segunda-feira, 21 de novembro de 2016

DA TERRA OCA


9.

os barcos ficam amarrados aos paredões
número um, número dois, número três do cais
e o frio aquece, ao redor dos guindastes
as grossas camisolas de lã dos estivadres
parados entre as encomendas e a última escala.
enquanto as docas estão ancoradas
vão contando como e porquê
viram, diferentes, as auroras boreais. 
dizem: mais para cima é o gelo
ou a perfídia magnética do pólo...
no perigoso rebordo das lendas
o desconhecido não se relata
mas inventa-se, de ironia em ironia
pelos interstícios dos mapas. 
é insuportável o reflexo do sol
neste frio e o mundo pode ser
um discurso impaciente
no meio de um grande silêncio.
ícaro teria voado para lá
onde dizem nascer os pássaros
e os gelos, mais a norte, se derretem?
é preciso explicar o inverso sentido dos climas
na transgressão dos animais... aqui
sabe-se de tudo como quem espreita
os vizinhos chegando aos bordos pelas escadas.
alguns dizem — no entanto —
que certos exploradores
foram mesmo silenciados pela loucura:
outro sol no centro do mundo.


R. Lino (n. 1952), in Atlas Paralelo (1984). Estreada em 1984 com Palavras do imperador Hadriano: Primeira, Segunda e Terceira Séries (Coimbra, Centelha), R. Lino é uma das mais discretas poetas portuguesas contemporâneas. Além de moderadíssima em obra publicada, prima pela reserva num tempo em que o culto da imagem tantas vezes sobressai diante da obra feita. Ainda em 1984, publicou Atlas Paralelo na saudosa colecção Gota de Água, da INCM. Seguiram-se Paisagens de Além Tejo (Rolim, 1986) e Daquíra (Frenesi, 1988). Refira-se que Atlas Paralelo e Paisagens de Além Tejo constituiriam os dois primeiros volumes de uma trilogia a ser completada com Mapas, sobre o qual não temos qualquer notícia. Depois dos títulos vindos a lume durante a década de 1980, R. Lino regressou apenas em 2012 com : Predação: / Urânia, Nós e as Musas (edição da Autora). Em 2013 a Companhia das Ilhas publicou-lhe Baixo-Relevo, com poemas concebidos nos idos de 1984 e 1985. Enigmática, esta poesia furta-se a definições programáticas. Nela reconhecemos a relevância dos dados históricos e geográficos, deles surgindo uma linguagem sem preocupações retratistas ou testemunhais.  Climas, ambientes, paisagens, lugares, sítios povoados por fauna e flora mormente campestres, atravessam esta obra sem que nela os elementos rurais se sobreponham a uma criticidade ontológica sem fronteiras de qualquer espécie. Paralela à geografia física dos dias, surge a geografia do poema entendido não como representação, mas como realidade outra onde lugar e história são assimilados e dessa assimilação decorrem como expressões do ser.

sábado, 19 de novembro de 2016

RECORDAÇÃO DO PAI


Batia com a esquerda,
por vezes cego de raiva.
A direita estilhaçada até ao ombro
num campo de batalha russo.

Quando chovia
a luva preta cheirava a cabedal
e doía-lhe o braço perdido.

Se estava de feição dava-nos dinheiro
e deixava-nos enfiar-lhe o elástico branco
pela manga da camisa.

Mais ainda que a força da sua esquerda
e os rompantes da sua ira
temíamos
a sua ternura sem jeito.

Talvez até o amássemos,
sentindo-lhe escondido o medo da solidão.
Mas acabávamos sempre a fugir-lhe.

Melhor me lembro
desse braço postiço
com a mão de couro preto
do que lembro o seu rosto.

Ainda estou a vê-la
imóvel na toalha branca,
ao lado do prato,
com a carne já cortada:

Incapaz de violência,
e de uma dependência inexprimível.


Hans-Ulrich Treichel (n. 12 de Agosto de 1952, Versmold, Vestefália, Alemanha), in Como se Fosse a Minha Vida, tradução colectiva (Mateus, Outubro de 1993), revista e apresentada por João Barrento, Quetzal Editores, 1994. pp. 13-14.

SUBMARINO N.º 1


Submarino - Rivista Luso-italiana di Studi Comparati, n.º 1
Direttore responsabile: Carlo Cerrato
Comitato Direttivo: António Fournier, Alessandro Granata Seixas, Manuele Masini
Scritturapura Casa Editrice, Dezembro de 2015


- Cesare Pavese (in Suicidas, Deriva, 2013), traduzido para italiano por Livia Roggero, pp. 52-53;
- Solidão (in Antologia do Esquecimento, 2003), em edição bilingue, versão italiana por Livia Roggero, p. 109.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

#87



Rock Extravaganza (2016) é o mais recente trabalho de Kubik, designação por detrás da qual se esconde o músico Victor Afonso. Oriundo da Guarda, Kubik insiste em dar continuidade a uma produção à margem do mainstream. Embora o método criativo utilizado tenha por base um exercício de colagem, fazendo-se valer da manipulação electrónica de fontes sonoras diversas, percepcionamos amiúde elementos vocais e instrumentais que oferecem ao todo uma peculiaridade que extravasa o domínio da montagem. Tal como o título indica, este disco caracteriza-se pelo eclectismo das composições. O primeiro tema remete-nos para o universo de um Gogol Bordello, o que já de si nos diz da multiplicidade de géneros mesclados sob a designação genérica de extravaganza. Quando se reduz ao instrumental, Kubik envereda por trilhos cinematográficos assaz sugestivos. É o caso de um excelente tema intitulado Nihil Aut Mors ou do magnífico The Lodger, este último acompanhado de uma voz feminina que funciona como instrumento solo sobre uma estrutura rítmica que nada fica a dever às investidas downtempo de uns Tosca ou de uns Peace Orchestra. Mas as vozes que aqui e acolá povoam os temas de Rock Extravaganza desviam-se, de um modo geral, do ambiente suscitado por The Lodger, enveredando por uma atitude burlesca que pouco tem que ver com o romantismo, por assim dizer, das batidas downtempo. Outra excepção, pela clareza pop que sugere, seria o tema Dirty Philosophy. Mas escutemos Nihil Aut Mors:



O álbum está integralmente disponível on-line: aqui.

UMBIGO

Na precipitação preguiçosa com que tudo é feito e escrito, literatura ou crítica, raríssimos são os que têm, ao mesmo tempo, a culta humildade de conhecerem as suas limitações, e a autoridade para falarem de alguma coisa que não seja a sua raivinha semanal. Pelo que não há alternativa para um honrado escritor português senão partilhar alguns louros com a canalha, e receber dela o esterco que ela lhe reserva. Isto não sou eu quem o diz — curiosamente, é toda a gente, quando fala dos "outros", por certo achando que são menos como os "outros", exorcismando-se. Não haverá no mundo vida literária em que tanta gente se compraza deliciadamente, em privado, com julgar pulhas os outros. Em público, é diferente. Pois saibam V. Ex.ª que, enquanto não tiverem a coragem de se conhecerem como tal, continuarão a sê-lo e a envenenar uma juventude que não tem outro remédio senão criar-se à vossa imagem e semelhança. Como princípio de cura, leiam o Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos. E deixem de ler-se uns aos outros, que não vale a pena. Há décadas passadas, foi moda atacar José Régio por, dizia-se, contemplar o próprio umbigo. O mais que pode dizer-se, hoje, é que mais vale o próprio do que o alheio. Porque, se uma pessoa começa no umbigo, é um perigo onde acaba.

