Detesto gente pudica e sonsa, lido mal com a autoridade, a
burocracia destrói-me, abomino tudo o que seja racismo e homofobia, prefiro
animais a pessoas, Bashô a Camões, se pudesse escolher uma profissão seria a de
guarda-florestal ou a de pastor, não consigo perceber as necessidades do mundo
moderno nem o fascínio cego das pessoas pelas novas tecnologias, não suporto
formalidades, lido com gente assoberbada e arrogante fazendo uso da melhor das
minhas poucas qualidades, um infatigável desprezo pelo inimigos e uma
incomensurável capacidade para ignorar o que não me interessa, chocam-me as
pessoas egocêntricas, incapazes de pensar no outro, de serem solidárias, mas desconfio
sempre do outro até ele me provar que é de confiança, acho que falo mais do que
devia, sobretudo quando bebo, mas como raramente estou na companhia de outros
não vem mal ao mundo por isso, prezo a solidão e o silêncio como poucas coisas
na vida, a Natureza é o meu Deus e o que mais me fascina é o acaso, o caos, a
surpresa, o inusitado, a tempestade, não posso garantir que até à data tenha
vivido com paixão, mas amei, e nunca agi com maldade, no sentido mais
deliberado de pretender o mal de outrem, de resto, quem me conhece geralmente
julga-me inofensivo como na realidade não sou ou problemático como jamais seria
não me visse obrigado a sê-lo por um mundo incapaz de garantir a todos, em paz
e harmonia, o pão, a casa, a educação, em suma, sou um banal ser humano, inútil como qualquer outro que tem por certa a morte e incerta a alegria de viver…
terça-feira, 8 de novembro de 2016
DE NOITE
Publicadas em 1912, as Elegias de Teixeira de Pascoaes
tiveram na sua origem a perda de um sobrinho. Muitos dos poemas resultam numa
mera expressão da dor, fechados num sentimentalismo catártico que não me
interessa particularmente. Mas outros são autênticas obras-primas do género,
valendo por si só e isoladamente muito mais do que toneladas de literatura
elegíaca vinda a lume posteriormente. Em poemas como Canto heróico ou Elegia da
Solidão a dor afecta à escrita atinge uma dimensão crítica impressionante, atirando
o poeta para um abismo de dúvidas acerca da existência que são o magma da
própria poesia. Nesses e noutros poemas que à sombra desses perduram, Deus surge
envolto em dúvida, indiferente, fantasmagórico: «Não sei quem és, eu não te
entendo, Deus!» (Junto Dele). E ainda que o mistério da dor seja caminho
desbravado para a esperança, a vida resume-se a um berço onde a morte já
respira: «Dia a dia, nós vamos falecendo; / Esta vida carnal é um arremedo / Da
vida, à luz da qual eu não entendo / A tragédia da morte, a dor e o medo» (Vida
Eterna). Existir é, deste modo, experienciar «a tragédia da morte, a dor e o
medo» como uma indefinição que leva à dúvida e, por fim, à esperança. Mas esta
esperança não é a dos católicos, nem o Deus que surde desta inquietação é o
Deus dos católicos. Esta esperança é a daquele que se sabe finito numa certa
forma de ser, mas se descobre eterno na essência material das coisas:
transformação. É a esperança de um homem ligado à terra, consciente do drama que representa em vida, corpo onde a esperança e a saudade se fundem num horizonte de perda.
DE NOITE
Quando me deito e mais a minha dor,
Minha noiva-fantasma, e em derredor
Do meu leito a penumbra se condensa,
Faz-se em meus olhos nus uma luz imensa,
E parece-me o Reino espiritual.
E ali, despido o hábito carnal,
Tu brincas e passeias, não comigo,
Mas com a minha dor… o amor antigo.
A minha dor está contigo ali
Como outrora eu estava ao pé de ti.
Se eu fosse a minha dor, com que alegria
De novo a tua face beijaria!
Mas eu não sou a dor, a dor etérea…
Sou a carne que sofre, esta miséria
Que no silêncio clama!
A sombra, o corpo agonizante, o drama…
Teixeira de Pascoaes, in Elegias (1912).
