A estreia de Miguel-Manso (n. 1979) com os livros Contra a
Manhã Burra (Edição do autor, Maio de 2008) e Quando Escreve Descalça-se (Trama
Livraria, Novembro de 2008), trouxe à poesia portuguesa contemporânea uma
frescura lexical e um desembaraço formal que andavam arredados pela prática
quase invariável de uma discursividade submergida em apontamentos quotidianos,
elucubrações avulsas sobre a passagem do tempo, narrativas nocturnas e uma
retórica elegíaca inconsequente. Notou-se nesses livros uma nostalgia do belo,
uma focalização no pormenor, uma arqueologia da palavra que volumes tais como
Santo Súbito (Edição do autor, Março de 2010), Ensinar o Caminho ao Diabo
(Edição do autor, Março de 2012) e Um Lugar a Menos (Edição do autor, Março de
2012) continuaram sob a sigla genérica de “Os carimbos de Gent”. A história dos
carimbos é conhecida e não vale a pena reproduzi-la, mas talvez não seja
inoportuno relembrar alguns dos textos que dediquei a esses livros aqui, aqui e
aqui.
O peso que hoje recai sobre Persianas (Edições
Tinta-da-China, Abril de 2015) é o peso da expectativa. Embora tenha
publicado, em 2013, uma antologia pela Relógio D’Água, este é o primeiro
original de Miguel-Manso a merecer uma distribuição conforme a mediatização de
que os seus versos foram alvo desde a primeira hora. Trata-se de um livro
extenso, composto por três conjuntos onde se nota a preocupação de organizar os
poemas por núcleos temáticos distintos (ainda que interligados). O primeiro
intitula-se Campéstico, Paisagens e Interiores, o segundo ofereceu o título ao
livro, o terceiro chama-se Da Cegueira dos Pintores. Sublinhe-se, desde já, que
os nomes do primeiro e do terceiro conjuntos foram surripiados a artistas
visuais que uma nota final aponta: Campéstico, Paisagens e Interiores é o
título de uma série de pinturas de Álvaro Lapa, Da Cegueira dos Pintores é um
texto de Júlio Pomar.
A relação estabelecida entre os poemas de Miguel-Manso e o universo
das artes visuais foi sempre de proximidade declarada, podendo mesmo afirmar-se
a existência de uma imagética particularmente visual nos seus versos. São
imagens que decorrem de um ver, mas não apenas de uma postura determinística do
sujeito face ao objecto. No último conjunto deste livro, repleto de referências provenientes das artes plásticas, essa relação é problematizada nos três versos finais do poema
Folha de Sala para Sargy Mann (pintor britânico, quis o acaso, falecido à data
da publicação deste livro): «quem vir por fora estas pinturas é cego de as não
/ ver onde perduram: // diante do que em si é através» (p. 161). O remate, que
aparenta uma blague, deixa-nos, na realidade, perplexos, pois alude a uma
espécie de elo cabalístico entre aquele que contempla e o que é contemplado.
Evito a palavra fusão por nela pressentir há muito uma grande
confusão, sendo talvez mais correcto falar-se de um circuito mediado pelos
sentidos que faz a imagem perdurar na emoção gerada pelo instante. «O enigma
consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível», dizia
Merleau-Ponty, acrescentando que «o espelho aparece porque eu sou
vidente-visível, porque há uma reflexividade do sensível, que ele traduz e
redobra. Através dele, o meu exterior completa-se…» De algum modo este diálogo
reproduz os efeitos do poema face ao leitor, ou seja, o que o leitor recolhe no
instante da leitura é uma visão que coloca o pensamento numa encruzilhada de
sensações e de emoções. Daí que, e ainda com Merleau-Ponty, devamos dizer que
«A arte não é construção, artifício, relação industriosa com um espaço e um
mundo exteriores. É verdadeiramente o «grito inarticulado», de que fala Hermes
Trimegisto, «que parecia a voz da luz»».
Ora, alguns poemas de Miguel-Manso, mais os do terceiro
conjunto, são como que esse «grito inarticulado que parecia a voz da luz». Na
sua aproximação às obras de arte convocadas, eles estoiram para lá das molduras
em dedicatórias a amigos, inúmeras reflexões sobre a escrita — por vezes, em
estreita comparação com a pintura: «a escrita — a pintura — é como apertar uma
vagem / de baunilha // custa e gasta-se» (p. 111) —, apologias do
desprendimento em invocações onde a atitude dos artistas é mais motivo do que
as suas obras (Gauguin sem calças a tocar harmónio, O pijama de Matisse, O
tronco nu de Picasso, A camisola do Miró, Cesariny de roupão ao piano),
anotações biográficas, diversões gráficas, reflexões intimistas, justaposições
identitárias inesperadas (Paris, hôtel de Nice, Turim, Hotel Roma, Paris, hôtel
La Louisiane, Porto Alegre, Hotel Majestic), raras mas contundentes farpas à
actualidade:
PLÂNCTON
para o Luís Pedroso
a moedagem por que tudo se rege
desde o início até ao cabo dos prazos
onde a coruja económica plana sobre
a cegueira do aperto ecuménico
e nos diz que seremos felizes já no terceiro
semestre do corrente
se são anos complicados
até para o gozo dos banqueiros o que será daqueles
que se abancam dia e noite
na desgraça
a salvo disto estão felizmente os poetas
alimentados do éter
e do plâncton
Irónica quanto baste, por vezes inflectindo na direcção de
um humor escarninho, esta poesia não se restringe, porém, a tais efeitos. Num
certo sentido podemos até julgar que os evita, depois de os ter explorado ao
limite suportável em livros anteriores. Noutro sentido, há um elemento
biográfico revelado na nota de badana que marca fortemente os dois primeiros
conjuntos da colectânea: «Viveu em Almeirim e em Lisboa. Hoje mora numa aldeia
do concelho da Sertã». O regresso às origens rurais é uma marca fortíssima
tanto em Campéstico, Paisagens e Interiores como em Persianas, a qual se
manifesta em elementos que podemos resumir a partir da leitura do poema 27, que
me parece central, do primeiro conjunto:
Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.
