quinta-feira, 7 de abril de 2016

LOBO DA MADRAGOA


   Como passar incólume à hipocrisia geral sem recorrer a um pouco de cinismo? O mestre andava com a lanterna ateada de dia para vislumbrar um homem honesto, mas hoje não lhe bastaria luz sobre luz. Nem com microscópio ele conseguiria ver para lá de um espelho estilhaçado o verdadeiro rosto desta bela fachada com que disfarçamos casas próprias completamente desarrumadas. 
   Ocorre-me o nome de António Lobo de Carvalho, sátiro incisivo com tendência para a pornografia descarada. Morreu a 26 de Outubro de 1787, mas ninguém sabe quando nasceu. No exemplar dos 40 e tal sonetos que adquiri em tempos num alfarrabista vêm três recortes, reunidos por ligações que apenas o ou os proprietários antigos terão sabido conjugar: um artigo de Raul Rego sobre Francisco Rodrigues Lobo, um outro com referência a poema de Tomás António Gonzaga e um pequeníssimo recorte com referência a esta edição da &etc (então ao preço de 100$00). De lado, manuscrito, o nome de Fernando Assis Pacheco, que sobre este tal “Lobo da Madragoa” profere algumas probabilidades: terá nascido em Guimarães, terá cursado Direito, «vivente às sopas dos mais favorecidos e de certeza certa um fescenino» (diz-se dos versos ou cantigas livres, obscenas, que se cantavam nas bodas, na antiga Roma). 
   Estamos, portanto, no campo da licenciosidade. Mas não só. Desenganem-se as almas perversas que julguem estes versos pela superfície, pois há neles uma profundidade estética e até metafísica que convém não descurar. Desde logo, vislumbramos no estro um apurado olhar de cronista. Lobo de Carvalho corre o país de Guimarães a Beja, não deixando de retratar a capital com acutilante perspicácia:

Frutos do desengano, colhidos na convivência das putas, e patenteados ao mundo no seguinte

Putedo de Lisboa, ó gente fraca,
Convosco falo, cagaçais malditos,
Convosco, a quem caralhos infinitos
Têm batido no cu, sem ser matraca:

Vós, que fazeis meiguices qual macaca,
Que suspira uma vez, outra dá gritos;
Vós que fazeis morrer bolsas, e espíritos,
Sem que para isso useis punhal, ou faca:

A todas sem excepção conjuro, atesto,
O ter-lhes hoje avante ódio fatal,
Pois carícias fingidas já detesto:

Acreditem os homens em geral,
Que à risca seguirei quanto protesto,
Pois com putas não gasto já real.

   O perigo destes versos é poder o entusiasmo erótico toldar a hermenêutica, levando o leitor a interpretações literais onde em cada palavra existe uma metáfora e no poema completo uma alegoria da promiscuidade que ainda hoje caracteriza a capital do império. Entre hipócritas e fingidos, a putaria aludida mais não é do que os bíblicos vendilhões do templo, uma corte de séquitos dispostos a tudo e mais alguma coisa pela mísera tença. Assim como neste poema vislumbramos os farrapos da moral no poder, veja-se como neste outro soneto assalta nas entrelinhas uma crua figuração das assimetrias sociais:

À boa e descansada vida que levam os nossos frades-pios, digna de inveja por todas as considerações

Desde que nasce o sol até que é posto
Governa o lavrador o curvo arado,
E de anos o soldado carregado
Peleja, quer por força, quer por gosto:

Cristalino suor alaga o rosto
Do barqueiro, do remo calejado;
Do cascável ao dente envenenado
Anda o rude algodista sempre exposto:

Trabalha o pobre desde a tenra idade;
O destro pescador lanços sacode
Para escapar da fome à atrocidade;

Todos trabalham, pois que ninguém pode
Comer sem trabalhar; somente o frade
Come, bebe, descansa e depois fode.

   Estamos perante a raiz mais vigorosa do neo-realismo, do poema social que manifesta num tom de lamentação e exaltação heróica os esforços da classe trabalhadora, ao mesmo tempo que denúncia o laxismo hipócrita, porque pecador e indolente, do clero. Em certo sentido, podemos dizer que António Lobo de Carvalho foi entre os nossos um dos mais heterodoxos poetas. Não admira o silêncio sobre ele pesado, assim como a vala comum para a qual foram varridos alguns dos seus mais perfeitos poemas de um ponto de vista meramente técnico ou, se preferirem, formal. 
   Atente-se o leitor como em diversos poemas a velhice é convocada com rimas fogosas e originais, de que é perfeito exemplo essa de pôr a dialogar  espantalho com caralho numa clara alusão aos terrores da degenerescência física. Nem Herberto logrou tais efeitos nos seus versos finais, entre os quais incluímos já os póstumos:

A certa moça, chamando velho ao autor, que ainda se não tinha por tal

Não te escondo a guedelha encanecida,
Nem da rugosa fronte a cor já baça;
Conheço que o meu lustre, a minha graça
Foi por duros Janeiros destruída:

Confesso, ainda que é já bem conhecida,
Que a idade minha dos cinquenta passa;
Mas juro que ainda tenho grossa maça,
Qual teso mastaréu a pino erguida:

Se és hidrópica mestra fodedora,
Daquelas que procuram com trabalho
Lanzuda porra, porra aterradora:

Minhas cãs não te sirvam de espantalho;
Põe à prova o teu cono, e sem demora
Verás então se é velho o meu caralho.


   E por fim este edificante poema, com o qual por ora me despeço na esperança de que possa o leitor reavivar a potência do vate em muitas e moralizadoras cadeias de distribuição de poesia avulso:

Exortação moral, em que o autor persuade aos putanheiros a evitar os perigos a que andam expostos, e que vão descritos neste

A baixa prole da ralé nojenta,
Envolta em restos de cetim barato,
Armada a vã cabeça de aparato,
Sobre aberta janela se apresenta:

A escada trepa a velha rabugenta,
A quem falta o tacão já no sapato;
Batendo à porta do lascivo trato
Um pinto mais à pobre casa aumenta:

O lucro gira sempre confundido
Pelas mãos dos adelos desbastado,
E do destro garoto apercebido:

Fuja das moças todo o homem honrado,
Que além do gimbo e crédito perdido,
Não quer de vivo azougue ser minado.

HIPOCRISIA POPULAR

As pessoas estão muito indignadas com o actual Ministro da Cultura por causa de umas parvoíces que ele escreveu no Facebook, a oferecer bofetadas a uns tipos que usam as páginas dos jornais e afins para escreveram autênticos murros nas trombas. O João Soares esteve mal por não se ter precavido contra as virgens puras da sociedade portuguesa, umas santas almas que tanto podem adorar o João César Monteiro como o José Cid e lhes perdoam todas e quaisquer injúrias. Sempre amei esta moral popular dos indignados de pacotilha, digna de um país de bons costumes e povo sereno. As pessoas também estão muito indignadas com o contributo da Joana Vasconcelos para a campanha dos refugiados. Talvez preferissem que a artista tivesse sido hipócrita e adoptasse o discurso das papas da Isabel Jonet ou a frugalidade do saudoso Cavaco. As pessoas, geralmente, adoram discursos hipócritas. Eu não. E gostei muito do testemunho da Joana, até por nos lembrar do que realmente é importante para a maioria das pessoas hoje em dia neste nosso maravilhoso paraíso digital. Afinal vocês levavam o quê? Um canivete suíço? Um livro de poesia? Já leram O Papalagui? Se leram, releiam. Aperceber-se-ão do pântano de superficialidades em que vive há séculos atolado o Mundo Desenvolvido da cultura ocidental. A Joana levava aquelas coisas todas como muitos dos refugiados que a gente vê na televisão não trazem bagagem muito diferente. Talvez as pessoas indignadas julguem que um refugiado que traga uma bagagem do género daquela que a Joana levaria não é bem um refugiado. Os refugiados trazem o que para eles tem valor ou pode ter no mercado negro do nosso pântano de superficialidades. Eu acho que de tanto partilharem as perorações do Arroja as pessoas estão a ficar como ele, estupidamente moralistas. E um pouco intelectualmente desonestas. Não acham?

quarta-feira, 6 de abril de 2016

INFERNO FISCAL



Não sei quem estabelece o valor das multas em Portugal, mas gostava de saber como se calculam e definem tais valores. Vejamos um exemplo. Se alguém se atrasar por 1 dia que seja no pagamento do IUC, fica sujeito a uma multa de €50. Pelo menos mais €70 de custas processuais, outro valor ao qual se chega sem ninguém saber como. Temos a módica quantia de €120, ou seja, mais de 20% do salário mínimo (que anda pelos 530€). Isto por se ter atrasado no pagamento de um imposto que é menos de metade do valor da multa. Panama Papers? Isso é para meninos.

