sexta-feira, 3 de junho de 2016

MÁRIO NUNES


Anteontem senti um arrepio na espinha ao escutar esta crónica do Rui Cardoso Martins enquanto levava a minha filha mais nova à escola. Refere-se a Mário Nunes, um jovem português que “preferia morrer a não fazer nada”. Morreu a fazer qualquer coisa. Morreu com 22 anos, não se sabe se abatido em combate, se colocando fim à própria vida para não cair nas mãos do inimigo. Desertou da Força Aérea, foi para o Curdistão, juntou-se às Unidades de Protecção Popular na frente de combate. Foi combater um bando de energúmenos que, sob a bandeira do islamismo, tem vindo a espalhar terror e ódio pelo mundo. Tenho sentimentos ambíguos relativamente a Mário Nunes. Olho para a fotografia publicada na revista Sábado e vejo um jovem aventureiro, fascinado por jogos de guerra e com atitudes e poses heróicas que me inspiram desconfiança. Certo é que, movido por forças, vontades, ambições, paixões, valores, desejos que só ele saberia, não ficou parado a olhar para a paisagem. Como se costuma dizer, ofereceu o peito às balas. Costuma dizer-se isto metaforicamente, não em sentido literal como deve ser no caso de Mário Nunes. E é essa literalidade que nos perturba e causa estranheza, porque é estranha nos dias que correm entre nós, porque nos é estranha, porque inquieta e desassossega o nosso espírito revoltado em tépida raiva. Nem que fosse por isso, já merecia o meu respeito e consideração. Não sei se consigo admirá-lo, sei que o respeito e considero. Preferiu morrer a ficar por aqui escrevendo palermices sobre os que morrem. 

terça-feira, 31 de maio de 2016

POETA DO POVO


Foram lidos poemas dos livros "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves" (2005), "O pequeno-almoço de Carla Bruni" (2008), "As Limitações do Amor São Infinitas" (2009) e "Breve Ensaio Sobre a Potência" (2012). Eu e a Margarida Vale de Gato lemos ainda alguns inéditos, em verso e em prosa. Alex e o pessoal do Povo receberam-nos, Nuno Miguel Guedes apresentou, Luís Carmelo convidou e leu. Juntaram-se ainda à celebração o escritor Nuno Camarneiro e o músico Luís Bastos. Já mais para o final, Joaquim Paulo Nogueira também se juntou à festa evocando os tempos de Punta Umbría. Estiveram muitos e bons amigos. Ao fundo da sala, pendurada numa parede, uma mulher com um lenço na cabeça assistiu a tudo com um sorriso no rosto. 

UM POEMA BREVE

BREVE

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom  dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.



Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Prémio Daniel Faria 2005, Quasi Edições, Maio de 2005, p. 16.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

sábado, 28 de maio de 2016

quinta-feira, 26 de maio de 2016

POSTAIS PORTUGUESES #2

O que seria de Portugal sem os seus betos? Se há fauna distintiva por terras lusas, essa fauna é a dos betos. Em mais lugar nenhum do mundo os betos podem ser mandatários de candidaturas socialistas. Isso verificou-se por cá, com a célebre Carolina dos caroços. Assim ficou conhecida depois de ter afirmado numa entrevista que só comia cerejas quando a empregada lhe tirava os caroços, passando-se o mesmo com as grainhas das uvas. É uma trabalheira, concluiu. Mais recentemente, a mesma Carolina patrocinou o país no estrangeiro ao ser notícia pela forma física exibida nas redes sociais durante a gravidez. Betos como a Carolina podem constituir um extraordinário postal turístico. Desde logo por serem betos à nossa escala, ou seja, em comparação com os betos ingleses ou os congéneres americanos não são bem betos, são uma espécie de impostores. Talvez por isso alcancem tanto sucesso no mundo da representação, pululando por telenovelas e séries de mau gosto. Não sei por onde andam os betos do meu país, até porque não ando atrás deles. Presumo que facilmente se encontrem exemplares dignos de apreço nas praças de touros da nação, na Praia da Comporta ou no Rock in Rio. Agora é vê-los, para espanto de muitos, em manifestações revolucionárias, vestidos de amarelo, reivindicando apoios do estado para a educação dos seus, filhos. Ou talvez não. Beto que é beto manda para as manifestações a mulher-a-dias, a caseira, a ama, o explicador, a tutora, não se mete nessas coisas do povo quando tem hora marcada com o personal trainer. A cena dos colégios é mais típica de aspirantes a betos, aqueles que depois das licenciaturas em Direito ou Economia ou Relações Internais acabam nos cargos directivos das empresas amigas de familiares e conhecidos. De vez em quando, encontro-os nos escaparates dos quiosques em revistas boas para treinar origamis. No Verão, há deles e delas que gostam de experimentar indumentárias neo-hippie e dão um saltinho até ao Sudoeste. Outros preferem as noites brancas de Sagres e de Vilamoura. Em torno da “betaria”, o país podia promover lá fora todo um fantástico mundo de ginásios, spas, restaurantes gourmet, gins sem álcool… É natural que provocássemos algum riso, mas o turismo do riso também conta. Cite-se, a título de exemplo, a proliferação de uma literatura beta, que inclui não só romances ditos light (os de pendor histórico estão definitivamente em alta) como também ensaios de auto-ajuda, inúmeros volumes de culinária, livros práticos sobre dietas e vida saudável, híbridos sem género com um pouco de tudo e muito de nada. A pergunta é: por que hão-de interessar lá fora os nossos betos? Ora, exactamente pela mesma razão que interessam cá dentro. Símbolos de uma alegria plástica, tresandam a escândalo nas páginas das tais revistas que dão imenso que falar a betos comentadores versados em futebol, cartomancia e outras artes divinatórias. Em si mesmos, são produto de um admirável esoterismo social, o das aparências fúteis, o de um existencialismo superficial que importa observar como no deserto se observa o vazio. Há quem sonhe a olhar para eta gente sem se dar conta de que está a olhar para um pesadelo. Mas é assim a vida. Basta descer do Café A Brasileira ao Rossio para perceber que os nossos betos estão à altura dos requisitos, são a prova provada de que a humanidade pula e avança. Se não percebemos a caminho de quê, é precisamente porque eles cumprem o seu papel. 

