Era para escrever sobre o Dia dos Namorados, coito
interrompido pela falta de. Nunca tive namorada, nunca namorei, casei-me logo e
divorciei-me no mesmo dia e voltei a casar-me com a mulher que deixei viúva e aqui estamos unidos para a morte. Lembrei-me, no
entanto, de quando éramos jovens e gostávamos de música e líamos o Blitz. Só
permanece a melomania. Guerras entre metálicos e curistas, nós sem coutada a
desesperarmos por algo que oferecesse sentido à depressão. Veio com o grunge, chegou
com o trip-hop, acercou-se com a neo-country e congéneres. Coleccionei pilhas
de edições do Blitz. Queimei tudo, não sei por quê. Inclinação doukhobor. Também
perdi noites sintonizado na MTV, a ouvir a Polly Jean e os sons oriundos da
Bélgica no caudal de dEUS. Já viram no que se transformou a MTV? Há dias,
passei por lá e vi um tipo a explodir bombinhas de Carnaval enfiadas no cu.
Lembrei-me dos putos no Nine ½ Weeks a tocar uns quaisquer primeiros acordes,
salvo erro, de Beethoven. O mundo transformou-se numa piada de mau gosto que o
Blitz não quis desrespeitar. De vez em quando recebo publicidade com teaseres
de bradar aos céus: homem faz várias cirurgias plásticas para ficar parecido
com Britney Spears, que música ouvem os consumidores de pornografia? Tudo isto
tem que ver com música, claro, tal como as indumentárias escolhidas a dedo para
exibir na cerimónia dos Grammy Awards. Tudo isto terá mais interesse, desconfio, do
que a música produzida por aquela gente tão tecnicamente problemática. Ouvia ontem o Júlio Isidro e a Fátima Campos Ferreira dizerem, na RTP Memória, que
hoje é preciso muita coragem para se ser jornalista. Desconfio que no passado
tenha sido preciso coragem, hoje parece-me que um estômago resiliente é mais
adequado às circunstâncias. Ia escrever sobre o dia dos namorados. Fica para a
próxima.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
domingo, 12 de fevereiro de 2017
Clique na imagem para ver melhor:
Hans Holbein o Novo (1497-1543)
Holbein opted to represent Christ in all his humanity here: Christ's dead body is so realistic that it is said to have been painted from de corpse of a drowned merchant. It is hard to believe that Holbein could have inventend that cadaverous stiffness, that gaping mouth baring its teeth, that greenish hue, or even that half-closed eye.
SINUSITE
Para uns, Putin pretende destruir a União Europeia. Outros
temem pela desintegração da Rússia. Há ainda aqueles para quem Trump é uma
séria ameaça ao mundo, não por ser Trump, mas por estar nas mãos de Putin.
Diz-se também que a Rússia anda a manipular as eleições em França. O próprio
Assange estará ao serviço dos interesses russos. Deus meu, tanta gente tão
informada. Eu só queria encontrar uma solução para a sinusite.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
ALGUMA COISA NEGRO
Jacques Roubaud (n. 1932) não é totalmente desconhecido
dos leitores de poesia portugueses. Em 1993, alguns poemas do mais celebrado
dos seus livros foram incluídos na antologia Sud-Express – Poesia Francesa de
Hoje (Relógio D’Água) com tradução de Urbano Tavares Rodrigues. Quelque chose noir, originalmente publicado em 1986, aparece agora integralmente traduzido
por José Mário Silva, e com prefácio de Gonçalo M. Tavares, na colecção de poesia
da Tinta-da-China. Talvez não seja descabido recordarmos algumas palavras que
lhe foram dedicadas na Introdução de Etienne Rabaté a Sud-Express: «Quelque
chose noir, de que propomos aqui um excerto, representa o êxito de um raro equilíbrio
entre a composição sábia e a perfeita lisibilidade, entre a discrição e a
violência da emoção, entre o trabalho formal da página, ritmo e disposição
gráfica, e a continuidade do livro onde cada pormenor tem o seu lugar».
A síntese de Rabaté é perfeita, desanuvia-nos a
interpretação e permite-nos fruir o que há nesta poesia de mais intenso. A
estrutura rígida não deve iludir-nos, sobretudo quando sabemos ter o autor estudado
matemática. O aspecto geral da distribuição dos textos, em nove secções
compostas por nove poemas, é devedor das premissas fundadoras de OuLiPo, a
corrente literária a que Roubaud pertenceu ao lado de escritores como Georges
Perec e Raymond Queneau. Defendia-se então a vantagem dos constrangimentos
técnicos enquanto accionadores de uma libertação literária. Mas em boa verdade,
os poemas deste livro encontram-se atravessados por uma fortíssima tensão
existencial que pouco tem que ver com forma. Está antes na origem de toda a
literatura, senão de toda a arte, e de algum modo pode representar-se colocando
lado a lado as figuras do amor e da morte.
