segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CLONAZEPAM BLUES


Se fôssemos buscar todos os restos de tecido
De todos os índios que viveram nos Apalaches
Depois de toda a neve
Se da agonia das carroças dos arcanjos
Ou seja
Se da expiação da cidade santa resultar só
Uma boca do metro
Sabes, um sem abrigo no metro
Um cessar das luzes
Ou rebentos de flores nas mãos
Do homem cego a pedir esmola
Na escadaria
Se exigíssemos ao valete de espadas
Ou às donas de casa
Largar o diazepam e comutar
Como se alguém tivesse prometido
Que nunca passaríamos fome
E teríamos livrarias fartas
Com Mark Twain e John Steinbeck
E mesmo Jim Morrison
E teríamos sacas gordas de leguminosas secas
Onde enfiar as nossas mãos
E absorver suavemente
Os cheiros da rua do mercado

Sabes que
Se os cães não ladrarem no amanhecer gelado
Sentir-me-ei aflito
Febril se os cães não ladrarem aos primeiros
Raios rubros da aurora
Sentir-me-ei aflito
Lastimoso entre as árvores
Febril
Sentir-me-ei aflito
Se não houver galos e forem carros
Potenciais camiões do lixo
Se forem só semáforos e gritos
E leituras de poesia sob as luzes
Da cidade
Febril
Sentir-me-ei aflito

Enquanto a serenidade dos índios que viveram nos Apalaches
Não chegue
Enquanto a neve não ouse derreter
E reste só o murmúrio do riacho
Por entre o verde
A correr
O murmúrio do riacho
A correr
Sentir-me-ei aflito


Mariano Alejandro Ribeiro (n. 1993), in Antes da Iluminação. Nascido em Buenos Aires, reside em Portugal desde os dez anos de idade. O livro de estreia permite-nos constatar que assimilou com desembaraço a herança Beatnik, não descurando o que nela havia de desprendimento lírico e abnegação orientalista. Típica do seu tempo, a poesia de Mariano Alejandro Ribeiro integra no corpo do texto um caleidoscópio de referências várias, com especial predilecção pelos ícones de uma cultura erigida nas margens do cânone. A ironia oferece-lhe ao ritmo desenfreado um tom ligeiro que aproxima amiúde o discurso daquilo a que se convencionou chamar de poesia pop, conquanto entendamos por pop uma inclinação para seduzir o leitor com uma linguagem onde o humor e a emoção não foram esvaziados de conteúdo. Ora em verso, ora em prosa, os poemas de Antes da Iluminação indicam um caminho a que valerá a pena estar atento.

NÚMEROS

As oito pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente àquela que se concentra na metade mais pobre da população mundial, facto que a Oxfam – organização não-governamental internacional – considera “para lá de grotesco”.  (…)O fosso entre ricos e pobres não é uma novidade, ainda assim revela-se preocupante, diz a Oxfam, que a distância entre estes dois grupos continue a aumentar consideravelmente. Em 2016, era necessária a fortuna dos 62 mais ricos para equivaler à riqueza de metade da população mais pobre do mundo. Em 2017, são precisas apenas as oito pessoas mais ricas. A diferença abismal deve-se a novos dados sobre a pobreza na China e na Índia que se revelaram mais graves do que o esperado, nota o Guardian. (…)“O cenário de desigualdes deste ano é bastante claro, mais preciso e mais chocante que nunca. É para lá de grotesco que um grupo de homens que facilmente cabem num carro de golfe possam possuir mais que a metade mais pobre da população mundial”, afirmou o director executivo da Oxfam, Mark Goldring, citado pelo Guardian. “Uma em cada nove pessoas no planeta vai para a cama com fome, enquanto uma mão-cheia de bilionários têm tanto que precisariam de várias vidas para conseguirem gastar tudo”, acrescentou Goldring, que quer ver implementada uma mudança na economia mundial que funcione para todos e não só para “uma elite privilegiada”.