UMA FRASE PARA O DIA

Não se pode confiar em quem não sabe arrancar o adesivo da pele num gesto firme.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O MUNDO MÁGICO DE FREUD

A cerca de 150 páginas do fim, talvez não seja má ideia iniciar um inventário dos epítetos com que Michel Onfray brinda o pai da psicanálise no seu Anti-Freud (Objectiva, Outubro de 2012). Apoiando-se numa vasta bibliografia, Onfray começa por desmistificar a genealogia da psicanálise:

Pela leitura dos historiadores críticos, descobre-se por fim: que Freud organiza o mito da invenção genial e solitária da psicanálise quando ele, na verdade, foi um leitor voraz que se apropriou de numerosas teses de autores hoje desconhecidos, cujas descobertas são agora tomadas como suas; que Freud não inventou a psicanálise, palavra usada antes dele por Auguste Forel, pois, na verdade, Freud falava de psicoanálise…; que, ao invés da versão lendária e hagiográfica, existe uma genealogia histórica e livresca do pensamento de Sigmund Freud — mas que, ainda em vida dele até aos nossos dias, tudo foi feito para evitar uma leitura histórica da génese da sua obra, da produção dos seus conceitos, da genealogia da sua disciplina.

Em certo sentido, é precisamente isto que o filósofo francês propõe. Entenda-se plágio, no entanto, onde se fala de apropriação. A acusação é fundamentada, seguindo-se uma desmontagem do carácter de Freud que inclui acusações de egocentrismo, arrivismo e ambição desmesurada. Na sua origem, traumas de infância oferecidos por uma relação complexa com a mãe. Quem pretender encontrar aqui uma leitura psicanalizante do visado, sinta-se à vontade. Em suma:

Freud não é um cientista, não produziu nada de universal, a sua doutrina é uma criação existencial feita sob medida para viver com os seus fantasmas, as suas obsessões, o seu mundo interior atormentado e devastado pelo incesto.

Ou seja, a psicanálise esgota-se no caso Freud. O caso Freud é o único caso relevante para a compreensão da psicanálise. O que dizer, então, sobre o caso Freud? Que, no fundo e à superfície, ele é aquilo que se nega: um artista, na melhor das hipóteses um filósofo. Cientista é que não. Orgulhoso e megalómano, pretende dinheiro e celebridade, trai por diversas vezes o segredo profissional ao longo da sua carreira, adormece durante as sessões, é um homem de má fé, ambicioso, ganancioso, supersticioso e ingénuo, ciclotímico (sic), depressivo, angustiado e fóbico, cocainómano. O seu método:

Eis assim desmascarado o método de Freud: partir de si próprio, teorizar para a totalidade dos homens mas, ao fazê-lo, voltar a si próprio de onde, ao fim de contas, nunca saiu.

A crer na versão de Onfray, e não nos restam muitas razões para descrer, temos que pelo menos dar o benefício da dúvida. Dinheiro e fama foram objectivos alcançados. Quanto ao «Freud de má-fé, oportunista, invejoso, interessado, intratável, hesitante, seguro de si, ávido de sucesso, de notoriedade e de dinheiro, correndo atrás do reconhecimento universitário, neurótico, somático, crente na numerologia e no ocultismo», não está muito distante dos traços de personalidade que reconhecemos em inúmeros exemplares do vasto universo das pessoas geniais, as quais se caracterizam, precisamente, por tamanhas e tais excentricidades. Acontece que no caso de Freud a genialidade vem associada a obsessões que o impelem a deslocar para o domínio do científico matérias que consideraríamos mitológicas, adoptando como metodologia práticas que não podem senão ser tomadas como actualizações de um xamanismo ancestral. 
As conclusões a que chegou acerca dos seus casos mais mediáticos podem ser risíveis à luz de uma mente iluminista, mas são deveras inspiradoras de um ponto de vista metafórico e alegórico, são literárias no mais nobre dos sentidos, são pura arte. Freud pode não ter curado ninguém, a psicanálise pode ser uma «disciplina inventada por um homem para poder viver com a sua parte sombria», mas reconheçamos ao artista a concretização dos dois objectivos principais: dinheiro e fama. A utilização abusiva de oximoros é típica de um poeta, poeta é o que o putativo cientista nunca deixou de ser. Freud mente, mente tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. As ficções, a irracionalidade, as efabulações, a insensibilidade para com os seus pacientes, os postulados, as contradições, são partes integrantes de uma mesma criação: o mundo mágico de Freud. Não exclui o espiritismo do seu mundo encantado, era supersticioso, para ele o fortuito não existia, «só há pura necessidade mágica»:

A psicanálise é activada dentro da caverna platónica, ela disserta sobre ideias, ela volta costas à verdade dos objectos do mundo. O seu universo é um contra-mundo, um anti-mundo, um mundo invertido, um teatro no qual os chapéus são pénis, as fechaduras vaginas, as caixas úteros, o dinheiro matérias fecais, um dente que cai é um desejo de onanismo, a queda de cabelo castração…

Em matéria de dinheiro podemos olhar para o divã de Freud como olhamos para um penico e para Freud como quem olha para um coprófilo:

Freud manifesta um cinismo sem nome ao teorizar o seu menosprezo pelo povo: primeiro, a análise é demasiado cara para os seus bolsos vazios… Nem pensar em favores pecuniários pois, como se verá, pagar quantias elevadas = pagar com a sua pessoa, e portanto assegurar a rapidez da cura! O que não poderiam assegurar os operários, os mendigos, os desempregados, os proletários, tanto mais que Freud subscreve a ideia comum de que os pobres, obrigados a ganhar a sua vida, dispõem de menos tempo para incorrer na neurose!


Assim sendo, a psicanálise de Freud, no seu elitismo declarado, recria não só a indigência enquanto terapia (daí, talvez, o fazer-se pagar tão bem), como eleva o trabalho árduo à condição de via para a saúde mental. Onde é que já ouvimos isto? Quem foi que nos disse que o trabalho salvava? Para Freud, segundo Onfray, o trabalho tinha um lado lúdico, a função de nos distrair de nós próprios e, por consequência, das maleitas que trazemos dentro. É uma perspectiva razoável do problema, conquanto a razoabilidade possa ela mesma ser já problemática. Do mesmo modo que também a cura mata, pode o trabalho acelerar o sofrimento. Quanto a isso nada a fazer, contra isso nada a declarar. Talvez a solução esteja em vestirmos camisolas amarelas e começarmos a reivindicar nas ruas o direito à psicanálise, em nome dos nossos filhos, em nome da liberdade, em nome de nós próprios, psicanálise grátis para todos, já!

terça-feira, 24 de maio de 2016

POSTAIS PORTUGUESES #1


Com a aproximação do Verão intensifica-se a propaganda turística. Há muito que venho apontando a necessidade de readequarmos o nosso discurso a quem nos pretenda visitar, um discurso que tem sido pouco motivante, nada sedutor e lacónico em termos de atractividade. Tomemos, então, a iniciativa. Estes postais portugueses têm o objectivo declarado de chamar a atenção para essas mesmas lacunas, podendo entrever-se neles alguma tentativa de humor falhado. Seria um erro, porém, julgar humorístico o discurso de quem quer ser sério, pelo que não espero dos leitores senão que aceitem a seriedade e a honestidade do meu pensamento e das minhas palavras para posteriormente, se for caso disso, poderem contraditá-las como bem entendam. 
Começo por acusar na nossa propaganda turística uma grave falha, não promovemos os nossos assassinos com a acuidade que o tema merece. Portugal tem os melhores assassinos do mundo. Toda a gente sabe que este é um postal turístico com imenso potencial. Observemos o que de melhor foi feito ao longo dos anos em torno do assassino dos assassinos. A Alemanha soube organizar-se turisticamente em torno do nazismo e da figura de Hitler, com visitas guiadas a campos de extermínio e museus devidamente apetrechados. A popularidade de Hitler está comprovada, basta termos em conta o sucesso comercial das recentes reedições de Mein Kampf. Já os ingleses, ao elevarem Jack the Ripper a figura nacional, souberam capitalizar um dos seus mais famosos assassinos. Facilmente encontramos pela cidade de Londres uma The Jack The Ripper Tour e o Jack the Ripper Museum é visita obrigatória em qualquer guia turístico. Neste domínio, ninguém bate os norte-americanos. É possível atravessar a América seguindo as pegadas dos seus serial killers mais famosos. De resto, esta é uma bandeira que nenhum americano decente enjeita. Só a dupla Bonnie & Clyde merece museus no Louisiana e em Vegas, não faltando musicais para celebrarem os feitos  deste romântico par de assassinos. Têm a sua memória assegurada entre casais com um forte sentido do romantismo. Associado ao nome de Charles Manson encontramos o Museum of Death em Hollywood e New Orleans. Sugerimos uma visita ao sítio do Crime Museum, com toda uma panóplia deveras atractiva sobre os mais variadíssimos crimes e suas vítimas, com direito a exposições, visitas guiadas, eventos, galerias. Ideal para visitar em família. Nota: o Washington, DC Crime Museum fechou as portas físicas a 30 de Setembro de 2015, mas está previsto para este ano a abertura do Alcatraz East, um novo Museu do Crime em Pigeon Forge com a possibilidade aos seus visitantes de permanecerem presos, de graça, e experimentarem simulações em vetustas cadeiras eléctricas. Quem não o desejaria?
São exemplos destes, simples mas eficazes, que revelam uma boa estrutura turística em torno do crime. Ora, tendo Portugal os melhores criminosos do mundo é incompreensível a inexistência de um turismo focado na exploração destas boas figuras. Duas características são por demais evidentes nos nossos melhores criminosos: a primeira é que vão cometer os seus crimes bem longe, nomeadamente em países estrangeiros; a segunda é o serem aplaudidos pelas populações. Tomemos de exemplo os casos de Luís Militão, que ao praticar os seus crimes em Fortaleza deixou-nos a possibilidade, inclusive, de estabelecer uma parceria com essa localidade no sentido de potenciar pontes lusófonas com direito a passeios turísticos, sempre muitos apreciados, entre Portugal e o Brasil. O caso de Manuel Palito, o mais simpático e popular dos assassinos portugueses, permitiria todo um desenvolvimento do turismo rural em torno da sua figura. Manuel Palito esteve fugido 34 dias, os mesmos 34 poderiam servir como referência para um pacote especial que incluísse acampamento selvagem, técnicas de sobrevivência, desportos radicais, um museu em Valongo dos Azeites, simulações de violência doméstica… São só ideias. Enfim, o melhor que Portugal tem. 

