quinta-feira, 30 de junho de 2016

#81



   Sofri de ataques de pânico durante vários anos. Quem já tenha experimentado tais crises sabe daquela sensação de desequilíbrio que nos obriga a meter a mão em qualquer coisa para não cairmos, o desconforto provocado pela socialização, a intolerância ao ruído. Chamo estribos às bengalas. Quando me sentia a tombar, apoiava-me numa parede, nas costas de uma cadeira, no tampo de uma mesa e era como se todo o meu corpo aí se apoiasse para que eu pudesse manter-me vertical. Muitas vezes, quando ia jantar fora, acabava a fechar-me na casa de banho do restaurante, passava água fria pelo rosto, respirava fundo, tentava descontrair. Tive ocasiões em que foi mais o tempo que passei isolado do que à mesa a fazer sala, como se costuma dizer. Não sei como consegui superar os medos, as fobias, nem sei que medos ou fobias eram. Certo dia, o mesmo médico que me tinha tentado tratar as insónias, aconselhando-me a não me esforçar para adormecer, disse-me que só havia uma forma de eu superar os ataques, e essa forma consistia em atacá-los de frente, encará-los como sendo naturais e dizer a mim próprio, estás parvo, pá, isto é só um ataque de pânico. Em suma, desimportantizar. Segui à risca a prescrição, ajudou-me. Mas estou em crer que o estribo fundamental, o medicamento mais eficaz, sem efeitos secundários, foi a música. 
   Ao deixar-me andar à deriva no vasto oceano da música aprendi a aceitar-me como sou, e sobretudo a aceitar os outros tal como são. O mais recente álbum dos Radiohead tem uma canção sobre isto mesmo, uma canção acerca das imagens mentais que construímos sobre os outros, a forma como concebemos dentro de nós personalidades alheias e como tantas vezes nos deixamos levar pela tentação de acreditar ser esse retrato uma síntese da identidade. Não é. O outro sempre nos escapa. Não escaparmos nós a nós próprios já é uma conquista. O ensinamento socrático continua a ser válido, conhece-te a ti mesmo. Devemos talvez acrescentar que só esse conhecimento nos permitirá chegar ao outro: se quiseres conhecer os outros, então começa por conhecer-te a ti próprio. A Moon Shaped Pool (2016) também reflecte estes paradoxos da identidade, é coisa mental como, de resto, sempre foi o universo dos Radiohead. Tratando-se de uma espécie de compilação de temas perdidos, alguns com dez ou mais anos de maturação, esse lado desde sempre (psic)analítico fica ainda mais manifesto no percurso da banda. É um álbum sombrio, como sombria é a consciência de cada um de nós. Em cada canção adivinhamos um mergulho nas profundezas do espírito humano, uma viagem que nos leva da sombra à luz, como queria Platão, o idealista, mas eivada de perscrutações míticas. Objectos voadores não identificados, monstros, sombras, são elementos de uma mesma história de terror, a daquele que parte em busca de si próprio e tenta apoiar-se na matéria orgânica mais à mão, numa rocha, no tronco de uma árvore, para não se afundar definitivamente na loucura. 
   Será solução o isolamento? As linhas invertidas de Daydreaming, balada lindíssima erguida sobre um piano minimalista, são um pouco dessa panorâmica que podemos observar quando nos sentimos à beira da loucura, a perder o pé a uma normalidade que nos transforma em contradição insolúvel: sendo nós parte integrante do tecido social, não nos revemos nele, não nos reduzimos a ele, é fora dele que mais nos sentimos autênticos, íntegros, nós próprios. Esta dimensão sombria que a voz arrastada e frágil de Thom Yorke tão bem encarna é uma das expressões mais pungentes que a música pode oferecer das zonas cinzentas em que a consciência procura equilibrar-se, mesmo quando acompanhada de secções de cordas minimais e repetitivas, programações remanescentes de um krautrock neo-depressivo ou simples linhas de viola acústica em compasso matemático. Há quem acuse nos últimos trabalhos dos Radiohead uma abstracção indecifrável, um hermetismo fastidioso e desconfortável. Discordo. Trata-se de rock do mais concreto que alguma vez se escreveu, sendo perfeitamente legítimo reivindicar para esta noção de concreto a mesma organicidade que em tempos certos poetas reivindicaram para a palavra. Sirva de exemplo o vídeo concebido por Paul Thomas Anderson para Daydreaming:

quarta-feira, 29 de junho de 2016

UM CARTA DE NÂZIM HIKMET


Carta de Istambul


Meu querido
Escrevo-te na cama
Estou cansada
Olhei-me ao espelho: estou esverdinhada.
Faz frio. Diz, será que o Verão não volta mais?
A lenha da semana é paga a trinta libras.

E que fazer?
Há uns dias atrás, trabalhava eu no corredor
Tive que pôr um agasalho por cima dos ombros
As janelas têm vidraças partidas
As portas fecham mal
Precisávamos de mudar de casa
Há o perigo de ela nos cair em cima
Mas as rendas estão horrivelmente altas.
Para quê escrever tudo isto
Que só te vai magoar
Mas a quem, mas a quem falar do meu infortúnio?
Desculpa, querido.
Diz, quando virá o bom tempo?
À noite, sobretudo à noite, é atroz!
Não aguento mais estar a tremer de frio
Em sonhos é em África que me vejo
De uma das vezes foi na Argélia
Como o tempo estava bom!
Uma bala furou-me a cabeça
Perdi o sangue todo, mas não estava morta.
Estou velha, velha
E tu bem sabes que ainda não cheguei aos quarenta
Estou velha
E sei-o e digo-o
E quando o digo as pessoas
Zangam-se e falam-me de moral
Mas deixemos isso
Está já em exibição o filme "A Cigarra"
Parece que teve muito êxito em Paris
Aquela pobre mulher só tinha defeitos? Que achas?
Eu cá gosto do médico, mas ao mesmo tempo irrita-me
Esse imbecil
No fim de contas, quem é mais infeliz
Quem e por culpa de quem?
Ouço na rádio canções do Paraguai
Todas escritas em folha crivada de espinhos
Com o amor o sol e o suor dos homens,
Amargas e cheias de esperança.
Gosto tanto das canções do Paraguai!
Recebi carta da Adviyé
Onde ela se queixa de mim e diz que não consegue esquecer-me
Fiquei muito admirada
Há já muito tempo, desde que partiste do país
Ela nunca mais me bateu à porta
Não quis saber de mim para nada
Mesmo quando cruzou comigo na rua
Seguiu caminho e virou a cara
Éramos as amigas mais íntimas que imaginar se possa
Mas a amizade é como a árvore: depois de seca
Não reverdece mais
Não lhe respondi
Para quê?
Se ela viesse cá a casa
Não tinha nada a dizer-lhe
Não lhe tenho ódio, oh não!
Dizem que se casou com um doente rico,
Um maníaco
E Adviyé tão cheia de vida, que pena!
Fui contemplar o nosso filho
Louro e rosado, dorme com os punhos fechados
Puxei para cima o cobertor que ele tinha afastado
Esta noite a rádio deu uma má notícia
Morreu Irene Joliot-Curie
Era nova ainda, não era?
Li há muito tempo já
Um livro sobre a mãe dela,
A mãe da morta.
Falava de duas meninas
Lembro-me de uma passagem em que eram comparadas
A duas está tuas gregas louras
E agora: uma dessas raparigas morreu
Não sei como explicar-te
Uma cientista ilustre, sim,
Mas quem agora morreu com leucemia
Foi também essa menina loura
Esta noite chorei por Irene Joliot-Curie
É esquisito. A Irene,
Se lhe tivessem dito: Irene
Quando tu morreres
Uma mulher de Istambul, uma mulher que tu não conheces
Sentirá muita pena
Se lhe dissessem que chore
Ela havia de ficar muito admirada
Lembrei-me do marido dela
Pensei: escrevo-lhe?
Mas não sabia a direcção.
Frederico Joliot-Curie.
Paris.
Seria o suficiente?
Morreu também um escritor francês
Li nos jornais e acho
Que não sabes quem é. Era já muito velho
E também egoísta e cínico
Um homem desprezível
Passou a vida a troçar de tudo
Não amou nada nem ninguém
A não ser os cães e os gatos
Nem isso:
Apenas os seus cães e os seus gatos
Alguns dias antes de morrer ainda concedeu uma entrevista
Troçava da morte.
Mas percebia-se que estava com um medo horrível
Vinha a fotografia. Faz lembrar a nossa avó
Faz de conta que é um homem e enfia-lhe
Um gorro na cabeça.
É ele.
Um velho encarquilhado numa solidão terrível
Também dele o meu coração se apiedou
Mas esse sofrimento não era igual ao outro.
Irene
Joliot-Curie
Pensa-se nos filhos, pensa-se no marido
Mas principalmente, antes de mais, lamenta-se o mundo:
Um grande homem a menos.
Agora para ti uma boa surpresa
O preguiçoso do teu filho aprende a ler
Sabe já muitas palavras, o diabinho:
"Olha - corre - o livro - o lápis -
A pasta"
Não é fantástico?
Cada letra que ele descobre, faz uma comparação
A, é uma casa
B, é uma barriga, um senhor gordo
T, é uma picareta.
Tenho tanto medo que ele saia preguiçoso
Se fosse uma rapariga
Era mais fácil
Em cada etapa da vida, uma mulher faz sempre qualquer coisa com as mãos
Mas um rapaz de cinco anos?
Ah se o frio se fosse embora, se fizesse bom tempo...
Há-de fazer
A minha carta alongou-se demais
Tem cuidado com a saúde
Responde-me depressa
Não te esqueças de mim
Responde-me depressa
Não te consoles pensando que Munevver
É uma mulher inteligente e corajosa
E que há-de saber desenrascar-se;
Sem ti, estou perdida
Não te esqueças de mim
Tem cuidado com a saúde
Beijo os teus olhos queridos
Boa noite.
Tem cuidado com a saúde
Responde-me depressa.
Não te aflijas com as minhas preocupações
Esquece as minhas preocupações
Não te esqueças de mim.


