quinta-feira, 13 de outubro de 2016

BOB DYLAN NAS LIVRARIAS

Devo dizer que me estou nas tintas para o Prémio Nobel da Literatura. Nunca li um escritor nem procurei um livro por lhe terem sido atribuídos prémios. Este ano há um mas, um aspecto menos convencional que me agrada. E além do mais gosto muito de muitas canções de Bob Dylan, foi a tentar tocá-las que aprendi a tocar guitarra, isto é, a arranhar uns acordes numa guitarra. Depois há o lado profissional da coisa, aquele que me obriga a desiludir o Xilre quando na sua pergunta traz implícita uma resposta ilusória: Imagino a cara dos editores & livreiros. O que irão colocar nas montras, nas estantes, nos destaques?



É verdade que há pouca literatura de e sobre Dylan em Portugal, como, aliás, muitas vezes acontece quando o autor galardoado é escritor de poemas ou de romances ou de peças de teatro… Basta recordar que o Nobel de 2011, Tomas Tranströmer, não tinha um único livro traduzido para português à data do anúncio da atribuição do prémio. Com Dylan não haverá semelhante problema. Desde logo porque são inúmeros os livros sobre ele disponíveis no mercado de importação, alguns até acerca de facetas artísticas menos conhecidas do autor de Like a Rolling Stone. Mas já por cá existe matéria traduzia que pode chegar muito rapidamente aos escaparates. Desde logo, as Crónicas – Volume 1, publicadas pela Ulisseia em Outubro de 2005 com tradução de Bárbara Pinto Coelho. Trata-se de uma espécie de memórias concentradas na chegada a Nova Iorque, já com a intenção clara de se tornar escritor de canções: «Não era nem de amor nem de dinheiro que andava à procura. Tinha um sólido sentido de consciência, sabia o que queria, mas não era pragmático e ainda por cima era um utópico» (p. 14). Valeu. 





Menos provável será a recuperação do velho volume publicado pela Centelha na Colecção Rock On. Data de Março de 1985 e foi dos primeiros livros de poemas que li com forte entusiasmo. Em edição bilingue, com tradução de Graça Nazaré, podemos aperceber-nos da maestria lírica latente nas canções de Bob Dylan. Dois versos de Blowin’ in The Wind: «Quantos anos pode uma montanha existir / antes de ser arrastada para o mar?» Ou os versos de A Hard Rain’s A-Gonna Fall, canção que é toda ela um poema repleto de imagens e de alusões à boa maneira beat. O Dylan da canção de protesto que no meio de uma história podia declarar amor a Fidel Castro, o Dylan onírico, surrealista, que em Mr Tambourine Man canta: «faz-me desaparecer pelos círculos de fumo da minha mente, / pelas enevoadas ruínas do tempo, bem além das folhas geladas, / das assombradas árvores temerosas», o Dylan trovador pode e deve e será exposto nas livrarias, pois é um poeta ao nível dos melhores e de algum modo limpará de um qualquer recanto mercantilista um pouco da tralha que atola hoje os espaços livreiros. Portanto, a breve trecho é muito provável que venhamos a ver disponibilizada uma antologia do género.



E há ainda e sempre os acordes, os livros de acordes, como este que tantas vezes tenho aberto para ensaiar All Along The Watchtower ou I’ll Be Your Baby Tonight. Portanto, motivos de regozijo para a indústria livreira não faltarão. Verdade que edições recentes de Adonis na Porto Editora e na Dom Quixote hão-de ter deixado de monco caído alguns apostadores natos, mas desengane-se quem julgar que a surpresa trairá os piores hábitos de quem singra pelo negócio. O Nobel da Literatura foi para Bob Dylan? Pois bem, publique-se Bob Dylan.


Adenda: por justiça, refiram-se igualmente os dois volumes de canções editados pela Relógio D'Água - Canções - volume I (1962-1973) e Canções - volume II (1974-2001) - em 2006 e 2008, assim como a única obra de ficção publicada por Bob Dylan até hoje, de seu título Tarântula, dada à estampa pelas Quasi Edições em 2007.

DEDICATÓRIA


Uma tese de doutoramento dedicada a Bob Dylan. Da Mariana, aqui.