sábado, 21 de maio de 2016

O PÁSSARO DA HIPERLITERATURA

Portugal mudou, somos mais cosmopolitas, há mais gente com educação superior, lemos em várias línguas, somos mais igualitários. Aliás, a primeira vez que vi Rentes de Carvalho numa feira do livro em Lisboa, nem ele se lembrará já, o escritor consagrado e o professor que nos chega da universidade de Amsterdam estava a fazer algo de muito invulgar em Portugal: estava a deixar que uma funcionária da editora, cinquenta ou sessenta anos mais nova que ele, o tratasse por «tu».

Penso que é por causa disso, não por causa da hiperliteratura, pássaro, aliás, que poucos avistam e menos acham no fricassé.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A VIDA NO CAMPUS

O pasquim da nação teve acesso a umas imagens onde podemos apreciar os dotes improváveis de algumas funcionárias do Campus da Justiça a ensaiar uma dança do varão. O pasquim publica as imagens com a intenção óbvia de meter meio mundo a comentar o sucedido, esperando da população em geral mais uma série de ejaculações precoce de indignação inconsequente. É assim que se vendem jornais, tal como se podia vender pornografia ou outra coisa qualquer: vai-se ao encontro das ambições mais básicas do público-alvo. 
Não censuro o pasquim, faz com inquestionável mérito o seu trabalho de escaravelho. Muito menos censuro as funcionárias do Campus. Quanto a estas, só tenho elogios para expressar e muito me agradaria poder apreciar in loco tais dotes (com toga e martelo na mão). Sim, reconheço ter fantasias eróticas algo estranhas. É a vida. Também não censuro o cidadão indignado, pois dele não há que esperar outra coisa senão que se indigne, que aproveite a sua vida a indignar-se, que se revolte contra este e contra todos os momentos de descontracção no trabalho, que reivindique o mundo sisudo, cinzento, orwelliano que por certo repousa recalcado no seu íntimo. O cidadão indignado é boa pessoa, merece-me respeito. 
Devo, no entanto, expressar a minha tristeza por não estar ao alcance do pasquim mostrar-nos a vida do tipo ou da tipa que lhe fez chegar tais imagens. A minha curiosidade mórbida recai sempre sobre os bufos. Tenho para mim que a vida dos bufos é exemplar, seria óptima de se ver e de se partilhar, de se comentar, tenho para mim que a vida da pessoa que filmou aquele momento de descontracção laboral e a fez chegar ao pasquim tem no seu íntimo um superego deveras eficiente, não se mete nestas poucas vergonhas, é funcionário exemplar e aplicado, vive a sua existência entre a casa e o trabalho carregando para casa trabalhos que não foi capaz de concretizar durante o dia tal a balbúrdia no Campus. Ou então é um voyeur encapotado, tipo os mirones que vão espreitar praias de naturistas e praticam a bela arte do onanismo com vergonha de si próprios. 
Não quero fazer psicologia, não está ao meu alcance compreender tais mentes. Mas gostaria de ter oportunidade de assistir à vida de um cabotino do género como posso hoje deliciar-me com as funcionárias do Campus. Seria de elementar justiça. Daqui, pois, o meu sincero, honesto e cúmplice agradecimento às bailarinas. Que não se envergonhem de ser humanas e dancem e bebam e sejam felizes. Já aos bufos, desejo apenas que continuem a ter vergonha de si próprios. Terão, por certo, lugar reservado nos céus.