Nâzim Hikmet (turco, n. 20 de Janeiro de 1902, Salónica, então parte do Reino Otomano - m. 3 de Junho de 1963, Moscovo, União Soviética), in Poemas da Prisão e do Exílio, tradução de Rui Caeiro, & etc, Julho de 2000, pp. 78-83.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

BUD SPENCER (1929-2016)


Lamentavelmente, nem uma referência a Bud Spencer nesta lista (em construção). Isto apesar de ter sido um dos mitos da minha infância. A dupla com Terence Hill ofereceu-lhe fama, era o grandalhão, o titã, por ele ninguém passava. Um bruto intransponível. A saga Trinitá aparece frequentemente referenciada entre o que de melhor foi realizado no território do chamado comedy western. Talvez por apreciar demasiado o género western, sempre releguei Trinitá para o plano do ridículo. Enfim, já me disserem que sou parecido com o napolitano Carlo Pedersoli. Assim fica melhor. Quem quer ser parecido com Bud Spencer?

domingo, 26 de junho de 2016

MAU LIVRO, MÁ EDIÇÃO, SUCESSO COMERCIAL

   Há 8 anos a trabalhar numa livraria são inúmeras as histórias acumuladas sobre Mein Kampf, o livro outrora proibido de Hitler que no ano em que voltou a ser publicado em Portugal conseguiu a proeza de ser o mais vendido da Feira do Livro de Lisboa. O facto tem o seu interesse, sobretudo numa época em que posições políticas racistas e xenófobas voltam a ganhar terreno por toda a Europa. Não partilho, no entanto, da incredulidade nem do espanto manifestados por algumas pessoas, pois estava certo do sucesso comercial da obra assim que a vi chegar à livraria onde trabalho. A par de O Livro de São Cipriano, foi provavelmente o título que mais me solicitaram ao longo dos anos. A estes dois devo acrescentar, para ser totalmente exacto, Os Filhos da Droga, durante largo período indisponível por razões incompreensíveis, e, mais recentemente, Maddie - a verdade da mentira, sobretudo enquanto foi retirado do mercado por decisão judicial.
   Entre os livros supracitados há um denominador comum, a sua popularidade. Uma primeira dúvida pode recair sobre as razões da sua popularidade. Em dois dos casos, o factor proibido será uma forte explicação. O fruto proibido é o mais apetecido, diz-se. Mas por si só a proibição não explica tudo, apenas pode justificar a estimulação de um desejo que a polémica se encarregará de promover. Se quisermos interpretar estes fenómenos com alguma distância, não podemos igualmente cair na tentação de supor que por detrás do sucesso comercial destas obras está uma putativa vontade de compreender o mundo. Em algumas pessoas ela existirá, embora seja um erro crasso reduzir a uma única razão o que leva tanta gente a adquirir um livro como Mein Kampf. Neste caso em concreto, o culto da personalidade alimentado em torno da figura de Hitler será uma outra explicação possível. Mein Kampf é, antes de mais, o livro de Hitler, o livro do homem-monstro para uns, do génio para outros.
   Provavelmente não existe uma única razão para a aquisição de um livro deste tipo, provavelmente cada leitor terá as suas e todas elas serão legítimas, provavelmente uns têm curiosidade mórbida, outros fascínio, outros interesse, outros serão coleccionadores, outros querem livros para enfeitar. Haverá até quem o adquira para simplesmente dizer que o tem, como se fosse uma obrigação ou um dever de qualquer ordem intelectual possuir em casa tamanho colosso. Não é isso que me interessa explorar, até pela exigência do tema e pelas dificuldades óbvias que coloca. Julgo mais interessante especular sobre o porquê de ter sido a edição da Guerra e Paz, e não outra, a mais vendida.



   A primeira edição do Mein Kampf a chegar recentemente ao mercado português, muitos anos depois das extintas edições da Afrodite, da Pensamento, da Hugin e de uma tal Casa de Berlim (?) foi a da E-primatur (Novembro de 2015), recuperando a versão das edições Afrodite do mítico editor Fernando Ribeiro de Mello. Aparecida inicialmente em 1975, logo após o 25 de Abril de 1974, causou celeuma, sobretudo, por não vir acompanhada de um estudo introdutório ou de uma contextualização histórica. A edição da E-primatur não preenche tais lacunas, limitando-se a acrescentar pouco mais do que uma nota prévia de 3 páginas assinada por António Costa Pinto. O livro em si é aqui exposto como documento histórico, esquivando-se o editor a quaisquer considerações de carácter político, sociológico, filosófico. É, por assim dizer, uma edição sóbria, sem outra intenção que não seja oferecer aos leitores a possibilidade de adquirirem um livro (seja lá por que motivo) e sobre ele poderem tecer as suas considerações.
   Assim que foi colocada à venda, a edição da E-primatur obteve sucesso imediato. Houvesse tal indicador, por certo teríamos ficado a saber que no Natal português de 2015 o Mein Kampf foi um dos livros mais oferecidos. Radicalmente diferente é a edição da Guerra & Paz, colocada no mercado em Fevereiro de 2016. A diferença entre as duas edições é óbvia, desde logo, nas opções gráficas. A segunda cede à estética nazi com um populismo de péssimo gosto, espalhando suásticas pela capa, pela contracapa, na lombada, no corte dianteiro, no corte superior… A capa rija em tons de negro, o lettering gótico, são outros elementos que nos remetem para o imaginário nazi, assim como as guardas reproduzindo fragmentos na língua alemã em caracteres góticos, ou, cereja no topo do bolo, a reprodução da Bandeira do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães no fecho da obra. É uma edição ilustrada, mais do que comentada. É uma edição que vai ao encontro dos tempos, tempos onde a imagem, a superfície, a aparência predominam sobre a essência.