Aqui

PALHAÇO MAQUIAVÉLICO

Não vi a entrevista do futuro presidente dos EUA, enquanto o actual presidente se desdobra em incomensuráveis acenos de despedida. Odeio despedidas, não tenho paciência para Trump. É-me penoso, demasiado penoso, escutá-lo, pelas mesmas razões que me é penoso observar alguém a despedir-se reiteradamente. Enjoo. Enjoou-o. Enojou-o. Enjoo-o. Engou-o. Talvez não me faça entender, o que é normal. Trump é daqueles tipos que me tiram do sério. Durante a campanha, fartei-me de o ouvir e fartei-me de ouvir tipos como o Stephen Colbert e o Jimmy Fallon a fazerem piadas sobre ele. Péssima abordagem. Temo haver algo de perversamente patológico em indivíduos como Donald Trump, e estou convencido de que caricaturar a patologia só a agrava. O problema começa em não levarmos o homem a sério, da mesma maneira que levamos Wolfgang Schäuble. É uma hipótese muito provável que Trump venha a ser o palhaço maquiavélico do séc. XXI, num mundo liderado por gente ao nível de um Gollum tolkieniano. Nem sei bem o que quero dizer com isto. Enfim, sei. Quero dizer que me faz tudo muita impressão, ouvir Trump falar e ouvir falar sobre Trump.  

domingo, 15 de janeiro de 2017

#89



Por falar em “golden shower”, e porque tão poucas vezes se vêem, lêem, ouvem por aí referências à obra inigualável de Frank Zappa, lembrei-me deste Joe’s Garage (1979). A edição em CD é dupla, mas lá nos idos da década de 1970 os três actos desta ópera rock, com laivos de musical satírico, foram repartidos por dois álbuns: Joe’s Garage: Act I e Joe’s Garage: Acts II & III. Zappa tinha-se libertado das restrições impostas por uma editora discográfica que lhe impunha limites à edição, avançando por conta própria num ritmo que lhe permitiu colocar na rua meia dúzia de álbuns num só ano. O génio equivalia ao ímpeto criativo, reconhecido, aliás, por pares de diversas latitudes, do rock à música erudita. Compositor multifacetado, construiu uma obra heterodoxa tanto em termos estéticos como éticos. Sátiro por excelência, enveredando sem açames pelos territórios da sexualidade explícita, da crítica de costumes, da irrisão, Frank Zappa concebeu um universo próprio onde a ironia foi sempre uma aliada da complexidade musical. Só ele poderia escrever uma canção intitulada Why Does It Hurt When I Pee?, com um refrão do tipo “My balls feel like a pair of maracas”, sem parecer ridículo. Em Joe’s Garage, o universo da indústria musical é o alvo do escárnio. Com uma narrativa introduzida e pautada por um Central Scrutinizer em registo robótico, à maneira de diácono futurista, a saga do músico Joe num tempo em que a música foi banida socialmente por se revelar péssima influência, com direito a groupies dispostas a todo o tipo de serviços, resulta num manifesto onde se tornam evidentes a crença na música enquanto contrapoder e a fé na criação artística enquanto máquina libertária. Atravessando géneros, sem barreiras nem obstáculos, Zappa concebe uma divertida digressão pelos costumes de uma América em mudança mas mais conservadora do que aparenta. Não é o único dos seus registos onde encontramos referências ao “golden shower” e outras práticas de índole sexual menos convencionais, mas é um dos mais consistentes e divertidos.



PESQUEIRO 25

Tenho o péssimo hábito de não ligar a preços quando a intenção é divertir-me, mas tudo tem os seus limites. Paguei hoje €29,25 por uma garrafa de vinho num restaurante banal em São Martinho do Porto. Exactamente este vinho, à venda na Garrafeira Estado Líquido por €8,75. Como é óbvio, nunca mais hei-de pôr os pés no Pesqueiro 25. Mordi o isco uma vez, mas não me enganam uma segunda. Puta que os pariu.

