terça-feira, 18 de agosto de 2015

BUKOWSKI, O CRÍTICO

Entre os variadíssimos temas que pulverizam a obra bukowskiana, estão inúmeras referências aos ódios e às paixões literárias de estimação. Charles Bukowski daria um excelente “microcrítico literário”, de garras afiadas e com sarro suficiente para que não lhe descortinemos qualquer compromisso. Não obstante, por vezes aproveita-se de elementos ficcionais para lançar farpas sub-reptícias. No romance Mulheres, a crítica exerce-se de um modo enviesado mas ao mesmo tempo sugestivo:

Chamava-se Randy Evans, e estava demasiado ligado a Kafka para conseguir escrever algo de interessante.

Ou:

A culta viajante do mundo tinha as Irmãs Brönte sobre a mesa de cabeceira. Ambos gostávamos de Carson McCullers, The Heart is a Lonely Hunter. Dei-lhe três ou quarto de seguida e ela gemeu.

Numa outra passagem, ficam claras as preferências do autor:

Encontrei uma pedra grande e comecei a bater contra o cadeado. Ele não cedeu. Meu Deus, o que teria feito Jack London? O que teria feito Hemingway? E Jean Genet?

As três referências surgem como uma espécie de trindade no meio de uma situação caricata. São referências para e na vida da personagem central, o alter-ego Henry Chinaski. Algo semelhante sucede num conto de Histórias de loucura normal:

o que esperaria agora de mim o grande editor? o que é que o Hem teria feito? o Dos Passos? o Tom Wolfe? o Creeley? o Ezra?

A este tipo de alusões deveríamos juntar as considerações sobre a entidade do escritor, quase sempre depreciativas ou, pelo menos, nada glorificantes. Interessam-me mais as referências directas, as declarações de amor ou de ódio. Nelas o desprezo latente à actividade literária como que trai a postura distante do marginal. Como interpretar o capítulo 83 de Mulheres, quando Chinaski está num quarto ao lado de Burroughs e evita o encontro alegando interesses mais prementes tais como a ausência de frigoríficos nos quartos ou a ansiedade pelas corridas de cavalos? Desinteresse ou orgulho? Algumas páginas depois, abordado por uma professora de literatura e pela sua aluna bucha, lá vai respondendo:

«Qual é o seu autor preferido?»
«Fante».
«John F-a-n-t-e. Ask the Dust, Wait Until Spring, Bandini».
(…)
«Porque é que gosta dele?»
«É a emoção absoluta. Um homem muito corajoso.»
«Quem mais?»
«Céline.»
«Porquê?»
«Arrancaram-lhe as tripas e ele riu-se, e fez com que eles se rissem também. Um homem muito corajoso.»
(..)
«Hemingway?»
«Não.»
«Porquê?»
«Demasiado terno, demasiado sério. Um bom escritor, frases interessantes. Mas para ele a vida foi quase uma guerra total. Nunca saía, nunca dançava.»

A última consideração parece contraditória com a alusão anterior ao mesmo escritor. Bukowski era mais esquivo do que parecia. E a páginas 247, novamente uma referência aparentemente contraditória. Desta feita, a Céline (nome de alucinação no extravagante romance Pulp):

Refiro-me ao Voyage ao bout de le nuit. Depois deste livro, ele perdeu a mão, tornou-se fraco, começou a enganar os editores e os seus leitores. É uma verdadeira pena. O seu talento desapareceu.

Já no romance da infância, Ham on Rye, o episódio onde se relata a descoberta do gosto pela leitura nas bibliotecas chega a ser comovente. «O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva». Seguem-se referências sucintas a Sinclair Lewis: «Ele desmontava a hipocrisia inerente às pessoas. Mas faltava-lhe paixão». A Josephine Lawrence, a D. H. Lawrence, a Huxley, a Dos Passos, Dreiser, Sherwood Anderson, e, novamente, Hemingway:

E depois apareceu Hemingway. Que maravilha! Esse sim sabia como escrever uma frase. Era uma alegria. As palavras não aborreciam, punham-me a cabeça a latejar. Se o lêssemos e nos deixássemos levar pela magia, conseguiríamos viver sem dor, com esperança, acontecesse o que acontecesse.

Bukowski relata uma descoberta da infância, é natural que com o tempo a primeira impressão tivesse desvanecido. Seguiram-se os russos Turguenev e Gorky, «G. B. Shaw com a sua mente tacanha sempre a bater no fundo, com aquele seu humor elaborado que no final se tornou um fardo, impedindo-o de sentir alguma coisa, com o seu brilhante discurso transformado em aborrecimento, arranhando a inteligência e os sentidos». Já Pulp, o mais alucinado dos romances de Bukowski, está pejado de referências lacónicas a escritores tais como Céline, Faulkner, Carson McCullers, Hemingway, Thomas Mann, Kant, Dante e Fante (num diálogo que parece ter surgido de uma ressaca de ácidos)… Mas Pulp passa ao lado deste domínio das considerações críticas, tal como Correios – onde, estranhamente, não encontramos uma única referência às inclinações literárias. Se quisermos encontrar tais referências, o melhor é frequentarmos as colectâneas de contos. Em A Sul de Nenhum Norte, no conto intitulado Classe, desafia Hemingway para um combate de boxe, num episódio que tem qualquer coisa de metafórico:

   Tinha encostado Hemingway contra as cordas. O homem não podia cair. Sempre que começava a cair, endireitava-o de novo com outro soco. Era um massacre. Death in the Afternoon.
   Recuei alguns passos e o sr. Ernest Hemingway caiu de borco, completamente fora de combate.

Há também histórias de escritores obscuros onde vislumbramos protótipos de uma degradação que tem sempre na mira a coragem enquanto virtude, a cobardia como o maior dos vícios. O conto Foi isto que matou o Dylan Thomas é exemplar de uma espécie de código (a)moral onde a crítica se exerce, também, de uma perspectiva autocrítica:

Chamo-me Henry Chinaski e sou poeta, sou profundo, sou magnífico, isto é, tenho colhões, tenho colhões. Bem, é isso mesmo, sim senhor, tenho uns colhões do caralho.
(…)
Mas cautela com as armadilhas, Chinaski, cautelinha. Foi preciso lutar muito durante muito tempo para dominares a palavra como querias, do modo que querias. Não vás permitir que um pouco de adulação e uma câmara de cinema te levam a pôr um pé em falso. Lembra-te do que dizia Jeffers – até os melhores se deixam apanhar, como Deus, quando um dia desceu à terra.
(…)
Marionetti voltou com um gajo do S. F. Chronicle que escreveu na coluna dele que eu sou o melhor contista desde Hemingway. Digo-lhe que está enganado; que não sei quem é o melhor desde o Hemingway, mas que, de certeza, Chinaski não é. Sou demasiado descuidado a escrever. Não trabalho que chegue. Estou muito cansado.

Nas Histórias de loucura normal repetem-se menções a leituras de D. H. Lawrence, Hemingway, Faulkner, Mailer, entre declarações radicalmente heterodoxas: «Estiquei o braço, abri o livro a meio, e comecei a ler o Guerra e Paz do Tolstoi. Nada tinha mudado. Continuava a ser um péssimo livro». E mais: «Falámos sobre Kafka. Dos. Turgenev, Gogol. As secas todas». Perante isto, títulos como Cona e Kant e um lar feliz ou Os grandes poetas morrem em fumegantes tachos de merda são todo um programa. Aparece novamente o mais perturbador dos mestres:

existe actualmente um suspeito menosprezo pelo Hemingway por parte de críticos que não sabem escrever, e o barbaças até escreveu coisas más do meio para o final, mas a cabeça dele começava a desaparafusar-se, e mesmo assim fazia com que os outros parecessem meninos da escola a levantar a mão para pedir licença para um chichizinho literário.

A poesia também não escapa:

aí passadas umas 3 ou 4 cervejas e um banho e depois de ter tentado ler uns livros de poesia por lá, achando-os naturalmente não muito bem escritos, os livros puseram-me a dormir: Pound, Olson, Creeley, Shapiro.