BUFFALO BILL AND THE INDIANS, OR SITTING BULL'S HISTORY LESSON (1976)
O percurso de Robert Altman (n. 1925 – m. 2006) esteve
desde muito cedo ligado ao western, nomeadamente através da realização de
alguns episódios da mítica série Bonanza. McCabe & Mrs. Miller/A Noite Fez-se Para Amar (1971), filmado já para o grande ecrã, ofereceu uma outra
consistência a essa ligação ao mais tradicional dos géneros cinematográficos. Mas
Altman nunca foi um tradicionalista, muito menos um conservador preocupado em respeitar
os cânones e obedecer a fórmulas. A prova acabada desse espírito desafiador é o
comedy western Buffalo Bill and the Indians, or Sitting Bull’s History
Lesson/Buffallo Bill e os Índios (1976), propondo-se usar o cinema no sentido
oposto ao que mais vezes ele segue e serve: o da mistificação. O realizador de
Popeye (1980) mostra-se interessado em desmistificar as figuras tipo de uma
História rica em fabulações, colocando as suas personagens no plano em que a
farsa é desmascarada.
Neste filme, a lenda de William Frederick Cody,
popularizado como Buffalo Bill, surge configurada no ambiente propício de um espectáculo
circense sobre o Oeste Selvagem. De facto, William Cody tornou-se mundialmente
famoso pelo Buffalo Bill’s Wild West Show, onde encenava feitos supostamente heróicos
de uma nação menos interessada nos factos do que na consolidação dos seus ícones.
Ora, para esta consolidação muito contribuiu a indústria cinematográfica
durante o séc. XX. Robert Altman transporta-nos para um pouco antes desse advento,
descarnando até ao osso a superfície, a fachada, o embuste, para que possamos perceber
o modus operandi de uma máquina de fabricação de lendas.
O Buffalo Bill interpretado por Paul Newman não é nenhum
exímio caçador de búfalos, ícone do Oeste selvagem, mas antes o director e a
estrela principal de um show cujo propósito final é transformá-lo num herói da
nação. Parco herói, assim nos aparece, preocupado em ser visto sem peruca,
alcoólico, ardiloso, oportunista, até sexualmente incapaz, vulgar, demasiado
vulgar, excepto quando em delírio mental parece soltar algumas das suas
angústias mais íntimas, nomeadamente a consciência da mentira que representa.
Numa fase em que o show requer novidades para se manter de pé, lembra-se de
introduzir no espectáculo o chefe índio Sitting Bull. Tope-se a ironia.
De facto, Touro Sentado fez parte do show de Buffalo Bill
durante alguns anos. Como e em que circunstâncias, não sabemos. Altman
desloca-o como quem oferece vida a um fantasma, posicionando-o num lugar de
resistência dentro do próprio espectáculo. As suas reivindicações serão uma dor
de cabeça permanente para Buffalo Bill, que não está interessado em contar a
história como ela realmente se passou. Os conflitos levados a cabo no interior
da produção, acompanhados pela sofisticação de viçosas cantoras líricas, e pela
presença de Burt Lancaster no lugar de narrador participativo, aquele a quem
cabe levantar as lendas, favorecem o clima geral de opera buffa com momentos de
vigoroso cinismo historiográfico.
No elenco aparecem ainda Shelley Duvall, Geraldine
Chaplin e Harvey Keitel, garantindo ao filme uma harmonia que acabou por lhe valer
um Urso de Ouro no Festival Internacional de Berlim. Não admira que o
prémio tenha vindo de um festival europeu, já que, se é exagerado considerar
anti-americano um filme destes, é justo olhar para Buffallo Bill e os Índios
como um exercício crítico acerca da função mistificadora da indústria do
entretenimento. Exercício de tal espécie, levado a cabo por um cineasta
norte-americano, tendo por objecto uma das figuras iconográficas da América do Norte
no contexto específico de um género cinematográfico tipicamente americano, só
poderia ser do agrado de uma crítica não instalada ou absorvida pelos
mecanismos publicitários da grande fábrica hollywoodesca.