Jorge de Sena, in Poesia e Cultura, excerto do ensaio A poesia e a vida (1972/73), Edições Caixotim, Outubro de 2005, pp. 107-108.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

LANÇAMENTO

Talvez fosse avisado deixar a biografia fora disto, não se desse o caso de em nota introdutória ao seu mais recente livro, de título Lançamento (Douda Correria, Outubro de 2016), Margarida Vale de Gato (n. 1973) induzir entre os poemas coligidos e a vida vivida uma interdependência impossível de ignorar. Tal interdependência sucede em dois sentidos paralelos, o da perda, aliada a mortes inesperadas, e o de quem permanece entre os vivos. «Eu quero fazer sentido da perda», declara a autora como quem manifesta um programa poético. Para tal, cada um dos poemas reunidos convoca um nome próprio. Independentemente das associações que a uns e a outros possam ser permitidas, em apenas um dos poemas o nome próprio se faz acompanhar do apelido que determina a pessoa a quem os versos claramente se dirigem: Rui Costa, cabeçudo, por tudo. Trata-se de uma excepção, pois em mais nenhum poema se estabelece uma interlocução do mesmo tipo. Ainda que a espaços possamos encontrar elos objectivos entre sujeito poético e receptor (no poema Alice, por exemplo, é evidente que o discurso se dirige à filha da autora), esta objectividade não é de todo relevante para a compreensão do poema. De resto, há nomes que se repetem — Luís (4X), Miguel, Rui e António (3X), Pedro (2X) —, um que surge no plural — Teresas —, outros que aparecem acompanhados: Jaime e José; António, Henrique, Patrícia; Flarimundo e Manuela
Seguido de uma ensaio onde a autora achou por bem explanar os motivos por detrás de tal arrumação, ficamos a saber que: «Estes nomes que eu amo não são, de todo, recados, nem sequer destinatários. Quando muito transferências, estafetas e não arautos. Agrada-me por enquanto que se mantenham como sentinelas, resguardando a interpretação apressada. Interessa-me o confessional sonegado, o encontro entre escrita e biografia no emocionante efémero, que se resolve e fixa, quando lhe assiste a arte, sem causas nem razão». Como compreender este encontro entre escrita e biografia senão deixando a biografia fora disto? Ao leitor, pouco importará a biografia sonegada no poema. Esta é já a expressão de uma outra coisa que não exactamente a vida. O que o leitor encontrará é uma paisagem, nesse sentido que outrora lhe foi dado por quem descobriu haver entre a representação e o objecto representado uma cisão inultrapassável. Talvez caiba ao poeta, assim como a qualquer artista, fazer da sua obra uma ponte entre a experiência do vivido e uma possível transfiguração dessa experiência, conquanto aceitemos não haver obra onde a discursividade poética aflua invariavelmente para algo que por detrás da realidade se esconde. Que algo é esse? Podemos chamar-lhe ideia, podemos chamar-lhe amor, podemos chamar-lhe paixão, podemos chamar-lhe afecto, podemos chamar-lhe sentimento, podemos chamar-lhe respiração. Podemos chamar-lhe imensas coisas. No fundo, é sempre um ponto de encontro entre a percepção daquele que se expressa e a percepção daquele que pela interpretação procura entender o que foi expressado. 
Neste sentido, os nomes próprios atribuídos aos poemas não diluem a função contextualizadora de um título. Antes reivindicam para os poemas uma aproximação à vida que pode ser entendida, em suma, como um dos propósitos da escrita. Podíamos confrontar esta posição com a de um poeta como Ruy Belo, para quem o acto de escrever era uma espécie de suicídio repercutido até à palavra derradeira. «Ao escrever, mato-me e mato», escrevia. Resta saber se neste gesto não está implícita uma revogação da morte, na medida em que ao matar-se e matar aquele que escreve transfere para o texto os dados da vida. É precisamente de transferências que fala Margarida Vale de Gato, propondo para a poesia «um lugar grato onde um amigo ao menos nos habita». Realiza-o insistindo numa sintaxe complexa, repleta de inversões, e na desconstrução de formas fixas já testada nos livros anteriores, acrescentando agora uma inusitada narratividade em alguns poemas, sendo que em dois deles a quebra de verso cede à prosa e o discurso assume uma configuração sociopolítica que não é de todo a mais recorrente nesta poesia. 
Ainda que os temas sejam diversos de poema para poema, além do sentimento de perda que motiva o livro há uma outra temática que parece transversal. Refiro-me à inclinação para uma paisagem campestre desde logo introduzida nos primeiros versos: «Planto jasmim semeio bagas carrego terra / numa pá desde a ribeira ao quintal vingam / coisas que vivem». Sem que se oponha aos retratos capturados na agitação da cidade, este olhar mais estendido sobre as coisas da terra e, por vezes, penetrador de uma paisagem rural, não idealiza a Natureza nem sequer aprova o campo enquanto suposto paraíso perdido a que se regressa por nostalgia: «Para a ceifa não fui feita minha chorona mãe, / não te rales se souberes de mim presa ou a monte / com mau nome traficada, a capital é um pulo / eu não quero estar mal parada». Ao invés, o rural parece também aqui ser sinónimo de uma perda que regressos momentâneos, sejam físicos ou através da memória, não logram reparar. Em suma, tanto em sintonia com o homem só de Emerson como com o artista solitário de Rilke, «A poeta escreve sempre na prisão». A liberdade não advém do lugar como consequência deste nem do exercício mais ou menos lúdico de uma arte, ela constrói-se no corpo, pelo corpo, em paradoxal comunhão com o outro que connosco partilha espaço e comunica. Assim o entendemos ao ler num dos mais belos poemas deste livro versos que nos capturam por neles encontrarmos o essencial: «Nenhuma parte do corpo, porém, como a cabeça / segura tantos orifícios animais, por mais que a beleza / seja da nossa responsabilidade como a limpeza e a luz / da pele, como a limpeza e a luz do traço no papel / morreríamos incomunicáveis sem os nossos buracos. / O raro alimento, o faro, o bafo, o som, o beijo / necessitam feias fendas, alargados poros».