Alix Cleo Roubaud, nome próprio transformado em verso, é já
uma substância indefinida que se mistura com toda a obra como a neblina a tomar
conta do espaço. Faleceu aos 31 anos, deixando nas mãos do seu amante um
conjunto vasto de fotografias a partir das quais muitos destes poemas foram
escritos. O sentimento de perda redunda aqui numa experiência afásica de índole
depressiva, estando latente - na forma como as palavras se articulam entre si
no corredor dos versos - o esforço da lógica face ao desespero. O grande
combate travado neste livro é, pois, entre a razão que subjaz à linguagem e a
emoção que de algum modo sustenta a poesia. As imagens convocadas surgem
afectadas pelo negrume, embora invoquem elas mesmas momentos de luz. Assim
sendo, a mais paradoxal das relações aqui estabelecidas exerce-se entre o olhar
da fotógrafa falecida e o que nesse olhar pode ser observado pelo olhar turvo
do amante que a recorda, alucina, nega, desespera.
É também este um percurso catártico, no decurso do qual o
autor tenta compreender-se a si próprio organizando a sua arte: «Insisto em
circunscrever o nada-tu com exactidão, esses dois pólos impossíveis, a andar à
volta disso com estas frases novas a que chamo poemas» (137). Estamos num limbo
interior desafiador da sintaxe e do sentido, provocador de paradoxos e de
absurdos, num limbo onde o princípio da não-contradição perde validade por já
não ser suficiente para delimitar os graus de manifestação de um conceito. A
amada é e não é ao mesmo tempo, vive e não vive, a morte ainda não foi porque
ele ainda é, ainda a sente dentro dele, a morte dela começou no corpo dela, mas
ainda não acabou no corpo dele, portanto é ainda uma não-morte, uma morte inacabada.
Parece um jogo, talvez seja um jogo.
Tendendo tudo para um nada precedido de dúvida, a poesia
surge neste livro como a voz escutada a partir do gravador, o rosto contemplado
a partir da fotografia. Não é o verdadeiro, não é o falso, é qualquer coisa de
intermédio, crepuscular, cinzento, uma sombria luminosidade, a luz de uma
sombra. Não por acaso, alguns dos mais belos poemas deste livro são altamente elípticos.
O silêncio que se intromete entre as palavras captura o leitor para um
labirinto de sentidos não referenciados, justamente sugeridos pela ausência,
pela aproximação a um não-ser vivo, tão vivo quanto as coisas materiais. Uma
aproximação pela meditação:
Meditação da indistinção, da heresia
a Jean Claude Milner
Há três suposições. a primeira, não é demais dar-lhes uma
ordem, é que já não existe. não a nomearei.
Uma segunda suposição é a de que nada poderia ser dito.
Uma outra suposição, por fim, é que nada a partir de
agora lhe é semelhante. esta suposição destitui tudo o que estabelecia uma
ligação.
De algumas destas suposições deduzem-se, sem pertinência,
proposições em cadeia.
De que nada a partir de agora lhe é semelhante
concluiremos que só há dissemelhança e dessa conclusão deduziremos que não há
qualquer relação, que nenhuma relação é definível.
Concluiremos pela improcedência.
Tudo se suspende no ponto em que surge uma dissemelhança.
e a partir daí alguma coisa, mas alguma coisa negro.
Pela simples reiteração, já não existe, os todos
desfazem-se no seu tecido abominável: a realidade.
Alguma coisa negro que se fecha. e se tranca. uma deposição
pura, inacabada.
Jacques Roubaud, in Alguma Coisa Negro, tradução de José
Mário Silva, Edições Tinta-da-china, Fevereiro de 2017.
NOÇÃO DE RIGOR
Para a SIC, rigor é: isto. Não me espanta tanto quanto anda espantado o Ferrão. Ferrou-se. O jornalismo da pós-verdade foi rigorosamente desmontado pelo Truques da Imprensa Portuguesa: aqui.
