terça-feira, 25 de outubro de 2016

HORA DA MORTE


Isto está pela hora da morte
espero permanecer até ao meu próximo aniversário
não peço nem mais.
Depois
com um pouco de insistência
virei a ter certas regalias
um desconto nos comboios suburbanos
(oh, que não me minta a memória
tudo começou com o foguete Porto-Lisboa
roçaram-se nos corredores os peitos
nem sempre da mesma altura
ainda sou daquela idade)

Espero qualquer túnel
que resgate a esperança
de sustos da escuridão
nos faça falar por todos.
De noite,
tudo se apanha em voo, vai-se aos sentidos mais aguçados
aqueles que encontramos nos nossos desenhos de criança
quando não sabíamos do que se tratava:
Se não se trata de perigo
de que temos medo na hora da morte?
Do escuro da morte?

Da morte? Só se define a morte por ela ir ser indefinível
não se define o que estará,
o nosso passo será de gigante
comparado com a timidez da vida
(a nitidez da vida)

Agora directos à morte
sem preparação específica
atlas, conselhos
ou um vislumbre de estratégia que nos faça largar de uma para outra frase
assim, sem transição:
A vida é bela. A morte.
Qual é o perigo?

Eis as duas frases que referia, aliás três.


Sérgio Godinho (n. 1945), in O Sangue Por Um Fio (2009). Celebrizado enquanto escritor de canções, Sérgio Godinho assinou igualmente livros de ficção, histórias infantis, um volume de poemas. Ainda que entre as suas canções e a sua poesia possamos encontrar variadíssimos nexos, nos poemas as palavra libertam-se dos espartilhos métricos e da coerência narrativa. Voluntariamente elípticos, por isso mesmo algo enigmáticos, os poemas de Sérgio Godinho propõem uma revisitação do vivido guiada pela perspectiva da morte. A tensão entre as duas dimensões da existência impele a uma interrogação crítica, uma espécie de exame a partir de uma inquietante desfiguração de medos, receios, memórias, ilusões.

MEDALHAR O EVERESTE

Um texto de João Lisboa para ler na íntegra: aqui. Excerto:

Naturalmente, letras de canções (sem deixarem de ser matéria literária) são letras de canções e poesia é poesia. Mas, no caso de Dylan (como acontece também, de formas diversas, com Cohen, Brel, Buarque, Caetano) essa distinção começou a deixar de fazer sentido, pelo menos desde 1965, quando escreveu e gravou "Like A Rolling Stone". Num dos textos que acompanham a recente compilação The Cutting Edge, explica-se que foi por essa altura que Dylan abandonou a ideia de publicar um livro de poesia que começara a escrever no início dos anos 60 ao aperceber-se que uma canção poderia conter tantas ideias como um romance ou um poema. Na mesma época, numa entrevista com a realizadora e argumentista Nora Ephron (então jornalista do “New York Post”), esta perguntou-lhe se os textos dele sobreviveriam no papel, sem música. A resposta foi “Claro que sim. Mas eu não os leio. Prefiro cantá-los”. “Muito mais importantes do que entertenimento ligeiro”, as canções eram, para Dylan, “uma república diferente, uma república libertada” e, enquanto, ingenuamente, o mundo continuava a classificá-las como rock (ou folk rock) o que os ouvidos iam escutando eram, sim, os sucessivos capítulos da mítica “Great American Novel”.

domingo, 23 de outubro de 2016

ISTO É UM POEMA OU UMA CANÇÃO?

DOIS LIVROS DE CATARINA COSTA



Dois livros de Catarina Costa (n. 1985) publicados quase em simultâneo reclamam para a sua poesia uma atenção que seria indevido não oferecer. Chiaroscuro (Douda Coreria, Julho de 2016) e A Ração da Noite (Setembro de 2016) estão longe de ser estreias, apesar da juventude da autora. A estreia sucedeu em 2008, com Marcas de Urze (Cosmoroma), ao qual seguiram-se Dos Espaços Confinados (Deriva, 2013) e Síndrome de Estocolmo (Textura, 2014). A poesia de Catarina Costa revelada nestes dois últimos livros oferece continuidade a um trabalho de apuramento da relação estabelecida entre palavra e imagem, problematizando em consequência desse labor as possíveis conexões do texto com a realidade. O próprio título Chiaroscuro remete para um jogo de contrastes entre luz e sombra, sendo perceptível nos poemas que estes contrastes incluem, por sugestão e comparação, oposições do presente face à memória, dos espaços físicos e materiais face aos espaços da imaginação, em suma da realidade face à palavra.
Ambos divididos em três partes, não é apenas esse pormenor organizacional que aproxima os dois livros. Neles reconhecemos igualmente uma obsessão pelo anómalo. Se no primeiro conjunto de A Ração da Noite, intitulado Neoplasias, são as disformidades da matéria corporal que estão em evidência, sendo os poemas ocupados por termos tais como verruga, inchaço, tumor, ferida, chagas, doença, dor, num complexo lexical que reforça com extrema violência e de um modo algo perturbador a dimensão patológica que enforma os poemas, já em Chiaroscuro as disformidades da matéria dão lugar a um outro plano do anómalo, o qual seja o da desfiguração e da desfocagem do olhar. A ideia de desfocagem que percorre os textos faz-se acompanhar das opacidades que dificultam a relação do ser com a memória, da memória com a realidade, da realidade com o pensamento, deste com a linguagem, instalando entre todas estas dimensões um factor desorientador da verdade, a qual resultará invariavelmente sob a forma fantasmagórica de uma indefinição e de um desfasamento.
Deste modo, seja quando observa uma fotografia de um jornal antigo, quando recorda as impressões causadas pela observação de Las meninas aos 10 anos, quando recorda o bolo de aniversário aos seis anos ou quando revê o registo fotográfico de uma máscara de carnaval aos 11 anos, as memórias aparecem invariavelmente «envoltas num manto nevado» e o que emerge desse manto é a declaração de uma mentira: «São mentiras infantis, pequenas coisas / que me vejo na obrigação de esconder: / por exemplo um espelho que quebrei / e que agora distorce de tal modo o que espelha / que não mostro a ninguém, / apesar de não querer que os meus dedos / sejam os únicos a tocarem o rebordo». Sublinhe-se nesta estrofe, além do mais, a “obrigação de esconder” a par de um desejo de partilha acompanhado por uma vontade: «não querer que os meus dedos / sejam os únicos a tocarem o rebordo». Não por acaso, a segunda pessoa que surge a espaços nos dois livros parece assumir, por vezes sem sucesso, esse papel de confidente, ao qual caberá contribuir para o degelo (título do terceiro conjunto do livro A Ração da Noite) de uma intimidade recalcada, o das memórias «envoltas num manto nevado».
Eminentemente psicanalítica, a linguagem destes poemas extrema as faltas de um sujeito poético marcado pela carência e pelo insucesso da poesia enquanto catarse, pois também o poema detém filtros que obstaculizam a revelação: «és carne desamparada / enquanto o sono não desce» — diz-se assim mesmo, a páginas 43, no poema que oferece título ao volume A Ração da Noite. Não obstante, sobressai destes trabalhos do olhar uma problematização do ser que de algum modo realça a sua natureza complexa. Ainda que a espaços a densidade de alguns poemas dificulte essa percepção, desviando-nos ou distraindo-nos daquele que possa constituir o seu principal foco, a impressão final é a de uma viagem mais reflexiva do que contemplativa pelos interstícios da mente humana. Porventura num comboio por baixo da terra:

