quarta-feira, 17 de junho de 2015

EJACULAÇÃO DE BOFETADAS

Na apresentação de O Meu Corpo e Eu (Sistema Solar, Outubro de 2014), de René Crevel, Aníbal Fernandes afirma que «A bofetada era recorrente no azedume dos surrealistas franceses, central no seu código dos gestos correctores. Poder-se-ia escrever todo um texto sobre as bofetadas surrealistas coleccionando motivos e ocasiões em que A esbofeteou B, e B esbofeteou C. (Uma, tardia porque do Surrealismo do pós-guerra e já distante do seu período mais interventor, deu-a Breton à escritora Rachilde.)». Já na apresentação de As Irmãs Brontë, Filhas do Vento (Assírio & Alvim, Abril de 2005), do mesmo autor, Aníbal Fernandes tinha referido que após ter desempenhado um papel numa peça teatral do dadaísta Tristan Tzara, Crevel foi esbofeteado pelo surrealista Paul Éluard. Henri Michaux, que não era surrealista, foi mais longe e idealizou

A METRALHADORA DE BOFETADAS

   Foi em família, como seria de esperar, que realizei a metralhadora de bofetadas. Realizei-a sem a ter premeditado. De repente, a minha cólera projectou-se para fora da minha mão, como uma luva de vento que tivesse saído dela, como duas, três, quatro, dez luvas, luvas de eflúvios que, espasmodicamente, e a uma velocidade incrível, se precipitaram das minhas extremidades manuais, lançando-se para o alvo, para a cabeça odiosa que atingiram sem demora.
   Aquele espasmo repetido da mão era espantoso. Já não era, em verdade, uma bofetada, nem duas. Tenho uma natureza reservada e só me exalto no precipício da raiva.
   Verdadeira ejaculação de bofetadas, ejaculação em cascata e aos sobressaltos, a minha mão permanecia rigorosamente imóvel.
   Nesse dia, toquei a magia.
   Um ser sensível teria visto ali qualquer coisa. Aquela espécie de sombra eléctrica brotando espasmodicamente da extremidade da minha mão, congregada e reformando-se num instante.
   Para ser completamente franco, a prima que me tinha irritado acabava de abrir a porta e de sair quando, apercebendo-me bruscamente da vergonha da ofensa, respondi ao retardador com um voo de bofetadas que se escaparam realmente da minha mão.
   Tinha descoberto a metralhadora de bofetadas, se assim o posso dizer, mas é o termo mais adequado.
   Depois nunca mais pude ver aquela pretensiosa sem que, da minha mão, as bofetadas se lançassem como vespas ao seu encontro.
   Esta descoberta compensou-me pelas odiosas palavras que me humilharam. É por isso que às vezes recomendo a tolerância no seio da família.



Henri Michaux, in Antologia, tradução de Margarida Vale de Gato, Relógio d’Água, Agosto de 1999, pp. 182-183. 

"I'm sending my condolence to fear"

Sinto-me confuso, não entendo isso da hegemonia esmagadora do capitalismo e das liberdades universais. Pintaram-nos o estalinismo como um dogma burrocrático, o peso sufocante da organização impedindo o fluxo de ideias, castrando a criatividade, robotizando comportamentos com uma paranóica imposição de procedimentos, planificações, planos. A teoria desvinculada da prática, impondo-se à prática de cima para baixo. Sendo que quem estava por cima raramente tinha a prática, o conhecimento prático da realidade dos que estavam por baixo. Assim nos pintaram o estalinismo que ergueu a Rússia dos sovietes a potência mundial. Qual a diferença entre isto e a vida de tantas empresas privadas na actualidade? Intimidação, medo, humilhação pura e descarada, a teoria dos que estão por cima sendo forçada à realidade dos que estão por baixo sem qualquer conhecimento de causa, sem diálogo, sem debate, sem discussão, apenas a mesma e sempiterna mania persecutória de que quem não concorda comigo está contra mim. Paranóia, alienação. Quem disse que o estalinismo morreu? O estalinismo, pelo menos tal qual o pintam historiadores capitalistas, é o quotidiano do maravilhoso mundo privado de uma imensa fracção do mundo empresarial. Não se matam pessoas, atira-se-lhes com a tortura do desemprego. As purgas têm cambiantes inimagináveis, são correntes e estão entranhadas na mentalidade fascista de quem manda, de quem detém poder, por mínimo que seja, é uma coisa humana que vem do fundo recessivo e miserável da obediência cega a um ideal de perfeição: eficiência, sucesso, expectativas, competência. Inimiga do improviso e da espontaneidade, pretende automatizar a espontaneidade. Não se apercebe que uma espontaneidade automatizada deixa de ser espontânea, passa a ser um comportamento previsível que satisfaz apenas a nevrótica obsessão do avaliador, do recriminador, do burrocrata. Mais viva que nunca, essa tal metodologia estalinista que a historiografia oficial fixou é uma praga disseminada pelos canais da eficiência capitalista. Talvez um dia nos leve à lua. Ou à rua. Não sei. Que tudo isto vá acontecendo mais ou menos silenciosamente é sinal de uma apatia que não dignifica a democracia, uma democracia de mordaça na boca e mãos atadas. 

FRAGMENTOS DE UMA IDEIA BURGUESA


I

Visto a camisa. Depois distingo
o dia, usando um alfinete
sob a lomba das unhas.