UM CONCERTO DE BOB DYLAN


13 de Julho de 1993, andava eu perdido pelas colinas da capital há meia dúzia de meses. Falhar a oportunidade de assistir ao concerto de um dos meus ídolos estava fora de questão. Precisava de 4500€, consegui os 4500€. Dirigi-me à Bimotor, discoteca nos Restauradores onde comprei dezenas (centenas?) de CDs, e os olhos vidraram, o rosto transpirou, o coração palpitou quando me vi com o bilhete nas mãos. Inicialmente agendado para o Restelo, julgo que por falta de público acabou por ser transferido para o dramático de Cascais. A 1.ª parte do Sérgio Godinho desapareceu, sendo substituída por uma suposta 2.ª parte de Laurie Anderson. Referi-me a esse momento aqui, mas não contei o mais relevante. Durante a actuação de Anderson, grande parte do público manteve-se de costas voltadas para o palco. O ruído era imenso, a performance literária de Laurie estava a passar ao lado. Não dos meus sentidos, absolutamente concentrados e extasiados pela encantadora experimentação daquelas canções. Confesso que ganhei mais nesse dia com o concerto de Laurie Anderson do que com a prestação de Bob Dylan. Já numa fase trôpega de um percurso instável, Dylan mal se ouvia. A voz resumia-se a um imperceptível arrastar de sílabas, a acústica estava péssima, indisponível para harmónicas e, a espaços, verdadeiramente insuportável tal era a cacofonia. Mas Bob Dylan estava ali a dois ou três metros, para mais com um álbum acabado de editar que revisitava os bons velhos tempos da canção folk e dos blues. Ainda cá por casa no velho formato vinil, volto a escutar Good As I Been To You (1992) e sou surpreendido por uma canção intitulada Blackjack Davey. Trata-se de um entre muitos tradicionais norte-americanos que Dylan recuperou, desbravando terreno para que outros, depois dele, como os The White Stripes ou Elliott Smith, continuassem a fazer viver o que há de melhor no imaginário popular daquelas bandas. É neste sentido que podemos chamar-lhe um clássico sem ofender o que teve de inovador. Pessoalmente, como já afirmei noutras paragens, prefiro Leonard Cohen, Tom Waits ou mesmo Nick Cave enquanto escritores. São compositores onde a face literária está mais exposta. E em termos gerais de fusão entre a música e a palavra agradam-me mais as obras de Neil Young ou de Bruce Springsteen, embora seja sempre com agrado que regresso a Bob Dylan:


BOB DYLAN


Nobel da Literatura para o escritor de canções Bob Dylan. Referências neste weblog: um western com Dylan no papel de actor e compositor da banda sonora (aqui), a estreia em disco (aqui). Há mais, mas resultam de referências e citações em contextos laterais à obra do autor em causa. Hoje haverá recordações ao longo do dia. Robert Allen Zimmerman ficará para a história como o escritor que elevou universalmente a canção ao nível da literatura.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

ACTUAL

Cada vez mais alheado da actualidade, chego a casa, bebo um copo de vinho, deito-me na cama a ler um livro ou a percorrer a lista de weblogs diários e digo para comigo: ainda não é desta. Ali uma fotografia, acolá um poema. Jogam lindamente uma com o outro. Ela, a fotografia, ele, o poema. Eu a fazer de vela com taliscas de Trump e fogachos de taxista, tudo a 500 à hora, passando-me pelo lado que mete mais nojo. Bom, bom, mesmo bom, era o Trump apanhar um táxi e só pararem quando chegassem a Aleppo. Vivêssemos nós, de facto, no melhor dos mundos, uma bomba cairia por cima deles e ficaríamos todos mais sossegados a ler poemas e a contemplar fotografias. 