O CAMINHO MAIS CURTO PARA O MISSISSÍPI

Só li o título: Mississípi aprova lei que permite recusa em atender homossexuais. Já em Portugal, o subdirector do Colégio Militar parece conviver naturalmente com a exclusão a que são sujeitos os miúdos no seu Colégio que revelem tendências homossexuais. Não sei como conviverá com os que revelem tendências homofóbicas, mas posso supor que pelo Colégio Militar facilmente chegaremos ao Mississípi. 

MÉTODO

Para tentar ser publicado em Portugal, Arnaldo foi viver para o Brasil.

terça-feira, 5 de abril de 2016

#79


Já me referi anteriormente a Mark Eitzel a propósito dos American Music Club, conjunto onde desenvolveu, apurou e afirmou a sua arte para escrever canções. Em Caught In a Trap and I Can’t Back Out ‘Cause I Love You Too Much, Baby (1999), título que parece ser todo um programa, encontramo-lo a título pessoal, mas não necessariamente a solo, num registo muito mais desprotegido do que aquele que lhe conhecíamos anteriormente. Não foi o primeiro registo de Eitzel sem os A. M. C., mas é o melhor. Acompanhado a espaços por Steve Shelley (Sonic Youth…), James McNew (Yo La Tengo…) e Kid Congo Powers (The Bad Seeds, The Cramps, The Gun Club…), desfaz o tom descarnado forçado por canções suportadas numa simples guitarra folk com descargas momentâneas de uma energia que rompe com a melancolia sem dela conseguir esquivar-se. O tom é geralmente negro, perdido entre uma fé desassossegada e a ausência de esperança. Mas nem por isso Mark Eitzel resvala num sentimentalismo desprovido de reflexão, logrando uma expressividade emocional deveras convincente pela naturalidade com que se apresenta ao ouvinte. Gosto especialmente deste Queen of No One:


MAIS UMA TEORIA SOBRE TUDO

1. É óbvio que tendo sido isto assinado por Cuca, a Pirata ninguém botará likes como se tivesse sido assinado por Adília Lopes, Manuel de Freitas, José Tolentino Mendonça ou o Papa Francisco.
2. Só acredito na boa fé dos leitores quando não existirem escritores.
3. Só acredito na boa fé dos escritores quando não existirem editores.
4. Só acredito na boa fé dos editores quando não existirem leitores.
5. Leitura cega, crítica cega. E é tudo. Sem autores, sem nomes. Só as palavras a valerem por si próprias.
6. O mesmo com todas as artes. Todas. Incluindo a culinária.
7. Veja-se o caso dos artistas plásticos, entretanto mais artistas pela habilidade que demonstram, em termos retóricos, na defesa das suas obras do que pelas obras em si.
8. Um parvo pode parar a contemplar um extintor e elaborar todo um tratado estético sobre a inutilidade da expressividade na narrativa estética contemporânea. Mas nem por isso deixa de ser parvo.
9. Peixe com batatas. 
10. Percebes, Mário, o que quero dizer com cagança?
11. Precisamos de uma nova lei dos piropos, uma lei que criminalizaria 90% da poesia que se publica hoje em dia. BE, avança.

TOMEM LÁ UM POEMA:

Hamsters

De uma forma ou de outra, somos todos pequenos hamsters brancos, de olhos vermelhos, patinhas encolhidas, fechados numa gaiola cuja única fonte de animação consiste na roda estúpida onde nos entretemos a girar com o objetivo de ficarmos tontos. 
Às vezes também gostamos de fingir que estamos a roer as grades. 


Cuca, a Pirata. Aqui.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

IMRE KERTÉSZ (1929-2016)


Nasceu em Budapeste no seio de uma família judaica. Foi deportado para Auschwitz e Buchenwald, sendo libertado em 1945. O seu testemunho é importante para que se entenda a dimensão verdadeiramente desumana do holocausto:

Posso dizê-lo: com o tempo, até nos habituamos aos milagres.
Imre Kertész, in Sem Destino, trad. Ernesto Rodrigues, Editorial Presença, 1.ª edição, Maio de 2003, p. 158.

UM POEMA DE THOMAS KINSELLA


COMEDOR DE FOLHAS


Num arbusto no coração do jardim,
Uma lagarta enrola metade do seu corpo
A uma folha exterior, uma gavinha,
Desta e daquela forma às
Cegas: sem mais nenhum ramo ou folha
Ao seu alcance; depois tacteia-se
A si mesma e começa
A comer a sua própria folha.



Thomas Kinsella (n. 4 de Maio de 1928, Inchicore, Irlanda.
Versão de HMBF.

