sábado, 17 de dezembro de 2016

SOBRAS COMPLETAS

De quando em quando, alguém no mundo se encarrega de desenterrar pérolas. Seguindo sábios conselhos, não as lança aos porcos. Coloca-as à disposição. Os leitores que lhes lancem as mãos. Faz agora três anos, uma parceria Alexandria/Língua Morta permitiu recuperar a poesia de Manuel de Castro (n. 1934 – m. 1971). Este ano, a Abysmo lembrou-se de José Manuel Simões (n. 1934 – m. 1999). Entre ambos, descobrimos uma ligação que não se reduz ao mesmo ano de nascimento. Transcende o dado irrelevante com uma cumplicidade patenteada nas páginas de Sobras Completas (Abysmo, Outubro de 2016), nomeadamente quando, no primeiro de dois prefácios, Helder Macedo os coloca à conversa citando correspondência com mais de 50 anos. Na verdade, ambos os autores integraram aquele que ficou conhecido como o “grupo do café Gelo”. A informalidade do agregado presta-se a equívocos, embora seja de assinalar que por lá, no rastro do surrealismo português, passaram poetas tais como Herberto Helder e António José Forte.
O desconhecido José Manuel Simões zarpou para Paris no final da década de 1950, aí se fixando e «vivendo precariamente de traduções». No prefácio, Helder Macedo conta que recebeu dele, num envelope castanho, com o título escrito à mão no rosto do envelope, estas Sobras Completas. Em suma, um conjunto de poemas escritos, na sua maioria, nesses idos de 1950 e 1960: «São portanto, juvenilia, textos escritos entre os dezanove e os vinte e tal anos, com óbvias influências e convergências literárias (Drummond, Borges, algum Cesariny) mas também manifestando uma voz poética muito pessoal de expectativa sem esperança e de auto-ironia nostálgica» (p. 9). Poderíamos ficar por aqui, não fosse o caso destas sobras terem mexido connosco como poucas obras e pratos principais logram mexer.
Num volume graficamente irrepreensível, as diferentes secções deste pequeno livro (115 páginas) resgatam-nos, também pela brevidade de cada uma delas, para o que há de fundamental na poesia. Respeitando o próprio autor, sublinharemos, pois, a auto-ironia, se bem que esta se processe para lá de um humorismo que pode levar-nos a confundir desafectação com indolência, relativismo com laxismo, uma profunda consciência das tragédias humanas com apatia. Em matéria de produção artística, aquele que não se leve a sério não é necessariamente histrião. Desimportantizar é o verbo. Ainda que brincar e criar possam se interligar, à criação acrescenta-se algo mais. Talvez a consciência do valor que um testemunho carrega. Ora, se as Sobras Completas chegaram até nós não terá sido porque em todos os implicados para que tal fosse possível havia apenas uma vontade de... brincar.
Notemos como no próprio divertimento que José Manuel Simões possa ter almejado com os seus versos existe, implícita ou explicitamente, a expressão de um humor que, fintando as armadilhas da gravidade, acaba ele próprio por nos armadilhar o sentido lúdico das palavras. Como? Provocando-nos com a imagem recorrente de um isolamento, de uma solidão, de um exílio íntimo que não aquieta emoções nem permite que o alheamento reine sobre as palavras. O espírito dos homens livres é assim, na sua ligeireza calcorreia mundos carregado de uma provocadora solidão. A solidão é um fardo oneroso, o preço a pagar por um espírito livre.  Chamar sobras a uma obra, por mais curta e breve que seja, é já de si uma provocação. Inteligente provocação que nos deixa na expectativa, a qual inflecte num sentido inverso ao do riso quando nos deparamos com o título do principal conjunto de poemas aqui reunidos: O Mar Ausente.
Mais ou menos experimentais, adoptando/subvertendo esquemas rímicos diversos ou em verso livre, mas sempre cuidadosamente cadenciado, por vezes em prosa, os poemas de José Manuel Simões denotam uma independência criativa e uma autonomia existencial absolutas. O amor e a solidão são temas recorrentes, quase como pólos de uma poesia capaz de se questionar em tão enigmática quão irónica condição — «Quem é que te conhece, amor, / amor que eu não sei quem és?» (p. 50) —, para logo de seguida, num outro poema, responder com a derradeira solução que o problema merece: «Invento-te, invento-nos. / Ponho nisso o cuidado / com que é costume observarem-se / as entranhas dos vermes e as evoluções / dos discos voadores. // Mas é preciso, amor, que compreendas / a minha e a tua solidão. // É preciso que saibas / adivinhar o tempo das lágrimas / e fugir antes que te alcance» (p. 51).
Aos seus poemas, juntou o A. versões para poemas de e.e. cummings, Hart Crane, Kenneth Fearing. Convenhamos que num país de "tantos e tão geniais" poetas é sempre uma agradável surpresa descobrir quem olhe o mundo em linha recta, distanciando-se, como convém, dos «sensatos cordeirinhos bíblicos» a quem o dom da poesia foi outorgado por convenção iniciática. Ora, no segundo dos dois prefácios, assevera José de Sá Caetano em missiva dirigida a Helder Macedo que foram feitas tentativas, sem sucesso, no sentido de publicar as Sobras Completas. Quis a ordem natural das coisas que caíssem no Abysmo, para bem de todos quantos ficam agradecidos por não caírem no “vasio” poemas como aquele que passamos a citar:

AS MÃOS OFERECIDAS

São as alavancas do inconsciente
que empurram a máquina de fazer versos.
Quando a vida me tornar
num bloco só de gelo ou ferro ao rubro
eu poderei dizer que construo minhas
todas as esperanças de água,
todas as fomes de pão,
todas as antigas necessidades de amor.
Poderei distribuir por todos o amor que em mim sobeja
por não ter terra onde pousar.
Poderei dar como o Cristo
o meu sangue a beber
e o meu corpo a comer
e no entanto ficar inteiro
para a renovação motriz a acabar
em total preparação dos pastos.

Nessa altura, quando a terra
for maior e verdes os nossos olhos,
eu terei rios nos braços
para molhar de azul a terra fecundada
e os homens vermelhos, iguais, então,
aos homens brancos e negros e amarelos
que trago sempre comigo, bem guardados,
no bolso onde um revólver os oculta.
De todos os lados virá para mim
o som dos cabelos loiros
e o cheiro dos corpos jovens.
De toda a parte os mergulhadores
me trarão peixes doirados, corpos
de bronze e mel, cravos roxos para o meu amor,
e porão a flutuar
o claro fundo dos sonhos do homem.

Em todos os lugares os homens
se darão as mãos em cadeias longas
e eu estarei sozinho no meio deles. 

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Evito trazer publicidade, mas esta Antígona bem que merece. Então é assim, e passo a citar:

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Sábado 17 de Dezembro

14:00-19:00


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758 e 774 | Rato | Amoreiras Plaza

A entrada é livre e a saída também

Nota: os sublinhados são da minha inteira responsabilidade. E houve ainda o Natal dos anti-sociais (vão ao sítio: aqui). 