Caiu-me já o tecto. Medi-o
nas paredes:
as quatro profecias.

Pasto: achado alado o logro
nos flancos de um polícia.

Rodas: de carro de poeta
de puta.

Medidas preventivas
até que chegue a noite.

II

Nasce um pensamento na garganta
como um filho. Enrodilho
o filho o pensamento
e a garganta.

Sofremos todos de moscas nos artelhos
eu deixei de ir à missa há mais de um ano
não brinco com os novos e farto os velhos
sacrilégios domingueiros, abortos
deste clima americano.

Não devia haver mais hermetismo
uma boca deslocando o sonho pela mão
e de repente nascermos assim todos
sem baptismo.

É que há uma origem frustrando nosso enlace
repentino com a morte e uma morte dividindo
nosso serviço
absurdo de ir andando.

Andando Armando a rima zune
e o pensamento afasta prejuízos
e só sorrisos são
a morte natural do entendimento.


Armando Silva Carvalho (n. 1938), in Lírica Consumível (1965). «De duas revistas coimbrãs, A Poesia Livre, um número, 1962, e Poemas Livres, três números, 1962-63, saíram: Manuel Alegre (...) e Fernando Assis Pacheco (...). Bom testemunho de uma emotividade e combatividade revolucionária é, nos anos 60, a do malogrado Daniel Filipe (...). Mais desconcertante do que a maioria destas vozes revela-se a de Armando Silva Carvalho (...) no modo como utiliza a associação aleatória, verbal ou narrativa, e consegue captar certa atmosfera lisboeta actual, certas raízes rurais ainda portuguesas, para, sarcasticamente, reduzir a farsa várias maneiras e discursos de actualidade cultural ou, geralmente, nacional» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «O que distingue Armando da Silva Carvalho [sic], e faz a inequívoca força e qualidade da sua poesia, é um vocabulário desconcertante, entre o requintado e o pedestre, entre o enternecido e o violento, rodando permanentemente sobre si próprio, o que não é apenas um trabalho de som e ritmo, mas a transcrição da voz do mundo com tudo aquilo que tem de acidentado e pedregoso» (Eduardo Prado Coelho, Público, 2 de Julho de 2005).  

segunda-feira, 15 de junho de 2015

#63


E agora? Pela parte que me toca, podem vir todos os especialistas do mundo contradizer o que a pele não desmente: Benjamin Sainte Clementine é um génio. Pode não gravar nem mais uma nota. O que deixou em At Least For Now (2014) é mais do que suficiente para que o entusiasmo não esmoreça. Não escreveu Rimbaud tão poucos poemas? Foi a economia inimiga da perenidade? As onze canções deste disco perdurarão como instantes que penetram fundo o nervo da universalidade, a espinha dorsal da perfeição. Não exagero se disser que a comparação com Antony & the Johnsons é como um 18 na pauta de um aluno com média de 20 valores. Benjamin detém uma voz única, daquelas que emocionam logo à primeira audição como só as melhores conseguem. Lembro-me de Lhasa de Sela, não pelo timbre. Por aquela coisa que arrepia e não se explica senão repousando os olhos sobre a epiderme. Faz-se acompanhar de um piano tocado com delicadeza e aquele feeling de preto que vem dos blues, uma coisa sanguínea, isto é, celestial. Não sei se estão a ver: blues, azuis, céu… ou mar. O fundo do mar onde Cousteau descobriu a melhor das músicas, o silêncio. E a genialidade deste Sainte está também na forma como trabalha os silêncios, na respiração que oferece às notas. À medida que o disco discorre, a gente vai ouvindo as referências que o texto final não encobre: Satie, Nina Simone, Puccini, Nick Drake... Mas ouve-as lá ao fundo, como um som que vem do passado e readquire força, vida, não é um eco perdendo-se na distância, é um eco ressuscitando na proximidade. Capaz de citar Churchill logo no primeiro tema, misturá-lo com George Orwell, cantar como um profeta que traz por companhia o máximo dos mínimos (baixo, percussão, secção de cordas), capaz de nos perturbar com inquietações existenciais, as mais antigas, as essenciais, capaz de penetrar delírios que apenas julgaríamos possíveis a uma mente perturbada como a de Scott Walker, oferecer isso a que alguém um dia chamou “soul” a cada palavra, a cada acorde, porque nestas composições os acordes confundem-se com palavras a vaguear algures entre Londres e Paris, na penúria entre Londres e Paris, uma penúria zen, divina, sagrada, a penúria do santo que caminha descalço sobre a neve e quase nu sob a chuva, vê anjos no caminho, desenha-lhes o mapa como também Wim Mertens desenhou em muitas das suas melhores composições. Exagero?  Ora digam lá se exagero:

sábado, 13 de junho de 2015

DOMINGO


a Carlos Parreira

A distância entre mim e o que me circunda,
sempre a repercutir-se nos meus gestos,
aflige-me e dói-me.

Olho para aquela rua vagamente,
olho em volta de mim neste café longínquo,
e todas as coisas não significam coisa alguma
e toda a gente tem escrita no rosto
quanta traição da vida!

Ah, que não consigo ser fraterno e integrar-me
e ser despreocupado e ignorante
do meu, do nosso drama...

Bem quisera esquecer-me e enlear-me
nas coisas fúteis, ingenuamente vis,
que alimentam o destino desta gente.
Mas olho para mim e sinto-me diferente,
amachucado pela lucidez duma intuição
que todas as tentativas para imiscuir-me 
não conseguem mais do que exacerbar.