sábado, 8 de outubro de 2016

PAÍS



Copiado do Malomil.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O MEDO

Publicado originalmente em 1982, quando José Martins Garcia (n. 1941 – m. 2002) vivia nos EUA como professor visitante da Brown University (Providence), O Medo é uma novela onde se olha retrospectivamente um Portugal algures entalado entre a herança do regime fascista e as ilusões desfeitas pelo chamado Verão Quente. O texto foi, porém, trancado por uma data que nos indica o local e o dia em que terá sido dado por findo: Lisboa, 25 de Abril de 1979. Portanto, na ressaca da dita Revolução dos Cravos, imerso numa sociedade perdida entre os tiques do antigo regime e a ignorância da democracia. Temos, deste modo, dois planos de acção, com características muito próprias, a entrecruzarem-se ao longo da narrativa. No primeiro, a personagem central anda pelos quase vinte anos e encontra-se em Angra do Heroísmo. Estamos na década de 1960, o medo impõe-se pela desconfiança que os homens sentem uns relativamente aos outros, travados pela observação bufa de um regime castrador, o qual faz assentar os seus métodos numa sociedade ameaçada pela letargia, pela incapacidade de agir, pela pose curvada e reverente às instituições dominadoras, sejam elas o Estado e seus séquitos ou a Igreja e seus acólitos. No segundo plano de acção, a personagem central anda pelos quarenta anos de idade. Estamos a entrar na década de 1980 em plena capital do país, com incursões esporádicas por outras cidades de uma sociedade arrastada pela convulsão política. É o tempo das utopias e das ilusões, dos movimentos políticos, da luta partidária, de uma descarada inaptidão para essa coisa nova que dá pelo nome de democracia. Em suma, «tempo de ladrões e revolucionários» (p. 23). O desencanto é evidente, a revolução rapidamente se transforma numa replicação dos vícios humanos quando a olhamos a partir das pessoas, a revolução não chegou às pessoas, parece ter encontrado nelas a rocha que impede o mar de invadir a terra. Resultado: quem acreditava ser possível um país novo rapidamente cede a um cansaço interior que prova continuar tudo velho, ainda que agora se chame intolerância ao que dantes era censura. O medo persiste como uma espécie de vírus de que o sangue não se liberta, não é expurgante para vírus tão poderoso e antigo, tão histórico que parece confundir-se com o próprio sangue, vírus essencial, genético: «Rolam argumentos, à falta de cabeças. Os argumentos passarão como espuma, as cabeças ficarão na medida da prudência tradicional. Poderia ficar a noite inteira a exibir motivos de sincera renúncia, a debitar a bílis de que as traições me vão carregando. Mas, se calhar, não me habita sequer a bílis desses desregramentos. Se calhar, mato em mim todo o ressentimento devido à convicção profunda do ridículo envolvente. Poderia igualmente remexer na história deste país, gastar saliva e massa cinzenta — inutilmente, claro está! — na detecção deste ar podre, em vigor desde o século XVI, talvez antes: esta espécie de caruncho, este masoquismo de corrupção, este medo que passeou pelas fogueiras, porque neste país não se mata nem se morre na luta, queima-se o herege num cenário confortável, a encenação possível dentro do mau gosto histórico, estrafega-se o herege num palco rudimentar bem protegido pelas forças de segurança, pois se as não houvesse ali bem cobardes e impunes os carrascos começariam ao primeiro cagaço a dar vivas aos hereges e a soprar arrotos arrependidos contra o rei, o papa, a ausência que des-responsabiliza e instaura a sublimação dos canalhas…» (pp. 52-53) A citação mais longa justifica-se por nela ser perceptível o medo de que estamos a falar, um medo anterior à morte que se declara medo de viver, de agir e actuar em liberdade, exigindo ao indivíduo a tomada do destino nas suas próprias mãos, o medo das expectativas que obstaculiza a acção e torna o indivíduo inoperante, reduzindo-o de pessoa única e singular a rolamento na engrenagem de um todo onde se subsumem individualidade, liberdade, responsabilidade. Este é o medo que nos tem levado a esperar dos outros e pelos outros o que não poderá ser conquistado senão por nós próprios, um medo de actuar nas circunstâncias sem calculismos nem cautelas face a efeitos e consequências indesejáveis, o medo de simplesmente dizer não à catana que abre mato para o desfile de canalhas, escória, escroques e filhos da puta que sempre chegam ao poder de braço dado com o medo, apoiados, protegidos, escudados por partidos, clubes, seitas, sociedades secretas mais ou menos discretas. A este medo não chegou a revolução, entre Angra e Lisboa ele mantém-se o lugar-comum que apenas alguns anti-heróis logram desmentir, porque este é o medo que independentemente do tempo e do lugar impede a pessoa de ser ela própria, levando-a a submeter-se a um colectivo castrador que a faz sentir-se acautelada de potenciais ameaças. Mas que pior ameaça pode uma vida sentir do que a impossibilidade de se cumprir enquanto vida? Não será o medo de viver mais nefasto para a própria vida do que o medo de morrer? 