POBRES

Maria Filomena Mónica nunca passou fome, nunca foi pobre, mas conhece os pobrezinhos como as palmas das suas mãos. Por isso escreveu um livro sobre os pobres, não queria ficar com todos os conhecimentos só para ela. Leia-se de barriga cheia.

SUGESTÕES DE NATAL


   Respeitando as boas tradições da imprensa portuguesa, também aqui resolvemos (eu e o meu outro eu) enumerar algumas sugestões literárias para um Natal colorido. São livros que, grosso modo, não cabem nas estreitas listas da especialidade, pelo que me parece de elementar justiça oferecer-lhes a oportunidade que merecem. Dado o sucesso comercial e a popularidade que os toca, pouco haverá a acrescentar ao que a generalidade dos leitores destas obras já sabem. São livros que não enganam ninguém, excepto quem os leia.
   Comecemos pelo bestseller do ano, a biografia de Cristina Ferreira para a qual a conhecida apresentadora de televisão pousou numa pose capaz de tentar qualquer vampiro por mais morto que esteja. Ao olharmos para o livro, sentimos que foi Cristina quem o escreveu. Felizmente, não teremos que ouvir Cristina a lê-lo. É o maior dos méritos desta obra, poupar-nos à voz esganiçada da autora. Uma sinopse para o livro podia ser: era uma vez uma menina muito pobre que se tornou numa mulher muito rica. As pessoas adoram. E a culpa é dos escritores a sério. 
   Ainda nos domínios da televisão, mas com uma outra consistência metafísica, sugere-se a mais recente obra da bruxa fina que dá pelo nome de Maria Helena. Tudo é luz em torno desta mulher. Maria Helena veio ocupar um segmento outrora governado por Alexandra Solnado, acrescentando-lhe o lado prático da comunicação com tudo o que seja figurinha celestial. Há toda uma parafernália de ensinamentos neste “Rituais de Luz” que o eleva a bíblia da bricolagem espiritual. Imprescindível a quem acredite no mau olhado. 
   Mais terreno, igualmente sóbrio, o nosso rei da música pimba irá rivalizar neste Natal com inúmeras obras sobre músicos vindas a lume ou reeditadas no ano prestes a findar. Ele foi Bowie, ele é Springsteen, ele foi Cohen, ele é Dylan, ele será agora e sempre Américo Monteiro (aka Emanuel). À biografia do nosso maior singer-songwriter apontamos apenas uma lacuna: devia vir com as letras e cifras para guitarra. Quanto ao título, é todo um programa: nascemos para ser felizes. Ser, sermos, o que importa é sentir a luz da felicidade nas mãos de Deus. 
   E assim chegamos a Maria Lisboa, uma mulher com histórias para contar cravadas no peito. A pose reverencial da capa não engana, “Nas mãos de Deus” é toda uma oração à vida que o leitor de tragédias portuguesas não poderá desaproveitar. Nick Cave perdeu um filho e concebeu um álbum, Maria Lisboa perdeu um filho e concebeu um livro. Cada qual trata das suas dores como pode e a escrita é quase sempre um gesto terapêutico (sobretudo para a indústria livreira). 
   Nos domínios da ficção pura, Raul Minh’alma, a quem certos leitores chamam carinhosamente “o alminhas”, surge onde dantes surgia Pedro Chagas Freitas. As chagas de Pedro e a alma de Raul farão as delícias de todos quantos apreciem uma história mal contada, um chorrilho de banalidades, lamechices a rodos. A grande ficção deste e de outros livros como este é a sua própria existência, como perduram nos tops de vendas e conquistam leitores (mais elas que eles) vorazes e dedicados. Depois da marca registada Rebelo Pinto, eis-nos perante estas almas da pós-verdade-pós-moderna que já não são light nem pimba, são apenas top
   Como não podia deixar de ser, num cabaz literário de Natal que se preze temos que contar sempre com o nosso fala-barato motivacional preferido. O livro não é assim tão barato, mas vale a pena pelas lições de vida que permitem descobrir o caminho da vida desbravando os entulhos da vida em direcção a uma nova vida mais vida que a anterior. Luz, sentimento, alma, Deus, vida, felicidade, tudo isto se condensa em Gustavo Santos, essa latinha de valores condensados com a qual produziremos as mais doces teorias acerca de nós próprios e dos outros. Com Gustavo Santos poderemos ser tudo, menos o Gustavo Santos. 
   E, já agora, menos o Ruben Rua. Para isso precisaremos de uma Cristina. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

ESTRANHO

Falar de Mário Soares como se já tivesse morrido. O princípio da presunção da inocência nunca foi respeitado neste país. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

PÓS-MODERNIDADE

Recebido por e-mail:


Uma pastelaria em Sines, colocou à venda (com o alto patrocínio, da mana do poeta) um BOLO, baptizado de: AL BERTO.



Agora com imagem. Juntem-se-lhe o vinho Campilho e o boneco Peixoto (aqui) e teremos garantidamente um inesquecível Natal da pós-verdade. 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

VIAGEM DE COMBOIO COM POEMAS DO ZÉ PETINGA


os poemas escritos com tinta rosa sabem mais a ti
ao longo de todo este caminho pressinto-o

os cigarros são fumados com a promessa
de que o fumo não acabe
e as palavras surgem quando o mar se levanta

consigo perceber muito bem
as tardes no café do tónho do casino
eu habitei as duas casas dessa rua
o imóvel e o habitat natural dos versos escritos com
maresia

de longe vem o vento que bate na janela
continuamente chegam pessoas ávidas pela viagem
outra nem tanto

(acendo um cigarro)
arrastado pela sombra que foge
absolvo a tua perdição
foste um menino celeste que agora transportas
as ruas de bruxelas de paris de amesterdão
a praia do norte
absolvo-te
os outros gesticulam-te primaveras mortas

(a cinza cai em cima do papel)
leio o primeiro poema que ainda é rosa
(o cobrador pede-me o bilhete
pica nervosamente o pedaço de papel vermelho
sem saber que esse pedaço de papel serve de marcador
no livro: confissões de verlaine)

de s. martinho a óbidos
tomo o poema um café com natas
lá fora as árvores chegam ao céu
(já chegámos ao bombarral
no banco da frente dormem duas miúdas estrangeiras)
porque é que o diálogo sustém sempre o sonho
e o pólen eleva no ar o fluido do mundo?