OPERAÇÃO QUALQUER


1. Os nomes das operações de investigação judicial são sempre mais imaginativos do que os nomes das empresas fictícias envolvidas nos mais variados escândalos. Isto devia dar origem a uma Operação Qualquer. 
2. Também me ocorreu hoje um bom nome para uma hiper, mega, super operação de investigação judicial: Operação Saco Roto. 
3. Agradeço que me avisem se encontrarem um inédito de Rimbaud entre os Papéis do Panamá.
4. Será que é desta que vamos ficar a saber quem é o poeta mais rico de Portugal?
5. Putin também tem um melhor amigo que o ajuda a esconder dinheiro. Num violoncelo.
6. As televisões enchem-se de especialistas em lavagem de dinheiro. Um deles tem uma nódoa na gravata.
7. O Público divulga os rostos (conferir imagem ao alto). São todos um bocado cinzentos e pouco imaginativos na indumentária. 
8. Pela distribuição das cores, o PSD é até ver o partido português mais representado.
9. Quitéria diz que CMTV já lançou último alerta: Sócrates é amigo de um maestro que dirigiu o violoncelista que esconde o dinheiro a Putin.
10. Não vejo ali ninguém do Daesh. Santos homens!
11. A grande dúvida do momento: qual a editora portuguesa que lançará no mercado o primeiro livro sobre os Papéis do Panamá?

ANGOLA & PANAMÁ LDA.

UMA OPINIÃO SOBRE ANGOLA: as pessoas deviam poder ler à vontade, seja qual for o livro. Nem que seja, vá lá, as memórias da prisão de Isaltino Morais. Num país onde ainda é tão elevada a taxa de analfabetismo, em vez de terem sido condenados os jovens activistas angolanos deviam ter sido condecorados. Só ficaria bem ao regime. Na sequência da sentença, as bancadas parlamentares do PS e do BE acharam por bem condenar em Portugal a decisão de um tribunal angolano. Tema melindroso, sobretudo estando em causa uma decisão judicial num país independente com eleições livres. É o que se diz. O PS sugeriu votos para que os princípios elementares da democracia e dos estados de direito não sejam atentados em Angola. O BE foi mais longe: condenou a punição, apelou à libertação dos activistas. O BE quis meter o bedelho numa decisão de um tribunal angolano, e isso é feio. O PS quis fazer boa figura perante a opinião pública, e isso é muito comum no PS. O PCP, o PSD e o CDS rejeitaram ambas as iniciativas, dando origem a uma nova geringonça no parlamento português. De sublinhar que o PEV se demarcou da posição do seu aliado de coligação, o PCP, votando a favor das iniciativas bloquista e socialista. Fez bem. Ainda que todos os argumentos sejam inteligíveis, excepto os de um deputado do PSD cujo nome não recordo mas tem cara de parvo, agradeço ao PEV ter-me permitido respirar fundo. Apesar do oportunismo das iniciativas, que em nada favorece a luta daqueles a quem mais compete fazer pela democracia em Angola, ou seja, os angolanos, há um cidadão luso-angolano entre os condenados. Por si só, isto obrigaria a um voto qualquer português condenando a situação de repressão a que esse cidadão e os seus camaradas de tertúlia estão a ser sujeitos em Angola. Esta é a condição, sob pena de assim não sendo termos que apresentar todos os dias votos de condenação pela repressão exercida nos quatro cantos do mundo.


UMA OPINIÃO SOBRE O PANAMÁ: o Panamá é um país simpático. E a Islândia também. Até há momentos, a Islândia era um exemplo de hombridade no combate à corrupção de políticos e banqueiros. Agora já não sei se ainda será. Salvem-nos. O Rui Tavares vem dizer que nada ficará como dantes. Temos dúvidas, temos sempre dúvidas. Afinal o que pode mudar? A vergonha dos sem vergonha é vergonha nenhuma, pelo que andar a esconder dinheiro em paraísos fiscais é quase tão relevante como o Terceiro segredo de Fátima. Na melhor das hipóteses, teremos muita gente a dizer: mas isto é alguma novidade? Eu não sabia já que estes gajos são todos corruptos e quem se lixa é sempre o mexilhão? Na pior das hipóteses, os papéis do Panamá fortalecerão o discurso dos oportunistas de serviço, aqueles que estão sempre contra o regime até serem regime. Isto pode ser muito entusiasmante. Se dizíamos da situação brasileira ser uma espécie de Portugal à escala do Brasil, iremos agora dizer ser a situação do Mundo uma espécie de Brasil à escala mundial? Enfim, são demasiados problemas para uma pobre cabeça como a minha. O que sei é simples: amanhã é dia de trabalho, hoje é dia de descanso. Vou ler poemas.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