Nota: outras entradas neste weblog com referências a José Martins Garcia: um excerto de Alecrim, Alecrim, aos Molhos... (aqui), leitura de Lugar de Massacre (aqui).

GUTERRES

Cito: O padre Vítor Melícias fala do futuro líder das Nações Unidas como uma pessoa que se guia “pelos valores e pelas causas” e se entrega “aos mais necessitados”. Melícias vai ainda mais alto, asseverando que Guterres tem a personalidade de que o mundo precisa. Enfim, é fazer as contas.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

UM HITLER

Nada descreve tão bem a anestesia geral em que vivemos. Durante décadas, a hipotética ocorrência de um novo Hitler seria suficiente para alarmar meio mundo. Hoje, um homem que governa cem milhões de pessoas numa das regiões mais voláteis do mundo e que tem um conflito territorial no mar da China com pelo menos outros três países pode comparar-se a Hitler e a reação geral é como se víssemos um tipo de bigodinho esquisito na rua. Olha ali um Hitler.

Rui Tavares, aqui.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

CONVERSA DA TRETA

Não li nada de Elena Ferrante nem está nos meus planos futuros emendar tamanha lacuna. Não me demovem culto nem popularidade, simplesmente outras vontades se me impõem. Por exemplo, este post sobre Ferrante onde, a linhas tantas, podemos deliciar-nos com o seguinte:

Gosto de ler entrevistas a escritores ou gosto de os ouvir falar sobretudo pelo processo de escrita ou sobre como processam a realidade para a transformarem em literatura. Agora se têm quarenta ou setenta anos, se têm ou gostavam de ter filhos,


— como aquele Valter Hugo Mãe que por aí anda há anos a dizer que gostava de ter um filho. O que é que a gente tem a ver com isso? Há anos que dura esta conversa. Até já houve quem se tenha oferecido para engravidar dele. E ele nisto. Agora que trocava os livros que escreveu por um filho. O meu marido hoje, no gozo, dizia que, se calhar, ele quer é ser ele mesmo a tê-los, a engravidar. Na volta é. Caraças. Conversa da treta a do Valtinho —

ENTERTAINMENT

The Big Picture, Secret Story, Super Quiz, Shark Tank, The Voice Portugal, Got Talent Portugal, Big Brother, Best Bakery, Love on Top… são ou foram títulos de programas da televisão portuguesa. Obedecendo, na sua maioria, a formatos importados, mantêm as designações originais. Correndo o risco de parecer nacionalista, coisa que de todo não sou, eis-nos perante um retrato de um país com quase 900 anos de História.  Se até para nos entretermos precisamos de importar, com que lógica esperar algo diverso noutras dimensões da vida humana? 

domingo, 2 de outubro de 2016

IDENTIDADE NACIONAL


Pergunta Valupi: Isto de termos tido um Presidente da República que juntamente com a filha ganhou dinheiro através de favores concedidos por criminosos num banco criminoso, que violou o seu juramento constitucional ao lançar golpadas para manipular e perverter actos eleitorais e que andou a fugir aos impostos durante pelo menos 15 anos significa, portanto, que neste país cada um de nós à sua volta já nasceu mais de 10 vezes?


Compreendemos agora melhor o que queria Cavaco dizer quando garantia que não ganhava para as despesas. Ainda um dia teremos de reconhecer que os 20 anos de Cavaco na jovem democracia portuguesa foram a mais autêntica, clara, verdadeira definição disso a que alguns chamam "identidade nacional".

sábado, 1 de outubro de 2016

DIA MUNDIAL DA MÚSICA


Doug Hollis (b. 1948) is an American artist who works with wind- and water-activated sound sculptures, often in site-specific situations. (aqui)