A lição de história de Sitting Bull aqui encenada pode
ser vista como um relevante passo no contexto de uma reflexão profunda acerca
da América. Parte considerável da carreira de Robert Altman aponta nesse
sentido, tantas vezes com um apuramento satírico e autocrítico raros na
Hollywood mais conservadora e conformada. A singular sobreposição de falas que deu
fama aos seus filmes encontra aqui um cenário privilegiado. Note-se
como o silêncio sepulcral da personagem de Sitting Bull é o contraponto ideal
numa lição de história onde a cacofonia generalizada prejudica a lucidez
individual. Deve ser a isto que damos o nome de inteligência, sem moralismo nem sentimentalismo a prejudicar a retórica do cinema.
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
domingo, 6 de novembro de 2016
ELEIÇÕES AMERICANAS
Não tenho interesse absolutamente nenhum nas eleições
americanas. É-me indiferente quem ganhe ou quem perca. São ambos péssimos,
horríveis, inimagináveis. Mas os states são o que são, muita gente por cá é que
vive convencida de que não:
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
ONDE TODOS OBSERVAM
Quando, em 1993, surgiu nas salas de cinema Short Cuts, sem
dúvida um dos melhores filmes assinados por Robert Altman, houve quem tivesse comparado
o filme a um edifício despido de paredes. O espectador assistia aos diferentes sketches
como se estivesse a observar o que ao mesmo tempo se passava nos diversos
andares de um mesmo prédio. Lembrei-me desta dimensão criativa da montagem ao
ler Onde Todos Observam (Elsinore, Julho de 2016), que não por acaso começa com
um texto onde o fotógrafo Robert Mapplethorpe é representado a fazer colagens
com partes de corpos masculinos recortados de uma revista. A colagem é um
exercício de montagem que oferece à realidade uma nova conjugação dos seus
elementos, ao passo que a fotografia, exceptuando experiências
muito específicas, representa a realidade a partir de uma perspectiva.
Aprendemos a olhar a totalidade de um objecto decompondo-o e voltando a unificá-la
sob múltiplos pontos de observação. É precisamente isso que Megan Bradbury se
propõe fazer com Nova Iorque, num livro de estreia onde nem sempre a ambição
formal resulta no prazer da leitura.
Em capítulos breves, por vezes
brevíssimos, e isolados como ilhas, aquela que é porventura a mais retratada
das cidades do mundo surge em frases curtas e concretas, amiúde em espaços ecfrásicos,
a partir de anotações biográficas acerca de alguns dos seus mais emblemáticos
habitantes. Especializada em escrita criativa, Megan Bradbury sabe os riscos
que corre quando se refere ao seu livro de estreia chamando-lhe romance. Num tempo
em que um post pode ser confundido com crítica literária, a qualquer objecto
literário minimamente ficcionado se pode dar o nome de romance. Mas só com
muito boa vontade e bastante espírito criativo poderemos aceitar que Onde Todos
Observam seja ficção, ainda que não nos custe arrumá-lo entre os clássicos
do género. A discussão seria irrelevante não nos obrigasse a leitura a questionar
a declaração da autora. Podemos partir do princípio que se a autora afirma que
escreveu um romance, então nós lemos um mau romance. Mas não se tratando de um
romance, teremos lido um livro agradável de não-ficção.
É que de um romance espera-se algo
mais do que uma colagem de fragmentos, mais ou menos interessantes e
reveladores, acerca de um tema comum. Mesmo que não exijamos um nexo narrativo,
esperamos um fio condutor. E ele não existe aqui. Se existe, é de modo tão
ténue que não damos por ele. Mais parece estarmos perante uma manta de
retalhos com o propósito final de nos oferecer, em relevo, o rosto de uma
cidade. Os retalhos provêm de fontes diversas, mormente fotografias,
documentários, filmes, livros, relacionadas com figuras relevantes e
reveladoras do espírito nova-iorquino. O engenheiro Robert Moses (1888-1981),
com o seu empreendedorismo inabalável, é uma das figuras em foco, ou não
tivesse sido ele um dos principais responsáveis pelo planeamento urbanístico da
mais influente cidade do mundo. Também no centro das atenções está o fotógrafo
Robert Mapplethorpe (1946-1989) e quem com ele conviveu num meio artístico dado
à estilização do corpo. Walt Whitman (1819-1892), invariavelmente acompanhado
do seu biógrafo Richard Bucke (1837-1902), é outra das personalidades no centro
das atenções. Mas aparecem
ainda o escritor Edmund White (1940), a rocker Patti Smith (1946), ou a
canadiana Jane Jacobs (1916-2006), autora do atinente The Death and Life of
Great American Cities (1961).