DEMOCRACIA AMERICANA

Na democracia dos USA não ganha quem tem mais votos, nem que seja um milhão. Ganha quem vencer nos estados certos. Isto aplicado à bola tinha o seu quê de agradável. Não ganharia quem acabasse com mais pontos, mas quem ganhasse os jogos mais importantes (clássicos e "dérbis"). Todo um novo leque de possibilidades se abriria para que eu pudesse finalmente rever o meu Sporting campeão. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

VIAGEM SINGULAR A WORPSWEDE

Worpswede é uma localidade alemã próxima de Bremen. No final do séc. XIX, um grupo de jovens pintores, saturados dos ensinamentos da Academia, estabeleceu no local uma comunidade artística com propósitos inovadores. No início, integraram-na os pintores Fritz Mackensen (1866-1953), Hans am Ende (1864-1918) e Otto Modersohn (1865-1943), aos quais se juntaram mais tarde outros artistas e escritores. O poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) foi um deles, tendo mesmo chegado a contrair matrimónio nessa cidade com a escultora Clara Westhoff (1878-1954). Um dos aspectos comum a todos estes artistas é o interesse pela paisagem. Viagem Singular a Worpswede (Feitoria dos Livros, 2016) é um dos breves ensaios dedicados por Rilke a esta tendência. Traduzido e precedido de um ensaio por João Barrento, revela-se uma agradável leitura acerca da relação do artista com a Natureza. E é precisamente no ensaio introdutório, entre citações de Georg Simmel, Walter Benjamin e Adorno, que vislumbramos uma forma curiosa de colocar este problema: Rilke olha para a Natureza com a nostalgia de algo perdido. 
Seria interessante confrontar esta perspectiva, porventura tipicamente europeia, com a de um transcendentalista como o norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882) no ensaio A Natureza. Uma ponte se estabelece desde logo entre ambos: a condição solitária do homem entregue à natureza. Mas se em Emerson esta é ainda um desafio, no texto de Rilke surge na forma de um sentimento estranho. A comparação serve para reforçarmos a nossa convicção de que, salvo raríssimas excepções, a cultura europeia tendeu sempre a olhar para os fenómenos da natureza com distância, tornando-os coisas mentais quando se aproveita deles enquanto objecto de representação artística. O interesse de Rilke pela pintura paisagística não deve ser dissociado desta condição: «a paisagem é para nós algo de estranho, e sentimo-nos terrivelmente sós sob árvores em flor ou à beira de ribeiras que correm» (33). 



Sedentarizado nos complexos arquitectónicos das grandes urbes, o homem europeu perdeu definitivamente o seu contacto com a natureza, sentindo-a cada vez mais como algo «estranho e violento». O que a experiência de Worpswede proporcionou foi uma espécie de regresso a essa infância perdida cuja principal característica era a de um elo, entretanto quebrado, com a paisagem. Rilke vai longe ao reivindicar para o artista a viagem que procura reaproximar-nos do mundo natural: «Toda a arte é isso: amor que se derramou sobre enigmas» (p. 71). Ou seja, toda a arte é um enigma que permite ao homem nele mergulhado aproximar-se do grande mistério da natureza. Como validar uma tese destas num mundo em que a criação artística tende a exercer-se cada vez mais nos espaços confinados de estúdios, fábricas, ateliers? Ocorre-me a figura de Cesariny, afirmando e reafirmando que nunca escreveu um poema em casa. Os poemas surgiam-lhe na rua, escrevia-os à mesa de cafés, rodeado de uma energia vital que as paredes do lar tendem a aniquilar por domesticá-la. 
Em termos estéticos e, por consequência, éticos, temos aqui um problema ainda mais fundo, porventura cultural. São raríssimos os artistas que hoje se interessam pela paisagem, abrindo-se a ela com a inocência e o espanto da criança ou aceitando integrar-se nela com o espírito daquele que dizemos selvagem. Delimitado pelo Eu, em confronto com o Outro, aquele que cria tende a ser objecto de si próprio, esvaziando-se em auto-retratos de interesse duvidoso. E se isto é desde há muito evidente no mundo ocidental, com os seus desvios de ordem sociológica e política muito localizados, perguntamo-nos como será nesse outro mundo onde a arte tradicionalmente surgia de uma inversa anulação do eu. Experimentemos regressar, por exemplo, a múltiplas formas de poesia chegadas do extremo oriente, que facilmente se tornará compreensível por que razão a rã de Bashô jamais poderia coaxar num poema de Shakespeare, de Dante ou de Camões.
Concentrados nas coisas do espírito, os nossos artistas raramente se aperceberam do mundo que existia para lá deles próprios. A este propósito, é deveras interessante o olhar que Rilke lança sobre os camponeses de Worpswede, sublinhando, aliás, que com eles nunca se misturavam os artistas. Esta demarcação de espaços onde cada qual tem o seu papel a desempenhar enviou-me para o poeta norueguês Hans Børli, de origens humildes, ele próprio madeireiro, a escrever poemas no seio de uma floresta que soube ao mesmo tempo contemplar e representar. Era parte integrante de um todo imenso em contínua transformação, que, para todos os efeitos, não deixa de ser enigmático por dentro dele haver quem se descubra integrado. 

EMBANDEIRAR EM ARCO


Consumo inusitado de Kompensan estimula economia portuguesa. 

ABRIR UM INQUÉRITO


Segundo o jornal Público, a responsável por uma Associação de Psicólogos Católicos afirmou que ter um filho homossexual é como ter um filho toxicodependente. Desconheço o contexto em que tal afirmação possa ter sido proferida, nem sabia da existência de uma Associação de Psicólogos Católicos. A invasão da ciência pelo esoterismo é-me estranha. Mas agrada-me o perfil da beata, desafia-me o pensamento com toda uma série de conjecturas:

1. Para esta "psicóloga", a que será comparável ter um filho gay toxicodependente?
2. Poderemos considerar que consultar um psicólogo católico é o mesmo que nos confessarmos a um padre?
3. Qual a diferença entre um padre e um padre e um padre?
4. E se o filho gay for católico?
5. E se for católico, gay, toxicodependente e seminarista?
6. Presumindo que a toxicodependência careça de tratamento, que receita para tratar um homossexual?
7. Referindo-se a psicóloga a estigmas, como surgirão os estigmas? 
8. Poderemos considerar a afirmação proferida um estigma social?
9. Ter um filho toxicodependente é um problema inquestionável. Ter um filho homossexual é um problema?
10. Ter um filho sacristão é como ter uma vítima de pedofilia? 
11. Ter um filho seminarista é como ter um potencial criminoso?