O "fact check" ao "fact check" que a
SIC fez a João Ferreira
Ontem à noite, Bernardo Ferrão (sub-director da SIC e,
nos tempos livres, líder da oposição), num espaço de comentário em que tinha a
seu lado José Gomes Ferreira, referindo-se ao caso que envolve o Ministro das
Finanças e a administração da Caixa, disse que “PCP e Bloco de Esquerda,
noutras situações tão graves como esta, teriam pedido a cabeça [do ministro] e
estavam na praça pública a exigir demissões e estão neste momento completamente
caladinhos.”
A linguagem era totalmente imprópria para um jornalista,
até para os padrões de um jornalista que toma o lugar de líder da oposição. Mas
o problema não era só a linguagem. Como, uma hora depois, João Ferreira
sublinhou, o PCP não pede demissões de ministros, nem agora, nem antes. Este
critério do partido é inequívoco e do conhecimento de qualquer pessoa que
acompanhe a política portuguesa há alguns anos. A acusação de Bernardo Ferrão
não tinha fundamento e o eurodeputado desafiou a SIC a procurar imagens de
arquivo em que uma demissão de um ministro tivesse sido pedida pelo seu
partido.
Sentindo-se desafiada, a SIC lá fez o seu "fact
check" e saiu com as imagens: “Não se resolve o problema à peça. Não se
resolve o problema substituindo este ou aquele ministro.”, disse Jerónimo de
Sousa. “Para lá de exigirmos a demissão do ministro da Educação nós temos vindo
a exigir a demissão de todo o governo”, disse João Oliveira. “Os Senhores já
encontraram razões para pedir a demissão de dois membros do governo (…) e se
pensarmos melhor encontramos razões para demitir os outros membros de governo
que ainda não foram citados esta tarde”, disse, por fim, António Filipe.
“Já o embatucámos!” - deve ter pensado Bernardo Ferrão,
que terminou a peça a “sambar na cara” do PCP e por pouco não mandou “beijinho
no ombro.” Mas há um problema. É que neste "fact check", tal como os
outros, aparentemente tão isento e tão neutro, reside um truque gravíssimo.
As imagens de João Ferreira apresentadas nesta peça estão
editadas. Às suas declarações foram extraídas partes fundamentais. João Ferreira
referiu-se a “comunicados do PCP” e afirmou que “o PCP nunca fez pedidos de
demissão à peça, sempre identificou o conjunto do governo e procurou que as
responsabilidades fossem assacadas ao conjunto do governo e quanto sinalizou a
importância de pôr fim a uma determinada política fez isso mesmo, nomeadamente
com o governo anterior do PSD e do CDS, em que aquilo que sinalizou era a
necessidade para o país de pôr fim àquela política e isso não se resolvia com
demissões à peça deste ou daquele ministro.”
Ou seja, as declarações de João Ferreira, ontem à noite,
são absolutamente coerentes (não podiam ser mais) com as imagens que o fact
check da SIC recuperou. “O PCP não pede demissões de ministros à peça, pede
demissões de Governos inteiros. O problema do PCP não são este ou aquele
ministro, são as políticas.”
Hoje de manhã, publicámos uma reflexão sobre o perigo que
“fact check” podem representar. Quando mal usados, podem tornar-se verdadeiras
armadilhas contra a opinião pública. Aqui fica - nem de propósito - um exemplo
categórico.
domingo, 5 de fevereiro de 2017
[Levamos os cigarros à boca da medula]
Levamos os cigarros à boca da medula
e é por ela que fumamos o ruído das nossas
vidas de cinza digo agora que também eu
recomecei a fumar.
E é falso dizeres
que esse silêncio que teces é o mesmo
dos teus dezanove anos parece-me a mim
que arranho o meu até à ferida.
Encostas o corpo à matemática do mundo
eu encosto o corpo ao nada que me assiste
e procuramos na noite qualquer coisa
que já nem nos pertence é provável
delapidações pedras mansas
esta forma tão doente de viver.
Ainda que sustemos a escuridão apenas
com cafés e ginger ale's e cigarros
que se apagam de um minuto para o outro
tão barato e mau é o tabaco
e ainda que acabemos por desistir
do último cigarro que nunca fumaremos
esse que nos traria a explicação da noite
da luz das palavras do silêncio do ardor do desejo
com a certeza de que o dia seguinte começará
muito próximo do fim.