penso à velocidade desta máquina
como se houvesse energia fora do corpo
e produzisse luz de papel
(o cobrador ralha com três putos
diz que gosta de dar educação aos mais novos
apanharam o comboio atrasado na tabela
não têm bilhete
o velho pede dez contos de multa a cada um
o mais novo de rabicho
ri de frente para a janela)
vou escrevendo em linhas tortas
(o velho limpa a testa suada com as mãos
condescende
o puto das notas ajeita o cabelo
enfia na cabeça um boné de pala
paga os bilhetes
suspira)

ainda bem que rebentámos da nossa precoce virilidade
afinal somos da praia
apenas mais um lugar no mundo

penso de novo no livro
antecipo-lhe a capa
as folhas seguem aqui neste comboio
(acendo só mais um cigarro)
as canções que escreves
podiam ser artérias que ligassem todos os livros
de todas as bibliotecas
o debate pela caverna
onde as raízes são astros
apenas isso

consigo imaginar a alegria
dos cabelos compridos
(olha acabámos de passar o apeadeiro do ramalhal)
eles ficam inertes
com o tempo que passa

sabias que nós adquirimos
tempestades de todas as cores?
(leio agora a canção de van horst)
percebo nos poemas
o desfio de borboletas rosa
(em torres vedras entrou um bando de mulheres
muito faladoras e a comer bolachas)
são minúsculas as flores
sim
minúsculas e devoradoras

acredito em ti pela vida fora
não quando pararmos

havemos de ter resposta
quando não conseguirmos mais falar
(o comboio parou a meio do caminho
julgo não ser nada de especial)


m. parissy (n. 1969), in cafurnas (2002). «m. parissy procura nas suas publicações (opúsculos de autor ou livros editados em editoras marginais) criar um ambiente marcado por uma grande amizade pelos outros e uma alegria de viver, fundindo estas emoções com um pensamento interior de solidão e, por vezes, nostalgia de um tempo que se esvai e cuja memória se obriga em fazer perdurar nos seus poemas. / Lugares míticos como Lisboa, Paris ou Bruxelas, autores de culto como Ginsberg, Éluard ou Ferlinghetti, vivem ao lado de personagens de carne e osso (o mizé, o grilo, o pássar'da névoa, o silvino, o petinga) nascidos na geografia do poeta, e de locais que ajudaram a construir o seu edifício poético» (Jaime Rocha, in nota introdutória a cafurnas).

domingo, 11 de dezembro de 2016

TAMBÉM QUERO

Hoje cometi vários erros, o cansaço toldou-me o pensamento. O cansaço e as perguntas difíceis: «Tem livros sobre começar do zero?» Não sei se percebi a pergunta, mas sugeri vários. Assim mandam as regras. Não satisfeito, o requerente insistiu: «Livros para começar do nada, uma vida nova». Também queria, meu caro. Também queria.

"OITO GLORIOSOS MINUTOS"*



*A expressão é de João Lopes. Aqui.

sábado, 10 de dezembro de 2016

JOHN MONTAGUE (1929-2016)


Um poema aqui. Outro aqui.