(…) 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

O RUMO

Os especialistas digladiam estatísticas, números, interpretações. Socorrem-se das revistas e dos jornais estrangeiros que leram e espantamo-nos com o tanto que lêem. Têm convicções fortíssimas acerca das causas e, quais pitonisas, prevêem já as consequências. De arrasto, misturam tudo numa salada de indignações que não aquece nem arrefece. A única coisa que lhes ferve é o estilo. Duvido que sentissem as mesmas coisas ou pensassem da mesma maneira se trabalhassem numa Bershka ou na Zara. 
O mundo prossegue a um ritmo vertiginoso na direcção do abismo, com seus Centros Comerciais gigantescos, inaugurados com pompa e circunstância, a comercializarem artigos produzidos com mão de obra barata estrangeira para serem vendidos a mão de compra inflacionada. Natal à porta, febre consumista exacerbada, chega a ser insultuoso passar-se ao lado destas matérias como se elas não coubessem nas estatísticas. Mas esperam o quê de uma sociedade assim? Gente frustrada, com cursos tirados, a trabalhar sábados, domingos e feriados, serventes da máquina consumista em distribuições horárias a que se dá o nome de flexibilidade para se disfarçar o desrespeito pelas 40 horas semanais.
Façamos nós contas da nossa especialidade: um dia tem 24 horas. 8 são para trabalho efectivo. Sobram 16. Retiremos já 2 horas, uma para almoço, outra para jantar. Sobram 14. Retiremos mais duas horas perdidas em transportes públicos. Sobram 12. Retiremos uma para a higiene pessoal e o pequeno-almoço. Sobram 10. Retiremos, pelo menos, 6 horas de sono para um corpo cansado. Sobram 4. Das 24 horas que um dia tem, sobram 4 ao burguês para cultivar valores fazendo o que bem entender: desporto, lazer, família, estudo, informação… Ora, alguém julga que nestas 4 horas um cidadão comum, arrasado pela fadiga quotidiana, vai estar interessado nas estatísticas dos especialistas? Tem a cabeça cheia de ruído. Dêem-lhe entretenimento, que merece, dêem-lhe sensacionalismo, que não pesa, dêem-lhe pornografia, que descontrai. 
Grosso modo, os efeitos de uma sociedade assim organizada são óbvios: comodismo, indiferença, letargia. Em dias de folga, se os tiverem, as pessoas não se dedicarão à reflexão nem à meditação transcendental. Aproveitarão para se embebedar, fazer churrascos, retirar da vida o parco prazer do que tomam por dia de liberdade. Desiludam-se os especialistas. O ódio, a raiva, os medos, que medram no imo de gente assim explorada, não encontram nenhum significado, nem por nenhum processo mágico se identificarão com discursos apaziguadores. Estas pessoas já só entendem a retórica dos recalcamentos. Mas essa não se mede em estatísticas, treina-se nos palcos de um espectáculo que é o das audiências.
Numa sociedade toda ela inclinada para o fantasioso da opinião (abram-se os jornais), da partilha indiscriminada e publicitária da intimidade (frequentem-se as redes sociais), da promoção do ódio dos fracos aos mais fracos (sentem-se nos cafés a ouvir o povo), que podemos nós esperar senão a redução da democracia a um degradante reality show? Com a cultura do saber e da reflexão completamente destruída, e até arcaizada pelos novos pensadores do imediatismo, não admira que o populismo some e siga. Irá somar ainda mais, movido, como sempre, pela estupidificação das massas. Não há tempo para pensar, o pensamento exige tempo e silêncio, tempo e silêncio são inimigos deste novo mundo, pensar exige ócio, o ócio é um terrorista do passado que a contemporaneidade pós-humana jamais tolerará. Com a complacência e a responsabilidade de todos que não se oponham a isto sem ceder à ditadura do humorismo e adoptando uma postura de exigência que tenha por fim mudar o rumo da sociedade, mas mudá-lo de facto.

sábado, 12 de novembro de 2016

#86



Tive um amigo lá no far west que me apresentou a Leonard Cohen. Agora que penso nisso, devo-lhe várias aproximações. Mas Songs of Leonard Cohen (1967), gravado numa BASF, foi uma das mais relevantes. Mais tarde tivemos uma daquelas discussões boas de se terem por causa de I’m Your Man (1988), um dos primeiros CDs que comprei quando os CDs eram a grande novidade. Esse meu amigo dizia que canções como First We Take Manhattan e Take This Waltz eram sinal de uma decadência difícil de suportar pelos fãs dos primeiros álbuns de Cohen. Arranjos sintetizados e sofisticados, coros femininos muito eighties, afastavam definitivamente as canções da sua raiz. A voz de Cohen também estava diferente, com uma gravidade que os anos não perdoavam. Mas o pior, o crime, era praticamente não se ouvir violão, o orgânico havia sido tomado pelo sintético. O bardo tinha-se transformado num crooner, e isso era imperdoável. Assim pensava o meu amigo à época, e não estava de todo enganado. Confesso que fiquei com sentimentos ambivalentes relativamente ao álbum de 1988, embora tenha encontrado lugar excepcional para canções como Everybody Knows e Tower of Song (bela versão lhe ofereceram os The Jesus & Mary Chain). Acontece que o registo declaradamente pop de I’m You Man, com Cohen na capa fotografado a comer uma banana warholiana, envelheceu como um bom vinho envelhece. E 28 anos passados, com tanta tecnologia a tomar conta da composição musical, chegam a parecer arcaicas as incursões pela electrónica aqui levadas a cabo, conferindo ao registo um tom nostálgico que cai perfeitamente com a ironia dos poemas na dança de uma valsa melancólica inflada de sensualidade:


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

BELOS VENCIDOS (um excerto)


   10. Sempre quis ser amado pelo Partido Comunista e pela Santa Madre Igreja. Queria viver numa canção folk, como o Joe Hill. Queria chorar pelas pessoas inocentes que a minha bomba deixaria necessariamente estropiadas. Queria agradecer ao velho camponês que nos daria de comer na nossa fuga. Queria usar a minha manga vazia arregaçada até cima, ver as pessoas sorrir quando eu fizesse a continência com a mão errada. Queria ser contra os ricos, mesmo que alguns deles conhecessem Dante; momentos antes da derrocada um deles ficaria a saber que também eu conhecia Dante. Queria que levassem o meu busto pelas ruas de Pequim, com um poema escrito no meu ombro. Queria poder sorrir aos dogmas, e apesar de tudo deixar que estes me distorcessem a personalidade. Queria defrontar as máquinas da Broadway. Queria que a Quinta Avenida recordasse os atalhos índios que por lá passavam. Queria sair de uma cidade mineira com maus modos e convicções incutidos por um tio ateu e bêbedo, ovelha negra da família. Queria atravessar a América num comboio blindado, ser o único branco aceite pelos negros na convenção. Queria ir a cocktails de metralhadora ao ombro. Queria dizer a uma velha namorada escandalizada pelos meus métodos que as revoluções não se fazem nos buffets, que não podemos ser selectivos, e ver o seu vestido de noite prateado molhar-se no sítio da cona. Queria lutar contra o golpe de estado da polícia secreta, mas de dentro do partido. Queria que uma velha a quem morreram os filhos se lembrasse de mim nas suas orações, numa igreja de adobe, e que os filhos me garantissem que o fizera. Queria persignar-me quando ouvisse palavrões. Queria ser tolerante para com os vestígios de paganismo numa festa de aldeia, condenando a Cúria. Queria envolver-me em negócios obscuros de imobiliário, ser o agente de um bilionário sem nome e sem idade. Queria escrever bem dos Judeus. Queria ser alvejado entre os Bascos por transportar a eucaristia para o campo de batalha contra Franco. Queria pregar sobre o casamento com a indiscutível autoridade de uma virgem, espreitando os pêlos negros das pernas das noivas. Queria escrever um manifesto contra o controlo de natalidade num inglês muito claro, um panfleto que se vendesse nas salas de espera, ilustrado a duas cores com desenhos de estrelas cadentes e da eternidade. Queria proibir a dança durante uns tempos. Queria ser um padre drogado que gravasse um disco para a Folkways. Queria ser deportado por razões políticas. Acabo de descobrir que o cardeal... recebeu um avultado suborno de uma revista feminina, fui alvo de propostas desonestas por parte do meu confessor, vi os camponeses serem traídos por razões necessárias, mas os sinos tocam esta noite, outra noite no mundo de Deus, e há muitos que precisam de alimento, muitos joelhos ansiosos por se vergarem, subo os degraus gastos enrolado na velha pele de arminho.