   Esta opção por um grafismo popularucho e sensacionalista é, sem dúvida alguma, um dos factores determinantes no sucesso do livro. O editor sabe da importância que hoje tem a dimensão visual do que quer que seja, muito mais de um livro sobre o qual recai uma curiosidade mórbida natural e um culto desmesurado em torno do autor. Daí que o interior do livro seja toda uma exibição do horror, partindo de pressupostos propagandísticos de sucesso reconhecido como sejam os do nazismo. Até o “provavelmente falso” tem lugar:



   Ora, mais questionáveis se tornam ainda estas opções gráficas quando o próprio editor, Manuel S. Fonseca, pretende sustentá-las com aquilo a que chama “100 páginas de enquadramento histórico prévio (…) fortemente crítico”. Mas o que são, na realidade, essas “100 páginas de enquadramento histórico prévio (…) fortemente crítico”? São, para sermos simpáticos, à volta de 30 páginas escritas com um carácter muito superior ao escolhido para o texto de Hitler, que se alguém quiser de facto ler deverá, já agora, adquirir além do livro uma lupa. Para que se tenha uma noção mais objectiva do que estamos a falar, as cerca de 640 páginas da edição da E-primatur ficaram reduzidas na edição da Guerra & Paz a 360. Talvez o editor não espere que quem adquira a obra pretenda de facto lê-la, para sobre ela tecer as suas considerações. Tal exercício é oferecido logo à partida. O livro? É um livro de ódio. Hitler? Foi um facínora. E pronto. Precisávamos de gastar €26 para ficar a sabê-lo?
   Tudo o mais é mais do mesmo, fotografia e imagem, uma compilação de elementos iconográficos básicos sobre os terrores do nazismo e da II Guerra, misturadas com fotografias de um Hitler bebé, de um Hitler jovem, de um Hitler com Eva Braun, de um Hitler a relaxar, seguidas de imagens do genocídio, de campos de concentração, intercaladas por sínteses deste calibre:



   Será isto um trabalho sério de enquadramento histórico prévio e fortemente crítico? Na minha opinião, não é. Trata-se, por outro lado, de um apanhado populista e vulgar de inúmeras ideias feitas e lugares comuns acerca da história do nazismo. Talvez exista na mente do editor uma intenção pedagógica que o leva a querer mostrar de um modo simples números e factos por demais conhecidos, associando-os ao tal documento histórico que é o livro escrito por Adolf Hitler e que não interessará tanto ler quanto interessa saber o que foi a actividade por ele desenvolvida e levada a cabo. Nesse sentido, o que temos não são “100 páginas de enquadramento histórico prévio (…) fortemente crítico”, mas sim um panfleto anti-Mein Kampf colado ao próprio Mein Kampf. É uma originalidade editorial para a qual só tenho uma designação: oportunismo, o tal oportunismo que me leva sempre a desconfiar das boas intenções da chamada indústria do livro.
   Mais grave se torna esse populismo quando a publicação do Mein Kampf foi inserida numa espécie de colecção onde cabem igualmente o Manifesto Comunista (Janeiro de 2016) e O Pequeno Livro Vermelho (Abril de 2016), de Mao Tsé-Tung. Razão de ser do pacote: «Estes três livros foram os motores de movimentos ideológicos com consequências políticas e sociais que, em todos os casos, desaguaram em tragédias humanas, porventura as maiores tragédias do século XX».



   Recentemente, em conversa de Facebook, Manuel S. Fonseca foi mais longe ao afirmar que «esses livros estão ligados, todos, a ideologias que mataram mais de 100 milhões de seres humanos, a maioria em campos de concentração». Enfim, não consigo contabilizar, a título de exemplo, quantos milhões de seres humanos terão sido torturados e assassinados em nome da Bíblia Sagrada, mas sugiro desde já a Manuel S. Fonseca que comece a fazer as contas. Cingindo-me ao século XX, também não sei quais terão sido os livros que inspiraram os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki, a deriva americana no Vietname, o apoio a Osama bin Laden no Afeganistão, os crimes de guerra contra a Palestina, etc., etc., etc., todo um sem número de factos históricos sob os quais haverá, por certo, muita fundamentação ideológica social democrática, republicana, liberal a explorar… A que autores deveremos atribuir responsabilidade pelos irlandeses que morreram às mãos dos ingleses? Quais as ideologias por detrás do colonialismo europeu disseminado pelo mundo?
   Ora, é precisamente por recusar uma tal simplificação da história e do mundo que não consigo entender a inclusão do Manifesto Comunista num trio onde estão duas obras assinadas por dois ditadores. Terão Marx e Engels sido também eles ditadores sem que eu o saiba? Serão eles responsáveis pelas múltiplas e mais diversificadas interpretações que se fizeram das suas obras? Deveremos esgotar no estalinismo o impacto do Manifesto Comunista? Haverá alguma relação directa entre a publicação do Manifesto e os crimes inevitavelmente resultantes das revoluções comunistas? Não, não e não. Parece-me óbvio que não, mas talvez eu esteja equivocado. Tento encontrar resposta nas tais anunciadas “100 páginas de enquadramento histórico prévio (…) fortemente crítico” e tudo o que encontro pode ser resumido a anedotas, fait divers, slogans anticomunistas, o primarismo típico de quem não está tão preocupado com o conhecimento ou com a inteligência dos leitores como evidentemente estará com os efeitos comerciais de tais publicações.




   Dito isto, seria no mínimo exigível que se explicasse por que razão foram os comunistas perseguidos pelo nazismo e um dos grupos mais afectados pelo ódio nazi. Essa explicação não existe no Manifesto, aparecendo apenas o facto aludido nas listas de vítimas que acompanham a introdução ao livro de Hitler. Outro dado curioso, embora muito mais comum, é colocarem-se lado a lado Estaline e Hitler como se fossem faces diferentes de uma mesma moeda. Não são, e o facto histórico mais evidente dessa diferença é terem os aliados negociado com Estaline a vitória sobre Hitler. A preferência por um em detrimento do outro é razão mais do que suficiente para aceitarmos diferenças entre ambos. Por que foi Estaline preferível a Hitler? Mais uma pergunta sem resposta. Colocam-se os dois na mesma caderneta, junta-se-lhes ao retrato uma legenda patética e siga para bingo. Temos Lennon e um escandinavo que gosta de amoras a quem devemos prioridades.

   Se pensar, caro leitor, que defendo Estaline: está errado! Poderá pensar que nego os crimes cometidos sob a bandeira comunista. Está errado. De resto, não é preciso sequer admitir que existiram. Na própria União Soviética esse reconhecimento foi realizado após a morte de Estaline. Ainda aguardo reconhecimento dos burgueses instalados em diversos campos do poder pelos crimes perpetrados contra as massas oprimidas. A quem deveremos imputar no futuro responsabilidades pelos imigrantes e pelos refugiados desaparecidos no Mediterrâneo? Serão exclusivos do nosso tempo, tais fenómenos? Quem me leia também poderá pensar que estou contra a publicação de Mein Kampf. Outro erro. No dia em que eu estiver contra a publicação de um livro exijo que me internem num hospício. O que aqui procuro denunciar é uma péssima edição da obra literária de Adolf Hitler, eivada de um populismo gráfico e de um pseudo-enquadramento histórico que em nada contribuem para um real esclarecimento acerca da popularidade que o livro granjeou à época em que foi originalmente publicado e da sua relevância enquanto documento histórico. Estou em crer que quem pretenda elucidar-se quanto a tais temas vai pelo mau caminho se adquirir a edição da Guerra & Paz. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