Toda esta gente surge sem outra ligação
que não seja a de se movimentar num palco geográfico comum, embora seja precisamente a partir dessa
ligação que podemos estabelecer entre os recortes que compõem o livro uma
panorâmica com elementos paisagísticos não necessariamente acolhedores. Aqui
e acolá, certo desencanto, que não afecta o tom geral de espanto e de admiração,
emerge de uma brutal constatação de como o espaço não se transforma com e para
as pessoas, parecendo instaurar-se entre a cidade e os seus habitantes um frio
distanciamento. «As ideias não são como
ilhas, pois não podem ser fixadas num mapa», afirma Whitman. Mas as cidades
podem. E, em certo sentido, Nova Iorque é uma ideia. Uma ideia que pode ser
fixada num mapa. Ou pelo menos é com essa ideia que ficamos depois de a
observarmos desse miradouro Onde Todos Observam.
AS ALMAS
Que lugar para Teixeira de Pascoaes no mundo actual?
Directamente saídos de cursos de humanidades, os poetas deste tempo que é o
nosso mal saberão distinguir o orvalho da neblina. Como poderão compreender Pascoaes?
Encafuados em apartamentos, fazendo pela vida uns sobre os outros, é mais o
tempo que ocupam de soirée em soirée do que a caminhar entre serras e vales. O
niilismo pós-guerra, a tensão pré-milenar, a secularização progressiva do
pensamento, materializada na virtualização do real que as redes sociais
promovem, não é ambiente propício ao transcendentalismo de uma poesia que tem
na sua relação directa com a Natureza um foco primordial. Nenhum dos nossos
poetas fez mais programa da Natura do que Teixeira de Pascoaes, observando-a e
interrogando-a para nela descobrir uma vida à nossa imagem e semelhança, para através dela
ascender a um plano etéreo, místico, onde todas as coisas se reúnem num sentido
cosmogónico universal. As rochas respiram na poesia de Teixeira de Pascoaes, a
luz do sol é sangue que vivifica outeiros, rios, bosques, animais, o vento tem
uma voz que cabe ao poeta decifrar. Que
sentido pode isto fazer para quem nasce, cresce e vive em cidades movidas pela
ambição e desprovidas de terra?
AS ALMAS
Vejo passar, na infinda solidão,
Vultos de almas, figuras de emoção;
Os poetas do silêncio que não cantam,
Os doidos que, de súbito, se espantam,
Os que gelam, ao ver o luar nascente,
Os que fitam a mesma estrela, eternamente;
Os perdidos da sorte,
Os que chamam, gritando, pela morte!
Os que andam, sem saber, pelos caminhos,
Os que de noite vão, sempre a falar, sozinhos;
Os que vivem casados com a dor
E a escondem, ciumentos;
Os trágicos do Amor,
Os que sentem astrais deslumbramentos,
Os que matam e cantam, por destino;
O salteador nocturno, o poeta que é divino.
Os tristes vagabundos,
Em perpétua e fantástica viagem...
Os que amam a paisagem
E têm nos olhos a amplidão dos mundos...
Vultos de almas, figuras de emoção,
Errantes, na infinita solidão.
Teixeira de Pascoaes, in Vida Etérea, 1906.
ONTEM
Tem sido assim ultimamente, o número de visitas que nos chegam dos Estados Unidos bate todos os recordes. O pouco interesse dos meus conterrâneos, em comparação com os americanos que por engano aqui vêm parar, faz desta antologia do esquecimento um logro. Mas um logro anódino. As horas que me rouba à vida seriam de mais tédio acrescentado ao tédio, porventura especado a percorrer o mundo através do Google Earth.