A CHAMA E AS CINZAS

Ainda que ancorado nas naturais limitações de uma síntese, um livro como A Chama e as Cinzas (Bertrand, Setembro de 2016) padece, à partida, de um mal sem cura: propõe-se realizar o que sabe irrealizável sem resvalar para generalizações de objectividade duvidosa. Uma das primeiras generalizações proposta pelo autor é a de três orientações para a literatura portuguesa produzida depois da Revolução: a que olha para trás (focada na História), a que olha para a distância (focada em espaços geográficos exteriores ao território nacional), a que olha para dentro (focada no Eu próprio). A pergunta que se impõe é: não foi sempre assim? O que há de novo nestas três, que poderiam ser quatro ou cinco ou seis, orientações? Nada. Sempre em todas as épocas houve escritores que olharam para fora tanto quanto olharam para dentro, ainda que rareiem aqueles que preferem olhar-se ao espelho, não para se contemplarem, mas para se questionarem sobre o que em si há de verdadeiramente humano e universal. Talvez seja isto o que falta tanto à literatura portuguesa como à crítica que a fixa, estando porventura essa lacuna relacionada com uma ausência de espaço crítico verdadeiramente autónomo e independente.
Percebemos que esse espaço crítico é exíguo quando no texto intitulado Literatura e sociedade: as hipóteses de Abril, se sugere uma ideia de literatura enquanto «fenómeno das margens», a qual parece desfasada do espectáculo festivaleiro que tem vindo a aglutinar toda a indústria livresca (falo de indústria livresca pensando em todos os seus agentes sem excepção). Curioso notar que estes textos tenham sido motivados pela nomeação de Portugal como país-tema na Feira do Livro de Frankfurt de 1997, a qual não deixa de ser feira por ser em Frankfurt e, por consequência, ao ser feira, não deixa de arrastar consigo as vaidades que o autor do livro em causa parece desdenhar. Que margens serão essas que uma Feira como a de Frankfurt se encarrega de promover? Não há margens, o espaço de resistência fica ao lado de quaisquer panorâmicas de pendor académico, por mais que o academista reclame para si um lugar de exclusão. Tudo isto se integra, portanto, num espectáculo em torno do livro que o reduz, por um lado, a objecto de mero entretenimento e, por outro, a certificado para consagração na sociedade anónima da autoproclamada intelligentsia.
Igualmente redundante resulta o capítulo intitulado Leituras da História: facto e ficção no romance. Às teses explanadas nada há que contrapor, a não ser a constatação de um laconismo resultante de uma decepcionante colagem ao cânone (Saramago, Lídia Jorge, Jorge de Sena, Vasco Graça Moura). Não estando em causa a noção mais usual de “romance histórico”, mas antes a relação do romance com tempos históricos concretos para a metaforização do presente, é difícil aceitar a inexistência de uma referência, por mais fugaz que fosse, aos romances de J. Rentes de Carvalho, precisamente pela consciência da História que revelam ao reflectirem o tempo do autor tanto a partir de uma observação do país anterior à revolução como de uma análise crítica do que a revolução trouxe a esse mesmo país. A prosa de José Martins Garcia mereceria também uma referência, nomeadamente pelo olhar desempoeirado, céptico e desencantado que oferece sobre a Guerra Colonial e os primeiros anos de regime democrático. As referências que João Barrento respiga num quarto de século de literatura portuguesa (1974-2000) acabam por ser mais do mesmo, ou seja, as que encontramos profusamente divulgadas nas páginas dos suplementos literários, no jornal dito da especialidade, nas revistas literárias onde a crítica se vai exercendo de um modo oficial e oficioso.
Um capítulo sobre a “literatura de mulheres” é sempre simpático, ainda que discutível nos termos em que aparece invariavelmente formulado: é discriminatório falar em literatura feminina, mas... Ora, é precisamente no mas que reside o problema de tal critério. Em suma, podemos defender que esta separação não faz sentido. Há boa e má literatura, independentemente do género do autor que a produz. A optar-se pela divisão, sobretudo colocando o enfoque numa mudança de paradigma social, por que não um capítulo dedicado à chamada literatura gay? João Barrento está mais interessado na «transformação radical (…) da perspectiva narrativa (as mulheres narram a partir de um olhar mais estático e interiorizado, como que à janela, observando o mundo a parir [sic] da casa)» (p. 64). Não comento. As obras em evidência são as de Maria Velho da Costa e da inevitável Maria Gabriela Llansol. No entanto, Barrento apoia-se nelas para sublinhar características que não são exclusivas de uma suposta narrativa no feminino. O mesmo acaba por reconhecê-lo, socorrendo-se de livros tais como Finisterra, de Carlos de Oliveira, e esse «belo e estranho livro de contos que é A Casa do Fim», de José Riço Direitinho, ou ainda a obra de Rui Nunes, para sublevar estratégias discursivas que, na opinião do ensaísta, se revelam com maior acuidade na chamada escrita feminina: polifonia narrativa, supressão da temporalidade linear, a textualização em primeiro plano, a contaminação do romance por outros géneros (poema em prosa, ensaio, fragmento, carta, autobiografia…). Mesmo delimitando a análise à experiência literária portuguesa ocorrida entre os anos de 1974 e 2000, parece-nos algo forçado, para não dizer contraproducente, sustentar em tais tendências discursivas uma literatura que é muito mais fruto do tempo do que de um género.
Mais entusiasmante é o capítulo dedicado ao conto, com uma abordagem certeira à problemática encerrada nas formas narrativas breves. Ainda que notemos algumas ausências relevantes no decurso de uma espécie de genealogia do conto português durante o séc. XX — José Gomes Ferreira, tão injustamente esquecido, será a ausência mais chocante —, é de sublinhar o esforço de divulgação de obras não tão consensuais (onde cabem tanto Pedro Paixão como Jacinto Lucas Pires) a par de outras relegadas, sem que entendamos porquê, para um segundo plano (Teresa Veiga, Maria Judite de Carvalho ou o supracitado José Riço Direitinho). Incompreensível, porém, que ao falar-se de conto português num período como o abarcado por esta obra se omita por completo a influência de Mário-Henrique Leiria e Ana Hatherly, com as Tisanas, sobre um conjunto de autores que à entrada do séc. XXI intentaram explorar os territórios mais experimentais da micronarrativa. Da mesma forma, torna-se difícil aceitar que um contista como Alface, com livros fundamentais publicados nas décadas de 1980 e 1990, seja ainda hoje, passados quase 10 anos sobre o seu desaparecimento, um não-autor nas contas da crítica especializada.
Resta a poesia, que para o drama não houve tempo. Reconhecida a impossibilidade do balanço, João Barrento toma o pulso à «nossa época pós-moderna, glamorosa e hedonista», uma época que «quer ver caras e corações, quer nomes, rostos e as vozes humanas dos poetas, quer espectáculo e histórias (talvez por isso proliferem hoje, pelo menos na Europa, os Festivais e as leituras de poesia)» (p. 118). Estas coisas afirmam-se não sem razão, acolhem fácil e rapidamente a empatia de todos quantos denunciam esse aparato vampírico da nossa época. O problema são os reis que desfilam nus. Segue-se, então, um longo programa de enumerações especialmente preparado para a Feira (seja ela a de Frankfurt ou a dos poetas incipientes à espera de serem citados). Impressionante que um género tão low profile provoque sempre tamanha celeuma e obrigue a cuidados redobrados. Será da hipersensibilidade dos poetas? Findo o tempo dos grupos associados a revistas, siga-se então o tempo das publicações associadas a grupos. O primeiro passo (um dos) será dado por quatro poetas muito respeitáveis e a publicação de um Cartucho: Joaquim Manuel Magalhães, o mais lido dos quatro nestas páginas, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, o menos lido dos quatro nestas páginas, e Helder Moura Pereira.
Na verdade, estamos numa encruzilhada. Tal como é impossível caminhar num pântano sem ficarmos nele atolados, também se afigura missão impraticável falar da poesia num tempo histórico sem nos prendermos à diversidade (imensa, no caso português, mesmo quando adoptamos a postura exigente do cirurgião) das suas vozes. E nisto, como em tudo, há sempre um grau de subjectividade inultrapassável. Sublinhe-se o risco dos traços gerais. Barrento sugere três orientações maiores: 1.ª viragem para uma poesia da experiência quotidiana, 2.ª regresso às histórias, ao poema longo e narrativo, 3.º um ecletismo que acolhe tanto o tom elegíaco e desencantado como o regresso à tradição. Em suma: o primeiro Joaquim Manuel Magalhães. O problema é que estas são apenas três orientações de uma encruzilhada bem mais complexa. Onde encaixar aqui, por exemplo, a assimilação da cultura Beatnik no Portugal atrasado da década de 1970 em diante, nomeadamente nas obras dos três autores por detrás da antologia Sião (Al Berto, Paulo da Costa Domingos, Rui Baião)? E que tem que ver com esse realismo apontado por João Barrento o António Ramos Rosa dos anos 1980 e subsequentes? E o poema em prosa, extremamente metafórico, de Luís Miguel Nava? E a poesia minimalista de um Jorge Sousa Braga? E o confessionalismo dito pop de uma Adília Lopes? E a reflexividade ensaística, situada nos territórios da contracultura, de um Fernando Guerreiro? E a diarística de um reiteradamente ignorado Silva Carvalho? O novo realismo que João Barrento ajuda a impor é apenas uma face de um rosto cúbico, com muitas mais do que duas faces à disposição dos leitores.
Tendemos a crer que não há tendências dominantes na poesia de uma época senão no discurso tendencioso de um crítico. Falar de poesia de uma época estando tão dentro dela já se nos afigura tarefa hercúlea, quanto mais delimitar-lhe tendências. É o crítico quem procura impor domínios, tentando separar águas que serão sempre mais fecundas se nelas se debaterem a multiplicidade de discursos possíveis no contexto de uma literatura polissémica. Dito isto, sobraria a dessacralização da poesia como tendência geral não fosse, aqui e acolá, a resistência de vates mais dados às coisas do sagrado que porventura se julgarão no papel de demiurgos a cada vez que escrevem um verso. Ficou feio ser-se ideológico, é certo, o hermetismo entrou em desuso, mas mantém-se uma enorme indulgência para com tudo quanto queira ver Deus (o do Tolentino ou o do Barahona) entre as ruínas do temp(l)o. E uma poesia do feminino, não há? Deveremos apô-la, contando com as explicações supra, a estas tendências masculinas? Não existem respostas para estas perguntas em A Chama e as Cinzas. Há apenas a reafirmação das «tendências elegíacas de alguma da novíssima poesia portuguesa» como se o mundo aí tivesse parado, como se ao lado e sobre as lágrimas contidas de uma melancolia rasa não troasse já o riso escarninho e a ironia fina de uma poesia muito mais lúdica, satírica, solar até.

Em suma, o diagnóstico é hiperbólico na leitura negativista que oferece do mundo: «A escala do mundo define-se hoje por dois parâmetros que se opõem e se completam em cada indivíduo: o movimento das Bolsas (o único lugar onde a vida se rege ainda por «valores») e as vivências do corpo (quase só valorizado na sua dimensão cosmética e hedonista)» (p. 177). Quando as premissas são estas, valerá a pena partir para a discussão crítica de um tempo? Esta é a questão que talvez devêssemos formular antes de todas as outras, pois todas as outras serão uma consequência da resposta a esta pergunta. O mundo parece sempre mais diverso do que esses dois parâmetros permitem adivinhar. A crise profunda que, segundo João Barrento, afecta hoje os estudos literários é, como todas as crises, um teste ao paradigma da tradição que enforma tais estudos. Numa sociedade que espera dos seus cidadãos apenas competências técnicas, torna-se quase anacrónico exigir-lhes competências críticas. Digamos que o homem da cidade não está preparado para tanto, ele é ao mesmo tempo carrasco das velhas figuras e vítima da ausência de tradição (a qual redunda no desenraizamento histórico). Continuamos a pensar, as leis do pensamento coligidas por Aristóteles são as mesmas, mas o foco e o interesse são outros. O diagnóstico elaborado por Barrento é, desta forma, convincente na denúncia dos perigos que nos espreitam, mas acaba por perder credibilidade quando ao longo de 170 páginas insiste numa leitura demasiado concentrada da literatura portuguesa. As redes de comunicação que hoje cativam as massas também têm os seus méritos. Um deles, é o de dar a entender e mostrar que há mais literatura para lá do cânone. E ao tempo caberá, mais do que nunca, fazer viver ou enterrar o que já não está nas mãos dos cangalheiros da universidade. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