LUCIDEZ

Está cada vez mais difícil garantir alguma lucidez. A opção recai por cingir a vida às tarefas domésticas, ao banal quotidiano, focando atenções no que se mantém como sendo o essencial: a vida vidinha. Liga-se a televisão e ficamos a saber de um jovem de 20 anos espancado até à morte à porta da Universidade onde estudava, mudamos de canal e somos bombardeados pelo tiroteio na Ameixoeira, insistimos e deparamos com uma explosão no Seixal. Já com a televisão desligada, pega-se num jornal. 12 portugueses mortos em França numa carrinha conduzida por um jovem de 19 anos é ainda notícia, no mesmo dia em que ficamos a saber que em Sintra há cada vez mais crianças abandonadas. No meio disto tudo qualquer apontamento positivo, alegre, inspirador, motivante, só pode ser brincadeira do dia das mentiras. Deslocados de tudo e mais alguma coisa, refugiamo-nos numa solidão nada consoladora. Antes pelo contrário. Nas redes sociais também não é diferente. Este convida-te para um evento, aquele identifica-te numa publicação, e num frenesim indescritível de gostos e de partilhas elaboram-se teses sobre o BANIF, discutem-se declarações de voto pela democracia em Angola, fazem-se piadas sobre tudo e mais alguma coisa, passa-se pela lixeira do mundo como quem caminha sobre as águas. Somos todos santos e beatíficos num mundo assim, pelo que mais estranho se torna pressenti-lo tão insuportavelmente sujo. E nós a lutar arduamente por alguma lucidez. Canais desligados, apenas uma janela aberta para o mundo. Uma simples janela numa sala empoeirada a receber a tarde estranhamente luminosa. O bairro está sossegado. Nem os estorninhos inquietam a placidez do dia. Escuta-se um motor ao largo, um cão mais próximo, crianças à solta numa distância interminável. Apesar de tudo, os dias correm, vão correndo. A lucidez é uma reconquista permanente, uma reivindicação diária. Não está fácil, mas que podemos fazer?

quinta-feira, 31 de março de 2016

LIMPINHO, LIMPINHO

Cidade do Futebol. 10 a 15 milhões de euros financiados pela FPF, UEFA e FIFA. Dinheiro limpinho, limpinho. É disto que o mundo precisa. 

O DIA & A NOITE NÃO PODEM VIVER JUNTOS



A editora Debout Sur l’Oeuf (DSO) publicou recentemente um pequeno volume de “poemas de índios americanos numa recreação de Vasco Gato” (sic), pretendendo talvez aqui o termo recreação arrogar uma espécie de divertimento que afasta estes exercícios de outros levados a cabo sobre as eventuais origens de uma literatura índia norte-americana. Menos recreativos, porventura mais do domínio da recriação, foram os poemas mudados para português por Herberto Helder em livros tais como O Bebedor Nocturno ou As Magias. Neles encontramos enigmas maias e astecas, poemas esquimós, poemas dos peles-vermelhas, entre outras incursões proveitosas pela arqueologia de vozes ancestrais que nada têm que ver com as concepções ocidentais de literatura. É no volume As Magias que podemos vislumbrar aquele que é, talvez, o mais fiel exemplo de uma riqueza oral que a linguagem escrita procurou preservar com maior ou menor sucesso:

(Índios Comanches, EUA)

Djá i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i ná ê nê ná
i djá i naí ni ná
i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i djá ê nê ná