António Amaral Tavares (n. 1964), in Movimento de Terras
(2016). Reuniu os primeiros livros e alguns inéditos ulteriores em Movimento de
Terras (Língua Morta). A doença e a morte são obsessões temáticas que percorrem
o volume, num registo que tanto entra em diálogo com obra alheia (pintura,
música, cinema) como parece denotar elementos biográficos dispersos. De um
complexo lexical recorrente sobressaem vocábulos tais como vidro, cão, domingo,
em relações sinonímicas bastante abertas, oferecendo aos poemas uma inegável
consistência imagética ao mesmo tempo que indicam universos íntimos de
difícil interpretação. Raramente linear, a poesia de António Amaral Tavares surge
de um lugar onde a realidade se perspectiva entre sombras. Solidão e medo,
enquanto núcleos emocionais determinantes, surgem assim acompanhados de
substâncias capazes de solidificar a dimensão mental dos conceitos. Já não
importa o sentido das palavras, mas sim a expressão do modo como elas são
sentidas num corpo castigado pela desordem.
#90
Parece que os Black Sabbath estão preparados para o
purgatório, mesmo à beira de comemorarem 50 anos de carreira. O fim merecido
merece aplauso. Nos meus tempos de adolescente problemático passei algumas boas horas
a ouvir Vol. 4 (1972). Ao longo dos tempos, fui-me desfazendo de
muito vinil. Este é dos que guardo religiosamente. A mais pirosa das baladas
está aqui: Changes. Ainda hoje me arrepio a ouvi-la. Estão também riffs de
guitarra inesquecíveis, lirismo distópico, muitas drogas, os fundamentos
daquilo a que deram o nome de heavy metal. Nunca fui adepto do rótulo, mas as
inclinações góticas de Ozzy Osbourne fascinavam-me. Ainda fascinam. Voltei a
ouvir hoje Vol. 4. Não sei porquê, ocorreram-me imensas imagens percorridas por
um fio que podia ser o separador invisível da loucura e da lucidez. Voltei a
ver-me de cabelo comprido, vestido de preto dos pés à cabeça, botas da tropa, um
copo de cerveja ordinária na mão. Sempre a olhar para o chão - nunca o céu me
surgiu apelativo -, onde o futuro tem a distância de um passo. Às vezes,
confesso, ainda esmago palavras com os dentes, cuspo-as e piso-as como se
fossem beatas de cigarros. Se algum dia enlouquecer, por favor não me levem a sério. Sinto apenas saudades de ser um adolescente parvo. Voltasse atrás,
olharia mais par ao céu.
"Cornucopia"
Too much in the truth they say
Keep it 'till another day
Let them have their little game
Illusion helps to keep them sane
Let them have their little toys
Fast sports cars and motor noise
Exciting in their plastic place
Frozen food in a concrete maze
You're gonna go insane
I'm trying to save your brain
I don't know what's happening
My head's all torn inside
People say I'm heavy
They don't know what I hide
Take a life, it's going cheap
Kill someone, no one will weep
Freedom's yours, just pay your dues
We just want your soul to use
You're gonna go insane
I'm trying to save your brain
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
ANTÓNIO PEDRO
O Eremita refere-se a António Pedro aqui. Os surrealistas de Lisboa não gostavam dele, convencidos que andavam de que o surrealismo era guerrilha urbana. Acontece que o Protopoema da Serra S'Arga (1948), partilhado em tempos aqui, garantiu-lhe o lugar de "primeiro português definitivamente surrealista" nas páginas dos senhores historiadores. Não se resumindo a poesia de Pedro a um só poema, podemos perceber a sua relevância indo por aqui. No Youtube apanha-se um documentário que convém rever, mais que não seja para perceber as múltiplas facetas de um autor imerecidamente caído no esquecimento. Sobre Apenas Uma Narrativa, também evocada aqui, basta citar Jorge de Sena: «obra-prima do romance surrealista». Conto regressar a António Pedro ainda este mês, por causa de uma 1.ª edição que adquiri há tempos e me deixou com uma dúvida atravessada na garganta: a quem devemos mais o nosso enterro?
Adenda: a editora Cosmorama publicou em 2016 uma reunião da poesia de António Pedro. Pode ser encomendado através do sítio do editor: aqui.
