terça-feira, 13 de setembro de 2016

KURTZ

Há muito que andava para rever Apocalypse Now depois de uma leitura de O Coração das Trevas. Aconteceu ontem. Não posso afirmar que tenha sido uma experiência deveras enriquecedora. A opinião que tinha sobre o filme mantém-se, não havendo muito a acrescentar ao que foi escrito. Mas a leitura do livro sai reforçada pelo diálogo com o filme. É daqueles casos em que ambas as obras podem coexistir sem se negarem uma à outra. Joseph Conrad, ucraniano de nascença, ensaiou a sua poética do horror no início do século XX. Francis Ford Coppola recuperou-a passadas mais de sete décadas, deslocando a viagem narrada por Conrad do Congo colonizado para o Vietname em guerra. As circunstâncias, neste caso, não são determinantes para a força dos argumentos. Quem leia o filme ou veja o livro pode abstrair-se da paisagem, transcender o envolvimento material das personagens, optando por uma descida aos infernos da mente humana. Cosa mentale? Não diria. Independentemente das perspectivas que alicercem as nossas convicções acerca do humano, e até da noção histórica que tenhamos da barbárie, é reconhecível em ambos os casos uma inquietação acerca da tal barreira ténue que separa a loucura da normalidade e, por consequência, coloca em campos opostos, mas com medidas bem distribuídas no espaço da consciência moral, isso a que damos o nome de bem e de mal, os pólos que Empédocles dizia serem fundadores do mundo, o amor e a discórdia (podemos chamar-lhe ódio que não vem mal ao mundo por isso). Que rio é, porém, aquele que atravessa tanto o livro como o filme? Sinto-me tentado a decalcar o poeta, trazendo à liça aquele grande rio Eufrates. Nas águas correntes é precisamente aí que vislumbramos o coração das trevas, o horror encenado no apocalipse lento de uma humanidade à beira do abismo. Não dêmos, porém, razão às teses apocalípticas propagandeadas e alimentadas pelos discípulos do terror. Há pelo menos uma falha nos seus raciocínios, o apocalipse da humanidade não é de agora, é de sempre. Bem vistas as coisas, o horror acompanha-nos como a sombra acompanha o corpo e, fôssemos nós pessimistas, seria porventura conveniente aceitar a axiomática do desastre. Sucede que sobre o Kurtz a resgatar para a civilização d’O Coração das Trevas não pesa o mesmo fado do Kurtz a abater em Apocalypse Now. Talvez não seja por acaso este nome de Kurtz. Em nota de rodapé, somos informados de que Kurtz significa efémero em alemão (a palavra alemã é Kutz, mas pronuncia-se kurtz). Neste sentido, entre ambas as obras há uma espécie de bifurcação que acabará por desembocar num mesmo efeito: o ódio à mentira. Qual? A de uma vida eterna. Tudo quanto é humano é efémero, por isso mesmo estão obrigados os homens a respeitarem a sua efemeridade. Já não está em causa uma tese sobre a origem boa ou má do ser humano. Somos feitos de carne e de osso (cada qual que descubra o que nisso há de bom e de mau). Estão antes em causa duas soluções diferentes para a barbárie: num caso desce-se à treva (que é o mesmo que subir aos primórdios do mundo) para dela submergir com a experiência do horror, o qual só poderá ser superado através de uma consciência da lógica que o sustenta; no outro caso, arrasta-se para o interior do horror a tal loucura da normalidade que sustém a razão, procurando-se aniquilá-lo com os seus próprios métodos. A páginas 70: «A mente do homem é capaz de tudo: porque ela contém tudo, todo o passado, assim como todo o futuro. O que havia ali? Alegria, medo, mágoa, afecto, valentia, raiva — quem poderia sabê-lo? —, mas havia certamente verdade, sim, havia verdade  despida do seu manto de tempo» (Joseph Conrad, in O Coração das Trevas, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Dom Quixote, 2009). Feitas as contas, pouco mais nos resta do que esta busca incessante da verdade. Não se faz sem dor porque, em suma, será invariavelmente um confronto com o horror da efemeridade, em situação limite o próprio horror da inutilidade. A verdade é horrível, monstruosa, tem feições de morte e de tortura, revista-se de barbárie ou de civilidade, assuma as configurações morais que assumir, é sempre, sempre e invariavelmente um pesadelo, uma insónia, a verdade é, por isso mesmo, aquilo de que a maioria foge, o cancro varrido para debaixo do tapete, a imagem desagradável e desconfortável que impele o comum dos mortais a desviar o olhar na direcção da luz, do artifício, do disfarce. A verdade fere, magoa. Ninguém quer saber da verdade até se encontrar no lugar da vítima, até ser golpeado por ela. Até sentir de facto que na vastidão do universo não vale mais do que uma formiga.

domingo, 11 de setembro de 2016

PARDAL




Ao lado da casa onde estou, temos um descampado outrora apinhado de árvores. No meio do descampado restam as paredes e o telhado de uma construção embargada. Fico horas a ver os pardais em voo agitado à volta das paredes. Entram pelo buraco onde existiriam janelas se a construção tivesse sido terminada, saem com impressionante agilidade pelo lado da porta. Depois pousam nos cabos de electricidade que ladeiam a estrada e ficam em lugar distinto a observar o mundo. Invejo o pequeno pardal-dos-telhados, tem privilégios que eu não tenho. Talvez eu viva mais tempo. Mas quem quer viver mais tempo sem os privilégios do pequeno pardal-dos-telhados? É muito provável que, fosse-nos dada a hipótese de escolha, escolheríamos nascer pardais. Jamais humanos.