Consola-me a certeza de que tudo isto é fictício,
e não me custa a renúncia, em troca deste contemplar
calado, discreto mas tumultuoso...
Lá fora há agitação e há bulício.
Paira sobre as coisas a inutilidade,
o frágil, o efémero...

(Chego às vezes a pensar que tudo não seja mais que representação.)

Cansado do espectáculo,
abandono esta mesa de café
e vou passear ilusões impossíveis,
até que a noite venha e eu recolha
à solidão do meu quarto
— mãos vazias e coração intranquilo.


Luís Amaro (n. 1923), in Dádiva (1949). «Em traços gerais, digamos que a poética de Amaro se aproxima de alguns autores presencistas, num lirismo muitíssimo subjectivista e não especialmente modernista. Régio influenciou esse registo de confessionalismo umas vezes melancólico e outras quase agónico, mas encontramos também afinidades com a musicalidade minimalista de António Botto ou Saul Dias, com alguma ingenuidade humanista de Sebastião da Gama ou com o queixume musicalmente tecido de António Nobre. O vocabulário e o imaginário de Amaro é muito simples e reincidente: existe "a vida", quase sempre decepcionante e fugaz; a solidão, sofrida em segredo, embora um segredo anunciado em versos; a lassidão face à agitação e futilidade das multidões; a "alma", que é uma forma de ânsia, de vaga religiosidade, de rectidão ética; há a noite, que encerra todas as ilusões; há uma tristeza que às vezes é quase angústia adolescente; há um "caminho" difícil e contrariado nas suas intenções iniciais; há um "sonho", que é a vontade de um voo livre e sem horizontes; há uma aceitação estóica da vida toda, dos instantes todos; há uma camaradagem de acentos vagamente sociais; há uma esperança que nasce da inquietude; e há uma crença na poesia que tudo sustenta» (Pedro Mexia, in DN, 6.ª, 14 de Julho de 2006). 

A MORTE DOS DEUSES

A primeira das quatro biografias reunidas na Vida de Paulo Leminski é dedicada ao poeta negro Cruz e Sousa (1861-1898), filho de escravos adoptado pelo proprietário de seu pai, um mestre-pedreiro, que contra todas as probabilidades aprendeu a ler e a escrever. É no entretanto da análise poética levada a cabo por Leminski, sempre atenta ao detalhe e minuciosa nos aspectos que julgaríamos menos relevantes, que encontro este argumento fortíssimo contra o meu ateísmo. Fala-se, refira-se a título de introdução, na capacidade que a cultura negra teve para resistir a um violento processo de aculturação que, por exemplo, praticamente exterminou a cultura do índio. Estamos no campo da citação da citação:

«No jornal, uma entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um intelectual de esquerda:
— Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música, que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia, estaremos matando toda a árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não pode nem deve negar nossas crenças. Porque estaria negando a nós mesmos».

Imagine-se, por arrasto, o que seria da poesia com a morte da música. Esta inquestionável ligação da produção artística ao culto do sagrado tem uma enorme força, sendo indesmentível em termos arqueológicos e ressuscitando o velho problema do ovo e da galinha: primeiro os deuses ou a arte? Eu tendo a acreditar que foi a arte que gerou os deuses, mas mesmo nesse domínio reconheço não poder escapar ao pântano da fé. 
Produtos da fantasia, por certo, mas vinculados a uma necessidade física, uma necessidade até de sobrevivência, os deuses, enquanto personagens fictícias do reinado metafísico, expressam (a palavra é mesmo esta) um modo de olhar para o mundo, uma perspectiva, um modo de sentir o lugar do homem na vasta geografia natural, expressam um modo de estar com a Natureza que, nas suas múltiplas variantes, se resumiu a tentar dominá-la (monoteísmos) ou simplesmente aceitá-la, venerá-la, procurar com ela um estado de fusão integrador (paganismos). 
Daí que o grande desafio do ateísmo não seja negar os deuses, como quem se ocupa de negar o que à partida considera inexistente, mas antes empenhar-se em impedir que o deus único das três grandes religiões se imponha pela força a todo e qualquer culto do sagrado que não se reconheça na arquitectura fascista dos preferidos e dos eleitos. No fundo, trata-se de garantir que o motivo para a dança, para a música, para a poesia se mantenha vivo.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