CÉU NUBLADO COM BOAS ABERTAS

Apesar de se tratar de um primeiro romance, Céu Nublado com Boas Abertas (Quetzal, Fevereiro de 2016) não é o romance de um estreante. Nuno Costa Santos (n. 1974) tem uma vasta prática literária enquanto cronista, dramaturgo, guionista, poeta, aforista. De entre os livros que publicou anteriormente, destacaria precisamente um nesse domínio da frase curta: Melancómico – aforismos de pastelaria (Produções Fictícias/Guerra & Paz, 2007). O destaque justifica-se por duas razões. Primeiro, por de algum modo esse livro sintetizar uma perspectiva ética e estética acerca do mundo, eivada pela conjugação de dois estados de alma num só conceito: melancómico. É nesta conjugação entre a melancolia e o cómico que podemos observar uma espécie de suporte para os ambientes explorados por Nuno Costa Santos, os quais são preenchidos por personagens que nunca chegam a ser trágicas nem se esvaziam por completo num humorismo absurdizante. O que têm de cómico revela-se nas preocupações com que se martirizam em insones monólogos interiores, apesar da consciência que manifestam da inutilidade última de toda e qualquer preocupação. O que têm de melancólico relaciona-se com esta consciência, acabando ela por ter o poder de transformar o quotidiano num palco de pequenos e sucessivos episódios onde o drama, a perda e a derrota são superados por um paradoxal gosto de ir cumprindo a existência. Em certo sentido, o título Céu Nublado com Boas Abertas, no que tem de usual e de banal, capta e sintetiza na perfeição essa mesma postura perante a vida que as personagens principais do livro exteriorizam ao longo de 250 páginas. Mas há um segundo motivo pelo qual se justifica aqui falar de um livro de aforismos. Está ele relacionado com a prática de uma escrita onde a frase curta e objectiva pode ser já considerada imagem de marca. Não obstante tal evidência, importa referir que, com esforço ou sem ele, Nuno Costa Santos procurou resistir ao efeito aforístico nas páginas do seu primeiro romance, sendo raríssimas as vezes em que lhe vislumbramos um paradoxo, uma frase esforçada de belo efeito, um trocadilho. Parece haver neste caso um trabalho de linguagem inverso, ou seja, aquilo que tenderíamos a considerar pobre em termos de labor alegórico e metafórico é ultrapassado por um controle dos recursos que tem o claro propósito de fazer as situações valerem pelo que possam ter de explicitamente instigador do pensamento e da reflexão. As duas histórias que se cruzam ao longo do romance, tanto a do avô materno a braços com uma grave doença pulmonar, como a do neto que regressa às origens açorianas para aí cumprir um último desejo do seu avô, valem por si mesmas enquanto testemunhos existenciais. Há nisto tudo uma grande ilusão que não pode ser negligenciada, e essa grande ilusão é a da possibilidade de um regresso ao passado. Essa possibilidade revela-se ineficaz tanto na viagem física aos Açores, com a sua paisagem humana radicalmente transformada, como na viagem intelectual através dos diários deixados pelo avô. Se podemos falar de herança neste contexto específico, essa herança é a da tal consciência de que, apesar das pequenas conquistas, no final sobra-nos o fracasso, apesar das boas abertas, o céu mantém-se nublado. Que não se enfatize nem um nem o outro dos estados é revelador de uma busca de equilíbrio que marca o sentido da existência do narrador. Este não é um romance perfeito. Há referências escusadas que nada acrescentam à narrativa, por vezes tendemos a julgar excessivas as citações do diário do avô, a história quase policial que se intromete no decorrer da viagem aos Açores talvez pudesse ter sido trabalhada de outro modo, aprofundando o potencial dramático de algumas daquelas personagens insulares. Apesar disto, há algo de bastante sedutor na articulação exercida entre o passado e o presente, na caracterização social e cultural da vida açoriana, na forma como se explora a relação espiritual entre avô e neto, no modo depurado e sintético com que se enunciam reflexões que são, no final de contas, o magma da vida: «Não penso o que é que vai ser o pós-morte. Em vez disso, quero ficar. Quero saber o que é que ainda pode ser a vida, uma existência com engulhos mas ainda assim habitável e — por mais que a literatura a pinte com justiça num negro monocromático — é atravessada aqui e ali por pequenos milagres, alentos solares» (p. 177). 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

UMA ORAÇÃO DE RAINER MARIA RILKE

O LIVRO DA POBREZA E DA MORTE
(1903)

8.

Senhor: mais pobres do que os pobres animais somos,
que com sua morte acabam, mesmo com cegueira,
porque todos nós ainda não morremos.
Dá-nos aquela que a ciência conhece
de atar a vida a uma latada inteira
à volta da qual Maio mais cedo comece.

Pois o que a morte estranha e difícil faz,
é ela não ser a nossa morte; uma qualquer, escura,
que finalmente nos toma por nenhuma estar em nós madura.
Por isso passa uma tempestade que nos desfaz.