sábado, 14 de janeiro de 2017

CARTAS CONTRA O FIRMAMENTO

Confiando em informações disponíveis na Wikipédia, o inglês Sean Bonney (n. 1969) começou a publicar em 2002. Letters Against the Firmament surgiu em 2015, com edição da Enitharmon Press, depois de vários “panfletos, plaquetes e ensaios”, onde se incluem abordagens às obras de Baudelaire e de Rimbaud. Com tradução de Miguel Cardoso, a Douda Correria publicou entre nós Cartas Contra o Firmamento (Junho de 2016), reunião heteróclita de textos em prosa, com alguns versos pelo meio, ilustrados com indiscutível pertinência por Pedro Pousada.
De carácter abertamente contestatário, estas epístolas enviam-nos tanto para o tom de inúmeros manifestos vindos a lume ao longo do séc. XX como para a poesia beat que mais se focou na intervenção cívica. Não percamos de vista, no entanto, o rasto deixado pelo próprio autor no decorrer de textos onde se incluem referências ao “surrealista da negritude” Aimé Césaire, ao Beatnik Amiri Baraka, ao comunista heterodoxo Pier Paolo Pasolini, a músicos de free jazz ou aos grandes cultores da canção de protesto. Reflectindo sobre o seu tempo, Sean Bonney propõe uma poética conflituosa, beligerante, que não enjeite a realidade, mas que a ela se aponha como um acto terrorista à maneira de Hakim Bey. Numa anárquica dispersão de conjecturas, o eu lírico mistura-se na confusão de motins e de tumultos para sabotar uma ideia de poético que resiste à violência como quem volta o rosto à realidade. Reaproximando a poesia da intervenção cívica musculada, estes textos denotam uma vontade obsidiada pela raiva e pela fúria do discurso. «Proibido afixar milagres» — diz-se a determinada altura, com ironia, como quem pressente no romantismo dos ideais a falência das utopias, do discurso político consagrado pela história, da poesia obediente à retórica desse mesmo discurso.
Há porém uma fragilidade nesta postura que não deve iludir-nos. A linguagem é ainda a que conhecemos das mais variadas formas de intervenção cívica, com os seus clichés consolidados por uma total incapacidade de fazer implodir a lógica das convenções. O tom libertário não chega a ser libertador, ainda que inquiete o pensamento e agite as águas da sensibilidade. De resto, o próprio autor parece estar ciente das suas limitações quando, a páginas tantas, reconhece: «Às vezes o meu próprio vocabulário faz-me contorcer de embaraço». Esse embaraço surge do reconhecimento de uma impotência face ao discurso oficial e oficioso. Fazendo uso das mesmas palavras, a poesia facilmente fica refém de um código que determina e possibilita a comunicação. O facto de estarmos perante uma forma de expressão, a carta, onde a comunicabilidade é central, e aceitando que, para todos os efeitos, o emissor das missivas é um sujeito indefinido, não liberta estes poemas em prosa dos constrangimentos instaurados pelo uso comum de uma língua que permita fazer circular uma mensagem. E a mensagem volta a estar aqui no núcleo mais central do poema.

Cartas Contra o Firmamento é, apesar das suas naturais limitações, um livro inquietante, com uma extraordinária capacidade de reintegrar o político na poesia, assumindo como poéticos temas eminentemente sociológicos como sejam os da gentrificação, do desemprego, ou das formas de luta e de protesto cívicos. Assumindo em si mesmos uma poética da violência — «em vez de ‘amo-te’ diz que se foda a polícia» —, estes textos são eles próprios uma insurreição no interior do lirismo. Não fazem o elogio do ódio nem cantam a crueldade, invadem  os territórios onde o ódio e a crueldade medram para deles retirarem coléricas manifestações de consciência: «A poesia é estúpida, mas, por outro lado, a estupidez não é a ausência de capacidade intelectual, é antes a cicatriz da sua mutilação». Portanto, é como uma espécie de cicatriz da poesia mutilada que as Cartas chegam ao seu natural receptor, o leitor para quem a realidade ainda não se reduziu definitiva e estupidamente ao mundo lá fora. Porque afinal, é bem dentro dele que tudo opera. 

CAMPISMO SELVAGEM


   Em inédito publicado num opúsculo dividido com Inês Dias, Manuel de Freitas remata a prosa do poema constatando que a sua poesia «passou do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar ninguém». Pergunto-me se não será sempre assim. 
   Por vezes, tendo a pensar que toda a poesia devia ser escrita num breve período de vida, exprimindo o fulgor de uma circunstância indomável. De preferência, toda a poesia devia ser da juventude, do rasgo sem freios que a língua aceita quando ainda não fomos condenados pelo peso dos deveres e das obrigações. Manter-se numa tenda no meio da floresta incógnita, sem refeitórios por perto nem paredes, muito menos aquecimento central. Atravessada pelos insectos inoportunos, exposta a intempéries e ao desconforto de climas adversos. Assim devia ser, mas não é. 
   Os poetas anseiam por obras completas, supondo porventura que no peso dos volumes reside a providencial justiça que o reconhecimento consagra. Depois arrastam-se por versos intermináveis condenados à partida por uma acomodação contrária à própria poesia. Rimbaud desmente-os, tal como Cesário ou Pessanha e tantos outros que, interrompidos por razões diversas, outorgaram versos cheios desse fulgor que o passar dos anos não apaga. Começaram e acabaram no campismo selvagem, mesmo cumprindo-se, como Cesário, na mais convencional das existências. 
   Em prosa, o poema completo:

SÍTIO DA NAZARÉ, 1979

Não tenho a certeza do nome da senhora (que talvez se chamasse Maria Augusta) a quem os meus avós alugavam casa no Sítio, mas sei que era inequivocamente cigana e que a casa ficava mesmo ao lado da praça de touros. Eu dormia no corredor, numa cama minúscula escondida por reposteiros. Os avós entretanto morreram, e a minha mãe optou pelo campismo selvagem nos pinhais em volta, antes de se render ao fascínio terapêutico da praia da Consolação.
   Desconheço se devo a estas remotas experiências a tristeza que ainda hoje associo ao Sítio. Mas parece-me evidente que a minha poesia evoluiu (se é que evoluiu) num sentido exactamente contrário: passou do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar ninguém.



Manuel de Freitas, Inês Dias, in Sítio, Volta D’Mar, Maio de 2016, p. 14. Fotografia respigada aqui.

UM POEMA DE ARAM SAROYAN


PARIS

1
F. Scott Fitzgerald precisava de um mentor
que é como eu apareço no retrato.

2
Picasso ficou calado
quando chamei a atenção
para o Cubismo ser um passo em falso.

3
Enquanto adolescente
Gertrude Stein preferia
a ópera ao teatro.

4
Dora Maar era uma mulher linda
que não conseguia esquecer Picasso.

5
O apartamento era do tamanho
de um selo de correio.
Arrendámo-lo logo e
saímos 36 dias mais tarde, rescindindo o contrato,
para regressar ao Kentucky.


Aram Saroyan (n. 25 de Setembro de 1943, Nova Iorque, EUA), traduzido por Francisco José Craveiro de Carvalho, in Eufeme - magazine de poesia, n.º 2, p. 15, Janeiro/Março de 2017.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

UMA VERDADE INCONVENIENTE


A ver.

A NOSSA HORA

Os weblogs dantes eram um espectáculo, isto foi antes de passarem a ser blogues, éramos só nós e os nossos amigos, discutíamos civilizadamente todo o tipo de assuntos e tínhamos caixas de comentários abertas, depois começou a chegar muita gente desconhecida, tanta gente, fizemos amigos novos, cortámos relações com velhos amigos, fechámos as caixas de comentários até que zarpámos para jornais, revistas, televisões, cargos públicos, não suportávamos o anonimato de quem se nos opunha, mas precisávamos de qualquer coisa que nos mantivesse na crista da onda, qualquer coisa com rosto e família, precisamos das nossas confrarias e de sociedades secretas em rede semiaberta, descobrimos as redes sociais, as redes sociais eram um espectáculo até terem chegado todo o tipo de pessoas às redes sociais, até serem sociais, e os nossos velhos amigos a discutirem tudo incivilizadamente, é um espanto ver como as pessoas conseguem ser grunhas, isto é, pessoas, nas redes sociais, o pior delas revela-se ampliado a uma escala inimaginável, tipos que nós considerávamos acabam por se revelar xenófobos, racistas, homofóbicos, enfim, execráveis, isto é, humanos, eu não gosto das redes sociais mas ando por lá para ver como é, preciso daquele ódio para efeitos de trabalho, sou um observador das massas, as massas são observadoras das massas, dantes as pessoas tinham comportamentos filtrados pela moral, pelos bons costumes, pela ética, pela deontologia, agora os filtros desapareceram e as pessoas comportam-se nas redes sociais como autênticos bichos, sem filtros, parecem homens das cavernas, sim, o homem moderno nunca se assemelhou tanto ao homem das cavernas, e eu estou aqui no meu casulo a observar as cavernas onde os outros se reúnem para assar a presa que acabaram de capturar com mais um comentário odioso, às vezes penso que passo demasiado tempo dentro de uma cuspideira, mas não pode ser assim tão mau, até de facto verificar que é mesmo assim mau, o mundo devia ser só eu e tu, meu amigo, eu e tu, as redes sociais não deviam ser sociais, deviam ser redes, num mundo perfeito as pessoas não seriam pessoas, seriam cidadãos do mundo, mas o mundo tem este defeito de ser feito por pessoas, tantas delas odiosas no fundo das suas frustrações e vulgares no dia-a-dia do bairro, ai, passassem vocês a vida atrás desse observatório do mundo que se chama balcão ou fossem às reuniões de condomínio, talvez não se espantassem tanto com o espectáculo da boçalidade. Feitas as contas, somos todos homens e mulheres. Feitas as contas, somos todos brutos e parvos. Só temo pelos vermes que hão-de sofrer terríveis congestões quando chegar a nossa hora.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