Há dias, um casal de austríacos com uma criança instalou-se por ali. Têm a aparência de vagabundos, apesar de circularem numa carrinha Mercedes com atrelado. A criança chora muito. Observei o cuidado com que varreram, cortaram ervas, colocaram vasos. Quando vou vazar o lixo consigo ver dentro da casa uma estante com ripas que tiraram do atrelado, pelas quais se distribuem alguidares e utensílios domésticos. A criança tem muitos brinquedos e continua a chorar. A rapariga pinta telhas com figuras que parecem copiadas da simbologia rastafári. Ele caminha lentamente, desloca coisas de um lado para o outro, anda de bicicleta. Também têm um cão. O cão é feio. Apesar de se terem instalado ali, os pardais continuam a exercer os seus direitos à ocupação do espaço aéreo. Continuam em voo agitado à volta dos muros.

A rapariga dá de mamar à criança, o rapaz afaga o cão, um pardal pousa numa das telhas pintadas pela rapariga. O meu lugar é o de observador, a minha vida é observar. Infelizmente, não posso sentar-me num cabo de alta tensão. Posso subir ao telhado, isso posso.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O JUIZ

Vi com atenção mas sem interesse a entrevista ao juiz, homem de trabalho e com espírito de missão. Esta última parte, face ao catolicismo patenteado, preocupou-me, mas não menos do que sabê-lo amigo de um estroina que afirma coisas como esta e esta (sigam os links para avivar a memória). Enfim, também eu tenho relações menos recomendáveis. Ninguém está livre disso, sobretudo quem trabalha mais do que investe na vida social. Ainda assim, jamais perdoarei ao juiz ter respondido à mais estúpida das perguntas que lhe podiam ser feitas: «o sô tôr come?». Fosse ele de facto super, tinha mandado logo a jornalista para os calabouços. 

Grande Muralha de Calais


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

3:10 TO YUMA (2007)

Há tempos, referi-me a Elmore Leonard (1925-2013) a propósito de Joe Kidd (1972). Muito antes de ter escrito esse western para John Sturges, Leonard publicou um dos seus mais famosos contos: Three-Ten to Yuma (1953). O mesmo conheceria uma adaptação cinematográfica 4 anos depois, assinada por Delmer Daves e com os actores Glenn Ford e Van Heflin a protagonizarem os papéis centrais. 3:10 to Yuma/O Comboio das 3 e 10 (2007) é um remake do clássico da década de 1950. James Mangold (1963), realizador responsável pela recuperação desta história extraordinária, estreou-se no western depois de obter considerável sucesso com Walk the Line (2005), uma biografia do escritor de canções Johnny Cash a merecer várias nomeações para os Oscars e uma estatueta dourada pelo desempenho de Reese Witherspoon como melhor actriz do ano. 3:10 to Yuma não teve a mesma sorte, ficando-se por duas nomeações em matéria de som. Isto apesar das excelentes performances de Russell Crowe e de Christian Bale, assim como dos desempenhos secundários mas igualmente marcantes dos jovens actores Logan Lerman e Ben Foster. 
Devemos sublinhar, antes de mais, a capacidade mostrada por Mangold para recuperar um clássico sem o destruir. As linhas fundamentais mantêm-se inalteradas, adquirindo um novo potencial reforçado por inovações técnicas que não se sobrepõem à narrativa nem nos distraem das diversas nuances exploradas no argumento. Podemos olhar para 3:10 to Yuma como para uma clássica exploração do confronto entre opostos, o bem encarnado num humilde agricultor a tentar singrar contra ventos e marés (no caso, tempos de seca e de progresso industrial) e o mal no corpo de um assaltante de comboios e de diligências que servem a prepotente indústria dos caminhos-de-ferro. Não obstante ser essa uma das faces do filme, há uma outra que se desenvolve mais em torno do que aproxima os opostos do que à volta da caracterização maniqueísta do bem e do mal, da justiça e da injustiça. Essa face é a mais humana das duas, no sentido em que nos desloca para o imo das personagens. Já não estão em causa desencontros sociais nem problemas da consciência, pelo menos não tanto quanto emergem das diversas cenas até à "anti-épica" sequência final traços de personalidade profundos e até psicanalíticos. 
Nesse fundo das personagens encontraremos um veterano a quem a guerra levou uma perna e parte do orgulho, pai de dois filhos que o impelem a provar ser homem de coragem e de palavra, capaz de ultrapassar os obstáculos da vida como de sobreviver às mentiras da guerra que o trazem ferido por dentro. E do lado oposto vislumbraremos um fora da lei, lobo alfa de uma matilha sanguinária, a descobrir dentro de si um apelo que recusa e ao qual faz questão de impor uma insensibilidade moral que os gestos não denunciam: cita a Bíblia de cor, é cavalheiro para com as senhoras, passa o tempo a desenhar. Seria precipitado partir do princípio que entre ambos, afinal, nada se opõe. Mas não é precipitado chegar à conclusão que entre ambos há algo que os aproxima, sendo que esse algo é uma forte razão para descrerem de si próprios e, por isso, se superarem. Um julga-se cobarde, incapaz de viver com a mentira que o persegue. O outro julga-se podre, incapaz de praticar o bem e a justiça. Ora, toda a história do filme conflui, precisamente, para esse ponto em que ao se negarem as personagens se afirmam. 
Eis um paradoxo substancial do humano, particularmente trágico nesse sentido em que entendemos toda a vivência da religiosidade. O que aqui está em causa é a capacidade do homem se transcender, de não se reduzir ao que sempre foi, de ir além da sua natureza assumindo sobre ela um forte autodomínio. Muitas vezes, ao rever este filme, interroguei-me acerca do remate algo superficial. Podia o filme ter terminado em vários momentos da sequência derradeira. Porquê terminar com aquela cena aparentemente patética depois do clímax a que assistimos? Refiro-me à cena em que o terrível Ben Wade, já entregue às autoridades e sentado no interior da cela, assobia para o cavalo que desata a correr ao lado da carruagem em andamento. Apontamento tão irónico quão metafórico, o do homem exercendo seu domínio sobre o animal. 3:10 to Yuma podia ser resumido a isso mesmo, à fórmula socrática para o bem supremo: autoconhecimento e, por consequência, autodomínio, ou seja, o instinto a ser superado pela determinação do saber:


SINTAXE

Todos têm o céu, o amor e a cova,
nada temos com isso
que está discutido e tratado para o círculo da cultura.
Mas o que é novo é a questão da sintaxe
e essa é urgente:
porque é que exprimimos qualquer coisa?

Porque é que rimamos ou desenhamos uma rapariga
do vivo ou como reflexo,
ou riscamos num palmo de papel granitado
inúmeras plantas, copas de árvores, muralhas,
estas últimas como gordas lagartas de cabeça de tartaruga
estendendo-se lúgubres e baixas
por uma certa ordem?

Momentosamente irrespondível!
Não se trata da questão de honorários,
muitos aí morrem à fome. Não,
é um impulso da mão,
guiada de longe, uma atitude cerebral,
talvez um salvador atrasado, um animal totémico,
um priapismo formal à custa do conteúdo,
que passará,
mas hoje a sintaxe
é o mais importante.

«Os poucos que souberam alguma coisa disso» — (Goethe) —
Mas afinal de quê?
Suponho que da sintaxe.


Gottfried Benn (n. 2 de Maio de 1886, Mansfeld, Brandenburgo - m. 7 de Julho de 1956, Berlim), in 50 Poemas, versão de Vasco Graça Moura, Relógio d'Água, p. 63. Outro poema do mesmo autor aqui.

APASCENTAR




Que assim passemos a maior fatia do nosso tempo, apascentando em manada frustrações e desenganos, não me inquieta. Há muito perdi as ilusões que podia ter acerca da singularidade humana. No essencial, somos bestas. Alinhamos em tendências e aceitamos mitos, não questionamos, sobretudo não nos questionamos, integramo-nos no caudal corrente das ideias feitas e sublinhamos com o tom de voz que nos coube os lugares comuns que fazem história. O destino é igual para todos, é certo, e ainda que da vida cada qual saiba retirar seus proveitos, no essencial andamos por aqui apenas a pastar para sermos comidos. Há sempre alguém que trata do gado, entre o gado há animais que se distinguem, mas no essencial, no essencial é tudo o mesmo. Desviamo-nos da evidência com um discurso pífio sobre as novas gerações. Mais ou menos carnes à mostra, mais tatuagem, menos tatuagem, a mesma bimbalhice. Foram-se os góticos, os punks, os metálicos, foram-se até os tradicionais betos, agora é tudo top, burgessos e grunhos da bola, miúdas ideais para reality shows e capa de tablóide. Mais do mesmo, portanto. Mais do mesmo.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

DESTINO

Agradeço ao Destino ter-me feito nascer num país pobretanas onde não há dinheiro para dobrar filmes.

Alexandre Andrade, aqui.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

DESESTIMA


Entretanto sentas-te numa pedra a olhar quem passa, está um calor difícil de suportar, a alegria dos transeuntes não te entusiasma, antes te interpela, porque não consegues participar de tamanhas vontades, não danças, não ris, não consegues sequer perceber a música que dentro de ti pede apenas que pares e que te sentes numa pedra a observar quem passa, miúdas com unhas de gele, tatuadas, rapazes em tronco nu exibindo horas de ginásio enquanto bebem pelo gargalo um vinho medíocre, um entroncamento de cores e de cheiros e de sons onde são perfeitamente audíveis os jogos forçados da mente: há muito desisti de ser feliz, bastam-me agora silêncio e paz. Entretanto uma nuvem surge para te fazer companhia, olhas para ela isolada no vasto céu azul e logo te identificas, também tu isolado no meio da multidão és a sombra que resiste envolta em luz, também tu tens olhos de cansaço e de saturação com que questionas mundo e vida e morte, também tu olhas com desconfiança para quem passa e duvidas de tanto júbilo sem resquícios de paixão, também tu assim sentado numa pedra te censuras enquanto aos outros ofereces apenas a iníqua desestima dos teus olhos: há muito desisti de ser feliz, bastam-me agora silêncio e paz. 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