FICHA QUOTIDIANA


Um dente nada é no teu corpo laborioso
mas na semana em que fores ao dentista
esqueces a criação do mundo
Marx   Aristóteles e Von Braun.
O terramoto de Lisboa pode ser uma cárie
e a subida ao Evereste
um pé torcido.
Excedemo-nos de frases   ideias   inventos
sistemas   equações   galáxias
mas das coisas grandes   do resplendor dos mitos
restam ao fim do dia papéis de embrulhos
e a electricidade nas ruas ensonadas.
Pensando bem   objectivamente com o ovo da costura
entre os dedos picados
sabes os anos-luz que nos separam da Andrómeda
e ao cabo de vinte séculos descobres
que talvez Cristo seja cósmico ou apenas um berço de palha
mas recomeças invariàvelmente o teu dia às oito
com um bocejo de forçado ignorado
e comes torradas prevendo que ao bater das doze
te darão migas de coentros.
A tua contagem lunar de funcionário
tem por alvo a casa de banho
onde fumas cigarros ilícitos
e mesmo que Frank Borman chegue à Lua
e a tua espécie se extinga dentro de um milhão de anos
não deixarás de seguir pela direita   apesar da teimosia dos Ingleses
e de abotoares o sobretudo pensando na gripe asiática.
Tens o nariz perfeito e para isso adoptaste figurinos de beleza
o teu engenho refundiu a terra e gerou alegorias
e nelas incluíste a Revolução de Maio e as marcas de automóveis
fabricas lacas para o cabelo polvilhadas de metafísica
mas basta um dente para te desfigurar
e lá se vão as teorias.
És belo porque belo te quiseste
belo   magnífico   feiticeiro
o mundo saiu-te das mãos como uma órbita corrigida
mas se o dente está fora do sítio
ninguém te vê a flora azul dos olhos
ou o bailado do gesto tendo por debaixo
as montanhas que dominas.
A Cassiopeia é longe quando a broca te perfura
ter sono é uma verdade como a fome e o dicionário
e os visons continuam a justificar adultérios.
Neste quotidiano das oito às onze
podes ser tudo ou   apenas um dente
que de desfeia.


Fernando Namora (n. 1919 - m. 1989), in Marketing (1969). «O seu terceiro livro de poesia, em 1941, teve a importância histórica de iniciar a colecção Novo Cancioneiro. Durante quase vinte anos, até 1959, a sua actividade confinou-se à ficção, em que granjeou enorme prestígio, através de romances e narrativas que o colocaram na primeira fila do neo-realismo, de que evoluiu ulteriormente para uma mais ampla temática. O longo silêncio poético fez injustamente esquecer quanto sobretudo o livro de 1941 [Terra] contribuíra decisivamente para fixar certas linhas rurais e humanitárias do neo-realismo na poesia, que, nos primeiros livros, estavam ainda muito identificadas com o tom melancólico e sonhador de alguma poesia menor da presença» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). «Fernando Namora, cuja poesia desde 1937 se reuniu em As Frias Madrugadas, 1961, 6.ª edição 1978, e que principiou, em prosa, pela ficção sobre a adolescência em moldes presencistas (...), notabilizou-se pelo que, em refundição, viria a ser o único romance neo-realista da mocidade universitária (Fogo na Noite Escura, 1943, 14.ª edição ref. 1988» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura).  

quinta-feira, 11 de junho de 2015

ORNETTE COLEMAN (1930-2015)


PERSIANAS

A estreia de Miguel-Manso (n. 1979) com os livros Contra a Manhã Burra (Edição do autor, Maio de 2008) e Quando Escreve Descalça-se (Trama Livraria, Novembro de 2008), trouxe à poesia portuguesa contemporânea uma frescura lexical e um desembaraço formal que andavam arredados pela prática quase invariável de uma discursividade submergida em apontamentos quotidianos, elucubrações avulsas sobre a passagem do tempo, narrativas nocturnas e uma retórica elegíaca inconsequente. Notou-se nesses livros uma nostalgia do belo, uma focalização no pormenor, uma arqueologia da palavra que volumes tais como Santo Súbito (Edição do autor, Março de 2010), Ensinar o Caminho ao Diabo (Edição do autor, Março de 2012) e Um Lugar a Menos (Edição do autor, Março de 2012) continuaram sob a sigla genérica de “Os carimbos de Gent”. A história dos carimbos é conhecida e não vale a pena reproduzi-la, mas talvez não seja inoportuno relembrar alguns dos textos que dediquei a esses livros aqui, aqui e aqui.
O peso que hoje recai sobre Persianas (Edições Tinta-da-China, Abril de 2015) é o peso da expectativa. Embora tenha publicado, em 2013, uma antologia pela Relógio D’Água, este é o primeiro original de Miguel-Manso a merecer uma distribuição conforme a mediatização de que os seus versos foram alvo desde a primeira hora. Trata-se de um livro extenso, composto por três conjuntos onde se nota a preocupação de organizar os poemas por núcleos temáticos distintos (ainda que interligados). O primeiro intitula-se Campéstico, Paisagens e Interiores, o segundo ofereceu o título ao livro, o terceiro chama-se Da Cegueira dos Pintores. Sublinhe-se, desde já, que os nomes do primeiro e do terceiro conjuntos foram surripiados a artistas visuais que uma nota final aponta: Campéstico, Paisagens e Interiores é o título de uma série de pinturas de Álvaro Lapa, Da Cegueira dos Pintores é um texto de Júlio Pomar.
A relação estabelecida entre os poemas de Miguel-Manso e o universo das artes visuais foi sempre de proximidade declarada, podendo mesmo afirmar-se a existência de uma imagética particularmente visual nos seus versos. São imagens que decorrem de um ver, mas não apenas de uma postura determinística do sujeito face ao objecto. No último conjunto deste livro, repleto de referências provenientes das artes plásticas, essa relação é problematizada nos três versos finais do poema Folha de Sala para Sargy Mann (pintor britânico, quis o acaso, falecido à data da publicação deste livro): «quem vir por fora estas pinturas é cego de as não / ver onde perduram: // diante do que em si é através» (p. 161). O remate, que aparenta uma blague, deixa-nos, na realidade, perplexos, pois alude a uma espécie de elo cabalístico entre aquele que contempla e o que é contemplado.
Evito a palavra fusão por nela pressentir há muito uma grande confusão, sendo talvez mais correcto falar-se de um circuito mediado pelos sentidos que faz a imagem perdurar na emoção gerada pelo instante. «O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível», dizia Merleau-Ponty, acrescentando que «o espelho aparece porque eu sou vidente-visível, porque há uma reflexividade do sensível, que ele traduz e redobra. Através dele, o meu exterior completa-se…» De algum modo este diálogo reproduz os efeitos do poema face ao leitor, ou seja, o que o leitor recolhe no instante da leitura é uma visão que coloca o pensamento numa encruzilhada de sensações e de emoções. Daí que, e ainda com Merleau-Ponty, devamos dizer que «A arte não é construção, artifício, relação industriosa com um espaço e um mundo exteriores. É verdadeiramente o «grito inarticulado», de que fala Hermes Trimegisto, «que parecia a voz da luz»».
Ora, alguns poemas de Miguel-Manso, mais os do terceiro conjunto, são como que esse «grito inarticulado que parecia a voz da luz». Na sua aproximação às obras de arte convocadas, eles estoiram para lá das molduras em dedicatórias a amigos, inúmeras reflexões sobre a escrita — por vezes, em estreita comparação com a pintura: «a escrita — a pintura — é como apertar uma vagem / de baunilha // custa e gasta-se» (p. 111) —, apologias do desprendimento em invocações onde a atitude dos artistas é mais motivo do que as suas obras (Gauguin sem calças a tocar harmónio, O pijama de Matisse, O tronco nu de Picasso, A camisola do Miró, Cesariny de roupão ao piano), anotações biográficas, diversões gráficas, reflexões intimistas, justaposições identitárias inesperadas (Paris, hôtel de Nice, Turim, Hotel Roma, Paris, hôtel La Louisiane, Porto Alegre, Hotel Majestic), raras mas contundentes farpas à actualidade:

PLÂNCTON
para o Luís Pedroso

a moedagem por que tudo se rege
desde o início até ao cabo dos prazos
onde a coruja económica plana sobre
a cegueira do aperto ecuménico

e nos diz que seremos felizes já no terceiro
semestre do corrente

se são anos complicados
até para o gozo dos banqueiros o que será daqueles
que se abancam dia e noite
na desgraça

a salvo disto estão felizmente os poetas
alimentados do éter

e do plâncton

Irónica quanto baste, por vezes inflectindo na direcção de um humor escarninho, esta poesia não se restringe, porém, a tais efeitos. Num certo sentido podemos até julgar que os evita, depois de os ter explorado ao limite suportável em livros anteriores. Noutro sentido, há um elemento biográfico revelado na nota de badana que marca fortemente os dois primeiros conjuntos da colectânea: «Viveu em Almeirim e em Lisboa. Hoje mora numa aldeia do concelho da Sertã». O regresso às origens rurais é uma marca fortíssima tanto em Campéstico, Paisagens e Interiores como em Persianas, a qual se manifesta em elementos que podemos resumir a partir da leitura do poema 27, que me parece central, do primeiro conjunto:

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.
CESÁRIO VERDE

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,

cercado de hábitos
e de conteúdos que nada e que tanto
predizem

cascalho que o íntimo da casa
importa para o malquerido usufruto
porcelanas que reluzem a cada almoço
aquém e além persianas

coisas
que multiplicam até ao sufoco
e pior que coisas a qualidade que têm
que lhes pomos

escrevo nomeando tudo
e tudo transcende o nome que tem
tudo alarga de inominável
brilho

E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua alcatroada

o mesmo alvor mas filtrado têm
os matizes domiciliados as translucidezes
de que me sirvo para inteirar
o esqueleto confuso destes versos

triste — e clemente — quem neles pousa
agora o olhar

Num livro repleto de epígrafes (Álvaro Lapa, Bíblia, Catarina Barros, Daniel Faria, Herberto Helder, João Barrento, João Vário, José Tolentino Mendonça, Leonard Cohen, Omar Khayyām, Rumi…), esta de Cesário Verde é sintomática de uma relação aberta com a tradição. Provenientes do poema Num Bairro Moderno, estes versos de «Cesário, o poeta-pintor («pinto quadros por letras, por sinais»)», segundo Maria Ema Tarracha Ferreira, são exemplificativos de um modo de cantar as rotinas citadinas ao qual Miguel-Manso irá contrapor a luz do campo, não sem ironia ter sabotado Cesário cá mais para o fim. No original, lemos «A larga rua macadamizada» onde agora está «A larga rua alcatroada». Esta transformação da paisagem não denuncia apenas o efeito do tempo sobre as coisas, pelo menos não tanto quanto a actualiza. As ruas macadamizadas de agora são outras, perduram enquanto tradição onde a contemporaneidade opera transfigurações mais ou menos radicais.
Logo nos primeiros versos deste poema encontramos, de igual modo, uma alusão a Fernando Pessoa e ao conhecidíssimo poema O Quinto Império. São também inúmeras as alusões que atravessam Persianas: Flannery O’Connor, Zbigniew Herbert, Annemarie Schwarzenbach, Pedro Homem de Melo, Manuel Bandeira, Mário de Sá-Carneiro, Arvo Pärt, Rosa Ramalho, Morandi, Seurat, Van Gogh, só para dar uma ideia da manta de retalhos… Mas o Quinto Império de Miguel-Manso é de índole doméstica, não acusa ambições messiânicas, concentra-se nas ruas da aldeia do concelho da Sertã para onde o poeta se mudou e nas outras, as da infância, que vêm de quando em vez à memória e transcendem a aleatoriedade caótica das lembranças para se inscreverem no texto já com flutuações que não apenas as das reminiscências acidentais. É o império dos campos, do céu aberto, do sossego, da paz, do silêncio, da luz que atravessa os dias e da noite que cai sobre as horas, é o Império daquele que sente e pensa e escreve e retrata os dias, é o Império das palavras, que o poeta resgata obsessivamente e faz reviver em renovados contextos de sentido e de significado.
Há porém uma dimensão saturante nestes textos que importa apontar. Refiro-me a um recorrente, insistente, permanente questionamento sobre a escrita, a natureza da poesia, as capacidades do poema, uma insistência que de algum modo defrauda e contradiz a desimportância da poesia que Miguel-Manso sublinha a páginas 103. Mais irritante ainda quando estes tormentos são reforçados pela pose do poeta que se dirige ao leitor: «perdoe o sensato leitor eu insistir / ali e aqui no gracejo fácil» (p. 44), «uma pausa ó único leitor // que na desordem em que está / a tua vida e a minha veio meter-se de novo / este livro antigo» (p. 60), «(o leitor não precisará de encher um edredão?)» (p. 84), «leitor pondo / à laia de São Tomé o dedo nesta ferida» (p. 93), ou, na sua versão derradeira, o último poema do livro:

O GORILA INVISÍVEL

leitor — lépido multiplicador
de esquecimentos — que porventura examinaste
o dom e a mácula destes versos
brancos

terás visto o gorila?


Trata-se de um impulso que talvez pudesse ser refreado, senão mesmo evitado, sob pena de afectar desnecessariamente a tal relação estabelecida entre o sujeito e a obra que no início referíamos. As figuras, isto é, os poemas, que o leitor observa/contempla não são meios de comunicação onde o objecto possa impor-se ao sujeito, pelo menos segundo os pressupostos que as persianas permitem antever quando abertas pela leitura. Forçar esta relação significa adulterá-la. Que o poeta não pense e não se preocupe com o leitor é tudo quanto dele esperamos.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

MITOS URBANOS

Relvas pede desculpas ao "Público" mas repudia denúncia de ameaças ou pressões

PS, PCP e Bloco de Esquerda querem a demissão de Rui Machete a propósito do pedido de desculpas a Angola 

Marques Mendes afirma que Gaspar devia "pedir desculpa"

Vitor Gaspar pede desculpa por ter faltado a três audições

Passos Coelho pede desculpa por medidas de austeridade

Miguel Macedo exige desculpas de associaçao da GNR

Crato pede desculpa aos professores e aceita demissão de director-geral


Citius. Ministra pede desculpa pelos "transtornos"

EPIFANIAS #12

12

                                            [Dublin: na casa dos Sheehy, Belvedere
                                            Place]
O’Reilly — (com uma seriedade crescente). . . . Agora
            é a minha vez, creio. . . . . (absolutamente
            sério). . . . Quem é o seu poeta
            favorito?
                        (uma pausa)
Hanna Sheehy — . . . . . . .Alemão?
O’Reilly —. . . . . . Sim.
                        (um silêncio)
Hanna Sheehy — . . Penso que. . . . .Goethe. . . . .


James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF. 

terça-feira, 9 de junho de 2015

UMA FOTOGRAFIA DE DANIEL BEREHULAK


UM POEMA DE ANTÓNIO PEDRO

Ao Guilherme de Faria
e ao Manuel de Castro
 
XI
 
Será breve?
Será longa?
Breve ou longa, será longa
Para Além,
Minha vida
Consumida
Só por só,
Neste viver
Sem querer
Mais nada que querer bem.
 
...E os outros passam...
— Se passam,
Que tem?
 
Antes bem só,
Do que estar inda mais só,
Com todos e sem ninguém!
 
 
António Pedro, in Primeiro Volume - Canções e Outros Poemas / 1927-1935, XI poema do conjunto Distância (1928), Edições Revelação, Lisboa, 1936, p. 47.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

TEORIA

   A obra de arte é um espectáculo onde agem diferentemente o artista e o público. O que é passado do primeiro deve poder ser sempre o presente do segundo. Isto exige, além duma verdade emocional sem entraves, uma expressão sensível controlada.
   Não há criação artística independente da forma. Esta deve ser para o conteúdo ó «único» veículo de comunicação, quere dizer: a obra de arte deve ser intraduzível por outros meios que não sejam aqueles de que se serviu o artista.
   A arte não é um ideal humano. Afirmá-lo é desconhecer a realidade dolorosa da sua exigente humanidade. Também não é uma atitude preconcebida. Também não é um divertimento estético. Também não é um afinamento do vulgar. Também não é uma vulgarização do sublime. Não é também uma sublimação do humano. Sublime ou humana ou vulgar ou elegante, ela é apenas um estado de espírito particular que se caracteriza por um desejo «imperioso» de exteriorização objectivada.
   Só a obra de arte interessa. Por ela, o caso individual, particular do artista, se transforma num caso social. Êsse o mistério que a sagra. O «estado de arte» não pode interessar senão pelos seus resultados na realização da «obra».
   Não há cinco artes. A arte é uma palavra sem plural. A sua objectivação pode servir-se de todos os meios encontráveis. O que diferencia essencialmente as suas formas de expressão é a «atitude» do artista.
   Poesia quere dizer: ritual exaltação sensível. Música quere dizer: ritual exaltação rítmica. Dança quere dizer: ritual exaltação corporal. Pintura quere dizer: ritual exaltação analítica. Escultura quere dizer: ritual exaltação formal. De resto, tudo isto não tem senão uma importância particular. «A arte é um rito mágico essencialmente humano, tocado de exaltação».
 