#80


A estreia de Kamasi Washington (n. 1981) em disco começa por impressionar pela ambição desmesurada, com um tripo CD repleto de músicos, labirintos sonoros ecuménicos como há muito não se ouvia, ousadia estética e testemunho político. Não sendo caso único nos tempos que correm, uma big band é por si só aposta arriscada. Mais ainda se assumir a configuração de uma orquestra clássica, com secções de cordas e coros vocais a esvoaçarem por entre os tradicionais instrumentos do universo jazzístico.
The Epic (2015) extravasa as delimitações de género, fazendo confluir com extraordinária elegância a improvisação típica do jazz com arranjos eruditos, abrindo ainda as portas a formas populares oriundas da soul music e do funk. A cada CD foi atribuída uma cor e um subtítulo: bordô para The Plan, preto para The Glorious Tale, dourado para The Historic Repetition. O caleidoscópio parece indiciar uma narrativa onde é possível detectar andamentos e tonalidades distintas na direcção da mensagem final, a qual assume igualmente a confluência do político com o espiritual. 
À excepção de Cherokee (standard de Ray Noble), de Claire de Lune e de Malcolm’s Theme todas as composições são da autoria de Kamasi Washington. Pela excepcionalidade, o tema de Claude Debussy é um diálogo perfeito e equilibrado entre dois universos musicais separados pelo homem mas aqui reaproximados pelo génio. Malcolm’s Theme, por sua vez, é puro statement, com a voz de Malcolm X a ecoar no final num discurso centralizador do sentimento religioso, defendendo a sua inclinação islâmica sem para tal necessitar de se opor a qualquer outra forma religiosa. Sendo Kamasi cristão, a opção pelo discurso de X releva a assunção de um só Deus, de uma só raiz, de uma só fonte, de uma mesma luz para diversas cores. E o que The Epic sonda, como é de esperar em qualquer épico, é a expressão da raiz, da fonte, desse deus simbólico capaz de se desdobrar em inúmeras encarnações. 
O universalismo aqui proposto não deve, porém, ser confinado a propostas fusionistas precedentes. Bitches Brew (1970), de Miles Davis (n. 1926 – m. 1991), é a mais tentadora das comparações, pese embora as barreiras melódicas que ainda impõe a um público vasto e pouco familiarizado com o jazz. Neste sentido, The Epic busca aproximar-se do grande público oferecendo-lhe peças perfeitamente acessíveis. Destaque para os temas onde aparece a voz de Patrice Quinn, pelo tom Motown a que associamos o talento de músicos tais como Marvin Gaye ou Stevie Wonder. 
Importa salientar a influência determinante do órgão ao longo dos três tomos, a enviar-nos aqui e acolá para as obras de grandes organistas porventura menos conhecidos fora do continente jazzístico tais como Reuben Wilson ou Richard “Groove” Holmes. Noutras ocasiões são os dois baixos a tomar a dianteira, sobretudo os solos irrepreensíveis de baixo eléctrico levados a cabo por Stephen Bruner (o xamânico Thundercat). Neste contexto, o saxofone tenor de Kamasi Washington é a batuta de um maestro que não só não pretende ofuscar o talento alheio como se esmera em elevá-lo ao zénite das suas capacidades através do espaço aberto para improvisações sucessivas. 
É óbvia a evocação de John Coltrane (n. 1926 – m. 1967), o tenor que nos fez acreditar não ser possível fazer mais com tal instrumento do que o que por ele foi realizado em A Love Supreme. Também nesse disco o sentimento ecuménico ecoava como agora ecoa. Sucede que agora o saxofone liberta tonalidades até então desconhecidas, provenientes de décadas de experimentação musical, resultantes de um cruzamento apurado onde se misturam os mais nobres elementos da música afro-americana. Não só pela referência cinematográfica, deixo como exemplo The Magnificent 7 chamando especial atenção para o solo de baixo que começa a desenhar-se ao minuto 9:



sexta-feira, 17 de junho de 2016

MINHAS LEMBRANÇAS DE LEMINSKI

Minhas lembranças de Leminski (Geração, Março de 2014), de Domingos Pellegrini (n. 1949), nasceu envolto em polémica. Nas badanas da edição impressa dá-se conta do facto. Convidado a escrever uma biografia de Paulo Leminski (n. 1944 – m. 1989), de quem fora amigo próximo, Pellegrini recebe das herdeiras do autor de Catatau (1975) um silêncio que o próprio considerará censório. Alice Ruiz (n. 1946), ex-mulher e mãe de três filhos de Leminski, opor-se-á à publicação de parte do conteúdo do livro em e-mail tornado público: «(…) não poderemos autorizar a publicação das imagens nem a publicação dos inúmeros textos dele». As razões são de diversa ordem, mas têm sobretudo em conta um retrato nada lisonjeiro do homem por detrás do poeta. Uma primeira publicação do livro surgirá, então, na primavera de 2013 em versão on-line. Lançado primeiramente na internet, o livro contribuirá para uma discussão acesa sobre liberdade de expressão, direito à privacidade, natureza das biografias… Independentemente do valor reconhecível, ou não, em cada um dos argumentos, certo é que a matéria se tornou pública, o livro teve a sua publicidade e Pellegrini acabou por levar a sua avante. Nada a opor. Contudo, e nestas coisas há sempre um porém a enguiçar o pensamento, são igualmente compreensíveis as preocupações dos herdeiros (dito assim, parece haver sobre quem fica uma mera responsabilidade jurídica sobre um espólio). Essas preocupações têm sobretudo que ver com a sobreposição do caricato ao essencial, ou seja, ainda que reconhecendo nestas memórias uma intenção testemunhal, mais do que biográfica, importaria não sobrecarregar o texto com aspectos meramente caricaturais da personagem leminskiana. O autor defende-se chamando a atenção para um mito começado a ser engendrado pelo próprio Polaco (alcunha de Paulo Leminski), um mito fundado numa intencionalidade lógica e calculista que reduzem o poeta à condição de esteta. É uma interpretação legítima, embora impossível de ser contraditada pelo visado e, nesse sentido, também legitimamente contraditável por quem lhe ficará para sempre ligado em sangue e memória. Esta é, para todos os efeitos, a dimensão ambivalente de uma obra deste género, até porque Domingos Pellegrini não se propôs escrever uma biografia do poeta curitibano, mas sim um retrato testemunhal de uma relação entre dois amigos que nem sempre estiveram de acordo quanto a temas estéticos, éticos e posturas vivenciais. De resto, sobre o poeta nada de novo: mistura de cultura popular com erudição, delírio existencial no convívio com um domínio lógico do pensamento que permite as mais extravagantes associações linguísticas, culto do absurdo e da concisão zen, humor, ironia, sentido lúdico da palavra e, em suma, da própria vida: «Poeta, para ser bom, tem de sofrer, escreveu Vinicius, mas sofrimento na vida a gente não precisa pedir nem esperar, vem e acontece como chuva chove, enquanto alegria é roupa que se veste como se despe por querer» (p. 19-20). O lado caricatural é o de um Leminski alcoólico, desleixado e laxista, inábil para os afazeres quotidianos, pouco higiénico, descuidado, frugal e desapegado, é o poeta monge, o poeta zen, a par do homem «beberrão, fumante, dispersivo», com os dentes estragados e «sono a qualquer hora», adoptando «como norma evitar banho». São imagens que se repetem assiduamente ao longo de 200 páginas repletas de citações e envios para os textos do próprio Leminski, aqui e acolá polvilhadas com anedotas pessoais e explosões de uma comoção que torna o texto, mesmo quando menos simpático, humanamente compreensível. Mas falha, falha precisamente por não haver nele um distanciamento racional que permitisse um maior aprofundamento de ideias fundamentais (a de poesia enquanto inutensílio, a título de exemplo) anteriores a um calculismo populista que Pellegrini sugere por demais vezes sem ter em conta que um poeta é, ainda mais neste nosso mundo de internéticas efabulações, esse todo onde se misturam obra escrita, palavra passada e imagem projectada. A dimensão que uns e outros mais valorizam é subjectiva, conquanto em todas elas habitem exemplos de liberdade e de loucura que tornam a poesia extra-ordinária aos olhos do mundo:

«Há quem diga que, se eu não me houvesse bilistruído, ah, talvez ainda escrevesse tanto, ganharia os prémios que nunca ganhei, receberia reconhecimento até da Academia (claro que quando chegasse aos noventa no mínimo, ou, com certeza, quando passasse dos cem), e daria entrevistas para turmas de colegiais no jardim de casa, respondendo sempre daonde vem a inspiração,
   e seria convidado para mesas-redondas com poetas quadrados, a maturidade me refreando o ímpeto de mandar tudo para o parnaso que os pariu; com vontade de, levantando num pulo, embora talvez com bengala, dizer não sei daonde vem a inspiração nem para onde vai o tesão de leão de zoológico, quero é saber cadê o meu cachê, e perguntar por que, em vez de mesa-redonda, não me convidam para uma cama- redonda,»


Palavra do poeta. Do homem dentro do poeta. Do homem-poeta-homem. Palavra de Leminski.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

PAPARAZZIZAÇÃO

Comecemos por recordar os cínicos, tal como Michel Onfray no-los apresenta: «Qual é o objectivo de Diógenes, de Crates e de Hiparquia? Acabar com a hipocrisia, a linguagem dupla, a moral moralista, o falso pudor, a dissimulação, a vergonha e outras variações sobre os temas, que se tornaram muito cristãos, da culpabilidade, da falta, do pecado, da recusa do corpo, do desprezo pela sensualidade e da aversão pela sexualidade. Não há nada de condenável num corpo sujeito à necessidade de alimento e de bebida. Então, porque é que, quando está dependente da pressão da libido, isso há-de ser um sinal de maldição, um traço de vergonha? A carne, os átomos, a matéria também são vítimas de desejos, de pulsões, de necessidades. A regra é satisfazê-los de uma forma tão desculpabilizada como o fazem os animais na natureza: a cultura pressupõe e propõe, segundo uma lógica ética, a obediência máxima às leis naturais. O materialismo equivale a uma lição cosmogónica na qual o bestiário serve de ensinamento eficaz, rápido e claro». Valeria a pena continuar a citação, mas isto é quanto chega para um depoimento assumidamente cínico. Desenganem-se, não emprego o termo com o significado que usualmente se lhe dá. Para mim, cínico é sinónimo de libertário. E o libertário que há em mim, sobretudo em questões de moral, recusa-se a olhar para um casal que pratica sexo em público com olhos de carrasco. 

Deixem-me partilhar convosco uma história pessoal. No verão passado arrisquei descer à Samoqueira do Rogil com a família e um casal de amigos, mais a respectiva prole. Foi um risco parvo. Não pelo que viemos a encontrar, mas pela descida íngreme e perigosa para alguém que carrega crianças menores de 10. Estavam na praia apenas um rapaz e uma rapariga, que depois de nós termos chegado se afastou alguns metros. Os possíveis, tendo em conta a parca extensão do areal. Enquanto descíamos a falésia e os vi, ocorreu-me o óbvio: vamos fazer de velas. Mas a meio do caminho não havia como desistir. Pois bem, façamos de velas. E assim foi. O rapaz e a rapariga afastaram-se e praticaram o amor a uma distância considerável do lugar onde estávamos, mas sendo-nos perfeitamente perceptível o que faziam e como o faziam. Impossível não olhar e não comentar, cabendo aos adultos atrair as atenções das crianças para o essencial: havia mar e rochas e areia à nossa volta, deixem lá os passarinhos. Tinha comigo uma boa máquina fotográfica, com excelente definição e um zoom capaz de registar a cena com os melhores pormenores. Como é óbvio, nem sequer me ocorreu tal possibilidade. Essas possibilidades normalmente só ocorrem a dois tipos de pessoas: aos grunhos e aos rebarbados. Como me tenho em boa conta, não me incluo em nenhum dos dois géneros. 

Vem isto na ressaca de um curioso debate acerca do casal filmado em Paredes de Coura a praticar relações sexuais. A minha primeira palavra é de total repúdio para com aqueles que filmaram a cena. Depois de ver o vídeo, impossível não ver o que nos atiram para cima, maior ainda é esse repúdio pelos comentários machistas e deploráveis dos herdeiros da tradição pidesca. Aposto que estavam de pau feito, a olhar para a mulher que sobre o homem trincava, comentavam eles, os lábios, enquanto lhe chamavam puta e cabra e sabe-se lá mais o quê que normalmente certos homens gostam de chamar a uma mulher quando a vêem foder. Nada sobre o macho, deitado sobre a relva, mãos atrás da cabeça, pés calçados, impávido e sereno. O trabalho era tão dela que ele poderá argumentar em tribunal ter sido violado. Portanto, o mal da cena recairá todo sobre a parte feminina. A postura passiva do elemento masculino está em consonância com o moralismo bacoco de quem olha para estas cenas com repúdio. 

Dito isto, a face chocante da cena é a presença de uma menor junto ao casal enquanto decorre o acto. Nenhum dos circundantes mostrou preocupação com o facto, limitaram-se a olhar e a filmar. Fosse uma cena de violência doméstica, talvez tivessem a mesma reacção. Filmariam. Estamos cada vez mais imersos numa sociedade para quem filmar é tudo quanto basta, filmar e divulgar nas redes sociais, filmar e mostrar ao mundo. A acção foi tomada de assalto pela reprodução, não interessa agir, importa filmar porque mais que o outro interessa a popularidade que aquele que filma granjeará com a partilha do documento. Quem assim actua não tem qualquer preocupação moral e não manifesta qualquer móbil ético. Caso contrário, esconderia das filmagens, pelo menos, a criança, protegê-la-ia de um universo infindo de depravados para quem o amor é mais vergonhoso do que a fome. 

Julgará talvez quem me leia que acho muito bem o sexo em público, mormente com crianças por perto. Julgará mal. Há configurações penais para tais actos que me parecem razoáveis, tendo em conta que o espaço público é de todos e nem todos estão na disposição de se sujeitarem a cenas de sexo alheio. Portanto, ainda que os cínicos tenham tido o seu tempo, parece-me cada vez mais importante retomar alguns dos seus ensinamentos. Isto porque com os avanços tecnológicos a não serem acompanhados por avanços culturais estamos a entrar num dia a dia perverso e perigoso, demasiado perigoso, o quotidiano da delação, da invasão de privacidade, de um total desrespeito pelo outro, com os valores morais subsumidos no pântano do populismo e do sensacionalismo mais acéfalos. 

Não estou com isto a advogar o direito à privacidade de um casal que faz sexo em público, o que seria por si só ridículo e em si mesmo uma contradição. Sobre esse casal pesará a justiça, presumo eu que com especial inclemência estando uma menor envolvida na cena. Estou a alertar para uma outra dimensão do problema, o de estarmos tendencialmente mais vulneráveis e sujeitos ao arbitrarismo dos grunhos e dos burgessos que por terem nas mãos uma coisa que filma se julgam juízes do mundo. Trata-se de uma espécie de “paparazzização” do mundo que, resumindo, é de todo menos saudável do que dar uma queca ao ar livre. Porque nos obriga a cuidados redobrados, obriga-nos a andar escondidos como só nas ditaduras era suposto andarmos.

CANÇÕES

O que procuram, realmente, as pessoas nas canções pop? Desejam alguém que sofreu de verdade, que se trate de algo autobiográfico ou existe espaço para a irreverência presente em todas as formas de arte excepto na escrita de canções?