Ou, mais benevolente:

quase todos os grandes nomes morreram recentemente: o Frost, o cummings, o Jeffers, o W. C. Williams, o T. S. Eliot, os restantes. há umas noites, o Sandburg. (…) o Lowell é suficientemente interessante para não nos pôr a dormir, embora suficientemente difuso para não ser perigoso. as primeiras ideias que nos vêm à cabeça após lermos a obra dele são: este menino nunca falhou uma refeição nem nunca teve um pneu furado nem uma dor de dentes. o Creeley é uma similitude próxima, e imagino que os poderes instalados tenham andado algum tempo a equacionar entre o Creeley e o Lowell, tendo finalmente optado pelo Lowell porque o Creeley não parecia ser um chato lá muito bom (…).

São imensas as alusões, menções, referências congéneres nos contos de Charles Bukowski, fazendo esta penetração pelos terrenos do “mexerico literário canalha” pensar num marginal que não era bem um marginal, era antes um solitário que calhou encontrar-se rodeado de indivíduos decepcionantes, mais compenetrados numa ascensão entre pares do que na expurgação de vidas inúteis. Note-se como a coisa aparece explanada num conto de Música para Água Ardente:

Pegou em Resistance, Rebellion and Death… leu algumas páginas. Camus falava sobre angústia e terror e sobre a miserável condição do Homem, mas falava de uma forma tão confortável e floreada… na sua linguagem… que se ficava com a sensação de que as coisas nem o afectavam a ele nem à sua escrita. Por outras palavras, as coisas até podiam estar bem. Camus escrevia como um homem que tivesse acabado de comer um belo jantar de bife com batatas fritas e salada, acompanhado de uma garrafa de bom vinho francês.

Talvez toda a crítica literária devesse ser assim, escritores aludindo a outros escritores nas entrelinhas dos seus contos, poemas, romances. Oferecendo às suas personagens os seus ódios mais estimados, as suas paixões mais secretas. Enquanto leitores, não precisaríamos de muito mais. Apenas uma declaração de gosto autêntica, um juízo afiado. Ou, pelo menos, aparentemente autêntica. A capacidade de dizer gosto ou não gosto sem sentir necessidade de explicar porquê com tratados incompreensíveis, rebuscados, repletos de frases feitas e carregados de muletas jornalísticas. Uma boa frase chegaria, uma ideia em vez de colunas repletas com citações tantas vezes descontextualizadas, truncadas, até mal intencionadas. Enfim, uma crítica que soubesse chamar chato a um chato sem esperar que o chato compreenda porque é chato.


- Mulheres, trad. Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 2.ª edição, Junho de 1992;
- A Sul de Nenhum Norte, trad. Manuel Resende, Relógio d’Água, Outubro de 1997;
- Ham on Rye – Pão com Fiambre, trad. Manuel A. Domingos, Ulisseia, 1.ª edição, Setembro de 2010;
- Histórias de loucura normal, trad. Vasco Gato, Alfaguara, Outubro de 2013;
- Música para Água Ardente, trad. Rita Carvalho e Guerra, Antígona, Março de 2015.

domingo, 16 de agosto de 2015

ANA HATHERLY (1929-2015)


Um poema e breve nota biobibliográfica (aqui), uma leitura de A Neo-Penélope (aqui), uma leitura de 463 Tisanas (aqui). Porque o trabalho de tradutora também deve ser referido, uma leitura de O Vagabundo do Dharma (aqui). A reler: O Mestre, 5.ª edição, Ulisseia, Novembro de 2010.

PRAGAS DE VERÃO

São imensas as pragas deste Verão. Algumas vêm repetindo-se fastidiosamente ao longo dos últimos anos. Assim de repente, ocorrem-me as festas temáticas tipo anos 80 ou a beatífica noite branca para expurgar paixões assolapadas e traições balneares. Sem esquecer, como é óbvio, as inumeráveis recriações medievais que poluem o país de Norte a Sul. Combinadas, até porque faz sentido combiná-las (tipo recriação medieval dos anos 80 em noite branca), temos o Inferno à porta. Presumo que no bar deste Inferno a caipirinha tenha sido destronada pela moda do Gin, preparado com mais hortofrutícolas do que álcool. A saúde agradece. E por falar em saúde, lembrando que há muito declarámos o desinteresse das pessoas saudáveis, não podemos deixar de referir uma das pragas mais terríveis deste ano, a qual se manifesta em duas vertentes: a dos masterchefes e a dos nutricionistas. Onde quer que estejamos, temos de aguentar a bronca. Em cada português parece existir hoje um cozinheiro de primeira e um especialista em vida saudável, nomeadamente no que respeita a produtos alimentares. Ao pé disto, os cartazes do Partido Socialista são um entretém para distraídos. Só quem não percebe ou não quer perceber a sociedade em que vive é que pode julgar foleiros aqueles cartazes, eles limitam-se a reproduzir o universo de palermice em que vamos orientando as nossas vidinhas inúteis. Que melhor prova disto mesmo podemos exigir? O tempo perdido a discutir os cartazes quando devíamos andar a discutir políticas? Se não chega, façam uma pausa, sentem-se na esplanada mais próxima, e observem o rol de tatuagens pindéricas que proliferam pelos corpos dos portugueses. Há toda uma conceptualização da inestética que se expõe e patenteia da nuca com diabinhos aos calcanhares com ramos de noiva. Mas entre tamanhas pragas, a mais ameaçadora é a dos surfistas. Milhares de pranchas espalhadas entre a Praia do Amado e Monte Clérigo assustam qualquer veraneante habituado a mais do que dois centímetros quadrados de areia onde estender toalha e enfiar um chapéu-de-sol. A gente olha para as praias do alto da mais alta falésia e parece que foram invadidas por enxames de mosquitos que bóiam nas águas. O espectáculo é tanto mais degradante quanto podemos verificar não terem tais águas quaisquer ondas onde os "mosquitos" possam fazer aquilo que era suposto fazerem, ou seja, surfarem. Porque, se bem entendo, surfar é um tipo apanhar o balanço de uma onda e meter-se de pé, tal homo erectus, em cima de um pedaço de madeira especificamente preparado para o efeito. Ou então estou desactualizado, talvez com o acordo ortográfico surfar tenha passado a ser uma designação para boiar em águas mansas, sugerindo-se indumentária a preceito, jipe de tracção nas quatro rodas e amigas muita doidas no lugar do pendura, produzidas para a praia como se fossem para a festa da noite branca, carregando nos sacos floridos variadíssimos bronzeadores e um exemplar de A Dieta dos 31 Dias - já que o personal trainer não coube no saco, teve de ficar no ginásio onde as meninas passaram o resto do ano a enrijecer músculos entre os quais caibam cuecas fio dental. Hippies no Verão, yuppies durante o resto do ano, poderão pelo menos por alguns dias desfrutar do melhor que a Natureza tem para nos oferecer. Onde não se inclui, claro está, o preço da imperial no bar ao lado da escola de surf

CITAÇÃO

Fui ver o que é que o Público pensa de tudo isto (o Público é um jornal que tem sempre jornalistas a voar para o Rio na cola de escritores muito lá de casa) e descubro o quê? A preocupação número um dos portugueses é o cinema francês, a quem o jornal dedica hoje dez páginas (4-13), entre reportagem, entrevista, gráficos, estatísticas e opinião. Sobre Dilma nem uma linha.

Eduardo Pitta, aqui. O sublinhado é meu.

AFORISMO

Weblogger que é blogger diz que não lê weblogs. Talvez leia blogues

quinta-feira, 30 de julho de 2015

AMOR DE VERÃO

Também tive um amor de Verão. Acabou quando ela me disse:
O meu namorado chega amanhã.