Leonard Cohen, in Belos Vencidos, trad. Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água, Novembro de 1997, pp 31-32.

AS CANÇÕES DE LEONARD COHEN


Começou tarde, dizem, quando comparado com outros que não começam por onde ele começou. Antes do primeiro álbum ser lançado em 1967, Cohen já tinha editado livros de poemas e dois romances. The Favourite Game (1963), o primeiro, desbrava o caminho da salvação através do sexo. Beautiful Losers (1966), o segundo, colocava algumas pedras no caminho. Certo crítico terá falado de um desagradável épico religioso de incomparável beleza. Conversa de crítico. As canções não simplificaram a complexidade do pensamento, deram-lhe antes uma voz porventura mais fácil de chegar ao outro, aquele com quem o vate em vão procura comunicar. Em abstracto, esse outro é sempre uma indefinição que se dilui na expressão do eu. Leonard Cohen nunca deixou de ser escritor nas suas canções, as quais reflectem uma inquietação mística sem igual no panorama da chamada cultura popular (perspectiva demasiado simplista e redutora da natureza de uma canção). O que é a santidade? E o amor? Como se conjugam com a liberdade? E com a sexualidade? Como explicar o mal? No fundo, as dúvidas que estas canções sugerem têm um pendor clássico que fica bem no cenário de ilhas gregas onde o autor viveu. Citemos William Kloman: «Cohen’s political temperament is revolutionary. But, like Camus, he is starkly aware of the paradoxes of rebellion. He is frozen in an anarchist’s posture, but unable to throw his bomb». Talvez a vida “monasterial” num templo budista fosse terapêutica menor para tamanha inquietação. Creio que uma vez na ilha, jamais de lá saiu. O universo de Leonard Cohen é o da insularidade, de guitarra na mão, rodeado de um mar de incertezas por todos os lados, enquanto da voz se estendem palavras ora melancólicas, ora irónicas, ora autocríticas, ora eróticas, palavras desconfortáveis como o canto de um pássaro engaiolado à procura de liberdade. Que bem ficou neste A Noite Fez-se Para Amar


as canções de Cohen no filme de Robert Altman são uma espécie de alma a ecoar a visão melancólica que o realizador tem do mundo. Não sei se triste, se desesperançado,  o eco reproduzido pelas canções induz um romantismo trágico na relação entre os dois malditos que se amam. Nada há de simpático nestas personagens, a não ser as suas fraquezas, os seus vícios, e de como delas surde uma força indómita que não pode senão ser considerada virtuosa. Coragem? Desespero? São figuras humanas, filmadas enquanto tal relegam para o plano da fantasia os heróis inverosímeis do westernclássico. Mas não deixam de ser, também elas, figuras de um tempo que a todo o momento nos chega como identificador da nossa própria miséria

UM POEMA EM PROSA DE LEONARD COHEN


PERGUNTO-ME SE O MEU IRMÃO

Pergunto-me se o meu irmão chegará a ler isto alguma vez. Sem dúvida que o repudiaria, espero que com gentileza, diria talvez que o mar é todas as coisas que eu disse, máquinas de sonhar, um olho de cristal, tudo isso, mas embora seja verdade é melhor conservar estas coisas em segredo. Agora poderia dizer-lhe algo que nunca soube quando vivíamos juntos. Que é um luxo esse de se deixarem coisas no tinteiro, um luxo de que muito poucos podem disfrutar. Os filhos do vento e da água não precisam de se esmerar acerca daquilo que o seu sangue conhece, mas quantos podem controlar essa economia, e quantos mais se vêem obrigados a arranhar e escavar o mundo de mil diferentes maneiras, apenas para estabelecer a mínima conexão entre as suas vidas. Os heróis e os semi-heróis, os meninos ungidos aspirando pelas constelações que os esperam, esses podem desdenhosamente não implorar ao mundo horizontal com palavras e metáforas organizadas, mas eu careço do seu equilíbrio; como tantos outros, eu não aspiro a nada, não estou a ponto de ascender à minha glória, de modo que devo mover-me torpemente entre as minhas amarras, devo negociar o amor que vou alcançar, fora da minha breve história particular não haverá paixão que me revele, ninguém em particular me reclamou, de modo que me devo dedicar à confusa política do general e gritar aos deuses para demonstrar a sua irrealidade, tal como o meu irmão e eu quando embaciávamos os vidros das janelas com o nosso bafo, para que pudéssemos desenhar neles com os nossos dedos. Ele desenhava perfis, para os quais eu desenhava complicados olhos, e ninguém te pede que decidas qual dos nossos esforços foi mais significativo.


Leonard Cohen (n. 21 de Setembro de 1934, Westmount, Canadá - m. 10 de Novembro de 2016, Los Angeles, Califórnia, EUA), in Filhos da Neve - antologia poética, versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê, colecção Rei Lagarto n.º 10, Assírio & Alvim, 2.ª edição, 1997, p. 167.

LEONARD COHEN (1934-2016)


«Algures estarás a ouvir a minha voz. Tantos que a estão a ouvir. Há um ouvido em cada estrela.»

Leonard Cohen, in Belos Vencidos, trd. Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água, Novembro de 1997, p 227.

IRRITAÇÕES



Nunca devemos pensar que já vimos tudo. Devemos ser humildes perante as inúmeras possibilidades da parolice humana, sobretudo se vivermos em Portugal e formos portugueses. Hoje, num programa da SIC Radical chamado Irritações, deparei-me com o vídeo ao alto. Seria caso para confessar que me caíram os tomates ao chão, não estivesse eu devidamente preparado para imaginar ser tudo possível num país como o nosso. Acho bem que se veja este vídeo, que se reveja vezes sem conta e até que se façam debates e estudos sobre ele. Estão ali pessoas que, enfim, parecem respeitáveis fora do papel absolutamente ridículo e até algo petulante que estão a representar. O que o vídeo denota é bem mais grave do que parece. Para aquela gente, as eleições americanas não são eleições americanas. São eleições de uma espécie de administração central do mundo. Não admira que assim os EUA, ou pelo menos alguns americanos, se julguem senhores do mundo, pois que até por aqui há quem esteja disposto a reconhecê-lo. Não sei se parecem palhacinhos ou marionetas, mas que ficam todos com cara de imbecis não há qualquer dúvida.  

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

TEMER TRUMP

Apoiantes do impeachment a Dilma, descontentes com as políticas defendidas pelo PT e embarcados no submarino anticorrupção, acharam conveniente meter no poder Michel Temer, mas mostram-se agora admirados e desiludidos com a chegada de Trump ao poder nos EUA. Temer Trump seria um bom título para uma crónica. Não serei eu a escrevê-la.


Adenda: este post no Take Direto:

Existem pessoas que apoiaram o golpe e que ficaram chocadas com Trump ter sido eleito presidente dos Estados Unidos. Para estas pessoas é fácil explicar que o choque que elas conseguem ver que o mundo sente em relação a Trump é parecido com o que o mundo sentiu em relação a Temer. E ainda com um ingrediente especial: o mundo viu o golpe no Brasil como um ataque inaceitável à democracia (um golpe mesmo) e não como um resultado eleitoral que todos lamentam.