Refira-se, en passant, que são várias as teorias existentes sobre a intraduzibilidade de alguns cânticos ameríndios, cujo propósito parece estar mais próximo do que conhecemos por mantras do que de uma expressão verbal de sentimentos ou de realidades mundanas. A relevância desses sons é a de uma vibração semelhante ao rufar dos tambores, símbolo de unidade do homem com os tempos e os ritmos da natureza. Estas culturas nativas privilegiavam, também por isso, a tradição oral, fazendo passar de geração em geração várias narrativas morais que um processo de aculturação violentíssimo obrigou a fixar sob a forma escrita. Porém, antes da poesia, foi a autobiografia o que mais interessou aos indígenas norte-americanos, por nela encontrarem um testemunho vivo e eficaz, ao serviço das gerações vindouras, sobre as privações que passaram, as lutas que travaram e os abusos que sofreram. Devemos ao mestiço William Apess o primeiro desses testemunhos, intitulado A Son of the Forest (1831). Por sua vez, Wynema, a Child of the Forest (1891), de Sophia Alice Callahan, é hoje considerado o primeiro romance escrito por alguém com sangue índio. Estas obras foram determinantes para fomentar o interesse pela cultura ameríndia, mas são já produto de uma mestiçagem onde os valores literários ocidentais foram assimilados e reproduzidos. 
Quanto à poesia, ela surge invariavelmente envolta no mistério de um modelo que procura preservar certo conteúdo espiritual sem adulterar a energia e os ritmos de idiomas desconhecidos. Restam versões de versões de versões de versões cuja origem é quase sempre a língua inglesa. Infelizmente, no volume publicado pela DSO, com o título O dia e a noite não podem viver juntos (Janeiro de 2016), nada nos informa acerca da proveniência dos textos. É uma pena que assim seja, sobretudo quando o próprio texto que oferece o título à colectânea não é inédito entre nós. Trata-se não de um poema, mas de um discurso, proferido em 1854, pelo índio Seattle, Chefe da tribo Suquamish, aquando de uma proposta do governo americano para compra de terras em troca de protecção numa reserva. O discurso é famosíssimo.  Dele se conhecem, publicadas por cá, pelo menos duas versões anteriores: A Noite do Índio, pela Casa Do Sul Editora, com tradução e apresentação de Joaquim Palma, 1.ª edição, Outubro de 1999, e uma outra, menos rigorosa, incluída em A Alma do Índio, Padrões Culturais Editora, sem referência ao tradutor, 1.ª edição, Julho de 2008. 
Aos poemas que compõem O dia e a noite não podem viver juntos Vasco Gato juntou apenas uma indicação sobre o autor, quando é conhecido, ou a tribo de onde provêm as palavras. Pungentes, a título de exemplo, as palavras de Tom Torlino, um conhecido Navajo de quem são famosos os retratos antes e depois de ter sido admitido numa escola cujo objectivo era erradicar qualquer indício de identidade índia nos povos nativos:

DEVO PORTANTO DIZER A VERDADE

Sinto-me envergonhado perante a terra:
Sinto-me envergonhado perante os céus:
Sinto-me envergonhado perante a madrugada:
Sinto-me envergonhado perante o crepúsculo:
Sinto-me envergonhado perante o céu azul:
Sinto-me envergonhado perante a treva:
Sinto-me envergonhado perante o sol.
Sinto-me envergonhado perante aquilo que trago dentro de mim e que fala comigo.
Algumas destas coisas não param de olhar para mim.
Nunca estou longe da vista.
Devo portanto dizer a verdade.
É por isso que digo sempre a verdade.
Cinjo a minha palavra com força junto ao peito.

Torlino
[Navajo]

Resta saber a qual retrato de Torlino devemos atribuir estas palavras, se ao retrato em que se encontra com o cabelo comprido e brincos nas orelhas ou à versão polida, já sem brincos, de cabelo cortado, de fato e gravata vestido. Igualmente valiosas são as palavras atribuídas a Nalungiaq e Samik, membros Inuítes (vulgarmente tratados por Esquimós), onde dão conta tanto de uma mitologia muito própria como de princípios éticos básicos face a situações de extrema privação. Deixadas na penumbra, as canções de guerra dos Cherokee ou as orações aos guerreiros dos Asiniibwaan, disponíveis em diversas antologias, são entre o que conhecemos da poesia ameríndia alguns dos trechos mais eloquentes. Quer pelo contexto de guerra, quer pelos estímulos que procuravam produzir, esses poemas deveriam ter merecido uma outra atenção. Arrisco duas versões minhas, a partir das reproduções antologiadas em American War Poetry (Columbia University Press, 2006), volume organizado por Lorrie Goldensohn:

“CANÇÃO DE GUERRA”
A partir de Maurice Boyd, Vozes Kiowa

Corro até ao ribeiro para lavar o cabelo.
Pinto o rosto com as cores do crepúsculo.
Minha tia escolhe-me um xaile azul claro como o céu.
Mas eis que escutamos o choro que significa
treva para todo o meu povo.

Corro de regresso à minha tenda.
Limpo todas as pinturas
com as minhas lágrimas.

*

“ÚLTIMA CANÇÃO DE TOURO SENTADO” (TETON SIOUX)
A partir de Frances Densmore. Touro Sentado cantou
esta sua última canção depois de se render às autoridades
Norte-Americanas, pouco tempo passado sobre o massacre de Custer.

Um guerreiro
Eu fui.
Agora
Tudo acabou.
Um tempo difícil
Eu tenho.