MELHORES FILMES DE SEMPRE

Não vi todos os filmes desta lista. Dos que vi, muitos estão entre os que melhores momentos me proporcionaram. Sublinho referências aos westerns A Desaparecida (John Ford, 1956), Rio Bravo (Howard Hawks, 1959), The Man Who Shot Liberty Valance (John Ford, 1962), A Quadrilha Selvagem (Sam Peckinpah, 1969), Johnny Guitar (Nicholas Ray, 1954), O Rio Vermelho (Howard Hawks, 1948) e A Cavalgada Heróica (John Ford, 1939). Os 62 críticos que contribuíram para a lista da BBC podiam ter aproveitado a oportunidade para sublinhar os legados igualmente imprescindíveis de Anthony Mann, Budd Boetticher ou John Sturges (este último, muito provavelmente, um dos realizadores mais injustamente esquecidos). Seja como for, alguns dos filmes da minha pobre vida não constam na lista. Seriam eles Ladri di biciclette (1948), de Vittorio De Sica, Morangos Silvestres (1957), de Ingmar Bergman, Pierrot le fou (1965), de Jean-Luc Godard, Eraserhead (1977), de David Lynch, Nostalghia (1983), de Andrei Tarkovsky, O Sabor da Cereja (1997), de Abbas Kiarostami, O Quadro Negro (2000), de Samira Makhmalbaf, ou o Ossos (1997), de Pedro Costa… Só para lembrar alguns.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

terça-feira, 28 de julho de 2015

POESIA NA PRAIA

Um amigo fez-me chegar a notícia de um consultório de poesia nas praias de Armação de Pêra e Praia Grande. «A iniciativa da biblioteca de Silves, realizada em parceria com o Sector de Educação da Câmara de Silves e no âmbito do Programa Bandeira Azul, é inspirada na ideia de que «a poesia nos ajuda a conhecermo-nos melhor, a interpretar melhor pessoas e situações, ajudando-nos a ultrapassar medos e a vencer obstáculos/bloqueios emocionais e/ou psicológicos e a orientar-nos na construção de um futuro pessoal mais claro, solidamente construído e feliz» (...). «O desafio consiste em partilhar poesia na praia, contribuindo para melhorar a saúde emocional e psicológica dos veraneantes que necessitem de ajuda na sua vida afetiva, profissional, financeira, na sua relação com o tempo (gestão de tempo ou dificuldade em fazer o luto de um ente querido), etc», acrescenta a autarquia (...). A Câmara de Silves fala mesmo em «Biblioterapia, ou a terapia através da leitura» (...). A leitura de poesia é, de resto, uma terapia recomendada por alguns psiquiatras, nomeadamente ingleses». A minha primeira reacção foi de desdém, não por desconsiderar as funções terapêuticas de um António Nobre — cuja poesia emana todo um vigor ideal para a saúde emocional e psicológica de um veraneante —, mas por me chatear esta mania de transformarem as praias no que não são. Não basta as barraquinhas com massagens? Os bares? As gaivotas? As aulas de aeróbica? Foda-se, deixem as praias em paz e deixem-me em paz nas praias. Praia é praia, não é SPA nem ginásio nem biblioteca nem clínica psiquiátrica. Praia é mar, rochas, areia, dunas, peixinhos. Vá lá, praia é também um tipo a apregoar a bela bola de Berlim. Agora clínica de bilbioterapia?! A bem das praias, deixem a poesia em paz. Por outro lado, julgo ser uma ideia descabelada esta de a poesia nos ajudar a “interpretar melhor pessoas e situações”. Deve ser por terem sido grandes intérpretes que os poetas, os maiores, os grandes, todos eles, foram sempre tão incompreendidos. Talvez a miséria em que sobreviveram nos ajude, de facto, a interpretar a bosta de mundo em que vivemos. Mas quando um gajo vai para a praia não é para ser recordado de que a Florbela Espanca se matou, o Fernando Pessoa nunca saiu  de dentro de si próprio e o desgraçado do Camões passou a vida a lamentar-se das circunstâncias que o traziam pelas ruas da amargura. Um tipo vai à praia é para se esquecer disto tudo. E quem é que me pode explicar como a poesia pode contribuir para melhorar a situação financeira de alguém? O poeta mais rico de Portugal? Talvez o Manuel Alegre. Ou o José Jorge Letria. Mas estão a gozar comigo? Partilhar poesia na praia contribui para melhorar a saúde emocional e psicológica dos veraneantes que necessitem de ajuda na sua vida afetiva, profissional, financeira? Quem foi a poetisa que concebeu uma coisa destas? A Maria Helena? Até acredito que Camilo Pessanha seja terapêutico (o que ele fumava por certo que era/é), mas parece-me abusado, só um pouco, esperar que a leitura de Clepsidra possa contribuir para alguém ultrapassar medos e vencer bloqueios emocionais. Pessoalmente, confesso que a poesia jamais me ajudou a construir um futuro pessoal mais claro. Nem futuro, muito menos claro. Só me tem dado cabo da cachimónia, por isso vou para a praia apanhar banhos de sol e brincar com as ondas do mar. É para me esquecer de que os poetas existem, e que existem quase invariavelmente à altura, enfim, de uma ignorância de si próprios muito pouco recomendável, solitários, esquizofrénicos, emocionalmente bloqueados por frustrações várias e fobias diversas. Que tais exemplos possam ajudar alguém a ser feliz, não vejo como. Mesmo quando lá do fundo mais fundo dos recalcamentos saem versos limpinhos como a água das fontes, livres como passarinhos, fragrantes como o ar da Primavera. Mesmo quando assim é, porra, mesmo quando assim é a gente sabe que poesia, poesia, verdadeira poesia, é andar numa praia deserta sem vivalma que nos chateie... com a poesia.

 

TERRORISMO GROSSEIRO

Ano 2015. Século XXI. Declarações de direitos humanos, ambientalismo, reservas naturais, protecção de espécies em vias de extinção. Depois de guerras mundiais, inquisição, escravatura… Depois, isto é, entretanto. Ainda há cabeças humanas que se regozijam com cabeças de animais selvagens na sala de jantar. Caça grossa. Enfim, há cabeças humanas para tudo. Mas em pleno século XXI, ano 2015, não seria de esperar que já tivéssemos evoluído um pouco? O que passa pela cabeça do javardo que mata o leão e se fotografa ao lado do troféu? O que tem na cabeça alguém que julga ser um troféu a pele e a cabeça de um animal selvagem? Não consigo entender, não tenho respostas para tamanhas depressões. Este mundo é muito deprimente. Encontrem-me outro, por favor, antes que eu dê em terrorista. É tão fácil, mas mesmo tão fácil, um tipo tornar-se terrorista.

domingo, 26 de julho de 2015

EVOLUÇÃO

Em 2009 foram encontrados em Lagos, no Algarve, os esqueletos de 155 homens, mulheres e crianças, revelando o mais antigo espaço já identificado no mundo e o único na Europa com aquelas características. Ou seja, uma lixeira onde foram depositados há seis séculos os corpos de escravos africanos. Hoje, o terreno está ocupado por um estacionamento e um minigolfe e é alvo de divergências entre a autarquia e historiadores.
 
Aqui, via Jorge Aguiar Oliveira.

CECIL

A notícia está a correr o mundo. Um espanhol matou Cecil, nome de leão célebre no Parque Natural de Hwange (Zimbabwe). Nunca tinha ouvido falar de Cecil, nem do Parque Natural de Hwange. Só tinha ouvido falar de espanhóis endinheirados que desembolsam avultadas quantias para caçar em países africanos. Ontem, no Eixo do Mal, também falaram de leões em cativeiro. Diz que tentavam andar em liberdade antes de terem sido caçados. Pelo que se sabe, ainda não os decapitaram:
 


 

terça-feira, 21 de julho de 2015

A NEGAÇÃO DO PENSAMENTO

 
Duas frases, basta ler duas frases para não prosseguir. Percebemos logo no tom, na retórica, que estamos perante uma argumentação ao nível da que se usava, no meu tempo, nas associações de estudantes. Ou nem tanto. O tosco é deputado do PSD, nascido em 1981, consultor (?) de profissão. Enquanto a política portuguesa não se limpar disto, enquanto o grau de exigência for este, podemos continuar a assistir ao definhamento da democracia. Não há democracia sem exigência de pensamento. Duarte Marques é, em si, a negação do pensamento. Que siga o exemplo do cantor pimba, aquele que dizia: "eu posso ser pimba, mas o Ferrari amarelo é meu".