CELEBRE-SE A VIDA


Kirk Douglas faz 100 anos. Num ano de lutos sucessivos, celebremos a vida deste bom velho cowboy. Podemos revê-lo em The Indian Fighter, do grande André de Toth. Ou em Last Train From Gun Hill, do inevitável John Sturges. Ou numa das mais inesquecíveis encarnações do célebre Doc Holliday, em Gunfight At The O.K. Corral. Ou, para terminar, num improvável mas extraordinário duelo com o escritor de canções Johnny Cash, em Gunfight. Clique nos títulos a vermelho e será reencaminhado para as boas memórias de um grande actor.
And if my thought-dreams could be seen
They’d probably put my head in a guillotine
But it’s alright, Ma, it’s life, and life only


Bob Dylan

I'M ONLY BLEEDING

A meio da década de 1960, Bob Dylan inflectiu na direcção dos blues e do rock’n’roll com homenagens a Chuck Berry, Muddy Waters, Sonny Boy Williamson. A influência de Woody Guthrie mantém-se tanto em termos líricos como ao nível da composição. Sucede que a tradicional viola acústica a que a folk music se confinava encontra o ruído das guitarras eléctricas, conjugando-se para ultrapassar convenções e desbravar o caminho para uma dimensão lírica do rock até então desconhecida. Já toda a gente sabe do escândalo que foi Bob Dylan aparecer em palco como uma guitarra eléctrica a tiracolo, mas poucos se têm interrogado sobre a atitude contestatária inerente a tal gesto de rebeldia. Em si mesmo, o gesto de Dylan foi uma canção a derruir as muralhas do preconceito. Acresce que em Bringing It All Back Home (1965) encontramos alguma da lírica mais alucinada e onírica saída da pena dylaniana. O ano ficará marcado pela chegada de tropas americanas ao Vietnam, pelo assassinato de Malcolm X, pela invasão da República Dominicana, por toda uma série de factos e de acontecimentos que conferiam ao mundo uma imagem apocalíptica. Canções como On the Road Again, Bob Dylan’s 115th Dream, Mr. Tambourine Man, reflectem esse estado caótico da sociedade de então, tendo algumas das imagens surrealistas que as compõem chegado a ser associadas ao consumo de drogas como se fosse necessário um homem drogar-se para exprimir a vertigem de um tempo confuso e desarrumado. No zénite deste onirismo, como o velho da montanha que lá do alto nos observa, surge It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding). É difícil não falar de génio quando nos deparamos com uma canção destas. Quem questiona ou duvida das capacidades poéticas de Bob Dylan devia ser obrigado a ler esta letra em voz alta pelo menos uma vez na vida:


(…)

For them that must obey authority
That they do not respect in any degree
Who despise their jobs, their destinies
Speak jealously of them that are free
Cultivate their flowers to be
Nothing more than something they invest in

While some on principles baptized
To strict party platform ties
Social clubs in drag disguise
Outsiders they can freely criticize
Tell nothing except who to idolize
And then say God bless him

While one who sings with his tongue on fire
Gargles in the rat race choir
Bent out of shape from society’s pliers
Cares not to come up any higher
But rather get you down in the hole
That he’s in

But I mean no harm nor put fault
On anyone that lives in a vault
But it’s alright, Ma, if I can’t please him



(…)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

DAQUI PARA FORA


Quem percorra a página do Público, deverá fazê-lo com cautela. Aliás, hoje em dia toda a relação com um órgão de comunicação social exige enorme cautela. Ao mínimo descuido, sai-se ferido com mazelas para a vida. 
A imagem ao alto é o destaque do dia, sob a qual surge uma notícia que parece anúncio a thriller de série B: «Rui Rio ensombra Passos ao participar em almoços e jantares do PSD». O contraste não podia ser maior, pensamos. Mas logo somos desmentidos pela notícia que se segue: «O que menos interessa no debate sobre O Último Tango em Paris é a manteiga». Recordar-se-ão da célebre cena de sexo lubrificado com manteiga. Toda a gente lhe chama cena de sexo anal, mas eu não me recordo de ver referências a isso no filme. Também não me apetece revê-lo. Estou mais interessado em conseguir conciliar as ruínas e a miséria de Alepo com as aparições no interior do PSD e pacotes de manteiga em cenas filmadas há 42 anos. Não conseguindo, volto-me para a cultura e para o desporto como quem busca refúgio para a sanidade mental: «Cheerleading e Muay Thai com estatuto olímpico provisório», «Numa praça de Beja, ficou provado que substituir calçada por laje não é boa ideia». 
Com legitimidade interrogamo-nos sobre o sentido deste mundo e não vislumbramos resposta minimamente satisfatória. Parece tudo improvável como num filme de ficção científica. O mais que podemos supor é estarmos precisamente a viver num filme de ficção científica, guiados por um génio maligno para o qual a razão não tem filtros. 
Ora tentemos conciliar mais dois cabeçalhos: «Trump nomeia um céptico das alterações climáticas para Agência de Protecção Ambiental» e «Os americanos acreditam em notícias falsas 75% das vezes». Talvez exista um sentido escondido por detrás de tudo isto, um sentido que desafia imaginação e perspicácia, indução e dedução, um sentido ao qual uma outra notícia, também relacionada com os EUA, oferece maior problematização: «Perdeu o seu amor por apoiar Trump? Há um site para encontrar um novo par». E assim concluímos que vivemos no melhor dos mundos possíveis, como pretendia o filósofo e inúmeros dos seus seguidores. Enfim, não admira o tempo perdido no entretenimento à disposição.
Ontem, a caminho do mar, ouvia, com a boca mais aberta do que os ouvidos, os comentários em antena aberta à notícia do dia: «Portugal é dos países onde mais alunos pobres conseguem bons resultados». Os resultados no estudo PISA são animadores, mas os portugueses, a generalidade dos portugueses, não sabem lidar com resultados animadores. Se por um lado se discutia a quem devemos dar louros pelos resultados alcançados, por outro a ladainha do costume fazia as honras da casa. «É preciso é disciplina, disciplina e mais disciplina, no meu tempo coisas que se passam hoje eram impensáveis, os professores não têm autoridade, não há respeito». Poderíamos congratular-nos com a boa notícia, aproveitá-la para pensar os critérios do estudo em causa e as razões dos resultados obtidos. Nada disso. Infelizes com a felicidade, buscamos de imediato pretextos para transformar uma boa notícia num pesadelo. 
Tudo isto é de uma insignificância atroz, obviamente. Alepo, sites de encontros para eleitores de Trump, cenas com manteiga, fantasmas no PSD, cheerleading com estatuto olímpico, notícias falsas e a rede social dos literatos lisboetas com o pito aos saltos por causa de quem pediu prefácio a quem... nada disto tem interesse algum. Farinha do mesmo saco demente. Pela parte que me toca, concentro-me no feijão mágico que a Beatriz me ofereceu. Cresce a olhos vistos com um coração em cada face, já rebentou as asas e aguardo pacientemente que comece a voar e me leve de pendura daqui para fora. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