Andrew Bird, via João Lisboa.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

POBRES PALHAÇOS

Um rapaz que se diz humorista tentou fazer uma piada com o atentado de Orlando. Saiu-lhe torta, não tem graça, isto é, não faz rir. Perante isto, alguém subjectiviza a graça da piada e diz: a mim faz, eu rio-me com esta piada. Admitimos então que a piada tenha graça para algumas pessoas, o que não nos passaria pela cabeça passa a ser uma probabilidade comprovada pelas centenas de likes. Há centenas de pessoas que se divertem com piadas sem graça, há pessoas para tudo. Num mundo livre o rapaz tem todo o direito a fazer as piadas que bem entender, assim como eu tenho todo o direito a criticar essas piadas, a dizer que elas não têm piada, a tentar explicar que elas não são sequer um produto do humor negro, conceito por detrás do qual se escudam para poderem existir um pouco acima do que realmente são, isto é, bosta mental. O humor negro é inteligente, tem raízes literárias demasiado fortes que não podem ser postas em causa por um ignorante que dá voz ao pensamento dos burgessos. Seria o mesmo que aceitar para a música de Quim Barreiros o epíteto de barroca. A ninguém passa pela cabeça, julgo eu, que a música de Quim Barreiros seja erudita ao ponto de lhe darmos o mesmo valor que damos a Bach. Quero dizer, acho que tal ideia não passa pela cabeça de ninguém. Mas como disse, há pessoas para tudo. O que ressalta desta questão, independentemente dos truques que cada um utiliza para atrair sobre si atenções, é a tremenda confusão que nos armadilha o pensamento sempre que nos metemos a relativizar e subjectivar tudo como se as coisas não tivessem o seu valor e esse valor não adviesse de um maior ou menor conhecimento que temos das coisas e do mundo. Quem determina o valor de uma coisa? Sejamos mais objectivos, quem determina o valor de uma piada? Será o riso que a piada provoca? Nesse caso, se a piada provocar mais asco do que riso deveremos considerá-la uma má piada? Julgo que seria demasiado académico perder-se tempo com tamanha discussão, das discussões académicas retiramos quase sempre pouco mais do que o ensinamento de um tédio enorme. Tipos que pensam como burgessos fazem piadas ao nível dos burgessos, são apenas isso mesmo, burgessos. Assim como os hooligans não são exactamente adeptos de futebol, também o vandalismo humorístico não é exactamente humor. Nada disto tem que ver com limites, muito menos do humor ou da liberdade de expressão, até porque ninguém espera limites no pensamento de um grunho. Seria insensato esperar de um grunho que pensasse com inteligência. Se é grunho é precisamente porque não pensa com inteligência. Os hooligans, por exemplo, pensam com a raiva, com os músculos, pensam com a vontade de destruir. Tipos que fazem piadas são apenas isso, tipos que fazem piadas. Mas também podem, em função das piadas que fazem, levar-nos a pensar que não pensam senão com o intestino grosso, nomeadamente porque das piadas que fazem ressalta apenas e tão-somente uma espécie de hooliganismo humorístico. Querem que olhemos para eles pela porcaria que fazem, nós olhamos, é impossível não olhar, vêem-se por todo o lado. E dizemos olha para estes palhaços, que tristeza de palhaços. Pobres palhaços.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

SENHOR ROUBADO

Seria insensato olhar para o presente como se o passado não tivesse acontecido, mas a tendência para julgar o presente em função do passado denota um certo facilitismo. Como olhariam para o seu tempo os mestres do passado, aqueles antes dos quais a história se resumia a um vazio em construção? O que deles sabemos, ou julgamos saber, é fruto de uma elaboração levada a cabo ao longo de séculos, milénios, não resulta de provas irrefutáveis, científicas, baseadas no empirismo dos factos. Em certa medida, a visão que aceitamos ou formulamos do passado é sempre uma ilusão. Uma ilusão mais ou menos fundamentada, mas ainda assim ilusão. Talvez aqueles que há 2500 anos se pensavam em termos poéticos e filosóficos se pensassem mais em função de uma projecção imaginária do futuro do que em função de uma guilhotina com a designação eufemística de tradição. Mera suposição de quem hoje tenta compreender como se pensa já não em termos poéticos e filosóficos, mas meramente literários. 
Assim sendo, escrever sobre o amor, a morte, a liberdade, a traição, o medo, a solidão, escrever sobre as grandes conquistas e o que nelas perdura, escrever sobre a guerra, sobre o ódio, sobre a inveja, sobre a coragem, escrever sobre valores tais como a amizade, a perseverança, a temperança, implicará um cuidado adicional do qual os grandes escritores do passado estavam desobrigados. Esse mesmo cuidado deve ser colocado quando o tema é a própria actividade literária, a escrita do poema, tantas vezes cara aos poetas, demasiado cara, tão cara que chega a enjoar. Escrever sobre escrever é um tema como outro qualquer, pelo que não pode desobrigar-nos da mesma atenção que nos vincula à tradição. Pois é já parte da memória poética esse fardo de escrever sobre a escrita de poemas, a putativa essência do poema. No presente não podemos senão detectar tendências, pelo que os grandes temas do nosso tempo não são senão os grandes temas de todos os tempos. Apenas que perspectivados de uma maneira diferente, com uma paisagem transformada pelo curso natural dos dias. 
Há muito que a ruína, por exemplo, vem sendo tema. E quem diz ruína diz o que dentro dela a faz mover-se, o motor da ruína, esse ditador que dá pelo nome de tempo e tantas vezes assume a configuração de uma degenerescência ou de uma decadência ou de um declínio. A perda, a falta, a ausência, até o distanciamento do sujeito poético face à sociedade de que é parte integrante, ainda que à margem ou paralelamente, resultam dessa mesma consciência fenomenológica do tempo. Vem isto a propósito de um livro como Senhor Roubado (Douda Correria, Abril de 2016), de Raquel Nobre Guerra (n. 1979), um livro que, sendo do seu tempo, nele não se esgota, porque extravasa a datação de uma paisagem perfeitamente identificável com um discurso incisivo acerca do que não tem tempo: «Não foi preciso muito para que a cidade / começasse a tomar o veneno do milho / e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio, / a Barateira, até os grandes candidatos / à última cadeira ficaram por sua conta. / Lisboa é uma azinhaga tristíssima. // Talvez queiram acabar com a música / as doenças tropicais, os sonhadores. / Fechá-los no foyer servir-lhes faisão / e orquídeas negras, preveni-los de que / no sopé da lixeira haverá sempre lugar / para mais uma mantinha. // Que dias estes em que o amor passou / para um tempo que não mexe». E o poema continua, num desprendimento capaz de colocar lado a lado Nine Inch Nails e Mário de Sá-Carneiro como quem observa nas margens do rio, frente a frente, enquanto o rio passa, o passado e o futuro a olharem-se com desconfiança. 
Raquel Nobre Guerra escreve na primeira pessoa, oferece-nos com um olhar desencantado retratos expressionistas de um lugar onde está (de estar) sem sentimento de pertença. Escusado falar-se da desintegração do sujeito poético, típica de um modernismo que observava na rede eléctrica nacional um paradoxal confronto do progresso com a panorâmica rural e sombria de um país atrasado. A capa de Senhor Roubado resulta de uma feliz interpretação de Luís Henriques e faz justiça a uma poesia onde esse mesmo confronto surge reconfigurado pelo desconforto de quem parece não se encaixar no bairro e, por isso mesmo, arrisca fingir a pose de quem não finge poses para nos atirar à cara o osso escrutinado dos dias correntes: «Que valha a pena andar aqui com o propósito / de ter ponta por se estar vivo ainda que falido». Se o tom niilista não pode ser confundido com tema, com grande tema, pode pelo menos levar-nos a supor ser um dos grandes temas da nossa poesia actual este total descomprometimento com isso a que alguns insistem em tratar por grandes temas. O não-tema será, pois, um dos grandes temas da actualidade. Ir do bairro para o mundo, aproveitando a boleia da fibra óptica e sem peias de dizer quão baixas são as expectativas neste charco de ilusões que é a poesia, que talvez sempre tenha sido a poesia, «num país onde o poeta nos leva o talho a casa / e se morre de fome num país cheio de poetas».