Adenda: a editora Cosmorama publicou em 2016 uma reunião da poesia de António Pedro. Pode ser encomendado através do sítio do editor: aqui.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
TILT
Inspirado pelo João Lisboa, fui levado a pensar nas
coisas da minha vida que não foram por mim solicitadas. E logo me surgiram
dezenas de axiomas em catadupa. Por exemplo:
- Não pedi para respirar, logo também não tenho a
obrigação de ser asmático;
- Não pedi para andar, logo também não tenho o direito de
permanecer sentado;
- Não pedi para ter fome, logo também não tenho que
comer;
- Não pedi para trabalhar, logo também não tenho o
direito a ficar desempregado;
- Não pedi para ser parvo, logo tenho todo o direito se
ser estúpido;
- Não pedi para ser mamífero, logo também não tenho o
direito a mamar;
- Não pedi para ser sportinguista, logo hei-de sofrer a
vida inteira;
- Não pedi o mundo em que vivo, logo aguenta aguenta;
- Se não pedi para me vir também não devias ter parado;
- Se não pedi para cagar também não tenho o direito de
determinar quando vou comer;
- Se não pedi para ser escravo também não tenho o direito
de determinar quando vou ser senhor;
- Se não pedi para ser livre também não tenho o direito
de determinar quando vou ser escravo;
- Se não pedi para olhai os lírios do campo também não
tenho o direito de determinar batem leve levemente;
- Se não pedi para sofrer também não tenho o direito de
determinar quando vou ter prazer;
- Se não pedi para ter prazer também não tenho o direito
de determinar quando vou ter paz e silêncio.
Em suma, se não pedimos para nascer devem os outros ter o
direito de determinar quando vamos morrer?
Etc.
Desliga a máquina.
Deu tilt.
Bancarrota.
"MISE-EN-SCÈNE DE UMA TEMPESTADE INEXISTENTE"
As minhas particulares circunstâncias fazem com que
assista, durante alguns minutos, à emissão de um noticiário da manhã numa
estação televisiva enquanto tomo o café num estabelecimento. O conteúdo e a
sucessão das notícias orienta-se no sentido da instilação do medo, da
fragilidade, da impotência e, nestes sentimentos induzidos onde a vontade não
deve existir, do lugar protector, porque informativo, do meio de
comunicação. A televisão está aqui, é nossa amiga, dá voz à nossa miséria,
alguém nos virá proteger. Mas a televisão não está naquele lugar com intuitos
profilácticos ou altruístas; a televisão está naquele lugar para fazer
dinheiro, porque a sua presença é injustificada, dado que a repórter alerta
para uma tempestade marítima que não existe, para a violência do vento que não
se verifica. Nada mais para além das condições vulgares do Inverno nesta localização
geográfica do Mundo. Esta dramatização ridícula atinge o ponto culminante
quando a emissão “cai” sem condições meteorológicas tão adversas que o
justifiquem. O bordel “informativo” apoderou-se dos Elementos enquanto arma de
arremesso no prostíbulo geral da domesticação. Concluída esta mise-en-scène de
uma tempestade inexistente, concluída com a interrupção provavelmente forjada
da emissão, transporta-se a ópera-bufa para outro lugar onde também se sente a
adversidade do Inverno. É natural: vigora o Inverno no Hemisfério Norte.
Jorge Muchagato, aqui.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
THE CHEYENNE SOCIAL CLUB (1970)
Gene Kelly (n. 1912 – m. 1996), carismático actor de
Singin’ in the Rain/Serenata à Chuva (1952), também realizou filmes, o último
dos quais um western. The Cheyenne Social Club/Um Clube só para Cavalheiros
(1970) nunca granjeou aplausos, apesar de um elenco com James Stewart e Henry Fonda
nos papéis principais. Cowboys de corpo e alma, afastam-se do gado bovino
quando um deles recebe de herança um negócio na cidade. Sucede que o negócio é
um bordel. Perdão, uma casa de passe. A mais fina e conceituada da região.
Tanto que para alguns deve o edifício ser elevado a monumento nacional.
Em 1970, James Stewart andava pelos 60 anos. Henry Fonda
idem. A energia não podia ser a mesma, mas a escolha para os papéis revelou-se
a coisa mais acertada neste filme. Depois de terem trabalhado juntos em
Firecreek/Hora da Fúria (1967), Stewart e Fonda voltam a encontrar-se num
registo mais ligeiro e vulgar. Seria incorrecto asseverar que estão como
peixe na água, mas podem bem ser dois escorpiões estranhamente misericordiosos às
cavalitas de um sapo.
Estamos na presença de dois burros velhos, pelo que não é
inteligente esperar que tomem andadura. Gerir uma casa de meninas não é negócio
para um velho cowboy, nem em idade de reforma. Mas a decisão de fechar
revela-se igualmente desacertada, dadas as necessidades e privações das jovens
desamparadas que ali haviam encontrado o conforto de um lar. Mais grave: a reacção
da população masculina de Cheyenne, quando confrontada com a possibilidade de
fecho do seu mais estimado monumento, equivale à reacção das populações quando
perdem o mais importante dos serviços públicos da sua terra.