#88



Aproximamo-nos vertiginosamente da idade do luto. Tornou-se demasiado natural alguém nos morrer. Sentimos que estamos a envelhecer quando a morte encarna uma cadência repetitiva ao redor das coisas que amamos. 2016 é, definitivamente, um ano de luto, por razões várias e tão diversas quanto a merecida banda sonora que lhe foi oferecida. Logo a inaugurar o ano, David Bowie despediu-se com um perturbador Blackstar. Nick Cave expurgou a perda de um filho com Skeleton Tree. Um mais sentimental, outro mais catártico, são discos que ficarão para a história também pela dimensão redentora que inspiram. 
Transcendendo todas as trincheiras da mais vulgar das ânsias e do mais traumático dos medos, Leonard Cohen despede-se com a mais poética das cartas de despedida. You Want it Darker (2016) não é apenas um até sempre, é um dos melhores álbuns de Cohen e uma lição de elegância e de serenidade face ao rosto da morte. A produção de Adam Cohen, filho de Leonard, acrescenta ao registo uma extraordinária poética dos afectos, almejando para uma voz arrastada, envelhecida e saturada o suporte musical necessário e imprescindível. As palavras soam como orações, soam como lições, soam como devem soar as palavras de um sábio, são de uma entrega e de uma tranquilidade impressionantes. O timbre clássico das composições, divididas com Patrick Leonard e Sharon Robinson, conhecem o parceiro ideal em apontamentos de uma modernidade singela mas invejavelmente eficaz. 
Em Traveling Light, por exemplo, as cordas ao jeito judaico equilibram-se com programações e coros que nos transportam para uma espécie de dança celestial. Conduzidos pelo israelita Roï Azoulay, os coros são de uma beleza inexcedível e formam instantes de puro génio nos diálogos que estabelecem com a voz do monge no centro de um templo onde é ainda possível escutar discretos solos de guitarra, malhas de baixo, violinos, bandolins, sem que as partes se dispersem e perturbem o todo. O todo que é uma voz, uma voz que é sabedoria. «I’m ready, my Lord», canta Leonard Cohen logo na primeira canção. E a gente agradece por nos ter deixado em paz com mais uma mão cheia de canções inesquecíveis:


ANONYMOUS

O anonimato não espelha necessariamente uma atitude cobarde. Ele pode ser o escudo por detrás do qual o guerreiro se protege num tempo em que uma das maias poderosas armas é o aparecer. Com o tempo vamos aprendendo a valorizar tais armas, sobretudo ao constatarmos que, em certos casos, a supressão do anonimato redundaria apenas no reforço do insuportável teatro das conveniências. Ou seja, desfeito o anonimato: amigos para sempre. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

FAZ DE CONTA

Há dias fui jantar com um grupo de amigos. Amigos com histórias para contar. Algumas com 20, 25, 30 anos. Amigos de infância, amigos de adolescência. Enfim, velhos amigos. Uns mais, outros menos. Cada qual com a sua vida, seguindo o seu rumo, em direcções por vezes opostas. Mas amigos. Como pode alguém ser amigo de alguém de quem jamais seria amigo na vida real? Isto é, fora de uma rede social. A rede social também é real, mas será real o que se passa na rede social? Suponho que o conceito de pós-verdade tenha que ver com isto. Suponho que comece aqui. Não é verdade que as pessoas sejam amigas, entre elas estabelecem-se elos interesseiros que nada têm que ver com a amizade. São amigos a brincar. A pós-verdade é uma verdade a brincar, reflecte a tal infantilização do mundo que temos vindo a denunciar. O mundo está cada vez mais faz de conta. Recuso juízos de valor sobre isso, limito-me a constatá-lo. 

MARIA HELENA E JORGE JESUS


Maria Helena é uma espécie de bruxa fina com direito a espaço mediático nas manhãs da SIC, em canal aberto. Já publicou livros, os quais vendem que nem tremoços. Maria Helena diz que resolve problemas de Amor, Trabalho, Saúde, Dinheiro, tudo através do poder dos astros e das cartas. A popularidade destas técnicas ancestrais é indiscutível. Podemos, no entanto, interrogar-nos por que está a Maria Helena nas manhãs da SIC e não o Professor Karamba? Talvez a resposta resida naquilo a que chamamos poder de comunicação. A Maria Helena é loura, apresenta-se como um anjo caído do céu com o ar respeitável que um par de óculos confere. Sente-se como peixe na água à frente das câmaras, não vacila mediante questões palermas. Tem uma capacidade retórica invejável. 
Nos tempos que correm, tudo se reduz ao poder de comunicação. Não importa o que se diz, os conteúdos podem ser os mais abjectos e imbecis desde que a forma seja a correcta. Na arte também se passa isto. Maria Helena é o paradigma do artista tagarela que expõe um tijolo no meio de uma sala mas consegue elaborar um discurso coerente e sedutor acerca do tijolo, conquistando assim atenções e adeptos para a sua causa. Não importa a obra, importa o discurso que se tenha acerca da obra. Não importa a razoabilidade do tarot, importa o palavreado, a conversa, a tagarelice em torno das cartas. 
Há quem não veja mal algum no sucesso destas personagens, afirmando com complacência e certo desleixo: desde que as pessoas se sintam bem. Pois, desde que as pessoas se sintam bem. Sempre que ouço alguém falar assim recordo-me de um episódio numa série (House, M.D.?) em que uma rapariga se queixava de que o seu namorado só queria ver pornografia e não fazia amor com ela. O rapaz sentia-se bem a ver pornografia, retirava mais prazer da masturbação enquanto assistia a cenas porno do que a fazer amor com a namorada. Para a namorada ele tinha um problema, mas ele achava que não. Sentia-se bem. E se calhar não tinha, e se calhar tinha. Mas o problema dele não o afectava, afectava a sua relação com a namorada. 
Ora, com as Maria Helena deste mundo passa-se o mesmo. O prazer não está no bem-estar que proporcionam a quem as tenha em boa conta, mas na relação que os espectadores passam a ter com a realidade, com a ciência, com o saber, com o conhecimento, com o mundo à sua volta. Jorge Jesus é a antítese de tudo isto. As suas capacidades retóricas são absolutamente miseráveis. Quem o ouça falar só pode concentrar os seus esforços na contenção do riso. O homem é uma máquina de produzir calinadas. No entanto, os seus méritos de treinador são inegáveis. Jorge Jesus é a personificação derradeira da cultura de mérito. Como costuma dizer-se, percebe de futebol como ninguém. Talvez a linguagem dos homens que lidera seja do mesmo tipo, talvez exista entre ele e os seus jogadores um patamar comunicacional que escape ao mundo que os rodeia. Portanto, nada mal desde que resulte. 
Não importa que o português de Jorge Jesus seja miserável, não importa que nas conferências de imprensa ele diga as maiores barbaridades para a plateia de milhões que aguarda ansiosamente qualquer uma das suas intervenções. Importa que resulte. A favor do espectáculo. Não fosse este lado pragmático da showciedade, poderíamos olhar para Jesus como um contrapoder, um digno representante da contracultura comunicacional. Mas tal como a Maria Helena nos ensina a sermos felizes, o Jorge Jesus explica-nos os trâmites do desaire. São ambos figuras de um alçapão mediático que ajuda a entender o sucesso das iniquidades que têm na sua origem um crescente desrespeito e desinteresse por tudo quanto leve a um pensamento articulado, aquele onde a linguagem não fica reduzida à superficialidade de uma qualquer forma de empatia. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