Um comboio por baixo da terra

vamos num comboio por baixo da terra
anunciaste, e eu incrédula, a imaginar
uma locomotiva feita máquina escavadora
a esburacar a terra à sua passagem

temia não um descarrilamento, acidente
demasiado técnico, não um despenho,
sendo ainda cedo para imaginar o primeiro,
mas que a aceleração nos projectasse
para onde fôssemos soterrados

hoje parada à beira das linhas assisto
a um enterro de cada vez que passa o comboio,
um repisar infernal ao fundo da terra,
e resguardada estou da intempérie dos céus

o que quer que tenha caído já foi esmagado
mil vezes em síncope cronometrada,
o metropolitano todo ele uma mesma escavação,
ao nível dos mortos

vamos num comboio por baixo da terra
e eu com medo, sem ainda saber que não haveria
viagem mais segura do que a dessa manhã

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

ISTO É UM POEMA OU UMA CANÇÃO?


José Mário Branco pegou num soneto de Camões e musicou-o, acrescentando-lhe versos, repetindo outros. É um poema ou uma canção? O soneto de Camões deixou de ser um soneto de Camões quando se transformou numa canção de José Mário Branco?

POETA, TRADUTORA, DRAMATURGA


Dia 21 de Outubro, pelas 22h, no Teatro A Barraca
lança-se Lançamento


Sobre Margarida Vale de Gato, neste weblog, uma leitura do livro Mulher ao Mar (aqui), um poema (aqui), uma referência à peça Desligar e Voltar a Ligar (aqui), outro poema (aqui), uma sequência de Mulher ao Mar - Retorna, seguida de apontamento crítico por António Guerreiro (aqui), e mais um poema (aqui). E muitas traduções, entre as quais, por exemplo, esta e esta e mais esta. Além da Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe (aqui).

HOW THE WEST WAS WON (1962)



À entrada da segunda metade do séc. XX, a indústria cinematográfica enfrentou um dos seus maiores desafios. Do outro lado da barricada estava uma pequena caixa de ilusões que viria a tornar-se um potencial inimigo do cinema. A disseminação de televisores pelos domicílios da nação exigia de Hollywood inovações técnicas que voltassem a seduzir público para as salas de cinema. Surgiu então o Cinerama, composto por «três projectores, um écran triplo, côncavo, com 300 metros quadrados, e seis pistas de som e uns vinte alti-falantes». Quem assistiu, garante que o efeito de relevo era impressionante. Um dos primeiros filmes especificamente preparados para serem exibidos em Cinerama foi How the West Was Won/A Conquista do Oeste (1962). 
Épico dos épicos, How the West was Won conta com um elenco difícil de imaginar, repleto de gigantes do cinema em papéis fugazes. John Wayne aparece, mas quase não damos por ele. O mesmo com Richard Widmark, Henry Fonda, Gregory Peck, James Stewart, Walter Brennan ou Eli Wallach… Não há desempenho individual que se sobreponha ao objecto final, uma História do Old West assinada por três colossos que há muito vinham cimentando a mitologia norte-americana através da arte cinematográfica: John Ford (n. 1894 – m. 1973), Henry Hathaway (n. 1898 – m. 1985) e George Marshall (n. 1891 – m. 1975). 
Nenhum dos três realizadores de serviço terá apreciado sobremaneira as exigências técnicas do Cinerama, tendo o écran triplo sido posto de lado rapidamente. Visto hoje à luz do inimigo televisor, um filme destes perde muito do seu impacto visual. Mantém, porém, a essência das epopeias e a imponência de uma atitude ambiciosa que, apesar de ter amealhado meras três estatuetas douradas, outorgou à humanidade um objecto deveras relevante tanto para a história do cinema como para a história da própria América. Do cinema: não só por marcar uma época, mas também por questionar de um modo latente a sua própria raiz. Não percamos de vista que o primeiro filme propriamente dito era um western intitulado The Great Train Robbery (1903). Não por acaso, o segmento final de A Conquista do Oeste reproduz o assalto a um comboio. O que esse segmento dirigido por Henry Hathaway nos oferece é uma espécie de retrospectiva sobre o percurso da indústria cinematográfica. Assim sendo, a pergunta “como chegámos aqui?”, que acompanha todo o filme, não se refere apenas à América do Norte e à ocupação dos seus territórios, não se refere apenas ao voluntarismo dos pioneiros e dos colonos, refere-se igualmente à indústria cinematográfica. 
No fundo, A Conquista do Oeste reflecte o cinema ao projectar parte da história da América, com os seus heróis e vilões, com os seus estereótipos e conflitos, desde logo pautados pelas distintas duas irmãs que acompanham toda a narrativa. Eve, interpretada por Carroll Baker, é o lado romântico e transcendentalista de uma América arreigada à Natureza e aos seus mais profundos valores. É a América de Ralph Waldo Emerson e de Henry David Thoreau. Lilith, uma impagável Debbie Reynolds, é a América que acabará por vingar, a América pragmática e materialista, a América que Walt Whitman se encarregou de eternizar com versos longos e modernistas, à medida que registava os efeitos do progresso numa humanidade em busca de futuro. 
Dos caçadores de peles solitários, habitantes isolados das montanhas, mais índios que os próprios índios, aos jovens sonhadores que a Guerra Civil chamou à terra, dos jogadores trapaceiros, vigaristas, oportunistas e embusteiros aos fora da lei, da guerra entre cowboys e pastores à concorrência que traçou sobre a paisagem as duas linhas da ferrovia, do modo de vida indígena à viciosa hegemonia de cidades caóticas, fez-se a conquista do Oeste. Contada em cinco segmentos ligados por três gerações de uma mesma família, esta história não encerra de modo algum o potencial crítico de um género como o western
Em 1962, talvez o seu efeito fosse de tipo catártico. O efeito que hoje produz é outro, semelhante ao que sentimos quando relemos Leaves of Grass. É o efeito de estarmos perante obras que fundam o imaginário popular na exacta medida em que nos reenviam para um tempo iniciático, uma era que obrigava a uma determinação e a um voluntarismo que hoje nos são estranhos. Se são estranhos, é porque já nascemos num tempo em que tudo parece ter sido conquistado, em que sobre o desconhecido caiu um terrível manto de previsibilidade. Outros foram os tempos quando havia mato por desbravar e no horizonte reluzia a esperança e o desejo de um mundo melhor. Se chegámos lá, essa é outra questão.  