POTÊNCIA



Então, parece que o tipo do cabelo esquisito é o próximo big boss da maior potência mundial. Vai ser giro assistir ao fim do mundo. Só quem não vê westerns é que podia esperar outra coisa :-). 
No dia em que o criminoso de Arouca se entregou à polícia, retirar relevo a tamanho feito com a eleição de Trump para a Casa Branca é uma injustiça. Está garantida a alternância democrática. Que mais queriam? 
Entre Bush e Trump, tivemos Obama. Foi fixe. Agora é o aguenta aguenta do costume. No Web Summit discute-se se a Internet nos está a tornar mais estúpidos. É óbvio que não, pelo menos na América tem contribuído fortemente para o esclarecimento das populações.

Adenda:
É só rir#1:

«A manchete do New York Post condensa de forma terrível muito do que está em jogo: "Eles disseram que não podia acontecer". Quem são eles? Somos nós, os que ainda acreditavam que havia uma margem de conhecimento e racionalidade exterior aos populismos do nosso presente»... (João Lopes, aqui).

É só rir#2:


Já sei que sou anti-americano, pelo que será escusado virem com essa bandeira sempre que se quiser discutir a América para lá de Nova Iorque e de Los Angeles. Muitos europeus tendem a olhar para os EUA com uma incompreensível ingenuidade, como se nada existisse entre a Califórnia e Nova Iorque. Sucede que entre esses dois estados temos o Montana, o Wyoming, o Utah, o Kansas, o Texas, o Louisiana, o Mississipi, o Arkansas, o  Missouri, o Tenessi, Iowa, etc, etc, etc, onde não consta que os índices de racionalidade, cultura e conhecimento/saber das populações sejam, vá lá, muito promissores.
Aquilo a que normalmente se chama a América profunda só podia simpatizar com o discurso de Trump, um discurso todo ele voltado para o medo e, por consequência, para o ódio a esse outro sempre apresentado como uma ameaça. Recordemos uma das tiradas mais famosas e porventura mais eficazes de Trump:

«Os EUA tornaram-se a lixeira dos problemas dos outros. É verdade. E não falamos dos melhores e mais requintados. Quando o México envia cidadãos seus, não envia o que de melhor tem. (…) Envia pessoas com imensos problemas e essas pessoas trazem esses problemas para cá. Trazem drogas, trazem crime, são violadores».

Contra isto, Trump promete erguer um muro ao longo da fronteira dos EUA com o México. No Texas agradecem-lhe.

É só rir#3



«Tenho dificuldade em perceber como é que as vítimas dos algozes são sempre os seus primeiros defensores» (aqui).

É só rir#4

Solidário com Hillary, Passos Coelho funda o grupo terapêutico dos políticos que saíram derrotados de eleições apesar de terem tido mais votos:

terça-feira, 8 de novembro de 2016

DE NOITE

Publicadas em 1912, as Elegias de Teixeira de Pascoaes tiveram na sua origem a perda de um sobrinho. Muitos dos poemas resultam numa mera expressão da dor, fechados num sentimentalismo catártico que não me interessa particularmente. Mas outros são autênticas obras-primas do género, valendo por si só e isoladamente muito mais do que toneladas de literatura elegíaca vinda a lume posteriormente. Em poemas como Canto heróico ou Elegia da Solidão a dor afecta à escrita atinge uma dimensão crítica impressionante, atirando o poeta para um abismo de dúvidas acerca da existência que são o magma da própria poesia. Nesses e noutros poemas que à sombra desses perduram, Deus surge envolto em dúvida, indiferente, fantasmagórico: «Não sei quem és, eu não te entendo, Deus!» (Junto Dele). E ainda que o mistério da dor seja caminho desbravado para a esperança, a vida resume-se a um berço onde a morte já respira: «Dia a dia, nós vamos falecendo; / Esta vida carnal é um arremedo / Da vida, à luz da qual eu não entendo / A tragédia da morte, a dor e o medo» (Vida Eterna). Existir é, deste modo, experienciar «a tragédia da morte, a dor e o medo» como uma indefinição que leva à dúvida e, por fim, à esperança. Mas esta esperança não é a dos católicos, nem o Deus que surde desta inquietação é o Deus dos católicos. Esta esperança é a daquele que se sabe finito numa certa forma de ser, mas se descobre eterno na essência material das coisas: transformação. É a esperança de um homem ligado à terra, consciente do drama que representa em vida, corpo onde a esperança e a saudade se fundem num horizonte de perda.  

DE NOITE

Quando me deito e mais a minha dor,
Minha noiva-fantasma, e em derredor
Do meu leito a penumbra se condensa,
Faz-se em meus olhos nus uma luz imensa,
E parece-me o Reino espiritual.

E ali, despido o hábito carnal,
Tu brincas e passeias, não comigo,
Mas com a minha dor… o amor antigo.

A minha dor está contigo ali
Como outrora eu estava ao pé de ti.

Se eu fosse a minha dor, com que alegria
De novo a tua face beijaria!
Mas eu não sou a dor, a dor etérea…
Sou a carne que sofre, esta miséria
Que no silêncio clama!

A sombra, o corpo agonizante, o drama…



Teixeira de Pascoaes, in Elegias (1912).

BUFFALO BILL AND THE INDIANS, OR SITTING BULL'S HISTORY LESSON (1976)