O DRAMA ACIMA DE NÓS

Quais são as vantagens e desvantagens de trabalhar num grande grupo editorial? Imagino que haja constrangimentos.
Sim, eu tinha trabalhado vários anos numa editora e até aí não tinha de apresentar objetivos, fazer planos: se ganhasse mais ali, podia ganhar um prémio.
Isso hoje é...
É básico, pois é. Mas na altura foi uma dificuldade porque não estava habituada a dizer quanto é que vou vender este ano e se não vender o que é que me acontece. Eu não sabia nada disto e tive de aprender, como é óbvio. Mas também acho que faz falta uma certa coordenação. Não se podem lançar livros em pensar. É preciso perceber se há público, ver as tiragens, não se pode fazer as coisas de qualquer maneira. Tive de me habituar a isso. Também tive de me habituar a outra coisa, essa bem mais difícil, que é a de ter acima de nós pessoas que não gostam de ler, pessoas que não percebem o que é um livro. Isso é dramático.

Maria do Rosário Pedreira, entrevistada por Bruno Vieira Amaral, revista LER, Verão de 2016.

terça-feira, 7 de junho de 2016

IDOSOS AO JANTAR

A notícia pode passar ao lado, mas merece ser citada: ultranacionalista francês foi detido na Ucrânia com um autêntico arsenal de guerra. França, essa república multicultural onde a Frente Nacional de Marine Le Pen soma e segue. Já na Áustria, a extrema-direita de Norbert Hofer, líder de um partido com o insidioso nome de Partido da Liberdade, esteve a uma unha de ganhar as presidenciais. Fala-se em “sentimento geral contra o establishment”. Onde é que já ouvimos isto? Ao lado da Áustria, mais propriamente na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán, líder do Fidesz – União Cívica Húngara, continua a erguer os seus muros contra os migrantes e refugiados, argumentando que, e passo a citar, “tudo indica que a esmagadora maioria destes migrantes votará nos partidos de esquerda assim que se tornarem cidadãos”. Comentários para quê? É um líder da direita austríaca. Na Polónia afina-se pelo mesmo diapasão. E vai-se mais longe. Os analistas referem uma deriva autoritária, com tentativas de enfraquecimento do Tribunal Constitucional e a adopção de leis que limitem severamente a liberdade de imprensa. Só estou a citar. Mas transcrevo: «Da sua ideologia nacional católica faz parte a ideia de que a transição pactuada de 1989 foi uma fraude que permitiu aos comunistas manterem o poder, e que deve haver uma refundação constitucional, a IV República. O PiS contesta, pois, a legitimidade das instituições democráticas estabelecidas em 1989 e renegociadas na Constituição de 1997. Do seu programa de 2005 fazia parte um novo projecto de Constituição que começava com uma invocação a Deus como legislador supremo, uma prática constitucional abandonada no século XIX.» Os sublinhados são meus. Jaroslaw Kaszynski, líder deste movimento autoritário católico, está preocupado com os jovens vegetarianos e ciclistas que nada têm que ver com a cultura polaca. Não estou a brincar. Isto é real. Enfim, podíamos ainda mencionar a popularidade crescente da Aurora Dourada na Grécia, do Partido dos Finlandeses na Finlândia, a duplicação de eurodeputados conseguida pelo Partido do Povo Dinamarquês, a afirmação islamofóbica defendida pelo Partido da Liberdade de Geert Wilders, na Holanda, os declarados neo-nazis do Movimento por Uma Hungria Melhor, o discurso racista da Liga Norte, em Itália, com afirmações do tipo “África não tem produzido grandes génios, como se pode ver na enciclopédia do Rato Mickey”, a radicalização do discurso contra os imigrantes em Inglaterra… É esta a Europa produzida por “Gollum” Schäuble, cérebro de uma putativa União que perante tal cenário só manifesta preocupações com consensos à esquerda, políticas sociais e solidárias. A grande bandeira da Europa no séc. XXI é pois a do segregacionismo, com seus ligeiros apartheids a abrirem caminhos para uma História que se repete. Já não se trata de imprudência, é mesmo burrice. Por cá, alguns também vão fazendo os seus fretes. Basta seguir os truques da imprensa portuguesa para perceber a discriminação, embora ela seja mais estupidamente tendenciosa do que perspicaz. Ainda há dias, certo pasquim queria dar a entender aos seus leitores, com o título que passo a reproduzir, que a esquerda é insensível aos idosos: Esquerda chumba lei que criminaliza abandono de idosos. Se outrora comiam criancinhas ao pequeno-almoço, sobra agora aos comunistas carne de idoso ao jantar. Alguns caíram, apanhados pela parangona sem mais informação. E logo se puseram a declamar coisas do género: cães valem mais do que idosos para a esquerda portuguesa. Se soubessem o que foi chumbado talvez formassem outra imagem do problema. Desde logo porque o abandono de idosos já é crime, o que se chumbou foi a criminalização do abandono de idosos em hospitais. Não consta que por lá se abandonem cães. Mas por que motivo se abandonam idosos nos hospitais? E por que não deve isso ser crime? Porque em muitos casos esse abandono é consequência da total carência de meios materiais que garantam um acompanhamento digno das pessoas idosas. Ora, não seria muito mais justo votar-se uma lei que garantisse apoio social a famílias carenciadas no sentido de evitar tais situações? Pois, façam a pergunta ao “Gollum” Schäuble. Ele é que percebe de políticas sociais. E de europas solidárias.

domingo, 5 de junho de 2016

MUHAMMAD ALI (1942-2016)


O pugilismo tem inspirado bons filmes. Ocorrem-me, assim de repente, Raging Bull (1980), de Martin Scorsese, The Boxer (1997), de Jim Sheridan, Million Dollar Baby (2004), de Clint Eastwood, ou o nosso Belarmino (1964), de Fernando Lopes. Aprecie-se mais ou menos a modalidade, é impossível negar-lhe certa dimensão plástica, com dois corpos a bailar num ringue enquanto desferem golpes um no outro, simulam ataques, movimentam-se a defender, resistem até à exaustão do adversário para depois explodirem em golpes certeiros, implacáveis. Não são permitidos golpes baixos no boxe, ou seja, do quadril para baixo. Talvez venha daí a expressão golpe baixo, aplicada a acções desleais e insidiosas. Muhammad Ali não foi apenas um grande pugilista, o maior de todos os tempos, a incorporar com mais estética do que qualquer outro tudo o que o boxe pode ter de belo. Ele foi igualmente um exemplo de luta ética fora dos ringues, nele a estética e a ética aliaram-se para um combate muito maior do que seria imaginável na existência de um desportista. Inegável a controvérsia do seu discurso, porventura aproveitado pelas piores razões por quem dele se serviu para chegar às massas. Mas vejamos: nascido no estado racista do Kentucky, Cassius Marcellus Clay Jr. chegou tão rapidamente a campeão de pesos pesados como a figura maldita em toda a nação americana depois de se ter recusado a combater no Vietname. A objecção de consciência valeu-lhe todo o tipo de ódios, fazendo ele dos golpes baixos motivo para lutas políticas que extravasavam as cordas do ringue. Converteu-se ao islamismo como Malcom X, de quem foi amigo próximo até se terem afastado com a sombra de Elijah Muhammad no centro da discórdia. Ali defendia os negros com um discurso racista, advogando uma separação entre raças que, em suma, simbolizava um orgulho extremado nas suas raízes. É difícil compreender isto sem um pouco de psicologia social. Estávamos no auge do activismo político nos USA, com a luta pelos direitos civis, nomeadamente das comunidades afro-americanas, a ocuparem uma enorme fatia do debate político. Muhammad Ali tornou-se um dos ícones dessa luta e, embora seja hoje um lugar-comum reconhecê-lo, foi esse o mais importante dos seus combates. Will Smith deu-lhe corpo no filme Ali (2001), de Michael Mann, clarificando aos olhos do mundo como o desporto nem sempre pode ser reduzido à face atlética e corporal. A outra face, complexa e desafiante, é a que advém do modo como os ídolos de massas podem exercer a sua influência ao passarem uma mensagem em larga escala e com a precisão de um golpe certeiro. É que essa mensagem vai directamente ao coração dos fãs, dos admiradores, acerta no coração tanto quanto desperta a consciência. O knockout numa personalidade desta dimensão significa algo mais do que uma mera perda para a humanidade, como se costuma dizer, na medida em que pode ser também um enorme ganho se soubermos colocar em perspectiva o quanto vale o exemplo de uma vida assim. A sua popularidade pode ter sido manipulada, ele pode ter sido vítima das suas próprias circunstâncias, não faço de Ali um exemplo para a vida no que respeita ao discurso segregacionista e dúbio profetizado em inúmeras intervenções. Diverte-me o lado polémico da personagem, tanto quanto me estimula a sua dimensão iconográfica e inquieta o lado puramente combativo. Este sim, exemplar.

sábado, 4 de junho de 2016

THAT'S ALL FOLKS!