Imagem respigada aqui.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ÁLVARO FEIJÓ A BOMBAR

Acreditando nas contas apresentadas, ontem mais de 2000 pessoas andaram por aqui a esgaravatar em busca de Álvaro Feijó. Não era caso para tanto. Depois do episódio do Cherne, que voltou a colocar a poesia de Alexandre O'Neill na panela das massas, Feijó segue on fire. Afinal "gosta-se" de poesia em Portugal, não se gosta muito é de comprar livros. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

FORMIGAS


Notei a ausência de pássaros, aves de grandes asas e bico pontiagudo. Há dias parei o carro para dar passagem a um pássaro. Acabou atropelado do outro lado da estrada. Por cima de nós, ouvia-se um bando de gaivotas aflitas debatendo o sentido da vida dos répteis e de todas as espécies de rastejantes que sob elas circulavam. É curioso como lhes tendo fobia sinto tantas vezes sua falta. Dá-se comigo esta coisa de geralmente amar o que me mata. O frio, por exemplo. Esta humidade do poema:


VIDAS

Há em certas florestas tropicais um tipo de fungo que escolhe as formigas como hospedeiras. Os seus esporos penetram o corpo da formiga até se instalarem na sua cabeça. A formiga atacada por este fungo em breve dá sinais de desorientação e acaba por ser levada pelas outras para longe do grupo. A formiga hospedeira finalmente imobiliza-se e da sua cabeça nasce uma haste de fungo que cresce vertical e magnífica, como uma flor, sobre o corpo morto da formiga.



António Amaral Tavares, in Animais Incluídos, Medula, Setembro de 2016.

1967

A propósito dos 50 anos que passaram sobre a edição do primeiro álbum dos The Doors, fui dar uma volta pelos arquivos cá de casa e fiquei nostálgico. Ao tentar confirmar alguns dados, dei com esta página na Wikipédia: 1967 na música. Olha-se para a lista de álbuns editados nesse ano e percebe-se que da nostalgia à perda fôlego é um instantinho


FELICIDADE

Este ano caberá aos dinamarqueses a ingrata tarefa de nos desbravarem os caminhos da felicidade. Já folheei o livro do Hygge e garanto que é infalível, senti-me logo mais alegre. Até fui comprar um trenó. Dedico-me agora à obra completa de Carl Theodor Dreyer rezando para que neve ou tombem euros na conta da alegria. Não sei se a integral de Dreyer chegará para preencher o tempo de espera. Se calhar é melhor precaver-me com os tipos do Dogma 95.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O VAZIO AINDA NÃO TOMOU CONTA DE TUDO



Isto devia vir com legendas e passar nos intervalos das telenovelas e dos reality shows e dos telejornais: “Este instinto para humilhar quando é moldado por alguém que está numa plataforma pública, por alguém poderoso, consegue infiltrar-se na vida de toda a gente. Desrespeito convida ao desrespeito. Violência incita à violência”. É um raciocínio básico do mais básico que pode haver. Não seria necessário exprimi-lo e reforçá-lo se no mundo não houvesse pessoas ainda mais básicas do que o mais básico dos raciocínios. Precisamente porque pior é sempre possível, convém ir fazendo a manutenção dos pilares fundamentais de uma sociedade civilizada.