UMA RAPARIGA É UMA COISA INACABADA

Por onde quer que se vá, todas as referências biográficas à britânica Eimear McBride (n. 1976) apontam para um facto: o romance de estreia, intitulado Uma Rapariga é Uma Coisa Inacabada (Elsinore. Março de 2016), levou nove anos a ser publicado, perdido por dezenas de editores que ou o ignoraram ou simplesmente deixaram passar os anos até que o facto pudesse ter interesse editorial. É um sinal dos tempos, a recusa repetida funciona como uma espécie de credencial. Isto sucede porque tem-se a ideia de que a boa literatura é mau comércio, pelo que quanto mais difícil for a publicação maiores serão as probabilidades de estarmos face a boa literatura. Quando a créditos tais se juntam comparações com Beckett e Joyce, ora exageradas, ora algo forçadas, o caso torna-se intrincado. Evitarei precipitações similares, até porque o que de beckettiano e de joyciano possa haver em McBride é o que de menos interessante há em Beckett e em Joyce, ou seja, uma intenção de explorar os limites da linguagem desconstruindo a sua estrutura convencional.

Neste caso, o desafio colocado à tradução exemplar do poeta Daniel Jonas assenta todo ele na perturbação sintáctica do discurso. Com uma pontuação peculiar, sobrecarregada de pausas e de inversões, a autora procura reflectir o estado tumultuoso das personagens, sobretudo a partir do olhar agitado, confuso e desorganizado da narradora. Exemplo 1: «Nunca. Mas nunca. Toques. Nessa. Coisa. Horrorosa. Vai-te. Dar. Verrugas. Isso. É. Hor. Roro. So» (p. 19). Exemplo 2: «Seucagalhãodemerdainútildeustevalha» (p. 25). Exemplo 3: «Eu digo estúpida vai à merda vai-te foder vaca puta punheteira merdosa fodilhona puta porca» (p. 32). Exemplo 4: «Sei soletrar mas é muito rápido para poder perceber f.u.g.i.r com o s.a.c.r.i.s.t.ã.o e vivem em p.e.c.a.d.o em tal e tal lugar» (p. 39). Fiquemos por aqui no que toca a exemplos. Servirão eles para dar uma ideia das dificuldades colocadas à leitura, dificuldades similares às que se nos colocam no relacionamento com um espírito nervoso, assaltado de histeria, traumatizado, debitando de um jorro os seu males em discurso tão desarticulado quanto o pensamento.

Esta sintaxe como que exibe a respiração da personagem, uma despersonalização patológica que nunca perde por total a lucidez. Produz, em si mesma, um efeito descritivo da personalidade que enforma o narrador. Tomando-lhe o pulso, o leitor coloca-se perante um desafio que não está tanto ao nível da interpretação como está ao nível da aceitação. Não podemos sequer afirmar que Uma Rapariga é Uma Coisa Inacabada é um romance difícil. Não o é no sentido de uma exigência interpretativa e até etimológica como o são certos livros de Joyce. Também não o é no sentido filosófico sugerido por Beckett. É, contudo, um romance exigente, na medida em que solicita ao leitor, espera do leitor, uma predisposição de ouvinte. O aspecto mais fascinante deste labor formal é precisamente esse efeito alcançado sobre o leitor, o qual se descobre enquanto espectador tanto quanto mais penetra no texto.

A ironia está em que a resistência da personagem central à austeridade católica da sua família desestruturada vislumbra no exercício da escrita, e na subsequente relação com um leitor abstracto, um ambiente tanto de divã como de confessionário. Em suma: «O que fiz eu? Sexo como. Ir à missa. Confissão» (p. 115). Concorre a favor desta relação uma história, afinal, tão realista e compreensível como tantas de famílias disfuncionais que pululam no mundo civilizado. Uma jovem rapariga sexualmente iniciada por um tio, um irmão com um tumor cerebral, um avô austero, uma mãe frustrada, uma mulher que é uma rapariga, uma rapariga que é uma coisa inacabada… O cenário é tão realista que dispensa frivolidades como as referências à entrada na vida adulta, conflitos essenciais entre educação religiosa e descoberta da sexualidade ou eventuais tomadas de posição sobre a condição feminina no seio da reinante hipocrisia católica.

Uma outra dimensão seduz-nos para o imo do texto, cativa-nos apesar dos espinhos, e essa dimensão é a rapariga que a páginas tantas descobre o que tantos de nós já descobrimos acerca de nós próprios: «Não há mais espaço nesta parte de mim» (p. 83). Eimear McBride escreveu um belíssimo livro, conseguiu equilibrar a exigência experimental da linguagem com uma história pungente. O grande mérito deste romance está, precisamente, em obrigar o pensamento do leitor a desviar-se das convenções que o (de)formam, a libertar-se delas e a colocar-se simplesmente na posição de ouvinte. Não ser intérprete senão pela capacidade de ouvir, faculdade tão nobre e empobrecida em tempos de ruídos ensurdecedores. 