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

«ESTÃO PODRES AS PALAVRAS»


A Jorge de Sena

Estão podres as palavras, Jorge,
de passarem por sórdidas mentiras...
Assim o dizes e não pões nem tiras,
ao rijo inventário do teu denso alforge
de palavras talhadas em duro corno,
a doçura de uma vírgula que pudesse
iludir a corrupção que aqui se tece,
minando de cuspo a pureza em torno.
Mentem os que falam e os que se calam,
mentem os que ficam e os que se vão,
agitam-se os cobardes em nova encarnação
desta coragem com que já abalam.
Que merda de gente, ó filho de Camões!
Junto de um seco, fero, estéril monte,
para onde me retiro, olho e vejo a ponte,
por onde fogem os sonoros campeões!
Usá-las puras, as palavras — dizes...
Que pureza a desta língua envilecida
por mil flexões de prostituta ardida?
Língua coleante, dupla, rica de matizes...
Possam as palavras ficar enfim erguidas,
um dia, como torres, entre céus e terra!
Faremos, então, com elas, a nossa guerra
aos heróis que hoje confundem as saídas.

Lourenço Marques, 1974


Eugénio Lisboa (n. 1930), in A Matéria Intensa (1985). «Crítico e ensaísta dos mais lúcidos, argutos, desassombrados e escrupulosos de toda a nossa história literária (...), Eugénio Lisboa só recentemente, com estes densos poemas de A Matéria Intensa — livro em boa hora galardoado com o Prémio de Poesia Cidade de Lisboa — se revelou também um poeta já e doravante inconfundível, cuja pessoalíssima voz — a um tempo áspera e calorosa, austera e fremente, patética e todavia com inesperados acentos lúdicos — como que de há muito fazia falta (disso agora nos apercebemos) no coral da poesia contemporânea, aliás bem rico de outros valores, mas onde não costumam abundar os referidos atributos» (David Mourão-Ferreira, in Colóquio Letras). 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

IDADE DO SILICONE

Acerca de quê poderá alguém pensar em escrever que não veja todos os dias nos noticiários e nas televisões? As emoções humanas básicas permanecem as mesmas mas são os media que as dirigem... Rimbaud, Shelley, William Blake, Byron, quem são eles? Apenas poetas que temos a liberdade de conhecer mas que ninguém escuta na televisão. Os media acabaram de vez com a poesia e a literatura. Ninguém está disposto a desempenhar o papel de Kafka, de escrever para não haver ninguém que o leia. Quem escreve quer ser visto e lido. Ter, pelo menos, uma reacção. E é disso que os media se encarregam. Não se pode esperar melhor poesia do que a que se vê nos noticiários. Aí mostram-nos tudo o que é possível existir e mesmo aquilo com que nunca fomos sequer capazes de sonhar. O que pode fazer alguém que escreve? Todas as ideias são exibidas nos media muito antes de podermos aproximar-nos delas. Vivemos num mundo de ficção científica. A Disney conquistou o mundo. Este é um mundo de ficção científica Disney. Parques temáticos, ruas da moda, é tudo ficção científica. Por isso, se um autor tiver algo para dizer, deve fazê-lo fora disso. Fora do 'mundo real' que se transformou no mundo da ficção científica. Quer tenhamos consciência disso ou não. Tivemos a idade do oiro que terá sido a de Homero, depois a da prata, a do bronze, e, agora, somos bem capazes de estar a viver na idade da pedra. Ou na do silicone...

Bob Dylan, citado por João Lisboa, aqui.

#84



A primeira dúvida que um álbum como Skeleton Tree (2016) nos coloca é acerca do papel que ocupa no percurso de Nick Cave & The Bad Seeds. Por consequência, como devemos posicionar-nos face a objecto tão perturbador? Sabendo do luto que o alicerça, jamais essa noção será indiferente à percepção das 8 canções alinhadas com evidente intuito catártico. Assim sendo, parece-me que estamos num interregno sob a forma de expiação. Nick Cave perdeu um filho. Como muitos outros artistas fizeram antes dele, resolveu expressar a dor da perda exercitando-a no contexto da sua arte. Se tivermos em conta o percurso de Nick Cave enquanto singer/songwriter não podemos senão ficar algo decepcionados com o sentimentalismo patente neste conjunto de canções, arquitectadas sobre loops arrastados por orquestrações e arranjos com um único propósito: oferecerem às palavras proferidas, cantadas, murmuradas, o ambiente geral de uma prece. Estendidos como uma passadeira de vento sob a voz, as palavras ecoam como uma espécie de uivo. A voz feminina em Distant Sky é confrangedoramente redentora, assim como a toada rotativa, mântrica, terapêutica das palavras. Skeleton Tree é um álbum difícil por nos forçar a uma complacência que não estaríamos dispostos a ter noutras circunstâncias. Note-se como em I Need You a súplica anunciada no título é acompanhada ao longo das estrofes pela renunciação induzida na frase “nothing really matters when the one you love is gone”. Para que algo volte a ter importância é necessário o regresso do objecto amado desaparecido. Sabendo-se inexequível tal regresso, que relevância atribuir agora às canções?


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

«NENHUM LUGAR ERA LONGE QUE BASTASSE.»

«Eu nunca tinha gostado lá muito de livros e escritores, mas gostava de histórias. Histórias do Edgar Rice Burroughs, que escreveu sobre a África mítica — Luke Short, dos contos míticos do Oeste — Júlio Verne — H. G. Wells. Eram os meus favoritos antes de descobrir os cantores folk. Os cantores folk conseguiam cantar, em apenas alguns versos, canções que valiam por um livro inteiro» (p. 35).