#75


Por detrás dos Palace Brothers, Palace Songs, Palace Music ou do alter-ego Bonni ‘Prince’ Billy esconde-se o talento do escritor de canções Will Oldham, nascido em Louisville, estado americano do Kentucky, a 24 de Dezembro de 1970. Claramente menos preocupado em seduzir audiências do que em expressar-se musicalmente, Oldham tem assumido ao longo do tempo diversas encarnações ligadas por um respeito ao formato de canção concebido e desenvolvido nos territórios daquilo a que se convencionou chamar de alt-country: canções enraizadas na country music, mas com um pé no rock independente, que atravessam a paisagem rural norte-americana para se instalarem na melancolia secular das grandes urbes. Em Greatest Palace Music (2004) encontramos uma revisão de alguns dos melhores momentos do repertório outorgado pelos Palace nas suas diversas metamorfoses, elaborada pelo talento introspectivo de um Bonnie “Prince” Billy rodeado de amigos e com uma postura autocrítica e irónica sobre o seu percurso anterior. Tanto a jovialidade da capa como a luminosidade da fotografia de contracapa podem ser enganosas, sobretudo quando deparamos com a densidade de temas onde a solidão se expõe como o princípio e o fim último da existência. Mesmo quando estamos rodeados de belíssimos coros femininos. Um exemplo:


DOIS LIVROS DE EDUARDO QUINA

A confiar no que foi possível apurar através de informação disponível on-line, Eduardo Quina (n. ?) estreou-se com Sombras Mortas Entre os Dedos (Apuro Edições, Dezembro de 2015). O volume intitulado Corpo: Labirintos. (Editora Licorne, s/d) reúne poemas escritos entre 2009 e 2012, supondo-se, no entanto, que a sua publicação tenha sido posterior. Independentemente da ordem cronológica, aquele que aqui tomaremos como livro de estreia é, sem dúvida, o mais desequilibrado. Denota os defeitos naturais de uma estreia, nomeadamente uma clara indecisão quanto ao lugar de uma linguagem ainda por definir. Trata-se de uma sequência de 41 textos, por vezes precedidos de um título, de uma epígrafe ou de uma dedicatória, marcados pela questão da perda, da morte, do desaparecimento. Os espaços geográficos aludidos, sejam eles «o jardim da vila» (p. 10), a «aldeia da minha infância» (p. 40) ou mesmo a cidade onde o presente se gasta em solitárias incursões pela paisagem, enviam-nos invariavelmente para lugares de memória onde fica evidente uma especial atenção à degenerescência do corpo físico e, por consequência, de uma espiritualidade inquieta, sombria, desassossegada. O problema da morte é, então, um desafio que instiga reflexões lacónicas sobre o sentido da vida e a utilidade da escrita, por entre breves apontamentos intimistas ou de índole supostamente biográfica que dão igualmente lugar a anotações quotidianas bem esboçadas: «este espaço sem gente é hoje de esquecimento. / no limite da tarde chega um grupo / de jovens da terceira idade / carregados com todas as suas mágoas. / estão vivos e constroem o que resta / da tarde numa conversa trémula. / de gestos, cansados, expressam as / estórias da sua solidão. é a manifestação / possível e sibilante de um outono de horas / certas. corrigem vontades e entretêm a / mente nas sombras do dominó» (p. 46). Em alguns poemas, os versos estendem-se no espaço da página e a prosa impõe-se como a forma mais adequada a uma respiração cansada. Pressentem-se ecos da poesia de Herberto Helder mesmo quando não são declarados, perdendo-se alguns poemas em arrebatamentos geracionais — «sofres a pertença / a uma geração de merda» (p. 25) ou «e preenchias assim o vazio / neste devir permanente entre tascas» (p. 26) — típicos de alguma poesia portuguesa contemporânea mais empenhada no sacrifício de uma tradição lírica devedora das tempestades emotivas herdadas do romantismo. Com menos concessões ao ambiente geral e à situação poética vigente,
Corpo: Labirintos. desenvolve em três sequências bem arquitectadas uma reflexão poética sobre o corpo enquanto lugar primeiro e último da existência, não recusando considerações de carácter teosófico deveras pertinentes num contexto onde a ideia de Deus ou as noções de sagrado e de divino são inseparáveis da própria assumpção que possamos fazer do corpo criador. Assim sendo, a primeira sequência foca-se no problema do corpo gerador e da sua relação com o gerado. Há como que um cordão umbilical de palavras a unir ambos através da figura da mãe e do filho que a convoca, lembra, evoca: «rasga-se o ventre para que se retire a ferros a solidão de um / outro corpo. entendes que é o teu próprio porque sabes / demasiado sobre a perfeição com que nascem as coisas. / é o deslumbramento da luz e o medo terrível das / explicações. / agora passeias sozinha sem a minha presença» (p. 27). Na sequência intitulada corpo e floração esta relação entre os corpos é como que descontinuada por uma separação, um distanciamento, uma perda e uma ausência que a morte anuncia. Criação e morte não são apenas balizas onde se joga o tema da existência, são eles próprios temas em si. E o corpo não é necessariamente e apenas o corpo físico, material, é também o corpo da memória, a imagem cuja nitidez se vai perdendo com a passagem do tempo. Há uma complexidade nesta relação que os poemas não negam nem procuram solucionar, participando antes de um reflexo que nos permite pensar no poema como também ele corpo gerado. O mistério do corpo é, pois, o da transmutação, é o da recriação através da palavra de algo que se cumpre entre a concepção e a morte. Os labirintos finais deste livro levam todos ao mesmo destino, sendo escusado aqui enunciá-lo, mas não sendo supérfluo apontar a intenção da poesia neste domínio: «queríamos um poema enquanto criação, última e / definitiva, do mundo» (p. 83). Ora, se cada poema é o seu próprio mundo, a génese engendrada neste livro permitiu uma inquietante cosmogonia. Muito mais equilibrado, por assim dizer, do que Sombras Mortas Entre os Dedos, este Corpo: Labirintos. deixa pistas atraentes sobre uma poesia que ainda está a desenvolver-se nos enredos da sua própria concepção. 