GENE WILDER (1933-2016)

Morreu Gene Wilder, uma das minhas embirrações de eleição. Julgo que o trauma venha de A Mulher de Vermelho (1984), aquele filme com a canção do Stevie Wonder: “I Just Called to Say I Love You”. Aparições em westerns de brincadeira, tais como Balbúrdia no Oeste (1974) ou Desculpe, Onde Fica o Far Est? (1979), também não contribuíram para o meu apreço. Ainda assim, Gene Wilder assina uma das cenas mais hilariantes de um dos meus filmes preferidos de Woody Allen, O ABC do Amor (1972). Ei-la:


domingo, 28 de agosto de 2016

POETA E PALAVRA


Quando o ar, suprema companhia,
ocupa o sítio dos que já partiram,
dissipa seu olor, seus gestos, seus rumores
e, único, volta a preencher
a ordem natural do seu silêncio,
ele, a cujo domínio infinito se reduzem
a meia-noite, o meio-dia
(horizontes de prata ausente ou mais além de ouro)
fica com o ar em seu lugar,
docemente cingido pela atmosfera
da propriedade azul eterna.

Pode esquecer, calar, gritar então
a palavra que chega do harmonioso todo,
harmonioso todo solitário;
que o centro escuta em círculo
preparado desde sempre e para sempre;
que permanece leve e firme sobre tudo;
a vibrante palavra muda,
a imanente,
única flor que não se dobra,
única flor que não se extingue,
única onda sem fracasso.

De todos os segredos brancos, negros,
concorre a ele em eco, enamorada,
plena e alta de seus tesouros todos,
a profunda, silenciosa, verdadeira
palavra,
que só ele ouviu, ouve, ouvirá em sua vigília.
A sua carne, a sua alma unas, no seu ar,
são então palavra:
princípio e fim,
presente sem mais olhar para trás,
destino, chama, olor, pedra, asa, válidos,
vida e morte,
nada ou eternidade: então palavra.

E ele é o deus absorto no princípio,
completo e sem ter falado nada;
o embriagado deus do suceder,
inesgotável em seu nomear exacto;
o deus unânime no fim,
feliz por tudo repetir em cada dia.


Juan Ramón Jimenez (n. Moguer, Andaluzia, Espanha, 23 de Dezembro de 1881 - m. San Juan, Porto Rico, 29 de Maio de 1958), in Antologia Poética, selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Relógio D'Água, 1992, pp. 140-141.

TRABALHO


Leio em rodapé na televisão que muitos portugueses deprimem no regresso das férias. Notícia tão previsível e óbvia que nem devia ser notícia. Aceita-se como rodapé. Muitos portugueses, a maioria, são infelizes. No trabalho, na vida. Estudos, estatísticas, apontam nesse sentido. O caso português não é sequer agravado pelo fado, tem que ver com uma outra ordem de razões. País velho, com uma história onerosa, faz de cada um dos seus cidadãos uma espécie de Sísifo. A gente carrega o país às costas, é a nossa pena. Carrega-o como um fardo, aceitando o privilégio de duas semanas para descansar de subir e descer a mesma montanha entediante da vida. Acresce o dever moral, as obrigações, a consciência a pesar por aqueles que nem duas semanas podem roubar ao destino para descanso. Os portugueses têm trabalhos de que não gostam, vivem frustrados, levam vidas a contragosto, o leque de oportunidades, por assim dizer, é reduzidíssimo para quem não tenha apelido nem situação. Os portugueses não deprimem no regresso das férias, voltam à realidade, restabelecem os índices miseráveis de alegria quotidiana. O que é estranho, e por isso deveria ser notícia, é os portugueses terem pelo menos duas semanas por ano para sorrir com leveza. 

sábado, 27 de agosto de 2016

RUDY VAN GELDER (1924-2016)


Rudy Van Gelder, o homem do som que ofereceu ao jazz a expressão de que ele precisava em registo fonográfico. Por coincidência, ainda ontem fazia uma referência a Moanin' no Facebook. Foi gravado no Van Gelder Studio em Outubro de 1958. E não podia ser de outra forma. Mais aqui.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

CRUZAMENTO


Posso ter falhado em muitos dos caminhos da vida, por vezes atalhei e foi pior a emenda do que o soneto. Posso ter, como se diz, metido o pé na argola com diversas opções, ter virado à esquerda ou à direita sem prever consequências. Posso até ter perdido o sentido de orientação em momentos para os quais seria indispensável o norte que me faltou. Mas neste cruzamento nunca me perdi, soube sempre para onde me voltar, que caminho seguir, por onde continuar. Por duas vezes aqui me vieram as lágrimas aos olhos, de pensar que jamais abriria pisca à direita ou continuaria em frente até ao fim da estrada. Atrás das placas havia pinheiros altos, vi um deles tombar de velho, sentei-me no meio da estrada só para escutar as pinhas caindo dos ramos como lágrimas pesadas. À noite, estes matagais são viveiros de grilos. A imaginação dança ao escutá-los, enquanto o coração repousa das dúvidas e das incertezas que o atormentam. Porque aqui os caminhos são certos, qualquer uma das opções será pela rara alegria de viver. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