«Tinha-me deixado do hábito de pensar em canções com ciclos curtos e comecei a ler poemas cada vez mais longos, para ver se me lembrava de alguma coisa do que tinha lido no princípio. Treinei a minha mente para isso, pus de parte os hábitos melancólicos e aprendi a aplicar-me. Li o Don Juan de Lord Byron e concentrei-me completamente nele do princípio ao fim. Assim como no Kubla Khan de Coleridge. Comecei a atafulhar o meu cérebro com todo o tipo de poemas profundos» (p. 48). 

«As canções folk são vagas, falam da verdade acerca da vida,  a vida é mais ou menos uma mentira, mas mais uma vez é assim mesmo que queremos que seja. Não estaríamos confortáveis nela de uma outra forma» (p. 59).

«(Archibald) MacLeish disse-me que me considerava um poeta a sério e que o meu trabalho seria uma pedra de toque para as gerações seguintes, que eu era um poeta do pós-guerra da Idade do Ferro  mas que aparentemente tinha herdado algo metafísico de tempos idos. Apreciava as minhas canções porque se envolviam com a sociedade, porque tínhamos muitos traços e ligações em comum, e porque eu não ligava às coisas do mesmo modo que ele também não lhes ligava importância» (p. 87). 


Bob Dylan, in Crónicas — volume I, tradução de Bárbara Pinto Coelho, Ulisseia, Outubro de 2005.

PARA QUE SIRVO EU?



Para que sirvo eu se sou como todos os outros
Se simplesmente me afasto ao ver como te vestes
Se me fecho em mim mesmo pra não te ouvir chorar
Para que sirvo eu?

Para que sirvo eu se sei e não ajo
Se vejo e não digo, se através de ti contemplo
Se me faço de surdo ao céu troante
Para que sirvo eu?

Para que sirvo eu enquanto choras suavemente
E escuto na minha mente o que dizes durante o sono
E logo regelo como os que nada fazem
Para que sirvo eu?

Para que sirvo eu então aos outros e a mim
Se tive todas as chances e falhei mesmo assim
Se tenho as mãos atadas e não me interessa
Quem as atou nem porquê nem onde devia eu estar?

Para que sirvo eu se digo disparates
E rio na cara do que a tristeza traz
E apenas volto as costas enquanto morres em silêncio
Para que sirvo eu?


Versão de HMBF.


What Good Am I? é uma das canções emblemáticas do álbum Oh Mercy (1989). Bob Dylan tinha há muito recusado o título de cantor de protesto, colado por uma imprensa ávida de rótulos num tempo em que os profetas eram muitos e para todos os gostos. Colocando-se à margem desse caudal messiânico tão profuso no mundo artístico das décadas de 1960 e de 1970, Dylan optou por uma postura cada vez mais recolhida, isolada e enigmática. No entanto, os seus discos da década de 1980 ficaram altamente marcados por letras de teor religioso. Esta é uma delas, encenando um diálogo íntimo e autocrítico consigo mesmo ou com as forças exteriores que o habitam. Optei pelo verbo servir respeitando esse mesmo contexto confessional, do servo de uma causa que se questiona a si próprio acerca do valor e da eficácia das suas acções. Assim sendo, o sentido da bondade confunde-se com o da utilidade. É-se bom na medida em que se é útil enquanto servo de uma causa. 

domingo, 16 de outubro de 2016

UM SONHO DE BOB DYLAN


Enquanto seguia num comboio para oeste
Deixei-me adormecer para descansar
Tive um sonho que me entristeceu
Sobre mim e os primeiros poucos amigos que tive

Com os olhos meio húmidos encarei o quarto
Onde eu e os meus amigos passámos várias tardes
Onde juntos resistimos a inúmeras tempestades
Rindo e cantando até às primeiras horas da manhã

Junto ao velho fogão a lenha onde pendurávamos os chapéus
As nossas palavras eram ditas, as nossas canções cantadas
Por nada ansiávamos e sentíamo-nos satisfeitos
A brincar e a conversar sobre o mundo lá fora

De corações assombrados pelo calor e pelo frio
Jamais nos ocorria que podíamos vir a envelhecer
Pensávamos que podíamos divertir-nos para sempre
As apostas eram realmente de uma para um milhão

Tão fácil quanto nos era distinguir o branco do preto
Era-nos igualmente fácil distinguir o bem do mal
Eram poucas as escolhas e jamais julgaríamos
Que o caminho que seguíamos podia separar-se e dividir-se

Enquanto um ano passa e se vai
Também as apostas se perdem e se ganham
E muitos são os trilhos tomados pelos primeiros amigos
E todos os outros que nunca mais vi

Desejo, desejo, desejo em vão
Que novamente possamos sentar-nos naquele quarto
Dez mil dólares eu daria com prazer e sem qualquer discussão
Se as nossas vidas pudessem voltar a ser como eram.


Versão de HMBF. 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Justiça para Bob Dylan? Em nome de quê? Admirando o seu trabalho ou denegrindo-o, em que medida é que o seu Nobel pode (ou deve) ser avaliado em termos de justiça? Desde quando a Academia Sueca é uma entidade legislada pela gritaria "social" dos que detêm o poder e a inteligência de recolocar o mundo numa ordem ideal e, pelos vistos, inquestionável e compulsiva?

Perguntas de João Lopes a que o próprio tenta responder: aqui.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

RUI ALMEIDA


Entradas sobre a poesia de Rui Almeida neste weblog: leitura do livro Lábio Cortado (aqui), leitura do livro Leis da Separação (aqui), apresentação do livro Temor Único Imenso (aqui), um poema do livro Lábio Cortado (aqui).

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

RETARDAÇÃO

Dou uma volta pelos weblogs e respectivas caixas de comentários, salto aos jornais para averiguar reacções. Pasmo. Pode-se apreciar mais ou menos o género musical praticado por Dylan, pode-se até duvidar da excelência das suas letras. Para o caso, é essa dimensão das letras que importa. O Nobel da Literatura não é atribuído ao tom de voz nem aos acordes que podem acompanhar um texto, é atribuído a textos. Pois bem, o que para mim é impensável é haver quem inferiorize uma canção a ponto de não a julgar literatura. Supunha que tais preconceitos haviam sido há muito ultrapassados. Discordar-se deste Nobel por ter sido atribuído a um escritor de canções é absolutamente ridículo. Uma sugestão: leiam Era um redondo vocábulo, do José Afonso. Depois mostrem-me quantos poemas melhores do que os versos dessas canção foram escritos na segunda metade do séc. XX português. Afinal, esta questão das classes é mais preocupante do que eu julgava. Sugiro uma busca no Google por "Disease of Conceit".