António Pedro, in Primeiro Volume - Canções e Outros Poemas / 1927-1935, Edições Revelação, Lisboa, 1936, pp. 21-24.

UM POEMA DE RUI COSTA


J.
 
Na bicicleta tão pequena tu eras grande
de mais. Saltando muros, levantando a
roda, até os meus tios vinham ver-te
às voltas no terreiro de asas nas rodas
e jeito tão azul. Mas um dia
ganhei-te na corrida. Tu sorriste,
deste-me piratas e eu nunca soube bem porquê.
 
Mas não foi por causa disso que morreste.
Um dia de manhã os teus pés parados sem saber.
Morreste nesse dia e eu nem sequer
chorei. Não é preciso, amigo.
Chegaste primeiro desta vez. És o maior:
 
A morte é uma bicicleta, tenho
a certeza disso.
 
 
 
Nota: com um agradecimento à Cláudia Souto pela partilha da imagem.

domingo, 7 de junho de 2015

UM POEMA DE MIGUEL-MANSO

sobre poesia
 
duas coisas: é menos importante
do que se crê
 
e devia ter ainda menos leitores
 
havemos de voltar todos de Pasárgada
símios de parecida frouxidão
 
 
Miguel-Manso, in Persianas, Edições Tinta-da-China, Abril de 2015, p. 103. Nota: não gosto deste poema, talvez venha a explicar(-me) porquê em futuras elucubrações.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

LÓGICAS MENTAIS

    Ligaduras em volta dos pés na China; alongamento do pescoço com anéis no povo padaung; limagem de dentes, furos no nariz, nas orelhas ou nos lábios nas tribos da Amazónia; escarificações e tatuagens polinésias; esmagamento da caixa craniana no Peru, tudo isso procede do mesmo pensamento mágico que está na origem da excisão e infibulação africanas ou da circuncisão judaica e muçulmana. Marcação do corpo por razões religiosas, sofrimentos rituais no sentido de conquistar a sua integração na comunidade, práticas tribais destinadas a atrair sobre si a bênção dos deuses, as razões não faltam - para não falar das hipóteses psicanalíticas.
   Porquê sorrir da cavilhagem da glande na Oceânia, da castração dos skopzi russos - uma seita em ofício entre o século XVIII e os anos 20 do século XX... -, da subincisão australiana - pénis fendido do meato até ao escroto, a todo o comprimento?... As lógicas mentais, os pressupostos ontológicos, as doses de pensamento mágico são exactamente os mesmos. A não ser que consideremos bárbaro o que não é do nosso uso - já dizia Montaigne... -, como aceitar e legitimar as nossas mutilações ao mesmo tempo que recusamos as do vizinho?
 
Michel Onfray, in Tratado de Ateologia, trad. Francisco Oliveira, Edições ASA, pp. 103-104.

OBRIGADO

 
Não está em causa gostar ou não gostar do actual presidente, o do “ânus onde temos duas nádegas que se enfrentam e dizem: ‘Estou aqui e sou melhor do que tu’”. Não está sequer em causa o “vento mal cheiroso ou trampa” que estas transferências patrocinadas por negócios obscuros possibilitam. Está em causa a falta de ética de Jorge Jesus e a esperteza saloia de Bruno de Carvalho. Pela parte que me toca, agradeço a Marco Silva desejando-lhe um futuro cheio de sucessos. Mesmo que seja no Benfica.

BEND OF THE RIVER (1952)