CREPÚSCULO


Fotografias do sol a pôr-se são uma vulgaridade. No entanto, ninguém resiste a registar pelo menos uma vez na vida o astro rei acoitando-se por detrás do horizonte. Porquê? Porque é bonito, porque a beleza, mesmo a mais vulgar das belezas, impressiona-nos sempre, extasia-nos, anima-nos, espanta-nos. Claro que nem toda a gente fotografa o pôr-do-sol da mesma maneira, nem todos descobrem e trabalham os mesmos aspectos desse momento deslumbrante. Fenómenos naturais são sempre motivo de derivações mentais, haverá boas e más interpretações dos mesmos. E, por consequência, boas e más representações dessas interpretações. Nem todas as fotografias do sol a pôr-se são em si mesmas belas, o que há de belo nelas é o registo de algo que em si mesmo é belo. Pudessem os nossos olhos reproduzir automaticamente o que vêem, filtrada a percepção pelas sensações e emoções despertas no corpo, e nenhum destas questões se colocaria. Talvez a melhor representação de um fenómeno destes sejamos nós próprios, ou seja, o modo como ele nos afecta e a consequente resposta que lhe damos diariamente enquanto pessoas. A questão é: se toda a gente percebe a beleza de um pôr-do-sol, por que será que nem toda a gente repercute tal beleza nas suas acções quotidianas? Por que será que as pessoas são feias com tão belos sois postos por perto? 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

XISTO


Uns chamam-lhe concha, outros chamam-lhe anfiteatro. Fica na Praia da Carreagem (há quem escreva Carriagem), no Rogil. Chegava-se lá descendo um carreiro desenhado por pescadores. Entretanto, por cima do carreiro construíram umas escadas de madeira. Passou a ser procurada por mais banhistas do que por pescadores. Tem alguns segredos que não vou desvendar, sobretudo para quem pretenda mergulhar, nadar, apanhar sol. Prefiro guardar os segredos. Em 2008, salvo erro, foi neste ambiente que acabei de ler Moby Dick, enquanto o Luís tentava pescar robalos e fanecas. Deitado sobre cascalho xistoso, com o olhar dividido entre a encosta e o horizonte marítimo, enquanto o sol nascia deslocando a sombra na direcção da vila. A casinha de madeira ainda persiste, assim como o fio de água doce onde lavávamos rosto e pés e mãos. O que já não existe é a inocência do primeiro olhar, o silêncio, o cheiro natural da vegetação a misturar-se com a maresia. Agora intrometem-se as fragrâncias dos protectores solares, o estalido das bolas nas raquetes, crianças impacientes, sotaques estrangeiros aparentemente desorientados. Não me apetece voltar a ser simpático com as minhas frustrações, penso-as como quem olha estas rochas, de ano para ano ali paradas sem que nada possa ser feito contra elas, a não ser acrescentar-lhes ruídos, disfarces, a não ser soltá-las para sempre na direcção de um mundo silencioso. Submersas, é como se não existissem. Mesmo que continuem a existir. Mas não as vemos. Não as vendo, é menos provável que as sintamos. Afogados.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