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O RESTO É CONVERSA

OPINIÃO PÚBLICA
Tema: Incêndios Florestais

João Rodrigues, reformado, 83 anos, Caminha
Essa história de quem manda fogos não tem mais nada senão o serviço dos comunistas, gostam muito de ver Portugal a arder. Isso é coisa de comunista.



 
Não resisto a acrescentar a transcrição literal de uma opinante de Oeiras, de seu nome Ilda Caldeira, reformada, 63 anos, em tom tia de Cascais:
 
Ora muito boa tarde. Olhe, eu realmente estou escandalizada com isto este ano. É que realmente o meu país está a ser desbastado de uma maneira estúpida e eu só dei por dois… A comunicação social está adormecida? O que é que se passa? Ó então é para não incentivar os senhores que andam prá i a pôr os fogos em todo o lado? Quer d’zer, uns põem… Não sei, não sei se é posto. Olhe que eu já não sei o que é que hei-de dizer. Olhe, aqui reportando-me a coisa que tenho ouvindo atrás, a ministra da administração interna, pela qual eu não tenho simpatia nenhuma, dizia ahhhhh pois, nós temos, nós temos uns canadero avariados, e tal, uhh, pois é, e depois também, quer dizer, uhhh, o concurso que fizemos também não foi o melhor, e não sei quê, pronto. Aquela mulher não sabe estar, portanto, como o resto do, do plantel. É isso. Não deveriam era lá estar. Uhhhh, pronto. Já está a dar barraca. Mmmmm, depois, a seguir vem de, a história da emigração. Vem, falaram, não sei quê, comandantes, não sei quê, ah porque este ano temos… Sabe quantos mil, uhhh, mil, mmmm, bombeiros emigraram este ano? Temos menos 5000 a trabalhar. Ora é um número, um numerozinho, não é? Como tudo, não é? Também tocou no bombeiro. E não deve ser só 5000, isso é o que eles dizem cá para fora. Não é? Bom, a seguir, eventualmente, a verbazita como é na saúde, como é na educação, como é nas coisas primárias, eventualmente corta-se, não é? Lá vem o meu amigo, o meu amigo Passos Coelho, que eu até fico arrepiada quando o vejo na televisão dizer mais umas mentiritas. Ai não, não é nada disso… Eventualmente, nãaaaaooooo, ah não se cortou nada, ah não sei quê, mas não vou por aí. Não vou por aí. Olhe, eu já disse… Não vou dizer mais nada, vou parar por aqui, lamento imenso, estou quase a chorar porque realmente já ardeu tanto e eu só dei por dois. Ah, e outra coisa que eu digo, quer dizer, atão, aqui os meios antigamente deslocavam-se até mesmo de Lisboa para outro lado, por exemplo para o meio do país ou coisa do género, não digo pó Norte, para ajudar. Agora não. Quer dizer, o país está a arder, por exemplo em Tomar e não vem, e ninguém vai dar uma ajuda?
 
 

6 + 6 = 12

 
Diz que vai fazer 12 anos que anda a publicar em weblogs. Primeiro aqui, depois por uma Extravaganza desaparecida, entretanto pelos Universos Desfeitos de Juraan Vink (do qual restam trocas como esta ou aquela), passando por além até vir parar aqui. Se fosse hoje, reescreveria o primeiro post assim:
 
É de vez, vou limpar-me a seco.

POLÍTICA DO CONFETE

Marques Mendes, também conhecido por Ferdy, é um dos analistas políticos mais queridos da televisão portuguesa. Ontem ouvi-o dizer que os partidos não deviam fazer do desemprego arma de arremesso político. Porquê? Porque o desemprego mexe com as pessoas, toca em pontos sensíveis da vida social, tem dentro de si histórias de vidas destroçadas. Seguindo a mesma lógica, eu julgo mesmo que os partidos não deviam fazer da crise arma de arremesso político. Talvez não devessem sequer discutir o país, talvez devessem, em última instância, deixar de fazer política. Num mundo ideal, o do Ferdy, o país estaria muito melhor, e está, se as pessoas não entrassem nas contas. Será que entram? Um camarada Social Democrata de Marques Mendes já expôs a estrutura mental desta gente quando afirmou que "A vida das pessoas não está melhor mas a do País está muito melhor". Agora, o ainda primeiro-Ministro terá dito que “Uma pessoa que está desempregada e perdeu o seu emprego, alguma coisa de errado há-de ter, porque senão teria conservado o seu emprego”. Não ouvi, mas já lhe tinha ouvido dizer que o "Desemprego pode ser oportunidade para mudar de vida". E é, tem razão, tem sido para centenas de milhares de pessoas com as políticas impostas pelo austeritário Coelho. No mundo de Ferdy estas coisas não se devem discutir, fica mal torná-las arma de arremesso político. Uma campanha com políticos a arremessar confetes uns aos outros - isso sim, seria política a sério.

domingo, 19 de julho de 2015

NOTÍCIAS SEM INTERESSE

 
Nós temos um problema: o Governo disse que temos os cofres cheios. Mas estão é cheios de dívidas: substituíram dívida velha por nova - e isso não nos dá tranquilidade nenhuma. Não é um processo que dependa só da Grécia ou de Portugal, há outros países na mesma situação. A nossa proposta é a realização de uma conferência intergovernamental de países que estão nesta situação para colocar a questão da renegociação, como a Irlanda, Espanha, Itália, Portugal, Grécia.
 (...)
Logo no momento da entrada no euro, o PCP foi a única força que, contra a corrente, alertou para consequências futuras de um acto precipitado. Em primeiro lugar: como pode ser aplicada uma moeda única com economias tão diferentes como aquelas que existem nos 19 países da zona euro? São 19 num quadro de 28, alguns não aceitaram. Havia aqui uma contradição de raiz: numa perspectiva de crescimento, desenvolvimento, a entrada no euro fazia ressuscitar a velha tese do confronto entre a panela de barro e a panela de ferro. Foi um ponto de partida. A nossa evolução resulta da análise da realidade.
 (...)
Sabemos que uma saída do euro por si só não resolve as coisas. Nós consideramos, no quadro da política alternativa que propomos, a conjugação da necessidade da renegociação da dívida com a de termos dinheiro para o investimento para pôr Portugal a produzir e termos soluções duradouras para a Segurança Social, emprego e criação de riqueza.
 (...)
A Constituição refere a coexistência do serviço público, privado e cooperativo. No quadro de uma economia mista, - e para sacudir essa caricatura de que o PCP quer nacionalizar tudo -, esse controlo público pode ser feito por nacionalização mas também por um controlo efectivo tendo em conta o investimento que o Estado fez nessa banca comercial. Para um crescimento e desenvolvimento soberanos é fundamental Portugal ter as alavancas económicas para a concretização desse objectivo. Vamos insistir. Quem é que entende uma privatização da EDP? Dava lucro, dá lucro. Dos CTT? Dava lucro.

[A TERCEIRA MISÉRIA]


1.

Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois século atrás, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.

(...)