Adenda: acrescentar este post de contra mundum: «Persiste à nossa volta o erro de confundir os livros com a literatura. De confundir o suporte com o discurso. Nem a literatura é redutível ao livro, nem o livro se esgota na literatura.» A sério que estou estupidamente estupefacto com as reacções por aí encontradas: gente de esquerda, supostamente progressista, com comentários conservadores ao nível do mais obtuso direitista; pessoas que acredito serem inteligentes a menosprezarem o que claramente desconhecem; mentalidades de burgesso em literatos do universo underground. A minha alma está parva, mas ao mesmo tempo esclarecida. Foda-se, queixem-se dos taxistas…

O MEU PRIMEIRO BOB DYLAN


Não me recordo de viver sem música por perto. A hipótese disso vir a acontecer é-me mais insuportável do que a ideia da morte. Se há agradecimento que devo à família, foi desde muito cedo ter-me rodeado de música. Nem sempre boa, quase sempre razoável para cima. Mas música. Lá por casa havia, por exemplo, umas caixas com sucessos compilados que as Selecções do Reader’s Digest se encarregavam de fazer chegar à província. Eu tinha menos de 10 anos e passava muitas horas a ouvir rádio ou à volta desses discos, que fazia rodar na primeira aparelhagem que houve em casa: um prato isolado directamente ligado a duas colunas. Numa dessas colectâneas da década de 60 ouvi, pela primeira vez, House of  the Rising Sun, na versão dos The Animals, Mr. Tambourine Man, na versão dos The Byrds, e All Along The Watchtower, na versão da The Jimi Hendrix Experience, todas atribuídas a Bob Dylan. Na realidade, a primeira é um tradicional de New Orleans, lamento pelo percurso da pobreza à prostituição que Dylan incluiu no álbum de estreia. Além dessas versões, havia uma canção do próprio: Lay Lady Lay. O nome daquele escritor de canções repetia-se várias vezes, era impossível não atrair atenções. Acresce que os temas se distinguiam dos demais por razões que só a intuição infantil consegue compreender. Não tinham a ligeireza melódica dos The Beatles nem o imediatismo rockeiro dos The Rolling Stones (magnífica, a versão que anos mais tarde a banda de Mick Jagger e Keith Richards ofereceu a Like a Rolling Stone). A voz de Dylan era diferente, os arranjos eram diferentes, havia em seu redor a estranheza provocada pelo génio. Não posso garantir a data exacta em que aportou na Rua de Santa Bárbara a dose dupla de More Bob Dylan Greatest Hits, mas sei que por essa altura (14, 15 anos) era rapaz que ouvia The Doors, Neil Young, Dire Straits, Simon & Garfunkel… 



Bob Dylan reunia dois universos que sempre me agradaram, o das canções folk acompanhadas por guitarra acústica e harmónica, o dos blues inclinados, aqui e acolá, para o rock and roll da velha escola. Watching The River Flow, porta de abertura para More Bob Dylan Greatest Hits, é na sua essência uma vulgar canção rock and roll. Mas se lhe pegarmos pela letra, então a vulgaridade esvai-se para dar lugar a uma extraordinária crónica social sobre o passar do tempo e a inutilidade de esforços absurdos, testemunho existencial sobre inevitabilidades que denunciam a fragilidade do humano sem dissiparem por completo a utopia: «If I had wings and I could fly / I know where I would go / But right now I'll just sit here so contentedly / And watch the river flow». De facto, Dylan começa a parecer invulgar quando paramos para o ler, quando lhe prestamos atenção às letras e nele descobrimos um poeta extraordinário que, não por acaso, foi produzindo ao longo de décadas inúmeras canções emblemáticas. Independentemente das polémicas em que se envolveu, algumas delas contribuindo para uma deterioração da imagem de singer/songwriter socialmente empenhado, vislumbramos na sua obra um compromisso de raiz humanista, desinteressado dos radicalismos que à esquerda e à direita marcaram a sua geração. 
A páginas tantas do primeiro volume de Crónicas, afirma: «A par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha vida». A alusão aos comboios e aos sinos não é acidental neste maná sonoro. Os comboios são um dos símbolos maiores da unidade americana, estão associados à transformação de uma paisagem que foi dobrada à custa de muita exploração humana e lançou para a miséria e para o desamparo inúmeros cidadãos. Mas os comboios estão igualmente associados à facilidade de deslocação, a um certo nomadismo em que as metamorfoses líricas de Bob Dylan embarcaram desde muito cedo. Essa ideia de deslocamento e de mudança, que arrasta consigo dor e sofrimento, mas ao mesmo tempo gera expectativas e alimenta a esperança dos homens, é um dado concreto da canção dylaniana que não podemos negligenciar. Daí também os sinos, elemento que aponta para uma das fases mais mal-amadas e incompreendidas de uma longa carreira. Ocorre-me um álbum como Saved (1980), polémico registo a abrir a década de 1980, com aproximações ao universo religioso através de uma apropriação particular da música gospel e dos espirituais negros. A verdade é que nesse álbum elabora-se uma outra aproximação, a qual seria deveras pertinente à luz dos acontecimentos actuais como o foi à época. Trata-se de uma aproximação entre raízes étnicas que vem ferindo de morte a tal unidade da América enquanto nação, segregando estirpes em função da cor da pele ou das crenças religiosas. 
Eis-nos perante uma obra que congrega, cuja característica mais evidente e porventura mais vertebral é precisamente a de reclamar a humanidade como um todo. Ultrapassada a fase do vinil, recordo-me que o primeiro CD de originais de Dylan que adquiri foi Oh Mercy (1989). Em retrospectiva, é o ano da retirada da União Soviética do Afeganistão, ano de manifestações em Pequim, ano da queda do Muro de Berlim… Apesar dos temas algo melancólicos superiormente produzidos por Daniel Lanois, dos mais bonitos, por assim dizer, que conhecemos na longa carreira de Dylan, o álbum abre com um perturbador testemunho dos tempos. A canção Political World foi a banda sonora ideal para o que estava a acontecer e se adivinhava enquanto efeito dos acontecimentos de então. Volto a escutá-la hoje, em época de Trump, de Erdoğan, de Daesh e afins. Infelizmente, uma canção destas não morre:


BOB DYLAN NAS LIVRARIAS

Devo dizer que me estou nas tintas para o Prémio Nobel da Literatura. Nunca li um escritor nem procurei um livro por lhe terem sido atribuídos prémios. Este ano há um mas, um aspecto menos convencional que me agrada. E além do mais gosto muito de muitas canções de Bob Dylan, foi a tentar tocá-las que aprendi a tocar guitarra, isto é, a arranhar uns acordes numa guitarra. Depois há o lado profissional da coisa, aquele que me obriga a desiludir o Xilre quando na sua pergunta traz implícita uma resposta ilusória: Imagino a cara dos editores & livreiros. O que irão colocar nas montras, nas estantes, nos destaques?