CHEGA DE SAUDADE

É um dos melhores livros publicados este ano entre nós, perfeito da capa à contracapa. Jornalista de profissão, o brasileiro Ruy Castro (n. 1948) tem várias obras publicadas sobre a cultura popular brasileira. Biografias do futebolista Garrincha e da cantora Carmen Miranda fazem parte do currículo. Chega de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova (Edições Tinta-Da-China, Junho de 2016) foi originalmente publicado em 1990, aporta nas livrarias portuguesa com cerca de 25 anos de depuração. Edição revista, esta versão portuguesa com quase 500 páginas lê-se obsessivamente. O mérito está no autor do livro, que soube oferecer o protagonismo às personagens de um movimento repleto de estrelas. Presume-se que escrever uma obra destas seja como cartografar o céu, recolhendo dados que permitem organizar por constelações grupos, querelas, conflitos, manias, todo um conjunto imenso de histórias, umas caricatas, outras trágicas, que acabam por retratar um tempo e as suas circunstâncias. 
Chega de Saudade não é apenas sobre um género musical, é também um retrato da sociedade brasileira, com especiais sublinhados para as suas assimetrias e divergências de raiz, e é também um ensaio acerca do meio cultural na sua relação com uma indústria ávida de sucessos e tantas vezes indiferente à criação. Enriquecido com várias fotografias, vasta bibliografia, uma cançãografia e uma discografia imprescindíveis, o volume foi dividido em duas partes que oferecem um nexo cronológico à narrativa. No prólogo percebemos desde logo que o astro central será João Gilberto, a quem se confere a invenção da bossa nova sem pruridos de maior. As origens, os vícios, as obsessões, os traços de personalidade, as cismas, o encanto e o desencanto, os encontros, as parcerias, os desencontros, a coluna vertebral do autor de Bim Bom (1958) percorrem todo o livro como uma espécie de fio condutor. Mas na primeira parte, intitulada O Grande Sonho, ficamos a saber que a bossa não nasceu do nada, que na cabeça de Gilberto não havia uma tabula rasa, houve antecedentes que convém registar, buracos negros e erupções solares cujos efeitos foram determinantes para que a edição de Desafinado se tornasse um marco histórico. 
Deste modo, os anos 30 e 40 não foram esquecidos, a relevância de autores como Orlando Silva, Dorival Caymmi, Dick Farney e Lucio Alves é mais do que apontada. O magma que nesses anos escorreu sobre a Terra surge não só como a semente da qual brota o fruto, mas como a própria terra onde a semente vai germinar. Se é justo falar do percurso de João Gilberto como uma espécie de fio condutor, seria injusto não reconhecer nas referências a Frank Sinatra as duas pontas desse fio. Na relação com a música norte-americana, a produção musical brasileira de vanguarda nesses anos encontra no jazz um parceiro ideal. Sinatra é a voz, pelo modo de cantar, de abordar a palavra, pela postura: ««Night and day», lançada em 1932 por Fred Astaire, tornara-se quase propriedade particular de Sinatra nos anos 40 e, juntamente com a sua coleção de gravatas-borboleta, tinha sido uma das principais causas de desmaios femininos durante a Segunda Guerra. (…) E «Copacabana» era a canção que revelara o brasileiro Dick Farney e demonstrara aos infiéis que era possível ser moderno, romântico e sensual em português, sem os arroubos de opereta de Vicente Celestino» (pp. 30-31). Não será pois incorrecto supor que a bossa nova surgiu de uma confluência entre ritmo e dicção que Sinatra terá inspirado, numa época onde já não fazia sentido ceder ao lamechismo a carga dramática de um romantismo que buscava a “joie de vivre” entre destroços. Daí que entre a formação do Sinatra-Farney Fan Club ainda na década de 1940 e o encontro seminal de Tom Jobim com o popular cantor norte-americano, 20 anos depois, exista uma espécie de princípio e fim que corresponde à imposição internacional da bossa nova. É como se finalmente os pulmões tivessem encontrado o ar. 
É correcto afirmar-se que Chega de Saudade se lê como um romance, uma história repleta de episódios com imensas personagens que dariam, por si mesmas, cada uma delas, muitas delas, um livro inteiro. Além dos supracitados, e para não tornar a prosa um inventário de nomes, referiam-se apenas Stan Kenton e Stan Getz como influências incontornáveis provenientes do jazz, o guitarrista Baden Powell, os compositores Carlos Lyra e Roberto Menescal, o poeta Vinicius de Moraes, cantoras como Dolores Duran, no início, e Elis Regina ou Nara Leão numa fase mais desenvolvida e em auto-negação do movimento. Enfim, um sem número de personagens que contribuíram para que a cultura musical brasileira fosse um viveiro sem fim. Num ano em que tanto se tem falado do Brasil, quase sempre pelas piores razões, este livro oferece um outro olhar sobre a cultura brasileira, uma cultura onde a criação fervilha de braço dado com o conflito. Uma cultura onde os artistas ainda têm um papel social a desempenhar, mais que não seja o de procurar expressão para a desventura de um povo assaltado pelo poder, como quase sempre são os povos, mas que nem por isso deixa de sentir e de buscar no amor e na alegria alimento para os dias.

O PRISIONEIRO DO TEMPO


Começou porque me limitavam os anos,
doze anos, quinze anos, vinte anos...
Eram limites, eram fronteiras suportáveis:
o ano que vem, quando cumprir trinta anos,
o ano passado, o ano novo...
Eram limites amplos,
era possível a distância, o horizonte,
por muitos anos! Os espaços
dominavam o tempo
recebias a aurora, despedias a tarde
amplamente e amavas
docemente os sonhos.
Os anos eram os carcereiros
mas rondavam muito distanciados.
Havia quem vivesse cem anos!
Mais tarde, começaram os meses a limitar-me,
apareciam subitamente, tudo era muito distinto,
o tempo dominava os espaços,
era um limite mais pesado,
estavam mais próximos os carcereiros,
eram carcereiros!:
o mês que vem, dentro de uns meses,
oprimiam-me os meus próprios limites,
originava limites!
Que terá sido daquelas agradáveis distâncias,
há tempo pela frente, dizia,
quando me limitavam os anos.
Agora olhava com receio todas as coisas,
nove meses, três meses, um mês de prazo,
meses, meses voando sobre os sonhos.
E as semanas?
Deixaram os meses de cingir-me
e um novo limite controlava-me, uma nova medida
estendida por todo o mundo,
cobrindo de miragens todas as suas galerias.
Contava a vida por semanas,
semana atrás de semana.
Os carcereiros eram os oficiais de semana,
distraíam-me, envolviam-me nas verdades falsas,
a próxima semana, dura muito pouco uma semana,
a semana santa,
o meu mundo era a semana, a realidade era a semana,
a semana, só existia a semana.
Que era um mês senão quatro semanas
e que era um ano senão cinquenta e duas semanas...
E contava as semanas
e via a humanidade ansiosa
forçada à semana, vivendo para o fim de semana, vivos, livres
só o fim de semana.
Depois foram os dias,
comecei a contar os dias
sobressaltaram-me os dias,
era questão de dias,
pesavam enormemente os dias
e desejava por sua vez que passassem os dias
e que não passavam...
Aferrava-me aos dias, bons dias!,
o dia estava ali, era um carcereiro inamovível, omnipresente,
tudo mediam em dias.
Não era livre! Não podia ser livre!
O dia da minha boda, o dia da minha licenciatura em filosofia,
apenas um vazio para a minha aventura,
apenas ficava espaço e eu necessito de espaço, muito espaço,
não podia sair dos dias,
um dia e outro dia,
o dia das forças armadas, amanhã será outro dia,
outro dia!
Crescia a muralha dos dias,
o circo dos dias, um dia comia o outro dia,
os limites eram insustentáveis,
dias de jejum, dias de alegria,
mas tudo medido, era preciso obedecer ao dia,
despertar ao despertar o dia,
dormir ao dormir o dia,
a ordem do dia!
um dia é um dia, nos próximos dias...
agora, enquanto escrevo este poema,
já não conto os dias senão as horas, 
faltam três horas, dura quatro horas,
que horas são, a que horas...
Os carcereiros converteram-se na minha sombra,
apenas falo, as horas confundem-se e confundem-me,
limites, limites, a tarde, a manhã, o meio-dia,
uma hora cai sobre outra hora, vence a outra,
uma hora é como outra hora,
hora adiantada, horas extraordinárias,
faz horas extraordinárias!,
a dança das horas, horas perdidas, o recorde da hora,
não somos seres, somos horas, corda de horas,
uma cada duas horas, quase seis horas,
e sonham as horas e já só podes ouvir as horas,
e tudo há-de mover-se num horário,
tudo há-de estar à hora,
tudo tem a sua hora,
quantas das minhas horas são horas minhas,
meia-hora, um quarto de hora, a hora!
Destrói-me pensar que nasci para as horas,
abro as mãos e tenho-as cheias de horas.
Ah, carcereiros, horas terríveis que nublais os meus olhos!:
dentro, levo-vos dentro, estou cheio de carcereiros, de sombras.