Hélia Correia (n. 1949), in A Terceira Miséria (2012). Recentemente distinguida com o Prémio Camões, Hélia Correia estreou-se com o livro O Separador das Águas (1981). «Consagrada com a novela Montedemo, 1983, (…) em que se baseou uma peça de teatro e que funde sugestivamente um caso de maternidade mal vista com um ambiente rural e uma aura de prodígio, Hélia Correia, depois de outras obras intrigantes, publica, em 1991, A Casa Eterna, em que a reconstituição quase detectivesca de uma estranha morte dá ensejo a curiosas mini-histórias e flagrantes cracterizações conotativas dos narradores» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «No seu regresso à poesia, com A Terceira Miséria, (…) parte da famosa e devastadora pergunta de Friedrich Hölderlin: «para que servem os poetas em tempo de indigência?» Uma questão que faz tanto sentido hoje como fazia há dois séculos, porque mesmo «sem deuses» ou o «sentimento / sequer da sua falta», mesmo reduzidos agora à condição de «pobres confortáveis», sofremos de «idêntica indigência». Ameaçada por Persas que desta vez chegam do Norte, é na Grécia que se volta a jogar o nosso futuro enquanto civilização. (…) Há nestes versos muita melancolia, uma tristeza face às ruínas (hoje mais simbólicas do que literais), um sentido agudo do que ficou perdido talvez para sempre, mas também uma vontade de escapar ao abismo da resignação» (José Mário Silva, in Expresso).

SUBTILEZAS DE LINGUAGEM

É natural que entre tanta notícia relevante, nomeadamente sobre o mercado de transferências e de contratações no universo futebolístico, tenha passado despercebido o trabalho de Ana Henriques, publicado no Público da passada sexta-feira, acerca do julgamento de António Albuquerque. Para quem não esteja familiarizado com o processo, relembramos que Albuquerque, marido da ministra das Finanças Maria Luís, serviu-se de um meio sofisticado para manifestar o seu carácter ordinário, insultando e ameaçando um jornalista do Diário Económico. Eis algumas das curtas mensagens feitas chegar ao jornalista através de telemóvel:

Tira a minha mulher da equação ou vou-te aos cornos.

Vai para o caralho cabrão.

Reafirmo, tu e o teu director são uns cabrões fdp.

Vai para o caralho seu merdas.


Nada disto teria qualquer relevância não fosse o caso de tais injúrias manifestarem uma obsessão de António Albuquerque com o insulto de carácter sexual (cornos, cabrão, fdp), a qual sofre uma ligeira inflexão na variante Vai para o caralho seu merdas. Preconceito de classe? Muito útil é a caixa que acompanha o artigo, a qual faz um apanhado de casos que nos permitem concluir uma jurisprudência do palavrão. Aconselhamos vivamente a leitura deste apanhado, pelo que reproduzimos ao alto o trabalho de Ana Henriques, com a devida vénia, pedindo aos leitores deste espaço que cliquem sobre a imagem e aprendam até onde podem ir em termos de insulto.

SISMO DE MAGNITUDE 3,2

Todos os dias penso em ti. Ontem, fiquei com a ligeira impressão de te ter visto ao longe.

sábado, 18 de julho de 2015

MORTE DE UM DJ



Numa entrevista cedida ao Público em Novembro de 2014, o dramaturgo francês Jean-Pierre Sarrazac afirmava: “Não escrevo peças de teses, não escrevo peças sociais… Escrevo peças onde tento falar do tempo que vivemos”. O tempo das personagens recentemente encenadas por Fernando Mora Ramos em Morte de um DJ não nos é estranho, embora haja nele uma dimensão que transcende os limites da história. A acção ocorre na noite em que o Muro de Berlim caiu, mas o facto histórico não encerra em si um tempo definido. Quero dizer que a acção ocorre também hoje, pois o muro que dividia a Alemanha caiu erguendo outros muros, físicos, vergonhosos, psicológicos, políticos, preconceituosos, culturais, que se mantêm erguidos a pedir umas valentes marteladas. É o muro que divide o Norte e o Sul da Europa, é um muro chamado Mediterrâneo, é o muro que separa a ostentação da miséria absolutas. O teatro de Sarrazac tem essa capacidade de repisar muros, tem até talvez a intenção de abanar alicerces que tendemos a julgar impenetráveis — por nos condicionarem os movimentos num dia a dia subserviente às necessidades que o lugar-comum e a ideia feita vão satisfazendo. No entanto, para decalcar Stig Dagerman, satisfazem deixando um enorme desconsolo. Porque a realidade não é bem aquilo que os nossos olhos vêem, ou não o é apenas, ou não o é necessariamente, o texto aceita a dimensão da parábola, as palavras estendem-se no significado, aludem a sentidos e relações que não importa aqui decifrar. Importa olhar para as três personagens em palco e pensá-las, na medida em que são, cada uma delas, com os seus graus de relevância bem distribuídos, terreno fértil para reflectirmos o nosso lugar numa história sem fim.
A jovem actriz que acorda sozinha no quarto de Hotel tacteia o espaço à sua volta, ainda tem dentro de si sonhos que em breve saltarão pela janela. O seu monólogo inicial é o de uma utopia que está de um dos lados do muro, sonha ser actriz, sonha encarnar realidades profundas, acorda de um ménage à trois com o desconhecido e com a fama incomensurável de um DJ alienado. As luzes jogam com os seus movimentos uma espécie de quarto escuro, jogam às escondidas com a ausência. Ela diz: “quero o meu nome inscrito no calendário”. Mas será este querer, será esta vontade, será este desejo conciliável com a realidade? Algures perdida num labirinto de paredes dúbias, ela sonha, ela deseja, ela ambiciona, transmite-nos e oferece-nos o romantismo dos seus quereres, mas caminha sobre uma corda bamba onde facilmente perderá o equilíbrio. A entrada em cena do DJ será o sopro que faltava para a sua queda no abismo.
Figura grotesca, fantasmagórica, encarnação da alienação que o sucesso e a fama desmesurados inflamam, este DJ aparentemente anémico de sentimentos irá revelar-se mais frágil do que julgaríamos à partida. A sua maior fraqueza é uma réstia de consciência de si próprio que transporta no imo obscuro da despersonalização. Não podemos deixar de nos perturbar quando o ouvimos dizer: “aquele que nunca amou ninguém é forçosamente um assassino”.
Curiosa a ligação que podemos estabelecer entre as três figuras. Todas elas nos parecem perdidas dentro de si próprias, perdidas ora no sonho, ora na loucura, ora num pragmatismo mercantilista, mas ligadas por uma ténue flama de humanidade. Existem, digamos, na sombra do que são. E isto é actualíssimo, impõe-se de 1989 para hoje com o brilho estonteante da espectacularidade, num Ocidente a transformar-se debaixo de fogo-de-artifício onde o verdadeiro, o genuíno, o autêntico são cada vez mais difíceis de destrinçar. É o Ocidente dos inimigos invisíveis, de um reinado onde a fantasia e a mentira ocupam o mesmo trono.
Faz sentido que o único sobrevivente em palco seja a figura que parecia mais secundária. Não o é. O agente do DJ, com o seu pragmatismo ignóbil, atrai à realidade o alienado (DJ) e a utopia (actriz). Ou tenta. Na realidade, passe a redundância, a realidade é a estátua de Lenine a ser derrubada, metáfora de um mundo supostamente desfeito, tantas vezes utilizada abusivamente, que neste contexto adquire um significado especial, pois o mundo que acabou não arrasta um suposto "fim da história", não é senão o começo de um outro mundo, o nosso, o de hoje, o mesmo de sempre, infinitamente recomeçado, que a todo o momento nos questiona sobre as virtudes da linha com que lhe cozeram as bainhas. Talvez exista em Lepo, como refere Fernando Mora Ramos, um sentido do real capaz de afectos, um sentido do real que parece ausente tanto em Carlota como no DJ. Lepo, o empresário ou agente, acaba com o seu produto nos braços, sobre ele cai o pano com estrondo inesperado. Víamos nele o acessório que, feitas as contas, define o cenário. É o que nos resta, cenários dominados pelo acessório. E ainda agora a queda começou.
 
 
P.S.: se isto fosse um texto crítico, teria de referir o trabalho do encenador, dos actores, entre outros implicados na construção da peça. Não é um texto crítico, é uma espécie de agradecimento. Em palco estão Alexandre Calçada, Fábio Costa e Maria Quintelas. Se não estivessem bem, suponho que não me teriam martelado os muros da consciência. Grato.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

EM TRÂNSITO


Faltam caras, mas seria um bom começo - embora isto venha oferecer alguma razão aos do Norte com olham para o Sul com desconfiança. Afinal, por onde andam estes camaradas? O do meio, a última vez que apareceu foi para receber largos elogios do homem que desbloqueou a reunião das 17 horas.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

1 ANO



 
Estação 2012 (poemas), para encomendar ao editor: ver aqui.
 