FERREIRA GULLAR (1930-2016)


José de Ribamar Ferreira nasceu a 10 de Setembro de 1930, na cidade de São Luís, Maranhão. De origens humildes, estudou numa escola técnica até aos 17 anos de idade. Do autodidactismo fez uma arma ao serviço da inteligência. Nasceu Ferreira Gullar, o pseudónimo literário. Publicou em 1949, com socorro materno, o seu primeiro livro de poemas: Um pouco acima do chão. Tinha 18 anos. Apesar de posteriormente renegado, esse livro foi o princípio de uma aventura que teria continuidade no Rio de Janeiro após promissora vitória no Concurso Nacional de Poesia promovido por um importante jornal carioca. 
Vários empregos na área jornalística foram dando para pagar as contas. A luta corporal, o segundo livro, surgiu em 1954 «prenunciando o movimento de vanguarda intitulado concretismo». Mas os interesses de José de Ribamar não podiam confinar-se a um movimento. Dedicou a década de 1960 da sua vida à prática de uma poesia engajada politicamente, acabando preso, clandestino, exilado. Viveu dois anos em Moscovo, andou pelo Chile, Peru e Argentina. 
Escreveu em Buenos Aires aquele que viria a ser o mais aclamado dos seus livros: Poema sujo (1975). Conta Antonio Carlos Secchin: «O impacto do livro foi de tal natureza que levou um de nossos maiores críticos, Otto Maria Carpeaux, a declarar que a obra deveria chamar-se “Poema Nacional, porque encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças do homem brasileiro"». 
Mas Gullar não escreveu apenas poesia. No conjunto da sua obra encontramos também peças de teatro, contos, memórias, crónicas, ficção infantil, ensaio. Em Uma Luz do Chão (1978) escreveu assim: 

«Quando digo que minha poesia se confunde com minha vida digo o que qualquer outro poeta diria de sua própria poesia. Faço-o, no entanto, aqui, para sublinhar o fato de que, em minha experiência, o trabalho poético sempre esteve comprometido com indagações que o antecedem e transcendem. Fazer o poema sempre foi, para mim, a tentativa de responder às indagações e perplexidades que a vida coloca. Não quis, ou não pude, buscar nele o píncaro serenamente erguido acima do drama humano. Antes, quis fazer dele a expressão desse drama, o ponto de ignição onde, se for possível, alguma luz esplenderá: uma luz da terra, uma luz do chão — nossa»

Um poema:

VIDA,

     a minha, a tua,
eu poderia dizê-la em duas
ou três palavras ou mesmo
numa
     corpo
sem falar das amplas
horas iluminadas,
das exceções, das depressões
das missões,
dos canteiros destroçados feito a boca
que disse a esperança
     fogo
sem adjectivar a pele
que rodeia a carne
os últimos verões que vivemos
a camisa de hidrogênio
com que a morte copula
(ou a ti, março, rasgado
no esqueleto dos santos)

Poderia escrever na pedra
meu nome
     gullar
mas eu não sou uma data nem
uma trave no quadrante solar
Eu escrevo
     facho
nos lábios da poeira
     lepra
     vertigem
     cona
qualquer palavra que disfarça
e mostra o corpo esmerilado do tempo
     câncer
     vento
     laranjal


Ferreira Gullar, in O Vil Metal (1954-1960), in Poesia Completa, Teatro e Prosa – Volume único, prefácio, organização e estabelecimento de texto (com assistência do autor) de Antonio Carlos Secchin, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 2008.

BOAS MÁS NOTÍCIAS

O que há nas boas notícias que as torna desinteressantes? As boas notícias são como as personagens boazinhas, rapidamente as olvidamos. Paradigma, ao Kevin Spacey de Sete Pecados Mortais bastaram poucos minutos em cena para se tornar inesquecível. A quantas personagens boazinhas é dedicada a mesma atenção? Amélie Poulain precisou de um filme inteiro centrado nela. Da Áustria chegam-nos boas notícias. A derrota da extrema-direita nas presidenciais só aparece ao fundo da página. Seria assim se tivesse vencido? Por sua vez, no topo temos o não à reforma constitucional referendada em Itália. A acompanhar a notícia, que para o cidadão comum não é boa nem é má, lá vem o parágrafo sobre eventuais eleições antecipadas, porta aberta aos populismos italianos, declarações da xenófoba francesa Le Pen à propos. Os media já não sabem viver sem esta excitação do mal, do negativo, do medo. O pânico é um aliado infalível das notícias, mas um inimigo cruel da reflexão. Por que é que uma boa notícia na Áustria não tem o mesmo interesse que uma notícia assim-assim em Itália? Porque a notícia assim-assim tem uma face carregada de ansiedade, e é isso que empolga as massas, atrai as atenções. Desta miséria humana já não nos safamos. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

THE RARE BREED (1966)