RUMO


As mulheres caminham pela cidade transportando
um segredo incólume,
alheio à espessura das casas.
Esgueiram-se inteiras pelas vielas brancas,
a sombra fina do corpo cruzando o labirinto pardo
dos prédios.

As plantas, queimadas pelo mapa da cidade,
erguem-se pelo trânsito ardente com uma
memória ancestral colhida nos pés.
E o rumo dos seus passos é o traçado do segredo.

As mulheres transportam segredos como
cântaros,
inderramáveis no equilíbrio da cabeça,
o barro suportado pela coluna antiga da memória.

São andanças longínquas sem rastro na calçada,
uma certeza inquieta arrastada pelas ruas.
Segue a passagem esquecida rumo ao beco
parado.

As mulheres cantam cântaros no silêncio do
barro,
estranhamento do segredo na cabeça seguro e
salvo.
No colo a sabedoria surda,
salva pelo andar pressentido entre os muros.

Escuta:
o saber cego desses pés!
Escuta:
a integridade do barro e o seu silêncio!


Ana Horta (n. 1975), in Ínfimo Vento (2015). Autora discreta, Ana Horta tem livros publicados em pequenas editoras de poesia tais como Black Sun Editores (Inventa uma voz no rodopio do corpo, 2002) e Volta d’Mar (Ínfimo Vento, 2015). Cultiva uma poesia focada no feminino e na sua condição, conjugando um vitalismo luminoso com referências metafísicas de ordem diversa. Apesar de não estarem de todo ausentes, os temas quotidianos acabam secundarizados por uma manifesta obsessão pelo conflito ontológico que apõe a vida à morte. Nota-se, de igual modo, uma inclinação para paisagens naturais de onde surdem, por vezes como sombras indecifráveis, figuras de uma outra dimensão mais espiritual. A figura do anjo é, entre todas, a mais persistente.  

domingo, 8 de janeiro de 2017

YELLOW SKY (1948)





Não é de todo exagerado colocar Yellow Sky/A Cidade Abandonada (1948) entre as obras-primas do género western. Tal como acontecia em The Ox-Bow Incident (1943), Lamar Trotti escreveu o argumento, a partir de um romance inacabado de W. R. Burnett, e William A. Wellman (n. 1896 – m. 1975) realizou. Há quem refira aproximações à peça The Tempest, de William Shakespeare, mas são mais evidentes as referências bíblicas, desde a épica travessia do deserto logo no início do filme à redenção final dos salteadores em fuga. O filme começa com o assalto a um banco por uma quadrilha onde encontramos alguns rostos familiares. Gregory Peck é o líder, secundado por um Richard Widmark bem mais traiçoeiro do que noutras ocasiões. Mas há ainda, entre outros, o imponente John Russell e o discreto Harry Morgan.
Perseguido no seguimento do assalto, o bando segue por um deserto de sal que os homens da lei não se atrevem a penetrar. A sequência da travessia é magistral, com os cavalos a enterrarem-se no terreno, o calor pressentido nos lábios gretados dos actores, a falta de água manifestando-se no discurso e nos gestos arrastados, alguns instantes de delírio travados por uma absoluta necessidade de autocontrolo, acompanhados de um desespero crescente que a obstinação do líder insiste em renunciar. Quando o grupo ali entra, só sabemos que pode nunca mais dali sair. Até ao momento em que no horizonte surge a miragem de uma cidade, e com ela a possibilidade de se encontrar o mais precioso dos bens: água. 
Yellow Sky é a cidade, ou, mais literalmente, é a miragem de cidade. William A. Wellman oferece-nos neste filme um dos cenários míticos do antigo Oeste, o das cidades fantasma. Aparecem em inúmeros westerns ao longo dos tempos, mas em poucos com a estética da desolação que Yellow Sky ressalta. Edifícios abandonados, sombras, letreiros caídos, muito pó e vento, claro, uma desarrumação e ruína inconciliáveis com os dois últimos e resistentes dos seus habitantes. São precisamente estes dois últimos habitantes quem torna mais consistente a ruína do local, na medida em que guardam na sua memória um passado que nos será acessível aos fogachos como quem descobre a lógica de uma queda. 
O primeiro a aparecer em cena é uma jovem e belíssima Anne Baxter, de caçadeira nas mãos a abordar um bando de bandidos, mais mortos do que vivos, desesperando por uma água que ela não lhes negará. A jovem “Mike” vive isolada em Yellow Sky com o avô, velho mineiro com uma história para contar sobre os tempos da corrida ao ouro. Passado e futuro coabitam como fantasmas numa cidade abandonada que será uma espécie de purgatório para o bando de sequiosos ali chegados. Com a alma vendida ao demónio, a prova a que estarão sujeitos será a de honrarem a mão que os livrou da morte certa ou traírem-na com uma ilimitada avidez. 
Entre a água que lhes matou a sede e o ouro que os torna de novo sedentos intromete-se, no entanto, a luminosa “Mike”. Para onde penderá o coração de cada um será o rumo natural desta história, pautada pela velha moral de que cada um tem o castigo que procura. Ao longo do filme, é evidente a alternância de cenas nocturnas com sequências à luz do dia. O percurso que leva a personagem de Gregory Peck das trevas à luz é o de uma caminhada purificadora do homem ao encontro da sua essência, redimido pela redescoberta do amor e do valor da palavra. 
Embora os temas morais sejam evidentemente privilegiados por Wellman, neste filme eles conjugam-se com uma estética da desolação que não pode ser negligenciada. É como se todo o filme tivesse sido rodado sobre cinzas, para que destas seja mais evidente o renascimento operado na personagem principal. James ‘Stretch’ Dawson chegou a Yellow Sky mais morto do que vivo. Na realidade, não temos sequer a certeza de que tenha chegado vivo. Tudo o que se passará em A Cidade Abandonada é tão improvável em terra que não terá sido por acaso darem o nome de Sky ao local, um céu amarelo como o do purgatório. O paraíso será o destino final. Chama-se Constance Mae, mais conhecida por ‘Mike’. 