O percurso de Robert Altman (n. 1925 – m. 2006) esteve desde muito cedo ligado ao western, nomeadamente através da realização de alguns episódios da mítica série Bonanza. McCabe & Mrs. Miller/A Noite Fez-se Para Amar (1971), filmado já para o grande ecrã, ofereceu uma outra consistência a essa ligação ao mais tradicional dos géneros cinematográficos. Mas Altman nunca foi um tradicionalista, muito menos um conservador preocupado em respeitar os cânones e obedecer a fórmulas. A prova acabada desse espírito desafiador é o comedy western Buffalo Bill and the Indians, or Sitting Bull’s History Lesson/Buffallo Bill e os Índios (1976), propondo-se usar o cinema no sentido oposto ao que mais vezes ele segue e serve: o da mistificação. O realizador de Popeye (1980) mostra-se interessado em desmistificar as figuras tipo de uma História rica em fabulações, colocando as suas personagens no plano em que a farsa é desmascarada.
Neste filme, a lenda de William Frederick Cody, popularizado como Buffalo Bill, surge configurada no ambiente propício de um espectáculo circense sobre o Oeste Selvagem. De facto, William Cody tornou-se mundialmente famoso pelo Buffalo Bill’s Wild West Show, onde encenava feitos supostamente heróicos de uma nação menos interessada nos factos do que na consolidação dos seus ícones. Ora, para esta consolidação muito contribuiu a indústria cinematográfica durante o séc. XX. Robert Altman transporta-nos para um pouco antes desse advento, descarnando até ao osso a superfície, a fachada, o embuste, para que possamos perceber o modus operandi de uma máquina de fabricação de lendas.
O Buffalo Bill interpretado por Paul Newman não é nenhum exímio caçador de búfalos, ícone do Oeste selvagem, mas antes o director e a estrela principal de um show cujo propósito final é transformá-lo num herói da nação. Parco herói, assim nos aparece, preocupado em ser visto sem peruca, alcoólico, ardiloso, oportunista, até sexualmente incapaz, vulgar, demasiado vulgar, excepto quando em delírio mental parece soltar algumas das suas angústias mais íntimas, nomeadamente a consciência da mentira que representa. Numa fase em que o show requer novidades para se manter de pé, lembra-se de introduzir no espectáculo o chefe índio Sitting Bull. Tope-se a ironia.
De facto, Touro Sentado fez parte do show de Buffalo Bill durante alguns anos. Como e em que circunstâncias, não sabemos. Altman desloca-o como quem oferece vida a um fantasma, posicionando-o num lugar de resistência dentro do próprio espectáculo. As suas reivindicações serão uma dor de cabeça permanente para Buffalo Bill, que não está interessado em contar a história como ela realmente se passou. Os conflitos levados a cabo no interior da produção, acompanhados pela sofisticação de viçosas cantoras líricas, e pela presença de Burt Lancaster no lugar de narrador participativo, aquele a quem cabe levantar as lendas, favorecem o clima geral de opera buffa com momentos de vigoroso cinismo historiográfico.
No elenco aparecem ainda Shelley Duvall, Geraldine Chaplin e Harvey Keitel, garantindo ao filme uma harmonia que acabou por lhe valer um Urso de Ouro no Festival Internacional de Berlim. Não admira que o prémio tenha vindo de um festival europeu, já que, se é exagerado considerar anti-americano um filme destes, é justo olhar para Buffallo Bill e os Índios como um exercício crítico acerca da função mistificadora da indústria do entretenimento. Exercício de tal espécie, levado a cabo por um cineasta norte-americano, tendo por objecto uma das figuras iconográficas da América do Norte no contexto específico de um género cinematográfico tipicamente americano, só poderia ser do agrado de uma crítica não instalada ou absorvida pelos mecanismos publicitários da grande fábrica hollywoodesca.

A lição de história de Sitting Bull aqui encenada pode ser vista como um relevante passo no contexto de uma reflexão profunda acerca da América. Parte considerável da carreira de Robert Altman aponta nesse sentido, tantas vezes com um apuramento satírico e autocrítico raros na Hollywood mais conservadora e conformada. A singular sobreposição de falas que deu fama aos seus filmes encontra aqui um cenário privilegiado. Note-se como o silêncio sepulcral da personagem de Sitting Bull é o contraponto ideal numa lição de história onde a cacofonia generalizada prejudica a lucidez individual. Deve ser a isto que damos o nome de inteligência, sem moralismo nem sentimentalismo a prejudicar a retórica do cinema.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

UMA VIDA SIMPLES

Salvam-se os dias com pequenas cousas. Por exemplo: em chegando a cada, ouvir isto:


Via Ouriquense

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

ONDE TODOS OBSERVAM

Quando, em 1993, surgiu nas salas de cinema Short Cuts, sem dúvida um dos melhores filmes assinados por Robert Altman, houve quem tivesse comparado o filme a um edifício despido de paredes. O espectador assistia aos diferentes sketches como se estivesse a observar o que ao mesmo tempo se passava nos diversos andares de um mesmo prédio. Lembrei-me desta dimensão criativa da montagem ao ler Onde Todos Observam (Elsinore, Julho de 2016), que não por acaso começa com um texto onde o fotógrafo Robert Mapplethorpe é representado a fazer colagens com partes de corpos masculinos recortados de uma revista. A colagem é um exercício de montagem que oferece à realidade uma nova conjugação dos seus elementos, ao passo que a fotografia, exceptuando experiências muito específicas, representa a realidade a partir de uma perspectiva. Aprendemos a olhar a totalidade de um objecto decompondo-o e voltando a unificá-la sob múltiplos pontos de observação. É precisamente isso que Megan Bradbury se propõe fazer com Nova Iorque, num livro de estreia onde nem sempre a ambição formal resulta no prazer da leitura. 
Em capítulos breves, por vezes brevíssimos, e isolados como ilhas, aquela que é porventura a mais retratada das cidades do mundo surge em frases curtas e concretas, amiúde em espaços ecfrásicos, a partir de anotações biográficas acerca de alguns dos seus mais emblemáticos habitantes. Especializada em escrita criativa, Megan Bradbury sabe os riscos que corre quando se refere ao seu livro de estreia chamando-lhe romance. Num tempo em que um post pode ser confundido com crítica literária, a qualquer objecto literário minimamente ficcionado se pode dar o nome de romance. Mas só com muito boa vontade e bastante espírito criativo poderemos aceitar que Onde Todos Observam seja ficção, ainda que não nos custe arrumá-lo entre os clássicos do género. A discussão seria irrelevante não nos obrigasse a leitura a questionar a declaração da autora. Podemos partir do princípio que se a autora afirma que escreveu um romance, então nós lemos um mau romance. Mas não se tratando de um romance, teremos lido um livro agradável de não-ficção. 
É que de um romance espera-se algo mais do que uma colagem de fragmentos, mais ou menos interessantes e reveladores, acerca de um tema comum. Mesmo que não exijamos um nexo narrativo, esperamos um fio condutor. E ele não existe aqui. Se existe, é de modo tão ténue que não damos por ele. Mais parece estarmos perante uma manta de retalhos com o propósito final de nos oferecer, em relevo, o rosto de uma cidade. Os retalhos provêm de fontes diversas, mormente fotografias, documentários, filmes, livros, relacionadas com figuras relevantes e reveladoras do espírito nova-iorquino. O engenheiro Robert Moses (1888-1981), com o seu empreendedorismo inabalável, é uma das figuras em foco, ou não tivesse sido ele um dos principais responsáveis pelo planeamento urbanístico da mais influente cidade do mundo. Também no centro das atenções está o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) e quem com ele conviveu num meio artístico dado à estilização do corpo. Walt Whitman (1819-1892), invariavelmente acompanhado do seu biógrafo Richard Bucke (1837-1902), é outra das personalidades no centro das atenções. Mas aparecem ainda o escritor Edmund White (1940), a rocker Patti Smith (1946), ou a canadiana Jane Jacobs (1916-2006), autora do atinente The Death and Life of Great American Cities (1961). 
Toda esta gente surge sem outra ligação que não seja a de se movimentar num palco geográfico comum, embora seja precisamente a partir dessa ligação que podemos estabelecer entre os recortes que compõem o livro uma panorâmica com elementos paisagísticos não necessariamente acolhedores. Aqui e acolá, certo desencanto, que não afecta o tom geral de espanto e de admiração, emerge de uma brutal constatação de como o espaço não se transforma com e para as pessoas, parecendo instaurar-se entre a cidade e os seus habitantes um frio distanciamento.  «As ideias não são como ilhas, pois não podem ser fixadas num mapa», afirma Whitman. Mas as cidades podem. E, em certo sentido, Nova Iorque é uma ideia. Uma ideia que pode ser fixada num mapa. Ou pelo menos é com essa ideia que ficamos depois de a observarmos desse miradouro Onde Todos Observam.