É verdade que há pouca literatura de e sobre Dylan em Portugal, como, aliás, muitas vezes acontece quando o autor galardoado é escritor de poemas ou de romances ou de peças de teatro… Basta recordar que o Nobel de 2011, Tomas Tranströmer, não tinha um único livro traduzido para português à data do anúncio da atribuição do prémio. Com Dylan não haverá semelhante problema. Desde logo porque são inúmeros os livros sobre ele disponíveis no mercado de importação, alguns até acerca de facetas artísticas menos conhecidas do autor de Like a Rolling Stone. Mas já por cá existe matéria traduzia que pode chegar muito rapidamente aos escaparates. Desde logo, as Crónicas – Volume 1, publicadas pela Ulisseia em Outubro de 2005 com tradução de Bárbara Pinto Coelho. Trata-se de uma espécie de memórias concentradas na chegada a Nova Iorque, já com a intenção clara de se tornar escritor de canções: «Não era nem de amor nem de dinheiro que andava à procura. Tinha um sólido sentido de consciência, sabia o que queria, mas não era pragmático e ainda por cima era um utópico» (p. 14). Valeu. 





Menos provável será a recuperação do velho volume publicado pela Centelha na Colecção Rock On. Data de Março de 1985 e foi dos primeiros livros de poemas que li com forte entusiasmo. Em edição bilingue, com tradução de Graça Nazaré, podemos aperceber-nos da maestria lírica latente nas canções de Bob Dylan. Dois versos de Blowin’ in The Wind: «Quantos anos pode uma montanha existir / antes de ser arrastada para o mar?» Ou os versos de A Hard Rain’s A-Gonna Fall, canção que é toda ela um poema repleto de imagens e de alusões à boa maneira beat. O Dylan da canção de protesto que no meio de uma história podia declarar amor a Fidel Castro, o Dylan onírico, surrealista, que em Mr Tambourine Man canta: «faz-me desaparecer pelos círculos de fumo da minha mente, / pelas enevoadas ruínas do tempo, bem além das folhas geladas, / das assombradas árvores temerosas», o Dylan trovador pode e deve e será exposto nas livrarias, pois é um poeta ao nível dos melhores e de algum modo limpará de um qualquer recanto mercantilista um pouco da tralha que atola hoje os espaços livreiros. Portanto, a breve trecho é muito provável que venhamos a ver disponibilizada uma antologia do género.



E há ainda e sempre os acordes, os livros de acordes, como este que tantas vezes tenho aberto para ensaiar All Along The Watchtower ou I’ll Be Your Baby Tonight. Portanto, motivos de regozijo para a indústria livreira não faltarão. Verdade que edições recentes de Adonis na Porto Editora e na Dom Quixote hão-de ter deixado de monco caído alguns apostadores natos, mas desengane-se quem julgar que a surpresa trairá os piores hábitos de quem singra pelo negócio. O Nobel da Literatura foi para Bob Dylan? Pois bem, publique-se Bob Dylan.


Adenda: por justiça, refiram-se igualmente os dois volumes de canções editados pela Relógio D'Água - Canções - volume I (1962-1973) e Canções - volume II (1974-2001) - em 2006 e 2008, assim como a única obra de ficção publicada por Bob Dylan até hoje, de seu título Tarântula, dada à estampa pelas Quasi Edições em 2007.

DEDICATÓRIA


Uma tese de doutoramento dedicada a Bob Dylan. Da Mariana, aqui.

UM CONCERTO DE BOB DYLAN


13 de Julho de 1993, andava eu perdido pelas colinas da capital há meia dúzia de meses. Falhar a oportunidade de assistir ao concerto de um dos meus ídolos estava fora de questão. Precisava de 4500€, consegui os 4500€. Dirigi-me à Bimotor, discoteca nos Restauradores onde comprei dezenas (centenas?) de CDs, e os olhos vidraram, o rosto transpirou, o coração palpitou quando me vi com o bilhete nas mãos. Inicialmente agendado para o Restelo, julgo que por falta de público acabou por ser transferido para o dramático de Cascais. A 1.ª parte do Sérgio Godinho desapareceu, sendo substituída por uma suposta 2.ª parte de Laurie Anderson. Referi-me a esse momento aqui, mas não contei o mais relevante. Durante a actuação de Anderson, grande parte do público manteve-se de costas voltadas para o palco. O ruído era imenso, a performance literária de Laurie estava a passar ao lado. Não dos meus sentidos, absolutamente concentrados e extasiados pela encantadora experimentação daquelas canções. Confesso que ganhei mais nesse dia com o concerto de Laurie Anderson do que com a prestação de Bob Dylan. Já numa fase trôpega de um percurso instável, Dylan mal se ouvia. A voz resumia-se a um imperceptível arrastar de sílabas, a acústica estava péssima, indisponível para harmónicas e, a espaços, verdadeiramente insuportável tal era a cacofonia. Mas Bob Dylan estava ali a dois ou três metros, para mais com um álbum acabado de editar que revisitava os bons velhos tempos da canção folk e dos blues. Ainda cá por casa no velho formato vinil, volto a escutar Good As I Been To You (1992) e sou surpreendido por uma canção intitulada Blackjack Davey. Trata-se de um entre muitos tradicionais norte-americanos que Dylan recuperou, desbravando terreno para que outros, depois dele, como os The White Stripes ou Elliott Smith, continuassem a fazer viver o que há de melhor no imaginário popular daquelas bandas. É neste sentido que podemos chamar-lhe um clássico sem ofender o que teve de inovador. Pessoalmente, como já afirmei noutras paragens, prefiro Leonard Cohen, Tom Waits ou mesmo Nick Cave enquanto escritores. São compositores onde a face literária está mais exposta. E em termos gerais de fusão entre a música e a palavra agradam-me mais as obras de Neil Young ou de Bruce Springsteen, embora seja sempre com agrado que regresso a Bob Dylan:


BOB DYLAN


Nobel da Literatura para o escritor de canções Bob Dylan. Referências neste weblog: um western com Dylan no papel de actor e compositor da banda sonora (aqui), a estreia em disco (aqui). Há mais, mas resultam de referências e citações em contextos laterais à obra do autor em causa. Hoje haverá recordações ao longo do dia. Robert Allen Zimmerman ficará para a história como o escritor que elevou universalmente a canção ao nível da literatura.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

ACTUAL

Cada vez mais alheado da actualidade, chego a casa, bebo um copo de vinho, deito-me na cama a ler um livro ou a percorrer a lista de weblogs diários e digo para comigo: ainda não é desta. Ali uma fotografia, acolá um poema. Jogam lindamente uma com o outro. Ela, a fotografia, ele, o poema. Eu a fazer de vela com taliscas de Trump e fogachos de taxista, tudo a 500 à hora, passando-me pelo lado que mete mais nojo. Bom, bom, mesmo bom, era o Trump apanhar um táxi e só pararem quando chegassem a Aleppo. Vivêssemos nós, de facto, no melhor dos mundos, uma bomba cairia por cima deles e ficaríamos todos mais sossegados a ler poemas e a contemplar fotografias. 

sábado, 8 de outubro de 2016

PAÍS



Copiado do Malomil.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O MEDO

Publicado originalmente em 1982, quando José Martins Garcia (n. 1941 – m. 2002) vivia nos EUA como professor visitante da Brown University (Providence), O Medo é uma novela onde se olha retrospectivamente um Portugal algures entalado entre a herança do regime fascista e as ilusões desfeitas pelo chamado Verão Quente. O texto foi, porém, trancado por uma data que nos indica o local e o dia em que terá sido dado por findo: Lisboa, 25 de Abril de 1979. Portanto, na ressaca da dita Revolução dos Cravos, imerso numa sociedade perdida entre os tiques do antigo regime e a ignorância da democracia. Temos, deste modo, dois planos de acção, com características muito próprias, a entrecruzarem-se ao longo da narrativa. No primeiro, a personagem central anda pelos quase vinte anos e encontra-se em Angra do Heroísmo. Estamos na década de 1960, o medo impõe-se pela desconfiança que os homens sentem uns relativamente aos outros, travados pela observação bufa de um regime castrador, o qual faz assentar os seus métodos numa sociedade ameaçada pela letargia, pela incapacidade de agir, pela pose curvada e reverente às instituições dominadoras, sejam elas o Estado e seus séquitos ou a Igreja e seus acólitos. No segundo plano de acção, a personagem central anda pelos quarenta anos de idade. Estamos a entrar na década de 1980 em plena capital do país, com incursões esporádicas por outras cidades de uma sociedade arrastada pela convulsão política. É o tempo das utopias e das ilusões, dos movimentos políticos, da luta partidária, de uma descarada inaptidão para essa coisa nova que dá pelo nome de democracia. Em suma, «tempo de ladrões e revolucionários» (p. 23). O desencanto é evidente, a revolução rapidamente se transforma numa replicação dos vícios humanos quando a olhamos a partir das pessoas, a revolução não chegou às pessoas, parece ter encontrado nelas a rocha que impede o mar de invadir a terra. Resultado: quem acreditava ser possível um país novo rapidamente cede a um cansaço interior que prova continuar tudo velho, ainda que agora se chame intolerância ao que dantes era censura. O medo persiste como uma espécie de vírus de que o sangue não se liberta, não é expurgante para vírus tão poderoso e antigo, tão histórico que parece confundir-se com o próprio sangue, vírus essencial, genético: «Rolam argumentos, à falta de cabeças. Os argumentos passarão como espuma, as cabeças ficarão na medida da prudência tradicional. Poderia ficar a noite inteira a exibir motivos de sincera renúncia, a debitar a bílis de que as traições me vão carregando. Mas, se calhar, não me habita sequer a bílis desses desregramentos. Se calhar, mato em mim todo o ressentimento devido à convicção profunda do ridículo envolvente. Poderia igualmente remexer na história deste país, gastar saliva e massa cinzenta — inutilmente, claro está! — na detecção deste ar podre, em vigor desde o século XVI, talvez antes: esta espécie de caruncho, este masoquismo de corrupção, este medo que passeou pelas fogueiras, porque neste país não se mata nem se morre na luta, queima-se o herege num cenário confortável, a encenação possível dentro do mau gosto histórico, estrafega-se o herege num palco rudimentar bem protegido pelas forças de segurança, pois se as não houvesse ali bem cobardes e impunes os carrascos começariam ao primeiro cagaço a dar vivas aos hereges e a soprar arrotos arrependidos contra o rei, o papa, a ausência que des-responsabiliza e instaura a sublimação dos canalhas…» (pp. 52-53) A citação mais longa justifica-se por nela ser perceptível o medo de que estamos a falar, um medo anterior à morte que se declara medo de viver, de agir e actuar em liberdade, exigindo ao indivíduo a tomada do destino nas suas próprias mãos, o medo das expectativas que obstaculiza a acção e torna o indivíduo inoperante, reduzindo-o de pessoa única e singular a rolamento na engrenagem de um todo onde se subsumem individualidade, liberdade, responsabilidade. Este é o medo que nos tem levado a esperar dos outros e pelos outros o que não poderá ser conquistado senão por nós próprios, um medo de actuar nas circunstâncias sem calculismos nem cautelas face a efeitos e consequências indesejáveis, o medo de simplesmente dizer não à catana que abre mato para o desfile de canalhas, escória, escroques e filhos da puta que sempre chegam ao poder de braço dado com o medo, apoiados, protegidos, escudados por partidos, clubes, seitas, sociedades secretas mais ou menos discretas. A este medo não chegou a revolução, entre Angra e Lisboa ele mantém-se o lugar-comum que apenas alguns anti-heróis logram desmentir, porque este é o medo que independentemente do tempo e do lugar impede a pessoa de ser ela própria, levando-a a submeter-se a um colectivo castrador que a faz sentir-se acautelada de potenciais ameaças. Mas que pior ameaça pode uma vida sentir do que a impossibilidade de se cumprir enquanto vida? Não será o medo de viver mais nefasto para a própria vida do que o medo de morrer? 


Nota: outras entradas neste weblog com referências a José Martins Garcia: um excerto de Alecrim, Alecrim, aos Molhos... (aqui), leitura de Lugar de Massacre (aqui).