O protesto está instalado, restando a John O’Hanlan e ao
seu fiel companheiro Harley Sullivan o caminho da desgraça. Um violento ataque
sobre Jenny, a líder das meninas, leva o herdeiro do bordel a mudar de postura.
Subitamente elas tornam-se suas protegidas e ele assume sem hesitar o papel de
protector. O plot presta-se a vários embaraços e os diálogos revelam uma
ligeireza que garante sorrisos do princípio ao fim, sendo certo que Gene Kelly
nunca consegue fazer do filme a comédia que porventura almejava.
Numa das sequências finais, um tiroteio previsível parece
evocar ironicamente os acontecimentos de O.K. Corral. Só que o corral foi
substituído por um bordel e dentro dele estão os bons, que por acaso são velhos
cowboys que mal sabem pegar numa arma de fogo. E as meninas, claro. Tudo isto
tem o seu quê de hilariante, mas acaba por ser filmado com escusada ênfase
dramática. Nem carne, nem peixe, salvando-se a situação do completo desastre
por nela estarem dois exemplares intervenientes: Henry Fonda e James Stewart.
Não obstante, algo mais justifica uma passagem de olhos por este western comedy (off-color, li algures). Há uma moral nisto tudo que sugere uma leitura alternativa da fábula do sapo e do escorpião. Não se muda a natureza a um escorpião, pelo que não vale a pena julgar que para o sapo que o carregue às costas outro destino pode haver que não seja a morte. Neste caso, a natureza dos dois cowboys por momentos deslocados do seu destino também se revela imutável. Sucede que o bordel não é uma casa de sapos, mas tem por lá umas princesas capazes de demover os escorpiões das suas intenções mais fatalistas. Como o fazem… só elas sabem.
Não obstante, algo mais justifica uma passagem de olhos por este western comedy (off-color, li algures). Há uma moral nisto tudo que sugere uma leitura alternativa da fábula do sapo e do escorpião. Não se muda a natureza a um escorpião, pelo que não vale a pena julgar que para o sapo que o carregue às costas outro destino pode haver que não seja a morte. Neste caso, a natureza dos dois cowboys por momentos deslocados do seu destino também se revela imutável. Sucede que o bordel não é uma casa de sapos, mas tem por lá umas princesas capazes de demover os escorpiões das suas intenções mais fatalistas. Como o fazem… só elas sabem.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
ESTÓRIAS AÇORIANAS
É na insularidade que melhor observamos como à beleza da
paisagem serve de contraponto uma fauna humana demarcada pela exiguidade do
espaço físico, o qual apela a uma conservação de tradições que oferece ao meio
características algo picarescas. Nas Novas Estórias Açorianas (Companhia das
Ilhas, Novembro de 2016), Carlos Alberto Machado (n. 1954) dá continuidade a uma recolha iniciada com as Estórias Açorianas (idem, Maio de 2012, 7 edições).
O arquipélago serve de laboratório observacional, surgindo a tal fauna humana enquanto objecto
de observação. Intervindo o menos possível, o narrador chega-se à janela para
perscrutar a vizinhança, reproduzindo-lhes boatos e memórias, captando-lhes
tiques, fintando os ditames da literatura para que o texto resulte o mais
humano possível. Todo o método parte do olhar para se concentrar na pessoa humana, quase sempre no contexto da interacção comunitária, mais raramente singularizada.
Emigrantes regressados à terra natal, o grupo da sueca, o
típico sábio do Café Central, veteranos reformados da Capitania, mulheres de má
fama, gente honrada e outra caída em desonra, o velho e o novo misturando-se para
resultarem em algo ainda incerto, anciãos que são projecções humanas de vilas,
de freguesias, cuja história é sobretudo a de quem as habita, o professor
forasteiro, o Director da Biblioteca, mestres de artes perdidas, abandonadas, gente
mexeriqueira, padres, autarcas, jovens arquitectos, sôtôres e respectivos
acólitos, «moças que atravessaram o Atlântico em busca de cama, mesa e roupa
lavada», proporcionam e motivam relatos que são fruto de
um olhar intencionalmente situado à margem dos acontecimentos.