Ano após ano no teu jardim estamos
e somos as árvores que suave morte deviam dar;
mas nos dias da colheita envelhecemos,
e como mulheres que acabaste por castigar,
inúteis e estéreis nos fechamos.

Ou o meu orgulho de ser não tem razão:
serão as árvores melhores? Somos nós só reprodução
e colo de mulheres que muito dão?
Com a eternidade tivemos relação
e quando chega a hora do parto, nasce sem sorte
o aborto da nossa morte;
curvo e aflito embrião
cobriu as ínfimas pupilas com a mão
(como se algo horrível o horrorizasse)
e na fronte já formada apareceu
sobretudo o medo do que não sofreu,
e como jovem mulher que passou sem danos
por dores de parto e cesariana, nos fechamos.


Rainer Maria Rilke (n. Praga, 4 de Dezembro de 1875 - m. Montreux, Suíça, 29 de Dezembro de 1926), in O Livro de Horas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Assírio & Alvim, Maio de 2009, pp. 301-303.

terça-feira, 17 de maio de 2016

NOTA

Por motivos técnicos — o velho Pentium foi à vida e não me apetece reanimá-lo —, as actualizações da Antologia têm andado aos solavancos, nomeadamente as que implicavam “scanear” imagens para dar continuidade a algumas séries. Tentarei encontrar uma solução prática para em breve retomar as actividades ordinárias. Até lá, tudo como dantes no quartel de Abrantes.

VIVER

No romance Céu Nublado com Boas Abertas (Quetzal, Fevereiro de 2016), Nuno Costa Santos (n. 1974) evoca a páginas 101 um episódio caricato que ter-se-á passado com Samuel Beckett:

Um dia um homem encontrou Beckett na rua e bateu-lhe com violência. O escritor foi à prisão perguntar-lhe porque é que havia tido essa atitude. O homem deu a mais esclarecedora das respostas: «Não sei.»

35 páginas depois, o mesmo episódio volta a ser convocado:

Viver é isso: não encontrar um motivo concreto. Ou encontrá-lo por um instante nalguma tradição, que se esfuma depressa, arrasada ao primeiro dichote. Cristianismo, budismo, estoicismo, solidariedade, bondade. Pergunto se o motivo estará algures no interior desta poeira espiritual. Não sei, como o homem que bateu em Beckett.

Se alguém quiser acrescentar alguma coisa, faça favor.

sábado, 14 de maio de 2016

JOE KIDD (1972)



Não é por acaso que John Sturges (1910-1992) aparece tão representado nesta lista de westerns que deve ver antes de morrer. Dos 83 filmes até agora evocados, 6 são da sua autoria: Escape from Fort Bravo (1953), Backlash (1956), Gunfight at the O.K. Corral (1957), The Law and Jake Wade (1958), Last Train from Gun Hill (1959) e The Magnificent Seven (1960). Antes de lhes juntarmos Joe Kidd/A Crista do Diabo (1972), justifiquemo-nos com a mestria de Sturges na gestão das tensões, na capacidade para abordar temas clássicos sem resvalar para a banalidade, na ousadia que sempre manifestou quer na escolha de actores, quer na aposta em elementos técnicos fundamentais como sejam a fotografia e a banda sonora. 
John Eliot Sturges tinha a escola dos denominados filmes de série B, sabia fazer render os recursos. Não lhe deram nenhum Oscar, mas bem o merecia. Mais que não fosse por Bad Day at Black Rock (1955), extraordinária aproximação do western ao film noir. Em suma um thriller original e fundador. No que respeita a westerns, fez incursões pela Guerra Civil e pelas Indian Wars, abordou episódios míticos como o do tiroteio em Ok Corral que tornou famosos Wyatt Earp e o seu extravagante amigo Doc Holliday, explorou conflitos morais e sociais. A perspectiva do mundo que nos oferece não está isenta de paradoxos, não é linear, mas rejeita igualmente qualquer tipo de niilismo castrador da liberdade humana e da capacidade que os homens têm de transformar o mundo à sua volta. 
Joe Kidd foi um dos últimos filmes que assinou, porventura o derradeiro dos seus westerns propriamente ditos. Longe de ser excepcional, tem desde logo o interesse de colocar em contracena dois míticos actores como o são/foram Clint Eastwood e Robert Duvall. Além disso, refira-se a bela banda sonora de Lalo Schifrin ao melhor estilo Morricone. E há ainda o argumento de Elmore Leonard, autor de, entre outros, O Comboio das 3 e 10 ou o romance que deu origem a Jackie Brown, de Quentin Tarantino (a Teodolito publicou há não muito, entre nós, o romance Djibouti). Colhemos da conjugação de todos estes elementos motivos justificadores de uma revisita. 
A cidade de Sinola, no Novo México, é o palco de um conflito entre os interesses do grande capital e das populações locais oprimidas. Não é de espantar o assalto às questões sociais e políticas nesta filmografia, conquanto saibamos perspectivar o tema da justiça enquanto horizonte final de uma obra onde a temática ideológica nunca se sobrepôs à vertente filosófica. Entre a figura do latifundiário representado por Robert Duvall, acompanhado por um exército de capangas, e o revolucionário Luis Chama (John Saxon) não há nenhuma configuração do bem e do mal. No fundo, querem ambos sobrepor-se à justiça por nenhum deles acreditar que seja essa a via pela qual poderão alcançar os seus objectivos. Os revolucionários mexicanos reivindicam o direito à propriedade que lhes foi usurpada, o empresário americano defende o seu negócio sem olhar a meios. 
Entre os dois opositores algo ambivalentes emerge a figura de Joe Kidd, papel à medida do Eastwood justiceiro, mas não justicialista, que conhecemos de inúmeros outros filmes. Começa por ser contratado por um dos lados como pisteiro, mas acaba no outro lado quase como guarda-costas. Não há oscilações de carácter na sua figura, não se vislumbram laivos de oportunismo. São-nos oferecidas pistas que permitem construir a índole do personagem sem lhe determinarmos o fio condutor, tornando-se claro o carácter pragmático com sentido de justiça. Neste sentido, Joe Kidd talvez resulte como uma espécie de elogio ao pragmatismo norte-americano, a uma espécie de fé no bom senso e na moral natural que não encontra eco nas instituições e nas convenções humanas. 
Com este filme exalta-se a capacidade do indivíduo não em fazer justiça pelas próprias mãos, mas em apelar a uma consciência moral anterior a qualquer tribunal de quatro paredes - sendo certo que no termo da acção é precisamente para essas quatro paredes que todos tendem. Aspecto irónico da narrativa, ser o mais desregrado e até impetuoso dos intervenientes a refrear os ânimos e a impor as regras. Eis mais uma das belas contradições humanas que dão forma ao cinema de Sturges,