terça-feira, 29 de março de 2016

VAMOS ANTES A PARIS


Quem me dera ser simples e vulgar,
Pensar como o vizinho merceeiro...
Juntar no Montepio algum dinheiro
E fazer-me por todos respeitar.

Normal no porte, feio e regular,
Ter casa própria já, com jardineiro...
Vazio de ilusões, e bom caixeiro,
Ensinar o meu filho a continuar...

Assim envelhecer devagarinho,
Perfeitamente parvo, mas feliz,
E certo de seguir por bom caminho.

Dirás, leitor: "a quem você o diz!
Beber também eu queria desse vinho..."
— Não bebas... vamos antes a Paris!

Julho de 1938.


Olavo d'Eça Leal (n. 1908 - m. 1976), in Presença, n.º 53, 1938. Caído no esquecimento, publicou poesia e ficção, fez teatro e cinema, foi artista plástico. Colaborou na revista Contemporânea, tendo o seu nome ficado associado ao movimento presencista por na revista desse grupo ter publicado alguns dos seus versos. Poeta de leitura agradável, praticou versos simples de refinada ironia.

sábado, 26 de março de 2016

PEDRAS DA PÁSCOA

Manda a tradição que por esta época as grelhas das televisões sejam preenchidas com filmes e documentários sobre a vida de Jesus. Podemos assim rever Ben-Hur (1959), de William Wyler, Jesus of Nazareth (1977), de Franco Zefirelli, A Última Tentação de Cristo (1988), de Martin Scorsese, A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson, ou Barrabás (1962), de Richard Fleischer, entre os quais minisséries como Mary (2015), de Giacomo Campiotti, pontuam a inclinação para a telenovela sentimental. Jesus é uma excelente personagem de ficção. O que sobre ele sabemos de histórico permite-nos fantasiar inúmeras alegorias, não sendo de estranhar o interesse de artistas e das máquinas reprodutoras de imaginação em massa que vão arrecadando milhões à conta da exibição dos dotes sobre-humanos da personagem. Face aos heróis da Marvel, este semideus (ou Deus na Terra, se preferirem) é um poço sem fundo de todo o tipo de riquezas. A sua pureza equivale à ignomínia de quem a explora sem qualquer sentido crítico, disseminando pelos povos a mais bela e inútil das palavras: amai-vos uns aos outros. Lamentavelmente, estas palavras foram rapidamente esquecidas pelos parabolanos que impuseram à pedrada a sua visão do Mestre. Olhando à nossa volta podemos facilmente constatar que os parabolanos venceram. E por terem vencido podemos hoje regalar-nos com a grelha pascal, alheados da realidade com o divertimento das recriações históricas polidas, amêndoas doces e ovos de chocolate.

sexta-feira, 25 de março de 2016

UM POEMA DE KONSTANDINOS KAVAFIS

UM VELHO


No café no lugar de dentro na zoeira turva
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.

E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.

E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre — que demência! —
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».

Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.

. . . . Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.


Konstandinos Kavafis (n. 29 de Abril de 1863, Alexandria, Egipto - m. 29 de Abril de 1933, idem), in Poemas e Prosas, tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio D'Água, 1994, p. 73.