Mas o que
importa a estas “estórias” é precisamente o acontecimento, não é o modelo. O
que interessa ao narrador, mais do que julgar o lugar social das suas
personagens, é oferecer-lhes um nome próprio. Mesmo quando parecem descambar
para uma dimensão onírica, as situações narradas caem à terra através de um
nome humano, uma figura tipo facilmente reconhecível e porventura identificável
num território que, afinal, extravasa as fronteiras do arquipélago, aplicando-se
com justeza a todos os lugares onde aquilo a que chamamos modernidade
ainda não aniquilou por completo velhos vícios e vetustas virtudes da vida em comunidade:
OLHOS DE FAZER MUNDOS
É com os olhos
que primeiro cultiva a terra. Não é coisa de agora, era ele pequeno e já a mãe
o adivinhava, dizia ela para o seu homem: «o nosso filhinho sonha com os olhos
abertos». Neles, sem mãe nem pai saberem, desenhava o menino as suas primeiras
brincadeiras, os seus primeiros sonhos. Mas António não sabia, nunca soube que
era isto que a mãe via nos seus olhos. Talvez ela lho quisesse dizer um dia,
mas partiu antes de chegar a decidir-se. Talvez tenha sido melhor assim.
Olhamos os olhos
de António e vemos regos de água, árvores e animais, uma casa a abraçar uma
árvore forte e frondosa, um cão atento. Cores quentes e um homem de olhos
verdes que é ele a caminhar a passos largos sobre a terra. O homem que é ele e
que se sonha, trabalha a terra com as suas próprias mãos. Mas o que suja,
alarga e fortalece as suas mãos é mais que coisa orgânica, é o próprio mundo
que ele faz nascer.
António e os
seus olhos de fazer-mundos já desenharam mundos de outras maneiras. Em pedaços de
papel sensível, entre claros e escuros, linhas e ângulos e coisas por desvelar,
descobriu ele outro modo de ser e de se ir fazendo homem – cada vez mais longe
da mãe. Ou talvez não.
No tempo em que
o ódio ainda lhe aflorou os olhos e as mãos, como a qualquer homem que neste mundo é feito, lutou contra os
burocratas da educação oficial, contra os moldadores de consciências. Tentou,
como “ensinador”, mostrar aos rapazes e raparigas que a reciprocidade era o
único princípio, e primeiro. Falhou. A ignorância e a mediocridade, em defesa
do bom senso e dos bons valores, cresceram e falaram mais alto. Por uns tempos,
os olhos d’água de António turvaram-se de cinzento.
Agora, com os
cabelos a aclararem e a alma ainda em fogo, António realiza na terra o que os
seus olhos tanto sonharam. Tal e qual. Só, a apontar o céu. Firme. A única
maneira de se ser homem em terra madrasta.
Da sua terra
amada vê o oceano a transformar-se, a abraçar a terra e a engoli-la. Os homens
de olhos turvos não sabem para que serve o olhar.
Carlos Alberto Machado, in Novas Estórias Açorianas,
Companhia das Ilhas, Novembro de 2016, pp. 77-78.
“PAPÁS AGASTADOS”
Presumo que Eduardo Pitta se refira aqui à polémica resumida
por Ricardo António Alves nestes termos. Não fosse o post no Abencerragem, a
polémica ter-me-ia escapado. Assim como me escaparia o conteúdo do livro
aludido, pois não sou leitor do romancista em causa. Sucede que sou pai de duas
filhas. E, se bem entendi, o que está em causa é a possibilidade de se
discutirem em aulas de Língua Portuguesa (ou de Português, se preferirem)
livros com cenas de sexo explícito. Na passagem transcrita pelo Ricardo temos
uma tia que é puta, uma mulher que é porca porque fode com todos, uma mulher
que deixa que lhe ponham a pila no cu. Eu jamais escreveria pila, sempre
preferi o termo caralho, mas aceito que o autor visado tenho gostos mais
apurados que o meu. Porque a questão não é essa, cabe-me perguntar às pessoas
para quem pode ser normal discutirem-se textos com cenas de sexo explícito numa
sala de aula, onde se encontram miúdos de diversas sensibilidades e
proveniências distintas, com uma base cultural e contextos familiares diversos,
se achariam aceitável um professor usar filmes com cenas de sexo explícito para
ilustrar matérias programáticas? A questão colocou-se nos anos 90, se bem me
lembro, por causa de Kids (1995), de Larry Clark. Que nem tinha cenas de sexo
explícito, assim mesmo explícito, explícito como uma tia porca a levar no cu
apesar de ter uma racha para foder. Independentemente da resposta, tenho igual
curiosidade em perceber o que é que para certas pessoas pode ser hoje
considerado desajustado a uma sala de aula. Ou será que nenhum conteúdo é desapropriado?
São meras interrogações. Por mim, no limite, até podiam andar a interpretar o
Cona d’aço. Só não vislumbro o interesse literário da coisa, mas posso estar
equivocado.