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
ANTEMANHÃ
Arredado do “pseudocinismo” triunfante, Teixeira de
Pascoaes não é conciliável com a lírica à la carte da actualidade. Resiste por
isso esquecido a um canto empoeirado, preterido por modernismos de pacotilha e
surrealismos de cabeceira. Não interessa porque questiona, incomoda, exige do
pensamento um esforço de concentração nada dado à ligeireza criativa dos dias
correntes. Onde terá adormecido a luz outrora vislumbrada pelo aristocrata de Amarante?
De olhar atento às matérias do mundo, feriu-se-lhe a consciência de observar uma
miserável paisagem humana de indigentes andrajosos, mulheres agonizantes com
filhos ao colo, pedintes desgraçados, mendigos, lares desfortunosos, magros
proletários, pobres pescadores, enfim a dor dos oprimidos, a grande dor do
sofrimento humano. Tanto no campo como na cidade, uma paisagem humana degradante existindo no seio da Natureza
restauradora, entre rochas que meditam e árvores que sonham. Idealista?
Cabalístico? Místico? Panteísta? Talvez tudo isso no estremecimento de quem
questiona e se interroga. Entre suposições e interrogações, pressupõe como uma
espécie de postulado a harmonia ignota deste nosso mundo. Por mais dissonante e
caótica que pareça a realidade, o espírito tende a visionar por detrás do caos
a lei que o explica e torna compreensível. Caberá ao poeta, pela força da sua
expressão, elaborar a ciência dessa lei? Um poema para começar o dia:
ANTEMANHÃ
PECADOS DOCES
Bateram-me à porta. Eram três. Pão por deus, disseram em
coro. Só dou pão se for pelo diabo, respondi cinicamente. E o mais pequeno
perguntou: e tem doces?
terça-feira, 1 de novembro de 2016
1 DE NOVEMBRO
Fosse vivo, Carlos Paião faria hoje 59 anos. Morreu, com apenas 30 anos, na terra
onde eu nasci, vítima de acidente de viação. Muito
se falou à época sobre esse acidente, surgindo do nada imensas teses posteriores
sobre a possibilidade de Paião ter sido sepultado com vida. Mitos que o
povo oferece a quem mais admira. Tinha um talento para a escrita de canções que
ainda não foi devidamente reconhecido. Muita coisa boa poderá ser feita
com estas letras e estas melodias.
OBIANG
Não é possível levar a sério uma Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa que aceita como membro um país onde não se fala a língua
portuguesa. Tão ridículo é que qualquer cimeira desta CPLP fica logo à partida
reduzida ao absurdo. Não era sequer necessário que nos fizessem chegar notícias
do tipo “Obiang não fala português”, “Obiang pede apoio técnico para abolir
pena de morte” ou, cúmulo dos cúmulos, “Obiang no mesmo hotel de Marcelo, Costa
e Guterres”. Fosse só no mesmo hotel, ainda poderíamos compreender. Mas é à
mesma mesa, se não for na mesma cama.
LIBERAIS
Que dizer a um liberal que se mostre estupefacto com a hipótese de Donald Trump vir a ganhar as eleições nos states? Que nome damos às pessoas que se assustam com os monstros por elas próprias engendrados?
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD (2007)
Começar por onde? Talvez por um termo de comparação. Erguido
a partir do espírito voluntarioso de colonos e de pioneiros, em conflito
original com as raízes indígenas, o Novo Mundo necessitava de uma mitologia
própria como de pão para a boca. A velha Europa tinha os gregos e os romanos,
os nórdicos, tinha toda uma tradição pagã expurgada pela aculturação
judaico-cristã. Rastos dessa tradição seguiram até à América, desbravando
caminho para uma abrupta odisseia com os seus heróis e os seus vilões muito
peculiares. Jesse Woodson James (1847-1882) virá a ocupar um lugar especial
nessa parafernália de semideuses saídos já do Oeste norte-americano,
gerando-se acerca dele uma aura de fora-da-lei com princípios inabaláveis.
Para tal contribuíram sobremaneira os meios naturais de difusão popular em
vigor à época, nomeadamente os livros de short stories e as canções folk.