GUTERRES

Cito: O padre Vítor Melícias fala do futuro líder das Nações Unidas como uma pessoa que se guia “pelos valores e pelas causas” e se entrega “aos mais necessitados”. Melícias vai ainda mais alto, asseverando que Guterres tem a personalidade de que o mundo precisa. Enfim, é fazer as contas.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

UM HITLER

Nada descreve tão bem a anestesia geral em que vivemos. Durante décadas, a hipotética ocorrência de um novo Hitler seria suficiente para alarmar meio mundo. Hoje, um homem que governa cem milhões de pessoas numa das regiões mais voláteis do mundo e que tem um conflito territorial no mar da China com pelo menos outros três países pode comparar-se a Hitler e a reação geral é como se víssemos um tipo de bigodinho esquisito na rua. Olha ali um Hitler.

Rui Tavares, aqui.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

CONVERSA DA TRETA

Não li nada de Elena Ferrante nem está nos meus planos futuros emendar tamanha lacuna. Não me demovem culto nem popularidade, simplesmente outras vontades se me impõem. Por exemplo, este post sobre Ferrante onde, a linhas tantas, podemos deliciar-nos com o seguinte:

Gosto de ler entrevistas a escritores ou gosto de os ouvir falar sobretudo pelo processo de escrita ou sobre como processam a realidade para a transformarem em literatura. Agora se têm quarenta ou setenta anos, se têm ou gostavam de ter filhos,


— como aquele Valter Hugo Mãe que por aí anda há anos a dizer que gostava de ter um filho. O que é que a gente tem a ver com isso? Há anos que dura esta conversa. Até já houve quem se tenha oferecido para engravidar dele. E ele nisto. Agora que trocava os livros que escreveu por um filho. O meu marido hoje, no gozo, dizia que, se calhar, ele quer é ser ele mesmo a tê-los, a engravidar. Na volta é. Caraças. Conversa da treta a do Valtinho —

ENTERTAINMENT

The Big Picture, Secret Story, Super Quiz, Shark Tank, The Voice Portugal, Got Talent Portugal, Big Brother, Best Bakery, Love on Top… são ou foram títulos de programas da televisão portuguesa. Obedecendo, na sua maioria, a formatos importados, mantêm as designações originais. Correndo o risco de parecer nacionalista, coisa que de todo não sou, eis-nos perante um retrato de um país com quase 900 anos de História.  Se até para nos entretermos precisamos de importar, com que lógica esperar algo diverso noutras dimensões da vida humana? 

domingo, 2 de outubro de 2016

IDENTIDADE NACIONAL


Pergunta Valupi: Isto de termos tido um Presidente da República que juntamente com a filha ganhou dinheiro através de favores concedidos por criminosos num banco criminoso, que violou o seu juramento constitucional ao lançar golpadas para manipular e perverter actos eleitorais e que andou a fugir aos impostos durante pelo menos 15 anos significa, portanto, que neste país cada um de nós à sua volta já nasceu mais de 10 vezes?


Compreendemos agora melhor o que queria Cavaco dizer quando garantia que não ganhava para as despesas. Ainda um dia teremos de reconhecer que os 20 anos de Cavaco na jovem democracia portuguesa foram a mais autêntica, clara, verdadeira definição disso a que alguns chamam "identidade nacional".

sábado, 1 de outubro de 2016

DIA MUNDIAL DA MÚSICA


Doug Hollis (b. 1948) is an American artist who works with wind- and water-activated sound sculptures, often in site-specific situations. (aqui)

VACA*


Como despedir-me da terra que não senti? Em nenhum lugar foi a alegria quem reinou. Talvez um certo bem-estar favorável aos nervos e às palpitações, a ilusão de uma liberdade reduzida a ínfimas ausências: nada de relógios, nada de horários, nada de livros de ponto, nada de calendários. Apenas um diário onde anotamos a passagem dos dias, oferecendo a cada página meia dúzia de linhas espontâneas, improvisadas, um desenho mal-amanhado, versos toscos. Coisas de que nos envergonhamos sempre que as revemos. Lixo. Como despedir-me de terra alheia? Jamais serei deste lugar, nem sei de onde sou, nem sei se posso afirmar que sou. Nasci em pântanos de ódio, recordações péssimas de vidas curtas, amesquinhadas pelo mexerico e pela intromissão, ruas curtas, tão curtas e tão estreitas que parecem cordões umbilicais. Soube da casa os cantos. Mas não fui dali, nunca. Emigrei para avenidas largas onde me perdi de mim próprio e nunca mais me encontrei. Talvez tenha sido alegre numa madrugada de Outono junto ao Teatro Nacional, a ler Rilke, não por estar a ler Rilke junto ao Teatro Nacional mas por ter largado numa poça nojenta os versos fastidiosos do checo. Junto ao mar sou sempre feliz, no meio do deserto sou sempre feliz, perdido na floresta sou sempre feliz, a subir a montanha sou feliz. Onde homens cabisbaixos passeiam dossiers de dívidas e mulheres dúbias camuflam dores com artifícios estéticos, colocando saltos, passando lápis pelos olhos, inventando texturas onde o tempo permite apenas decomposição celular, eu não vislumbro qualquer resquício de alegria. Apenas ilusão. Poeta amigo escreve-me sobre um dos meus suicidas, assegura que tivesse o finado reparado na montra de pastéis, nas universitárias joviais, no pregão da vendedora de castanhas, jamais teria, sem que ninguém saiba porquê, mandado a vida bugiar. Eu divirto-me a contemplar vacas e bois, sarracenos, mas é de tédio e de saturação o meu repasto. Sabemos a cura. Adiamos a cura. E como o povo asseguramos que boi em terra alheia é vaca.


* Em sentido figurado e informal, vaca é sinónimo de sorte.

POETA, EDITOR, DECLAMADOR, AGITADOR


Mais informações: aqui.


Algumas entradas sobre a poesia de Nuno Moura neste weblog: um poema do livro "Não saia nem entre após aviso de fecho de portas", seguido de nota crítica de Manuel de Freitas respigada na antologia "Poetas Sem Qualidades" (aqui); leitura de "Prémio Nacional de Poesia" (aqui); sobre o CD "Mau Sangue" (aqui); leitura do livro "Canto Nono" (aqui); leitura dos livros "Letras para Dance Music" e "Carimbos & Tatuagens, Lda." (aqui).
Outros apontamentos aqui: #1, #2, #3, #4, #5, #6. E mais um poema: aqui.