sexta-feira, 13 de maio de 2016

APARIÇÕES


Desde criança que falo com os mortos. A minha mãe chegou a pensar que eu tinha poderes mediúnicos, levou-me à bruxa, benzeu-me já depois de me ter baptizado e de eu ter feito a primeira comunhão a contragosto. Tenho aparições frequentes, nunca me foi detectado nenhum problema de saúde mental. É uma questão de feitio. Ou de educação.



Comecei a ouvir falar em aparições desde que sei pronunciar as primeiras palavras, devo ter dito luz antes de aprender a dizer papá e mamã, sou filho de Deus, filho abençoado, porque me deram como morto à nascença antes de me ouvirem a primeira lamentação. Chorei, recordo-o hoje após anos de terapias regressivas, porque me estavam a dar como morto.



Era um recém-nascido e não percebia porque tinha de chorar assim que cheguei a este belo mundo, apesar da cara feia da parteira e das dores horrorosas que fiz minha mãe passar. Só quando me apercebi que estavam a dar-me como nado morto é que desatei a chorar. E de morto passei a vivo. Foi o primeiro milagre da minha vida, uma vida rica em milagres, diga-se de passagem.



Sou de uma terra onde é frequente Jesus e Nossa Senhora aparecem aos fiéis. E aos infiéis também. Só nunca aparecem aos ricos, pois os ricos não precisam de sentir a presença de Deus. Têm contas recheadas, podem meter os filhos em colégios e pagar clínicas privadas.


Deus aparece aos pobres, aos pastorinhos, aos cegos, aos mendigos, aparece às pessoas doentes e desviadas, Deus aparece a quem precisa dele, das suas aparições. Falo com Deus como falo com os mortos, aos cochichos. 



Perto da aldeia dos meus pais houve um dia uma aparição famosa. Felizmente a Nossa Senhora da Asseiceira não causou tanto furor como a de Fátima, seria arrepiante imaginar naquela bela terra um santuário tão de mau gosto como aquele que foi erigido em Fátima.



Não compreendo, nunca compreendi, as peregrinações a Fátima. O caminho é feio, a localidade é medonha, o negócio em torno dos pastorinhos é a prova de que Deus não aparece aos ricos, tudo ali é um embuste, Fátima é o local sagrado dos vendilhões do templo, não gosto de nada do que se passa em Fátima e sempre que vejo peregrinos a caminho daquele Inferno peço a Deus que os reencaminhe na direcção da Nazaré.


Para mim, o único e verdadeiro lugar sagrado fica na Nazaré.


Não me admira que D. Fuas Roupinho ali tenha sido surpreendido por uma aparição do Sagrado. Nossa Senhora da Nazaré merece todos os cultos que as virgens merecem. Não há nada de lendário naquela terra, basta lá ir para o verificar.


Sempre que vou à Nazaré olho para o céu e vejo Deus, baixo os olhos na direcção do mar e a imagem de Deus acompanha-me, perco-me no horizonte e é Deus que lá está, Deus num barco a lançar redes ao mar. 


Deus não era pastor de rebanhos, era pescador. Muitos dos fiéis que hoje em dia se curvam aos pastorinhos são incapazes de perceber a diferença. Andar no mar a lançar redes é completamente diferente de guardar rebanhos. No primeiro caso, pesca-se. No segundo, guarda-se. É a diferença entre atrair, seduzir, conquistar e impor a ordem pela força de um cajado.