Depois do drama familiar encenado em Shenandoah/O Vale da Honra (1965), Andrew V. McLaglen (n. 1920 – m. 2014) deu seguimento ao seu percurso pelo Antigo Oeste num registo mais ligeiro. The Rare Breed/Rancho Bravo (1966) como que aproxima o mais clássico dos géneros cinematográficos daquilo a que hoje chamamos comédia romântica. A insistência em James Stewart no papel principal é um forte argumento a favor deste filme, ao qual devemos adicionar a presença da belíssima Maureen O’Hara (lembrar-se-ão dela em Rio Grande). Mas há ainda, para os indefectíveis do western, aparições mais ou menos fugazes de actores carismáticos tais como este respeitável trio constituído por Harry Carey Jr., Jack Elam e Ben Johnson. São presenças que oferecem a Rancho Bravo um proveito insofismável, nomeadamente se tivermos em conta o plot algo caricato desta obra. 
Uma inglesa e a sua filha fazem tudo o que está ao seu alcance para introduzir nas pradarias norte-americanas a raça de bovino Hereford, contra a incredulidade e até o descrédito dos instalados criadores de Texas Longhorns. O pretexto serve a Andrew V. McLaglen a possibilidade de engendrar todo um rol de piadas subtis acerca da miscigenação, mormente acerca dos preconceitos que ainda hoje opõem britânicos e americanos. Os estereótipos são por demais evidentes. De Inglaterra chega-nos a forma, a América oferece-nos o conteúdo. Os primeiros são utópicos, os segundos são pragmáticos. Talvez ambos se aproximem pela obstinação, embora nos primeiros esta seja representada por figuras femininas e sensíveis, ao passo que nos segundos a ela se oferece a figura do cowboy truculento. 
Entre os dois campos da batalha surge também um escocês há muito radicado na paisagem americana, já mais descrente do que confiante, embora ousado e intransigente. A transformação operada na aparência dessa personagem interpretada por um cómico Brian Keith, de sotaque scottish a acompanhar uma figura abrutalhada progressivamente transfigurada num romântico e cerimonial pretendente, é em si mesma a representação de uma dualidade anglo-saxónica em evidência ao longo de todo o filme. Tenhamos em conta o facto de o próprio Andrew V. McLaglen ter nascido em Londres, radicando-se nos Estados Unidos para aí concretizar praticamente toda a sua carreira cinematográfica. A inclinação para o western, género tipicamente norte-americano onde conseguiu os seus filmes mais aclamados, é reveladora da assimilação de uma cultura que, apesar das naturais ligações à monarquia britânica, pouco tem que ver com as formalidades do império de sua majestade.
The Rare Breed, traduzível à letra por A Raça Rara, trata disto mesmo com inquestionável fair play. Ao longo de inúmeras cenas de acção tão empolgantes quão divertidas, pode no entanto passar despercebida a maravilhosa dádiva que este filme tem para oferecer. Envolto numa aura de puro entretenimento, ele fala-nos dos esforços porventura contraproducentes para domesticar o indomesticável. A raça rara que o filme patenteia é a dos espíritos livres, autónomos, independentes, que apesar das diferenças culturais se aproximam pela mais tirânica das leis: a natureza segue o seu curso, contra isso pouco há a fazer. Ou talvez haja, pois no curso da natureza inclui-se a própria acção humana, com a sua vontade e determinação em mudar, transformar, realizar. 
Talvez o que há a fazer seja precisamente deixar que o curso da natureza se afirme, não por conformismo ou conservadorismo do que à volta se lhe poderia opor, mas por nele estarem implícitas as contradições, os paradoxos, os conflitos, as oposições sem as quais o progresso e a mudança seriam inexequíveis. Enquanto arte popular, o cinema tem também esta capacidade de reafirmar a relevância do sonho contra o determinismo das mentes mais conservadoras. James Stewart e Maureen O’Hara acabam por encarnar uma sedutora parelha neste processo de persecução de um sonho, ou, se preferirem, de uma utopia, falhada a priori, mas bem-sucedida a posteriori. O final feliz e luminoso não renega, porém, os obstáculos e as sombras encontrados pelo caminho. Simplesmente o disfarça, para que o sonho se fomente. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

ALERTA AMARELO

Pessoas que amam a democracia, mas são incapazes de discutir um assunto sem se exaltarem e começarem a cuspir perdigotos enquanto acusam com o indicador em riste: estás a contradizer-te. / Pessoas que detestam uniformes mas convivem pessimamente com os paradoxos do pensamento. / Pessoas para quem tudo tem uma lógica tão infalível como uma equação matemática. / Pessoas que odeiam ditaduras, mas convivem cumplicemente com o estalinismo tecnocrático de inúmeras empresas a operar no mais selvagem dos capitalismos. / Pessoas liberais para quem dois homens a beijarem-se na rua reflecte um comportamento intolerável, inadmissível. / Pessoas capazes de desencantar valores morais de entre os bichos, como se a moral não fosse uma abstracção do pensamento humano maleável pelo tempo, pela história, pela cultura, pelas ideias. / Pessoas que não são racistas, mas... / Pessoas que vivem entre outras pessoas que vivem entre outras pessoas que vivem entre animais. /Pessoas para quem os animais são pessoas mas as pessoas não são animais. / Pessoas que acreditam em Deus mais do que acreditam nos homens que têm à sua frente. / Pessoas capazes de ver um conflito onde há apenas o gozo da discussão inútil. / Pessoas que falam como se estivessem a evangelizar. / Pessoas incapazes de reconhecer a inutilidade dos conflitos. / Pessoas com duas pernas, dois braços, dois olhos, dois ouvidos, duas narinas, uma boca e um gorro enfiado na cabeça. / Pessoas que mugem, vacas que falam. / Pessoas que vivem. E subitamente desaparecem.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

M. PARISSY


PIRÂMIDE

As pessoas são exploradas, são manipuladas, são ludibriadas, são pressionadas, são coagidas, são insultadas. E sob o tecto um sepulcral silêncio. Por que se calam as pessoas?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


No próximo Sábado estarei de serviço, a apresentar o mais recente livro de m. parissy. Sou gajo para levar uma garrafa de vinho que é vinho.

E SE O EA FOSSE UM VINHO?


Agora imaginem que um poema podia ser um boneco (via Malomil):


E se um dummy fosse presidente dos Estados Unidos? E se as coisas fossem apenas o que são? E se o que é não fosse? E se o vinho e a poesia e os bonecos se reunissem para tomar o mundo de assalto? Porra, que mania minha esta de complicar. 

A PENSAR

A poesia não salva, nada resolve, será sempre um falhanço, mas é também uma forma poderosa de enganar um pouco a morte.

Rui Manuel Amaral, aqui.

UM POEMA DE REINALDO ARENAS


CONTRIBUIÇÕES

   Karl Marx
não teve nunca sem sabê-lo um gravador
estrategicamente colocado no seu sítio mais íntimo.
   Ninguém o espiou do passeio da frente
enquanto rabiscava à vontade folhas e mais folhas.
Pôde inclusive dar-se ao luxo heróico de maquinar
pausadamente contra o sistema imperante.
   Karl Marx
não conheceu a retractação obrigatória,
não teve por que suspeitar que o seu melhor amigo
poderia ser um polícia,
nem, muito menos, teve de se converter em polícia.
A pré-fila para a fila que nos dá direito a seguir na fila
onde afinal o que havia eram recargas para
agrafador («E já se acabaram, camarada!»)
também lhe foi desconhecida.
   Que eu saiba
não sofreu uma imposição que o obrigasse a rapar-se
ou a extirpar a sua anti-higiénica barba.
A sua época não o cominou a esconder os seus manuscritos
do olhar de Engels.
(Por outro lado, a amizade destes dois homens
nunca foi «preocupação moral» para o Estado.)
   Se alguma vez levou uma mulher para o seu quarto
não teve de guardar os papéis debaixo do colchão e,
por cautela política,
lhe fazer, enquanto a acariciava, a apologia do Czar da Rússia
ou do Império Austro-Húngaro.
   Karl Marx
escreveu o que pensou,
pôde entrar e sair do seu país,
               sonhou, meditou, falou, tramou, trabalhou e lutou
contra o partido ou a força oficial imperante na sua época.
   Tudo isso que Karl Marx pôde fazer pertence já
à nossa pré-história.
As suas contribuições para a época contemporânea foram
   imensas.


Reinaldo Arenas (n. Holguín, Cuba, 16 de Julho de 1943 - m. Nova Iorque, EUA, 7 de Dezembro de 1990), in Poesia Cubana Contemporânea, selecção, prefácio e notas de Pedro Marqués de Armas, tradução de Jorge Melícias, Março de 2009, Antígona, pp. 51-53.