PARABOLANOS

   Há coisa de 2000 anos (talvez nem tanto), quando o cristianismo tentava impor-se no mundo, havia uns tipos com mentalidade justiceira que impunham a moral à lei da pedra. Andavam literalmente com sacos de pedras pendurados à cintura, atirando sobre quem blasfemasse ou de algum modo se opusesse a uma concepção moral que tinha em Jesus na Terra a sua figura honorífica. O filho de Deus, que andara a apregoar o amor entre os homens, assistia assim a uma paradoxal defesa da sua mensagem: apedreje-se aquele que não amar seu semelhante. Enfim, são as contradições naturais de qualquer idolatria.
   Entretanto o mundo evoluiu, os homens passaram a idolatrar-se a si próprios e colocaram-se no lugar de deuses capazes de julgar os sentimentos dos outros (jamais os de si próprios, esses são inquestionáveis). Há pessoas que continuam a adornar a indumentária quotidiana com sacos de pedras, embora o façam lá na protecção das suas redes internéticas à distância que a cobardia permite. 
   Tornou-se comum, por exemplo, quando alguém manifesta pesar/indignação por um qualquer atentado, surgir de imediato uns seres prontos a apedrejar a manifestação de pesar/indignação com evidências aterradoras: lamentas este mas não lamentaste aquele. Na cabeça destas pessoas, deveríamos lamentar todos os atentados sem excepção como se fosse possível senti-los a todos de igual modo. 
   Pessoas que pensam assim merecem-me respeito, devem ter vidas verdadeiramente infelizes. É que a toda a hora, desde há muito, se verificam inúmeros atentados pelos quatro cantos do mundo. Devem passar a vida a lamentá-los, desconfio mesmo que não durmam. Ou se dormem, têm horríveis pesadelos, deitam-se com lamentos, sonham com lamentos, acordam com lamentos. 
   De facto, como não sentir da mesma maneira um atentado em Sukhothai ou em Paris? Só um hipócrita, na melhor das hipóteses um cínico, é que pode ser capaz de lamentar mais a morte de um parisiense do que de um habitante no lugar remoto de Sukhothai. Atiremos pedras ao cínico, apedrejemos o hipócrita, há que denunciar a sua baixa moral. 
   Tornou-se também vulgar assistir a todo o tipo de questionamentos face ao pesar pela morte de alguém. Quando alguém morre, é natural que surjam reacções à sua morte. Maioritariamente de pesar. Quem não gostou do defunto em vida, o mais que deve fazer à hora da morte do ser humano em causa é calar-se. Por uma questão de respeito, digo eu. Mas não é bem isso que sucede, os parabolanos do séc. XXI aí estão para nos denunciar todo o tipo de contradições. O silêncio já não tem qualquer valor, o respeito deixou de ser bonito. Quer-se tudo a conversar e a fazer muito ruído.
   Morre um artista e surgem no ar inúmeras memórias e partilhas da obra do artista. Tudo seria normal, não fosse vir logo um zelador da coerência lembrar-nos que nunca antes, enquanto o artista foi vivo, partilhámos o que quer que fosse desse mesmo artista ou sequer lhe fizemos a mais ínfima menção. Então agora toda a gente gosta do Prince? Pergunta o zelador, atirando-nos à cara a vergonha das nossas vidas. 