A tal propósito, talvez seja relevante ouvir o que o mais
recente Nobel da Literatura tem para nos contar: «Billy Gashade, o homem que
presumivelmente escreveu a balada do Jesse James, consegue levar-nos a crer que
Jesse roubava aos ricos para dar aos pobres e foi morto a tiro por um «cobardolas
de meia leca». Na canção, Jesse rouba bancos e dá o dinheiro aos necessitados e
no final é traído por um amigo. Ainda assim, e de acordo com a opinião geral,
James era um assassino sanguinário e era tudo menos o Robin dos Bosques de que
a canção fala. Mas é Billy Gashade quem tem a última palavra e leva-a aos
quatro cantos do mundo» (Bob Dylan, in Crónicas – volume I). A passagem tem o
propósito de fazer sobressair a força da canção popular enquanto estrume de uma
mitologia, levando as pessoas a acreditar em personificações elaboradas muito
aquém de um pressuposto de fidelidade ao real e à verdade. Não por acaso, numa
das melhores sequências do filme de estreia do grande Samuel Fuller,
precisamente intitulado I Shot Jesse James (1949), somos transportados para um
tempo em que os trovadores andavam de bar em bar a cantar e a tocar a troco de
tostões. Era, para todos os efeitos, uma forma honesta de ganhar a vida. Sequência de tal modo pertinente que Andrew Dominik (n. 1967) não hesitou em aproveitá-la,
com variantes muito próprias, no seu surpreendente The Assassination of Jesse
James by the Coward Robert Ford/O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert
Ford (2007). Nick Cave, responsável com Warren Ellis pela banda sonora, aparece
agora no papel de trovador onde dantes aparecia o actor Robin Short. Apesar de
no filme de Dominik não existir nenhuma troca de palavras entre o intérprete da balada de Jesse James e Bob Ford, assassino de Jesse James cruelmente retratado
na canção, a tensão estabelecida entre a letra e o seu objecto é deveras
impressionante. Essa sequência assinala o momento em que Bob Ford compreende
ter falhado no seu propósito final, é uma espécie de marco na psicologia de uma
personagem.
Superiormente interpretado por Casey Affleck, o Robert
Ford desenhado por Andrew Dominik é uma figura em si mesma tão ambígua quanto o
Jesse James materializado por Brad Pitt. Nele se misturam Édipo e Judas. O
jovem admirador de James não busca nenhuma recompensa, não age por respeito à
lei, não colabora com a justiça por supor ser essa a única saída. No seu
íntimo convivem o temor do discípulo face ao profeta e uma admiração obsessiva
que o leva a imaginar-se na pessoa de quem admira. Jesse diz que não sabe se
Ford quer ser ele ou como ele, mas Ford sabe. Ford quer os aplausos, quer ser
admirado pelos outros como Jesse James era. Não por inveja, nem por ambição,
antes por uma complexa intuição de inferioridade que o arrasta e destrói. Tanto
o filme de Samuel Fuller como o de Andrew Dominik se concentram mais na figura
de Robert Ford do que em Jesse James. É irrelevante saber se Jesse James era o
Robin Hood da balada ou o assassino sanguinário exibido pela ordem e pela lei
estabelecidas. Sabemos que roubava bancos e assaltava comboios depois de ter
lutado ao lado dos derrotados da Confederação, dizem-nos que matou inocentes
sem dó nem piedade. Inocentes assassinados sem dó nem piedade é prato diário
para servir nos banquetes do virginal poder. Certa e indiscutível é a desgraça
de quem o matou pelas costas, um homem que lhe foi fiel e a quem serviu com
militante admiração. Talvez esta seja apenas mais uma história de traição como
outra qualquer, não sendo por isso inesperada a antipatia reflectida sobre o
traidor. Mas este não é definitivamente um filme como outro qualquer.
Acompanhada de cenários naturais deslumbrantes, a psicologia das personagens surge
à superfície dos rostos como a imagem do peixe que se agita debaixo do gelo. É
sempre um reflexo inacessível aquele que o gelo das palavras permite observar, sublinhadas
em voz off por uma melancolia que trespassa toda a narrativa e nos permite
falar de cinema como quem fala de poesia.
ARTE POÉTICA
"Le silence est notre langue maternelle"
Samuel Beckett
A poesia esburaca o tecido da linguagem.
A escrita deserta perpétuamente do seu espaço.
Cada palavra que escolhemos é a renúncia de outra
que nos teria escolhido.