Já tenho referido a importância do argumentista Borden Chase (n. 1900 – m. 1971) na edificação daquilo a que podemos chamar o mito do homem americano, alicerçado numa cultura popular que encontrou no western um dos seus pilares fundamentais. Filmes como Red River (1948), de Howard Hawks (n. 1896 – m. 1977), este Bend of The River (1952) e The Far Country (1954), de Anthony Mann (n. 1906 – m. 1967), ou mesmo Vera Cruz (1954), de Robert Aldrich (n. 1918 – m. 1983), e Backlash (1956), de John Sturges (n. 1910 – m. 1992), são excelentes exemplos de uma obra onde a moral cristã sobressai entre os escombros de uma humanidade assaltada pelo vício. Com a vontade iluminada pelo bem, os heróis de Borden Chase são figuras bíblicas em território norte-americano, esse paraíso corrompido pelo pecado a renascer perpetuamente pelas mãos perseverantes e determinadas de indivíduos corajosos, de sentimentos nobres, capazes de distinguir o bem do mal como uma maçã podre de uma saudável.
A metáfora da maçã surge em Bend of The River/Jornada de Heróis enquanto leitmotiv de uma história onde a fé nos homens se alimenta do livre arbítrio ao qual se entrega o destino das almas, tornando assim a consciência do pecado e a vontade de mudar o princípio de um perdão que é, para o bem e para o mal, a lei absoluta da moral cristã. Não importa o que foste no passado, conquanto as tuas decisões no presente reflictam o que pretendes ser no futuro. As personagens interpretadas por James Stewart e Arthur Kennedy são, deste modo, uma espécie de Caim e de Abel que se confrontam por neles existir uma vontade de mudança com intensidades diversas. Arthur Kennedy é Emerson Cole, o salteador do Kansas que Glyn McLyntock (James Stewart) salva da forca por mero acaso. Foi Deus que os juntou nesta jornada a caminho das terras banhadas pelo Columbia River, onde um grupo de agricultores pretende instalar-se para levar uma vida sã sob os auspícios do Senhor. Fogem do pecado que contaminou as terras do Missouri, guiados por um ex-salteador que esconde o seu passado em busca da confiança desta gente entre a qual pretende refazer a vida e viver o futuro.
O que temos aqui em causa é o problema da natureza humana, da singularidade dos homens e da sua inconstância. Nascerá um homem com o destino marcado? Pode a natureza humana ser educada? O pecador tem salvação? Emerson Cole é a maçã podre sem cura nem tratamento, incapaz de resistir às tentações do ouro e das suas febres fatais. É o pistoleiro que não hesita na hora de disparar, advertindo os companheiros de que o perdão mata. Por isso ele atira a matar quando outros atiram a dissuadir. Errático, inconstante, prefere qualquer recompensa material a um humilde agradecimento. Glyn McLyntock é a outra face da mesma moeda. Também ele foi pistoleiro, as marcas da corda no pescoço são cicatrizes que pretende esquecer. Quando interrogado sobre aquilo de que foge, responde fugir de si próprio. É um homem em busca de uma nova vida, quer reconstruir-se e por isso resiste, em nome disso retrai-se, também por isso hesita, mas sem nunca vacilar na sua determinação como um toxicodependente totalmente empenhado em recuperar-se. Aproxima-se dos colonos e serve-lhes de guia, quer provar a si próprio e, por consequência, aos outros que não é como uma maçã podre, que é um homem e que os homens podem mudar, podem controlar a sua natureza, podem resistir, podem escolher a via do bem depois de terem crescido na via do mal.
A encruzilhada onde os dois se cruzam é a encruzilhada da ética cristã, filmada por Anthony Mann com um respeito que não põe em causa os preceitos algo reaccionários de Borden Chase mas que de algum modo os problematiza. McLyntock terá de matar Cole depois de lhe ter salvo a vida, para que os colonos sobrevivam um grupo de mineiros irá provavelmente morrer à fome e ao frio. Porquê optar por uns em detrimento de outros? Porque uns plantam árvores e os outros garimpam? Talvez a resposta esteja em Julie Adams, a bela Laura Baile, filha do líder dos colonos, Jeremy Baile (Jay C. Flippen), quando convalescendo de uma seta espetada no ombro escuta a música que vem das ruas e diz, com ar pesaroso, que por vezes dançar enleva mais o espírito do que o sossego. É este o dilema das almas desassossegadas: incapazes de se adaptarem ao entediante sossego do lar, ficam à distância a escutar o rufar dos tambores com a vontade reprimida no coração. McLyntock não foi mais forte apenas por estar do lado certo. Foi mais forte porque não reprimiu a sua vontade na hora de escolher.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

DOIS POEMAS COM MANETAS

Chove e há
Turistas musculados de t-shirt
A saírem aos pares
De monumentos nacionais.
 
Há também
Gente autóctone que trabalha
Ali perto
E passa depois do almoço.
 
Todos felizes da vida
Por serem humanos;
Até o maneta,
 
Que atrapalha o trânsito
Com obscenidades
Por não ter nada a perder.
 
(e esse mais do que os outros)
 
Rui Almeida, in Leis da Separação, Medula, Setembro de 2013.
 
***
 
vê-se daqui

um edifício alto batido pelo Sol
a única árvore da rua
a macieira inacessível naquele vazio
entre casas

depois do muro
o recreio de uma escola onde
já se sabe
nada de bom se ensinará

uma loja falida
uma padaria encerrada
a florista de plástico

e na drogaria do maneta uma mão
lava a mesma

vejo-me reflectido no vidro
diáfano defectível:

chegou o tempo dos fantasmas
 
Miguel-Manso, in Persianas, Tinta-da-China, Abril de 2015.

MATÉRIA DE SUPORTES

Para os que ainda duvidam das extravagâncias possíveis das religiões em matéria de suportes, reenviamos para a dança da urina nos Zunis do Novo México, para a confecção de amuletos a partir dos excrementos do Grande Lama no Tibete, para a bosta e urina de vaca nas abluções de purificação dos hindus, para o culto de Estérculo, Crépito e Cloacina nos Romanos - respectivamente divindades do esterco, do peido e dos esgotos -, para as oferendas de esterco oferecidas a Siva, a Vénus assíria, para Suchiquecal, que consome os seus excrementos, a deusa mexicana e mãe dos deuses, para a prescrição divina que manda utilizar as matérias fecais humanas para cozer os alimentos no livro de Exequiel e outras vias impenetráveis ou maneiras singulares de travar uma relação com o divino e o sagrado...
 
 
Michel Onfray, in Tratado de Ateologia, trad. Francisco Oliveira, Edições ASA, Setembro de 2007, p. 34.

terça-feira, 2 de junho de 2015

LEI DO PIROPO

— Esse saco só tem um defeito, não cabe lá o livreiro.