Call Center (contos), para encomendar ao editor: ver aqui.

CASCATA DE CELA CAVALOS

Chegámos àquele ponto em que não precisam de nos dizer como devemos viver para conseguirem obrigar-nos a viver de determinada maneira. Condicionados, coagidos, fazemos como diz o povo: metemos o rabinho entre as pernas, engolimos sapos, comemos e calamos. Se não calarmos, sofremos por antecipação o que nos espera. Mais uma vez, como diz o povo, ficamos marcados, com a corda ao pescoço e a cabeça a prémio. Seria uma situação como outra qualquer, não fosse aquela em que a cabeça, de tão cheia, não consegue libertar-se do que a agride e carrega dentro de si, para todo o lado, tudo o que facilmente largaria no lixo das piores memórias. Caminhar gera, pelo menos, a ilusão de um esvaziamento, suspende as ligações e coloca o interruptor numa momentânea intermitência que pode livrar-nos da loucura total. Mas é tudo uma ilusão, e o pior desta ilusão é ela estar consciente de si própria. A primeira evidência é o cansaço, uma saturação que começa por ser mental e se reflecte na escassez de palavras, nas frases cortadas, numa incapacidade para a comunicação e, pior, para o raciocínio, o qual surge truncado e inútil nas acções constrangidas a que a opressão obriga. Depois chega ao corpo, instala-se nos nervos, no sangue, nos músculos, nos ossos como um cancro intratável. São sintomas a letargia, tédio absoluto, uma inércia insuperável que as drogas disfarçam com sorrisos ocasionais e gargalhadas estridentes, doentias, as gargalhadas de quem por dentro já só guarda nojo e raiva. O diagnóstico foi feito, busca-se tratamento. As drogas adiam o problema, arrastam-no por labirintos que a ressaca deslinda, deus é o mais precário dos tratamentos, leva-nos sempre à morte, a natureza tem as suas vantagens, embora possua igualmente efeitos secundários imprevisíveis. Encalhado num torpor maligno, resta ao doente ser paciente. Não por acaso se estabelece entre as duas palavras uma relação sinonímica, a paciência, a ciência da espera, de uma certa forma de esperança, é o único tratamento ao alcance do doente. Então ele faz como o cão mais fiel e senta-se na pedra, a olhar para a queda de água, e pensa com as palavras disponíveis. São poucas, porventura insuficientes, o dicionário cada vez mais limitado é uma ferramenta envelhecida, mas Bashō não precisou de muitas palavras para dizer o que via. Precisou apenas das certas, as palavras certas. Em que fundo bateu a pedra atirada do alto da tua infância? Quanto tempo demorou a atravessar cada uma das camadas que compõem a idade? Chegaste onde te encontras sem teres dado por isso e agora aqui chegado questionas-te e questionas tudo quanto à tua volta ainda se desloca para lugares incertos, lugares definidos pela ausência, pelo esquecimento, pela distância. Tu sabes quanto pesa a pedra, embora desconheças o fundo onde por certo há-de vir a repousar. Que esse desconhecimento não te impeça de continuar a cair. A hora do embate chegará quando menos esperares, súbita e inesperadamente chegará a hora do embate. Daí que todos os tormentos sejam escusados. Se te apoquenta o futuro dos outros, por exemplo, dos filhos, mete no que pensas acerca desse futuro um pouco das lições ditadas pela História. Tudo se constrói do nada. E entre o nada e qualquer coisa muitas vidas desvanecem, muita existência se perde para sempre no silêncio, no esquecimento, no vazio, gente a quem nem um epitáfio valerá. Mas que viveu, mas que existiu, tal como tu agora vives e existes numa vida que não é somente tua, porque chegámos àquele ponto em que não precisam de nos dizer como devemos viver para conseguirem obrigar-nos a viver de determinada maneira. O resto já sabes: «O teu corpo composto — três quartos de água, mais um punhado de minerais terrestres. E essa grande chama em ti de que desconheces a natureza. E nos teus pulmões, sorvido e libertado sem cessar no teu tórax, o ar, esse belo estrangeiro, sem quem não podes viver» (M. Y.).

segunda-feira, 13 de julho de 2015

NÃO DAR PONTO SEM NÓDOA

“Temos de recomeçar o diálogo, mas com adultos na sala” disse Christine Lagarde, directora do Fundo Monetário Internacional. "Num dia destes fiz uma oferta ao meu amigo Jack Lew, que poderíamos ficar com Porto Rico na zona euro se os Estados Unidos estivessem dispostos a ficar com a Grécia na união do dólar", acrescentou Wolgang Schäuble, o patrão do Eurogrupo. O resto foi uma troca de galhardetes através de redes sociais, enquanto aquilo a que se convencionou chamar de União ficava com nódoas negras espalhadas pelo corpo todo. Quem acredita nisto? Qual é o grego ou o português ou mesmo o espanhol ou o francês que ainda pode olhar para alemães, austríacos, holandeses, belgas e quejandos sem pensar que alguém está a ser observado de esguelha?

quinta-feira, 9 de julho de 2015

PONTE DA MISARELA

Dizem-me que existem imensas lendas acerca da Ponte da Misarela, mas não me atrevo sequer a perguntar quais. Estamos num ambiente dado a lendas, popularizado pelo Padre Fontes com festivais de superstição. Já em casa, encontro na Wikipédia a referência a uma história que podia ser uma espécie de Fausto tendo como personagem principal Manuel Palito. A ponte teria sido erguida pelo Diabo a troco da alma de um criminoso em fuga.  Há reconstituições teatrais da lenda disponíveis no Youtube. No sítio do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, a história é ligeiramente diferente. Tem qualquer coisa do mito de Sísifo. A ponte teria sido construída e sucessivamente reconstruída em resposta aos desafios do demo e como prova de fé. À trigésima vez, um padre operou um milagre com um pão benzido e espantou dali o diabo. Cito: «Não só aconteceu o milagre do pão como também desde esse dia outro milagre aconteceu: que é o de salvar os filhos das mães que tanto os desejavam e que nunca conseguiram dar-lhes vida, pois estes nasciam mortos após os seis ou sete meses de gravidez. Uma mulher que já tivesse passado pela situação descrita e estivesse novamente grávida, deveria ir até à ponte da Misarela levando consigo dois acompanhantes e deveriam à meia-noite em ponto estar em cima do arco da ponte. Os acompanhantes teriam de se colocar um em cada entrada da ponte para impedirem que nenhum animal passasse, ainda que fosse um rato, pois se assim fosse o milagre não se realizava. A mulher grávida e os acompanhantes teriam de esperar em cima da ponte até que alguém passasse para baptizar a criança ainda dentro da barriga da mãe. Para o baptizado, levavam um jarro e uma corda comprida e, quando aparecesse a primeira pessoa, pediam-lhe para ser o padrinho ou madrinha da criança.» O resto pode ser lido aqui. Desconfio que outras lendas se contem acerca do lugar, tantas quanto a imaginação o permita. Existe no local uma placa com referência à coragem dos homens que ali combateram franceses no tempo das invasões. São inúmeras as imagens partilhadas na Net, sendo esta uma das mais bonitas. Quem por ali passe, que escreva a sua própria lenda. Eu escrevi a minha: era uma vez um homem e uma mulher que se deitaram numa pedra e acordaram transformados em lesmas. Incrédulos, questionaram-se em desespero: como pude eu transformar-me numa lesma? E ao questionarem-se ouviram uma voz, uma voz que não conseguiam perceber de onde vinha nem de quem era. Seria o diabo? Seria um anjo do senhor? A voz dizia: se quiserdes voltar a ser humanos, tereis que atravessar a Ponte da Misarela. Mais do que o desafio de atravessar a ponte, era grande o desafio de responder à dúvida: queremos voltar a ser humanos? Por mim, não me importaria de ficar para sempre lesma numa daquelas pedras. Debaixo da ponte, onde se formam ilhas de água, ou seja, poças rodeadas de pedra por todos os lados, ou algures metido na vegetação que adorna o desfiladeiro.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