EUTANÁSIA
Terei assistido a cinco minutos de debate. Depois desliguei
a televisão. Mais do que qualquer questão filosófica, ética, deontológica,
jurídica, não consigo entender o problema estético. É regra: os tipos que mais
vivem obcecados com aquilo a que chamam direito à vida são todos feios. Gente tão
feia, tão feia, tão feia, que me custa acreditar terem pela vida tamanha
reverência.
NÃO SEI O QUE SE PASSOU
Mas este post é muito bom. Excerto:
Conheço imensos reaças asneirentos, como progressistas de
vocabulário ultrapuritano; ou gente como eu, que diz palavrões com gosto,
mas não o faz diante dos filhos ou dos pais. "Hipocrisia", estou já a
ouvir alguns. Não; decoro com os mais novos; respeito pelos mais
velhos.
[BATER A PEDRA, BATER]
BATER A PEDRA, BATER
o chão. Perpendicular
a perna do homem, fio-de-prumo,
constituindo medida e
sustento do gesto. O homem calça-terra
agora está de joelhos.
A gota do rosto
deslizando como
mínimo mar quase em queda.
Sua boca toca a lata precisa de cócacóla.
E os passantes desajeitados
acertam batentes tacões sobre o tosco fóssil desenhado.
Elisabete Marques (n. 1982), in Cisco (2014). «Não deverá ser indiferente para a compreensão das
propostas de Elisabete Marques saber que a autora se doutorou com uma tese
sobre Maurice Blanchot e Samuel Beckett. Nesse particular, seria especialmente
proveitoso considerar a poesia do irlandês, no que esta tem de esfacelamento
impiedoso da palavra, biselada até ao limite do concebível. (…) Esta poesia,
entrecortada por uma utilização da pontuação adversa à norma, é percutida por
ritmos de compasso apertado, e revolteada pelo sopro da ambiguidade. O rasto
desse modo de dizer, pensadamente dúbio, pode advir da sobreposição de unidades
frásicas, que conduzem a distintas possibilidades de significado; como é
possível que resulte de opções lexicais menos vulgares, quando não abertamente
disruptivas da estandardização verbal (…)» (Hugo Pinto Santos, Público, 27 de
Março de 2015).
WELCOME TO THE UNITED STATES
Sempre que regresso a Frank Zappa constato que devia ouvi-lo
mais vezes. Motivado pela história do “golden shower” em plena Casa Branca,
regressei há dias a um genial e interminável percurso iniciado em 1966 com
Freak Ou!. Bendita chuva dourada. Zappa é um daqueles casos onde a extravagância anda de mãos dadas
com a genialidade. Em Hot Rats (1969), primeiro trabalho sem a companhia dos
The Mothers of Invention, oferece-nos uma obra-prima de jazz-rock; em Joe’s
Garage (1979) envereda pelo musical; com The Yellow Shark (1993) desenhou arranjos eruditos para velhos temas, não se distanciando nunca de um registo
satírico, corrosivo, altamente irónico. Tão pertinente, tão actual, este momento
conduzido pelo nosso conhecido Peter Rundel.
domingo, 29 de janeiro de 2017
NOTÍCIAS COM 100 ANOS
Eram outros os protagonistas, era outro o mundo, mas o ambiente parece reproduzir o que fomos lendo nos livros. Esperemos que a história não se repita.
sábado, 28 de janeiro de 2017
MATRIMÓNIO
Aquele momento em que lança os olhos pela paisagem, fundo
de prédios em construção, e diz: 20 anos. Tudo se transforma, excepto um drama
como o nosso. Sim, há sempre lugar no tempo para algo que não muda.
Normalmente, dramas como o nosso. Repetem-se porque são humanos, porque neles fervilha a mais perene das condições. Enquanto houver quem se ame, enquanto houver paixão, dramas como o nosso serão o elemento inalterável de uma paisagem em constante transformação. Paradoxo dos paradoxos: ser o drama uma comédia!
JOHN HURT (1940-2017)
Nomeado para os "óscares" por ter dado corpo a John Merrick, O
Homem Elefante (1980) de David Lynch, foi o rosto principal em 1984 (1984), de
Michael Radford. Entrou num western de Walter Hill, ao lado de um Jeff Bridges no
papel de Wild Bill [Hickok] (1995). E ofereceu a voz a Dogville (2003), de Lars
von Trier. Se bem me recordo, a última vez que o vi foi no filme A Toupeira (belíssima
adaptação, assinada por Tomas Alfredson, do célebre romance de John le Carré). Na
minha memória, ficará para sempre como o rosto inquietante de 1984.
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Cinematógrafo,
Os mestres e as criaturas novas
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