A verdade é apenas uma partilha de ilusões.
Há fronteiras interditas ao homem, há lugares
onde a vida e a morte trocam os seus atributos.
Homem-ponte, passo de uma memória a outra.
E se Deus fosse a sua própria vítima?
O homem criou o tempo para justificar a sua presença.
Para justificar a sua ausência, criou a eternidade.
Deus existe fora do esquecimento, fora da memória,
mas a ambos atravessa.
O silêncio é o encontro que a palavra recusa.
Quanto mais se ama, mais a gravitação diminui.
Anise Koltz (n. 12 de Junho de 1928, Eich, Luxembourg, in Cantos de Recusa, tradução colectiva (Mateus, Maio de 1993), revista e apresentada por Casimiro de Brito, Quetzal Editores, 1994.
A BALADA DE JESSE JAMES
Já aqui me referi à estreia do realizador Samuel Fuller com
I Shot Jesse James, sublinhado a beleza de uma das sequências finais. O actor
Robin Short surge no papel de trovador a interpretar The Ballad of Jesse James,
sem saber que entre a audiência se encontra Bob Ford. Ford, que pertenceu ao
gang de James, acabou por ficar para a história como o cobarde traidor que
assassinou o seu camarada. A canção eterniza Jesse James como um outlaw
simpático, à medida de Robin Hood. Não é provável que assim tenha sido, mas não deixa de ser curioso como no imaginário popular a figura do fora-da-lei se eternizou com uma moralidade negada a um colaborador do sistema judicial como foi Bob Ford. Recordemos a cena:
The Ballad of Jesse James acabou por se transformar numa das
mais populares canções da folk norte-americana, sendo inúmeras as versões que
podem hoje ser encontradas no Youtube. Entre anónimos e famosos, sugiro as
variações de Ry Cooder para o tema (aqui), a versão punk rural dos The Pogues
(aqui) ou esta interpretação ao vivo de Bruce Springsteen. No filme The
Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007), reaparece a cena
que conhecíamos do filme de Samuel Fuller. Nick Cave é agora o trovador. Vale a
pena ver e comparar:
domingo, 30 de outubro de 2016
EU VI A LUZ. ERA DE CANDEEIRO.
Crentes, agnósticos, ateus, fanáticos, fundamentalistas,
coloquem só por hipótese, por mera hipótese, que o Messias ainda não chegou.
Imaginem que ele está entre nós, no corpo de Rodrigo Duterte ou Donald Trump.
Que razões temos nós para acreditar que Jesus era mesmo o filho de Deus? Por que não Trump e Duterte? Hitler era filho de Deus. Assim
como todos os judeus, ciganos, comunistas, anarquistas, que foram incinerados
nos campos de extermínio nazi. Deus tem “bué da” filhos e uns tomates do
tamanho de Júpiter. A questão é que se criou em torno da figura de Jesus uma narrativa,
alimentou-se a narrativa e ergueu-se uma fábrica de fantasias em torno dessa
mesma narrativa. A Igreja Católica Apostólica Romana é a mãe de todas as Disney,
a mais poderosa e bem-sucedida. Que tanta gente a venere não admira nada, a
maioria das pessoas adora mentiras, detesta verdades, ama ilusões, foge da
realidade, a maioria das pessoas sente-se confortável com a possibilidade de
uma vida eterna, mesmo que seja por demais evidente não haver vida eterna
alguma, e viveria amargamente sob a luz da finitude e da efemeridade. Envelhecer é tramado. Isto é que interessa, não
interessa Deus, nem o filho, nem o espírito santo, nem uma virgem Maria (foda-se,
que mentes mais lunáticas!), nem aparições, nem milagres… São enfeites
de Natal, patranhas que reforçam a narrativa. O que interessa é o conflito
vida/morte. Enquanto olharmos para a morte com temor, encontraremos sempre o que a desminta a nossos olhos atemorizados. Retirem a morte do cenário e Deus deixará de fazer
sentido, seja ele qual for.