   A pessoas que deviam ter um pingo de bom senso na cabeça, ouvi eu dizer aquando da notícia da morte de George Michael: estou-me a cagar para o George Michael. Ninguém esperaria o contrário, mas seria no mínimo desejável que, à hora da morte do indivíduo, pelo menos um mínimo respeito pela perda prevalecesse e se manifestasse num silêncio indiferente. Já não chega a indiferença, é preciso fazer bandeira de si próprio: eu nunca gostei de George Michael e digo-o, não sou hipócrita, não é agora que ele morreu que vou dizer bem dele
   Ninguém esperava elogios, nem sequer ninguém estava minimamente interessado em saber se a obra de George Michael tinha alguma relevância na vida do Zé da Esquina que quer dizer ao mundo que jamais sentiu alguma coisa pelo autor de Wake me up before you go-go. Pela parte que me toca, se o Zé da Esquina fosse suficientemente inteligente para se manter calado, já seria uma bênção. Como não espero inteligência de um Zé da Esquina, que fosse pelo menos suficientemente modesto para perceber que a sua opinião não é relevante. É só mais ruído.
   Veja-se o que está a suceder com Mário Soares, outra espécie de artista. O homem acabou de morrer, já toda a gente o esperava. Teve influência no curso do país como poucos, foi duas vezes Presidente da República, uma vez reeleito com enorme popularidade. O mais normal e óbvio é haver quem lamente a sua perda. Eu, que nunca votei no homem nem era especial fã, lamento a perda e reconheço-lhe o valor de ter lutado contra o fascismo. Nada disto tem qualquer valor face à grande questão do parabolano moderno: então agora toda a gente gosta de Mário SoaresE logo começa o parabolano a atirar as suas pedras, umas mais consistentes do que outras, porque ou simplesmente ignorantes ou menos simplesmente ideológicas, atirando-nos à cara eventuais malfeitorias, defeitos, vícios do homem enquanto actor. 
   O parabolano tem pelo menos o mérito de nos fazer pensar os ínvios caminhos do moralismo na actualidade, a lógica rasteira, abstrusa e capciosa, diria mesmo burra do mais burro que pode haver, dos detentores da pós-verdade, enfim a palermice, o infantilismo, a patetice generalizada nas redes que proíbem maminhas ao léu mas aceitam todo o tipo de dejectos que um esgoto aceita sem que se verifique grandes incómodos com o estado da situação. De resto, são inúmeras as pessoas que tendem a aderir ao esgoto com evidente gosto e falta de espírito crítico. O que as torna apenas ainda mais coerentes com as suas práticas murídeas. Uma coisa é certa, quando morrerem ninguém o lamentará. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES (1924-2017)


Cresci a ouvir dizer maravilhas de Mário Soares. Lá em casa, toda a gente era soarista. Cheguei a andar às cavalitas de meu pai em campanhas pelo Dr. Soares, recordo-me do episódio da Marinha Grande e de uma molha descomunal em Lisboa a celebrar, salvo erro, a vitória do “Soares é Fixe”. À medida que o meu pensamento político se foi autonomizando, o distanciamento tornou-se evidente. A razão pendeu para outros ideais, para outras formas de estar na política. Hoje nada disso interessa. Soares foi um lutador antifascista, político de uma safra que já não existe. Daqueles que nos fazia sair de casa para ir a um comício, porque era certo haver espontaneidade e entusiasmo nas palavras, nos discursos. Não se lhe negue a coragem. Quanto ao mais, a História fará seus julgamentos.