Não quero nem pensar como será a minha vida
quando ela depender dos minutos, quando
forem eles os meus carcereiros e não existam
os espaços, os sonhos, as dúvidas,
quando o meu corpo for uma garagem de minutos,
minutos, minutos, não tenho nem um minuto, só cinco minutos,
tudo sucederá em minutos, que fará de mim a fúria dos minutos,
quando não puder perder nem um minuto,
que humilhação me aguarda quando na minha vida
só se movam as agulhas dos minutos
que espaço pode haver entre minuto e minuto.
Que escura noite havia em vós, meses, anos,
e que traição os vossos espaços!
Éreis minutos, minutos, só minutos!
Que o mundo se afunde será questão de minutos!
Finalmente, finalmente, ah, finalmente,
quando apenas um sopro alente os meus sentidos
e só existam os segundos, sejam os segundos
os que cingem o meu corpo, a minha vida,
todo o meu ser um carcereiro monstruoso, uma áspide, uma víbora
destruindo os últimos reflexos,
todo o mundo um carcereiro horrível, 
e quando todos forem fantasmas e as ideias se converterem em nuvens
e os sentidos em cavernas
e nos últimos segundos
passem os anos, os meses, os dias e as horas
convertidas em ar
e se encerrem os meus olhos e o rosto sem vida
riam como nunca por todos os abismos do mundo,
como desejarei continuar prisioneiro do tempo
como amarei o tempo - eu era tempo, doloríssimo tempo! -,
como amarei os limites - somente eles não estavam mortos -,
os anos e os meses,
os dias e as horas e os minutos,
todos os limites do mundo.
Como me arrancará a eternidade do tempo!


Jesús Lizano (n. 23 de Fevereiro de 1931, Barcelona - m. 26 de Maio de 2015, idem), in O Engenhoso Libertário - breve antologia poética de Jesús Lizano, organização, tradução e prefácio de Carlos d'Abreu, Douda Correria, Julho de 2015, s/p.

domingo, 21 de agosto de 2016

ROCHAS


Não sei por que me agrada esta paisagem, tem tudo para me desagradar. Olho para estas rochas e não entendo nada do que nelas me atrai. Talvez por isso me atraiam, por não entendê-las. Sim, desde sempre este fascínio pelo ininteligível, pelo absurdo, pelos paradoxos. Sei que morreria feliz sabendo que espalhariam as minhas cinzas por ali, que a minha memória se fundiria para sempre com o mar, com a areia, com as rochas, com esta ausência absoluta de sentido. Um geólogo terá todas as explicações para as minhas dúvidas, mas ainda assim o mistério: como é possível haver paz nesta agressividade? A paisagem é agreste, porém pacificadora. Não estamos a falar de dunas com palmeiras, de quilómetros de areal com a água a afagar a Terra como um homem afaga um gato. Estamos a falar de perigos. O que há nisto de belo é a incerteza, não sabermos se a praia vai estar areada, se entre as rochas se escondeu algum polvo, se haverá mosquitos a atazanarem-nos a pele, se estaremos suficientemente abrigados de ventos e de tórridas manhãs. Anda-se descalço nestas margens e sente-se a natureza a entrar no corpo, como uma ferida, o peso da carne contra a solidez da rocha abre feridas nos pés com facilidade, mas são feridas e dores boas, nelas reside a solução que o crente vislumbra face à imagem de Deus. Já me magoei a sério por ali, já senti a vida em risco por ali, mas foi uma satisfação enorme perceber que não estava morto depois de escapar às rasteiras da vida. Agora não sei, sinto-me cansado, não retiro prazer das acções, a escrita é-me um sacrifício, o trabalho uma expiação, sinto que estou a cumprir uma pena por crimes que desconheço. O álcool desvia-me as atenções, mas estou farto. Sinto que sempre estive farto. Nenhuma privação, simplesmente saturado de farto. Só me apetece olhar, se pudesse concentrar-me totalmente nas retinas e ficar simplesmente a olhar.