ESTADO DA NAÇÃO

Ouvir a direita portuguesa é como ir ao circo e sair descorçoado com o número dos palhaços, enfadonhamente repetitivo e previsível. Esperavam os cómicos da nação que o actual governo grego fizesse em 5 meses o que 5 anos de austeridade apenas pioraram. Mais, conseguem exigir ao actual governo grego, com 5 meses de serviço, o que em 4 anos não conseguiram fazer em Portugal (por muito que haja quem se gabe de cofres cheios e dinheiro nas caixas de MB). Ou então esperavam que por lá fosse como por cá costuma ser: eleitos, os governantes mudariam de discurso, meteriam na gaveta o programa que os elegeu, mostrar-se-iam nas tintas para a democracia e para o seu povo, em suma, mentiriam e ficariam à espera de ver renovadas as suas aspirações quatro anos de intrujice depois. Fica sempre bem um certo desprendimento. Prémios Nobel da Economia podem afirmar que a austeridade tem sido completamente inútil na Grécia, ficarão a falar sozinhos perante uma plateia de lacaios do FMI, do BCE e da CE, instituições para quem a verdade suprema está numa folha de Excel e na maturidade da senhora dona Lagarde (que, por acaso, não se livra da suspeita de ter sido um pouco acriançada quando andou a jogar Monopólio com um tipo chamado Bernard Tapie). Amigalhaço de seu amigo, também o grão Juncker carrega sobre os ombros uma história invejável. Diz que enquanto primeiro-ministro do Luxemburgo andou a assinar acordos fiscais secretos com multinacionais, prática que dá sempre jeito a quem pretenda impor ao mundo uma moral fiscal intransigente, consistente, objectiva, eficaz. Isto é tudo muito giro e interessante, dá azo a inúmeros livros e muita discussão pública. Nós por cá, curvamo-nos perante o número dos palhaços com mais um estudo promovido pelos novos comandantes do Oceanário. Cito: Portugal tem a taxa de população emigrada mais alta da União Europeia, a população regrediu uma década encontrando-se agora abaixo dos 10,5 milhões, o número de trabalhadores dependentes aumentou, mas a ligação à entidade patronal tornou-se mais precária, Portugal é o quinto Estado-membro onde as contribuições sociais menos pesam no financiamento do sistema de protecção social, a dimensão média das famílias portuguesas desceu de 3,3 para 2,6 pessoas, na última década, Portugal foi o país em que o peso das remunerações líquidas no rendimento disponível das famílias mais caiu, o nível de vida dos portugueses recuou, em 2013, para valores de 1990, ficando 25% abaixo da média europeia, o PIB 'per capita' português caiu 7% face ao padrão europeu e o nível de vida das famílias regrediu mais de 20 anos, Portugal foi o país europeu que registou maior aumento na fiscalidade entre 2010 e 2013, com a carga fiscal a subir mais de 11%, Portugal é também o Estado-membro em que os juros absorvem uma maior proporção da riqueza criada e o décimo que mais gasta em prestações sociais… É só um resumo. As boas notícias, podem encontrá-las aqui. As instituições estão felizes e de saúde. Que nos alegre a felicidade das instituições.

DÍVIDAS

Escuto o discurso enraivecido: eles que nos paguem o que devem e vão à vida deles. O que nos devem os gregos? Desconfio que muita gente não saiba o que é dívida pública. Conviria explicar-lhes, estivessem interessados em aprender. Não estão. Certas pessoas preferem falar sem informação, simplesmente intoxicadas pelos discursos facciosos do clube a que pertencem. Podiam, pelo menos, abrir o jornal e ler qualquer coisa como isto:
 
Em seis anos, a dívida pública do conjunto dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) aumentou 34,7pontos percentuais, com Irlanda, Grécia e Portugal a registarem as maiores subidas. (…) Os dados que a OCDE cita para concluir que houve um aumento próximo dos 35 pontos percentuais refere-se ao período de 2007 a 2013. A trajectória ascendente coloca Portugal como o quarto país com o maior nível de dívida pública quando comparada com o Produto Interno Bruto (PIB). Em 2014, esse rácio era de 130,2%. Com um nível de dívida pública maior apenas surgem o Japão (226%), a Grécia (177,4%) e Itália (132%). A OCDE nota que países acumularam dívida pública para “financiar despesas acima das suas receitas” e considera que, como resultado da crise, muitos países “aumentaram a despesa, através de pacotes de estímulo e intervenções para suportar as instituições financeiras, incorrendo por isso em dívida pública. Em muitos países da OCDE, a colecta das receitas também diminuiu, aumentando a pressão sobre as finanças públicas”. No conjunto dos países da OCDE para os quais há estatísticas disponíveis, o pagamento de juros representou, em média, 2,9% do PIB em 2013. Portugal está, com a Itália e a Islândia, no topo dos países onde este encargo foi mais alto quando comparado com o PIB. Nestes três países, o pagamento de juros ascendeu a 5% do PIB. Em sentido oposto, os valores mais baixos registaram-se na Estónia e no Luxemburgo, com um rácio inferior a 0,5%.
 
E fala a ministra em "cofres cheios", sem se rir. Os gregos estão a tentar resolver isto na casa deles, pois já perceberam que não é a pagar juros inqualificáveis às instituições que conseguem resolver a dívida. Portugal, obediente às medidas impostas pelos chamados credores, lá se vai afundando à custa de filas cada vez maiores para a sopa dos pobres. Esqueçam os €60 por pessoa no MB, talvez nós devamos também pagar o que devemos e depois ir à nossa vida. Talvez seja essa a solução para todos, pagarem o que devem e, depois, irem à sua vida. Já que para a vida mostram ter jeito, prostituindo-se desta maneira. Ou talvez, daqui a uns tempos, estejamos todos a dizer que, afinal, mais uma vez, somos nós quem deve qualquer coisinha aos gregos. Veremos.

terça-feira, 7 de julho de 2015

CASCATA DE PITÕES DAS JÚNIAS



Digamos que estamos na paisagem para o miradouro. A inversão não é meramente retórica, há paisagens que dão para miradouros. E nós estamos numa dessas “paisagens para abolir os gritos”, como diria Michaux (traduzido por Herberto Helder). O sítio onde nos encontramos não é necessariamente o sítio onde o nosso corpo está. O nosso corpo pode estar num determinado ponto, mas a cabeça, o que nela se processa, leva-nos por aí à sombra do milhafre. Longe de serem aforísticos, os poemas de Michaux revelam a natureza em versos que, mais do que descreverem, definem e sintetizam como um fragmento da paisagem, deste ângulo, é capaz de nos resumir. Fala de “árvores como sistemas nervosos ensanguentados”, na Cordilheira dos Andes vê montanhas: “Despenham-se, assombram-se, suspendem-se, sossegam as línguas!”. Gosto de montanhas que sossegam as línguas, julgo entendê-las. Eu próprio sinto, e não precisaria de Michaux para o sentir, que as montanhas sossegam as línguas. Neste lugar de línguas sossegadas, a água escorre pela pedra como o sangue jorra de uma ferida aberta. Talvez não seja uma ferida, talvez a palavra deturpe, atraiçoe, o objecto nomeado. Evitemos comparações, estamos numa paisagem para um miradouro e encanta-nos o ruído das águas, estrondoso silêncio das águas, enquanto os olhos adejam a vegetação espalhada pelas pedras. Sobre o Lago de San Pablo: “Os lagos em geral são pura alegria, / Levam barcos e risos, estão cercados por casas pequenas”. Vimos alguns lagos pelo caminho, vimos albufeiras sem barcos nem casas pequenas nas margens. Lagos inventados pelo progresso, gerados pelo homem, o que resta de homem numa humanidade há muito esquecida nas figuras rupestres ao largo de lagoas algo gulosas. Não há poesia nesses lagos, há apenas um miradouro para a paisagem. Mas aqui “a floresta parece unida, una”, por isso digo que há uma paisagem para o miradouro. É a paisagem quem nos olha e contempla, somos o tronco vergado, somos parte integrante da paisagem como uma árvore espera ser trepada por alguém que lhe colha o fruto. Novamente, evitemos comparações. É uma tristeza para as árvores darem frutos que ninguém colhe, vê-los cair de maduros sobre a terra. É uma alegria para a terra, mas uma tristeza para as árvores. O que pretendo tornar claro é isto: a cascata chega-nos ao corpo através do som, podemos não tocá-la com as mãos mas é como se sentíssemos a sua frescura entrar-nos pelos ouvidos. E de algum modo bebemos destas águas, de algum modo elas são a fonte que sacia a sede da alma desassossegada. Tal qual o poeta escreve: “uma canção em língua estranha”, a língua aquietada pelas montanhas.