Eu só gosto dos pescadores, não gosto dos pastores. E gosto de ver as mulheres dos pescadores a orarem por eles em terra.



Deus é todo aquele peixe seco espalhado pela praia, é o lamento das carpideiras aquando do naufrágio, é cada um dos edifícios construídos ao longo da marginal, as instalações eléctricas num emaranhado de fios desconexos com a sua organização muito própria e funcional.



Deus é cada uma das montras onde se anunciam bonecas e barquinhos. Nada de velas. Odeio velas. Aquelas velas de cera mal cheirosa que toda a gente ateia lá para os lados de Fátima poluindo o ar. Ainda se ateassem incenso.


Nenhuma vela de cera pode chegar a Deus como chegam as velas dos barcos na Nazaré e como chegam os remos e as saias das nazarenas e os pregões. Cada pregão é uma oração, os pregões da Nazaré são divinais, são eles próprios manifestações do sagrado, são hierofanias.



Compreendo peregrinações à Nazaré, lamento profundamente os falsos cultos que atraem peregrinos para Fátima.



Bem sei que a descentralização também é importante nos negócios de Deus, embora neste caso estejamos mais perante um negócio da Igreja.


Compreendo as necessidades do interior face à abastança do litoral, mas a mim não me distraem do que é verdadeiramente relevante.


Deus aparece-me onde me sinto bem. Para procurá-lo no interior, prefiro as Grutas de Mira de Aire. Infelizmente, não se chega lá por mar.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

CORPO DO(C)ENTE

Recordo este postal de 10 de Dezembro de 2012. A TVI exibia uma reportagem onde ficava claro a quem servia o financiamento de inúmeros colégios privados espalhados pelo país. Em causa estava um grupo em concreto, mas uma investigação mais profunda poderá levar-nos a concluir que a prática de financiar o negócio privado da educação com dinheiros públicos é um cancro há muito instalado no corpo do(c)ente deste país. Bastaria pensar na promiscuidade raramente posta em causa entre Igreja Católica Apostólica Romana e Estado português. Adiante. 
Quando a reportagem da TVI foi exibida, foram inúmeras as vozes indignadas que se levantaram do silêncio. Algumas delas surpreendentemente. Era preciso acabar com aquela pouca vergonha. Ficou tudo como quase sempre fica neste país, ou seja, em águas de bacalhau. Entretanto, há um ministro da educação de um governo que parece apostado em fazer o óbvio. Estranhamente, as vozes silenciosas voltam a fazer-se ouvir. Estão contra o ministro. Os ministros da educação são como os árbitros de futebol, colocam-se sempre a jeito dos mais variados impropérios. 
Quando meio país se queixa da fraqueza dos sucessivos governos da nação face aos lobbies instalados, estranha-se no mínimo que quem afronte esses lobbies receba tão pouca solidariedade e comece logo a comer porrada vinda de todos os lados. É a imagem que fica porque é a imagem que passa, nomeadamente através de quem, lá está, sobrevive de mãos dadas com os lobistas. Afinal, são estes quem mexe os cordelinhos do poder com a sua, como se diz, capacidade de investimento. Acrescente-se que nem sequer está em causa medir forças entre público e privado. Está em causa meter as coisas no seu devido lugar, o privado ao que é privado, o público ao que é público. 
É claro como a mais pura das águas que o ministro da Educação do actual governo está cheio de razão nesta contenda. Se é privado, privado seja. O que é isso de negócio privado financiado por dinheiros públicos? Ora, bardamerda mais o oportunismo. Se é para fazer cortes, pois que se comece precisamente pelas partes cancerígenas. Esta é uma delas. 

TITÂNICO

— Um talento desperdiçado.
— Sem dúvida, passou ao lado de uma grande carreira.
— Diria antes enorme.
— Colossal, meu caro amigo, colossal.
— Excelente.
— Galáctico.
— Não há palavras que o descrevam.
— Talvez gigantesco.
— Ah, sim, grande. Com muitos coraçõezinhos do Facebook.
— Grandiosos coraçõezinhos.
— Óptimo
— Titânico…

terça-feira, 10 de maio de 2016

UM POEMA DE W. B. YEATS

TUDO PODE TENTAR-ME

Tudo pode tentar-me a que me afaste deste ofício do verso:
Outrora foi o rosto de uma mulher, ou pior —
As aparentes exigências do meu país regido por tolos;
Agora nada melhor vem à minha mão
Do que este trabalho habitual. Quando jovem,
Não daria um centavo por uma canção
Que o poeta não cantasse de tal maneira
Que parecesse ter uma espada nos seus aposentos;
Mas hoje seria, cumprido fosse o meu desejo,
Mais frio e mudo e surdo que um peixe.


William Butler Yeats (n. 13 de Junho de 1865, Dublin, Irlanda - m. Menton, França, 28 de Janeiro de 1939), in Uma Antologia, trad. José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, Setembro de 1996, p. 57.