VACA*


Como despedir-me da terra que não senti? Em nenhum lugar foi a alegria quem reinou. Talvez um certo bem-estar favorável aos nervos e às palpitações, a ilusão de uma liberdade reduzida a ínfimas ausências: nada de relógios, nada de horários, nada de livros de ponto, nada de calendários. Apenas um diário onde anotamos a passagem dos dias, oferecendo a cada página meia dúzia de linhas espontâneas, improvisadas, um desenho mal-amanhado, versos toscos. Coisas de que nos envergonhamos sempre que as revemos. Lixo. Como despedir-me de terra alheia? Jamais serei deste lugar, nem sei de onde sou, nem sei se posso afirmar que sou. Nasci em pântanos de ódio, recordações péssimas de vidas curtas, amesquinhadas pelo mexerico e pela intromissão, ruas curtas, tão curtas e tão estreitas que parecem cordões umbilicais. Soube da casa os cantos. Mas não fui dali, nunca. Emigrei para avenidas largas onde me perdi de mim próprio e nunca mais me encontrei. Talvez tenha sido alegre numa madrugada de Outono junto ao Teatro Nacional, a ler Rilke, não por estar a ler Rilke junto ao Teatro Nacional mas por ter largado numa poça nojenta os versos fastidiosos do checo. Junto ao mar sou sempre feliz, no meio do deserto sou sempre feliz, perdido na floresta sou sempre feliz, a subir a montanha sou feliz. Onde homens cabisbaixos passeiam dossiers de dívidas e mulheres dúbias camuflam dores com artifícios estéticos, colocando saltos, passando lápis pelos olhos, inventando texturas onde o tempo permite apenas decomposição celular, eu não vislumbro qualquer resquício de alegria. Apenas ilusão. Poeta amigo escreve-me sobre um dos meus suicidas, assegura que tivesse o finado reparado na montra de pastéis, nas universitárias joviais, no pregão da vendedora de castanhas, jamais teria, sem que ninguém saiba porquê, mandado a vida bugiar. Eu divirto-me a contemplar vacas e bois, sarracenos, mas é de tédio e de saturação o meu repasto. Sabemos a cura. Adiamos a cura. E como o povo asseguramos que boi em terra alheia é vaca.


* Em sentido figurado e informal, vaca é sinónimo de sorte.

POETA, EDITOR, DECLAMADOR, AGITADOR


Mais informações: aqui.


Algumas entradas sobre a poesia de Nuno Moura neste weblog: um poema do livro "Não saia nem entre após aviso de fecho de portas", seguido de nota crítica de Manuel de Freitas respigada na antologia "Poetas Sem Qualidades" (aqui); leitura de "Prémio Nacional de Poesia" (aqui); sobre o CD "Mau Sangue" (aqui); leitura do livro "Canto Nono" (aqui); leitura dos livros "Letras para Dance Music" e "Carimbos & Tatuagens, Lda." (aqui).
Outros apontamentos aqui: #1, #2, #3, #4, #5, #6. E mais um poema: aqui.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