GRANDE MASTURBAÇÃO
Pavlov, galardoado com o Nobel da Medicina em 1904 (talvez a
designação fosse outra à época) ficou popularmente conhecido pelas experiências
levadas a cabo com animaizinhos. Dos animaizinhos, concluiu Pavlov algumas
teses relevantes acerca do comportamento humano. Por exemplo, a tese do reflexo
condicionado. Sempre que vê comida, um cão saliva. Se associarmos a comida a
uma sineta, então ele passará a salivar também quando ouvir a sineta. Não será sequer necessário que veja comida. Lembrei-me disto ontem, ao constatar que no
shopping onde trabalho já estão a montar enfeites de Natal. A dois meses do mais ignóbil bacanal consumista do ano, o comércio começa a chocalhar as suas
sinetas para que a manada de animaizinhos consumistas salive com a perspectiva
da grande fantasia burguesa: consumir, gastar, desperdiçar. Preparemo-nos para
a Grande Masturbação das massas, o Natal está a chegar.
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
APLICAÇÕES PARA VARRER O MUNDO
A política aborrece-me cada vez mais, esta política de
intriga que entusiasma painéis de comentadores e atiça hostes em fúria. Convertida
num entretenimento como outro qualquer, um circo de palhaços todos de bem com a
vida, a política já nem pode ser transfigurada na grande porca. A grande porca tinha tetas e aleitava leitões. Isto agora é uma espécie de quintal de
cucos, todos a comerem os ovos uns aos outros, numa algaraviada sem sentido
onde se vislumbram penas de rancor por nenhuma cabeça trazer ao alto
a crista desejada. Sem paciência e enojado, afasto-me e desligo com o pior dos
sentimentos no olhar: pena. Pelos que precisam e não têm quem lhes acuda, nem
sequer têm quem com eles se preocupe. O mundo anda entretido com ninharias,
vaidades, presunções. O resultado vem ficando deveras explanado
neste ano des-iludido. Primeiro no Brasil, com o espectáculo deplorável do
impeachment. Juras a deus, cuspidelas, elogios à ditadura, de tudo se viu e
ouvir. Para quê? Entretanto, as eleições na maior potência do mundo estendem-se
no tempo como um tapete de porcaria. A escolha do melhor entre os piores não deixa sequer
opções. É tudo tão baixo e medíocre naquela gigantesca potência que da lição só
podemos concluir não haver entre anões e gigantes diferença que não seja os
maiores produzirem mais dejectos. Para quê acrescentar as derivas europeias, a
Rússia de Putin, a miséria desamparada dos refugiados, o terror sírio? Para
quê? De que nos vale? Política. Alguém que no tal Web Summit apresente uma aplicação
que varra do planeta toda essa gente instalada, merecerá o meu total,
incondicional, inquestionável aplauso.
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
#85
É uma das boas surpresas que 2016 tinha para nos
reservar, esta incursão “a solo” do belga Maarten Devoldere. Membro fundador
dos Balthazar, Devoldere surge agora sob a designação de Warhaus. We Fucked a
Flame Into Being (2016) reúne dez canções que é impossível não associar de imediato
à pop luxuriante deixada de herança por Serge Gainsbourg, embora a espaços
sejamos recordados de projectos menos óbvios tais como os Black Box Recorder de
John Moore (The Jesus & Mary Chain) ou os The Apartments, do australiano
Peter Milton Walsh. Referências de bom gosto inquestionável, às quais devemos
acrescentar igualmente uma certa névoa coheniana que Maarten Devoldere cultiva
arrastando as sílabas como se estivesse a murmurá-las e buscando tons mais
graves para palavras onde o erotismo se faz acompanhar de versos cínicos, tiradas provocadoras. Arranjos de cordas e de sopros exóticos, sobre um apurado sentido
melódico, garantem a estas dez canções uma sonoridade cativante, para a qual,
de resto, contribuíram outros elementos já conhecidos dos Balthazar: Christophe
Claeys (bateria), Patricia Vanneste (violino) e Simon Casier (baixo, guitarra
acústica, piano). Mas a articulação de toda esta massa instrumental com a voz
feminina de fundo oferecida por Sylvie Kreusch é talvez o elemento mais
eminentemente gainsbourguiano de um registo que sobressai pelo arrojo
lírico de belíssimas canções como esta Bruxelles:
Subscrever:
Mensagens (Atom)