RUÍNAS DO MOSTEIRO DE SANTA MARIA DAS JÚNIAS

Minha querida Marguerite Yourcenar, escrevo-te de um lugar no norte do meu país. Lembrei-me das tuas palavras, sempre tão sábias, ao chegar aqui. Dizias: “Talvez nos tenhamos habituado de mais à ruína e aos ferimentos”. Isto mesmo sinto agora aqui sentado sobre uma pedra coberta de musgo, uma pedra que não consigo perceber se outrora integrou o que sobra do Mosteiro ou se veio aqui parar posteriormente ou se sempre aqui esteve. Pressinto, porém, que alguém antes de mim também aqui se sentou, porventura a escutar, como agora eu escuto, a água que corre no rio e há-de formar uma cascata além, para deslumbre de quem se aventure no interior da floresta. Escuto os pássaros, os insectos, o vento que afaga as folhas das árvores e alimenta as almas recolhidas em meditação. Não sei que ferimentos perduram nestas pedras, mas creio ter-me habituado à ruína quando isolado experimento os poucos minutos de alegria que a vida ainda me concede. Talvez eu seja um lobo e estas ruínas o fojo onde fui capturado, para que entretanto o quotidiano me volte a matar com pauladas de obediência e de servidão, exigindo-me servilismo e boca calada. Neste lugar o silêncio fala por mim, entre o que sinto e as ruínas onde me encontro estabelece-se um elo indiferente às palavras, um elo que não carece de representações nem de estilos apócrifos nem de reconstituições ou decalques. Fala deste modo por nós o tempo, uma sintaxe invertida na rugosidade das pedras há muito aqui paradas em repouso. Um repouso que agita a imaginação e esclarece os mortos que trazemos dentro. Reparo no cemitério com meia dúzia de campas, reparo que não está completamente abandonado. Alguém ainda aqui virá visitar restos mortais guardados pela ruína enquanto a água continua a cumprir o seu curso, as aranhas tecem suas teias, os pássaros enchem o espaço de música e a tudo isto chamamos a natureza a respirar.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

CAVAR UMA SEPULTURA

(…)
os dirigentes europeus reagiram à derrota que lhes foi infligida pelo povo grego como é suposto reagirem os ditadores.  Ameaçando os gregos pelas opções que tomaram livremente, pensando pelas suas próprias cabeças e escolhendo o que acham ser melhor para si e para os seus. Declarando como nunca tinha sido feito na História da Europa que estavam decepcionados com a decisão dos gregos ou que os gregos tinham cometido um grave erro.
Fizeram-no cuspindo e pisando sobre os valores fundadores da Europa, mostrando que nesta guerra que travam contra os povos da Europa, contra a própria ideia de Europa, estão dispostos a descer tão baixo quanto possível, a serem tão anti-democráticos quanto necessário para deixarem claro que eles, os que mandam na Europa, não admitem que quem pense de maneira diferente possa ter a veleidade de querer mudar de caminho, escolher uma alternativa política, seguir uma via reformista e progressita que não a que eles escolheram
.
(…)
 
Ler artigo completo aqui.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

TRAGÉDIA GREGA

ANGELA MERKEL
   Que pode temer o homem quando o destino tudo governa e toda a previsão é incerta?
   O melhor que há a fazer é viver ao acaso. Não temas casar com a Europa; já muitos homens têm sonhado que casavam com a Europa; mas continua sossegado aquele que sabe que os sonhos nada são.

ALEXIS TSIPRAS
   Bem de aceitar seriam as tuas palavras se Christine Lagarde não fosse ainda viva; é inútil falares com sensatez; nada atalhará os meus receios.

ANGELA MERKEL
   A morte do referendo seria uma grande consolação.

ALEXIS TSIPRAS
   Grande, decerto; mas Christine está viva; tenho medo.

JEAN-CLAUDE JUNCKER
   Que mulher é essa que te inquieta?

ALEXIS TSIPRAS
   Christine Lagarde, casada com o FMI.

JEAN-CLAUDE JUNCKER
   E que há nela que te atemorize?

ALEXIS TSIPRAS
   Um oráculo divino terrível.

JEAN-CLAUDE JUNCKER
   Pode-se dizer? Ou é proibido conhecê-lo?

ALEXIS TSIPRAS
   Escuta. Yanis Varoufakis disse-me outrora que dormiria com o Eurogrupo e que derramaria com minhas próprias mãos o sangue do Syriza.

NOTÍCIAS SEM INTERESSE

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou hoje oficialmente Cuba o primeiro país do mundo a eliminar a transmissão do vírus da sida (VIH) e da sífilis de mãe para filho. "Eliminar a transmissão de um vírus é um dos maiores feitos em matéria de saúde pública", afirmou a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, num comunicado. (…) O êxito alcançado por Cuba "mostra que um acesso universal a cuidados médicos é possível e é, na verdade, a chave do êxito contra desafios tão grandes como a sida", destacou por seu lado a diretora da Organização Pan-americana de Saúde (OPS), Carissa Etiènne, em conferência de imprensa.

Sublinhado meu.

UMA EPIFANIA PARA JAMES JOYCE

— Onde é a secção dos livros do Shakespeare.
— Talvez procurando no teatro. Pretende alguma obra em particular?
— A última, a que foi adaptada ao cinema.
(pausa)
— Bem, já várias peças de Shakespeare foram adaptadas ao cinema. Recentemente, não me recordo de nenhuma. Romeu e Julieta?
— Não.
— Tem também o Othello, Macbeth
— Não, não são esses livros. São uns que têm sempre na capa uma rapaz e uma rapariga. No cartaz do filme, a rapariga até tinha um chapéu de cowboy.
Cowboy?... Shakespeare?... Será este o livro que procura?
— É isso tudo.
 
(clique na palavra a vermelho para conhecer o Shakespeare do séc. XXI)

DESLIGUEM AS TELEVISÕES

O jornalismo que nos chega da Grécia é dos epectáculos mais obtusos a que alguma vez tive oportunidade de assistir. Ontem, um tonto da CMTV, em plena Praça Syntagma, dizia que milhares de pessoas gritavam pelo “sim ao referendo, pelo sim à democracia”. Repetiu isto vezes sem conta sem que ninguém o calasse ou corrigisse. Num outro canal de televisão, a legenda: “Milhares manifestam-se pelo Sim”. Um dia antes, com a mesma praça abarrotada de gente, a legenda era outra: “Manifestação de apoio ao governo”. Num directo, um jornalista desabituado das câmaras explicava, com uma caixa de MB por trás, que se viviam tempos agitados na Grécia. Mesmo ali onde ele se encontrava, uma cidadã invectivava os jornalistas da CNN. E o nosso bom repórter avançava com o diagnóstico: um dos problemas da austeridade foi os hospitais psiquiátricos terem ficado sem dinheiro, agora os loucos andam todos à solta pelas ruas. Seria cómico se não fosse trágico.