CESÁRIO VERDE
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
cercado de hábitos
e de conteúdos que nada e que tanto
predizem
cascalho que o íntimo da casa
importa para o malquerido usufruto
porcelanas que reluzem a cada almoço
aquém e além persianas
coisas
que multiplicam até ao sufoco
e pior que coisas a qualidade que têm
que lhes pomos
escrevo nomeando tudo
e tudo transcende o nome que tem
tudo alarga de inominável
brilho
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua alcatroada
o mesmo alvor mas filtrado têm
os matizes domiciliados as translucidezes
de que me sirvo para inteirar
o esqueleto confuso destes versos
triste — e clemente — quem neles pousa
agora o olhar
Num livro repleto de epígrafes (Álvaro Lapa, Bíblia,
Catarina Barros, Daniel Faria, Herberto Helder, João Barrento, João Vário, José
Tolentino Mendonça, Leonard Cohen, Omar Khayyām, Rumi…), esta de Cesário Verde
é sintomática de uma relação aberta com a tradição. Provenientes do poema Num
Bairro Moderno, estes versos de «Cesário, o poeta-pintor («pinto quadros por
letras, por sinais»)», segundo Maria Ema Tarracha Ferreira, são
exemplificativos de um modo de cantar as rotinas citadinas ao qual Miguel-Manso
irá contrapor a luz do campo, não sem ironia ter sabotado Cesário cá mais para
o fim. No original, lemos «A larga rua macadamizada» onde agora está «A larga
rua alcatroada». Esta transformação da paisagem não denuncia apenas o efeito do
tempo sobre as coisas, pelo menos não tanto quanto a actualiza. As ruas
macadamizadas de agora são outras, perduram enquanto tradição onde a
contemporaneidade opera transfigurações mais ou menos radicais.
Logo nos primeiros versos deste poema encontramos, de igual
modo, uma alusão a Fernando Pessoa e ao conhecidíssimo poema O Quinto Império.
São também inúmeras as alusões que atravessam Persianas: Flannery O’Connor,
Zbigniew Herbert, Annemarie Schwarzenbach, Pedro Homem de Melo, Manuel
Bandeira, Mário de Sá-Carneiro, Arvo Pärt, Rosa Ramalho, Morandi, Seurat, Van
Gogh, só para dar uma ideia da manta de retalhos… Mas o Quinto Império de
Miguel-Manso é de índole doméstica, não acusa ambições messiânicas,
concentra-se nas ruas da aldeia do concelho da Sertã para onde o poeta se mudou
e nas outras, as da infância, que vêm de quando em vez à memória e transcendem
a aleatoriedade caótica das lembranças para se inscreverem no texto já com flutuações
que não apenas as das reminiscências acidentais. É o império dos campos, do céu
aberto, do sossego, da paz, do silêncio, da luz que atravessa os dias e da
noite que cai sobre as horas, é o Império daquele que sente e pensa e escreve e
retrata os dias, é o Império das palavras, que o poeta resgata obsessivamente e
faz reviver em renovados contextos de sentido e de significado.
Há porém uma dimensão saturante nestes textos que importa
apontar. Refiro-me a um recorrente, insistente, permanente questionamento sobre
a escrita, a natureza da poesia, as capacidades do poema, uma insistência que
de algum modo defrauda e contradiz a desimportância da poesia que Miguel-Manso
sublinha a páginas 103. Mais irritante ainda quando estes tormentos são
reforçados pela pose do poeta que se dirige ao leitor: «perdoe o sensato leitor
eu insistir / ali e aqui no gracejo fácil» (p. 44), «uma pausa ó único leitor
// que na desordem em que está / a tua vida e a minha veio meter-se de novo /
este livro antigo» (p. 60), «(o leitor não precisará de encher um edredão?)»
(p. 84), «leitor pondo / à laia de São Tomé o dedo nesta ferida» (p. 93), ou,
na sua versão derradeira, o último poema do livro:
O GORILA INVISÍVEL
leitor — lépido multiplicador
de esquecimentos — que porventura examinaste
o dom e a mácula destes versos
brancos
terás visto o gorila?
Trata-se de um impulso que talvez pudesse ser refreado,
senão mesmo evitado, sob pena de afectar desnecessariamente a tal relação
estabelecida entre o sujeito e a obra que no início referíamos. As figuras,
isto é, os poemas, que o leitor observa/contempla não são meios de comunicação
onde o objecto possa impor-se ao sujeito, pelo menos segundo os pressupostos
que as persianas permitem antever quando abertas pela leitura. Forçar esta
relação significa adulterá-la. Que o poeta não pense e não se preocupe com o leitor é tudo
quanto dele esperamos.