- Após os atentados terroristas de Paris, a atenção das forças policiais voltou-se para as chamadas fan zones. A final da Taça entre Marselha e Paris Saint-Germain foi um teste com resultado inesperado. As autoridades não estão atentas como seria desejável.

- Cheias inusitadas no Sena fazem as primeiras vítimas. Autoridades preocupadas com a viabilidade dos passeios turísticos nos bateaux-mouches.

- Protestos contra a Lei do Trabalho têm transformado a rua francesa num caos com confrontos diários entre manifestantes e forças policiais. Mais uma vez, as autoridades mostram-se deveras preocupadas. Com a realização do Euro 2016.

- O outrora enfant terrible do PS ofereceu ao Público uma entrevista esclarecedora: o partido precisa de gente que diga com clareza aquilo que tem a dizer. Entre outras coisas claras, o pendura diz que não votou em ninguém, que ainda não decidiu, que o futuro quando chegar, chegou, que é muito cedo para fazer balanços, que não tem soluções milagrosas. Surpreende, porém, a agilidade silogística do bicho: 1. Continuamos a viver em austeridade; 2. Portugal tem de tomar as decisões que se impõem para permanecer no euro; 3. Não podemos persistir naquilo que é uma flagelação insustentável da classe média. Lewis Carroll não diria melhor.

- Cito: «Essa pergunta não vai ser respondida satisfatoriamente, porque exigia que eu pensasse sobre ela e não há tempo para o fazer». (Sérgio Sousa Pinto)

- A direita xenófoba e racista cresce por toda a Europa, da França à Grécia, entre a Áustria e a Hungria, na Polónia, etc. Bruxelas inquieta-se com pactos, coligações, políticas de esquerda, mas mantém-se impávida e serena face ao recrudescimento neo-nazi. Registe-se.

- Paulo Portas despediu-se do Parlamento. O Parlamento bocejou.

UM POEMA DE KOLBEIN FALKEID

sexta-feira, 3 de junho de 2016

POSTAIS PORTUGUESES #3



Já toda a gente sabe da taróloga da SIC que aconselhou uma vítima de violência doméstica a tratar o seu agressor como se fosse sua mãe. O que nem toda a gente compreendeu foi o alcance do conselho. Eu sempre defendi que Portugal tem os melhores intrujões do mundo. Embora não conheça os dos outros países, vivo convencido disso mesmo. Entre eles, alguns astrólogos, médiuns, pastorinhos, políticos aos magotes e escritores tantos mais… Enfim, em matéria de charlatões (ou será ães?) podíamos resolver facilmente o défice de exportações. Mas os nossos são bons, mesmo vintage, porque dizem verdades quando julgam estar a aldrabar e aldrabam quando se convencem de que têm verdades para dizer. Acontece aos melhores... e ao Jesus da Alexandra Solnado. A desgraçada taróloga da SIC foi honesta, disse não uma mas várias e insofismáveis verdades. (Permitam-me um parêntesis: a palavra insofismável é pura charlatanice. Adiante.) Ela lembrou-se da mãezinha dela e de como a sua mãezinha a tratava, daí que tenha projectado na vítima de violência doméstica as porradas que levou na cabeça da sua própria mãe quando era criancinha. A mãe batia-lhe e ela amava a mãe. Porradas essas que a transformaram numa taróloga, que lhe abriram os caminhos da mente e lhe proporcionaram conhecimentos para vida. Para a vida dela e para a vida dos outros, nomeadamente das vítimas de mães violentas. Também ela vítima na infância de tabefes e de chibatadas, lembrou-se de que ser mãe era isso mesmo. Isto é, reagir com firmeza à violência de que se é alvo, partir para a porrada… mas sempre com amor e carinho. Porrada com carinho é assim tipo partir a própria cabeça ao dar uma cabeçada no adversário. O nosso país está cheio disto e devia promover a matéria-prima que tem, mesmo quando ela vem de fora e se instala por cá com indubitável sucesso. Da santinha da ladeira à taróloga Maya, é um ver se te Gustavo Santos. Ainda hoje abri a Gazeta das Caldas e lá estavam o Fati e o Mestre Sane, um conhecido por grandes personalidades do mundo, o outro capaz de tratar à distância qualquer mal, o primeiro capaz de tratar os problemas mais difíceis e desesperados, tais como justiça e carta de condução (sic), o segundo capaz de amarrar maridos e amantes e sei eu lá mais o quê. Resolvi testar a sabedoria de um deles, expondo um grave problema que me afecta há décadas e dá pelo nome de prisão de ventre. Em pouco mais de trinta segundos tive o meu problema resolvido, caguei-me a rir. E ainda levei de premeio notícias sobre a nova e anunciada obra do Chagas Freitas, um tal de Prometo Perder, sequela de Prometo Falhar, opus magnum da charlatanice à portuguesa, a par das teses de filosofia política alavancadas por José Rodrigues dos Santos ou do insano universo de chefes capazes de transformar uma ervilha num manjar dos deuses. É como vos digo, charlatões e charlatães não nos faltam. Estamos bem servidos, muitos chegam a ministros da nação e outros até a presidentes, administradores ou CEOs, vendedores de banha da cobra, etc. Chegam sempre longe, mesmo que fiquem por perto. Que é o que quase sempre acontece, para bem de todos nós e das audiências da SIC. 

MÁRIO NUNES


Anteontem senti um arrepio na espinha ao escutar esta crónica do Rui Cardoso Martins enquanto levava a minha filha mais nova à escola. Refere-se a Mário Nunes, um jovem português que “preferia morrer a não fazer nada”. Morreu a fazer qualquer coisa. Morreu com 22 anos, não se sabe se abatido em combate, se colocando fim à própria vida para não cair nas mãos do inimigo. Desertou da Força Aérea, foi para o Curdistão, juntou-se às Unidades de Protecção Popular na frente de combate. Foi combater um bando de energúmenos que, sob a bandeira do islamismo, tem vindo a espalhar terror e ódio pelo mundo. Tenho sentimentos ambíguos relativamente a Mário Nunes. Olho para a fotografia publicada na revista Sábado e vejo um jovem aventureiro, fascinado por jogos de guerra e com atitudes e poses heróicas que me inspiram desconfiança. Certo é que, movido por forças, vontades, ambições, paixões, valores, desejos que só ele saberia, não ficou parado a olhar para a paisagem. Como se costuma dizer, ofereceu o peito às balas. Costuma dizer-se isto metaforicamente, não em sentido literal como deve ser no caso de Mário Nunes. E é essa literalidade que nos perturba e causa estranheza, porque é estranha nos dias que correm entre nós, porque nos é estranha, porque inquieta e desassossega o nosso espírito revoltado em tépida raiva. Nem que fosse por isso, já merecia o meu respeito e consideração. Não sei se consigo admirá-lo, sei que o respeito e considero. Preferiu morrer a ficar por aqui escrevendo palermices sobre os que morrem.