AS ALMAS

Que lugar para Teixeira de Pascoaes no mundo actual? Directamente saídos de cursos de humanidades, os poetas deste tempo que é o nosso mal saberão distinguir o orvalho da neblina. Como poderão compreender Pascoaes? Encafuados em apartamentos, fazendo pela vida uns sobre os outros, é mais o tempo que ocupam de soirée em soirée do que a caminhar entre serras e vales. O niilismo pós-guerra, a tensão pré-milenar, a secularização progressiva do pensamento, materializada na virtualização do real que as redes sociais promovem, não é ambiente propício ao transcendentalismo de uma poesia que tem na sua relação directa com a Natureza um foco primordial. Nenhum dos nossos poetas fez mais programa da Natura do que Teixeira de Pascoaes, observando-a e interrogando-a para nela descobrir uma vida à nossa imagem e semelhança, para através dela ascender a um plano etéreo, místico, onde todas as coisas se reúnem num sentido cosmogónico universal. As rochas respiram na poesia de Teixeira de Pascoaes, a luz do sol é sangue que vivifica outeiros, rios, bosques, animais, o vento tem uma voz que cabe ao poeta decifrar.  Que sentido pode isto fazer para quem nasce, cresce e vive em cidades movidas pela ambição e desprovidas de terra?

AS ALMAS


Vejo passar, na infinda solidão,
Vultos de almas, figuras de emoção;
Os poetas do silêncio que não cantam,
Os doidos que, de súbito, se espantam,
Os que gelam, ao ver o luar nascente,
Os que fitam a mesma estrela, eternamente;
Os perdidos da sorte,
Os que chamam, gritando, pela morte!
Os que andam, sem saber, pelos caminhos,
Os que de noite vão, sempre a falar, sozinhos;
Os que vivem casados com a dor
E a escondem, ciumentos;
Os trágicos do Amor,
Os que sentem astrais deslumbramentos,
Os que matam e cantam, por destino;
O salteador nocturno, o poeta que é divino.
Os tristes vagabundos,
Em perpétua e fantástica viagem...
Os que amam a paisagem
E têm nos olhos a amplidão dos mundos...
Vultos de almas, figuras de emoção,
Errantes, na infinita solidão.


Teixeira de Pascoaes, in Vida Etérea, 1906.

ONTEM


Tem sido assim ultimamente, o número de visitas que nos chegam dos Estados Unidos bate todos os recordes. O pouco interesse dos meus conterrâneos, em comparação com os americanos que por engano aqui vêm parar, faz desta antologia do esquecimento um logro. Mas um logro anódino. As horas que me rouba à vida seriam de mais tédio acrescentado ao tédio, porventura especado a percorrer o mundo através do Google Earth. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ANTEMANHÃ


Arredado do “pseudocinismo” triunfante, Teixeira de Pascoaes não é conciliável com a lírica à la carte da actualidade. Resiste por isso esquecido a um canto empoeirado, preterido por modernismos de pacotilha e surrealismos de cabeceira. Não interessa porque questiona, incomoda, exige do pensamento um esforço de concentração nada dado à ligeireza criativa dos dias correntes. Onde terá adormecido a luz outrora vislumbrada pelo aristocrata de Amarante? De olhar atento às matérias do mundo, feriu-se-lhe a consciência de observar uma miserável paisagem humana de indigentes andrajosos, mulheres agonizantes com filhos ao colo, pedintes desgraçados, mendigos, lares desfortunosos, magros proletários, pobres pescadores, enfim a dor dos oprimidos, a grande dor do sofrimento humano. Tanto no campo como na cidade, uma paisagem humana degradante existindo no seio da Natureza restauradora, entre rochas que meditam e árvores que sonham. Idealista? Cabalístico? Místico? Panteísta? Talvez tudo isso no estremecimento de quem questiona e se interroga. Entre suposições e interrogações, pressupõe como uma espécie de postulado a harmonia ignota deste nosso mundo. Por mais dissonante e caótica que pareça a realidade, o espírito tende a visionar por detrás do caos a lei que o explica e torna compreensível. Caberá ao poeta, pela força da sua expressão, elaborar a ciência dessa lei? Um poema para começar o dia:

ANTEMANHÃ


No silêncio sem fim das cousas, quando mal
Se distingue o clarão da aurora ainda distante,
E o poeta ainda vela, um canto auroreal
D'ave vibra na luz difusa e ainda hesitante...
E na penumbra ideal, que à alma nos revela
O Génesis estranho e místico dum dia,
Vê-se o desabrochar de misteriosa estrela,
Crepúsculo dum som, alvor duma harmonia...
E têm um ar d'assombro as paisagens nocturnas.
Todas as cousas vela uma nudez sagrada...
E, num recanto escuro, uma árvore soturna
Ergue os olhos, ouvindo a voz da madrugada...
Percebe-se que vai, em breve, acontecer
O quer que é d'extraordinário e nunca visto.
Tudo sonha e medita... A luz do alvorecer,
Para uma pedra ou flor, é um verdadeiro Cristo!
O dia já vem perto. E doces sensações
Agitam suavemente os ramos do arvoredo.
Vê-se no olhar dum rio a bruma das visões
E o Riso transfigura a face dum rochedo...
Que branda comoção as cousas enternece...
A terra, ao ver o sol, traduz-se numa flor,
Tal como um poeta, ao ver o sonho que alvorece,
Se converte no fluido etéreo dum amor...
Num éter misterioso, imenso, indefinido
Que, vibrando, produz o dia da Verdade
Que para um fim divino, apenas pressentido,
Vai guiando, através da morte, a Humanidade...


Teixeira de Pascoaes, in Para a Luz, 1904.

PECADOS DOCES

Bateram-me à porta. Eram três. Pão por deus, disseram em coro. Só dou pão se for pelo diabo, respondi cinicamente. E o mais pequeno perguntou: e tem doces? 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

1 DE NOVEMBRO


Fosse vivo, Carlos Paião faria hoje 59 anos. Morreu, com apenas 30 anos, na terra onde eu nasci, vítima de acidente de viação. Muito se falou à época sobre esse acidente, surgindo do nada imensas teses posteriores sobre a possibilidade de Paião ter sido sepultado com vida. Mitos que o povo oferece a quem mais admira. Tinha um talento para a escrita de canções que ainda não foi devidamente reconhecido. Muita coisa boa poderá ser feita com estas letras e estas melodias.


OBIANG

Não é possível levar a sério uma Comunidade dos Países de Língua Portuguesa que aceita como membro um país onde não se fala a língua portuguesa. Tão ridículo é que qualquer cimeira desta CPLP fica logo à partida reduzida ao absurdo. Não era sequer necessário que nos fizessem chegar notícias do tipo “Obiang não fala português”, “Obiang pede apoio técnico para abolir pena de morte” ou, cúmulo dos cúmulos, “Obiang no mesmo hotel de Marcelo, Costa e Guterres”. Fosse só no mesmo hotel, ainda poderíamos compreender. Mas é à mesma mesa, se não for na mesma cama. 

LIBERAIS

Que dizer a um liberal que se mostre estupefacto com a hipótese de Donald Trump vir a ganhar as eleições nos states? Que nome damos às pessoas que se assustam com os monstros por elas próprias engendrados?