NÚMEROS


Os números são aquilo que quisermos fazer deles. Tenho ouvido tantas vezes isto que chego a pensar ser um chavão facilmente desmontável. Mas não. Os mesmos números podem ser apresentados de formas diversas, gerando assim interpretações contraditórias. Por exemplo, é possível  dizer-se na sequência de um estudo que «No espaço televisivo português há atualmente 14 espaços de comentário de militantes de partidos de direita (PSD e CDS-PP) e 13 espaços de militantes de partidos de esquerda (PS, Bloco de Esquerda, PCP e Livre/Tempo de Avançar).» Parece haver um equilíbrio, ainda que a esquerda esteja maioritariamente representada no parlamento. A distribuição do espaço televisivo não tem que ter isso em conta, mas seria mais equilibrado se tivesse. Prefere dar mais voz à oposição, aceita-se. Presumamos, no entanto, que alterada a correlação de forças opte o espaço televisivo pelo mesmo critério: dar mais tempo de antena à oposição. Seria o ideal, ainda que pouco avisado seja crer em tais cuidados. 
No entanto, aquela mesma afirmação, acerca de uma análise efectuada pelo Laboratório de Ciências da Comunicação do ISCTE-IUL aos comentadores «residentes» nas televisões em Portugal, toma outro sentido quando acrescentamos outros dados revelados pelo mesmo estudo. Senão vejamos: «O PSD tem 11 espaços de comentários fixos, o PS tem 7, o BE tem 4, o CDS-PP tem 3, o PCP e o L/TDA têm um cada». Ou seja, o PCP tem menos espaço de comentário fixo do que um partido (?) que nem sequer conseguiu representação parlamentar. O quadro ao alto é sintomático das paixões, dos amores, das inclinações, enfim de para onde pende o interesse das nossas televisões. Sabendo da relevância que este meio ainda tem junto da chamada opinião pública, como discordar daqueles para quem «a opinião é demasiado fraccionada pelo isolamento dos homens, demasiado ignorante, demasiado corrompida, porque todos são estranhos face a si mesmos e face aos outros» (Marx)? 
Se noutros tempos tivemos a censura a travar a mensagem, agora temos a manipulação. Faz-se acreditar que a mensagem passa, quando na realidade ela permanece isolada num canto recôndito, sufocada pelo ruído, subsumida na poeira dos dias. Por isto mesmo se revela cada vez mais importante apostar nas novas formas de comunicação para fazer passar uma mensagem, porque essas (plata)formas de comunicação estão livres dos constrangimentos que eufemisticamente reduzimos à ideia de paixões, amores, inclinações dos media tradicionais. O risco que se corre é o da morte de uma ilusão, ou seja, a da imparcialidade da comunicação. No fundo, o risco que se corre é o da morte do jornalismo enquanto transmissor isento, desinteressado, imparcial. Porque o não é, denunciemo-lo com a clareza que os números exigem. 

Nota: vale a pena ler na íntegra esta notícia de Maio passado sobre o estudo supracitado.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

PITORESCO

(...) a nova versão de Os Sete Magníficos não foi feita a partir de qualquer releitura (romanesca, ideológica... o que se quiser) do “western” clássico, encarando as memórias do Oeste como uma paisagem “pitoresca” a partir da qual seria possível, automaticamente (?), fazer renascer a energia do espectáculo. De facto, tal não é possível, quanto mais não seja porque, em nome da mitologia ou da sua desmontagem, o “western” integra uma visão abrangente dos dramas que marcaram a consolidação da grande nação americana e, em particular, as convulsões da expansão para Oeste.

João Lopes, no Sound + Vision.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

FONTE LUMINOSA


A rotunda da fonte luminosa foi ocupada por um bando de gaivotas descontraídas. À hora de maior calor, refrescavam-se como crianças em gestos de folguedo. Contornando a rotunda, as viaturas obedeciam aos nervos dos condutores. Alguém buzinava por ter sido ultrapassado na fila, uma mãe batia no filho porque este havia batido no irmão sem que alguém o autorizasse, a autoridade multava um transportador desprevenido, três raparigas eram perseguidas pelo olhar depravado de um velho, na paragem do autocarro protestava-se o atraso crónico dos transportes públicos, duas mulheres confessavam-se uma à outra, maridos cada vez mais indiferentes, o trabalho, o cansaço, a idade, um homem sentou-se na esplanada a beber cervejas uma atrás da outra, o desempregado entregou um currículo, a mercearia abria pela última vez ao público, liquidação total, no céu os aviões traçavam planos de voo e um terrorista fazia o reconhecimento do ambiente para um próximo atentado, uma nuvem desaparecia sem deixar rasto, um homem matava-se sem que alguém desse por isso, a ambulância do INEM chegou tarde ao chamamento, a mulher morreu vítima de ataque cardíaco fulminante, um condutor não parou na passadeira, outro deu passagem à idosa com uma criança pela mão, o ciclista hesitou entre o passeio e a estrada, o homem de cadeira de rodas não teve por que hesitar, o passeio estava impedido com várias viaturas estacionadas ao longo da rua… Enquanto tal, um bando de gaivotas refrescando-se descontraidamente na rotunda da fonte luminosa levantou voo e foi ver o mar. 

ESTATÍSTICAS


Compreendo as visualizações provenientes dos Estados Unidos, aceito que haja muita matéria de interesse por aqui para chineses e russos. Tenho mais dificuldade em aceitar as 1407 visitas portuguesas. Tanta gente equivocada neste mundo.

ANÚNCIO

Alguém que esteja interessado em caça grossa, contacte-me. Sei onde param as bestas.