monsenhor, tal e tal abismo junto ao adro, é só ver
ilustres de perfil, passadeiras vermelhas, capelas
com tecto de abrir, fraude às avenidas novas,
orçamento onde um muro viesse arriscar
a oportunidade e o feno da nação, silos onde
crostas fossem o sal e o joio da má vontade,
bancarrota que alicie a intentona, a ignição
ateada a altares de surpresas no estuário.
Sacristias, sucatas, hortas da minha rua,
saguão aonde ali fosse bater a cauda
do vento. Baldios, arrecadações, garagens
das traseiras aonde ali fossem colmatar
a cabeça, a sombra a andar à roda
de uma vara, ao meio do dia.
Este poema, um dos primeiros da última secção de Rude, é
revelador de uma atitude de distanciamento da poesia de sacristia,
recentrando o discurso nos males da terra, na natureza corruptível do corpo, na
recusa de uma teologia barata que responde aos anseios das pessoas despistando-as
dos factos históricos. Inscreve-se nos domínios da arte que esventra a
realidade ao encontro dos motivos que geram a superfície dos factos, não
procura seduzir através da ironia nem da ligeireza do discurso, não se disfarça
com metáforas anódinas sobre o bem que é estar vivo à hora da morte, com a cabeça projectada em futuros paradisíacos. Esta não é
uma poética assente na retórica, mais ou menos patológica, dos discursos de
sedução. Há nela um desprendimento, um desinteresse publicitário, que a torna
especial enquanto reflexo da face mais rude da vida. A tal via para a loucura a
que muito provavelmente ninguém escapa(rá).